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sábado, 7 de abril de 2018

De Melgaço a La Lys: 101 anos depois da batalha




Faz hoje, dia 9 de Abril, 101 anos da página mais negra da participação portuguesa na 1ª Grande Guerra. Durante a Batalha de La Lys, a 9 de Abril de 1918, na Flandres Francesa, centenas de portugueses tombaram e milhares foram dados como desaparecidos em combate. Entre ao soldados melgacenses, 4 morreram em combate mas outros 9 melgacenses desapareceram durante a batalha.
Os falecidos foram os soldados José Cerqueira Afonso, de Paços (Melgaço); José Narciso Pinto, de Chaviães; João José Pires, da freguesia de Paços (Melgaço), António José da Cunha, natural da freguesia da Santa Maria da Porta (Vila – Melgaço). O último pertencia ao 6.º Grupo de Baterias de Metralhadoras e os três primeiros eram soldados que pertenciam à 4ª Brigada de Infantaria do CEP, Regimento de Infantaria n.º 3 (Viana do Castelo). Esta era conhecida como a Brigada do Minho, a que pertenciam a maioria dos soldados melgacenses, e já tinha conquistado uma reputação de bravura na frente de batalha muito antes de lhe ser confiada, em Fevereiro de 1918, a defesa do sector de Fauquissart, em Laventie, na Flandres francesa, perto da fronteira com a Bélgica, onde ainda se encontrava nesse fatídico dia 9 de Abril de 1918, quando foi dizimada pelos alemães na dita batalha de La Lys.
Os soldados da Brigada do Minho passaram a noite de 8 para 9 de Abril a arrumar armamento, munições e outros equipamentos e pertences. Iam ser rendidos por batalhões ingleses no dia 9 e hoje em dia acredita-se que os alemães sabiam disso. Sabiam também que a infantaria portuguesa não estava preparada para aquela guerra e que tinham sido treinados à pressa numa falácia vendida pelo regime republicano que apelidaram de “Milagre de Tancos”. Os soldados de Melgaço e de outras regiões eram lavradores, pedreiros e de outros ofícios. Muitos deles nunca tinham saído da sua terra. A grande maioria nem sabia ler e escrever. Um soldado não se faz num par de meses…
Esta batalha foi, por essas e outras razões, um dos maiores desastres de toda a História Militar portuguesa. Terão caído sobre as posições portuguesas cerca de 1,4 milhões de granadas. A dita batalha é contada por um soldado português que nela esteve envolvido numa carta enviada à família. Na mesma, datada de 11 de Julho de 1918, o soldado tentou reconstituir, em breves palavras, os acontecimentos daquela noite: “Às quatro horas da manhã do dia 9 de Abril de 1918 rompe um enorme bombardeamento por parte do inimigo, coisa essa que nós, à primeira vista, não estranhámos, visto que já estávamos habituados a tudo isso, mas o prazo desse bombardeamento foi-se prolongando e as horas foram-se passando, e já depois de o inimigo ter feito grandes tentativas para avançar para as nossas trincheiras e sempre repelido pelo nosso fogo, continua o grande bombardeamento com uma tal violência que ao fim de algumas horas o chão estava todo voltado com o debaixo para cima, um completo horror, é mesmo inexplicável. Milhares e milhares de infelizes portugueses tinham desaparecido, uns despedaçados pelos ares, outros tinham ficado soterrados para jamais serem vistos”.
No dia seguinte, chegara a hora de contabilizar as baixas: 398 mortos (369 praças e 29 oficiais) e uma esmagadora maioria de prisioneiros (6585, dos quais 6315 eram praças e 270 oficiais). Na 4ª Brigada de Infantaria, as baixas situam-se em cerca de 60% entre mortos, feridos e prisioneiros. No Regimento de Infantaria 3 (Viana do Castelo), as baixas cifram-se em 570, de um total de 700 homens que estavam em posição naquela noite. Deste total de baixas, houve registos de 91 mortos (4 de Melgaço), 155 feridos, 7 desaparecidos e 317 soldados feitos prisioneiros. Deste total de prisioneiros de guerra, nove soldados eram melgacenses. Inicialmente, estes homens foram dados como “desaparecidos em combate” e esse facto foi comunicado às famílias. Vários meses mais tarde, após o fim da guerra, em Novembro de 1918, a Comissão dos Prisioneiros de Guerra, comunicou que estes homens se encontravam em campos de prisioneiros na Alemanha, pondo fim a meses de sofrimento dos soldados e das suas famílias que os julgavam mortos. Na realidade, estes melgacenses foram todos capturados durante a Batalha e levados para campos de prisioneiros na Alemanha. Eram eles os soldados Mário Afonso, de Santa Maria da Porta (Vila); António Fernandes, de PensoAbílio Alves de Araújo, natural de freguesia incógnita (Melgaço); Avelino Fernandes, de AlvaredoAntónio José Rodrigues, de Paderne; Inocêncio Augusto Carpinteiro, de S. PaioJustino Pereira, de Cubalhão; António dos Reis, da Rua Direita (Santa Maria da Porta, Vila) e António Pires, de Roussas. 
Um prisioneiro português conta-nos o caminho que fizeram desde a captura na Batalha de La Lys até ao campo de prisioneiros. Na primeira noite, a noite de 9 para 10 de Abril, foi passada em cenário de guerra. Ele conta que foram colocados num lamaçal cercados por uma cerca de arame farpado. Diz que era como se guarda os animais no monte.  Foram sentados todos lado a lado e aí foram despojados dos seus bens. Tudo o que interessava aos soldados alemães era-lhes retirado. E conta que eles de facto tentavam iludir os soldados, guardando os objectos que mais valor tinham para eles, os seus relógios, os seus bens pessoais, e depois trocavam esses bens por alimentos, tentavam corromper os próprios soldados alemães.
Esta primeira noite é passada completamente ao relento. Estamos a falar de homens que há 24 horas que não comem nada e recebem a primeira refeição no caminho para a cidade francesa de Lille, no dia seguinte.
Por essa altura, a cidade de Lille estava já sob o domínio alemão desde o início da guerra e portanto os próprios civis franceses eram eles próprios como que prisioneiros dos alemães. Então, à chegada dos prisioneiros portugueses, os civis franceses juntavam-se em multidões tentando encorajar os próprios soldados e atirando-lhes pedaços de comida, que era o que eles aproveitavam para comer nessas alturas. Obviamente que estas acções eram reprimidas pelos soldados alemães.
Os soldados portugueses passam a primeira noite num quartel em Lille, e depois seguem para a cidadela de Lille, para uma fortaleza que servia como uma espécie de entreposto na distribuição dos prisioneiros portugueses para os diferentes campos de concentração alemães. Passam cerca de três dias em Lille e seguidamente recebem ordem de marcha para o campo na Alemanha.
No caminho para a estação de comboio (eles viajaram de comboio), no caminho para essa estação, ele conta casos verdadeiramente comoventes dos seus compatriotas e dele próprio. Obviamente que tentavam furar as fileiras dos soldados alemães e nos campos agrícolas em volta tentavam retirar todos os alimentos, para assim conseguirem sobreviver.
Mais tarde, apanham o comboio com destino à Alemanha e viajam em carruagens sem o mínimo de condições. Eram carruagens de transportar animais, portanto sem o mínimo de condições de higiene e de segurança.
E então fazem o caminho longo de dois dias e duas noites, passando por Bruxelas até a Alemanha. Na Bélgica eles não chegam a sair do comboio, ficam o tempo todo dentro do comboio. São novamente incentivados pelos civis belgas e alimentados por eles.
Quando entram na Alemanha, apercebem-se de que o seu destino ia mudar. Nota-se grande hostilidade por parte dos próprios civis alemães, agora em vez de os incentivarem, obviamente que os insultavam, em vez de lhes atirarem pão, atiravam pedras à carruagem.
Então chegam ao campo de prisioneiros, que fica a norte da cidade de Colónia, um campo muito grande, com muitas infra-estruturas muito bem organizado, e que tinha inclusivamente até um jornal publicado pelos prisioneiros franceses.
Aqui, eles eram alimentados basicamente com uma alimentação à base de pão, água e de caldos com ingredientes de origem muito duvidosa.
O que ele valoriza muito é a acção dos franceses, em todos os campos onde ele esteve. Os franceses partilhavam com os mais necessitados os bens alimentares e os bens de primeira necessidade, principalmente com os portugueses, com os italianos, com os russos, que eram os que viviam em piores condições.
Estes nove melgacenses foram espalhados pelos campos de prisioneiros de Dulmen, situado na região da Westefalia; Munster II, situado na região da Renânia Norte - Westefália, a cerca de 40 Kms a norte da cidade de Dortmund; Friedrichsfeld, situado a cerca de 25 Kms a norte da cidade de Duisburgo, perto da fronteira com a Holanda; Senne, que fica próximo da cidade de Bielefeld, a cerca de 80 Kms da fronteira com a Holanda; Hameln, situado a cerca de 30 Kms a sudoeste da cidade de Hannover, a uma distância de cerca de 100 Kms da fronteira com a Holanda.
Em Novembro desse mesmo ano de 1918 chega o fim da guerra. Mais tarde, os prisioneiros são libertados. Nalguns casos, os campos são abandonados pelos próprios alemães deixando os prisioneiros à sua sorte. O regresso dos soldados portugueses é caótico. Não foi organizado pelas autoridades portuguesas um eficaz transporte destes milhares de soldados. Muitos deles viajam por conta própria até portos na Holanda ou então até Cherbourg, em França. 
Felizmente, para estes nove prisioneiros de guerra melgacenses, regressaram todos vivos, tendo desembarcado em Lisboa entre Janeiro e Fevereiro de 1919.
Da pesquisa que realizei, apesar das informações escassas, deixo aqui algumas informações acerca do percurso de cada um destes soldados, homens da nossa terra.

