sábado, 7 de março de 2015

O antigo asilo da Quinta de Eiró (Melgaço)


O edifício do antigo asilo da Quinta do Eiró

Este edifício terá sido construído por volta de 1872 conforme a data inscrita em cartela na escadaria da fachada sul.
Em 1936 foi feita a doação da Quinta do Eiró à Santa Casa da Misericórdia de Melgaço pelos seus proprietários visto não possuírem descendência, com a finalidade de ali passar a funcionar um asilo de idosos, de ambos os sexos, designado "Asilo Pereira de Sousa".
Na acta da inauguração lemos:
“Aos vinte dias do mês de Setembro de mil novecentos e trinta e seis, pelas dezasseis horas, no sitio de Eiró, extra-muros desta vila de Melgaço, achando-se presente o provedor da Santa Casa da Misericórdia desta mesma vila, cidadão Duarte Augusto de Magalhães, comigo José Maria Pereira, secretário, aí foram também presentes o Excelentíssimo Governador Civil, substituto, deste distrito, doutor João da Rocha Páris, doutor João de Barros Durães, na qualidade de Presidente da Câmara e Administrador deste concelho, doutor Victoriano da Glória Ribeiro Figueiredo e Castro, médico do Hospital, doutores Cândido Augusto da Rocha e Sá e Sérgio da Silva Saavedra, facultativos municipais, José de Sousa Lobato, professor e representante da Câmara Municipal e muitas outras pessoas, que devido ao seu grande número não podem ser mencionadas, procedendo-se assim à abertura solene deste Asilo, como previamente havia sido anunciado.
Assim reunidos, pelo provedor foi dito, entre outras cousas que:
- Agradecia a comparência do Excelentíssimo Governador Civil deste Distrito, que sempre se tem interessado por todos os assuntos, quer de ordem moral quer de ordem material, ocorridos e a tratar dentro da área da sua jurisdição, bem como ao Excelentíssimo Administrador deste concelho [sic] e a todos os outros assistentes.
Nos encontrávamos numa casa modesta e pobre, para a sua inauguração em instituto de caridade e beneficência que, pelo seu significado, representa uma obra de grande alcance social e de reconhecido interesse regional. Que as pequenas iniciativas, com o decorrer do tempo, se podem converter em grandes empreendimentos. Dois prestantes cidadãos que, não sendo filhos desta terra, a ela muito se dedicaram, e pelos bons exemplos do seu digno procedimento, inspiraram nos seus sucessores o ardente desejo de perpetuar os seus nomes, com uma obra de caridade e beneficência na terra onde sempre foram respeitados e amados.
Refiro-me aos senhores doutor António Pereira de Sousa, que exerceu o cargo de médico municipal neste concelho, e a seu irmão, Francisco Pereira de Sousa, que nesta comarca exerceu o seu cargo de funcionário judicial, ambos de saudosa memória.
O ultimo contraiu matrimónio com a excelentíssima senhora dona Maria Pia de Castro, desta vila de Melgaço. Esta nobre senhora, herdeira por falecimento de seu marido dos bens que lhe advieram por parte deste e seu referido irmão, quis ligar os nomes dos dois à sucessão dos seus bens e, para isso fez doação deles à Santa Casa da Misericórdia desta vila de Melgaço, destinando esta casa a um asilo para velhos necessitados, e consignando o rendimento dos restantes à sustentação do mesmo Asilo.
Nobre exemplo de isenção, generosidade e altruísmo que torna venerável a memória daquela nobre e ilustre senhora.
O seu gesto constitui mais um pergaminho de honra a acrescentar a tantos outros que muito nobilitam os actuais representantes do aristrocrático Solar de Galvão e muito engrandecem a memória dos já falecidos membros de tão distinta família.
É grande o fim desta instituição, e como os seus recursos são pequenos, cumpre aos vivos seguir o exemplo que os mortos nos deram. É esta a esperança que nos anima. A vida desta casa fica dependente da assistência publica e da assistência particular. Dominados pelo sentimento altruísta dos seus instituidores, empregaremos os nossos esforços para que nem uma nem outra lhe faltem.
Posso já mencionar que algumas almas generosas têm concorrido para a sustentação e amparo dos velhinhos aqui recolhidos. O fim é altamente humanitário.
Fica inaugurado o Asilo “Pereira de Sousa”. Que ele mereça a proteção de Deus para que lhe não possa faltar a protecção dos homens.
Em seguida fez uso da palavra o senhor José de Sousa Lobato, que enalteceu as grandes qualidades dos doadores, e fazendo ver as vantagens de todos, os que possam, auxiliarem nas suas posses esta grande instituição.
Findo o acto da abertura deste Asilo, foi este visitado por grande numero de pessoas deste concelho e doutros limítrofes (...).

