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sexta-feira, 7 de abril de 2017

Os soldados de Melgaço na Batalha de La Lys (1918): Os caídos em combate



Foi há cerca de 100 anos que os primeiros soldados do contingente que Portugal enviou para combater em França na I Guerra Mundial chegaram à Flandres. Com base nos dados de que disponho, de Melgaço, partiram para a guerra 69 homens, oriundos das diversas freguesias.Estes homens foram autenticamente “roubados” às suas vidas e obrigados a ir para uma guerra para a qual não estavam preparados. Paderne, com 13 homens, Penso, com 11 homens e Vila, 10 homens são as freguesias melgacenses que mais contribuiram em termos de número de efetivos. Estes homens da nossa terra, feitos soldados, tinham todos à data do embarque, idades entre 22 e 27 anos completos (nascidos entre 1891 e 1895).
Assim, entre Janeiro e Novembro de 1917, partiram estes homens do porto de Alcântara, rumo ao porto de Brest (França) numa viagem de navio de vários dias. Daí seguiram de comboio até à zona sul da Flandres francesa perto de Armentières, nos vales dos rios Lys e Aire.
Depois de uma curta estadia em Brest, porto de desembarque das tropas portuguesas, seguia-se o transporte, de comboio, até à região de “Aire”, zona destinada às tropas do CEP.
E foi num clima agreste, de neve, chuva e frio, língua e costumes tão diferentes dos seus, que estes homens da nossa terra e as tropas portuguesas tiveram de suportar mais de um mês de treino complementar, junto do exército britânico, para se poderem “familiarizar” com as armas inglesas com que iam combater e com as novas formas da guerra que iam conhecer de perto.
Na guerra, dos 69 homens de Melgaço que partiram, 10 morreram caídos em combate ou devido a outras causas como doenças. O primeiro melgacense a morrer em combate foi o soldado António Alberto Dias, natural do lugar da Verdelha (Paderne) que faleceu a 9 de Outubro de 1917 na Flandres (França). 
Quatro dos caídos em combate, faleceram durante a Batalha de La Lys (9 de Abril de 1918). São eles os soldados José Cerqueira Afonso, de Paços (Melgaço); José Narciso Pinto, de Chaviães; João José Pires, da freguesia de Paços (Melgaço), António José da Cunha, natural da freguesia da Santa Maria da Porta (Vila – Melgaço). O último pertencia ao 6.º Grupo de Baterias de Metralhadoras e os três primeiros eram soldados que pertenciam à 4ª Brigada de Infantaria do CEP, Regimento de Infantaria n.º 3 (Viana do Castelo). Esta era conhecida como a Brigada do Minho, a que pertenciam a maioria dos soldados melgacenses, e já tinha conquistado uma reputação de bravura na frente de batalha muito antes de lhe ser confiada, em Fevereiro de 1918, a defesa do sector de Fauquissart, em Laventie, na Flandres francesa, perto da fronteira com a Bélgica, onde ainda se encontrava nesse fatídico dia 9 de Abril de 1918, quando foi dizimada pelos alemães na dita batalha de La Lys. Faz amanhã, 9 de Abril, 99 anos...

MELGACENSES MORTOS NA BATALHA DE LA LYS (LEVANTIE, FLANDRES FRANCESA)
  • João José Pires, soldado da 2.ª Companhia do Regimento de Infantaria n.º 3; nascido a 28 de Abril de 1893 no Outeiro, lugar da freguesia de Santa Maria de Paços, filho de José Joaquim Pires e de Alexandrina Pires; solteiro e morador em Paços; embarcou para França integrado no Corpo Expedicionário Português a 15 de Abril de 1917, onde pertenceu à Brigada do Minho; falecido em combate na Batalha de La Lys a 9 de Abril de 1918. Encontra-se sepultado no Cemitério de Richebourg l`Avoué (França), Talhão C, Fila 10, Coval 5.


