domingo, 15 de julho de 2012

O início conflituoso da exploração termal no Peso (finais século XIX/início séc. XX)

Em 13 de Outubro de 1884, por escritura pública exarada nas notas do tabelião Ferreira, da vila de Melgaço, foi constituída uma sociedade para pesquisa e exploração das águas tendo como sócios Bento Maria Barbosa, Félix Tomás de Barros de Araújo, António Augusto de Sousa e Castro, Victorino Augusto dos Santos Lima, Abílio Augusto de Sousa, José Francisco de Almeida Fragoso, Aurélia Saavedra e Silva, dr. António Joaquim Durães, Manuel Bento da Rocha Júnior e dr. António Pereira de Sousa (Jornal de Melgaço, Setembro 1917).

Nascente principal das termas do Peso
(anterior à construção do edifício citado em post anterior)

Com a morte de António Augusto de Sousa e Castro, seu pai e herdeiro, António Cândido de Sousa e Castro Moraes Sarmento, proprietário do terreno das Caldas, requereu ao Ministério das Obras Públicas, patente de invenção, por espaço de quinze anos, da aplicação terapêutica das águas das freguesias de Prado e Paderne, concessão que obteve em Julho de 1889 (idem, ibidem). Os outros sócios sentiram-se prejudicados e em 17 de Agosto de 1891 intentaram no Juízo de Melgaço uma acção de anulação do privilégio resolvida por uma transacção que transitou em julgado por sentença de Julho de 1893 (idem, ibidem).
Pouco tempo depois, em 1 de Maio de 1894, constituiu-se, por escritura pública lavrada no Tabelião Silva, de Monção (idem, ibidem), a ‘Empresa Santos, Sobral& C.ª’ com um “capital de 20 contos representado no Campo das Caldas. Os quinhões eram repartidos entre sete sócios” (Lopes, 1949: 65). A esta empresa foi “transmitida a concessão legal pelo primitivo concessionário António Cândido de Sousa e Castro Morais Sarmento” (Jornal de Melgaço, Setembro 1917).
Em 1895 já existia um hotel construído por António Guerreiro Ranhada, regressado do Brasil e que encontrou no Peso a cura para o mal do fígado que o debilitava(1). A construção do hotel não foi fácil “porque a gente do lugar não queria admitir estranhos” (Lopes, 1949: 66-67). O terreno, onde se situava uma pedreira (depoimento de D. Judite Ranhada), foi-lhe vendido “caro, por 40$00 reis. Os recursos de Guerreiro Ranhada parece que não eram grandes e consta que foi o industrial portuense José Bento Pereira que o auxiliou e animou na empreza. A lotação dos dois pavilhões construídos era, segundo Mons. Silvano, de 80 hóspedes” (idem, ibidem: 67). Havia ainda um Parque, desenhado pelo filho José Ranhada e onde se aplicou o granito retirado da pedreira (depoimento de D. Judite Ranhada).
As águas do Peso começaram, então, a conhecer um período de grande procura e a proporcionar grande animação na localidade “quando a sociedade dos aquistas convivia com a sociedade distinta dos arredores. Foi uma prova dessa animação a festa que teve lugar no dia 26 de Julho de 1895 presidida pelo Visconde de Fragosela, festa oferecida pela colónia aquista do Peso às pessoas distintas dos «povos das cercanias» com Zé Pereira, jantar, foguetes, jogos, ornamentação, música...” (idem, ibidem: 71).
Ainda não eram os bailes dentro dos hotéis que animavam as tardes e noites do Peso. Os aquistas seguiam os conselhos de Ramalho Ortigão: “Não será dançando os lanceiros ao som de um piano ou da filarmónica da terra, no meio de tão mau ar, tão viciado e miasmático como o do teatro de S. Carlos em Lisboa ou do Baquet no Porto, que vós ajudareis a vossa cura e a vossa alegria. As festas que vos convêm são as festas ao ar livre, em pleno dia, sobre a relva, debaixo de árvores, à grande luz” (Ortigão: 25).
Entre 1897 e 1898 inscreveram-se nas Termas 731 aquistas. “Eram diabéticos, hepáticos, gastrálgicos, nefríticos, etc., de perto e de longe, não faltando também de Lisboa. Os provenientes da Galiza faziam o transbordo na estação de Guilharei para o comboio da linha de Orense e apeavam-se em Arbo, em frente do Peso. Atravessando o rio - o morgado de Reguengos pusera uma barca para passar de graça, evitando as disputas dos barqueiros portugueses e espanhóis - com mais meio quilómetro a pé, estavam na estância. O pior era esse meio quilómetro, a subir. Outros preferiam a diligência, que da estação do caminho de ferro de Valença os conduzia em 5 horas por 450 rs., ou em trens por 5$000 rs. faziam o mesmo percurso em menos de uma hora ou hora e meia” (Lopes, 1949: 71).
