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sexta-feira, 23 de agosto de 2019

Melgaço em postais a cores de início do século XX




O blogue apresenta-vos uma pequena coleção de postais a cores com paisagens de Melgaço de inícios do século XX. Tratam-se de postais com pinturas a cores feitas em cima de fundo fotográfico e que nos mostram aspectos de vários pontos do nosso concelho: da vila de Melgaço, a Remoães, ao parque termal e hoteleiro do Peso, a fronteira de S. Gregório, sem esquecer  Paços, Paderne ou Castro Laboreiro, entre outros recantos da nossa terra retratados na época...
Viaje no tempo!




















sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019

O legado de Manuel José Gomes (S. Paio, Melgaço, 1825-1901): o mais famoso pedreiro do seu tempo




Na segunda metade do século XIX, Melgaço conheceu todo o esplendor da arte de trabalhar a pedra pelo maior mestre do ofício do seu tempo. Refiro-me a Manuel José Gomes, mais conhecido na época como o “Mestre do Regueiro”.
Nasceu em Julho de 1825 no dito lugar da freguesia de S. Paio, deste concelho de Melgaço, filho de Manuel José Gomes e de Anna Joaquina de Freitas, lavradores, naturais e residentes no mesmo lugar do Regueiro.
No livro “Padre Júlio Vaz apresenta Mário”, o autor elogia os dotes artísticos de Manuel José Gomes nesta palavras: Em terras de Melgaço, é de crer que nenhum outro artista tenha deixado de si tantas e tão belas memórias escritas no duro granito da região como as que deixou Manuel José Gomes vulgo Mestre Regueiro, canteiro distinto que de toscas e rudes pedras obrou maravilhas. Os seus trabalhos quer pela solidez e perfeição de acabamento, quer pela pureza e harmonia de linhas denotam ter sido ele não só um artista consumado, como também um homem consciencioso e de vistas largas. Não era ceguinho… e no Alto Minho, apenas o deve ter igualado, igualado, mas não excedido, Mestre Francisco Luís Barreiros, de Ponte do Mouro, autor do célebre «Pedro Macau» deste lugar, do sumptuoso e formosíssimo escadório da Santuário da Peneda e de suas respectivas estátuas e de muitos outros não menos apreciados lavores.
Associado com seu irmão António bom artista também, mas muito longe de chegar às solas daquele Mestre Regueiro, deixou no concelho uma obra vastíssima, entre ela os prédios do sr. dr. Pedro Augusto dos Santos Gomes, na Praça da República, do sr. dr. António Cândido Esteves, na Rua Nova de Melo (1873); o que foi do médico Francisco Luís Rodrigues Passos, na Vinha das Serenadas (1885), e o que foi de Joaquim Luís Esteves, na Rua da Calçada; o edifício do Hospital (iniciado em 1875) [e concluído em 1892]; o [casarão onde mais tarde iria funcionar] “Asilo Pereira de Sousa”, em Eiró; o frontal, ou melhor a escadaria, da igreja de Prado (1884) e pouco depois a de Remoães; o artístico e aprimorado cruzeiro do Regueiro (1859) e a capelinha da Senhora dos Aflitos no mesmo lugar (1866); o cruzeiro de Fiães (1875), a pia baptismal e uma imagem em pedra da igreja de S. Paio, cuja perfectibilidade e acabamento dão a impressão de terem sido feitas em mármore, etc., etc.
Porém, o seu maior título de glória, é o falado cruzeiro do Regueiro, onde o artista atingiu, por assim dizer, o sublime. O seu maior título de glória é este, é; mas… ainda assim… tenho para mim que há outra obra à sua autoria atribuída que, se não iguala aquela, pouco lhe ficará a dever. E esta é, nem mais nem menos, do que o arrebatador e elegantíssimo fontanário da Casa do Reguengo (1875) uma joia… uma maravilhazinha em pedra lavrada, desconhecida ou quase da maioria dos Melgacenses.”

Cruzeiro, junto à capela de Nossa Senhora dos Aflitos (S. Paio, Melgaço)

De facto, o cruzeiro junto da capelinha de Nossa Senhora dos Aflitos, no lugar onde nasceu, é a obra maior deste pedreiro e merece uma demorada contemplação. Foi construído em granito, tal como todas as restantes obras mencionadas, e constituído por uma base rectangular de três degraus na qual assenta um plinto paralelipipédico que sustém a coluna de secção circular, com o terço inferior do fuste canelado sendo a parte restante lisa. Sobre este apresenta-se um capitel compósito onde se insere a cruz de braços cilíndricos estriados. Diversas esculturas ornamentam o cruzeiro: sobre o capitel dois querubins suportam coroa encimada por ave; na parte superior do fuste e logo abaixo do capitel encontra-se uma imagem da Virgem vestida de manto e uma pequena estatueta sobre mísula. Todo este trabalho escultórico é de qualidade pela minúcia e perfeição dos lavrados.
Na enumeração das obras do Mestre do Regueiro, o Padre Júlio Vaz, certamente por esquecimento, não citou outra obra admirável de Manuel José Gomes que são as Almas de S. Jerónimo em Parada do Monte, neste concelho de Melgaço.

Almas de S. Jerónimo (Parada do Monte, Melgaço)

Manuel José Gomes, o Mestre do Regueiro, nunca casou nem teve filhos. Faleceu no lugar do Regueiro, onde nasceu e sempre viveu em de Agosto de 1901, com 76 anos de idade. Foi sepultado no adro da igreja de S. Paio no dia 5 do mesmo mês e ano. Ficou a sua herança que chegou até nós.


