sábado, 6 de dezembro de 2014

Melgaço em meados do séc. XX: A crise na agricultura e a criação do Grémio da Lavoura

Câmara Municipal de Melgaço em meados do século XX

Em Melgaço, em meados do século XX, a situação da agricultura manifestava-se sob a forma de subsistência, sendo a pobreza e a escassez algo endémico. No jornal Notícias de Melgaço, em Junho de 1959, refere-se que “Passa de longo, ó viandante que Melgaço não é já aquela terra de outros tempos, onde a alegria esfusiava nos trabalhos de campo; estourava a cada passo por esses caminhos das romarias e na vila choviam fosquinhas para se assistir às festas populares do mês de Junho. Vai tão mudado isto cá por cima, que nem sequer as crianças apareceram a pedir tostãosinho para andarem por esses cantos o altar a Santo António (...). Ó leitor amigo! Não nos dirás onde poderemos ir buscar a cura deste nosso mal?” (In Notícias de Melgaço, 14 de Junho 1959, ano 31, nº 1320).
No mesmo Notícias de Melgaço, em Maio de 1963, diz-se ainda que “É grave a crise que a lavoura está a atravessar e cada vez os seus males e as suas dificuldades se estão tornando mais evidentes e a aumentar de volume em cada dia que passa. É o solo, a quem faltam os fertilizantes e os correctivos que se vai negando a dar ao lavrador as décimas do suor e das despesas que lhe acarreta. É o vinho, armazenado nas adegas, sem procura e sem protecção que aguarda a hora fatídica da volta (...). É a fuga do trabalhador que, em legião e procurando melhores ares, vai enriquecer a terra alheia, contribuído com a sua ausência e a falta dos seus braços para maior empobrecimento da nossa agricultura. É a falta de rega (...).Tem o governo procurado, por diversos meios, melhorar a sorte da pobre lavoura (...).
Neste concelho, graças à indignação que há anos o grémio da lavoura deu das necessidades e pretensões das freguesias, já alguma coisa se fez nesse sentido, e maiores e mais vastas teriam sido essas obras e esses benefícios se os povos não se activassem sem apenas a providência do estado.” (In Notícias de Melgaço, 26 de Maio de 1963, ano XXXV, nº 1472)
Ao longo da década de sessenta, surgem neste jornal várias notícias, em forma de apelo no sentido da construção de uma cooperativa agrícola, no âmbito do segundo plano de fomento português. Em muitos artigos, é referido o exemplo do vizinho concelho de Monção, como que espicaçando os melgacenses. Contudo, em Melgaço, quedaram-se pela construção de um grémio da lavoura: “O grémio da lavoura, pela voz do seu ilustre presidente, um nosso colaborador e amigo, professor (...), chamou à atenção dos agricultores melgacenses para as vantagens que resultariam da constituição de uma sociedade destinada ao estabelecimento da adega cooperativa no nosso concelho. Ninguém deu ouvidos à autorizada e insistente defesa desse importante empreendimento...” (in Notícias de Melgaço, 3 de Novembro de 1963, ano XXXV, nº 1490).

Texto extraído de:
CASTRO, Joaquim de & MARQUES, Abel (2003). Emigração e contrabando. Melgaço: Centro Desportivo e Cultural de São Paio.

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