Em 3 de Junho de 1898, a concessão atribuída a Santos, Sobral & C.ª foi“ratificada por alvará do Ministério das Obras Públicas ficando a empresa investida na posse de todos os direitos de exploração vitalícia das nascentes”(Jornal de Melgaço, Setembro 1917).
Um diploma, publicado no Diário do Governo de 24 de Setembro de 1898, havia fixado os preços dos serviços termais: “Por 1$500 rs. o aquista tinha direito ao uso das águas na copa, a levar 330gs. para cada refeição ao preço de 20 rs., a duas consultas, uma no início e outra no final do tratamento para conhecer o regime a seguir, e uma análise de urinas. Fora disto, consulta no gabinete a 500 rs., e a 1$000 rs. No hotel e análises a 1$500 rs” (Lopes, 1949: 73).
Estes preços contribuíram, de certo, para a cada vez maior afluência de aquistas justificando a construção em 1901 do ‘Novo Hotel Quinta do Peso’. Um dos seus primeiros hóspedes foi o conselheiro Manuel Francisco Vargas, ministro das Obras Públicas, que era acompanhado de sua esposa (Vaz, 1996: 214).
O maior afluxo de pessoas às Termas do Peso e consequente maior consumo de água mineral obrigou a Empresa Santos, Sobral & C.ª a executar o projecto de pesquisa de novas captações aprovado na reunião de 14 de Setembro de 1899. Surgiu então um conflito com a Viscondessa do Peso, proprietária dos terrenos adjacentes e onde a empresa pretendia efectuar os trabalhos de pesquisa. Havendo recusado a proposta de entrar como sócia da empresa resolveu também efectuar uma exploração de nascente de água mineral que brotava no seu prédio rústico tendo requerido em 5 de Março de 1904 a respectiva licença. A empresa reclamou com o fundamento de serem “más as condições das águas de Melgaço; o caudal da nascente é pequeno, 1 litro por 24”,8 e tem sofrido variações grandes, chegando quási a desaparecer em consequência de trabalhos executados nas proximidades” (Lopes, 1949: 74-76).
Pela Portaria de 11 de Novembro de 1904 entrega-se à Empresa Santos, Sobral & C.ª um “perímetro reservado de 15 hectares para a exploração das águas, só então tornando possível o início da sua expansão, com todos os investimentos a ela associados” (Câmara Municipal de Melgaço). Captações definitivas foram então efectuadas e concluídas em Agosto de 1906, com resultados que ultrapassaram as melhores expectativas - “o caudal disponível sofreu um enorme aumento, tendo passado de 2.482 litros/dia (verificados em 1904) par um débito de mais de 8.000 litros/dia (medições de 1907), mais do triplo!” (idem, ibidem).
Foram realizadas outras análises químicas e bacteriológicas, efectuadas pelo Prof. Charles Lepierre e Dr. António Cruz Magalhães. “As águas repartiam-se por três nascentes muito próximas, mas de diferente composição. As duas, descobertas em época posterior à Principal, vieram, em gradual diminuição a extinguir-se. A Principal, a mais rica das bicarbonatadas cálcicas portuguesas” (Lopes, 1949: 77) revelava elevado teor em magnésio e ferro, sendo também ‘arsenical’ e‘litinada’ (idem, ibidem).
Com estes resultados das análises, a empresa decidiu realizar a construção de um pavilhão para a Nascente Principal substituindo a ‘buvette’ existente. As obras do novo edifício, concebido pelo Eng.º Couto dos Santos, iniciaram-se em 1909 tendo importado em 43 contos, o equivalente a cerca de 600.000 euros considerando a reavaliação decorrente da inflação (Câmara Municipal de Melgaço).
