Mostrar mensagens com a etiqueta castro laboreiro. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta castro laboreiro. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 2 de novembro de 2018

Sobre uma célula comunista no Ribeiro (Castro Laboreiro) em tempos de repressão




Nos tempos da guerra civil espanhola e nos anos seguinte ao conflito, afluíram a terras de Castro Laboreiro, centenas de refugiados galegos e de outras regiões de Espanha. Alguns deles eram ativistas políticos anti-franquista pertencente a forças de esquerda como o Partido Comunista Espanhol e contam com a colaboração de operacionais de esquerda do lado de cá da fronteira, além do precioso encobrimento que a população castreja lhes deu. Inclusivamente se fala que no Ribeiro (Castro Laboreiro) chegou a existir uma célula ativa do Partido Comunista Espanhol.
Num trabalho de investigação publicado em 2007, Angel Rodriguez Gallardo fala-nos dessa realidadeNo fim da guerra civil, na Serra de Castro Laboreiro, o Partido Comunista Espanhol mantinha um ponto de apoio de entrada em território espanhol controlado por vários dos refugiados que ali operavam e que tinham  como base de operações as aldeias do Ribeiro de Baixo e Ribeiro de Cima (Castro Laboreiro), muito próximas das aldeias galegas de Pereira e Olelas, no concelho galego de Entrimo. Estes lugares eram na época habituais pontos de passagem duma secular rota de contrabando. O grupo de refugiados estabelecido nestas terras serranas diversificou durante vários anos as suas atividades, pois dedicaram-se não só a atividades políticas ou de guerrilha, mas também ao contrabando e à obtenção de documentação para conseguir que alguns desses refugiados saíssem de Portugal em direção ao México ou outros países da América Latina.
Em 1940, o Partido Comunista Espanhol conclui a montagem da sua estrutura no norte de Portugal, graças à presença de quadros enviados de países da América Latina. Em 5 de Março de 1941, aconteceu um episódio na cidade do Porto, em que um grupo de comunistas galegos e vários polícias portugueses se enfrentaram, de que resulta a morte de um legionário e um soldado da Guarda Fiscal e um agente da PVDE gravemente ferido. Se antes deste episódio, as autoridade portuguesas vinham intensificando o controlo sobre os refugiados galegos e outros espanhóis no norte de Portugal, a partir deste incidente recuou a disposição repressiva sobre essa comunidade de exilados, que terminou com várias detenções. Apesar de a partir de Julho de 1941, o Partido Comunista Espanhol continuará com o objetivo de manter uma estrutura sólida em Portugal, os erros de organização e as caídas de quadros em diferentes pontos da Península Ibérica acabarão destruindo essa possibilidade. Tudo isto num contexto de militantes sitiados em diferentes locais com deslocações ilegais e contínuas em penosas condições no meio de uma guerra mundial e dentro de um país que tinha uma ditadura pro-nazi.
Os grupos de refugiados e de guerrilheiros que utilizavam Portugal como lugar de proteção começaram a ter problemas com essa cada vez mais numeroza presença de forças policiais portuguesas pela área de fronteira, especialmente aqueles que permaneciam com contactos estáveis na zona de Montalegre, Chaves e Vila Verde de Raia.
O enfrentamento em setembro de 1945, entre membros do grupo de Demetrio Garcia Álvarez, O Pedro, e Juan Salgado Riveiro, O Juan, moradores de Oimbra – Verin, com apoios em Cambedo e no Barroso, quando tentavam praticar um assalto e foram supreendidos por uma patrulha da Guarda Civil, fez piorar a situação dos refugiados espanhóis em Portugal. A partir desse episódio, intensificou-se o efetivo de controlo sobre a fronteira, que culminou nesta região com o cerco a Cambedo, em que se aconteceram as mortes de Juan Salgado Rivero e Bernardino Garcia, e a detenção de Demetrio Garcia Alvarez, em 22 de dezembro de 1946. Foi esse o mesmo ano em que Manuel Perez Rodriguez, galego que tinha estado refugiado duas vezes no norte de Portugal, a segunda em Castro Laboreiro, regressou à sua aldeia natal depois de ser apanhado em 1944 no Ribeiro de Baixo e ser conduzido a Madrid por estar implicado num processo militar. Dez anos depois de começar a guerra civil espanhola, Manuel Pérez Rodriguez podia contemplar desde a sua casa natal a ressaca de anos de efervescência na raia castreja, com a paulatina desaparição dos grupos de refugiados instalados no norte de Portugal. Ainda hoje, aos seus noventa e quatro anos, pode continuar a olhar para a raia, o pedaço de brumosa raia, perguntando-se pelas razões pelas quais um homem como ele, um silencioso protagonista da História, havia de ser vítima de dois fenómenos repressivos peninsulares do século XX, transformando-se assim, como tantos outros, num galego em fuga de Franco e da Repressão, num galego vítima de Salazar."




Extraído de: GALLARDO, Angel Rodriguéz (2007) - Refuxiados e Fuxidos nos Montes de Laboreiro. Cuaderno Arraiano, Verão 2007.

