sexta-feira, 8 de julho de 2016

Melgaço no tempo dos nossos antepassados

Praça do Comércio, na vila de Melgaço em finais do século XIX
No livro “O Minho Pittoresco” de 1876, o autor dedica longas páginas ao nosso concelho e conta-nos como era a nossa terra nessa época. Começa por nos descrever a vila nestas palavras: “Um velho burgo feudal, que se transforma, à força de desejar a luz fecundíssima da civilização. Aquela torre de menagem, erguida como recordação do passado no meio das muralhas em ruína e das casarias, que afloram à cor do branco, tem ainda um aspecto de rude tristeza selvagem. É triste, e é forte, como um antigo guerreiro da Lusitânia. Olhando para essa fita de macadam que lhe chega do sul,e para essas tiras d'aço da via férrea, que vê desenrolar-se na margem galega, dir-se-ia que ela sonha talvez com as escaladas noturnas, as lutas peito a peito, os combates singulares da idade medieval, o cintilar coruscante das armaduras dos guerreiros.
E contudo, quando avistamos de longe o seu vulto sombrio e glorioso, erguendo-se altivo por sobre a povoação, a nossa pupila fixa um ponto branco nas suas ameias, como bandeira de paz, que substituiu os estandartes da guerra. É um marco geodésico, — verificamos quando chegamos perto, — isto é, um padrão que atesta o trabalho moderno da ciência, mas que os ângulos da torre sustentam, sem manifesto ciúme do seu passado de lutas.
E eis aí o que é Melgaço: — a vontade firme de progredir com o desejo de conservar as suas tradições honrosas, de que essa torre, melhor que nenhum outro monumento, representa o símbolo aos olhos dos contemporâneos.
Colocada no centro dum anfiteatro de verdura, onde a vinha enche com a sua cor de esmeralda clara quase todas as bancadas, desse lugar avistam-se as freguesias do concelho, que se estendem pela ribeira Minho e cujos campanários recortam, com as suas arestas pitorescas, a espessura dos arvoredos. Ao sul, a montanha como que nos dá ainda a sua sombra fresca. E em baixo, ao norte, na garganta das colinas, o Minho vai açodado, espelhando apenas um ou outro sorriso, quando vê na margem um esboço de planície a namora-lo com a sua inclinação de leito suave, que o convida a descansar um pouco.
A encosta galega com as suas vinhas, as suas árvores, os seus casais, as suas torres desmoronadas e vicejantes de hera, o anil recortado do alto das suas montanhas sucedendo-se em gradações insensíveis, completa a paisagem, tão bela nas suas linhas simples, tão formosa na sua melancolia fugitiva.
De fundação antiquíssima, Melgaço, ignora-se quem fosse o seu primeiro fundador e qual fosse também o seu primeiro nome. Sabe-se apenas que os árabes, se não os romanos, tiveram aqui uma fortaleza considerável, chamada o Castelo do Minho, que era já ruínas no tempo do conde D. Henrique.
Modernamente, a sua fundação é coeva do principio da monarquia portuguesa e foi Afonso Henriques que a ela procedeu, em 1170, como se vê duma inscrição na porta do norte da actual muralha, sendo todavia a torre e fortaleza mandadas edificar por D. Pedro Pires, prior do mosteiro dos crúzios de Longos Vales, e à sua custa, como diz D. Sancho I na carta de couto que deu ao convento em 1197.
D. Diniz enobreceu também Melgaço com a cinta de muralhas, de que hoje ainda se encontram os vestígios e que eram de pouco mais de dois metros de altura. O primeiro foral foi dado à vila por D. Afonso Henriques em 1181, dando já então aos seus moradores a aldeia de Chaviães. Este foral foi, em S. Tiago, confirmado por D. Afonso II em Agosto de 1219. E, pela segunda vez, em Guimarães por D. Afonso III a 9 de Fevereiro de 1261. Este mesmo rei lhe concedeu ainda outro foral, em Braga, a 29 de Abril de 1258 e novo foral lhe deu mais tarde em Lisboa D. Manuel a 3 de Novembro de 1513.
A vila actual entra decididamente no caminho da civilização. A estrada, que a liga a Monção e Valença, é hoje a sua principal artéria, mas os melgacenses desejam ainda, e com justiça, que as povoações que lhe ficam mais a norte como são S. Gregório, por um lado, e Castro Laboreiro, pelo outro, comunguem igualmente no grande banquete de progresso e luz, a que têm direito. Pobres parias os tristes filhos da serra, para chegar aos quais urge atravessar as mais desabridas montanhas, por caminhos intransitáveis, espiados pelos olhares cubiçosos dos lobos, que são os únicos guardas campestres daqueles solitários terrenos.

Melgaço possui um hospital em condições muito regulares e há pouco tempo também concluiu o seu cemitério. A linha telegráfica foi inaugurada no meio do maior regozijo em Novembro de 1874. Compreendia o antigo e glorioso burgo a importância dessa via de comunicação, que o relacionava com o mundo inteiro.” (Extraído de:
- VIEIRA, José Augusto (1886) - O Minho Pittoresco, tomo I, Edição da livraria de António Maria Pereira- Editor, Lisboa.)

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