Informações extraídas de: 
- VAZ, Júlio (1996) - Padre Júlio Vaz apresenta Mário. Edição de Autor.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2018

A excelência do Presunto de Melgaço ao longo dos tempos



Desde há vários séculos, variadíssimos documentos históricos atestam as virtudes do famoso Presunto de Melgaço. São destacados ao longo dos tempos aqueles que são feitos em Fiães e em Castro Laboreiro.
Há cerca de 500 anos, o presunto de Melgaço já fazia parte dos tributos a pagar ao rei D. Manuel I, conforme refere o foral manuelino de 3 de Novembro de 1513 o que comprova o seu elevado valor. Neste foral, diz-se que o rei e seus sucessores deviam receber por casais reguengos dispersos pelas freguesias de Rouças e Chaviães três presuntos por ano.
Já nesta altura, se faz referência ao facto de o presunto em Fiães não se conservar no sal mas sim curado e fumado. A comprovar o que se refere, basta aludir ao tal contrato de arrendamento das rendas do Mosteiro de Fiães, relativas ao ano económico iniciado no S. João de 1483 e a terminar na véspera da mesma festa do ano seguinte (1484), feito em 9 de Abril de 1483, pelo comendatário, D. Frei Justo Baldino, bispo de Ceuta, ao abade de Rouças, Álvaro Gonçalves, e ao padre Fernando Domingues, ambos moradores da vila de Melgaço, pelas quais deveriam pagar vinte e um mil reais brancos da moeda corrente “e mais uma dúzia de marrans (presuntos) secas e curadas e dezoito lampreas secas”.
No século XVIII, é a vez do Padre António Carvalho da Costa no seu livro “Corografia portugueza e descripçam topografica do famoso Reyno de Portugal”, publicado em 1706, fazer alusão ao nosso presunto destacando, quando se refere a Melgaço, que “tem boas e férteis terras, pela maior parte, mas em particular o vale da Folia [designação antiga para o atual território da freguesia de Remoães, concelho de Melgaço] com grandes vantagens: dá muito pão e vinho, frutas, feijão, hortaliças e cebolas muy celebradas por doces e as melhores desta província, excelentes presuntos sem sal...”
Temos ainda dizeres comprovativos da qualidade superior “É effectivamente a carne mais saborosa de Portugal e o fiambre feito d’estes presuntos, é óptimo” na A Gazeta de Lisboa, nº 1, de Janeiro de 1824. Aqui publicita-se a venda dos presuntos de Melgaço em Lisboa “(…) na rua dos Franqueiros, loja de Sola nº 116, há para venda presuntos de Lamego e Melgaço de superior qualidade (…)”
Lucas Rigaud, cozinheiro real no tempo da rainha D. Maria I, refere na sua obra maior “O Cozinheiro Moderno ou Nova Arte de Cozinhar”, publicada em 1826, “(…) os presuntos que nos vem de Lamego, Montalegre e Melgaço são excelentes (…)”. A monarca terá provado o Presunto de Fiães (freguesia de Melgaço), do qual terá dito que “… era um dos melhores manjares até aos dias d’ hoje…”
Na publicação lisboeta “O Panorama”, em 1841, no seu volume V, referindo-se à economia doméstica alude a uma “(…) receita para preparar os presuntos de maneira que sejam iguais aos melhores de Melgaço ou Lamego (…)”.
Se consultarmos outros jornais durante o século XIX, reparamos que o presunto de Melgaço também era vendido na cidade do Porto. Por exemplo, no “Jornal do Porto”, na sua edição de 25 de Dezembro de 1869 encontramos um anúncio com os seguintes dizeres: “Presuntos de Melgaço – Próprio para Fiambre. Vendem-se na Travessa da Picaria, nº 23”.
Desde tempos recuados que os afamados presuntos de Melgaço atravessavam o Atlântico rumo ao Brasil. Tal é comprovado no livro “Portugal Antigo e Moderno”, publicado em 1875, da autoria de Pinho Leal, quando este refere que “São justamente famosos os presuntos de Melgaço, e do seu concelho, e se exportam em grande quantidade, para todo o reino e para o Brasil.
A comprovar a fama do presunto de Melgaço no Brasil, encontramos, na publicação brasileira “Jornal do Agricultor”, em 1880, uma receita de presunto de fiambre. Diz-se na receita, que para obter o melhor resultado, devia-se utilizar presunto de Melgaço ou de origem galega acrescentando que ”devem-se preferir destas procedências porque não precisam ser demolhados, nem de temperos para ficarem gostosos”.
