quinta-feira, 19 de julho de 2012

Melgaço, 1665 - Relatos de estranhos avistamentos no céu

Rio Minho à passagem por Melgaço
(Foto sublime de 
Christophe Afonso Photography)


Dois cometas avistados no século XVII, segundo Hevelius

No ano de 1665, a Europa descobriu o cometa de Hevelius. À época, as "estrelas com cabeleira" eram olhadas pelo comum dos com a sobrecarga de medo de quem os via como bolas de fogo arremessadas por Deus para castigo dos homens ou, no mínimo, como sinais do Céu para aviso da humanidade. Este cometa não deixou de se fazer acompanhar por um cortejo de prodígios, cujas notícias iam circulando por toda a Europa. De alguns desses fenómenos, um dos quais ocorrido em Guimarães, teve conhecimento o Padre António Vieira, como percebemos por uma carta que enviou ao Duque do Cadaval em 26 de Maio de 1665:

"Saem por esta banda novos prodígios. Em Guimarães vomitou um doente um Dragão de quase um côvado* de comprido com duas asas, e grossura até ao meio de dois dedos, e cor vermelha escura; dali para a cauda menos grosso, e de cor parda. Disse-me Sanfins que o vira pintado, e com certidão de Médico jurada ao pé. Outra carta vi de pessoa digna de fé, escrita de Melgaço, em que diz aparecem naquelas partes muitos sinais horrendos de dia e de noite, que não especifica; só refere que no dia 16 de Abril ao sair do Sol aparecera um grande raio de cor verde e amarela, o qual se rematava em duas nuvens pequenas, uma muito branca, e outra muito vermelha: e correndo por grande espaço para a parte interior de Galiza, ultimamente se desfizera sobre ela em raios e coriscos de fogo. Aqui em Coimbra se viu também por algumas vezes um globo de fogo para a parte do Sueste, que nascia à meia-noite, e se ia levantando devagar, e durava por espaço de duas ou três horas; mas, se o que se escreve de Roma é verdade, eu o tenho por maior prodígio de todos. A carta que se refere é de um Português que está naquela Cúria, chamado Fernão Lopes de Sousa; e diz que nela houve por três dias uma névoa tão espessa e tão escura, que se não viam os homens nem os edifícios, e que as trevas eram palpáveis como as do Egipto. Outra carta diz, que o Cometa se teme lá muito, e que demonstra muito maior cauda, e que a Rainha de Suécia com dois grandes Matemáticos que tem, o observa sempre, mas não se fala no juízo. Deus se lembre da Sua Igreja e do nosso reino que também é seu, e a V. Exc. guarde muitos anos, como desejo e havemos mister. Coimbra 4 de Maio de 1665."

[Cartas do P. António Vieira da Companhia de Jesus, tomo segundo. Oferecido ao eminentíssimo senhor. Nuno da cunha e Ataíde. Lisboa ocidental, Oficina da Congregação do Oratório, 1735]

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