Sepultura do soldado João José Pires
(Cemitério Militar de Cemitério de Richebourg l`Avoué, França)


  • José Narciso Pinto, soldado da 4.ª Companhia do Regimento de Infantaria n.º 3; nascido a 3 de Março de 1893 na Igreja, lugar da freguesia de Santa Maria Madalena de Chaviães, filho de Manuel António Pinto e de Cândida Maria Alves; casado e morador em Chaviães; embarcou para França integrado no Corpo Expedicionário Português a 22 de Abril de 1917, onde pertenceu à Brigada do Minho. Falecido em combate na Batalha de La Lys a 9 de Abril de 1918. Encontra-se sepultado no Cemitério de Richebourg l`Avoué (França), Talhão D, Fila 3, Coval 24.
Sepultura do soldado José Narciso Pinto
(Cemitério Militar de Cemitério de Richebourg l`Avoué, França)



  • António José Cardoso Ferreira Pinto da Cunha, segundo-sargento do Regimento de Obuses de Campanha; nascido a 28 de Julho de 1892 na Rua Direita, vila e freguesia Santa Maria da Porta de Melgaço, filho de António José Ferreira Pinto da Cunha e de Carlota Amália Cardoso; solteiro e morador na vila de Arcos de Valdevez; embarcou para França integrado no Corpo Expedicionário Português a 20 de Agosto de 1917, onde pertenceu ao 6.º Grupo de Baterias de Metralhadoras. Participou na Batalha de La Lys. Inicialmente dada com desaparecido em combate. Mais tarde considerado morto em combate na dita batalha a 9 de Abril de 1918. Desconhece-se o paradeiro dos seus restos mortais.
Nesta investigação, fui descobrir uma carta que este Segundo Sargento Pinto da Cunha, escrita algures na primeira metade de 1917, à data estudante no liceu de Guimarães, escreveu a uma pessoa influente para que esta intercedesse junto do ministro da Guerra, Bernardino Machado, no sentido de obter dispensa do curso de sargentos até Julho de 1917, para poder frequentar o liceu e fazer exame do então 5º ano. Argumentava que já no ano anterior não tinha podido terminar este nível dos estudo por ter sido chamado ao quartel. Desconheço a resposta a esta missiva.


Carta de António José Cardoso Ferreira Pinto da Cunha

  • José Cerqueira Afonso, soldado da 4.ª Companhia do Regimento de Infantaria n.º 3; nascido a 14 de Março de 1892 nas Fontes, lugar da freguesia de São Salvador de Paderne, filho de Inácio José Afonso e de Maria Cerqueira; casado e morador em Paderne; embarcou para França integrado no Corpo Expedicionário Português a 22 de Abril de 1917, onde pertenceu à Brigada do Minho; falecido em combate na Batalha de La Lys a 9 de Abril de 1918.
Sepultura do soldado José Cerqueira Afonso
(Cemitério Militar de Cemitério de Richebourg l`Avoué, França)

Esta batalha foi um dos maiores desastres de toda a História Militar portuguesa. A mesma é contada por um soldado português que nela esteve envolvido numa carta enviada à família. Na mesma, datada de 11 de Julho de 1918, o soldado tentou reconstituir, em breves palavras, os acontecimentos daquela noite: “Às quatro horas da manhã do dia 9 de Abril de 1918 rompe um enorme bombardeamento por parte do inimigo, coisa essa que nós, à primeira vista, não estranhámos, visto que já estávamos habituados a tudo isso, mas o prazo desse bombardeamento foi-se prolongando e as horas foram-se passando, e já depois de o inimigo ter feito grandes tentativas para avançar para as nossas trincheiras e sempre repelido pelo nosso fogo, continua o grande bombardeamento com uma tal violência que ao fim de algumas horas o chão estava todo voltado com o debaixo para cima, um completo horror, é mesmo inexplicável. Milhares e milhares de infelizes portugueses tinham desaparecido, uns despedaçados pelos ares, outros tinham ficado soterrados para jamais serem vistos”.
De manhã, chegara a hora de contabilizar as baixas: 398 mortos (369 praças e 29 oficiais) e uma esmagadora maioria de prisioneiros (6585, dos quais 6315 eram praças e 270 oficiais).
Deste total de prisioneiros de guerra, nove soldados eram melgacenses. Inicialmente, estes homens foram dados como “desaparecidos em combate” e esse facto foi comunicado às famílias. Vários meses mais tarde, após o fim da guerra, em Novembro de 1918, a Comissão dos Prisioneiros de Guerra, comunicou que estes homens se encontravam em campos de prisioneiros na Alemanha, pondo fim a meses de sofrimento dos soldados e das suas famílias que os julgavam mortos. Chegaram-se a fazer funerais sem corpo por este país fora. 
Quem foram os soldados melgacenses desaparecidos em combate? De que freguesias eram? Em que campos de prisioneiros estiveram? Como regressaram a Portugal? E muitas outras respostas...
Conto-vos na próxima publicação!