Ainda no século XIX, é o grande Ramalho Ortigão que faz alusão ao precioso manjar melgacense no seu livro “As Praias de Portugal”, publicado em 1876. Quando nos fala de um hotel em Vila do Conde, conta-nos que “o proprietário distrae a attenção dos forasteiros (…) servindo-lhe magnífico vinho verde, admiráveis presuntos de Melgaço, de primeira ordem,...”
O mesmo Ramalho Ortigão, no seu livro “As Farpas” (1882), escreve que “Todas as especialidades culinárias se anunciam em grandes doses: os paios de Castelo de Vide, os presuntos de Melgaço (…)”. Neste mesmo ano, um outro escritor, João Penha, na sua obra “Rimas” faz um canto aos presuntos de Melgaço. O mesmo autor em 1893, dedica novamente ao presunto melgacense um soneto no livro "Poetas Minhotos".
Em 1886, José Augusto Vieira na obra “O Minho Pitoresco” escreve “O Presunto de Melgaço! Que epopeia seria necessária para descrever-lhe o paladar fino e delicado, o aroma gratíssimo, a cor rosa escarlate, a frescura viçosa da fibra (...) o Presunto de Melgaço, conhecido em todo o país é por assim dizer a syntese da phisiologia local. Válido, robusto, ágil, com o sangue puro bem oxygenado a estalar-lhe nas bochechas rosadas, o melgacense genuíno destaca-se dos habitantes dos outros concelhos próximos, a ponto de ser entre estes vulgar a phrase de: - Ter a cara do Presunto de Melgaço - quando se falla de alguém com as boas cores de saúde (…) Apesar, porém, de todas as tuas deliciosas qualidades, ó apetitoso quadril suíno, força é esquecer-te, como a todas as cousas boas ou más d’este mundo(…)”.
No mesmo livro, o autor acrescenta “O presunto, aquele magnífico Presunto de Melgaço, cujas deliciosas qualidades te descrevi, leitor amigo, é especialmente curado em Fiães, onde o preparam sem sal, receita talvez d’algum monge epicurista...” De facto, o presunto fazia parte de um conjunto de produtos de fabrico doméstico que funcionavam como reserva alimentar e também como moeda de troca nas trocas comerciais. Já nos séculos passados, Melgaço mantinha uma relação muito estreita com a Galiza. José Augusto Vieira em 1886 dizia nas suas referências relativamente ao Presunto de Melgaço “(...) fazendo-se bastantes transacções com a Galiza, e exportando para todo o país os célebres presuntos e para os concelhos próximos algum vinho, lãs, cereais e castanha”.
Na viragem do século XIX para o século XX, a excelência do presunto de Melgaço mantém-se bem visível. Atentemos nesta notícia datada de 4 de Março de 1900 no jornal brasileiro “A Imprensa” onde se fala da presença do presunto de Melgaço na Exposição Universal de Paris. Na notícia, pode ler-se que ”O proprietário do Hotel Continental de Vigo e do Hotel Rio Minho, em Valença, pensa, de sociedade com um dos principais vinicultores e proprietários de Monsão, em instalarem restaurante durante a Exposição de Pariz, e no local onde já se encontra outras casas do género de differentes paízes, e onde serão servidas comidas minhotas, ou por outra, cosinhados minhotos, onde não faltará o presunto de Melgaço...”
Na década de 30 do século passado, a fama mantém-se como se atesta na referência no Anuário do Distrito de Viana do Castelo, Vol. I, em 1932 onde se pode ler relativamente ao concelho de Melgaço: “São afamados os presuntos, conhecidos no mercado sob a designação de Presunto de Melgaço”.
Em tempos menos recuados, continuamos a encontrar os merecidos elogios ao Presunto de Melgaço. Na publicação “Vida Mundial”, na sua edição de 20 de Maio de 1976, num artigo intitulado “Gastronomia Portuguesa” destaca de entre a gastronomia das várias regiões portuguesa, que “as carnes do Norte são magníficas, e por isso os enchidos são maravilhosas criações culinárias. O seu presunto de Melgaço, de Chaves e Montalegre, o seu salpicão e o seu fiambre, (...) são um prato digno dos deuses”.
Podíamos aqui colocar muitas mais referências que podemos encontrar em outros documentos em diversas épocas históricas. Os tempos mudaram ao longo dos séculos mas a sabedoria da saber produzir presuntos de excelência mantém-se intacta. Recentemente, estabelecimentos de restauração em Melgaço começaram a fazer constar nos seus menus a famosa e antiga receita dos “Bifes de Presunto de Melgaço”. Uma atitude inteligente, quanto a mim, já que, além de se contribuir para que não se perca esta receita ancestral, é um prato confecionado com um produto distintivo da nossa terra.