MELGACENSES MORTOS NA BATALHA DE LA LYS (LEVANTIE, FLANDRES FRANCESA)

·                     João José Pires, soldado da 2.ª Companhia do Regimento de Infantaria n.º 3; nascido a 28 de Abril de 1893 no Outeiro, lugar da freguesia de Santa Maria de Paços, filho de José Joaquim Pires e de Alexandrina Pires; solteiro e morador em Paços; embarcou para França integrado no Corpo Expedicionário Português a 15 de Abril de 1917, onde pertenceu à Brigada do Minho; falecido em combate na Batalha de La Lys a 9 de Abril de 1918. Encontra-se sepultado no Cemitério de Richebourg l`Avoué (França), Talhão C, Fila 10, Coval 5.

·                     José Narciso Pinto, soldado da 4.ª Companhia do Regimento de Infantaria n.º 3; nascido a 3 de Março de 1893 na Igreja, lugar da freguesia de Santa Maria Madalena de Chaviães, filho de Manuel António Pinto e de Cândida Maria Alves; casado e morador em Chaviães; embarcou para França integrado no Corpo Expedicionário Português a 22 de Abril de 1917, onde pertenceu à Brigada do Minho. Falecido em combate na Batalha de La Lys a 9 de Abril de 1918. Encontra-se sepultado no Cemitério de Richebourg l`Avoué (França), Talhão D, Fila 3, Coval 24.

·                      António José Cardoso Ferreira Pinto da Cunha, segundo-sargento do Regimento de Obuses de Campanha; nascido a 28 de Julho de 1892 na Rua Direita, vila e freguesia Santa Maria da Porta de Melgaço, filho de António José Ferreira Pinto da Cunha e de Carlota Amália Cardoso; solteiro e morador na vila de Arcos de Valdevez; embarcou para França integrado no Corpo Expedicionário Português a 20 de Agosto de 1917, onde pertenceu ao 6.º Grupo de Baterias de Metralhadoras. Participou na Batalha de La Lys. Inicialmente dada com desaparecido em combate. Mais tarde considerado morto em combate na dita batalha a 9 de Abril de 1918. Desconhece-se o paradeiro dos seus restos mortais.
Nesta investigação, fui descobrir uma carta que este Segundo Sargento Pinto da Cunha, escrita algures na primeira metade de 1917, à data estudante no liceu de Guimarães, escreveu a uma pessoa influente para que esta intercedesse junto do ministro da Guerra, Bernardino Machado, no sentido de obter dispensa do curso de sargentos até Julho de 1917, para poder frequentar o liceu e fazer exame do então 5º ano. Argumentava que já no ano anterior não tinha podido terminar este nível dos estudo por ter sido chamado ao quartel. Desconheço a resposta a esta missiva.

·                     José Cerqueira Afonso, soldado da 4.ª Companhia do Regimento de Infantaria n.º 3; nascido a 14 de Março de 1892 nas Fontes, lugar da freguesia de São Salvador de Paderne, filho de Inácio José Afonso e de Maria Cerqueira; casado e morador em Paderne; embarcou para França integrado no Corpo Expedicionário Português a 22 de Abril de 1917, onde pertenceu à Brigada do Minho; falecido em combate na Batalha de La Lys a 9 de Abril de 1918.


