sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

A paróquia de S. Paio de Melgaço: algumas notas históricas e património religioso edificado



A igreja e paróquia de S. Paio é uma das mais antigas do concelho de Melgaço. Existem referências a um antiquíssimo mosteiro que aparece documentado até ao século XII e designado como  de “S. Pelagii de Paterni”, ainda que existam algumas dúvidas acerca da sua existência, segundo alguns autores. A paróquia, nos séculos seguintes, conserva-se com a denominação de “S. Payo de Paderne” até ao século XIX, embora apareça desde o século XVIII, por vezes, como “S. Paio de Melgaço” e as duas designações coexistam durante algum tempo. Apenas, a partir de 1936 é que oficialmente passa a ter a atual designação de “S. Paio”.
A igreja paroquial é dedicada ao mártir S. Paio, também conhecido como Pelayo de Córdova, sobrinho do Bispo de Tui, tomado como refém por um rei mouro, e degolado no ano de 825, em Córdova. A dita igreja paroquial situa-se no lugar, atualmente designado, de Cruzeiro. Contudo, nas Memórias Paroquiais de 1758, o Reverendo Domingos Gomes, pároco à época, refere que entre os lugares que compõem a freguesia se encontra S. Payo em cujo lugar está situada a igreja com seis vizinhos”. A designação de “vizinhos” neste contexto não se refere ao número de residentes no lugar mas antes ao número de fogos (casas de habitação).
É curioso o nome do lugar se chamar de Cruzeiro, derivado da presença de um cruzeiro que apresenta a data de construção esculpida na pedra, vários séculos mais recente do que a igreja paroquial. Desconhecemos como se chamaria o lugar antes da edificação do dito cruzeiro. Este é uma construção quinhentista, mais concretamente de 1557. Edificado em granito, é composto por base de três degraus rectangulares sobre a qual assenta o plinto superiormente facetado apresentando-se com a inscrição “MDLVII” (1557) numa das faces. O fuste, inicialmente de secção quadrada, passa depois a ser hexagonal até ao capitel decorado com ornatos vegetalistas. Possui cruz com braços em toros e ostentando a imagem de Cristo.
Nas Memórias Paroquiais de 1758, o pároco dá-nos a lista de lugares que na época existiam nesta paróquia designada de “S. Paio de Melgaço”. Assim, a generalidade dos lugares que conhecemos na atualidade já existiam na época. Apenas, salientar que o atual lugar do Granjão é citado como dois, e não um lugar, com as designações de “Granjão de Cima e Granjão de Baixo”. No total, a paróquia, contava, à época, segundo o pároco, com “vizinhos (fogos) duzentos e quarenta e nove e número de pessoas, setecentas e treze”.
A freguesia vivia essencialmente da agricultura. O pároco escreve que em S. Paio de Melgaço se colhiam “frutos, milhão, centeio, trigo e milho alvo em abundância” bem como “vinho em abundância”.
Em 1758, segundo o abade Domingos Gomes, a igreja de S. Paio, tinha três naves, uma com três arcos, e cinco altares: o do orago S. Paio, onde estava o Santíssimo Sacramento; o da Senhora do Rosário; o da Senhora do Carmo; o do Santo Cristo e o das Almas.
De há pouco mais de um século, mais concretamente de 1913, encontrámos um documento referente ao “Arrolamento de Bens Culturais das Freguesias de Melgaço”, onde encontrámos uma pequena descrição da igreja onde podemos ler que a “igreja paroquial se compõe de seis altares com catorze imagens, coro, um púlpito, com dois sinos, adro que também serve de consistório…”
Como sabemos, a igreja que chegou até aos nossos dias pouco tem a ver com aquela que existiu até por volta de 1930. Nessa altura, o então pároco Raimundo Prieto mandou reformar a igreja tendo sido muito criticado na época. Nas “Obras Completas do Dr. Augusto César Esteves”, pode ler-se: Desta forma fica aliviada a responsabilidade do encomendado Raimundo Prieto assumida quando em 1930 resolveu alargar e de facto alargou a igreja, retirando-lhe os tais arcos.”