Fontes consultadas:
- Arquivo Histórico do Exército;
- OLIVEIRA, Maria José (2011) – “Deste triste viver" – Memórias dos prisioneiros de guerra portugueses na primeira Guerra Mundial. Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Unoversidae Nova de Lisboa, Lisboa;
- MARQUES, Isabel Pestana, op. cit., p. 389; AFONSO, Aniceto, 2008, Grande Guerra. Angola, Moçambique e Flandres. 1914/1918, Lisboa, Quidnovi, Col. Guerras e Campanhas Militares, p. 106;

- TEIXEIRA, Nuno Severiano, 1992, “A Fome e a Saudade. Os Prisioneiros Portugueses na Grande Guerra”, in Penélope. Fazer e Desfazer a História, Lisboa, nº 8, p. 102.

::::::::::::::::::::::::::::::::::::CONTINUA::::::::::::::::::::::::::::::::::::: 

sexta-feira, 31 de março de 2017

Um passeio até à fronteira de S. Gregório (Melgaço) em 1913


No início do século passado, Melgaço e as sua águas estavam na moda. Os aquistas além de desfrutarem das virtudes das sua águas milagrosas, gostavam de dar os seus passeios. Um dos passeios mais apreciados era saírem dos hotéis e irem dar uma volta até à fronteira de S. Gregório e apreciarem as belezas do vale do Minho. Em 1913, um desse passeios ficou descrito numa reportagem publicado na revista Ilustração Portugueza: 

"No Extremo Norte de Portugal
À tarde, em pleno mês de Julho, quando os cravos ensanguentam os muros dos hortejos, - é agradável abalar em direção a S. Gregório.
O veículo, tirado a dois finos, nervosos cavalos, roda serenamente sobre um macadam lavado, batido de sol. Atravessada a pequena ponte, onde delicado regato se escoa por entre rosários de redondos, polidos seixos, - pinheiros esguios, de cor verde azeitona, acolhem, num requinte de fidalga gentileza, os transeuntes com a sua sombra protetora, amável.
Bouquets de flores silvestres pintalgam, mancham numa orgia de coloração forte, bizarra as leiras que se estendem por aí fora. Do alto da estrada, após ligeira curva, enorme veiga se desenrola até à vista poisar na fita de montanhas que abraça carinhosamente o Peso. À esquerda, a via pública, que dá acesso às termas, com os seus hotéis e habitações indígenas.
Acolá, o casarão da Quinta do Peso, onde lindas rosas chá se entrelaçam volutuosamente pelo frontispício do hotel como que tentando, numa ânsia revolucionária, esconder maliciosamente o brasão de visconde, que encima o velho solar.
É a região do Belo em guerra aberta de extermínio às velharias. À direita, a povoação raiana – Arbo, sobranceira ao rio.

Carruagem Taxi da época a travessar a PonTe do Martingo, próximo do Peso (Melgaço)
(Foto de Aurélio da Paz dos Reis)

Da nossa margem, ciprestes, grandes de altivez, postam-se à entrada de vetustas residências solarengas. No fundo, seguindo um carreiro bordado de fetos, o manancial milagroso das águas minerais.  Para além, deixado os vinhedos que se agacham medrosamente pelas leiras, surge a encarroada torre do castelo de Melgaço. Mais alguns metros percorridos, num ápice, ei-nos no lugar de Prado. Quintas e pomares, próprios para almas floridas de ventura, vão ficando presos ao nosso olhar apaixonado.

