sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Melgaço em "A ilustre Casa de Ramires" de Eça de Queiroz


"Gonçalo vergou os ombros, confessou que se ocupara de toda essa heráldica história por um motivo bem rasteiro - por miséria!...
- Por miséria?
- Sim, prima Maria, por penúria de moeda, de cobres.
- Conte! conte! Olhe, a Anica está ansiosa...
- Quer saber, Sra. D. Ana?... Pois foi em Coimbra, no meu segundo ano de Coimbra. Os companheiros e eu chegamos a não juntar entre todos um vintém. Nem para cigarros! Nem para o sagrado decilitro de carrascão e as três azeitonas do dever... Um deles então, rapaz muito engraçado, de Melgaço, surdiu com a ideia estupenda de que eu escrevesse aos meus parentes de França, a esses Cleves, a esses Tancarvilles, senhores decerto imensamente ricos, e solicitasse, com desembaraço, um emprestimozinho de trezentos francos.
D. Ana não conteve um riso, sinceramente divertido:
- Ai! tem muita graça!
- Mas não teve resultado, minha senhora. Já não existem Cleves, nem Tancarvilles! Todas essas grandes famílias feudais findaram, se fundiram noutras casas, até na Casa de França. E o meu Padre Soeiro, apesar de todo o seu saber genealógico, nunca conseguiu descobrir quem as representava com bastante afinidade para me emprestar, a mim parente pobre de Portugal, esses trezentos francos.
Aquela penúria de Gonçalo, de tamanho Fidalgo, quase enternecera D. Ana:
- Ora estarem assim sem vintém! Quem soubesse... Mas tem graça! Essas histórias de Coimbra têm sempre muita graça. O D. João da Pedrosa, em Lisboa, também contava muitas...
D. Maria Mendonça, porém, através dessa facécia de estudantes, descortinara outra prova inesperada da grandeza dos Ramires. E imediatamente a estendeu diante de D. Ana com habilidade:
- Ora vejam!... Todas essas grandes casas de França, tão ricas, tão poderosas, acabaram, desapareceram. E cá no nosso Portugalzinho ainda dura a Casa de Ramires!
Gonçalo acudiu:
- Acaba agora, prima!... Não olhe para mim assim espantada. Acaba agora... Pois se eu não caso!"

Extrato do livro "A ilustre Casa de Ramires" (edição de 1900) de Eça de Queiróz. 


Sem comentários:

Enviar um comentário