sexta-feira, 19 de outubro de 2018

Sobre crenças antigas das gentes de Melgaço há 100 anos atrás




Foi no início do século XX que se fizeram algumas das mais importantes recolhas da tradição oral das gentes de Melgaço, sobretudo da autoria de José Leite de Vasconcelos. Alguns destes estudos debruçam-se sobre as crenças antigas e rituais para s mais variadas situações do quotidiano. 
Por exemplo, era comum na época, na nossa terra, a crença de que as crianças, quando ainda estavam por baptizar, se encontrarem em perigo, acrescendo o perigo quando saem de casa. Dizia-se que quando os meninos estão por baptizar e andam ao collo da mãe, é preciso pôr-lhes atravessados no braço as calças do pae, para as bruxas os não levarem”. O estado de “excecionalidade” destas crianças colocam-nas em situações de risco muito graves. “Neste estado de desgraça ficam mais sujeitas a sofrer acções sobrenaturais e outros males. As mães devem pôr debaixo do travesseiro uma meada de linho ou estopa, sem cozerem, quer dizer, sem ser fervida [porque se ferve a meada com cinza-barrela, para ganhar a cor branca], a fim de evitar que as bruxas ou o Inimigo lhes façam mal” (VASCONCELOS, J. L., 1985). Segundo a crença religiosa cristã, a criança nasce com o pecado original desaparece com o batismo, daí o facto de as crianças nesta época serem batizadas, geralmente, nos dias seguintes ao seu nascimento. Havia o receio de que morressem em pecado.
Leite de Vasconcelos ouviu em Prado, neste concelho de Melgaço, falar em «más vistages que fazem mal à gente» e de más olhadas, dadas por gente que tem vista fina, que quebra vidros. Para talhar ou cortar uma olhada ruim, que causa dor de cabeça, pega-se em areia de sal virgem (que não serviu) e, benzendo o doente, diz-se:
Dois olhos me feriram,
E quatro me sararão
Dois sejam de Nossa Senhora:
E dois de S. João.
Pela graça de Deus e da Virgem Maria
Um padre-nosso e uma ave-maria.”
(VASCONCELOS, JL, 1985)
Voltando às fadas, Leite de Vasconcelos também nos diz que “em Melgaço, lava-se a criança, pela primeira vez, com água em que se deita prata ou ouro (um anel, por exemplo) e diz-se:
Boas auginhas te lavem,
Boas fadas te fadem,
Pela graça de Deus e da Virgem Maria Nossa Senhora”.
No concelho de Melgaço, faziam-se também os chamados "batizados na barriga". Levavam a mulher para debaixo de uma ponte que tenha nome de santo, antes da meia-noite, e a primeira pessoa que passar a ponte depois da meia-noite, ainda que seja o Diabo, é obrigada por bem, ou à força, a fazer o baptismo, que consiste em deitar água do ribeiro ou rio que passa sob a ponte na barriga da mulher com um púcaro de barro vidrado, novo, que se enche de cima da ponte, atado a um cordão (as mulheres desapertam a blusa, deitando-se-lhes a água por aí, ou abaixavam um pouco a saia na cinta, mostrando um pouco do ventre, ou ainda levantam a saia, lançando-se-lhes então a água por baixo), e dizendo as seguintes palavras: «Eu te baptizo com a água do rio em nome do Padre e do Filho». Depois disso, à pessoa que fez o baptismo, é servido vinho e comida com muitas tostas até que não queira mais. A pessoa que faz este baptismo é também a que depois vai servir de padrinho, na igreja (VASCONCELOS, JL, 1985).
Na época, havia na freguesia de Paços, um homem chamado Manuel Afonso, nascido em Castro Laboreiro, conhecido como o “Sábio de Vila Draque”. Conforme o registo de Leite de Vasconcelos, o «Sábio de Vila Draque» curava certas doenças pegando num pedacinho de aço, posto em cruz na casa, ou na cama sobre o doente, e dizendo a seguinte oração: «Ó aço, que picaste em terra, sirvas para benefício da minha casa! Deixa este corpo são e salvo!». Acrescenta o mesmo autor que o «bruxo» possuia «um pedaço de aço de três pontas que mandou fazer a um ferreiro e benzeram-lho num convento». (VASCONCELOS, JL.,1985).
Há um século atrás, ouvia-se falar também de ensalmos para talhar o ar sendo que o investigador descreve-nos como se proceder para levar a cabo um ritual:
Toma-se sal virgem (que nunca tenha servido), e com ele na mão, fazem cruzes sobre o rosto do paciente, dizendo:
Talho mau ar,
Corrimento [dos ventos]
E tolhimento
Bota-te fora deste corpo,
Vai-te para o mar coalhado:
Ar de vivo,
Ar de morto,
Ar de excomungado,
Ar de empecimento
E ar de inveja,
Q’antas calidades d’ares
Possa haver e empecer,
Eu te desconjuro
Para o mar coalhado.
Deixa este corpo
São e salvo
Como na hora
Em que foi nado.
Deita-se o sal em cruz para trás das costas do doente e para os lados. Toma-se mais sal miúdo e coloca-se com cuspo na testa, queixo e fontes, dizendo, simultaneamente:
Nada tirei,
Mezinha farei
Pela graça de Deus e da Virgem Maria”.
Num tempo em que as crenças ocupavam um lugar muito importante na vida das gentes, existiam também rituais para desmanchar um feitiço. Para tal, tomava-se um quartilho de azeite, benzido por um padre que não seja amante de mulheres e o indivíduo com feitiço vomita-o imediatamente (recolha feita em Melgaço em 1918). Para se saber se alguma pessoa tem quebranto, deitam-se três pingos de azeite em água: se o azeite se espalhar tem, se ficar junto não tem.
Uma outra crença da época em terras de Melgaço estava ligada a “encomendar ou  aumentar as almas” e consistia em ritual no qual se lembravam os nomes das almas para as encomendar a Deus. A encomendação é realizada dentro de um signo-saimão (parecido com uma estrela de cinco pontas, para o operador não ser tentado pelo Diabo, concluindo a cerimónia com a exclamação: «Peço um Padre Nosso e uma Ave Maria por todas as almas em geral que estão nas penas do purgatório», seguida da respetiva recitação em voz muito alta. Em Castro Laboreiro, consoante informação que deram ao antropólogo José Leite de Vasconcelos, um homem ia (às quartas e sextas-feiras, de noite) a um lugar ermo e alto, armado, «por causa das coisas más», desenhava um signo-saimão no chão (parecido a uma estrela de cinco pontas), de modo que uma árvore ficasse no meio dele, subia a ela e, em voz fúnebre, entoava um cântico religioso, com o qual provocava medo a quem o ouvisse.
E muitas mais crenças ficam por contar…


Informações extraídas de:
- MARQUES, Alexandre da Silva (2014) – Lugares da Memória – A Ponte da Mizarela. Instituto de Ciências Sociais; Universidade do Minho, Braga.
- VASCONCELOS, José Leite de (1985) – Etnografia Portuguesa. Volume III, Tradições Portuguesas.

quinta-feira, 16 de agosto de 2018

"FESTA CRASTEJA" no programa A PRAÇA - RTP1 (16/08/2018)



Os costumes das gentes de Castro Laboreiro estiveram hoje em destaque no programa "A Praça" na manhã da RTP1.
Veja ou reveja o excerto do programa no vídeo abaixo!


sexta-feira, 20 de julho de 2018

Castro Laboreiro numa história do escritor Júlio Dantas (1932)




Em 1932, na publicação brasileira "Revista Feminina", o escritor Júlio Dantas publicou um conto cujo enredo se passa em Castro Laboreiro e onde uma das personagens recorda uma visita a terras castrejas quarenta anos antes. A história tem o título "Uma mulher" e diz assim...

