sexta-feira, 13 de abril de 2018

Melgacenses que combateram na Primeira Grande Guerra - Os Expedicionários da freguesia da Vila (Melgaço)


Há cerca de 100 anos, 72 melgacenses partiram para França para participarem no conflito mais horrendo que a História já tinha conhecido.
O blogue “Melgaço, entre o Minho e a Serra” homenageia nestes dias a coragem destes homens melgacenses que combateram numa guerra para a qual não estavam preparados. Desse contingente de soldados da nossa terra, 10 deles nasceram na freguesia de Santa Maria da Porta, atualmente designada de Vila. Entre os soldados desta freguesia, apenas António José Cardoso Ferreira Pinto da Cunha morreu na guerra, concretamente na célebre batalha de La Lys, a 9 de Abril de 1918, nunca se tendo encontrado os seus restos mortais. Outros dois soldados da vila de Melgaço foram feitos prisioneiros de guerra nessa batalha. Foram eles os combatentes Mário Afonso, nascido na Quinta de S. Julião, e António dos Reis, natural da Rua Direita, que estiveram em campos de prisioneiros na Alemanha até ao fim da guerra em Novembro de 1918.
Saibam quem foram os homens naturais desta vila de Melgaço que combateram nas trincheiras de França…

1 - António José Cardoso Ferreira Pinto da Cunha, segundo-sargento do Regimento de Obuses de Campanha, unidade sediada em Castelo Branco. Nasceu às 7 horas e meia do dia 28 de Julho de 1892, na Rua Direita, vila e freguesia Santa Maria da Porta, concelho de Melgaço, filho de António José Ferreira Pinto da Cunha, juiz desta comarca, e de Carlota Amália Cardoso. À época da sua partida para a guerra, encontrava-se solteiro e era morador na vila de Arcos de Valdevez. Embarcou para França integrado no Corpo Expedicionário Português a 20 de Agosto de 1917, onde pertenceu ao 6.º Grupo de Baterias de Metralhadoras (4ª Bateria). Combateu na Batalha de La Lys. Inicialmente dado como desaparecido em combate. Contudo, ao contrário de outros desaparecidos em combate melgacenses na batalha, o segundo sargento não constava entre os prisioneiros de guerra feitos pelos alemães. Mais tarde, foi dado como morto em combate na Batalha de La Lys a 9 de Abril de 1918. Desconhece-se o paradeiro dos seus restos mortais.

2 - Mário Afonso, soldado do Regimento de Artilharia nº 5 (2º Grupo de Baterias de Artilharia). Nasceu às duas horas e meia da manhã do dia 28 de Julho de 1891, filho de António Luiz Afonso e Tereza de Jesus, natural da Quinta de S. Julião, freguesia de Santa Maria da Porta, concelho de Melgaço. À época da sua partida para a guerra, era casado com Mariana Afonso desde 7 de Outubro de 1916 e residia na freguesia de Chaviães (Melgaço). Embarcou para França em 20 Agosto de 1917 integrado no Corpo Expedicionário Português, portador da chapa de identificação nº 28 641, tendo desembarcado no Porto de Brest em 25 de Agosto. Já em cenário de guerra, foi colocado no 2º Grupo de Baterias de Artilharia, 3ª Bateria, em 23 de Janeiro de 1918.  Combateu na célebre Batalha de La Lys (9 de Abril de 1918), onde foi dado como desaparecido em combate. Apenas em Novembro de 1918, por comunicação da Comissão de Prisioneiros de Guerra, se soube que tinha sido feito prisioneiro pelos alemães durante a batalha e levado para o Campo de Prisioneiros de Dulmen, situado na região da Westefalia (Alemanha). Sobreviveu à guerra. Depois da guerra ter terminado, foi libertado. Posteriormente, o soldado Mário Afonso foi punido pelo Comandante do Corpo Expedicionário Portugal no dia 31 de Dezembro de 1918, com 10 dias de detenção disciplinar porque “em 3 de Janeiro do presente ano acendeu uma vela no balcão que ocupava em Blessy (localidade a cerca de 70 Km a oeste da cidade de Lille) a qual caindo sobre uma porção de palha que ali se encontrava, originando um incêndio que produziu estragos na importância de 7971,88 francos que o Estado teve que pagar…”.
O soldado Mário Afonso embarcou no navio inglês "Northwestern Miller" em 31 de Janeiro de 1919 e desembarcou em Lisboa de 4 de Fevereiro de 1919. Viria a falecer às 20 horas do dia 28 de Dezembro de 1963.