Torre de Menagem do castelo de Melgaço

Deixemos Melgaço, com os prédios a debruçarem-se sobre a corrente do Minho, e tomemos a estrada que segue para o extremo norte da pátria lusitana.
Cristos, de rosto macerado, incutindo fé ao viajante, e alminhas que penam num inferno de tostas, inestéticas figuras, em profusão, se deparam. De Marelhe, olhando para baixo, descortina-se majestoso panorama.
Lá está, emergindo de entre viçoso ramalhete de verdura, a freguesia de Paços, salpicada de imersos casões escuros. Por toda a parte aqui, ali, acolá, se divisam canteiros cuidadosamente amanhados. Uns retangulares, tabuleiros arrelvados que amaciam a retina, outros em quadrilátero, tapete policromo. É o verde do linho, o matiz aloirado do centeio que está a pedir a sega.
Circunda-se a vinha baixa, que oscula levemente o solo abençoado, ou a cheirosa madressilva que se enovela em ouriçada cabeleira, pontuada de negras e apetitosas amoras. Vê-se na outra banda a paróquia espanhola de Crecente. O caminho de ferro do país vizinho, duas filas de aço luzidio, contorna o rio Minho, que nos vai amigavelmente separando da Galiza. As telhas, de nuances carregadas, batidas fortemente pelo reflexo solar, berram atrevidamente na paisagem campesina.
A maior parte, representam propriedade de gente que, quando menina e moça, demandou aos Brazis, em busca do oiro almejado.
A água espadana-se, precipita-se às catadupas monte abaixo. Silhuetas de cachopas, de formas esculturais e olhares provocadores, agarotados, formigam nas agras, enquanto, - mais adiante - rapazes, descaradamente, com ligeirezas de acrobata, rebolam-se à vontade na relva.

S. Gregório no início do século XX

À nossa frente, de ponto em branco, S. Gregório. À entrada, meia dúzia de casitas alinham-se. Esta povoação teve em tempos de antanho grande movimento comercial com os pueblos fronteiriços. O comboio galego, depois, deu-lhe o golpe mortal. Então, mantinha estabelecimentos importantes como demonstram os prédios construídos nessa época. A rua Verde, a mais movimentada da terreola, desce por escabrosa ladeira à ponte internacional sobre o rio Trancoso. 

Ponte Internacional de S. Gregório/Ponte Barjas
(Foto de Aurélio da Paz dos Reis)

Das janelas das casas cravos rubros fintam atrevidamente quem passa. Castanheiros seculares, de frondosa ramaria, trepam ousadamente encosta acima. Calcorreando alguns metros de piso escorregadio, estamos na ponte. Meia dúzia de velhas, desmanteladas tábuas ligam-nos ao lugarejo espanhol Ponte Barjas. Sob o tosco pontilhão, leques de verdura prendem-se nervosamente. E as águas, rio abaixo, num turbilhonar desordenado, cobrem de beijos loucos os ventres roliços das pedras.

Peso (Melgaço) – Julho de 1913."


Extraído de:
- Reportagem "No extremo norte de Portugal" In: Revista "Ilustração Portugueza", edição de 4 de Agosto de 1913.

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

A história de um soldado de Chaviães nas trincheiras de França (1ª Grande Guerra)

Soldados portugueses nas trincheiras de França

A Primeira Guerra Mundial (1914-1918) foi provavelmente o mais duro conflito militar da História da humanidade, no que toca às condições de combate para os soldados. Em Agosto de 1914, começou o conflito que mudaria o mundo para sempre.
Em pouco tempo, Portugal prepara uma expedição para enviar para Angola e Moçambique com vista a defender estes territórios dos ataques frequentes dos alemães. Contudo, apenas a partir de Janeiro de 1917 é que o nosso país enviaria tropas para França na sequência da declaração de guerra da Alemanha a Portugal, em resposta ao confisco de navios alemães por parte de Portugal. Em poucos meses, foi organizado o designado Corpo Expedicionário Português (CEP), tarefa coordenada pelo general Norton de Matos.
No contingente português que combateu em França, ficou célebre a chamada “Brigada do Minho”, 4ª Brigada de Infantaria do CEP. Esta brigada conquistou uma reputação de bravura na frente de batalha muito antes de lhe ser confiada, em Fevereiro de 1918, a defesa do sector de Fauquissart, em Laventie, na Flandres francesa, perto da fronteira com a Bélgica, onde ainda se encontrava nesse fatídico dia 9 de Abril de 1918, quando foi dizimada pelos alemães na batalha de La Lys.
Algumas dezenas de soldados que compunham esta Brigada do Minho eram melgacenses e que merecem a nossa mais sentida homenagem. Um deles era o soldado José Maria da Cunha, de Chaviães.
O José Maria nasceu no lugar da Portela, na dita freguesia de Chaviães em 11 de Março de 1893, pela quatro da manhã, conforme se pode ler no assento de batismo. Era filho de Aníbal dos Anjos da Cunha, lavrador, natural das Carvalhiças, e de Felizbella Cândida Alves, natural de Chaviães. Foi batizado em 19 de Março do mesmo ano na igreja paroquial da sua freguesia (figuras 1 e 2).
O José Maria casou com Zalminda Rosa Rodrigues, natural da freguesia da Vila de Melgaço, filha de pai incógnito e de Silvana Rodrigues, em 24 de Agosto de 1912.