"Uma Mulher
Era quase noite quando o velho Pedro Lindoso e eu, depois de duas longas horas a cavalo pela serra, chegámos a Castro Laboreiro. O meu provecto amigo, apesar dos seus setenta e três anos feitos, firme na montada como um rapaz, mantinha com aprumo as suas tradições de marialva, mestre de picaria, saboneiro e espotrejador dos melhores do seu tempo. Uma leve aragem fazia ramalhar, num cicio brando, a fronde dos castanheiros patriarcas. O sol, como um disco de cobre em brasa, rolava sobre o friso roxo do horizonte.
Das bandas de Hespanha chegava, às lufadas, um cheiro acre de mato queimado.
Já não vinha aqui há quarenta anos! — disse Lindoso, numa expressão de melancolia que contrastava com o seu feitio ordinariamente jovial.
Na volta duma castinceira brava, as primeiras casas assomaram cabrejando na encosta, toscas, cobertas de colmo hirsuto, com as suas características varandas debruçadas sobre bárbaros pilares de pedra e as suas lumieiras baixas donde se exalava um bafo morno de curral. Aproximei o cavalo duma das frestas: uma luz de candeia bruxoleava; junto duma mancha ruiva e buliçosa de gado, numa tarimba suspensa, três vultos humanos roncavam, de borco. Atada pelo cabresto a um argolão de ferro chumbado nos pilares de granito, cada casa tinha, espojada à porta, a sua cavalgadura, inquieta sob a mordedura dos tabões e dos moscardos. Aqui e além, uma figura bronca de castrejo, como uma pincelada negra, escoava-se na sombra. Dir-se-ia que atravessávamos um povoado medieval.
Onde é a estalagem? — perguntou o meu companheiro a uma mulher de capeirete negro que caminhava ao nosso encontro atrás dum porco gelatinoso e enorme.
Mais além, na casa do arco.
Ainda é na casa do arco?
Continuámos a marcha. Descobria-se já, para os lados de Hespanha, o clarão da queimada. Da Sutra banda, vista através da renda negra de um pinhal, a última palpitação luminosa do ocaso tinha uma vaga tonalidade de ouro verde. Começavam a ouvir-se uivar e latir os cães, os fortes molossos de Castro Laboreiro, cruzados de cadela e de lobo. Coágulos espessos de sombra davam-nos a impressão inquietante de que atravancavam o caminho. Por fim, parámos diante duma casa maior do que aquelas que tínhamos visto até ali, com telhado amouriscado em vez de cobertura de colmo, uma varanda mais larga sobre cachorros, e um arco de grosseiras aduelas dando acesso a um pátio onde, numa promiscuidade selvagem, à luz duma lanterna, dormiam homens e gado.
É aqui que nós ficámos? — perguntei eu, com manifesto descontentamento.
Se isto ainda estiver como há quarenta anos, hás-de ficar melhor do que julgas, — disse o velho apeando-se do seu ruço rodado.
Daí a pouco, amantados os cavalos, eramos conduzidos, a pedido do meu companheiro, ao melhor quarto da estalagem, cujas portas só se abriam, de anos a anos, para receber um hóspede de qualidade. Depois do que vira no pátio, esperava tudo, confesso, menos aquela relativa opulência.
Era uma quadra ampla, caiada, com os cantos, junto à sanca, enegrecidos de teias de aranha, o soalho mal tratado e sujo, e, contrastando com
este abandono, dois leitos que podiam considerar-se ricos: um, alto, largo, de bilros, montado sobre estrado de honra de dois degraus e coberto duma colcha antiga de damasco vermelho; o outro, simples barra conventual, com pés de bicho e espaldar entalhado onde se viam as armas de São Bento, peça talvez proveniente do próximo mosteiro de Fiães. Tinha sido armada em tempo (aquela alcova — dizia-se — para lá .dormir o senhor arcebispo de Braga, em visita pastoral. Sentámo-nos em duas tripeças, abancados a uma mesa tosca de castanho, sobre a qual ardiam os três lumes dum candeeiro de latão. Pedro Lindoso, depois de encomendar ao moço da hospedaria uma ceia frugal de caldo de galinha e broa, fechou a porta. Quando nos encontrámos sós, disse-me!, depois de um momento de concentração:
Há quarenta anos, neste mesmo quarto, iam-me matando a tiro de clavina.
A ti?
Por causa duma mulher. Por pouco não fiquei estendido, como um cão.
Olhei o velho Lindoso. A sua face rapada, dura, de um tom forte de terra de Siena, contrair-se. Os seus olhos brilhavam. Enrolou um cigarro, acendeu-o, levantou-se, e a passear pela casa, as esporas de ferro de Guimarães tilintando nas sapatorras, contou-me aquela aventura dos seus tempos de rapaz. Tinha pouco mais de trinta anos, em 1892, viera a Castro Laboreiro, com duas pistolas nos coldres e um saco de libras na bolsa do arção, concluir certo negocio de compra de umas terras que entestavam com a Hespanha. O vendedor, um castrejo rico, preparara as coisas para que o fidalgo fosse bem aposentado, sendo-lhe feita a cama no "quarto do arcebispo", onde já tinham dormido — se era verdadeira a fama — além do antistite, um ministro de Estado e outras grandes personagens. A estalagem do arco era já então o que é agora com a diferença dos cães que há quarenta anos formavam uma verdadeira matilha, ululante e feroz, presa de dia aos argolões de ferro do pátio e solta de noite para a guarda da casa. O próprio "quarto do arcebispo" nada mudara em quase meio século, conservando os dois leitos, com as suas colchas de damasco, a mesa de castanho em que havia então um candelabro de prata mareada de dois lumes, e as teias de aranha pojando aos quatro cantos da alcova, — embora presumivelmente, quarenta anos antes, as aranhas devessem