domingo, 29 de junho de 2014

Castro Laboreiro no conto "Tramóias d' Esta Vida" (1863) de Camilo Castelo Branco

Balbina tinha desaparecido de casa da mãe há anos. Ninguém sabia nada dela. O seu tio, regressado do Brasil, ouviu dizer que um soldado a tinha avistado para os lados de Castro Laboreiro, no Alto Minho. Resolve então viajar às serras do Laboreiro...



"Chama-se este homem João Moreira, e vem do Brasil, para onde foi menino. É natural de Esposende, e irmão da defunta Serafina da Tenda, tio, portanto, de Balbina Rosa.
Havia saído da terra natal cinquenta anos antes. Escreveu aos pais alguns anos. Depois, morreram os pais, ele casou, trabalhou, enriqueceu para os filhos, e esqueceu-se da Pátria e da irmã, que deixara. Serafina julgava-o morto, e os seus patrícios esqueceram-no.
Quando estava rico e velho, morreu-lhe a mulher, e, no breve termo de um ano, seus três filhos. Lembrou-se então de Esposende e da irmã. Estava só, amargurado, contemplador melancólico de sua inútil riqueza.
Veio, então, para Portugal em busca de família, e envergonhado de, só à hora do desamparo, procurar sua irmã. Sabem o mais. Parou defronte da casa onde nascera; e, como visse uma mulher representando quarenta anos, pensou consigo que não podia ser aquela. "Morreu, certamente!", disse João Moreira entre si, com dor, com um desapego mortal da vida, e arrependimento de se ter alongado dos ossos de seus filhos, que ao menos conhecia, para se avizinhar das cinzas deslembradas e desconhecidas de seus pais e irmã. 
Nisto cismava o brasileiro, quando a inquilina, ou proprietária da casa paterna lhe disse que a taverneira tinha morrido. Agora vamos em cata dele ao Alto Minho. Vai o leitor pasmar-se daquelas bem-aventuradas margens do Lima. Entra comigo em Viana, na louçã namorada do oceano, naquela esquiva formosa que vacila entre deixar-se amar das ondas, que lhe beijam os pés, ou dos arvoredos que lhe enramam a fronte. Agora, vamos neste barquinho rio acima até Ponte do Lima. Não se me fique arrobado neste ondear de esmeralda que a viração balança, que receio me deixe ir sozinho em procura do brasileiro. Aquilo são bosques, que escondem moitas arrelvadas, e meandros de fontes, e amores de aves, e amores de damas castelãs, que por ali se escondem mais conhecidas das estrelas que nossas, e mais conhecidas ainda dos faunos ilustrados do sítio que das estrelas.
Aqui estamos na velha Ponte. Iremos por terra a Valença, que é um ir sempre ao debaixo de abóbadas de verdura. Cá está a fortaleza, fazendo carrancas a Tuí, à decrépita Galiza, que o rio Minho separa de nós, como cordão de limpeza entre a orla do ridente Portugal e a testada dos nossos sujos vizinhos, sujos, como galegos que são.
Sujos!, e ladrões lá na sua cafraria? Isso então é coisa para tamanho espanto que só não há-de espantar-se do que são lá, quem souber como eles são ladrões cá.
Aqui vamos na peugada de João Moreira, que procura o vinte e três da quarta companhia, José Torto de Esposende. Declara José Torto que, indo a escoltar uns presos da vila dos Arcos para outro ponto, vira uma pastora no caminho, a tornar à manada uma cabra que se desgarrara, e cuidara ele ver Balbina; mas tendo ouvido dizer que ela se deitara ao rio, não acreditara os seus olhos. Ajuntou que se persuadira ser ela, vendo-a voltar o rosto, e apertar o pé a fugir por um outeirinho abaixo; e ele então a chamara pelo seu nome, e ela mais corria.