                                                   (clique nas imagens para ampliar)
Fig.1 - Assento de batismo de José Maria da Cunha (pág. 1)

Fig. 2 - Assento de batismo de José Maria da Cunha (pág. 2)

Entretanto, no Verão de 1914, eclode a guerra. Inicialmente, pensou-se que seria um conflito breve que se resolveria antes da chegada do Inverno. Em vez disso, o conflito foi-se tornando cada vez mais global e sem fim à vista.  
Com as declarações de guerra  mútuas entre Alemanha e Portugal, em Março de 1916, a neutralidade portuguesa chega ao fim. É preparado o Corpo Expedicionário Português (C.E.P.) e os primeiros soldados portugueses partem para o norte de França em Janeiro de 1917. O soldado José Maria da Cunha é alistado no C.E.P. e integrado na 1.ª Companhia do Regimento de Infantaria n.º 3. Embarca em Lisboa e parte para a guerra em França a 15 de Abril de 1917, conforme se pode ler na sua Ficha Individual (Figuras 3 a 6), onde era portador da placa de identificação número 49 027.
Chegado ao teatro de guerra, sabemos que esteve hospitalizado desde o dia 21 de Abril e só receberia alta em 31 de Maio segundo informações que constam na sua Ficha Individual do soldado. Não se sabe se este período de internamento se deveu ao facto de ter ficado ferido ou então ter contraído alguma doença durante a viagem de barco onde as condições eram bastante precárias.
Sabe-se também que o José Maria foi ferido em combate no dia 23 de Setembro desse ano de 1917. Na sequência deste mesmo episódio, foi-lhe atribuído um louvor “pela coragem que mostrou na defesa do flanco direito do seu posto, não o abandonando, embora já ferido, senão por ordem do respetivo comandante depois do mesmo terminado”, tal como consta na Ficha Individual do soldado. Posteriormente, foi condecorado com a Cruz de Guerra de 3ª classe, atribuição publicada em Decreto de 5 de Novembro de 1917, premiando a sua bravura.

(clique nas imagens para ampliar)
Fig. 3 - Ficha Individual do soldado José Maria da Cunha (pág. 1)

Fig. 4 - Ficha Individual do soldado José Maria da Cunha (pág. 2)

Fig. 5 - Ficha Individual do soldado José Maria da Cunha (pág. 3)

Fig. 6 - Ficha Individual do soldado José Maria da Cunha (pág. 4)
Em 22 de Novembro do mesmo ano, o soldado José Maria da Cunha de Chaviães encontrava-se na primeira linha de combate, onde viria a morrer. Na Ficha Individual do soldado, pode ler-se que “faleceu na 1ª linha, por ter sido ferido em combate, em 22 do mesmo mês (Novembro de 1917), sendo sepultado no cemitério de Le Touret, coval nº 100”.
Este cemitério militar, localizado em Pas de Calais, no norte de França, foi criado no final de 1914 para o exército Inglês. Seria utilizado pelos portugueses, reunindo aí cerca de 264 soldados portugueses sepultados. Contudo, posteriormente os restos mortais do soldado José Maria e dos outros combatentes portugueses aí enterrados foram  transladados para o Cemitério Militar Português de Richebourg (França) a cerca de 75 quilómetros a sudeste de Calais, perto da fronteira com a Bélgica.