Prisioneiros de guerra melgacenses capturados na
Batalha de La Lys (9 de Abril de 1918)

1  Mário Afonso, soldado do 2º Grupo de Baterias de Artilharia, nascido em 12 de Agosto de 1891, filho de António Luiz Afonso e Tereza de Jesus, natural do lugar de S. Julião, freguesia de Santa Maria da Porta, casado. Embarcou para França em 20 Agosto de 1917 integrado no Corpo Expedicionário Português, portador da chapa de identificação nº 28 641. Sobreviveu à guerra. Desaparecido em combate na Batalha de La Lys (9 de Abril de 1918). Feito prisioneiro pelos alemães e levado para o Campo de Prisioneiros de Dulmen situado na região da Westefalia (Alemanha), tendo estado também no Campo de Prisioneiros de Hameln. O soldado Mário Afonso embarcou no navio inglês "Northwestern Miller" em 31 de Janeiro de 1919 e desembarcou em Lisboa de 4 de Fevereiro de 1919.

    António Fernandes, 2º Cabo do 2º Grupo de Baterias de Artilharia, nascido em 19 de Junho de 1891, filho de Agostinho Fernandes e Maria Rosa Esteves Cordeiro, natural do lugar de Ranhol, freguesia de Penso, casado. Embarcou para França em 17 Novembro de 1917 integrado no Corpo Expedicionário Português, portador da chapa de identificação nº 33 557. Sobreviveu à guerra. Desaparecido em combate na Batalha de La Lys (9 de Abril de 1918). Feito prisioneiro pelos alemães e levado para o Campo de Prisioneiros de Münster II (Alemanha). O soldado António Fernandes embarcou no navio inglês "Northwestern Miller" em 31 de Janeiro de 1919 e desembarcou em Lisboa de 4 de Fevereiro de 1919.

    Abílio Alves de Araújo, 1º Cabo  do Regimento de Infantaria nº 29, 4ª Brigada de Infantaria (Brigada do Minho), filho de João Manuel de Araújo e Maria Joaquina Alves, natural de Melgaço (data de nascimento e freguesia de naturalidade desconhecidas), solteiro. Embarcou para França em 22 Abril de 1917 integrado no Corpo Expedicionário Português, portador da chapa de identificação nº 46 998. Sobreviveu à guerra. Desaparecido em combate na Batalha de La Lys (9 de Abril de 1918). Feito prisioneiro pelos alemães e levado para o Campo de Prisioneiros de Friedrichsfeld (Alemanha). O soldado Abílio de Araújo embarcou no navio inglês "Northwestern Miller", na Holanda, em 31 de Janeiro de 1919 e desembarcou em Lisboa de 4 de Fevereiro de 1919.

    Avelino Fernandes, Soldado do Regimento de Infantaria nº 3, 4ª Brigada de Infantaria (Brigada do Minho), nascido em 7 de Novembro de 1893, filho de Francisco Fernandes e Libania Martins Peixoto, natural do lugar de Ferreiros, freguesia de Alvaredo, casado. Embarcou para França em 18 de Abril de 1917 integrado no Corpo Expedicionário Português, portador da chapa de identificação nº 49 462. Sobreviveu à guerra. Desaparecido em combate na Batalha de La Lys (9 de Abril de 1918). Feito prisioneiro pelos alemães e internado no Campo de Prisioneiros de Dulmen (Alemanha). O soldado Avelino Fernandes embarcou no navio inglês "Northwestern Miller" em 12 de Janeiro de 1919, na Holanda, e desembarcou em Lisboa de 18 de Janeiro de 1919.

António José Rodrigues, Soldado do Regimento de Infantaria nº 3, 4ª Brigada de Infantaria (Brigada do Minho), nascido em data desconhecida, filho de José Manuel Rodrigues e Carolina Rosa Rodrigues, natural da freguesia de Paderne, solteiro. Embarcou para França em 15 de Abril de 1917 integrado no Corpo Expedicionário Português, portador da chapa de identificação nº 49 526. Sobreviveu à guerra. Desaparecido em combate na Batalha de La Lys (9 de Abril de 1918). Feito prisioneiro pelos alemães e levado para o Campo de Prisioneiros de Münster II (Alemanha). O soldado António José Rodrigues embarcou no navio inglês "Northwest Miller" em 31 de Janeiro de 1919 e desembarcou em Lisboa de 4 de Fevereiro de 1919.

   Justino Pereira, Soldado do Regimento de Infantaria nº 3, 4ª Brigada de Infantaria (Brigada do Minho), nascido em data desconhecida, filho de António Pereira e Maria Esteves, natural da freguesia de Cubalhão, solteiro. Embarcou para França em 15 de Abril de 1917 integrado no Corpo Expedicionário Português, portador da chapa de identificação nº 49 544. Desaparecido em combate na Batalha de La Lys (9 de Abril de 1918). Feito prisioneiro pelos alemães. A partir daqui, o percurso deste soldado é um autêntico mistério. Desconhece-se o campo de prisioneiros onde esteve já que não consta no seu boletim individual. Não consta na base de dados do Comité Internacional da Cruz Vermelha. Sabe-se apenas que desembarcou em Lisboa em 3 de Janeiro de 1919, não se sabendo se embarcou na Holanda ou em Cherbourg (França).

    Inocêncio Augusto Carpinteiro, Soldado do Regimento de Infantaria nº 3, 4ª Brigada de Infantaria (Brigada do Minho), nascido em 28 de Agosto de 1895, filho de Firmino Augusto Carpinteiro e Joaquina Rosa Soares, natural da freguesia de S. Paio, lugar dos Barreiros, solteiro. Embarcou para França em 15 de Abril de 1917 integrado no Corpo Expedicionário Português, portador da chapa de identificação nº 49 556. Sobreviveu à guerra. Desaparecido em combate na Batalha de La Lys (9 de Abril de 1918). Feito prisioneiro pelos alemães e levado para o Campo de Prisioneiros de Dulmen (região da Renânia/Norte Westfalia, Alemanha, a cerca de 40 Kms a norte de Dortmund) tendo estado também no Campo de Senne, que fica próximo da cidade alemã de Bielefeld. O cartão de identificação do prisioneiro de guerra que em baixo se mostra pertence ao campo de Senne. O soldado Inocêncio Carpinteiro embarcou no navio inglês "Northwestern Miller" na Holanda em 12 de Janeiro de 1919, na Holanda, e desembarcou em Lisboa de 18 de Janeiro de 1919.

