domingo, 3 de abril de 2016

A água de Melgaço: pura, selvagem e heroicamente ferruginosa

Água de Melgaço
Na edição do suplemento LIfestyle do jornal "Público" de antes de ontem (1 de Abril), o escritor Miguel Esteves Cardoso refere-se às Águas de Melgaço e rotula-a com adjetivos elogiosos. Escreve nestes termos: "Há blogues tão apetitosos que, quando vão de férias, causam ansiedade aos viciados. É o caso do magistral Restos de Colecção, de José Leite.
Mas até nisso tem pinta. Numa nota aos leitores, escreve: “Caros leitores, Por me encontrar ausente do país a publicação de novos artigos está suspensa até à segunda quinzena de Abril”.
O blogue é tão procurado que quando escrevo “Água das Lombadas” no Google aparece logo o belíssimo trabalho de José Leite, datado de 6 de Outubro de 2011, sobre a lendária água mineral de São Miguel.
A Água das Lombadas era a minha água mineral preferida mas desde a catástrofe de 2008, em que uma derrocada destruiu a unidade de captação e engarrafamento, que deixou de existir.
Como escreveu Adelino Mota Oliveira no glorioso Açoriano Oriental — o mais antigo jornal português — a água mineral das Lombadas “é uma riqueza que existe e que está, simplesmente, votada ao abandono”.
Vale a pena ler a crónica toda, com a ironia melancólica mas realista do autor.
Num dos anúncios da Água das Lombadas reproduzidos nos Restos de Colecção lê-se (com as maiúsculas originais) que “O ácido carbónico é NATURAL – Não é, como em algumas águas, introduzido artificialmente. É ÁGUA CARBO-GAZOSA NATURAL”.
Hoje as águas minerais que jorram da nascente já com bastante gás (mais concretamente com anidrido carbónico superior a 250 miligramas por litro, segundo o site da Unicer) chamam-se águas minerais naturais gasocarbónicas.
As melhores águas minerais gasocarbónicas pertencem à Unicer: a Vidago, a Água das Pedras e a Melgaço. São também excelentes as duas águas lisas da Unicer: a água Mineral Vitalis (da serra de São Mamede e da serra das Águas Quentes ,em Mação) e a água de nascente Caramulo.
A água de Melgaço é porventura a última água mineral gasocarbónica que é engarrafada tal e qual é captada. Tem um sabor formidável a ferro, como tinha a Água das Lombadas, e tem as mesmas propriedades restauradoras.
Apenas existe em garrafinhas impecáveis de vidro de um quarto de litro. Mas apetece beber logo duas de seguida. A água de Melgaço, tal como a das Lombadas, é uma água de amar ou odiar.
Numa prova recente, houve três pessoas que odiaram (a Maria João, a Sara e a Tristana) e duas que adoraram (o meu neto António e eu). O António apreciou o carácter “vulcânico” da água de Melgaço. A água das Lombadas era genuinamente vulcânica mas a de Melgaço tem a mesma alma de ferro e fogo.
A Água das Pedras também era uma água de amar ou odiar. Havia quem bebesse só pelo efeito digestivo, sem gostar do sabor. Hoje em dia vai sendo difícil encontrar quem a deteste com a paixão do século passado.
Suspeito que a Água das Pedras tenha sido aperfeiçoada pela Unicer. Continua a ser uma água deliciosa mas não é a Água das Pedras de antigamente. A Unicer esclarece no rótulo e na ficha técnica que ambas as versões da Água das Pedras (a Pedras Salgadas e a Levíssima) foram “submetidas a um método de adsorção autorizado”.
Claro que continuam a ser naturalmente gasocarbónicas. Nada têm a ver, por exemplo, com a Perrier que, apesar de muito boa, é “uma água mineral reforçada com gás proveniente da mesma nascente”.
Fazem o mesmo com a Vidago. A Vidago é outra belíssima água gasocarbónica mas também foi aperfeiçoada. É diferente da Vidago do século XX, mais agradável e ligeiramente mais gasosa talvez.
Estou tão agradavelmente habituado às versões com “método de adsorção autorizado” que ficaria escandalizado se alterassem o método. No entanto, gostaria muito se houvesse versões da Água das Pedras e da Vidago originais, tal qual jorram da nascente, sem serem submetidas a qualquer método que não o engarrafamento.
A Água de Melgaço é, por isso, um monumento gasocarbónico que deve ser celebrado e mantido a todo o custo. Tem toda a força ferruginosa das origens. É bom ter em casa uma garrafeira de águas minerais naturalmente gasocarbónicas, começando pela mais levezinha (a Vidago), passando pelas duas versões da Água das Pedras e acabando na Água de Melgaço que, por ser original, é a que parece ter menos gás.

As águas minerais e de nascente que não são gasocarbónicas são outro campeonato, sejam mais ou menos gaseificadas. Algumas são muito boas, outras menos agradáveis. Ficam para outra altura. Bom proveito!"             Texto de Miguel Esteves Cardoso em http://lifestyle.publico.pt/napontadalingua/359693_a-agua-melgaco-e-pura-selvagem-e-heroicamente-ferruginosa

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