Os restos  mortais do soldado José Maria repousam no dito cemitério militar, no Talhão A, Fila 13, Coval 3. (Foto 3)

Foto 2 - Entrada do Cemitério Militar Português de Richebourg l'Avoué


Foto 3 - Sepultura do soldado José Maria da Cunha, com o seu nome gravado na pedra
(Cemitério Militar Português de Richebourg l'Avoué, França)

domingo, 17 de abril de 2016

Agosto de 1919: Pancadaria entre os de Chaviães e os de Paços (Melgaço)

Capela da Senhora de Lourdes (Paços-Melgaço)
Um dos blogues que costumo ler com assiduidade é o “Melgaço, Minha Terra” da autoria do ilustre Joaquim Rocha que pode ler em http://melgacominhaterra.blogspot.pt/  Há dias, li aqui um artigo que me fez recordar as rivalidades entre a malta das diversas freguesias deste concelho e quando inclusivamente se pegavam à pancada... O texto reproduz um artigo de jornal de Agosto de 1919 e centra-se na rivalidade entre a malta de Paços e Chaviães nas festas e romarias... Ora leia: “Lê-se no Jornal de Melgaço n.º 1257, de 3/8/1919: «Está em moda, nas romarias, à tarde ou à noite, haver grossa bordoada. Em Pomares (lugar da freguesia de Paderne), quando no dia 25 se realizava a festividade em honra de São Tiago (Santo Iago), foi o que se viu. No dia 27, quando em Paços se realizava a festividade em honra de Santa Ana, também não faltou a traulitada entre a rapaziada de Paços e a de Chaviães. Que ela se desse em Pomares, quando se festejava o São Tiago, admitimos, visto tratar-se de um herói na traulitada aos moiros; mas tratando-se da avó de Jesus, que decerto devia ser toda bondosa, parece que não fica bem. Mas, como os desordeiros acham sempre bem, toda a vez que podem pregar a sua traulitada, à tarde, pouco depois de recolher a procissão, houve alguns socos, misturados com bengaladas, o que deu em resultado alguns dos de Paços virem até ao lugar do Esporão onde perguntaram aos de Chaviães se queriam guerra ou harmonia. E como os de Chaviães respondessem que se estavam ali era para bater, e como logo em seguida fizessem com uma traulitada baixar ao chão o Ricardo Alves, de Paços, os companheiros deste desafrontam-no, fazendo também ir a terra uns quatro ou cinco de Chaviães. Não podemos de forma alguma elogiar tais proezas, mas se temos de censurar estas, como não devemos classificar o facto de os “valentes” de Chaviães, depois desse dia, baterem em qualquer pessoa que à Portela do Couto passasse, pelo simples facto de ser de Paços? Desconhecemos as razões anteriores que naquele dia os levaram a vias de facto, não podendo, por isso, avaliar bem a responsabilidade de cada grupo, mas o que toda a gente, desconhecendo embora essas razões e até esses factos, tem de censurar com toda a energia dos seus nervos, é o facto de certos “valentes” da Portela do Couto baterem há dias numa mulher de Sá, conhecida por Maria do Romão. Essa mulher deve ter 60 anos de idade aproximadamente, é viúva e doente, e vive distante um único filho que tem. Nada mais julgo necessário para aquela mulher ser digna de todo o respeito; mas os “valentes” da Portela não o entenderam assim. Saem à estrada, onde lhe perguntam de onde é, e – como ela dissesse que era de Paços – dão-lhe logo duas bofetadas. Por acaso será crime o ser natural de Paços porque os desta freguesia bateram nos de Chaviães? Mais juízo, ó “valentes” da Portela, pois do contrário teremos de chamar a atenção da digna autoridade administrativa para as vossas proezas, mandando-vos chamar a capítulo!»   (Extraído de http://melgacominhaterra.blogspot.pt/)

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Igreja de Sta. Maria Madalena (Chaviães) fotografada em 1971


Igreja de Santa Maria Madalena (Chaviães - Melgaço) - Fachada principal (1971) 