A actividade termal passou a justificar investimentos como o de José Figueiroa Granja, de Vigo, que adquiriu em 19 de Fevereiro de 1912 a José Joaquim Esteves o ‘Novo Hotel da Quinta do Peso’ e para a sua exploração constituiu-se a sociedade ‘Figueiroa & Ribas’ na qual participava um outro galego Don Francisco Ribas (Vaz, 1996: 221). Em Maio daquele ano, Iniciou-se o transporte de passageiros entre Melgaço-Valença e vice-versa por ‘auto-ónibus’, de Cícero Cândido Solheiro, utilizando uma ‘Berliet’ de 22HP com lotação para 20 de passageiros e capacidade para 600 quilos de bagagens(2) (idem, ibidem). Em 23 de Agosto de 1913, é inaugurado no Peso o animatógrafo «Salão de Melgaço»também explorado por Cícero Cândido Solheiro. Cada entrada custava 50 centavos e dava direito ao transporte de ida e volta da Vila na carreira (a «Auto Melgaço») que aquele empreendedor havia inaugurado no ano anterior (idem, ibidem: 222).
O crescimento da actividade termal estava a causar alguns problemas por falta de um normativo regulador da prestação dos serviços aos aquistas. No ‘Jornal de Melgaço’ de 10 de Março de 1917, a empresa publica o ‘Regulamento do estabelecimento hidrológico das Águas Minerais de Melgaço’. Estipulava que o pessoal técnico ficaria subordinado a um Director Clínico e será “composto de um médico legalmente habilitado para o exercício clínico em Portugal e do pessoal para fazer os engarrafamentos e fornecer junto às nascentes a água para bebida”(Jornal de Melgaço, 10 de Março 1917). Não era permitido ao aquista fazer uso das águas sem prévia consulta do director clínico. Exceptuavam-se desta disposição as pessoas que apresentassem prescrição escrita do seu médico assistente, a qual seria homologada pelo director clínico (idem, ibidem). Também só era permitida a entrada no pavilhão da nascente mediante a apresentação do cartão de admissão. Aos doentes afectados de ‘doenças contagiosas’ (na altura a sífilis e a tuberculose eram as principais) ou‘asquerosas’ (?) era imposta a “condição de isolamento em lugar apropriado devendo todos os seus objectos serem apartados e desinfectados tantas as vezes quantas forem necessárias” (idem, ibidem).
Contudo, existiam carências nas Termas e na sua envolvente. No ‘Jornal de Melgaço’de 21 de Julho de 1917, um artigo de Gregório Fernandes chamava a atenção para o estado da estrada de acesso à estância “empoeirada, sem arborização, na qual invoca um atalho íngreme, pedregoso, interrompido quase no final por uma tosca ponte de pinho que atravessa um riacho” (Jornal de Melgaço, 21 de Julho de 1917). A seguir referia-se ao edifício da ‘buvette’ como um “pesado pavilhão ainda por concluir” (idem, ibidem) e afirmando que “à sua volta não se podia passar pois o espaço é acanhadíssimo e a higiene pouco recomendável” (idem, ibidem). Citava ainda a falta de um balneário “indispensável a completar o tratamento por ingestão e absolutamente reclamado e preconizado pela sciência”(idem, ibidem).
Como respondendo a este libelo acusatório, em Agosto de 1917, a gerência das Termas apresentou na Repartição de Minas um plano de melhoramentos. Da autoria do Eng. Couto dos Santos, o projecto incluía a ampliação do Hotel da Quinta do Peso passando a dispor de capacidade de alojamento até 350 hóspedes; a construção de um casino, um ginásio e um lago com função hidrostática servido de barracas de natação.
Paralelamente desencadeia-se, segundo o ‘Jornal de Melgaço’ de 8 de Setembro de 1917, uma‘campanha de descrédito’ pela falta de higiene na ‘buvette’ com a entrada no Ministério do Interior de uma queixa da Delegação de Saúde de Viana do Castelo no qual se afirmava que “o engarrafamento das águas se fazia sem prévia esterilização das garrafas e que não era perfeita a lavagem” (Jornal de Melgaço, 8 de Setembro de 1917). Para o articulista, tais informações eram‘inexactas’, pois não só as estufas estavam a funcionar à vista do público, como se empregavam os ‘melhores processos’ sendo a água utilizada “potável e quimicamente puríssima, conforme a análise n.º 897 do Laboratório de Análises do Posto Médico Central do Porto” (idem, ibidem).

Informações recolhidas em:
- http://acer-pt.org/vmdacer/index.php?option=com_content&task=view&id=602&Itemid=65

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