Cartão de inventariação do soldado Mario Afonso
(Campo de Prisioneiros de Hameln - Alemanha)


3 - António dos Reis, Soldado do Batalhão de Infantaria nº 3 (Viana do Castelo), 4.ª Companhia do Corpo Expedicionário Português (2ª Divisão). Nasceu às nove horas da manhã do dia 25 de Junho 1892, filho de João Batista Reis e Laureana Joaquina Esteves, natural da Rua Direita, freguesia de Santa Maria da Porta (atualmente designada por freguesia da vila). À época da sua partida para a guerra, encontrava-se solteiro e era residente na vila de Melgaço. Embarcou para França em 15 de Abril de 1917 integrado no Corpo Expedicionário Português, portador da chapa de identificação nº 49 563. Já no cenário de guerra, sabemos que baixou ao Hospital nº 51 em 17 de Maio de 1917, tendo alta no dia 13 de Junho. Foi punido em 19 de Agosto do mesmo ano pelo Comandante da Companhia com 8 dias de detenção “porque tendo em 18 do corrente respondido à chamada para a formatura da instrução de noite, se ausentou dela sem autorização recolhendo ao seu alojamento…”. Ainda nesse ano de 1917, voltou a infringir as regras do Regulamento Disciplinar e recebeu nova punição em 19 de Dezembro por parte do Comandante da Companhia. Desta vez, foi punido com 10 dias de detenção por “ter saído da 1ª linha de trincheiras, onde prestava serviço, sem autorização e ainda porque sendo interrogado sobre quem o autorizou a vir à 2ª linha, informou falsamente citando o nome ao Comandante exposto o que se averiguou ser falso…”.
O soldado António dos Reis combateu na Batalha de La Lys tendo sido dado como desaparecido em combate na batalha em 9 de Abril de 1918. Meses mais tarde, soube-se, através da Comissão dos Prisioneiros de Guerra, que tinha sido feito prisioneiro pelos alemães durante as hostilidades e levado para o Campo de Prisioneiros de Friedrichsfeld (Alemanha). Sabe-se que em 2 de Fevereiro de 1919, se encontrava integrado no Batalhão de Infantaria nº 12. Posteriormente, o soldado António dos Reis fez a viagem até ao Porto de Embarque em Cherbourg (França) onde embarcou no navio inglês "Orita" em 13 de Fevereiro e desembarcou em Lisboa de 16 de Fevereiro de 1919. Viria a falecer em 6 de Maio de 1958, na vila de Melgaço.

Cartão de inventariação do soldado Mario Afonso
(Campo de Prisioneiros de Hameln - Alemanha)
4 - Adriano do Paço, Soldado do Batalhão de Infantaria nº 3 (Viana do Castelo), 4.ª Brigada do Corpo Expedicionário Português (2ª Divisão). Nasceu às seis horas da tarde do dia 16 de Fevereiro do ano de 1894, filho de Lourenço do Paço e de Albina Cândida Moreira, na Rua de Mello, na vila de Melgaço. À época da sua partida para a guerra, encontrava-se solteiro e era morador na vila de Melgaço.
Embarcou para França integrado no Corpo Expedicionário Português a 15 de Abril de 1917, onde pertenceu à Brigada do Minho. Já em França, sabemos que foi colocado do Depósito de Material de Bagagens, na Base de Retaguarda, em 6 de Novembro de 1917 “afim de fazer serviço nas oficinas anexas à secção de fardamento”. Foi punido em 15 de Abril de 1918 pelo Diretor  do Depósito de Fardamentos e Bagagens, "com 6 dias de detenção por ter faltado à formatura do recolher do dia 14, apresentando-se às 6 horas do dia seguinte…”. Baixou ao Hospital nº 30 em 29 de Abril de 1918, tendo alta em 4 de Maio. Foi punido em 21 de Junho desse ano pelo Diretor do Depósito de Fardamento “com 6 dias de detenção tendo em atenção o seu comportamento anterior porque estando nomeado para serviço  de ronda no dia 17 do corrente, apresentando-se 10 minutos mais tarde depois da hora determinada…”. Posteriormente, baixou ao Hospital Inglês de Calais em 19 de Janeiro de 1919, tendo alta no dia 25. Sobreviveu à guerra, tendo embarcado com destino a Portugal em 9 de Agosto de 1919.  Desembarcou em Lisboa, no cais de Alcântara, em 12 de Agosto de 1919.