A igreja paroquial de Chaviães (Melgaço) é uma das mais antigas do nosso concelho e temos registos da mesma desde a segunda metade do século XII, sendo o mais antigo datado de 1177. Na época, a igreja de Chaviães era dedicada a Santa Seguinha ou Santa Seculina. É um orago pouco comum nas igrejas medievais portuguesas, mas Pierre David encontrou-o noutras igrejas da diocese de Braga. Segundo o mesmo autor, refere-se à Santa Segolène de Albi, uma santa francesa do séc. VII. A escolha desta invocação em Chaviães talvez se relacione com o facto do Mosteiro de Fiães ter monges franceses, e ter várias propriedades e direitos em Chaviães.
Desde o século XV que esta igreja aparece dedicada a Santa Maria Madalena até aos nossos dias.

Em 1971, Alberto da Silva Bessa, que chefiava à época a Direção Geral dos Monumentos do Norte fotografou esta igreja de diferentes perspectivas e deixou-nos este belo conjunto de fotografias desta bonita igreja. Viaje no tempo!..

Igreja de Santa Maria Madalena (Chaviães - Melgaço) - Fachada principal (1971)

Igreja de Santa Maria Madalena (Chaviães - Melgaço)Fachada lateral direita e torre sineira (1971)

Igreja de Santa Maria Madalena (Chaviães - Melgaço) - Fachada principal: portal (1971)

Igreja de Santa Maria Madalena (Chaviães - Melgaço) - Fachada lateral esquerda (1971)

Igreja de Santa Maria Madalena (Chaviães - Melgaço) - Fachada lateral esquerda: corpo da capela-mor (1971)

Igreja de Santa Maria Madalena (Chaviães - Melgaço) - Fachada lateral direita: anexos (1971)

Igreja de Santa Maria Madalena (Chaviães - Melgaço) - Fachada lateral direita: escadas de acesso ao coro-alto e torre sineira (1971)

Igreja de Santa Maria Madalena (Chaviães - Melgaço) - Interior: retábulos colaterais e capela-mor (1971)

Igreja de Santa Maria Madalena (Chaviães - Melgaço) - Interior: arco triunfal da capela-mor (1971)

Foto de Alberto da Silva Bessa.

quarta-feira, 23 de julho de 2014

As origens da Paróquia de Chaviães: De Santa Seculinha a Santa Maria Madalena

Igreja paroquial de Chaviães dedicada a Santa Maria Madalena
(Foto de J. Braga)

Na paróquia de Chaviães, o templo cristão mais antigo de que temos conhecimento era uma igreja dedicada a Santa Seguinha. A dita igreja encontra-se documentada desde 1177.
Santa Seguinha ou Seculinha é um orago pouco comum nas igrejas medievais Portuguesas, mas Pierre David encontrou-o noutras igrejas da diocese de Braga. Segundo o mesmo autor, refere-se à Santa Segolène de Albi, uma Santa Francesa do séc. VII, adaptada como padroeira de igrejas portuguesas a partir do séc. XI. A escolha desta invocação em Chaviães talvez se relacione com o facto do Mosteiro de Fiães ter, na Idade Média, monges franceses, e ter várias propriedades e direitos em Chaviães, o que aliás deu ocasião a vários litígios entre a Igreja e o mosteiro que se tentaram solucionar por um acordo realizado mais tarde em 1246, revelando-nos também o quanto a Igreja de Chaviães e este mosteiro entre si.
A construção desse templo dedicada a Santa Seculinha deverá estar relacionada com o movimento de criação de igrejas ao longo dos séculos XI e XII, altura em que “toda a vila ou aldeia procurou ter a sua ecclesia(...). Em 1183, metade da igreja de Chaviães pertencia a D. Afonso Henriques que, então, faz doação dela à vila de Melgaço.
A atual igreja de Chaviães conserva importantes vestígios românicos. Dessa época, preserva-se o corpo da igreja, ainda que este tenha sofrido acrescentos e algumas mudanças na época moderna.
Em 1320, foi determinada a taxa a pagar ao rei D. Dinis pelos benefícios eclesiásticos do reino, aí se concluindo os que estavam dependentes do bispado de Tui como acontecia com a igreja de Chaviães. Desse documento, se depreende que a igreja paroquial de Chaviães era então a mais rica paróquia do termo de Melgaço, o que provavelmente justifica a sua cuidada obra ao gosto românico.
Nesta igreja, reencontramos aspetos arquitetónicos e escultóricos semelhantes aos de igrejas próximas de Paderne e Orada, embora, em Chaviães, esses modelos tenham sido seguidos de uma forma menos rica e mais ruralizada. A atual igreja parece assim datar da segunda metade do século XIII.
Conhecemos os rendimentos para o Arcebispo de Braga das igrejas do termo de Melgaço no início do século XVI, algures entre a localização da comarca eclesiástica de Valença no Arcebispado de Braga (1514) e o fim do Arcebispado de D. Diogo de Sousa (1532). Nessa época, Chaviães não era, para o Arcebispo, a mais rendosa das igrejas do termo de Melgaço. Em 1545 – 1549, é feita nova avaliação dos benefícios da Comarca de Valença, verificando-se a mesma situação.

