quarta-feira, 10 de julho de 2013

A Capela de S. Julião

Capela de S. Julião (Melgaço)


São ainda algo desconhecidas as origens desta pequena capela, bem como da devoção regional que lhe está subjacente. As primeiras referências ao edifício datam da primeira metade do século XIII e indicam que, neste local, ou anexo a ele, existia uma gafaria, que funcionava como local de acolhimento no caminho entre a vila de Melgaço e a ermida de Nossa Senhora da Orada.
A capela que ainda hoje aqui subsiste pode bem ser o único testemunho dessa primitiva instituição. O facto de ser um edifício estilisticamente incaracterístico, situável no tempo gótico, mas destituído de elementos cronológicos identificadores, permite sugerir a hipótese de remontar à primeira metade do século XIII, perspectiva que, contudo, terá de aguardar melhores dados de caracterização, antes de ser assumida sem reserva. Mas são mais os elementos que nos permitem avançar com esta proposta. Se o portal principal é em arco quebrado, coexistem, aqui, muitas características ainda assumidamente românicas, como a quase inexistência de iluminação (efectuada apenas por apertadas frestas) e a organização do telhado sobre cornijas decoradas com modilhões, estes dispostos assimetricamente no alçado e já sem qualquer decoração.
De estrutura muito simples, e dominado pela horizontalidade, a capela compõe-se de um compartimento único rectangular coberto por tecto de madeira e pavimento de terra batida, estando a mesa de altar integrada no mesmo espaço que a suposta nave, verificando-se, desta forma, uma uniformização interior que reforça a modéstia do plano.
A fachada principal foi o elemento que mereceu maior cuidado aos construtores, organizando-se com maiores dimensões, tanto em largura como em altura. O portal principal, de volta quebrada e arco único, possui aduelas levemente chanfradas, mas qualquer sugestão de monumentalidade foi afastada, pela inexistência de capitéis, bases ou degraus de enquadramento. Num plano superior, e em posição axial em relação ao portal, existe um pequeno nicho, hoje algo adulterado, destinado a albergar uma imagem devocional, entretanto presumivelmente desaparecida. A terminação da fachada é em empena triangular, elevando-se bem acima do tecto da capela, solução que evidencia aquela ténue aparência monumental, que poderia ainda ser reforçada pela existência de um campanário, como equaciona Lourenço Alves (ALVES, 1984).
Se a pequena capela de São Julião é o templo da gafaria ou leprosaria medieval das imediações de Melgaço, então ela seria uma instituição muito pobre, praticamente sem recursos para efectivar a sua acção de solidariedade. Desconhecemos qual a evolução da irmandade pela Baixa Idade Média mas, no século XVI, à semelhança do que aconteceu com a maioria das instituições privadas de solidariedade, ela passou para a administração da Misericórdia de Melgaço. Um século depois, um documento refere que a capela estava muito arruinada e teve de ser reparada. De facto, a Idade Moderna não procedeu a grandes modificações no templo, limitando-se a consolidar a anterior estrutura e a actualizar minimamente o principal elemento de devoção: o seu altar. É desta forma que podemos compreender o tecto de ripas de madeira policromada, que ainda hoje cobre o interior, e o retábulo, já presumivelmente setecentista, executado em madeira e cuja montagem ocultou a fresta nascente da capela, uma peça de mobiliário litúrgico que, em 1984, estava já completamente podre.
Parcialmente intervencionada na década de 90 do século XX, numa campanha restauradora custeada pelo então proprietário, e cujos trabalhos se limitaram ao desmonte do retábulo e à desobstrução de arvoredo do edifício, a modesta capela de São Julião permanece como um testemunho da organização medieval desta região, simultaneamente da gafaria, dos caminhos medievais do Alto Minho e dos rumos da arte nos tempos de transição estilística entre o Românico e o Gótico.

Informações recolhidas em:
- ALVES, Lourenço (1984) - Do Gótico ao Manuelino no Alto Minho II - Edifícios religiosos, Caminiana, nº10, Caminha
- ALMEIDA, Carlos Alberto Ferreira de (1987) - Alto Minho, Lisboa.
- ESTEVES, Augusto César (1950) Melgaço e as invasões francesas. Melgaço.
- PINTOR, Manuel Bernardo (1975) - "Melgaço medieval". Melgaço
- PINTO. Luís de Magalhães Fernandes (2002) - As siglas da capela de S. Julião ou um meio para a datar. Boletim Cultural de Melgaço, nº1, Melgaço.

- http://www.patrimoniocultural.pt.

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