sexta-feira, 10 de maio de 2013

1948 - Um qualquer dia no Hotel Ranhada nos seus anos de ouro (parte I)



Estamos em Agosto, o ano será 1948, pouco mais ou menos. São seis da manhã. A esta hora, a senhora Condessa de Saborosa já está levantada e vestida. Desde que enviuvou apronta-se sempre de preto carregado. Dá os últimos retoques ao cabelo no seu quarto, é dos melhores que se alugam aos hóspedes de mais posses. Tem mesmo quarto de banho privativo, é dos poucos que existem assim no hotel. Os outros são bons, estão bem mobilados e decorados, mas ficam-se pelo lavatório e pelo bidé de porcelana. A senhora condessa vai descer daqui a nada à sala de jantar para um pequeno-almoço sóbrio, para não desfalecer pelo resto da manhã. Anda a águas nas termas, e a dieta pede mais respeito pelas manteigas e pelos açúcares. Por todo o grande Hotel Ranhada, o dia desperta aos poucos com o tufa-tufa dos passos delicados de outras hóspedes madrugadoras. São senhoras distintas, do melhor que haverá na nossa aristocracia. Mas a mais exemplar no madrugar é, sem dúvida, a senhora Condessa de Saborosa. Há muitos anos que lhe conhecem este hábito aqui pelo hotel, onde é tratada como se fosse da família. Mesmo agora, que ultrapassa os sessenta anos, teima em se levantar cedinho, da mesma maneira que o fazia aos vinte. A menina Julinha, filha do senhor Mário Ranhada, o dono do hotel, ainda dorme a sono solto, indiferente a este suave bulício. Só o pai já está levantado para a azáfama matinal, orientando os criados, que a canseira da manhã ainda está para vir, pois haverá que cuidar do almoço para duzentos hóspedes (A pequerrucha haveria de chegar a avó sem nunca ter sabido o nome desta condessa. “Só a tratava por senhora condessa”, desculpa-se, hoje, a senhora D. Maria Júlia Ranhada).
(Continua)

Fonte: "Termas de Melgaço: os dias saborosos de uma glória submersa", texto de Pedro Leitão, in: SIM, Revista do Minho, editado em 6 de Maio de 2013.
Artigo gentilmente enviado por pela Sra. Teresa Lobato a quem agradeço a partilha!

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