ser outras. O estalajadeiro, homem ruivo, gigantesco, mal encarado como os cães, perguntou ao hóspede o que queria para a ceia e disse-lhe que mandaria a filha servi-lo. Assim foi. Passado pouco tempo (com que comoção ele o recordava!) bateram de mansinho à porta, e Genoveva apareceu. Trazia uma toalha branca e uma malga de caldo nas mãos. Pedro Lindoso ficou tão deslumbrado a olha-la, que não atinou com uma só palavra para lhe dizer. Era uma maravilha. Não o tipo vulgar das belezas crassamente plebeias, mas a castreja de raça pura, tipo delgado e esbelto, pelle suave tocada de tons doirados como um marfim antigo, olhos enormes que pareciam, prolongar-se num traço negro para as fontes, mãos delicadas e brancas, e os peitos fortes arfando sob o gracioso coletinho encarnado que as mulheres da serra então usavam e cuja moda hoje se perdeu.
Ninguém a diria filha daquele pai. Enquanto Genoveva punha a mesa, olharam-se ambos: ele em êxtase, ela a furto, perturbada. Quando começou a comer, Pedro pediu-lhe que se assentasse ao seu lado, ela sorriu e recusou. Naquele silêncio feito de inexplicável ansiedade, cada um deles tinha a impressão de que sentia bater o coração do outro. A única janela do quarto, debruçada sobre o pátio interior — então cheio de fardos de palha — estava aberta. O vento entrava às lufadas. Como a toalha se levantasse, enfunada pela aragem a filha do hospedeiro apressou-se a compo-la, e esse movimento aproximou-a de Pedro.
De repente, uma lufada mais áspera apagou a vela acesa do candelabro de prata. Sem saber como, na escuridão, Genoveva encontrou-se nos braços do fidalgo, debateu-se, ia sucumbir sufocada pela boca ardente desse rapaz de trinta anos, mas resistiu, libertou-se, e desapareceu, descendo de escantilhão a escaleira até ao pátio. Foi o estalajadeiro que veio acender a luz e acabar de servir a ceia. Os movimentos do homem eram bruscos, o olhar desconfiado, e as suas mãos possantes, eriçadas de pelos ruivos, tinham atitudes de pata de fera. Pedro deitou-se mas, excitado e receoso, não ponde dormir. A sensação desse belo corpo que por instantes palpitara de encontro ao seu, e, mais ainda, o temor de qualquer surpresa, porque o quarto não tinha chave e o estalajadeiro. parecera-lhe hostil, não o deixaram conciliar o sono. Atento ao menor ruído, apalpava de vez em quando as pistolas escondidas sob o cabeçal do leito, e, de luz acesa, tinha os olhos fitos na porta, barricada com as duas tripeças, uma sobre a outra, para darem sinal. A certa altura, pareceu-lhe que alguém subia a escada. Duas tábuas rangeram; sentia-se, distintamente, o resfolegar duma respiração opressa. Pedro aperrou uma pistola, e gritou: — "Quem está ahi?"
Ferrolhou a aldabra, a porta abriu-se: era Genoveva, descalça, quase nua, um xaile preto pelos ombros. Mas as duas tripeças caíram: no silêncio da noite, o ruído atroou a casa; ladraram infernalmente os cães soltos no pátio; e, daí a pouco, ouviu-se a voz do estalajadeiro, bradando:
"Genoveva! Genoveva!" Abraçada ao fidalgo, a tremer, a pobre moça, que ele, no primeiro momento, suspeitara de traição, balbuciava numa súplica: — "Fuja, que o meu pai mata-o!" Mas fugir, por onde? Descer a escada era cair nas mãos do estalajadeiro; saltar pela janela, sobre os fardos de palha, era ser devorado pelos cães, piores do que lobos. Foi então que Genoveva teve uma inspiração salvadora. Quando já seu pai subia a escada, ela atirou o xaile pela janela e precipitou-se dum salto.
"Que é de minha filha?" — uivou o estalajadeior, assomando à porta, de clavina na mão. Mas Genoveva respondeu-lhe, de baixo, numa voz clara: — "Que quer vocemecê, pai?" o homem deixou cair a arma, já apontada ao peito do hóspede, e murmurou, humilde:
"Queira perdoar. Cuidei que a minha filha estava aqui!"
Como tu vês — concluiu o velho Lindoso, sentando-se a enrolar outro cigarro — neste mesmo quarto de estalagem, há quarenta anos, a mesma mulher me ia perdendo e me salvou! — Demoraste-te ainda?
No dia seguinte, de madrugada, fechei o negócio com o castreja, montei a cavado, e, escoltado por dois criados que ele mandou armar, pus-me a caminho.
E Genoveva?
Nunca mais a vi.
Nem soubeste dela?
Nem soube dela. Ah. Meu amigo! Quem pudera, mesmo com perigo de morte, mesmo com uma clavina aperrada aos peitos, voltar quarenta anos atrás!
Nisto, bateram, levemente à porta do quarto. Uma velha entrou, com uma toalha branca e uma malga vidrada de Darque, onde o caldo fumegava.
Tinha a cabeça branca, o corpo franzino envolto no capeirete de lã negra das castrejas, e uns olhos grandes, escuros, porventura restos de antiga formosura.
Pedro fitou-a, num movimento de interrogativa surpresa. Depois, enquanto a mulher estendia a toalha sobre a pequena mesa de castanho, eu e o meu companheiro trocámos um olhar cuja significação só nós podíamos ter compreendido. — Vive nesta casa há muito tempo? — perguntou à castreja Pedro Lindoso, cuja voz tremia de comoção.
Nasci aqui.
Como se chama?
Genoveva.
Não se lembra de mim?
A mulher encarou o fidalgo, que se levantara, olhou-o, tornou a olhal-o, e respondeu, com uma expressão de naturalidade que nos gelou:
Não tenho ideia, meu senhor.
Quando Genoveva saiu, Pedro Lindoso murmurou apenas, baixando a cabeça, para que eu não lhe visse os olhos rasos de lágrimas:
Ainda tu dizes, meu amigo, que as mulheres têm a memória do coração!"

