domingo, 15 de junho de 2014

A revolta da Abrilada (1824) e a construção da Capela do Santo Preto (Roussas)

Capela do Santo Preto (Roussas - Melgaço)

Quem sobe para Roussas pela estrada, depara com uma velha capelinha, situada debaixo duma curva do Coto do Preto e recatada do olhar indiscreto do caminhante.
Para a contemplarmos melhor, temos de descer por um caminho, que ladeia um pequeno muro no meio do qual se encontram uns degraus. Subindo-os fica-se defronte da capela de Nossa Senhora da Conceição ou do Santo Preto, como é vulgarmente conhecida.
À nossa direita, está um outro muro, que veda o rossio de uma modesta casa rústica. Este curioso conjunto resiste heróico às garras demolidoras do tempo.
Vasculhando os artigos e livros de Augusto César Esteves, descobre-se um interessante apontamento sobre esta capela. O autor relaciona a origem desta capela com um episódio da História de Portugal conhecido como a Abrilada que ocorreu em Abril de 1824. Tratou-se de uma revolta liderada por D. Miguel e tinha como objetivo derrubar o regime liberal bem como o rei D. João VI e voltar a instaurar uma monarquia absolutista em Portugal.
A este propósito, Augusto César Esteves escreve o seguinte: “A este movimento ficou-se a chamar-se Abrilada e embora o não pareça, tão longe da terra onde aconteceu a revolta, em Melgaço alguém se preocupou com a tentativa de deposição do rei (...) Podem mesmo outros apresentar a vida nesta terra como decorrendo em calmaria não revolta pelas paixões humanas e até alheios à política geral. Mas um facto existe, contudo, demonstrativo da Abrilada ter incutido receios no ânimo dos melgacenses.
É o caso da construção da capela de Nossa Senhora da Conceição no sítio do Coto do Preto, na freguesia de Roussas. É uma capela edificada pelo Prior de Castro Laboreiro, Reverendo João Manuel de Sousa e Silva, natural daquele lugar.”
Na escritura lavrada em 12 de Julho de 1824 pode ler-se: “... com a obrigação do doante (o reverendo) satisfazer cada ano enquanto vivo, uma missa pelo bem de Sua Magestade Fidelíssima que Deus guarde e uma outra missa pela dinastia da Sereníssima Casa de Bragança e três conforme a tenção do doante...”
E por isso se vê também, como o bom do padre era homem inteligente, pois soube achar um meio consentâneo com o seu ofício de cura de almas sem deixar de lado a sua fé política de simpatia para com o rei D. João VI.

Desta forma, a capela do Santo Preto foi mandada construir pelo dito reverendo solicitando a proteção divina para o rei e para o regime político liberal. Contudo, as suas preces não seriam satisfeitas durante muito tempo. Dois anos mais tarde, em 1826, o rei D. João VI viria a falecer e iria aqui começar uma crise sucessória. O herdeiro do trono era D. Pedro, ao tempo imperador do Brasil, mais tarde D. Pedro IV de Portugal. Estes acontecimentos conduziriam a uma uma guerra civil que iriam por o país a ferro e fogo...


Extraído de: DOMINGUES, Maria de Jesus & SILVA, Armando Barreiros (1989) - Heráldica Melgacense - Associativa, de Domínio e Eclesiástica. Cadernos da Câmara Municipal de Melgaço (nº5), CMM, Melgaço.

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