Fontes consultadas:
- “A Imprensa” , edição de 4 de Março de 1900;
- Anuário do Distrito de Viana do Castelo (1932), Vol. I, 1932, Empresa Gráfica do Notícias de Viana, Viana do Castelo;
- COSTA, Padre António Carvalho da (1706) - Corografia Portuguesa, tomo I, Valentim da Costa Deslandes, Lisboa;
- COSTA, Padre António Carvalho da (1868) - Corografia Portuguesa 2.ª Ed., tomo I, Typografia de Domingos Gonçalves Gouvea, offerecido A El Rey D. Pedro II;
- “Gazeta de Lisboa”, n.º 1, Janeiro de 1824, Lisboa;
- “Jornal do Agricultor”, edição de 3 de Março de 1880;
- “Jornal do Porto”, edição de 25 de Dezembro de 1869;
- LEAL, Augusto de Pinho (1875), Portugal Antigo e Moderno, Livraria Editora de Mattos & Companhia, Lisboa;
- MARQUES, José (1996) – Em torno do termo marrã. Revista da Faculdade de Letras da Universidade do Porto - História, Porto.
- ORTIGÃO, Ramalho (1876) – As Praias em Portugal. Magalhães & Moniz Editores; Livraria Universal, Porto.
- ORTIGÃO, Ramalho (1882) - As Farpas – o país e a sociedade Portuguesa, Tomo V, Livraria Clássica Editora, Lisboa;
- “O Panorama” (1841), Vol. V, Typografia da Sociedade, Lisboa;
- PENHA, João (1882) - Rimas, Avelino Fernandes e Cª Editores, Lisboa;
- RIGAUD, Lucas (1826) - O Cozinheiro Moderno ou Nova Arte de cozinhar. 5.ª edição, Typografia Lacerda, Lisboa;
- “Vida Mundial”, edição de 20 de Maio de 1976;
- VIEIRA, José Augusto (1886) - O Minho Pittoresco, Tomo I, Livraria de António Maria Pereira-Editor, Lisboa.