TEXTO DE JÚLIO DANTAS.

sábado, 7 de julho de 2018

A capela de S. Bento. na Várzea Travessa (Castro Laboreiro)




Entre as várias capelas que podemos encontrar na freguesia de Castro Laboreiro, figura a capelinha de São Bento no lugar da Várzea Travessa. A sua construção remonta ao século XVIII e a razão evocada para a sua edificação é bastante curiosa.
Assim, em 1744, a 25 Junho, o padre Domingos Álvares, morador no lugar de Várzea Travessa, da freguesia de Castro Laboreiro, pede autorização para fazer uma capela nesse lugar, pondo-lhe "por fábrica o seu Barbeitto chamado de Paradella", por “estar distante da igreja um quarto de légua e devido ao facto de no inverno a enchente dos rios fazer com que possa dizer missa nos lugares, bem como os vizinhos de as ouvir, por não poderem ir à igreja”. Em 1745, a 28 Janeiro, o pároco Simão da Ribeira, Reitor da freguesia de Castro Laboreiro, certifica que o lugar onde o suplicante pretende erigir a capela tem “36 vizinhos e 84 pessoas de sacramento”. Além deste, estão "outros seis lugares ao redor deste com alguma distância da sede paroquial um quarto de légua e tem três regatos entre eles e a igreja, que vindo invernos rigorosos se não podem passar pelo perigo, sendo por isso muito necessário a dita capela para administração de sacramentos". Data de 27 de Abril desse mesmo ano, o instrumento de dote para a fábrica da capela com a propriedade de “Barbetto de Paradela, no lugar da Varge, a qual leva dois alqueires de centeio e que rende mais de $500”. O suplicante quer edificar a capela “para nela colocar a imagem de São Bento”. De 24 de Julho, data a licença do Bispo D. Eugénio Boto da Silva para o padre Domingos Álvares “erigir no lugar de Varge a capela, a qual deve ser feita com decência e perfeição devida, ao moderno com a porta principal para o público”; Em 11 de Agosto, concretiza-se o registo do processo de petição, autorização e dote para a ereção de uma capela no lugar de Várzea Travessa, freguesia de Castro Laboreiro, a pedido do Padre Domingos Álvares, morador no dito lugar.
De 1758, a 11 de Maio, conhece-se a referência à capela de São Bento pelo padre Inácio Ribeiro Marques nas Memórias Paroquiais da freguesia, como sendo da freguesia.
Em 1989, a capela sofre obras de restauro com caráter destoante, procedendo-se ao seu alteamento, abertura do pequeno vão sobre o portal, feitura do coro-alto em betão, e dos nichos da parede testeira.
A capela apresenta planta retangular simples, com cobertura homogénea em telhado de duas águas, rematadas em beirada simples. Fachadas são em cantaria de granito aparente, de aparelho irregular, sobretudo nas fiadas superiores, com as juntas tomadas e pintadas de branco, terminadas em cornija de betão. Fachada principal é virada a norte, terminada em empena, encimada por sineira, rebocada e pintada de branco, com vão em arco, albergando sino com imagem do orago, terminada em empena truncada coroada por cruz latina de cantaria, de braços quadrangulares, tendo por trás cruz latina luminosa mais alta. A capela é rasgada por portal de verga reta, sobre os pés direitos, ladeado por frestas, com grades e rede de arame, e encimado por pequeno vão retangular, com moldura de betão. Fachada lateral esquerda rasgada por porta travessa de verga reta, sobre os pés direitos, e fresta na zona do retábulo-mor, e a oposta cega, tal como a posterior, que termina em empena.
O interior tem espaço a demarcar a capela-mor, com as paredes rebocadas e pintadas de branco, pavimento em mármore e cobertura de betão. Esta capela possui coro-alto, de betão, acedido por escada do mesmo material, com guarda em ferro, disposta no lado do Evangelho. Sobre o supedâneo de um degrau dispõe-se o altar e, na parede testeira, abrem-se três nichos, em granito polido, com arco de volta perfeita, o central sensivelmente maior, albergando imaginária.