5 - Agostinho de Araújo, Soldado do Batalhão de Infantaria nº 3 (Viana do Castelo), 4.ª Brigada do Corpo Expedicionário Português (2ª Divisão). Nasceu às seis horas da manhã do dia 23 de Março de 1892 na freguesia da vila de Melgaço (à época, Santa Maria da Porta), filho de José Joaquim de Araújo e de Anna Joaquina Domingues. À época da sua partida para a guerra, encontrava-se solteiro e era morador na freguesia da Vila. Embarcou em Lisboa, no cais de Alcântara, para França integrado no Corpo Expedicionário Português a 15 de Abril de 1917, onde pertenceu à Brigada do Minho. São muito escassos os dados sobre o percurso deste soldado durante a guerra. Sabe-se que foi promovido ao posto de 1º Cabo em 12 de Agosto de 1918. Sobreviveu à guerra e embarcou para Portugal no dia 15 de Abril de 1919 em Cherbourg, a bordo do navio inglês “Northwestern Miller”, tendo desembarcado em Lisboa em 19 de Abril. Após a guerra, viria a casar com Emília Rosa Bermudes em 18 de Janeiro de 1930. Faleceu no dia 11 de Setembro de 1954.

6 - João Gonçalves, Soldado do Batalhão de Infantaria nº 3 (Viana do Castelo), 4.ª Brigada do Corpo Expedicionário Português (2ª Divisão). Nasceu às quatro horas da manhã do dia 4 de Fevereiro de 1894 na freguesia da vila de Melgaço (à época, Santa Maria da Porta), na rua Direita, filho de pai incógnito e de Rosa Gonçalves. À época da sua partida para a guerra, encontrava-se solteiro e era morador na rua Direita, na vila de Melgaço. Embarcou em Lisboa, no cais de Alcântara, para França integrado no Corpo Expedicionário Português a 15 de Abril de 1917, onde pertenceu à Brigada do Minho.
Já em França, foi colocado no Quartel General da Base - Depósito de Materiais da Base em 6 de Novembro de 1917, ficando a prestar serviço na Secção de Fardamento.
Foi punido em 25 de Maio de 1918 pelo Diretor do Depósito de Fardamentos da Base “com 2 dias de detenção  tendo que atendendo ao seu bom comportamento anterior, porque estando nomeado para serviço de ronda no dia 17 do corrente, apresentou-se 10 minutos mais tarde depois da hora que lhe havia determinada…”. Foi novamente punido em 15 de Abril de 1918 pelo Diretor do Depósito e Oficinas de Fardamentos da Base “com 6 dias de detenção por ter faltado à formatura do recolher do dia 14 do corrente apresentando-se às 6 horas do dia 15…”.
Sobreviveu à guerra e embarcou em Cherbourg (França) com destino a Portugal no dia 6 de Maio de 1919, a bordo do navio português “Gil Eanes”, tendo desembarcado em Lisboa, no cais de Alcântara, em 10 de Maio. Após a guerra, viria a casar com Isolina Augusta Gonçalves em 11 de Novembro de 1940. Faleceu às 12 horas e 50 minutos do dia 19 de Dezembro de 1940.

7 - José Maria Pereira, Soldado do Regimento de Obuses de Campanha - 4ª Bateria, unidade sediada em Castelo Branco. Nasceu às oito horas da manhã do dia 7 de Maio de 1892 na freguesia da vila de Melgaço (à época, Santa Maria da Porta), na rua Direita, filho de Alfredo Fernandes Pereira e de Ludovina Rosa Gonçalves. À época da sua partida para a guerra, encontrava-se solteiro e era morador na rua Direita, na vila de Melgaço. Embarcou em Lisboa, no cais de Alcântara, para França integrado no Corpo Expedicionário Português a 17 de Agosto de 1917.
Já em França, foi promovido a 1º Cabo em 1 de Setembro de 1917. Viria a ser punido no dia 26 de Novembro de 1917 “pelo Comandante da Bateria com 4 dias de detenção por não cumprir uma determinação  de serviço ordenada pelo seu Comandante de bateria”.
Posteriormente, em 8 de Fevereiro de 1918, baixa à ambulância nº 3, sendo evacuado para o Hospital de Sangue no dia seguinte (dia 9). De seguida, volta a ser evacuado, desta vez para o Hospital Canadiano 3 no dia 11 desse mês de Fevereiro. Em 29 de Março de 1918, foi evacuado para o Hospital da Base nº 1.
Em 22 de Abril de 1918, foi julgado incapaz para todo o serviço e foi repatriado. Sobreviveu à guerra e embarcou em Cherbourg (França) com destino a Portugal no dia 14 de Maio de 1918, tendo desembarcado em Lisboa, no cais de Alcântara, em 17 de Maio.

