sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Peneda (A. de Valdevez): 61 anos depois de um milagre


No passado dia 4 de Fevereiro, cumpriram-se 61 anos sobre aquilo que poderia ter sido uma tragédia. Foi na Peneda, no vizinho concelho dos Arcos de Valdevez, em 1956. Um grande bloco granítico desprendeu-se do cimo do Penedo da Meadinha sobranceiro ao Santuário da Senhora da Peneda. Por milagre, não houve mortos, apenas alguns feridos que foram transportados no Hospital de Melgaço. O jornal arcuense “A Vanguarda”, na sua edição de 12 de Fevereiro, conta-nos tudo na primeira página:
“Certamente, devido às intensas geadas que se têm feito sentir, da mole imensa do Penedo da Meadinha, sobranceiro ao Santuário da Peneda, desprendeu-se um grande fragmento, que arrasou quatro casas e uma pequena parte do cemitério.
A traços largos, damos hoje uma ideia do grave desastre, que às dez horas do dia 2 ocorreu no Santuário da Peneda. Não nos contentando com as várias versões que até nós chegavam do desastre ocorrido na Peneda, deslocamo-nos àquele santuário para vermos in loco o que se tinha passado.
Certamente devido ao gelo infiltrado em alguma fenda da pedra, desprendeu-se uma enorme parcela daquele grande aglomerado de penedos que constituem o Penedo da Meadinha, que tanto encanta os turistas pela sua grandeza e sobranceria ameaçadora de todo o Santuário. Precipitada de tão grande altura, fragmentou-se no solo em volumosos blocos, que, em grande velocidade desceram a encosta, quase a pique, para, acto contínuo amarfanharem  sob o seu enorme peso, um espigueiro cheio de espigas, e o primeiro quartel dos romeiros, cortando-o ao meio, desmoronarem o cunhal do grande quartel imediato e perfuraram as paredes, dum lado ao outro da casa, há pouco construída, pertencente ao filho da “Laruga”, em que os móveis ficaram todos esmagados.
Um outro bloco ainda fez um rombo na parede doutra casa. O pedregulho atingiu vários telhados, dando a impressão do efeito de estilhaços de granadas. São elevados os prejuízos materiais, mormente nas casas do Santuário. Pode dizer-se que, por um favor especial da Senhora da Peneda, não houve desastres pessoais, que bem podiam ter sido muito volumosos.
Ficaram para cima de trinta pessoas se abrigo, que a Mesa da Confraria já agasalhou, por esmola, nos restantes quartéis. Mas em situação angustiosa e lancinante, ficou Maria de Jesus Martins, de 27 anos de idade, pois foi arremessada para o rés do chão do quartel que foi cortado ao meio, e completamente oculta debaixo dos escombros e do bloco destruidor. Gastaram hora e meia a fazer uma abertura para a retirar daquela aflitiva situação, tendo saído, com a admiração de todos, apenas com contusões ligeiras e um pequeno ferimento numa mão, pelo que só esteve no Hospital de Melgaço, algumas horas. Claudina Rosa Martins, de 43 anos e Constança de Sousa, de 45, também recolheram ao mesmo hospital, mas sem gravidade, tendo também já regressado ao lugar.
O pânico por que passou toda aquela gente, via-se bem estampado no rosto apavorado de todos. O movimentar de toda aquela “metralha” pedregosa produziu um som apavorante, que se repercutiu em toda a ribeira da Peneda. Uma septuagenária, que andava a apanhar lenha na encosta, ao ouvir um sinistro som de trovão, olhou em redor de si e só teve tempo de ver passar junto de si, dois enormes blocos, que na sua marcha vertiginosa arrastava outros, tendo sido atingida ligeiramente. Assombrada e fora de si, desceu e foi recolhida numa casa, onde se encontra com as faculdades mentais avariadas.
A Mesa deslocou-se ao local, onde deixou uma quantia aos pobres sinistrados e tomou providências para recolher as sem casa.”

Estragos na Peneda
(Foto enviada por Teresa Lobato)


(clique para ampliar)



Fonte: Jornal “A Vanguarda”, edição de 12 de Fevereiro de 1956.

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