sexta-feira, 18 de maio de 2018

As águas curativas de Melgaço em meados do século XVIII





Melgaço é conhecido desde fins do século XIX como terra de águas milagrosas. Das nascentes da estância termal do Peso, nasce uma água com caraterísticas ímpares em Portugal, especialmente no tratamento da diabetes e que foi descoberta há cerca de 130 anos.
Todavia, desde há várias séculos, há referências a nascentes de águas com caraterísticas medicinais que os fregueses sempre acreditaram que curavam determinadas doenças. Noutros artigos anteriores, já aqui fiz referências às Caldas de Fiães e Paderne e outras nascentes em outros pontos do concelho.
No século XVIII, temos as Memórias Paroquias como uma das mais importantes fontes históricas para nos ajudar a compreender como era Melgaço na época. Mas o que são as memórias Paroquiais de 1758?
Um aviso de 18 de Janeiro de 1758 do Secretário de Estado dos Negócios do Reino, Sebastião José de Carvalho e Melo, fazia remeter, através dos principais prelados, e para todos os párocos do reino, os interrogatórios sobre as paróquias e povoações pedindo as suas descrições geográficas, demográficas, históricas, económicas, e administrativas, para além da questão dos estragos provocados pelo terramoto de 1 de Novembro de 1755. As respostas deveriam ser remetidas à Secretaria de Estado dos Negócios do Reino. Desta forma, estas Memórias Paroquias correspondem a um conjunto de respostas dadas a esse inquérito.
Um dos itens sobre os quais os párocos eram questionados, era a existência ou não nas paróquias de nascentes de águas curativas bem como as suas caraterísticas e prescrições.
Em Melgaço, vários párocos fazem referências a nascentes nas suas memórias paróquias em 1758. Um deles é o pároco de Castro Laboreiro que nos conta que na chamada Ribeira do Porto dos Asnos existe uma “(...) água que tem virtude para curar as chagas, e forragem da boca nos meninos lactantes, em que mais comumente se acha este dano”. Tais virtudes das águas desta ribeira são confirmadas no livro do Padre Carvalho da Costa no seu livro “Corografia Portuguesa” (1706) quando este afirma que “quando himos do Porto dos Asnos, ou Cavalleiros, passamos outro limitado ribeiro, pelo qual foy a pé o Santo Arcebispo Dom Frey Bertholameu dos Martyres a visitar aquella Igreja. Tem virtude esta água para curar a boca lixosa às crianças e outras enfermidades”.
Por outro lado, o pároco de Penso, também nos fala de uma fonte de nascente junto ao rio Minho que é conhecida há séculos como a Fonte Santa. O sacerdote escreveu nas Memórias que “(...) se lhe cha­ma por tradição antiga a Fonte Santa, tem a água dela várias vir­tudes. Tem a água desta fonte um cheiro de enxofre mas no sabor não tem mau gosto. É muito clara e muito fresca, somente o cheiro de enxofre tem a circunstância que lançando-se na dita água alguma prata a põe em breves instantes amarela como perfumada de ouro e logo se tira da água esfregando-a com os dedos da mão se alimpa e fica como dantes limpa. Por donde corre água da dita fonte deita um limo pelo rego da cor do mesmo eixofar”. O padre escreve ainda que a água emanada desta fonte era indicada “(...) especialmente para queixas de destemperança de fígado, lepra e outras mais queixas que procederam de humores quentes. Tem mais a virtude que quem beber da água dela lhe abre a vontade de comer se tiver fastio (...) e lavando alguma ferida com a água dela são especialmente se for presidida deste […] do fígado tem sido muita gente que vem tomar banhos a ela recuperando a saúde perdida de água milagrosa”.
Podemos ainda ler nas Memórias Paroquiais de Chaviães, onde o vigário nos fala de umas águas que nascem nas margens do rio Minho ou emergem no meio deste. O dito sacerdote carateriza essas águas como “Salutíferas, medicinais, asidulas por passarem por minerais de ferro (…) e costumam onde nasce, correr pouca água, deixar por cima um lasso prateado com algumas feses douradas”. O vigário fala-nos que estas águas “tem virtude eficaz para curar feridas porque são um conjunto de vá­rias águas e muitas delas são sulfúreas que nascem pela borda do dito rio e outras nasceram no centro dele e pelas áreas de ouro”.
Ainda em relação às águas do rio Minho, o vigário de Chaviães escreve nas Memórias Paroquiais que “hum célebre médico castelhano, (…) D. Jozé Lavandera (…) fez nelas suas experiências e foi maravilhado dellas, dizendo que tinham a mesma virtude que as de [Prixmoni?], em Inglaterra”.
Como vemos, as crenças nos poderes curativos das águas de diversas nascentes no nosso concelho de Melgaço é muito mais antigo que o conhecimento das virtudes das águas do Peso…                    

domingo, 1 de abril de 2018

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

Soldados do MFA em Castro Laboreiro (1975)



Trata-se da uma reportagem do jornalista Carlos Soares, sobre a realização da campanha de dinamização cultural e esclarecimento do Movimento das Forças Armadas (MFA), às populações de  Castro Laboreiro e Arcos de Valdevez, no Alto Minho (1975).
A partir do minutos 17 e 30 segundos, veja o que falam os castrejos acerca da revolução de Abril e quais são as queixas que fazem em relação ao seu isolamento e esquecimento. Nota-se que eram tempos de esperança para as populações.
Talvez alguns de vós se lembrem ou reconheçam os intervenientes na reportagem...