    António dos Reis, Soldado do Regimento de Infantaria nº 3, 4ª Brigada de Infantaria (Brigada do Minho), nascido em 25 de Junho 1892, filho de João Batista Reis e Lauriana Joaquina Esteves, natural da Rua Direita, freguesia de Santa Maria da Porta, solteiro. Embarcou para França em 15 de Abril de 1917 integrado no Corpo Expedicionário Português, portador da chapa de identificação nº 49 563. Sobreviveu à guerra. Desaparecido em combate na Batalha de La Lys (9 de Abril de 1918). Feito prisioneiro pelos alemães e levado para o Campo de Prisioneiros de Friedrichsfeld (Alemanha). O soldado António dos Reis fez a viagem até Cherbourg (França) onde embarcou no navio inglês "Orita" em 13 de Fevereiro e desembarcou em Lisboa de 16 de Fevereiro de 1919.

   António Pires, Soldado do Regimento de Infantaria nº 3, 4ª Brigada de Infantaria (Brigada do Minho), nascido em 8 de Julho de 1894, filho de pai incógnito e Dolores Pires, natural do lugar do Paço, Roussas, solteiro.   Embarcou para França em 22 de Abril de 1917 integrado no Corpo Expedicionário Português, portador da chapa de identificação nº 49 837. Sobreviveu à guerra. Desaparecido em combate na Batalha de La Lys (9 de Abril de 1918). Feito prisioneiro pelos alemães e levado para o Campo de Prisioneiros de Friedrichsfeld (Alemanha). O soldado António Pires embarcou no navio inglês "Northwestern Miller" em 12 de Janeiro de 1919 e desembarcou em Lisboa de 18 de Janeiro de 1919.





sexta-feira, 6 de abril de 2018

Melgacenses que combateram na Primeira Grande Guerra - Os Expedicionários da freguesia de Penso (Melgaço)





Neste ano, assinala-se o primeiro centenário do fim da Primeira Guerra Mundial. O blogue vai, nas próximas semanas, prestar uma merecida homenagem aos homens de Melgaço que tomaram parte neste conflito que mudou o rumo da História.
Depois das declarações de guerra mútuas entre Portugal e a Alemanha, a partir de 1916, o nosso país procedeu à mobilização maciça de jovens do sexo masculino.
Foram afixados editais de grandes dimensão nas portas dos edifícios públicos, nas câmaras municipais, praças publicas, etc., indicando os locais e as datas para apresentação dos homens, nas respectivas unidades mobilizadoras. Muitos destes homens, recrutados nas diferentes terras portuguesas de norte a sul do país, não tinham noção do que era uma guerra, muitos deles mal sabiam ler e escrever, muitos nunca tinham saído das suas aldeias.
De Melgaço, saíram a partir de 1917 em direção à frente de guerra na Flandres francesa, segundo os dados de que disponho, 72 soldados oriundos de diversas freguesias. Umas das freguesias do nosso concelho de onde saíram mais combatentes foi a de São Tiago de Penso. Daqui, eram naturais 11 soldados, 8 dos quais pertenciam à famosa Brigada do Minho (4ª Brigada de Infantaria do C.E.P). Esta Brigada era formada pelos Batalhões de Infantaria nº 3 (Viana do Castelo), nº 8 e 29 (Braga) e nº 20 (Guimarães) que se encontrava sediada em Levantie (França) e controlava o setor de Fauquissart na frente de guerra.
Dos 11 que partiram para a guerra, apenas o soldado Simplício de Lima faleceu em França, já depois do fim do conflito, vítima de uma Bacilose Pulmonar no dia 18 de Dezembro de 1918 no Hospital da Base.
Os restantes sobreviveram à guerra. Todavia, o soldado António Fernandes, natural do lugar de Ranhol (Penso), que combateu na Batalha de La Lys, foi dado como desaparecido em combate depois da batalha. Alguns meses depois, por comunicação da Comissão dos Prisioneiros de Guerra, soube-se que o soldado António Fernandes tinha sido feito prisioneiro de guerra pelos alemães durante as hostilidades e que tinha sido levado para o Campo de Prisioneiros de Münster II, no norte da Alemanha, tendo regressado a Portugal em Fevereiro de 1919.
Quem foram os soldados oriundos da freguesia de Penso que estiveram neste conflito horrendo? Vamos lembrar estes homens…
A quantidade de informações que consegui reunir não é muito abundante mas permite conhecer um pouco do percurso militar de cada um destes durante a guerra.
Eles foram:

1 - António Fernandes, 2º Cabo do 2º Grupo de Baterias de Artilharia (1ª Bateria). Nasceu às sete horas da manhã do dia 19 de Junho de 1891, filho de Agostinho Fernandes e Maria Rosa Esteves Cordeiro, natural do lugar de Ranhol, freguesia de Penso. À época de partida para a guerra, era casado com Emilia Domingues desde 24 de Agosto de 1913. Embarcou para França em 17 Novembro de 1917 integrado no Corpo Expedicionário Português, portador da chapa de identificação nº 33 557. Foi dado como desaparecido em combate na Batalha de La Lys em 9 de Abril de 1918. Contudo, posteriormente, por comunicação da Comissão de Prisioneiros de Guerra, soube-se que tinha sido feito prisioneiro pelos alemães e levado para o Campo de Prisioneiros de Münster II (Alemanha). Sobreviveu à guerra. O soldado António Fernandes embarcou no navio inglês "Northwestern Miller" em 31 de Janeiro de 1919 e desembarcou em Lisboa de 4 de Fevereiro de 1919.

Cartão de inventariação do prisioneiro de guerra do 2º Cabo António Fernandes
no Campo de Munster II (Alemanha)
(Fonte: Comité Internacional da Cruz Vermelha)

Aspeto do Campo de Prisioneiros de Munster II em 1918


Cemitério do Campo de Prisioneiros de Munster II

2 - Simplício de Lima, soldado do 1.º Esquadrão do Regimento de Cavalaria n.º 4. Nasceu às dez horas da noite do dia 18 de Junho de 1893 no lugar de Paranhão, lugar da freguesia de São Tiago de Penso, filho de pai incógnito e de Maria Teresa de Lima. À época da partida para a guerra, encontrava-se solteiro e morava no dito lugar de Paranhão, freguesia de Penso. Embarcou para França integrado no Corpo Expedicionário Português a 26 de Maio de 1917. Em 2 de Dezembro de 1918, já depois do Armistício, o soldado Simplício baixou ao Hospital da Base nº 2, vindo a falecer no dia 18 de Dezembro, vítima de Bacilose Pulmonar, tal como consta no seu Boletim Individual. Foi sepultado no Cemitério de Ambleteuse (França), coval 5F caixão nº 112. Posteriormente, os seus restos mortais foram transferidos para o Cemitério Militar Português de Richebourg l`Avoué, Talhão D, Fila 22, Coval 4.