sexta-feira, 9 de novembro de 2018

Livro "Melgacenses na I Grande Guerra (e outras guerras do século XX)"



Domingo, dia 11 de Novembro de 2018, assinala-se um século sobre a assinatura do Armistício que punha fim à Primeira Grande Guerra, um conflito onde combateram dezenas de melgacenses e onde alguns deles tombaram em combate.
Da investigação de Joaquim A. Rocha e Valter Alves, nascerá, muito em breve, um livro onde os autores pretendem perpetuar a memória destes valentes combatentes filhos desta nossa terra. No prefácio desta obra, pode ler-se: “Foi há pouco mais de 100 anos que os primeiros soldados do contingente que Portugal enviou para combater em França na I Guerra Mundial chegaram à Flandres. Em África, já combatiam os alemães desde 1914.
Com base nos dados de que dispomos, de Melgaço, partiram para a Flandres, 73 homens, oriundos das diversas freguesias. Estes homens foram autenticamente “roubados” às suas vidas e obrigados a ir para uma guerra para a qual não estavam preparados. Paderne, com 14 homens, Penso, com 12 homens e Vila, com 14 homens são as freguesias melgacenses que mais contribuíram em termos de número de efetivos. Estes homens da nossa terra, feitos soldados, tinham todos à data do embarque, idades entre 22 e 27 anos completos (nascidos entre 1891 e 1895), à exceção dos oficiais que eram um pouco mais velhos.
Assim, entre Janeiro e Novembro de 1917, partiram estes homens do Cais de Alcântara, rumo ao porto de Brest (França) numa viagem de navio de vários dias. Daí seguiram de comboio até à zona sul da Flandres francesa perto de Armentières, nos vales dos rios Lys e Aire.
Depois de uma curta estadia em Brest, porto de desembarque das tropas portuguesas, seguia-se o transporte, de comboio, até à região de “Aire”, zona destinada às tropas do Corpo Expedicionário Português.
E foi num clima agreste, de neve, chuva e frio, língua e costumes tão diferentes dos seus, que estes homens da nossa terra e as tropas portuguesas tiveram de suportar mais de um mês de treino complementar, junto do exército britânico, para se poderem “familiarizar” com as armas inglesas com que iam combater e com as novas formas da guerra que iam conhecer de perto.
Na frente europeia, dos 73 homens naturais de Melgaço que partiram, 10 morreram caídos em combate ou devido a outras causas como doenças. O primeiro melgacense a morrer em combate foi o soldado António Alberto Dias, natural do lugar da Verdelha (Paderne) que faleceu a 9 de Outubro de 1917 na Flandres (França).
Quatro dos caídos em combate, faleceram durante a Batalha de La Lys (9 de Abril de 1918). Foram eles os soldados José Cerqueira Afonso, de Paços (Melgaço); José Narciso Pinto, de Chaviães; João José Pires, de Paços e o segundo sargento António José da Cunha, natural da freguesia da Santa Maria da Porta (Vila de Melgaço). O último pertencia ao 6.º Grupo de Baterias de Metralhadoras e os três primeiros eram soldados que pertenciam à 4ª Brigada de Infantaria do CEP, Regimento de Infantaria n.º 3 (Viana do Castelo). Esta era conhecida como a Brigada do Minho, a que pertenciam a grande maioria dos soldados melgacenses, e já tinha conquistado uma reputação de bravura na frente de batalha muito antes de lhe ser confiada, em Fevereiro de 1918, a defesa do sector de Fauquissart, em Laventie, na Flandres francesa, perto da fronteira com a Bélgica, onde ainda se encontrava nesse fatídico dia 9 de Abril de 1918, quando foi dizimada pelos alemães na dita batalha de La Lys.
Os soldados da Brigada do Minho tinham passado a noite de 8 para 9 de Abril a arrumar armamento, munições e outros equipamentos e seus pertences. Iam ser rendidos por batalhões ingleses no dia 9 e hoje em dia acredita-se que os alemães sabiam disso. Sabiam também que a infantaria portuguesa não estava preparada para aquela guerra e que tinham sido treinados à pressa numa falácia vendida pelo regime republicano que apelidaram de “Milagre de Tancos”. Os soldados de Melgaço e de outras regiões eram lavradores, pedreiros e de outros ofícios. Muitos deles nunca tinham saído da sua terra. A grande maioria nem sabia ler e escrever. Um soldado não se faz num par de meses. Esta batalha foi, por essas e outras razões, um dos maiores desastres de toda a História Militar portuguesa. No dia seguinte, chegara a hora de contabilizar as baixas: 398 mortos (369 praças e 29 oficiais) e uma esmagadora maioria de prisioneiros (6585, dos quais 6315 eram praças e 270 oficiais). Na 4ª Brigada de Infantaria, à qual pertenciam maioria dos melgacenses, as baixas situam-se em cerca de 60% entre mortos, feridos e prisioneiros. No Regimento de Infantaria 3 (Viana do Castelo), as baixas cifram-se em 570, de um total de 700 homens que estavam em posição naquela noite. Deste total de baixas, houve registos de 91 mortos (4 de Melgaço), 155 feridos, 7 desaparecidos e 317 soldados feitos prisioneiros. Deste total de prisioneiros de guerra, nove soldados eram melgacenses. Inicialmente, estes homens foram dados como “desaparecidos em combate” e esse facto foi comunicado às famílias. Vários meses mais tarde, após o fim da guerra, em Novembro de 1918, a Comissão dos Prisioneiros de Guerra, comunicou que estes homens se encontravam em campos de prisioneiros na Alemanha, pondo fim a meses de sofrimento dos soldados e das suas famílias que os julgavam mortos. Na realidade, estes melgacenses foram todos capturados durante a Batalha e levados para campos de prisioneiros na Alemanha. Eram eles os soldados Mário Afonso, de Santa Maria da Porta; António Fernandes, de Penso; Abílio Alves de Araújo, da Gave; Avelino Fernandes, de Alvaredo; António José Rodrigues, de Paderne; Inocêncio Augusto Carpinteiro, de S. Paio; Justino Pereira, de Cubalhão; António dos Reis, da Rua Direita (Santa Maria da Porta) e António Pires, de Rouças, tendo ficado dispersos por vários campos de prisioneiros na Alemanha.
Depois de La Lys, o C.E.P. não mais participou em operações militares relevantes ficando na dependência dos ingleses e relegado para tarefas secundárias.
Os que tombaram, repousam para sempre no Cemitério Militar Português de Richebourg l`Avoué (França). Os que regressaram, muitos deles voltaram com os traumas próprios de um conflito que a humanidade nunca tinha conhecido ou com os problemas de saúde que os acompanharam durante o resto das suas vidas.
Por tudo isto, estes homens foram heróis e merecem a nossa homenagem. Para que nunca sejam esquecidos!"