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

Castro Laboreiro: esconderijo de galegos e asturianos


Com o golpe militar de 1936 em Espanha, vários pontos da raia foram rapidamente controlados por tropas militares e polícias da PVDE (precursora da PIDE) e da Guarda Fiscal, para precaver a possível fuga de galegos para Portugal. A vigilância da fronteira desde o levantamento militar em Espanha foi um assunto estratégico para os portugueses que não viram com bons olhos a entrada ilegal de refugiados no seu território sobretudo se eram comunistas. O número de militantes das organizações de esquerda galegas que entrou em Portugal foi muito significativo entre Agosto e Dezembro de 1936, data em que a fronteira terrestre entre Espanha e Portugal passou a estar controlada definitivamente pelos militares golpistas.
Em finais de Julho de 1936, quando o território galego passou para as mãos dos insurretos, os portugueses distribuíram as suas tropas pelos postos fronteiriços como reforço da permanente e ativa vigilância dos primeiros dias. A partir de então, para entrar legalmente em Portugal era necessário estar provido duma carta do cônsul do respetivo país que garantisse, quer não ser portador de ideias extremistas como também não ter antecedentes penais. Os requisitos legais eram maiores caso os refugiados fossem provenientes de áreas republicanas em Espanha, já que então havia que acrescentar nomes de pessoas idóneas que os avalizassem, consequência do fervor anticomunista que dominava Portugal. Lembramos que 1936 foi o ano da criação de várias organizações de enquadramento de mulheres e jovens, mas sobretudo foi o ano de inauguração da prisão do Tarrafal, construída na parte norte da ilha de S. Tiago de Cabo Verde.
Logo nos primeiro dias do conflito bélico, ocorrem as primeiras aparições de galegos em território português. Predominavam os indocumentados, mas sobretudo pessoas conotadas com a esquerda. Das 22 passagens legais entre Galiza e Portugal, os galegos que fogem de Franco e da repressão utilizam de forma oficial os postos fronteiriços de Caminha, Vila Nova de Cerveira, Valença, Monção, Peso (Melgaço), e S. Gregório, todas ao longo do rio Minho; Vila Verde de Raia, na estrada de Chaves-Orense e às vezes também nos postos de Portela e Quintanhilha, na região de Bragança. Não era fácil controlar o trânsito ilegal  de refugiados neste longo território fronteiriço entre os dois países. De facto, a polícia política portuguesa estava seriamente preocupada pela passagem clandestina de muitos galegos a Portugal, especialmente na raia seca, pelo que em várias ocasiões a Direção da PVDE solicitou ao Ministério do Interior que se realizassem batidas nas zonas montanhosas fronteiriças de Portugal, onde permaneciam escondidos bastantes refugiados galegos.
Em finais do mês de Setembro de 1936, já havia quase 400 presos espanhóis registados em Portugal, a maioria repartidos entre o velho forte militar, o Reduto Norte do Forte de Caxias, e a prisão debaixo do controlo da PVDE em Bragança, um dos espaços geográficos do norte de Portugal com maior presença de refugiados galegos. Entre esses refugiados detidos estavam muitos dos que cruzavam a raia nos primeiros dias depois do golpe militar. Manuel Pérez Rodriguez era um deles. Quando rebentou a guerra, tinha vinte e três anos, todos passados na sua aldeia raiana de San Lourenço da Illa, no concelho de Entrimo. O dia seguinte ao golpe fugiu para Portugal, junto com outros quinze habitantes dos concelhos raianos da Baixa Límia. Saíram da sua aldeia, da Illa, calcurrearam a serra granítica do Quinxo, junto a Olelas, e baixaram o imponente desnível até ao rio Laboreiro para atravessar a raia e procurar a salvação ao terror que suspeitaram que ia acontecer na Galiza.
Os dias seguintes, outros galegos fizeram o mesmo que esses outros 16. Entre esses galegos que fugiam a Franco e da repressão, predominavam civis de filiação republicana ou esquerdista, mas também havia alguns militares, carabineiros e guardas civis, e a partir de 1937, reservistas galegos que  rejeitavam mobilizar-se para o serviço militar ou para ir para as frentes de guerra.
Desconhecem-se com exatidão o número de galegos que escolheram Portugal para fugir de Franco e da repressão. Só no primeiro semestre da guerra civil, o número de refugiados espanhóis na freguesia de Castro Laboreiro, no concelho de Melgaço, ainda que não fosse estável, era, segundo testemunhos orais, uma cifra que se situava entre quatrocentas e oitocentas refugiados. Aqui chegavam muitos galegos depois do início da guerra civil e posteriormente vários grupos de asturianos escapados da caída da frente norte, onde participavam como clientes ou como ativistas na rede de obtenção de documentos que funcionava ao longo da fronteira.
Outros refugiados atravessaram a raia com documentação falsa, na que utilizavam identidades de familiares falecidos de origem brasileira ou argentina, em que os lugares de residência substituídos por hospedarias ou por casas de portuguesas que os acolhiam, como a Quinta do Hospital da freguesia de Ceivães, o Hotel Internacional de Monção, a Pensão Internacional de Monção, a Casa do Emigrante de Ponte de Lima, e outros tantos. Estes falsificadores provam que havia uma considerável rede de contactos em território português para aqueles galegos que queriam aquela documentação para circularem pelo país. A identidade como cidadão americano garantia um melhor trânsito por Portugal sem temer serem detidos e sem esperarem demasiado o embarque para a América do Sul. Essa rede completava-se com contactos nas agências de emigração e mesmos em certos consulados de Portugal. O ministério espanhol de Asuntos Exteriores queixou-se em mais de um ocasião pela atitude dos seus cônsules que autorizavam o trânsito de espanhóis em Portugal sem esperar a confirmação oficial dos governadores civis. Em todo o caso, estamos a falar de passaportes falsificados e de documentação obtida de forma ilícita, que deviam ter um custo final elevado. Em vários países europeus, os passaportes portugueses chegavam a valer 70 000 francos, 2000 liras ou 3000 marcos durante os anos 30 quando os judeus em fuga de Hitler pretendiam vir para Portugal.
Contudo, não devia ser fácil arranjar documentação para circular por Portugal. Na branda da Seara, na freguesia de Castro Laboreiro, esconderam-se vários refugiados galegos, camuflados nas fragas próximas, mas protegidos por alguns dos castrejos daquelas serras agrestes, reincidentes em acolher refugiados galegos. Entre estes, ocultava-se uma família inteira de galegos à espera dessa desejada documentação: Eudosia Lorenzo Diz, antiga professora em Lobeira, o seu filho pequeno  e seus pais e os seus pais, Agustin Lorenzo Puga, “O Masidário”, e Basilia Diz González, que para não levantar suspeitas não vestiam o trje típico dos castrejos, como se integravam nas suas habituais migrações anuais entre as brandas e as inverneiras. A polícia portuguesa, que teve na sua mesa durante bastantes meses uma ordem de busca e captura dos “Masidários”, recebeu continuamente informações contraditórias da sua presença em diversas brandas e inverneiras da freguesia, mesmo nos lugares fixos dos Ribeiros, de Cima e de Baixo, por onde era cada vez mais frequente ver as quadrilhas de fugidos galegos e asturianos. Finalmente, os “Masidário” seriam detidos no Posto da PVDE em Maio de 1938 e expulsos pelo porto de Lisboa três meses depois rumo a Casablanca (norte de África).
Nesse contexto de ambígua permissividade das autoridades portuguesas, cresciam os grupos de refugiados galegos no norte de Portugal. Desde Fevereiro de 1937 que escapara da sua aldeia raiana de Ferreiros por rejeitar o o recrutamento militar, Xosé Fernandez Gonzalez, “O Riso”, e estabeleceu-se no lugar do Ribeiro de Baixo (Castro Laboreiro), que distava uns poucos quilómetros da sua casa e onde permaneciam escondidos alguns vizinhos do seu concelho e desde finais de 1937 um grupo de asturianos que circulavam com certa facilidade em toda a raia seca. “O Riso” converteu-se num dos elementos de contacto entre estes grupos de refugiados e o Partido Comunista Espanhol, sobretudo a partir do fim da guerra civil. Também quando terminou o conflito bélico, Manuel Peréz Rodríguez, cruzou de novo a raia para instalar-se em Portugal no Ribeiro de Baixo (Castro Laboreiro), onde os castrejos lhe arranjaram uma casa e comida.
No fim da guerra civil, na Serra de Castro Laboreiro, o Partido Comunista Espanhol mantinha um ponto de apoio de entrada em território espanhol controlado por vários dos refugiados que ali operavam e que tinham  como base operações as já citadas duas aldeias, o Bibeiro de Baixo e Ribeiro de Cima, muito próximas das aldeias galegas de Pereira e Olelas…



(CONTINUA)

Extraído de: GALLARDO, Angel Rodriguéz (2007) - Refuxiados e Fuxidos nos Montes de Laboreiro. Cuaderno Arraiano, Verão 2007.

