sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

Manuel Alves de San Payo, o fotógrafo melgacense de Salazar


Manuel Alves de San Payo é natural da freguesia de S. Paio, deste concelho de Melgaço, nascido em 16 de Abril de 1890. É considerado um dos maiores mestres da fotografia do século XX em Portugal, tendo sido fotógrafo de Oliveira Salazar.


Manuel San Payo com o seu pai, Manuel Alves

Originalmente chamado Manuel Joaquim Alves, adotou depois o nome Manuel Alves de San Payo, em homenagem à sua freguesia de origem, e foi um muito aclamado fotógrafo retratista português, com atividade entre os anos 20 e 50 do século XX. Passou alguns anos no Brasil para depois regressar a Lisboa, onde instalou um estúdio de retratos fotográficos de renome na altura, principalmente devido aos “processos artísticos” pictorialistas que empregava nas suas fotografias.
Além de fotógrafo, foi cineasta, conferencista e publicista. Desde muito novo, revelou grande inclinação para as artes plásticas. Em 1902 ingressou no Seminário de S. António e S. Luís de Gonzaga, de Braga, tendo completado os preparatórios em 1909. Abandonando o seminário, emigrou para o Brasil, onde se empregou no comércio. Durante algum tempo, frequentou o liceu de Artes e Ofícios, onde aprendeu desenho. Empregou-se, depois, numa oficina fotográfica, como retocador, até que, por conta própria, começou a dedicar-se à fotografia. Fez exame de admissão à Escola Nacional de Belas Artes, do Rio de Janeiro, exame de cultura geral, tendo frequentado as aulas de desenho e pintura durante um ano. Depois começou a escassear-lhe o tempo e desistiu. Realizou diversas exposições: na Casa Castanheiro Freire, em 1924; na Casa Aguiar, em 1925; no Rio de Janeiro em 1926; em Petrópolis, em 1925; no seu estúdio, em Lisboa, em 1930; na Sociedade Nacional de Belas Artes, em 1937; no S. N. I., em 1950.
Escreveu em várias publicações, artigos da especialidade, tais como « A Voz », « Novidades », « Diário de Lisboa », « Objectiva », etc.
Realizou conferências na Sociedade Nacional de Belas Artes de Lisboa, intituladas: “A fotografia e o Futurismo”; “Como se deve Encarar a Crítica da Arte”. E na Sociedade de Propaganda de Portugal: “Luz e Sombra e o Processo do Bramélio”.
Durante a sua permanência no Brasil, realizou, em 1916, os filmes: A Quadrilha do Esqueleto, policial de grande metragem; A Cabana do Pai Tomás, tragédia; O Senhor de Posição, e vários documentários.
Entre as décadas de 1920 e 1950, Manuel Alves de San Payo, juntamente com Silva Nogueira, liderou em Portugal, a evolução do retrato fotográfico como meio de construção da imagem pública e divulgação pessoal de todos os que dela dependiam para o seu reconhecimento profissional. Manuel de San Payo era preferido pela alta sociedade, pelos políticos e pelos intelectuais.
Sabemos que em 1935 Manuel Alves de San Payo já era um fotógrafo de arte com notoriedade em Portugal mas só no Brasil, para onde emigrara por volta de 1909, realizara filmes. Pouco se sabe destas obras mas a sua realização e o reconhecimento do talento de San Payo como retratista terá motivado o convite que lhe foi feito pela publicação “O Mundo Português” (1934-1947), publicação da Agência Geral das Colónias (AGC) e do Secretariado da Propaganda Nacional (SPN), para filmar o “I cruzeiro de férias às colónias ocidentais”, projeto idealizado pelo próprio Marcelo Caetano.


Retrato de Oliveira Salazar, da autoria de Manuel San Payo com assinatura do autor (1940)

Retrato de Oliveira Salazar, da autoria de Manuel San Payo com assinatura do autor (data incerta)

Mais tarde, é agraciado pelo Presidente da República Óscar Carmona com o grau de Cavaleiro da Ordem de Santiago, condecoração atribuída em  11 de Dezembro de 1948.