8 - Mário Teixeira Pinto, Soldado do Regimento de Obuses de Campanha - 5ª Bateria, unidade sediada em Castelo Branco. Nasceu às onze horas da noite do dia 5 de Abril de 1893 na freguesia da vila de Melgaço (à época, Santa Maria da Porta), na rua da Misericórdia, filho de Arthur Napoleão de Mattos Teixeira Pinto, telegrafista, e de Claudina Roza da Silva. À época da sua partida para a guerra, encontrava-se casado desde 1 de Janeiro de 1916 com Emília Delfina de Araújo e era morador na vila de Melgaço. Embarcou em Lisboa, no cais de Alcântara, para França integrado no Corpo Expedicionário Português a 20 de Agosto de 1917.
Já em França, foi colocado no 6º Grupo de Baterias de Artilharias em 21 de Dezembro de 1917 por ordem do Comando da 2ª Divisão do C.E.P.
Em 10 de Junho de 1918, foi “condenado pelo Tribunal de Guerra do Corpo, na penas de seis meses de Presídio Militar, ou em alternativa, na pena de seis meses de incorporação no Depósito Disciplinar e, em qualquer dos casos, na pena de baixa de Posto. Ordem do Corpo Expedicionário Português nº 158, 22/6/1918”. Em consequência da decisão do Tribunal Militar, segue marcha escoltado até Cherbourg onde dá entrada no dia 28 de Junho de 1918, no Depósito de Adidos do Corpo Expedicionário. Em 2 de Julho de 1918, dá entrada na prisão do acampamento. Em 8 de Julho desse ano, segue marcha até ao Porto de Embarque de Cherbourg, de onde sai a bordo do navio “Pedro Nunes” no dia 16 de Julho de 1918, tendo desembarcado em Lisboa, no cais de Alcântara, em 19 de Julho.
Viria a falecer em Luanda (Angola) no dia 14 de Julho de 1971.

9 - António de Melo, Soldado do 3º Grupo Automóvel - Comboio Automóvel. Nasceu às nove horas da noite do dia 31 de Dezembro de 1894 na freguesia da vila de Melgaço (à época, Santa Maria da Porta), na rua Direita, filho de pai incógnito e de Júlia da Glória de Melo. À época da sua partida para a guerra, encontrava-se solteiro e era morador na vila de Melgaço. Embarcou em Lisboa, no cais de Alcântara, para França integrado no Corpo Expedicionário Português a 26 de Setembro de 1917, tendo chegado ao Porto de Brest no dia 30 do mesmo mês.
Já em França, sabe-se que foi colocado no Serviço de Transporte Automóvel em 1 de Abril de 1918 onde ficou com o nº 961. Foi punido em 21 de Abril de 1918 pelo Comandante do Parque Automóvel “com 2 guardas por ter faltado à 1ª refeição”. Foi novamente punido em 28 de Abril do mesmo ano pelo Comandante do Parque Automóvel com 2 dias de detenção por ter saído do estacionamento sem licença”. Foi novamente punido e 5 de Maio de 1918 pelo Comandante do Parque Automóvel “com 4 dias de detenção por ter faltado à 1ª refeição sem motivo justificado”.
Foi condecorado com a Medalha Comemorativa da Expedição a França segundo consta Ordem de Serviço nº 49 da Secção Automóvel do Quartel General do Corpo Expedicionário de 22 de Fevereiro de 1919.
Em 10 de Junho de 1919, abandona a Secção Automóvel afim de seguir para Cherbourg para o Porto de Embarque com vista a ser repatriado. Embarca com a Secção de Adidos em 5 de Julho no navio inglês “Northwest Miller”, tendo desembarcado em Lisboa, no cais de Alcântara, em 19 de Julho desse ano de 1919.
Viria a falecer em 31 de Agosto de 1944, na vila de Melgaço.

10 - Secundino Augusto Calheiros, Soldado da 2ª Companhia do Batalhão de Sapadores dos Caminhos de Ferro. Nasceu às oito horas da noite do dia 13 de Dezembro de 1892 na freguesia da vila de Melgaço (à época, Santa Maria da Porta), filho de pai incógnito e de Silvana Inocência Calheiros. À época da sua partida para a guerra, encontrava-se casado com Maria Emília Ferreira desde 5 de Dezembro de 1916 era solteiro e era morador em Vila Praia de Âncora, Caminha. Embarcou em Lisboa, no cais de Alcântara, com destino a França integrado no Corpo Expedicionário Português a 26 de Maio de 1917, em direção ao Porto de Brest.
Já em França, sabe-se que baixou ao Hospital da Base 1 no dia 9 de Abril de 1918, dia da batalha de La Lys. No mesmo Hospital, foi julgado incapaz para todo o serviço por Junta Médica. Teve alta no dia 2 de Maio. Posteriormente, embarca no Porto de Embarque em Cherbourg com destino a Portugal, tendo desembarcado em Lisboa, no cais de Alcântara, em 17 de Maio de 1918.
Viria a falecer em 28 de Maio de 1973 em Vila Praia de Âncora (Caminha).

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