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

Como defender Melgaço de uma invasão em finais do século XVIII?


Em finais do século XVIII, Portugal temia um novo conflito com Espanha e o clima de elevada tensão gerado na Europa pela Revolução Francesa, fez com a Coroa Portuguesa tomasse algumas medidas com vista a proteger as nossas fronteiras de possíveis ataques a partir do lado espanhol.
Desta forma, temia-se que a guerra estivesse eminente. Foi então ordenado ao exército, mais especificamente ao Real Corpo de Engenheiros, que realizasse uma série de memórias sobre as condições de defesa da fronteira e do território português. Um desses engenheiros era Custódio Villas Boas que nos deixou importantes apontamentos sobre as estruturas de defesa de Melgaço em finais do século XVIII:
"O território fronteiriço entre os vales dos rios Minho e Lima, era ocupado pela vasta serra da Peneda, considerada intransponível por um exército moderno, não obstante os caminhos existentes no planalto de Castro Laboreiro, por onde comunicavam as populações locais, de ambos os lados. Em todo o caso, estas estradas estavam em muito mau estado de conservação, dificultando a progressão de um qualquer exemplo que pretendesse viajar com todo o seu trem de artilharia e provisões. Na eventualidade de esta situação ocorrer, era aconselhado um ataque imediato nesta área, de forma a limitar as possibilidades do inimigo.
De qualquer forma, para a vigilância e proteção desta área, existia o castelo de Castro Laboreiro, de planta medieval reformulada ao longo dos anos de acordo com a exigências militares, equipado com algumas peças de artilharia.
Desde Castro Laboreiro, à entrada do rio Minho, a fronteira era estebelecida pelo vale do rio Trancoso - também designado por “rio das Várzeas” - cujo vale de margens abruptas era considerado impenetrável. Os únicos pontos de passagem seriam duas pontes: a Ponte de Pouzafolles, ainda em área de montanha, e e Ponte das Várzeas, constrída em madeira no lugar de S. Gregório.
Por ocasião da denominada “Guerra Fantástica, em 1762, foi construído um pequeno reduto para vigiar a estrada do vale do rio Minho, embora estivesse arruinado em 1800.
A partir do rio Trancoso, a fronteira entre Portugal e a Galiza passava a ser estabelecida pelo curso do rio Minho, considerado por Villas Boas “um formidável fosso aquático das praças fronteiras, com 80 a 100 braças de largura média, e barreira de força ativa que em tempos de guerra equivale a muita tropa e reduplica a defesa daquelas praças”.
A primeira das defesas da fronteira Norte do Alto Minho, seguindo o curso do rio de montante para jusante, era a vila de Melgaço, equipada com 15 canhões e uma “obra coroa” (fortificação exterior à muralha) sobre a estrada para a Galiza. O castelo, de muralha circular e antiga, não era considerado aptp para a defesa, pelo que, Villas Boas o indicava para servir de quartel e armazém de víveres das tropas estacionadas naquela parte do território.
Deste  modo, a defesa da entrada do rio Minho, deveria ser feita no rio Trancoso, onde seria necessário construir alguns entreicheiramentos, equipados com os canhões de Melgaço, ao mesmo tempo que se demoliria a Ponte das Várzeas a fim de dificultar o movimento inimigo.
Em caso de invasão, as tropas portuguesas retirar-se-iam para as montanhas oferecendo a maior resistência possível. Combinando as caraterísticas do terreno com os meios militares, era possível opor uma eficaz resistência ao invasor, apenas com um pequeno número de homens: 32 artilheiros, um batalhão de infantaria, e alguma milícia e ordenanças, se o inimigo fosse em número muito superior, peder-se-ia recorrer aos reforços de Monção.
Em 1800, Villas Boas indicava já que a Ponte das Várzeas estava arruinada e o castelo de Melgaço havia sido desguarnecido da suas artilharia havia pouco tempo. O autor nada diz sobre o possível exist~encia de entricheiramentos, mas esta informação poderá constituir um indício das preparações para a defesa da Província, seguindo as diretrizes apontadas por aquele engenheiro militar.
O vale do rio Minho, desde a sua entrada em Melgaço até Monção, corria apertado por margens escarpadas, sobretudo a margem norte, o que dificultava a sua passagem. Vallas Boas identificava apenas um local onde seria possível ao inimigo atravessar o rio: o lugar do Salto situado a meio caminho entre Melgaço e Valadares (o local está perfeitamente identificado nas diversas variantes do Mapa da Província). Este ponto fraco na linha de defesa portuguesa, era já conhecido pelos espanhóis que, em conflitos anteriores, tentaram ali atravessar o rio, pelo que os portugueses construiram uma bateria provisória que deveria ser renovada e construída com melhor qualidade."
A guerra vai acontecer em 1801 com a invasão franco-espanhola.



Informações extraídas de: MOREIRA, Luís Miguel (2008) - O sistema defensivo do Alto Minho em finais do sés. XVIII. In: Cad. Vianenses; nº 41; 

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

Melgaço no documentário "Portugal de Norte a Sul - O Minho" (1956)


Este é um vídeo promocional da região do Minho realizado em 1956 por F. Evaristo. Podemos ver algumas imagens de Melgaço, nomeadamente de Castro Laboreiro, do Mosteiro de Paderne e da fachada da igreja de Santa Maria da Porta, na vila de Melgaço.
Mostram-nos também aspectos da paisagem minhota na época, “especialmente Ponte da Barca, Ponte de Lima, Braga, Guimarães e Viana do Castelo. Festas do São João em Braga, das Rosas em Vila Franca do Lima e da Agonia em Viana do Castelo”.
F. Evaristo - Realizador
Portugal, 1956
Género: Documentário
Duração: 00:33:35, 24 fps
Formato: 16mm, Cor, com som
AR: 1:1,37

Fonte: Cinemateca Portuguesa.

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

Castro Laboreiro: Terra Maravilhosa



Porque é que deve votar em Castro Laboreiro no concurso "7 Maravilhas de Portugal", na categoria de Aldeias Remotas?
Descubra por si. Ficará definitivamente convencido...
Ligue 760 10 70 07.