sábado, 12 de agosto de 2017

A densa rede de Postos da Guarda Fiscal em Melgaço em fotos



Melgaço é um dos concelhos portugueses com maior proporção de linha de fronteira: três quintos do território confinam com a Galiza, num percurso que se estende por 61 Km’s: 22 Km’s de fronteira terrestre e 39 de fronteira (incluindo os 19 Km’s correspondentes ao rio Minho). O traçado e a extensão da linha de fronteira, associados à intensidade e à diversidade do contrabando e da emigração clandestina, justificam que Melgaço tivesse a maior secção da Guarda Fiscal de todo o Vale do Minho. Em 1961, serviam, neste concelho, 2 sargentos, 16 cabos e 74 soldados distribuídos por 17 postos. (GONÇALVES, A., 2004). Nenhum outro concelho da região tinha a sua fronteira tão vigiada.
Os Postos da Guarda Fiscal estavam repartidos pelas várias freguesias com linha de fronteira: na freguesia de Castro Laboreiro (Ribeiro de Cima, Ribeiro de Baixo, Portelinha, Vila e Ameijoeira); na freguesia de Cristoval (Ponte Velha, Cevide e S. Gregório); na freguesia de Santa Maria da Porta, Vila (Posto da secção de Melgaço); na freguesia de Fiães (Pousafoles); na freguesia de Lamas de Mouro (Alcobaça); na freguesia de Paços (Porto Paços); na freguesia de Penso (Paranhão); na freguesia de Alvaredo (S. Martinho); na freguesia de Alvaredo (S. Martinho); na freguesia de Fiães (Portocarreiro); na freguesia de Remoães (Mourentão); na freguesia de Prado (Prado). Esta densa rede de postos procuraram durante décadas controlar o contrabando e as  migrações ilegais na raia. 
Apresentamos um conjunto de fotografias dos vários antigos Postos da Guarda Fiscal no nosso concelho. As fotos têm, na sua maioria, cerca de 25/30 anos. Um importante património que não deve ser esquecido. Faz parte da História da nossa terra...

Posto da Guarda Fiscal de Ameijoeira (Castro Laboreiro - Melgaço)
Posto da Guarda Fiscal de Portelinha (Castro Laboreiro - Melgaço)

Posto da Guarda Fiscal de Castro Castro Laboreiro (Melgaço)

Posto da Guarda Fiscal de Alcobaça (Lamas de Mouro - Melgaço)


Posto da Guarda Fiscal de Portocarreiro (Fiães - Melgaço)



Caseta da Guarda Fiscal de S. Gregório (Cristoval - Melgaço)


Posto da Guarda Fiscal de S. Gregório - Ponte Velha (Cristoval - Melgaço)


Posto da Guarda Fiscal de Cevide (Cristóval - Melgaço)
Posto da Guarda Fiscal de S. Gregório (Cristoval - Melgaço)
Posto da Guarda Fiscal de Porto Paços (Paços - Melgaço)

Posto da Secção da Guarda Fiscal de Melgaço (Vila)

Posto da Guarda Fiscal do Peso (Paderne - Melgaço)
Posto da Guarda Fiscal de S. Martinho (Alvaredo - Melgaço)

Posto da Guarda Fiscal de Paranhão (Penso - Melgaço)