Acrescentou que deu quatro pinchos no declive da serra, e a pilhara, obrigando-a a confessar que era Balbina, e não tivera tempo de lhe ouvir mais nada, porque o cabo da escolta o chamara, ameaçando-o, por cuidar que ele perseguia a moça desatinadamente.
Ouvida a narrativa, João Moreira procurou o comandante do regimento, conversou largamente com ele, e obteve que o vinte e três da quarta o acompanhasse à serra.
Este homem, que assim se empenha em descobrir Balbina, quer o leitor saber quem é, donde vem, e que tem ele que ver com a pastora da serra do Laboreiro?
Chegaram ao romper da manhã do segundo dia de jornada aos montados de Entrime, e do píncaro mais levantado descortinaram em redor os rebanhos que iam subindo das póvoas escondidas nas gargantas da serra. Foram à fala com o primeiro pastor, que avistaram, e descobriram que havia em Castro Laboreiro uma rapariga ao serviço de um lavrador, vinda de longe, e chamada Francisca. Os sinais desta Francisca exactamente condiziam com os de Balbina. Devia ser ela. Dali baixaram ao outeiro onde o soldado a topara, e, por felicidade de todos, ao dobrarem o cotovelo de um barrocal, entreviram, através da ramagem de uns carvalhos, a pastora, sentada à borda de um regato, que devia ser um braço da ribeira das Várzeas [designação dada ao rio Trancoso na época], a qual por ali se infiltra na aridez daqueles algares.
- E ela mesma! - disse o José Torto.
- Fique você aqui - ordenou o brasileiro.
João Moreira acercou-se de Balbina, que, ao vê-lo, se erguera surpreendida e timorata.
- Bons-dias, menina - disse o irmão de Serafina.
- Deus lhe dê os mesmos - balbuciou a pastora.
- Venho buscá-la.
- Buscar-me?! - exclamou apavorada a moça, relanceando os olhos como quem procurava socorro.
- Parece - tornou João Moreira - que a minha velhice é bastante para que a moça me não tema. Se quer quem lhe acuda, está ali o nosso patrício José Torto. Não o vê acolá?
Balbina reparou, e disse:
- O senhor é de Esposende?!
- Sou.
- Nunca o vi; ele sei que é; mas o senhor...
- Sou de Esposende, sou irmão de Serafina, sou tio de Balbina.
A rapariga deixou cair o fuso da mão, e abriu a boca, tingindo-se de um escarlate precursor da perda dos sentidos.
O brasileiro prosseguiu:
- É teu tio que te procura. Não tenhas pejo de mim, nem remorso da tua desgraça. Tua mãe já deve ter-te perdoado. Beija a mão de teu tio. Serafina algumas vezes te falaria do irmão ingrato ou morto. Veio à hora que a Providência divina ordenou. Venho buscar-te, Balbina. Daqui irei a teu amo; ele mandará novo pastor ao seu rebanho, e tu não voltarás a casa dele.
Balbina ouvia; mas, querendo falar, sentia a língua soldada ao céu da boca.
- Então, minha sobrinha, responde: quem é teu amo? -volveu o brasileiro.
A moça disse o nome do dono do rebanho, e permaneceu no espasmo.
- Ensina-me o caminho mais perto - instou o tio.
A pastora deu alguns passos até assomar ao alto de um teso, donde se avistava o lugarejo, e disse:
- Aqui por este fojo abaixo vai mais depressa.
- Diz adeus às tuas cabrinhas, que eu volto já, filha.
E, acenando ao guia, desceram à aldeia, guiando-se pelo trilho dos rebanhos.
Correu assim grande parte do diálogo entre o brasileiro e o lavrador:
- Há quanto tempo é sua criada a moça que vossemecê diz chamar-se Francisca?
- Há quatro anos e três meses.
- Tem sido boa serva?
- Como não há outra em todo o Laboreiro; mas eu não sei donde ela é..
- Nem eu lho pergunto, amigo. A sua criada deixou de o ser. Vai retirar-se comigo. Mande vossemecê tomar conta do seu gado.
- Pois ela vai?! E vossemecê quem é?