Sepultura do soldado Simplício de Lima, no Cemitério de Richebourg l`Avoué (França)

3 - Gaudêncio Rodrigues, Soldado do Batalhão de Infantaria nº 3 (Viana do Castelo), 4.ª Brigada do Corpo Expedicionário Português (2ª Divisão). Nasceu às três horas da tarde do dia 23 de Outubro de 1893 no lugar da Carreira, freguesia de São Tiago de Penso, filho de Rosalino José Rodrigues e de Maria da Conceição Alves. À época da partida para a guerra, encontrava-se solteiro e morava no dito lugar da Carreira, freguesia de Penso. Embarcou para França integrado no Corpo Expedicionário Português a 16 de Maio de 1917, onde pertenceu à Brigada do Minho. Desconhecem-se mais dados do seu percurso militar durante o conflito. Sobreviveu à guerra e desembarcou em Lisboa em data desconhecida.

4 - Manuel Gonçalves, Soldado do Batalhão de Infantaria nº 3 (Viana do Castelo), 4.ª Brigada do Corpo Expedicionário Português (2ª Divisão). Nasceu às quatro horas e meia da tarde do dia 29 de Maio de 1893 no lugar das Mós, freguesia de São Tiago de Penso, filho de António Joaquim Gonçalves e de Ludovina Domingues. À época da partida para a guerra, era casado com Maria Martins e morava na mesma freguesia de S. Tiago de Penso. Tinha contraído matrimónio a 14 de Fevereiro de 1917, cerca de dois meses antes de partir para a guerra. Embarcou para França integrado no Corpo Expedicionário Português a 16 de Abril, onde pertenceu à Brigada do Minho. Baixou ao hospital em 19 de Outubro de 1917, tendo alta no dia 23. Em 5 de Agosto de 1918, foi colocado no Quartel General do Corpo Expedicionário Português. Por ordem de serviço de 17 de Maio de 1918, por parte do Comando do Quartel General, marchou com vista a apresentar-se no Porto de Embarque, em Cherbourg, afim de ser repatriado. Sobreviveu à guerra e desembarcou em Lisboa em 9 de Junho de 1919. Viria a falecer em 5 de Julho de 1948.

5 - Alberto Esteves, Soldado do Batalhão de Infantaria nº 3 (Viana do Castelo), 4.ª Brigada do Corpo Expedicionário Português (2ª Divisão). Nasceu às duas horas da tarde do dia 29 de Agosto de 1893 no lugar de Pomar, freguesia de São Tiago de Penso, filho de Manuel António Esteves e de Maria Solha. À época da partida para a guerra, encontrava-se solteiro e era morador no lugar do Pomar, freguesia de Penso. Embarcou para França integrado no Corpo Expedicionário Português a 16 de Abril de 1917, onde pertenceu à Brigada do Minho. Dos registos inscritos no seu Boletim Individual, sabemos que foi hospitalizado em 22 de Março por motivo de ataque com gás. Em 27 de Outubro de 1917, foi punido pelo Comandante da Companhia com 10 dias de detenção por “ter sido nomeado para servir nas trincheiras e não se ter apresentado prontamente para esse serviço tendo sido necessário a intervenção do comandante da companhia para que desse cumprimento à ordem que nesse sentido tinha recebido…”. Sobreviveu à guerra e desembarcou em Lisboa em 8 de Julho de 1919. Viria a falecer às 18 horas do dia 28 de Setembro de 1963.

6 - António Lopes, Soldado do Batalhão de Infantaria nº 3 (Viana do Castelo), 4.ª Brigada do Corpo Expedicionário Português (2ª Divisão). Nasceu às quatro horas da tarde do dia 27 de Outubro de 1893 no lugar de Pomar, freguesia de São Tiago de Penso, filho de João Luíz Lopes e de Maria José Vaz. À época da partida para a guerra, encontrava-se solteiro e morador no lugar do Pomar, freguesia de Penso. Embarcou para França integrado no Corpo Expedicionário Português a 18 de Abril de 1917, onde pertenceu à Brigada do Minho. Dos registos inscritos no seu Boletim Individual, sabemos que baixou ao Hospital da Base em 11 de Abril de 1918. Foi julgado incapaz de todo o serviço em 13 de Maio de 1918, tendo alta em 13 de Maio e ficou "a aguardar confirmação junta que o julgou incapaz”. Sobreviveu à guerra e desembarcou em Lisboa em data que não vem inscrita no seu Boletim Individual e portanto se desconhece. Viria a falecer na freguesia de Penso (Melgaço) no dia 8 de Março de 1975.

7 - Jaime Rodrigues, Soldado do Batalhão de Infantaria nº 3 (Viana do Castelo), 4.ª Brigada do Corpo Expedicionário Português (2ª Divisão). Nasceu às dez horas da noite do dia 27 de Outubro de 1895 no lugar de Pomar, freguesia de São Tiago de Penso, filho de pai incógnito e de Maria Luíza Rodrigues. À época da sua partida para a guerra, encontrava-se solteiro e era morador no dito lugar do Pomar, freguesia de Penso. Embarcou para França integrado no Corpo Expedicionário Português a 15 de Abril de 1917, onde pertenceu à Brigada do Minho, tendo combatido na Batalha de La Lys em 9 de Abril de 1918, fazendo parte do 2º Grupo de Pioneiros. Pelos registos que constam no seu Boletim Individual, sabemos que baixou ao Hospital da Base em 21 de Junho de 1918 tendo alta em 31 de Julho. Foi julgado incapaz de todo o serviço em 29 de Junho de 1918, tendo sido evacuado afim de ser repatriado em 6 de Agosto de 1918. Sobreviveu à guerra e desembarcou em Lisboa em 25 de Agosto de 1918. Posteriormente, viria a casar com Olívia Vieites em 25 de Outubro de 1918, pouco tempo depois de ter regressado da guerra. Viria a falecer na freguesia de Penso no dia 13 de Setembro de 1971.

8 - Zeferino Domingues, Soldado do Batalhão de Infantaria nº 3 (Viana do Castelo), 4.ª Brigada do Corpo Expedicionário Português (2ª Divisão). Nasceu às duas horas da manhã do dia 24 de Agosto de 1895 no lugar das Lages, freguesia de São Tiago de Penso, filho de Manuel José Domingues e de Maria Joaquina Vaz. À época da sua partida para a guerra, encontrava-se solteiro e era morador no lugar das Lages, freguesia de Penso. Embarcou para França integrado no Corpo Expedicionário Português em 1917, em data incerta, onde pertenceu à Brigada do Minho. Sobreviveu à guerra e desembarcou em Lisboa em 1918 ou 1919, em data incerta.