Informações extraídas de: GONÇALVES, Albertino (ano desconhecido) - Caminhos de inquietude: A organização do contrabando no concelho de Melgaço. O Miño, uma corrente de memória.
Fotos (fonte): http://guardafiscal.org 

sexta-feira, 30 de junho de 2017

As paróquias de Melgaço no início do século XVIII


No início do século XVIII, o território do concelho de Melgaço era bem diferente do atual. Era formado apenas pelas paróquias de Santa Maria da Porta (Vila), Roussas, S. Paio, Remoães, Paços, Chaviães e Cristoval. Devemos ter presente que na época Paderne e Fiães eram coutos dos respetivos conventos e por isso com jurisdição própria (o couto de Paderne incluía Cubalhão). Castro Laboreiro era concelho. Alvaredo, Penso, Gave, Lamas de Mouro e Parada do Monte pertenciam, à época, ao então concelho de Valadares. 
No livro "Corografia portugueza e descripçam topografica do famoso Reyno de Portugal" (volume III), publicado em 1712, encontramos muitas informações sobre Melgaço e as suas paróquias, incluindo o número de habitantes estimado de cada uma delas:
"Três léguas acima de Monção para nascente, e uma da raia de Portugal e Galiza para o poente, está situada a vila de Melgaço, a quem os rios Minho e o pequeno Várzeas (Trancoso), que nele se mete da parte do oriente em ângulo reto dividem o seu termo do Reino da Galiza. A mais antiga notícia que achamos da sua fundação é que El Rey Dom Afonso Henriques a povoou no ano de 1179, fabricando nela uma grande fortaleza na parte em que estava outra chamada Minho. No ano de 1181, a 22 de Julho, deu o mesmo rei aos moradores desta  vila, o lugar de Chaviães. Segunda memória é o título de bens e couto que El Rey Dom Sancho, o Primeiro, deu ao mosteiro de Longos Vales em Monção, estando na cidade do Porto no ano de 1197, do qual diz que fazia esta mercê pelo assinalado serviço que lhe fizera Dom Pedro Pires, Prior que então governava o Convento, em lhe fazer à sua custa a Torre e fortaleza de Melgaço e devia reforma-la. El Rey Dom Sancho, o Capelo, lhe deu grandes foros e privilégios, que confirmou seu irmão El Rey Dom Afonso, o Terceiro, no ano de 1262 mandando que nela houvesse trezentos e cinquenta vizinhos, permitindo-lhe que pudessem eleger um cavaleiro português para alcaide daquele castelo e que sendo pessoa benemérita, ele o confirmaria. El Rey Dom Dinis a enobreceu e cercou de novos muros, tudo forte para aqueles tempos, mas para os presentes fraquíssima, por ter penhascos, que lhe servem de batarias cobertas a tiro de clavina. Tem boas e férteis terras, pela  maior parte todas, mas em particular o vale da Folia com grandes ventagens: dá muito pão e vinho, frutas, feijão, hortaliças e cebolas muy celebradas por doces e as melhores desta província, excelentes presuntos sem sal, caça do monte, e pescas do rio de boas lampreias, bons linhos, castanha, mel, gado e lacticínios. Tem cento e vinte e seis vizinhos muito nobres com casas e quintas honradas. São as melhores as dos Castros e Sousas, que por muitos anos foram alcaides mor desta vila, de quem descendem grandes fidalgos deste reino, os Araújos e Rosas. Estes têm duas sepulturas honoríficas na capela mor da Matriz, uma que venderam aos Castros, outra no corpo da igreja à parte esquerda junto do altar de Nossa Senhora. Nestas últimas guerras com Castela, deu famosos soldados, que ocuparam grandes postos. É da Casa de Bragança e tem juiz de fora, que também o é dos Orfãos e tem a mesma preeminência o Juiz da terra quando aquele falta, dois vereadores, Procurador do Concelho, eleição trienal do povo por pelouro, a que preside o ouvidor de Barcelos, escrivão da Câmara, três tabeleões, um escrivão dos Orfãos e outro das sizas: O alcaide mor tem de renda vinte e dois mil reis e uns carros de palha e lenha e pesqueiras no rio Minho, o qual apresenta alcaide carcereiro com vinte mil reis de renda, tudo data dos Duques.Tem Capitão Mor, que nomeia a Câmara, os Duques o confirmam e lhe passam a patente; quatro companhias de ordenanças, em que serve o mais antigo de Sargento Mor. Tem Casa da Misericórdia, Hospital e as freguesia seguintes:
- Santa Maria da Porta, abadia da casa de Bragança e do Mosteiro de Fiães com alternativa ordinária, rende duzentos mil réis. A um tiro de mosquete da praça está a Ermida de Nossa Senhora da Orada, imagem de muita devoção pelos milagres que obra.
- Santa Maria Madalena de Chaviães, abadia da mesma Casa, rende cento e cinquenta mil réis e tem conto e trinta e sete vizinhos.
- Santa Ana de Paços, vigararia que apresenta o Mosteiro de Paderne, rende oitenta mil réis ao Vigário e para os frades cento e quarenta mil réis; tem cento e sessenta vizinhos.
- S. Martinho de Cristóval, abadia em que teve parte o Mosteiro de Fiães, hoje é toda do Ordinário, rende duzentos e cinquenta mil réis, tem cento e cinquenta e nove vizinhos. Aqui está a Ponte da Várzeas, que divide este Reino do da Galiza.
- Santa Marinha de Roussas, abadia do padroado secular, que dizem foi dos senhores do Paço de Roussas, do apelido de Besteiros, família tão antiga, como nobre, a quem o tempo e pobreza tem atenuado de modo, que poucos lavradores o tomam hoje. Tem por armas em campo azul uma torre firmada em pedras azuis e três bestas de ouro, duas do lado da torre e uma em cima, timbre a mesma torre com uma besta no alto. O Solar passou aos Castros e o padroado a Manuel Pereira, o Mil Homens de alcunha, morador em Monção, cuja filha herdeira casou na Galiza. Rende a Igreja ao abade duzentos mil réis e tem cento e cinquenta vizinhos.
- S. Paio é o mesmo a que Sandoval chama Mosteiro de S. Paio de Paderne, haveria-o sido antes dos mouros e a Infanta Dona Urraca, filha de El Rey Dom Fernando, o Magno, dotou a metade do seu Padroado à Sé de Tui e a seu bispo Dom Jorge no ano de 1071 com o lugar de Prado, que ainda então não devia ser paróquia, e  outros bens e vassalos. Em 13 de Abril de 1156 que vem a ser o ano de 1118, deu à mesma Sé e ao bispo Dom Afonso a quarta parte da mesma igreja, Onega Fernandes, parece que sendo viúva,  com filhos Paio Dias e Argenta Dias, que confirmaram esta doação, a qual tomou o hábito de monja, entendemos que em Paderne, e nesta mesma deu também o que lhe tocava e na de S. Martinho de Valadares (Alvaredo). Ultimamente, a rainha Dona Teresa e seu filho Dom Afonso Henriques da era de 1163 que é o ano de 1125 deram ao mesmo bispo esta igreja e dizem na doação que lha dão inteira. Mas a meu ver, seria o quarto que nela tinham com que lhe vinha a ficar in folidum. É abadia secular do Ordinário com as duas anexas que se segue, tem a quarta parte dos dízimos, importa sessenta mil réis, ao todo cem mil réis; o outro quarto a que chamam a renda do Castelo, leva-a a Casa de Bragança e a metade a Mesa Arcebispal. Tem duzentos vizinhos.
- S. Lourenço de Prado, vigararia anexa a S. Paio, que apresenta o abade dela, rende ao vigário cinquenta mil réis, os dízimos vão na Matriz. Tem cento e quinze vizinhos.
- S. João de Remoães, vigararia do mesmo abade, a quem é anexa, rende ao vigário vinte e cinco mil réis, os dízimos vão para a Matriz. Tem oitenta e dois vizinhos. Aqui está a Juradia da Várzea sujeita a Melgaço, mas da freguesia do Mosteiro de Paderne em terras de Valadares."


