quarta-feira, 3 de julho de 2013

A Igreja de Nossa Senhora da Visitação em Castro Laboreiro: características arquitetónicas



A Igreja Matriz de Castro Laboreiro, da invocação de Nossa Senhora da Visitação, é um pequeno templo de fundação ainda pré-românica, embora com grandes alterações posteriores. No edifício são visíveis várias fases de obras distintas, nomeadamente a da sua edificação primitiva, que alguns autores colocam no século IX, e da qual pouco resta. É possível identificar uma campanha gótica, e outra datada da segunda metade do século XVIII, da qual resultou a feição actual do monumento. 
Igreja de construção medieval, reformada possivelmente no século XVI, período de que deve datar a divisão da nave em tramos, marcados, exteriormente, por contrafortes e, interiormente, por arcos diafragma, denotando influência galega e como é comum surgir em zonas de fronteira portuguesas. Sofreu ainda reformas no século XVII, época de que deverão datar as pilastras dos cunhais coroados por pináculos, o remate das fachadas em friso e cornija e o púlpito, e no século XVIII, altura em que se construiu a sacristia, se abriram janelas na nave e capela-mor, e se fez o portal lateral sul, de moldura recortada. Este, é uma cópia tosca do portal norte da Igreja Paroquial de Santa Maria la Real de Entrimo, em território galego mas muito próxima de Castro Laboreiro, que poderá ter inspirado mais profundamente a reforma moderna da igreja de Castro Laboreiro. Destaca-se ainda a pia baptismal quinhentista, decorada com alto friso de flores-de-lis interligadas e, inferiormente, gomada. O retábulo-mor é neoclássico, mas apresenta alguns elementos de transição barrocos, nomeadamente na estrutura do trono e nas colunas definidores do eixo, com terço inferior estriado e o restante liso.
Esta igreja possui uma planta longitudinal composta por nave única e capela-mor rectangular, mais estreita, tendo adossado à fachada lateral norte, torre sineira quadrada, flanqueando a frontaria, e corpo que se prolonga ao longo da nave e capela-mor. Volume homogéneo na igreja, com cobertura indiferenciada em telhado de duas águas, e de uma, mais baixa, no corpo adossado e no prolongamento da primeira. Fachadas em cantaria aparente, de aparelho regular, tendo várias cruzes de via sacra relevadas, com cunhais apilastrados, coroados por pináculos piramidais com bola, e os ângulos das empenas rematados por cruzes latinas de cantaria, a da fachada principal com chanfro, sobre acrotério. Fachada principal orientada, terminada em empena, com friso e cornija, e rasgada por portal de verga recta, de falsas aduelas dispostas em cunha, sobrepostas na chave por ornato polilobado inscrito num círculo, ladeado por pilastras toscanas, pouco relevadas. Encima o portal em cornija recta, pequeno óculo quadrilobado e um nicho, em arco de volta perfeita, sobre pilastras, assentes em mísula de perfil contracurvado e formando pingente, interiormente concheado e desnudo e, superiormente, rematado por pinha. Junto à pilastra esquerda existe gárgula de canhão. Sensivelmente recuada à frontaria, surge a torre sineira, com duas ordens de pilastras toscanas sobrepostas nos cunhais, coroados por pináculos piramidais com bola, e com dois registos, marcados por friso e cornija, rasgando-se no primeiro, virada a oeste, porta de verga recta, moldurada, e, no segundo, em cada uma das faces, sineira em arco de volta perfeita, envolvida por moldura, albergando sino. Esta termina em friso e cornija, encimada a oeste por falso frontão sem retorno para conter o relógio, circular. Cobertura em coruchéu facetado, encimado por cata-vento de ferro. Fachadas laterais terminadas em friso e cornija, sobreposta por beirada simples, as da nave reforçadas por cinco contrafortes, quadrangulares e superiormente inclinados, os da fachada norte encobertos pelo anexo adossado, no qual se rasgam duas pequenas janelas rectangulares de capialço. Fachada lateral sul rasgada, junto ao friso, por duas janelas rectangulares de