As capelas que atualmente existem na paróquia, à exceção da do lugar do Regueiro já existiam pelo menos há cerca de 300 anos. Em meados do século XVIII, existem referências à presença de quatro capelas nesta freguesia: a de Santo André, a de Nossa Senhora do Amparo, a de Nossa Senhora do Bom Despacho e a de S. Paio, no lugar de Cavaleiro Alvo. Em relação a esta última, no livro “Chorographia moderna do reino de Portugal” de 1751, o autor refere que já nessa época existia no dito lugar “uma ermida com a invocação de S. Payo”. Sabemos que em 1758, a administração desta capela pertencia ao povo desse lugar. Em 1913, esta capela é referida em documento como tendo “um adro, um altar, com uma imagem”.
Além desta ermida, havia nesta freguesia de S. Paio, em meados do século XVIII, a capela de Nossa Senhora do Bom Despacho, no lugar de Barata. A mesma era administrada por um tal Manuel Fernandes, da freguesia de Rouças. Sabe-se que em 1913, já existia no lugar de Barata uma capela de invocação a S. Bento. Não sabemos se se trata da mesma capela antes citada da Nossa Senhora do Bom Despacho. A atual capela é de traça arquitetónica simples e no inventário de bens culturais da freguesia de 1913, a capela é descrita como tendo “adro, uma sineta, um altar com três imagens”.
Em meados do século XVIII, já existia na freguesia de S. Paio, como se disse antes, uma capela dedicada a Santo André. O Padre Domingos Gomes, em 1758 situa a dita capela no lugar do Pinheiro. Desconheço se se trata do mesmo lugar a que hoje chamamos “Santo André”. A mesma capela era administrada pelo abade da paróquia, à época, o Reverendo Domingos Gomes. Sabemos que em 1913, esta capela tinha “uma sineta, um altar, cinco imagens e adro com uma árvore”.
Falta fazer referência à capela de Nossa Senhora do Amparo, no lugar do Barral. A mesma já existia em meados do século XVIII, sendo referida nas Memórias Paroquiais de 1758. Na época era administrada por Manuel Gonçalves, morador no lugar do Barral, juntamente com o Doutor Miguel Gomes de Abreu, da freguesia de Paderne, Diogo Álvares, residente no lugar do Granjão e Domingos Álvares, morador no Barral.
Esta capela é referida em 1913 e é descrita como possuindo “um adro, uma sineta, um altar com três imagens, um terço, um véu de ombros, um palio com as respetivas varas, cinco casulas de diferentes cores, vinte e duas toalhas de linho, uma estola, uma custódia de metal dourada, dois missais usados, uma cruz de prata e varas do mesmo metal, uma coroa de prata da Senhora do Rosário, uma opa de seda, seis opas usadas, três pendões e uma bandeira e vinte e sete peças de cortinados”.
Não termino este pequeno artigo acerca do património religioso da freguesia de S. Paio sem me referir à capela e cruzeiro da Nossa Senhora dos Aflitos no lugar do Regueiro. Trata-se de uma capela particular construída por Manuel José Gomes, conhecido no concelho de Melgaço como o “Mestre do Regueiro” por ser natural e morador no dito lugar da freguesia de S. Paio.
A sua construção remonta a 1866. O cruzeiro, ao qual me referirei mais abaixo, em frente à capela também é atribuída ao mesmo "artista" embora a sua edificação tenha sido concluída em 1859.
Envolvida por espaço agrário e à margem de caminho rural antigo, com um pequeno espaço fronteiro lajedo em granito e cruzeiro, a Capela do Senhor dos Aflitos é um pequeno templo com nave única de planta rectangular e cobertura com telhado de duas águas.
Os paramentos em alvenaria autoportante de granito apresentam indícios de terem sido rebocados a branco.
Na fachada frontal abre-se porta de verga encurvada encimada por cartela. O remate da fachada é por cimalha angular tendo ao centro um campanário (vazio) e nos extremos laterais urnas que coroam os cunhais.
Atribuído também a Manuel José Gomes, o cruzeiro acima referido, encontra-se no adro da Capela do Senhor dos Aflitos. Foi construído em granito e constituído por uma base rectangular de três degraus na qual assenta um plinto paralelipipédico que sustém a coluna de secção circular, com o terço inferior do fuste canelado sendo a parte restante lisa. Sobre este apresenta-se um capitel compósito onde se insere a cruz de braços cilíndricos estriados. Diversas esculturas ornamentam o cruzeiro: sobre o capitel dois querubins suportam coroa encimada por ave; na parte superior do fuste e logo abaixo do capitel encontra-se uma imagem da Virgem vestida de manto e uma pequena estatueta sobre mísula. Todo este trabalho escultórico é de qualidade pela minúcia e perfeição dos lavrados.

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