sexta-feira, 25 de julho de 2014

A habitação tradicional de Castro Laboreiro: algumas notas

Em Castro Laboreiro, noutros tempos 
(Foto de data desconhecida)

Como em todas as sociedades de tecnologia primitiva e onde o meio natural se apresentava muito pouco diversificado quanto a materiais utilizáveis, também na antiga sociedade castreja, qualquer das realizações materiais, levadas a cabo pelo homem, trazia impressa a marca do ambiente em redor. O sentido de equilíbrio que o artesão sempre realiza em toda a sua obra, permitiu também que aqui existisse uma adequação formal da casa à natureza que a cercava. Por tanto, nas antigas construções de Castro Laboreiro, estiveram presentes estas duas marcas naturais, que ao fim e ao cabo se resumem numa só: a marca do equilíbrio entre a obra e a natureza.
Efectivamente, os únicos materiais empregues na construção foram o granito arrancado ao chão e às rochas; a madeira que crescia nas matas; a palha de centeio que o homem produzia e a urze que espontaneamente se criava em profusão. Quanto à própria estrutura, não ia além de um modelo simples de linha direita, de área estritamente necessária ao abrigo da família, dos animais e da alfaia agrícola e ao armazenamento das colheitas.
A casa era pois uma peça de tal maneira integrada na paisagem, pela cor e pela forma, que cada um dos lugares, composto de muitas dessas casas, quando visto de longe, configurava uma das variadíssimas formações rochosas em que se capricha a natureza de Castro Laboreiro. Ainda hoje este quadro é-nos sugerido pelos pequenos conjuntos de habitações de tal tipo existentes em lugares outros que não a vila, embora já destacados do meio natural por força do contraste que a este oferecem as novas construções, que surgiram no seu interior ou à sua volta.
Curiosamente, e reportando-nos ainda a esse tempo, a única marca imediatamente visível da acção do homem sobre a natureza devia ser a que era formada pelas manchas coloridas dos barbeitos cultivados sempre em zonas distantes da área habitada. Esses, sim, contrastavam pela macieza dos seus verdes e pela geometria dos seus contornos, coma cor parda cinzenta dos grandes e irregulares rochedos, erguidos à volta de Castro Laboreiro.
Mas se a estrutura da casa se harmonizava com a natureza e satisfazia por outro lado necessidades de abrigo, não satisfazia de madeira eficaz as exigências de comodidade das pessoas que a habitavam, embora tais exigências se reduzissem àquele mínimo determinado pelas próprias condições em que decorria a sua existência.
Na verdade, ninguém em Castro Laboreiro que tivesse experimentado o desconforto destas habitações, a elas se refere sem ser em manifesto repúdio pelas condições de vida que a tal obrigavam. Contudo, não se aceita o quadro desumanizado que nos foi deixado por José Augusto Vieira, na sua obra «O Minho Pittoresco» (1886): «Anexo a este interior, o que há de mais sórdido, de mais negro pelo fumo, e de mais anti-higiénico, ficam as cortes para os gados». Vista assim, a casa mais nos parece um «covil» para animais selvagens que propriamente um abrigo para os homens. Com outros olhos a viu José Leite de Vasconcelos no seu artigo «Excursão a Castro Laboreiro» (trabalho de campo em 1904), publicado na Revista Lusitana, vol. XIX. Nela, o investigador faz um relato sem qualquer tipo de animosidade e refere-se sobretudo ao interior da casa castreja nestes termos  A cozinha consta de: lareira, borralheira, especie de camara para recolher o borralho, coberta por uma lage que se chama copeira ou pilheira; escanos, postos ao lado da lareira, para se sentarem; almario, simples prateleira para louça; masseira; fumeiro ou ‘’caniço’’, pôsto superiormente á lareira, para ahi se enxugar a roupa; arcaz, caixa para guardar os cereaes.
   Os Crastejos servem-se, mais ou menos, de pratos de madeira, tanto para comerem, como para conservarem a comida. Eu vi d’estes pratos. Tambem se usam cuncas ‘’malgas’’ ou ‘’tigelas’’ da mesma substancia; d’antes todos comiam nellas, hoje porem só as crianças. Consta-me que esta ‘’loiça’’ se fabrica na Galliza, e se exporta de lá para o Alto-Minho. Ha colheres de madeira, que se chamam igualmente cuncas. A fórma masculina cunco applica-se a uma gamella de pau para se bater a massa do pão antes de ir para o forno.
Para iluminação das casas, os mais pobres fazem uso de guiços, que são pedaços de urzes secas (gândaros), de queirogas sêcas e de tojos secos, descascados do tempo, e que se accendem á maneira de vela: sustentam-nos na mão, ou espetam-nos num buraco da parede; de vez em quando esmoucam-nos, quebrando no chão a parte carbonizada, para os reaccenderem. Com os guiços concorrem vantajosamente candeias de lata, suspensas em seu velador, como é geral no Norte e Centro do país; outr’ora havia-as de ferro e alimentavam-nas de sil ou banha de porco.
   Terminarei aqui a parte descritiva, mencionando a cama, palavra que significa propriamente ‘’leito de madeira’’; assim se diz: ‘’o carpinteiro faz uma cama’’. A cama consta de um caixão grande, com quatro banzos ou pernas, que terminam superiormente em pirâmides. Os mais pobres ahi dormem sobre palha, envolvidos numa manta de burel (sem enxergão ou lençoes); de travesseiro serve um farrapo. Num dos banzos da cabeceira enrola-se o rosario em que rezam.”

Castro Laboreiro em 1915

Informações extraídas em:
- GERALDES, Alice (1979) - CASTRO LABOREIRO E SOAJO. Habitação, Vestuário e Trabalho da Mulher. Serviço Nacional de Parques, Reservas e Património Paisagístico. Lisboa.
- VASCONCELOS, J. Leite de (1916) - Excursão a Castro Laboreiro in: Revista Lusitânia, Lisboa.

- VIEIRA, José Augusto (1886) - O Minho Pittoresco, tomo I, edição da Livraria de António Maria Pereira- Editor, Lisboa.

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