Presidente da República Óscar Carmona, fotografia de Manuel San Payo (1942?)
O escritor Ferreira de Castro, em 21 de Fevereiro de 1952, observa Manuel San Payo enquanto preparava a máquina fotográfica e escreveu uma nota "O San Payo é o maior artista da fotografia em Portugal e grande em qualquer parte do Mundo. Quando trabalha, todo ele é movimento: ginasta, acrobata, saltador de obstáculos, enquanto os seus olhos de psicólogo surpreendem nos mais pequenos cambiantes nos nossos olhos e mais subtis expressões do nosso rosto. Tudo coroado por uma cabeleira boémia que parece agitada por um ciclone das Antilhas"
Por outro lado, Simonetta Luz Afonso, vulto da cultura portuguesa e conhecedora da obra de Manuel San Payo é de opinião de que “Entre os anos de 1920 e 1950, Manuel Alves San Payo foi o melhor sucedido dos mestres fotógrafos portugueses. Pelo seu atelier passaram, então, as figuras mais notórias da vida nacional, gente de sociedade, políticos, artistas e intelectuais, que San Payo registou através sua espantosa qualidade de retratista, largamente divulgada pelas revistas e magazines. Contudo, após a sua última exposição individual na Sociedade Nacional de Belas Artes, em 1950, o silêncio caiu sobre a obra e a personalidade deste artista. Se os mais velhos guardaram a lembrança indelével da sua produção, já as gerações mais jovens não puderam conhecê-la e, surpreendentemente, a própria História da Fotografia Portuguesa não conseguiu, ou desejou, registá-la.
Em 1990, a generosa e esclarecida doação do espólio San Payo ao Arquivo Nacional de Fotografia, pelos filhos do artista, constituiu o primeiro e decisivo passo para o reconhecimento histórico e artístico desta produção. Ao trabalho de inventário fotográfico largamente desenvolvido, o Arquivo Nacional de Fotografia acresce uma tarefa imprescindível de restauro conservação e salvaguarda de numerosos espólios que constituem parte integrante do nosso património.”
Recentemente, parte do seu espólio foi exposto no Museu do Chiado em Lisboa. A respeito dessa exposição, Simonetta Luz Afonso escreve “Fiel ao espírito desde o primeiro momento estabelecido para a sua programação, o Museu do Chiado mostra-se plenamente receptivo à divulgação de variadas expressões artísticas que, no caso presente da fotografia, estabelecem importantes pontes com o seu próprio acervo pictórico. Depois do sucesso que constituiu a exposição Flower, orgulhamo-nos agora de apresentar a retrospetiva do mestre fotógrafo San Payo. Homenagem a um verdadeiro criador, a presente exposição e este catálogo constituem um relevante documento para a História da Arte e, sem dúvida, motivo de surpresa e regozijo para o grande público pelo conhecimento da obra de um fotógrafo que, muito justamente, merece lugar assegurado na história e cultura do nosso tempo.” 
Manuel Alves de San Payo faleceu em 1974 e encontra-se sepultado no cemitério de S. Paio (Melgaço). 



Informações extraídas de:
- Arquivo Histórico da Presidência da República, Chancelaria das Ordens Honoríficas – Ordem Militar de Santiago da Espada (Processo de Concessão do grau de Cavaleiro a Manuel Alves de San Payo).
- BARRETO, António (1995) - San Payo: a arte do retrato, a sociedade e a política. in: San Payo – Retratos Fotográficos. Edição do Instituto Português de Museus – Museu do Chiado; Lisboa.
- SILVA, Raquel Henriques (1995) – O retrato fotográfico e o retrato na pintura San Payo e a arte portuguesa, 1920 – 1950. in: San Payo – Retratos Fotográficos. Edição do Instituto Português de Museus – Museu do Chiado; Lisboa.
- SOARES, Francisco & CRUZ, Maria Teresa (2016) Estórias Portugal – África: Concepção de um espaço digital de partilha. In: Media e Jornalismo, nº 29; Volume 16, Nº 2. Imprensa da Universidade de Coimbra, Coimbra.
- PIÇARRA, Maria do Carmo (2015) – A balada do mar salgado – Viagem filmada por paisagens sem homens. In: Revista Finisterra, I, nº 100.
- VAZ, Pe. Júlio (1996) – Pe. Júlio Vaz apresenta Mário. Edição de autor.

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