sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Augusto César Esteves homenageado no Notícias de Melgaço (1964)




O Dr. Augusto César Esteves é um dos melgacenses mais notáveis de todo o século XX. Deixou-nos um enorme legado…
Faleceu na sua casa da Rua da Calçada, pelas 18 horas do dia 26 de Março de 1964. E a 5 de Abril desse mesmo ano, o jornal Notícias de Melgaço, prestou-Ihe uma sentida homenagem, enchendo a 1ª página com um arrebatado elogio fúnebre:

Sit Tibi Terra Levis

Morreu Augusto Esteves!
Silêncio!
Deixou de bater um grande e generoso coração. Paralisou para sempre um cérebro em constante evolução; uma inteligência penetrante e esclarecida, em plena pujança, ansiosa de perfeição. Ao recordá-lo vivemos uma hora de amargo abatimento, de emoção e profunda concentração. Melgacense fiel e companheiro de lutas dedicado, passou entre nós como um raio de sol quente, acolhedor, leal, acariciador e benfazejo.
O seu olhar franco e amigo espelhava o fogo interior dos seus nobres sentimentos, do seu entusiasmo e desejo de servir a sua terra, que tanto amou e para a qual viveu. Servir Melgaço sem limitações; servir com ânimo firme e de coração aberto a todas as causas justas; servir por devoção e por idealismo a sagrada causa da democracia e os grandes problemas em que se debate a humanidade.
Disse um dos grandes do pensamento de todos tempos, Gabriel d' Anunzio, referindo-se à morte de Wagner: O mundo perdendo Wagner ficou menor... E se é verdade que só os homens de sensibilidade rara, se podem aperceber da perda que o mundo sofre com a morte de um dos seus elementos mais representativos, também os melgacenses devem sentir, amargamente, o que para Melgaço representa a morte de Augusto Esteves, como político, como bairrista até à loucura, como funcionário, como jornalista distinto, como polígrafo e historiador notável.
Na visita que lhe fizemos há poucos dias, aparentemente o seu estado de saúde e a sua boa disposição na animada conversa que entretivemos, não nos revelou nada de grave que fizesse recear e prever o inesperado e chocante acontecimento da sua morte! Porém, a vida é um estágio efémero dentro da transformação da matéria, c o vendaval da morte não poupa ninguém, atinge os fracos e os fortes.
De compleição débil no conspecto físico, a sua vida interior revelava-se por verdadeiros clarões de entusiasmo e de acrisolado amor a tudo quanto de longe ou de perto está ligado a Melgaço e para ele, o distrito, o país, o seu único mundo, confinava-se nos limites estreitos desta terra melgacense.
Existir e transitar no plano terreno é comum a todos os seres. Porém viver e conviver é mais transcendente, é próprio dos seres humanos.
Augusto Esteves não compreendia um homem só no seu mundo melgacense, alheado de tudo e de todos. E sim um mundo só, um único mundo, de todo sós melgacenses.
No seu admirável espírito iconológico o bairrismo cegava-o, ampliava desmesuradamente o valor e a beleza dos monumentos e da história dos sucessos a eles ligada. Para ele tudo era incomensuravelmente grande, enorme, ímpar, desde que tivesse existido, em qualquer época, nesta sua amada terra.
A origem nativa era tudo e só isto contava; o resto estava fora de um mundo que não era o seu ...
Amigo de há quase meio século, o nosso coração veste de crepes nesta hora emocional e triste e os nossos lábios ciciam, baixinho, a oração que espontânea e amarguradamente a alma reza e a saudade dita.  
Morreu Augusto Esteves!
Morreu para a vida mas a sua memória viverá na nossa recordação para lodo o sempre.
Desapareceu um companheiro de lutas, um correligionário e um amigo lealíssimo que criou no nosso coração fundas raízes de amizade e de estima; que se impôs pelo espírito, pela austeridade, pela força e brilho do seu pensamento.
Melgacenses: curvemo-nos respeitosamente perante o seu cadáver e elevemos a nossa alma em sentida prece para
Que a terra lhe seja leve!


Texto de Ferreira da Silva, 

in: Notícias de Melgaço, edição de  5 de Abril de 1964.

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