Apesar de inaugurado o asilo, os idosos continuaram nas duas salas do primeiro piso do hospital, devido às dificuldades financeiras, aproveitando-se assim o pessoal do serviço hospitalar para cuidar dos idosos.
Também por esta época, formou-se em Melgaço uma liga de Senhoras, constituída pelas mais ilustres da terra, para auxiliar na angariação de fundos para as obras sociais da Misericórdia. Em finais de 1949, a Misericórdia realiza obras na casa para transferir os idosos, contudo eles ainda permaneceram no hospital e só mais tarde seriam transferidos.
Em 1955, é realizada uma campanha contra a tuberculose lançada pelo Provedor da Misericórdia. Nessa mesma altura, o deputado Elísio Alves Pimenta apresentou ao Subsecretário de Estado de Assistência Social o desejo do provedor de transformar a Casa de Eiró em Enfermaria abrigo para tuberculosos. Para isso, tornava-se necessário proceder a obras de reparação, no valor de cerca de 50.000$00, e que constituiriam em ripar e estucar de novo os tectos das dependências nºs. 8 e 9, reparar telhados, tectos, soalhos, portas, janelas. Além disso, seriam necessário a reparação e pintura de paredes interiores e exteriores, pavimentos a mosaico no 1º andar das dependências nºs. 1, 4 e 13 e no piso térreo das nºs. 3 e 4. Ainda era necessário, a colocação de silhar de azulejos nas dependências nºs. 1, 4, 6, 7 e 13 do 2º piso e 3 e 4 do térreo, instalar água corrente nas dependências nºs. 1, 4, 6,7, 10 e 13 do 2º piso e 3 e 4 do 10 bem como fazer divisões, tapar portas e abrir outras. Era necessário também encanar águas de lavagem e esgotos bem como construir uma fossa, instalar sanitários, construir capela, reparar a instalação eléctrica e instalá-la no piso térreo. Era ainda necessário adquirir todo o mobiliário (camas para 18 doentes e 4 para o pessoal, mesinhas de noite, cadeiras, mesas, armários para roupas, etc.), adquirir roupas, loiças, fogão, artigos de cozinha, sanitários, etc.
As despesas de apetrechamento rondavam os 90 contos, mas o custo total da obra era de 120 mil escudos. Aprovando a ideia, o Subsecretário de Estado da Assistência Social concedeu 100 contos, para a obra. Em 1956, a 5 Janeiro, é feita a inauguração da enfermaria, com celebração de missa pelo Arcebispo Primaz de Braga e um discurso proferido pelo Provedor a partir da varanda do edifício, realizando-se ainda nesse mesmo dia a "Festa das Oferendas" para angariação de fundos.
Em 1961, deixa de haver internamento de tuberculosos na quinta, passando a acolher os idosos então no hospital. Na década de 1980, o Asilo albergava 18 idosos. Como se mostrava insuficiente para as necessidades locais, a Misericórdia decide construir um novo Lar, para o qual comprou terrenos no Lugar da Loja Nova, junto ao Bairro do Santo Cristo, com capacidade para 60 idosos.
Em 1989, a 5 Novembro, é realizada a inauguração do novo Lar pelo Professor Anibal Cavaco Silva. Em Julho de 1990, é concretizada a transferência dos idosos da Quinta do Eiró para o novo Lar.


Informações extraídas de:
1936, Setembro 20, Melgaço – Acta da sessão de inauguração do Asilo Pereira de Sousa, da Misericórdia de Melgaço;
- PAIVA, José Pedro et al (2011) - Portugaliae Monumenta Misericordiarum - Misericórdias e Secularização num século turbulento (1910 - 2000). Volume 9, Tomo II; Centro de Estudos de História Religiosa; Universidade Católica Portuguesa. Edição da União das Misericórdias Portuguesas.
- www. monumentos.pt.

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