sábado, 14 de novembro de 2015

No tempo que em Melgaço se apanhavam salmões e camarões no rio Minho...

Rio Minho à sua passagem por Melgaço

Recuamos a um tempo em as água do rio Minho tinham um riqueza que o leitor poderá achar impensável. Um tempo em que encontrávamos neste rio uma variedade de espécies de peixe que hoje em dia é absolutamente inimaginável. Houve tempos em que se apanhavam no rio Minho salmões e camarões de rio. Há pouco mais de um século, o rio Minho, era o único rio onde ainda se pescavam bons salmões em Portugal...
No livro “Notas sobre Portugal” de 1908, podemos ler que “A partir do norte do país, o Minho, que é o primeiro curso de água que banha o nosso território, tem o seu principal destaque por ser o único onde, actualmente, se faz a pesca do salmão, quase desaparecido de outros rios em que antigamente também aparecia, como no Lima, no Cávado e até no Ave. Agora, porem, só um ou outro exemplar desgarrado é conhecido como relíquia de uma pesca tão importante em outros países.
O Minho, que é fronteira portuguesa desde S. Gregório, é aqui bastante largo, de fundo pedregoso, de seixos e calhaus rolados, começando depois a estreitar-se pouco a pouco entre Melgaço e Monção, onde, em alguns lugares, as margens talhadas em rochas graniticas são cortadas quasi a pique. De Monção até a barra o rio espraia-se e as margens tornam-se planas. Este rio não tem açudes que o atravessem de lado a lado, mas sim muros de pedra, chamados pesqueiras, de comprimento variável, que forçam as águas a tornar-se tumultuosas em algumas passagens. O salmão não encontra porem obstáculos à sua subida e dirige-se para as zonas superiores, nas quais a temperatura e a natureza dos fundos são mais favoráveis para a desova.
Neste rio, também vive a truta, que se encontra principalmente nos seus afluentes, onde se refugia no verão, dos quais o primeiro, o ribeiro de Trancoso, que é fronteira oriental, desce de Alcobaça, povoação insignificante situada a uns 800 metros de altitude na vertente da serra de Castro Laboreiro. O ribeiro corre por entre as montanhas fronteiriças portuguesas e espanholas e com grande declive, recebendo as águas de ambas as vertentes, águas frescas e de terrenos graniticos e que descem tumultuosas por entre os despenhadeiros das serras. Ao passar por Alcobaça, o ribeiro atravessa-se por cima de pedras durante o verão. A sua origem fica pouco acima no maciço granítico que se eleva logo atrás daquela povoação e que corre a poente de Castro Laboreiro, um dos pontos culminantes do Alto Minho e de onde deve ir ver-se todo o admirável sistema serrano daquela província e do leste espânico”.
A este respeito, em 1894, o biólogo Adolfo Moller, de Universidade de Coimbra fez a sua “Excursão à Serra de S. Gregório” e refere-se à  riqueza dos rios Minho e Trancoso. Menciona que “No rio Minho encontra-se a truta, boga, escalo, e a enguia, camarões e mexilhões. Na época própria, pescam-se salmões, truta marina, sáveis e lampreias. Em Melgaço, vimos a vender no mercado barbos que diziam ser pescados n'este rio. Na ribeira de Trancoso só se encontram a truta e a enguia.”
O que é que aconteceu a toda esta riqueza do rio Minho. Algo mudou. Que pena...


Extraído de :
- JUDICE, António Teixeira (1908) – Notas sobre Portugal. Volume I; Exposição Nacional do Rio de Janeiro – Secção Portuguesa; Imprensa Nacional, Lisboa.

- MOLLER, Adolfo Frederico (1894) - Excursão à serra de S. Gregório. in: Annaes de Sciensias Naturaes, Volume Primeiro, publicado por Augusto Nobre.

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