- Sou o legítimo dono daquela rapariga.
- Dono? E ela quer ir?!... É o que vamos saber. Isso lavra mais fino cá, meu amiguinho. Eu vou lá à serra, e irá comigo um dos meus filhos.
- Pois, sim, convenho: isso é prova de que vossemecê é um amo honrado, e zelador de suas servas.
- Pudera, não! Eu sei cá se vossemecê a leva furtada!...
- Se a levasse furtada, não vinha aqui dizer-lhe que a furto. Acha vossemecê que um velho destes anos anda pela serra do Laboreiro a furtar pastoras?
- Enfim, nós lá vamos, e tenha paciência. Isto cá lavra mais fino.
O lavrador pegou da foice encavada, o filho pôs ao ombro uma caçadeira, e saíram, caminho do outeiro, em que Balbina, àquela hora, estava orando. Chegaram à beira dela.
- Francisca - disse o velho -, este homem diz que tu queres ir com ele. Queres ou não?
- Sim, senhor - respondeu a moça.
- É teu parente ou adrente?
- E meu tio.
- Tio! - exclamou o José Torto.
- Balbina! - disse João Moreira comovido. - Quis ouvir essas palavras do teu coração. Foi tua mãe que tas disse. Senhor lavrador, estão esclarecidas as dúvidas.
- Podemos ir?
- Ainda não - respondeu o lavrador -, vamos fazer contas. Eu tenho cá as soldadas todas desta rapariga.
- Aplique-as aos pobres da sua aldeia. Adeus, amigo! -disse o brasileiro.  
- Se nos não tornarmos a ver, até ao Dia do Juízo. O filho do montanhês sentou-se, atravessou a espingarda sobre as pernas, e baixou a cabeça a chorar.
João Moreira reparou; o velho também, e disse:
- O rapaz chora porque lhe tinha amor de dentro. Queria casar com a moça; e, se não é marido dela, foi porque a moça não quis, saberá vossemecê.
- Era outro o seu destino - disse o brasileiro, e voltando-se à sobrinha perguntou:
- Amavas este moço, Balbina?
Balbina abaixou os olhos, e disse:
- Não, senhor: era amiga dele, porque me tratava bem.
- Era outro o seu destino... - repetiu o tio.
- Vamos, que o Sol aperta... Acharei nalguma destas povoações quem me venda uma cavalgadura?
- Eu não vendo; - disse o lavrador - mas aí está uma mula, sendo necessária. Vão vossemecês descendo até à estrada,, que eu lha mando sair à bouça da tia Andresa. A rapariga sabe onde é.
- Obrigado, bom velho. Eu me farei lembrado pelo seu favor - concluiu o brasileiro.
E apartaram-se.
O ancião entregou a guarda do rebanho ao filho, dizendo-lhe:
- Não fiques agora aí a chorar, Bernardo! Um homem é um homem!
O moço empinou-se no viso de uma colina, e viu desaparecer a pastora. Que alma de poeta sofreu já ai cruz de saudade tão dolorosa? Que lágrimas se secaram naquelas penedias broncas! O desventurado lançou-se por terra, e escondeu a face nas urzes. As tuas lágrimas, ó traspassada alma, podia vê-las o Céu, que eram puras!
Eles lá vão.
Ninguém mais falará de ti, pobre solitário das montanhas!
Vai chorar à margem desses regatos! As flores silvestres te dirão que as lágrimas de Balbina as fizeram reviver em suas hastes ressequidas. Afaga esse cão que lhe lambia as mãos. Aí tens a rês que se aninhava no regaço dela. Longo tempo chorarás, amante cristão; e o suicídio nunca te há-de lembrar; a luz do facho civilizador nunca te mostrará o boqueirão da caverna onde se abismam os cobardes!
Ela lá vai!... Se alguma vez a vires, dirás contigo:  

- Parecia-se com esta fidalga uma pastorinha que eu amei, e ainda agora amo, nas minhas serras do Laboreiro!"

Extraído de: CASTELO BRANCO, Camilo (1863) - Conto "Tramóias d' Esta Vida" in Noites de Lamego. LIvraria de António Maria Ferreira, LIsboa.





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