capilaço no primeiro, quinto e sexto panos da nave e por outras duas janelas, mais pequenas, na capela-mor, no meio das quais surge cartela ovalada inscrita com a data de 1775 encimada por cruz relevada. Todas as janelas são gradeadas. No terceiro plano abre-se portal de verga recta, com moldura recortada nos ângulos superiores, tendo a chave sobreposta por ornato concheado. Junto à pilastra do cunhal sudoeste da igreja surge relógio de sol circular, virado ao meio-dia, encimado por concheado. Fachada posterior com capela-mor cega terminada em empena, abrindo-se na sacristia janela. Interior com nave de paredes em cantaria aparente, de seis tramos marcados por cinco arcos diafragmas de volta perfeita, assentes em pilares circulares, com pavimento de madeira assinalando antigas sepulturas com as guias de granito, na zona central, e em lajes de granito, no restante, e tecto de madeira, de duas águas entre os arcos diafragmas. Coro-alto de madeira sobre dois pilares de cantaria, com guarda em balaústres de madeira e acesso por escada disposta no lado da Epístola. No sub-coro, entre os pilares, tem guarda-vento de madeira envidraçada, no lado da Epístola ampla pia de água benta gomada, encimada por nicho em arco de volta perfeita, interiormente concheada, e, no Evangelho, pia baptismal cilíndrica, com decoração em flores-de-lis estilizadas e relevadas, inferiormente formando gomos, sobre pé cilíndrico. Lateralmente, sensivelmente a meio da nave, surge, do lado do Evangelho, púlpito de bacia rectangular, sobre mísula, com guarda plena de madeira e acesso por porta de verga recta moldurada, e, no lado da Epístola, a porta travessa, com arco abatido encimado por arco de descarga, ladeada por duas pias de água benta gomadas encimadas por nicho em arco de volta perfeita. No lado do Evangelho, tem, no último tramo, porta de verga recta para o anexo, onde existem sanitários, com pavimento cerâmico, e, no lado oposto, no quinto tramo, capela em arco de volta perfeita sobre pilastras toscanas. Arco triunfal de volta perfeita, almofadado no intradorso, sobre pilastras toscanas, ladeadas por mísulas com imaginária e cerrado por teia de madeira. Capela-mor com paredes rebocadas e pintadas de branco, tendo no lado do Evangelho porta de acesso à sacristia e, no lado oposto, entre as janelas, pequeno nicho de alfaias. Retábulo-mor em talha policroma a branco, beje, azul e dourado, de planta recta e três eixos, definidos por duas pilastras caneladas exteriores e duas colunas de terço inferior canelado e de capitéis coríntios, assentes em dupla ordem de plintos paralelepipédicos, frontalmente ornados de motivos fitomórficos. Ao centro, abre-se tribuna de perfil curvo, com moldura fitomórfica dourada, de fecho saliente, albergando trono expositivo, de cinco degraus rectangulares, com chanfro canelado nos ângulos, ornados de elementos vegetalistas, ladeados por jarras com flores, e tendo o fundo pintado com glória de querubins e a inscrição IHS. Nos eixos laterais surgem apainelados, definidos por molduras de perfil abatido com acantos relevados no fecho e inferiormente, enquadrando mísulas com imaginária. Sobre o entablamento, com friso contendo florões, desenvolve-se o ático, adaptado ao perfil da cobertura, tendo ao centro espaldar com frisos e cartela de onde pendem festões, terminada em cornija rematada por acantos relevados. O espaldar é ladeado por urnas sobre as colunas e apainelados com motivos fitomórficos enrolados. O sotobanco tem portas de acesso à tribuna, de perfil curvo, molduradas e com motivos vegetalistas dourados, encadeados na vertical. Altar paralelepipédico sobre o qual existe sacrário tipo templete, com colunas nos ângulos e cúpula. Pavimento de granito e tecto em madeira, de perfil curvo. A sacristia é de pequenas dimensões e iluminada por um vão, tendo lavabo de espaldar rectangular.


Extraído de: www.monumentos.pt ( Textos de Paulo Amaral e Alexandra Cerveira 1999 / Paula Noé 2008)

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