Extraído de: COSTA, António Carvalho da, (1712) - Corografia portugueza e descripçam topografica do famoso Reyno de Portugal. Tomo III; Officina de Valentim da Costa Deslandes, impressor de Sua Magestade; Lisboa.

sexta-feira, 27 de maio de 2016

Memórias de uma passeio por Melgaço em 1903

Vila de Melgaço, vista de sul, no início do séc. XX 
No início do século passado, Melgaço era ponto de interesse para turistas, sobretudo aqueles que procurava no Peso a cura para as suas maleitas. Passaram também pela nossa terra alguns dos maiores vultos da ciência, que aqui se deslocaram para estudar os nossos monumentos bem como os singulares usos e costumes das aldeias do nosso concelho. Um desses vultos foi Guilherme de Oliveira. Dessa visita resultou o livro “Uma Visita ao Real Mosteiro de Fiães” onde nos conta os seus passeios por terras melgacenses. Pelo Peso, Prado até Roussas e Fiães, onde não resiste a contar-nos algumas estórias da sabedoria popular que por lá ouviu. No livro podemos ler “O Minho é o rival da Suíça, no elegante dizer do primoroso estilista D. António da Costa, naquele seu livro, a que deu por título o nome desta encantadora região, aonde alguns antigos quiseram que fossem os Campos Elísios; — o paraíso pagão, segundo Homero, — em que os homens gozavam uma vida doce e tranquila.
Li que, tudo quanto a imaginação dos poetas figurou naquele lugar de paz e bem-aventurança, — parece ser a descrição deste formoso terreno. Há também uma perfeita comparação do Minho, com um mar, que depois de agitado pela maior das tempestades e erguido em ondas temerosas, fosse tornado, de repente, imóvel pela mão do criador, tais e tão vários são os acidentes do solo.
Os montes e os vales que se sucedem lembram as ondas enfileiradas do oceano revolto, havendo sobrepostas naqueles como espumas — pedrenias calvas e ermas — a solidão e o recolhimento; — e no fundo destes, como carinhoso leito, — as verduras e sombras; — a vida e seu ruído.
Isto, vinha-me à recordação, quando trepava pelas escarpadas serras que do Melgaço vão ter ao arruínado mosteiro de Fiães, e descobria as deliciosas paisagens que ante meus olhos surpresos se desenrolavam pelo horizonte fora.
Lá ia eu realizar o meu mais profundo desejo. Lá ia eu cumprir o meu ardente voto; lá ia eu, enfim, — ver e apalpar essas ruínas, de cujas sentidíssimas noticias históricas levava o coração repleto. Na frente, o guia explicava:— Ali, em baixo, é Prado, antiga freguesia. Já teve grandes rendas; — lá está a sua capelinha. Adiante, Remoães, com os seus torreõezinhos e campanários.
— Aqueles telhados, são do estabelecimento das Águas de Melgaço. — Veja daqui, como é bonita a vila, com a sua torre de menagem. Dizem que foi mandada fazer por D. Afonso  Henriques; — ainda lá tem nas muralhas uma porta com o nome deste rei, em uma pedra com mais dizeres, e a data 1170.
— Aquela cinta de muralhas, mais pequenas, é de outro rei.
— D. Diniz, talvez?
— É isso. Já ouvi dizer.
— Estamos agora em Cavaleiros. O nome vem da quinta que pertenceu ao mosteiro. Eu tinha noticia desta propriedade, a qual era essencial em vinhos, e foi doada em 1166, pela condessa D. Frovilla, em tempos do Abade Dom João.
Ha também a suposição de lhe ter sido doada a igreja que lhe era junta, de Nossa Senhora da Ourada, e onde, — diziam os frades, — existiu o mosteiro de S. Bento; fundado quando o de Fiães, de que veio a ser priorado.
Assegura-se, — e disto constam vestígios, — que foi de Cavaleiros Templários, dos quais tomou o nome, e era seu passal. Percebiam-se, há anos, ruínas das celas, claustros, e os encanamentos de pedra, que abasteciam de água o convento.
Lá está Roussas, a igreja do antigo padroado da casa do Paço de Roussas. Era de gente valente e destemida, que se fazia respeitar por aquelas redondezas.
Viveram os abades em demandas contínuas com os de Fiães, durante séculos. Datam de 1340, os primeiros atritos. Em 1349, os de Roussas, quebraram os marcos que dividiam o couto, pelo que tiveram de responder.
Em 1344, com o abade à frente, e armados, foram de noite às terras do convento, e desmolharam as messes de um João Soutello, esbulhando os monges dos seus dízimos.
Condenado o abade Antonio de Castro, não houve quem tivesse coragem de ir-lhe publicar a sentença, por ser pessoa fidalga e poderosa, e morar em lugar ermo — onde se podia fazer mau recado.
Tomou a si, o procurador do convento fazer a citação. Acompanhado do escrivão, meirinhos e mais pessoas, foi a casa do abade, o qual se negou, apesar de estar nela, como o confessou seu filho — um rapaz de dezoito anos, que encontraram a um tiro de besta da pousada.
Prosseguiram as diligências, sem resultado. Então, o de Fiães, obteve do vigário geral de Braga, licença para se dizer missa na igreja do réu, e, em domingo de Ramos, notificou o filho do abade Castro, e o povo que a enchia e era do lugar.
Em 1693, um neto deste abade, Capitão Mór, de acordo com o governador das armas de Melgaço, mandou os soldados praticar desmandos nas terras do couto. Queixaram-se os frades do ódio herdado que esta família alimentava, com prejuízo do sossego e tranquilidade do mosteiro — e nesta vida levaram, os sucessores de uns e de outros, até 1807, em que Francisco de Sá Sotto Maior fez novas demarcações nas terras da freguesia de Roussas, de que era abade, terminando os processos.
Os Senhores do Paço de Roussas, de apelido Besteiros — de antiga família nobre, foram  atingidos pela pobreza.  As suas armas eram em campo azul, uma uma torre fumada em penhas azuis, e três bestas de ouro, uma por cima e as outras aos lados. O solar passou aos Castros, e o padroado, a Manoel Pereira, — o Mil Homens.
Prosseguimos, lentamente, por terras incultas. Apesar de abundantes em águas, só ao longe descobri raras plantações de milho ou de centeio.
No terreno acidentado há montes a prumo, como ameaça tenebrosa à população do lugar. Já há anos, uma dessas molhes imensas desabou lá de cima, e veiu como um cataclismo medonho, destruindo na sua passagem horrorosa, casas, árvores e plantações, na direcção de uma capela da encosta.
No momento em que todos esperavam vê-la arrasada, aquela separou-se em duas que precipitaram-se pelos lados da ermida, deixando-a intacta. Foram muitas as mortes, do que  ficou sentida recordação que ainda perdura, apesar do facto ter-se passado há cerca de trinta anos.
Têem-se repetido estas deslocações, deixando sempre dolorosa reminiscência. Tivemos que retardar o andamento, para abrir caminho por entre rebanhos de grandes e lanzudos carneiros, de cor têrrea, que pastavam, ocupando enorme área que atravessamos. Há tempos, andou por aqui uma fera vinda das povoações galegas, a qual devastou a freguesia. Encontravam-se restos humanos devorados, e o povo vivia aterrado, saindo unicamente de companhia e bem armado. Fizeram-se várias batidas infrutiferas. Começou então o pânico de atribuir à arte do demónio e à feitiçaria, esses factos. Em vista do que reuniram-se os moradores dos arredores, e, depois de bem preparados, fizeram uma grande montaria em todos os sentidos, encontrando apenas uma criança maltratada pela fera, que as vacas, que aquela guardava, providencialmente salvaram, investindo contra o feroz animal e pondo-o em fuga.
Nunca mais dele houve indício ou noticia. Chamou-me à atenção, no meio da serra, — em lugar alcantilado, — uma abertura de mais de metro e meio com porta de ferro.
— Que era aquilo ?
Um velho morador que passava, parou e disse, solenemente:
— Ali, estão escondidos os tesouros dos frades. Quem lá vai, lá fica. Foi a justiça quem mandou pôr o tapamento.
Andava ali tudo maluco com as riquezas e agora acabou-se.
Oh! Os informadores obsequiosos, são terríveis em toda a parte...”  (Extrato retirado de: OLIVEIRA, Gilherme (1903) - Uma visita às ruínas do Real Mosteiro de Fiães. Livraria Ferreira, LIsboa.)