9 - Luíz Tavares, Alferes de do Batalhão de Infantaria nº 3 (Viana do Castelo), 4.ª Brigada do Corpo Expedicionário Português (2ª Divisão). Nasceu às oito horas da noite do dia 22 de Fevereiro de 1885 no lugar de Telhada Grande, freguesia de São Tiago de Penso, filho de pai incógnito e de Adelina Tavares. À época da sua partida para a guerra era casado com Aminia da Conceição, desde 3 de Setembro de 1910 e era morador no concelho de Valença. Embarcou para França integrado no Corpo Expedicionário Português a 15 de Abril de 1917, onde pertenceu à Brigada do Minho. Já em França, baixou à ambulância nº 3 em 12 de Setembro de 1917. Foi evacuado para o Hospital da Base em 13 de Fevereiro tendo recebido alta no dia 17 do mesmo mês e ano, com 8 dias de convalescença. É promovido a sargento ajudante no dia 29 de Fevereiro de 1917. Promovido a Alferes por decreto de 9 de Fevereiro de 1918, sendo colocado no Regimento de Infantaria 20. Baixa ao hospital em 14 de Março de 1918, tendo alta em 8 de Abril. Obteve licença da Junta por 30 dias, sendo-lhe concedido gozá-los em Portugal para onde segue em 1 de Maio. Sobreviveu à guerra e desconhece-se se voltou para França após a licença por falta de registos. Viria a falecer no dia 21 de Outubro de 1949.

10 - José Garcia, Soldado de Infantaria (Companhia e Regimento desconhecidos). Nasceu em data desconhecida na freguesia de São Tiago de Penso (naturalidade indicada no Boletim Individual mas não consta no respetivo Livro Paroquial de Batismos), filho de Manuel Garcia e de Maria Garcia. À época da sua partida para a guerra, encontrava-se solteiro e era morador na freguesia de Penso. Embarcou para França integrado no Corpo Expedicionário Português a 16 de Maio de 1917. Os informações são escassas em relação ao percurso militar deste soldado durante a guerra. Sabe-se que durante a sua permanência em França, entrou no gozo de 10 dias de licença de campanha em 7 de Fevereiro de 1919. Estava presente no Comando Militar de Ambleteuse em 18 de Março desse ano e seguiu no mesmo dia para o Porto de Embarque (Cherbourg) com vista a ser repatriado juntamente com a sua unidade, embarcando para Portugal no dia 5 de Abril de 1919. Sobreviveu à guerra e desembarcou em Lisboa em 13 de Abril de 1919.

11 - Manuel Pereira, Soldado do Batalhão de Infantaria nº 1 (Lisboa), 6.ª Brigada do Corpo Expedicionário Português (2ª Divisão). Nasceu às três horas da tarde do dia 30 de Janeiro de 1893 no lugar de Alempassa, freguesia de São Tiago de Penso, filho de João Manuel Pereira e de Rosa Rodrigues. À época da partida para a guerra, era solteiro e morava na rua da Betesga, nos nº 95/96, na cidade de Lisboa. Embarcou para França integrado no Corpo Expedicionário Português a 11 de Julho de 1917.  Já em França, durante a guerra, baixou à ambulância em 9 de Agosto de 1917. Foi julgado incapaz de todo o serviço ativo em sessão de Junta Médica de 13 de Agosto do mesmo ano. Teve alta no dia 14 do mesmo mês. Posteriormente, foi colocado no Quartel General do Corpo Expedicionário Português em 19 de Setembro de 1917. Seguiu para o Quartel General da Base com vista a ser repatriado em 5 de Julho de 1918. Sobreviveu à guerra e desembarcou em Lisboa em 9 de Junho de 1919. Após a guerra, casou em 23 de Junho de 1927, com Amélia da Conceição Silva. Viria a falecer em 18 de Maio de 1977.

sexta-feira, 7 de abril de 2017

Os soldados de Melgaço na Batalha de La Lys (1918): Os caídos em combate



Foi há cerca de 100 anos que os primeiros soldados do contingente que Portugal enviou para combater em França na I Guerra Mundial chegaram à Flandres. Com base nos dados de que disponho, de Melgaço, partiram para a guerra 69 homens, oriundos das diversas freguesias.Estes homens foram autenticamente “roubados” às suas vidas e obrigados a ir para uma guerra para a qual não estavam preparados. Paderne, com 13 homens, Penso, com 11 homens e Vila, 10 homens são as freguesias melgacenses que mais contribuiram em termos de número de efetivos. Estes homens da nossa terra, feitos soldados, tinham todos à data do embarque, idades entre 22 e 27 anos completos (nascidos entre 1891 e 1895).
Assim, entre Janeiro e Novembro de 1917, partiram estes homens do porto de Alcântara, rumo ao porto de Brest (França) numa viagem de navio de vários dias. Daí seguiram de comboio até à zona sul da Flandres francesa perto de Armentières, nos vales dos rios Lys e Aire.
Depois de uma curta estadia em Brest, porto de desembarque das tropas portuguesas, seguia-se o transporte, de comboio, até à região de “Aire”, zona destinada às tropas do CEP.
E foi num clima agreste, de neve, chuva e frio, língua e costumes tão diferentes dos seus, que estes homens da nossa terra e as tropas portuguesas tiveram de suportar mais de um mês de treino complementar, junto do exército britânico, para se poderem “familiarizar” com as armas inglesas com que iam combater e com as novas formas da guerra que iam conhecer de perto.
Na guerra, dos 69 homens de Melgaço que partiram, 10 morreram caídos em combate ou devido a outras causas como doenças. O primeiro melgacense a morrer em combate foi o soldado António Alberto Dias, natural do lugar da Verdelha (Paderne) que faleceu a 9 de Outubro de 1917 na Flandres (França). 
Quatro dos caídos em combate, faleceram durante a Batalha de La Lys (9 de Abril de 1918). São eles os soldados José Cerqueira Afonso, de Paços (Melgaço); José Narciso Pinto, de Chaviães; João José Pires, da freguesia de Paços (Melgaço), António José da Cunha, natural da freguesia da Santa Maria da Porta (Vila – Melgaço). O último pertencia ao 6.º Grupo de Baterias de Metralhadoras e os três primeiros eram soldados que pertenciam à 4ª Brigada de Infantaria do CEP, Regimento de Infantaria n.º 3 (Viana do Castelo). Esta era conhecida como a Brigada do Minho, a que pertenciam a maioria dos soldados melgacenses, e já tinha conquistado uma reputação de bravura na frente de batalha muito antes de lhe ser confiada, em Fevereiro de 1918, a defesa do sector de Fauquissart, em Laventie, na Flandres francesa, perto da fronteira com a Bélgica, onde ainda se encontrava nesse fatídico dia 9 de Abril de 1918, quando foi dizimada pelos alemães na dita batalha de La Lys. Faz amanhã, 9 de Abril, 99 anos...

MELGACENSES MORTOS NA BATALHA DE LA LYS (LEVANTIE, FLANDRES FRANCESA)
  • João José Pires, soldado da 2.ª Companhia do Regimento de Infantaria n.º 3; nascido a 28 de Abril de 1893 no Outeiro, lugar da freguesia de Santa Maria de Paços, filho de José Joaquim Pires e de Alexandrina Pires; solteiro e morador em Paços; embarcou para França integrado no Corpo Expedicionário Português a 15 de Abril de 1917, onde pertenceu à Brigada do Minho; falecido em combate na Batalha de La Lys a 9 de Abril de 1918. Encontra-se sepultado no Cemitério de Richebourg l`Avoué (França), Talhão C, Fila 10, Coval 5.


Sepultura do soldado João José Pires
(Cemitério Militar de Cemitério de Richebourg l`Avoué, França)


  • José Narciso Pinto, soldado da 4.ª Companhia do Regimento de Infantaria n.º 3; nascido a 3 de Março de 1893 na Igreja, lugar da freguesia de Santa Maria Madalena de Chaviães, filho de Manuel António Pinto e de Cândida Maria Alves; casado e morador em Chaviães; embarcou para França integrado no Corpo Expedicionário Português a 22 de Abril de 1917, onde pertenceu à Brigada do Minho. Falecido em combate na Batalha de La Lys a 9 de Abril de 1918. Encontra-se sepultado no Cemitério de Richebourg l`Avoué (França), Talhão D, Fila 3, Coval 24.
Sepultura do soldado José Narciso Pinto
(Cemitério Militar de Cemitério de Richebourg l`Avoué, França)



  • António José Cardoso Ferreira Pinto da Cunha, segundo-sargento do Regimento de Obuses de Campanha; nascido a 28 de Julho de 1892 na Rua Direita, vila e freguesia Santa Maria da Porta de Melgaço, filho de António José Ferreira Pinto da Cunha e de Carlota Amália Cardoso; solteiro e morador na vila de Arcos de Valdevez; embarcou para França integrado no Corpo Expedicionário Português a 20 de Agosto de 1917, onde pertenceu ao 6.º Grupo de Baterias de Metralhadoras. Participou na Batalha de La Lys. Inicialmente dada com desaparecido em combate. Mais tarde considerado morto em combate na dita batalha a 9 de Abril de 1918. Desconhece-se o paradeiro dos seus restos mortais.
Nesta investigação, fui descobrir uma carta que este Segundo Sargento Pinto da Cunha, escrita algures na primeira metade de 1917, à data estudante no liceu de Guimarães, escreveu a uma pessoa influente para que esta intercedesse junto do ministro da Guerra, Bernardino Machado, no sentido de obter dispensa do curso de sargentos até Julho de 1917, para poder frequentar o liceu e fazer exame do então 5º ano. Argumentava que já no ano anterior não tinha podido terminar este nível dos estudo por ter sido chamado ao quartel. Desconheço a resposta a esta missiva.


Carta de António José Cardoso Ferreira Pinto da Cunha

  • José Cerqueira Afonso, soldado da 4.ª Companhia do Regimento de Infantaria n.º 3; nascido a 14 de Março de 1892 nas Fontes, lugar da freguesia de São Salvador de Paderne, filho de Inácio José Afonso e de Maria Cerqueira; casado e morador em Paderne; embarcou para França integrado no Corpo Expedicionário Português a 22 de Abril de 1917, onde pertenceu à Brigada do Minho; falecido em combate na Batalha de La Lys a 9 de Abril de 1918.
Sepultura do soldado José Cerqueira Afonso
(Cemitério Militar de Cemitério de Richebourg l`Avoué, França)

Esta batalha foi um dos maiores desastres de toda a História Militar portuguesa. A mesma é contada por um soldado português que nela esteve envolvido numa carta enviada à família. Na mesma, datada de 11 de Julho de 1918, o soldado tentou reconstituir, em breves palavras, os acontecimentos daquela noite: “Às quatro horas da manhã do dia 9 de Abril de 1918 rompe um enorme bombardeamento por parte do inimigo, coisa essa que nós, à primeira vista, não estranhámos, visto que já estávamos habituados a tudo isso, mas o prazo desse bombardeamento foi-se prolongando e as horas foram-se passando, e já depois de o inimigo ter feito grandes tentativas para avançar para as nossas trincheiras e sempre repelido pelo nosso fogo, continua o grande bombardeamento com uma tal violência que ao fim de algumas horas o chão estava todo voltado com o debaixo para cima, um completo horror, é mesmo inexplicável. Milhares e milhares de infelizes portugueses tinham desaparecido, uns despedaçados pelos ares, outros tinham ficado soterrados para jamais serem vistos”.
De manhã, chegara a hora de contabilizar as baixas: 398 mortos (369 praças e 29 oficiais) e uma esmagadora maioria de prisioneiros (6585, dos quais 6315 eram praças e 270 oficiais).
Deste total de prisioneiros de guerra, nove soldados eram melgacenses. Inicialmente, estes homens foram dados como “desaparecidos em combate” e esse facto foi comunicado às famílias. Vários meses mais tarde, após o fim da guerra, em Novembro de 1918, a Comissão dos Prisioneiros de Guerra, comunicou que estes homens se encontravam em campos de prisioneiros na Alemanha, pondo fim a meses de sofrimento dos soldados e das suas famílias que os julgavam mortos. Chegaram-se a fazer funerais sem corpo por este país fora. 
Quem foram os soldados melgacenses desaparecidos em combate? De que freguesias eram? Em que campos de prisioneiros estiveram? Como regressaram a Portugal? E muitas outras respostas...
Conto-vos na próxima publicação!

Fontes consultadas:
- Arquivo Histórico do Exército;
- OLIVEIRA, Maria José (2011) – “Deste triste viver" – Memórias dos prisioneiros de guerra portugueses na primeira Guerra Mundial. Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Unoversidae Nova de Lisboa, Lisboa;
- MARQUES, Isabel Pestana, op. cit., p. 389; AFONSO, Aniceto, 2008, Grande Guerra. Angola, Moçambique e Flandres. 1914/1918, Lisboa, Quidnovi, Col. Guerras e Campanhas Militares, p. 106;

- TEIXEIRA, Nuno Severiano, 1992, “A Fome e a Saudade. Os Prisioneiros Portugueses na Grande Guerra”, in Penélope. Fazer e Desfazer a História, Lisboa, nº 8, p. 102.

::::::::::::::::::::::::::::::::::::CONTINUA::::::::::::::::::::::::::::::::::::: 

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

A história de um soldado de Chaviães nas trincheiras de França (1ª Grande Guerra)

Soldados portugueses nas trincheiras de França

A Primeira Guerra Mundial (1914-1918) foi provavelmente o mais duro conflito militar da História da humanidade, no que toca às condições de combate para os soldados. Em Agosto de 1914, começou o conflito que mudaria o mundo para sempre.
Em pouco tempo, Portugal prepara uma expedição para enviar para Angola e Moçambique com vista a defender estes territórios dos ataques frequentes dos alemães. Contudo, apenas a partir de Janeiro de 1917 é que o nosso país enviaria tropas para França na sequência da declaração de guerra da Alemanha a Portugal, em resposta ao confisco de navios alemães por parte de Portugal. Em poucos meses, foi organizado o designado Corpo Expedicionário Português (CEP), tarefa coordenada pelo general Norton de Matos.
No contingente português que combateu em França, ficou célebre a chamada “Brigada do Minho”, 4ª Brigada de Infantaria do CEP. Esta brigada conquistou uma reputação de bravura na frente de batalha muito antes de lhe ser confiada, em Fevereiro de 1918, a defesa do sector de Fauquissart, em Laventie, na Flandres francesa, perto da fronteira com a Bélgica, onde ainda se encontrava nesse fatídico dia 9 de Abril de 1918, quando foi dizimada pelos alemães na batalha de La Lys.
Algumas dezenas de soldados que compunham esta Brigada do Minho eram melgacenses e que merecem a nossa mais sentida homenagem. Um deles era o soldado José Maria da Cunha, de Chaviães.
O José Maria nasceu no lugar da Portela, na dita freguesia de Chaviães em 11 de Março de 1893, pela quatro da manhã, conforme se pode ler no assento de batismo. Era filho de Aníbal dos Anjos da Cunha, lavrador, natural das Carvalhiças, e de Felizbella Cândida Alves, natural de Chaviães. Foi batizado em 19 de Março do mesmo ano na igreja paroquial da sua freguesia (figuras 1 e 2).
O José Maria casou com Zalminda Rosa Rodrigues, natural da freguesia da Vila de Melgaço, filha de pai incógnito e de Silvana Rodrigues, em 24 de Agosto de 1912.

                                                   (clique nas imagens para ampliar)
Fig.1 - Assento de batismo de José Maria da Cunha (pág. 1)

Fig. 2 - Assento de batismo de José Maria da Cunha (pág. 2)

Entretanto, no Verão de 1914, eclode a guerra. Inicialmente, pensou-se que seria um conflito breve que se resolveria antes da chegada do Inverno. Em vez disso, o conflito foi-se tornando cada vez mais global e sem fim à vista.  
Com as declarações de guerra  mútuas entre Alemanha e Portugal, em Março de 1916, a neutralidade portuguesa chega ao fim. É preparado o Corpo Expedicionário Português (C.E.P.) e os primeiros soldados portugueses partem para o norte de França em Janeiro de 1917. O soldado José Maria da Cunha é alistado no C.E.P. e integrado na 1.ª Companhia do Regimento de Infantaria n.º 3. Embarca em Lisboa e parte para a guerra em França a 15 de Abril de 1917, conforme se pode ler na sua Ficha Individual (Figuras 3 a 6), onde era portador da placa de identificação número 49 027.
Chegado ao teatro de guerra, sabemos que esteve hospitalizado desde o dia 21 de Abril e só receberia alta em 31 de Maio segundo informações que constam na sua Ficha Individual do soldado. Não se sabe se este período de internamento se deveu ao facto de ter ficado ferido ou então ter contraído alguma doença durante a viagem de barco onde as condições eram bastante precárias.
Sabe-se também que o José Maria foi ferido em combate no dia 23 de Setembro desse ano de 1917. Na sequência deste mesmo episódio, foi-lhe atribuído um louvor “pela coragem que mostrou na defesa do flanco direito do seu posto, não o abandonando, embora já ferido, senão por ordem do respetivo comandante depois do mesmo terminado”, tal como consta na Ficha Individual do soldado. Posteriormente, foi condecorado com a Cruz de Guerra de 3ª classe, atribuição publicada em Decreto de 5 de Novembro de 1917, premiando a sua bravura.

(clique nas imagens para ampliar)
Fig. 3 - Ficha Individual do soldado José Maria da Cunha (pág. 1)

Fig. 4 - Ficha Individual do soldado José Maria da Cunha (pág. 2)

Fig. 5 - Ficha Individual do soldado José Maria da Cunha (pág. 3)

Fig. 6 - Ficha Individual do soldado José Maria da Cunha (pág. 4)
Em 22 de Novembro do mesmo ano, o soldado José Maria da Cunha de Chaviães encontrava-se na primeira linha de combate, onde viria a morrer. Na Ficha Individual do soldado, pode ler-se que “faleceu na 1ª linha, por ter sido ferido em combate, em 22 do mesmo mês (Novembro de 1917), sendo sepultado no cemitério de Le Touret, coval nº 100”.
Este cemitério militar, localizado em Pas de Calais, no norte de França, foi criado no final de 1914 para o exército Inglês. Seria utilizado pelos portugueses, reunindo aí cerca de 264 soldados portugueses sepultados. Contudo, posteriormente os restos mortais do soldado José Maria e dos outros combatentes portugueses aí enterrados foram  transladados para o Cemitério Militar Português de Richebourg (França) a cerca de 75 quilómetros a sudeste de Calais, perto da fronteira com a Bélgica.

Os restos  mortais do soldado José Maria repousam no dito cemitério militar, no Talhão A, Fila 13, Coval 3. (Foto 3)

Foto 2 - Entrada do Cemitério Militar Português de Richebourg l'Avoué


Foto 3 - Sepultura do soldado José Maria da Cunha, com o seu nome gravado na pedra
(Cemitério Militar Português de Richebourg l'Avoué, França)