Também no século XVI, Chaviães aparece como sendo do padroado do Duque de Bragança, como consta do tombo de 1547 que volta a ser copiado em 1592. O Censual de D. Frei Baltasar Limpo (1551 – 1581) dá-nos indicações, quer sobre o padroado da igreja de Chaviães, quer sobre a mudança de orago que se viria a verificar. De facto, toda a documentação referida indica como padroeira da igreja “Santa Segoinha” mas o Censual de Frei Baltasar Limpo no capítulo “Terra de Melgaço, annexas im parpetuum” refere a anexação perpétua de Santa Maria Madalena de Chaviães a “Sancta Seculinha de Chaviães”. No capítulo dedicado aos benefícios da Terra de Melgaço, “d’ apresentação dos padroeiros”, refere-se “Chaviães, Sancta Seculinha do Duque de Bragança. Tem anexa pertétua Santa Maria Madalena de Chaviães por doação que lhe fizeram padroeiros leigos”. A anexação das duas igrejas talvez explique que, da junção de ambas e dos dois oragos, um fosse caindo no esquecimento – Santa Seculinha – passando a igreja a ser conhecida como sendo de Santa Maria Madalena.

Extraído de:
BESSA, Paula (2003) - Pintura Mural na Igreja de Santa Maria Madalena de Chaviães. Boletim Cultural de Melgaço, Câmara Municipal de Melgaço, Melgaço.

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

As últimas vontades dos fregueses nos registos paroquiais de Chaviães (século XVII)


Em tempos antigos, as pessoas com recursos, antes de falecer tinham o hábito de redigir o testamento no qual expressavam as suas últimas vontades. Nele, além de indicarem para quem ficavam os bens, uma boa parte do dinheiro ou bens eram deixados ao pároco ou irmandades para missas pela sua alma na esperança que ajudasse a abrir as portas dos Céu. Veja dois exemplos de assentos de óbitos do século XVII, ambos da paróquia de Chaviães. Em 1662, o Abade Francisco de Lyra Castro narrou o seguinte registo de óbito: ‘’aos vinte e oito dias do mês de Outubro do ano de mil seiscentos e sessenta e dois faleceu, com todos os Sacramentos, Domingos Rodrigues, de Portela do Couto, meu freguês, de uma bala com que foi passado, saindo da Praça de Melgaço a pelejar com o inimigo, o galego, que ao tal tempo veio aos arrebaldes de dita Praça. Seu corpo foi sepultado nesta Igreja. Fez testamento em que dispôs por sua alma dezoito missas repartidas em três ofícios. E para que conste de tudo fiz e assinei. Francisco de Lyra Castro, Abb’’. À margem: ‘’Registado – 1º Estado 6; 2º Estado 6; 3º outros 6 – Domingos Rodrigues’’.
O mesmo abade ‘’lavrou’’, ainda, em 1666 o seguinte assento: ‘’ aos dezoito dias do mês de Junho do ano de mil seiscentos e sessenta e seis faleceu, com todos os Sacramentos, Isabel Rodrigues, viúva da Tapada desta freguesia. Fez testamento em que dispôs por sua alma doze missas, em três ofícios; em cada um missa cantada e os últimos ofertados a cem réis cada um; mais duas missas votivas: uma a Nossa Senhora da Peneda e outra à Senhora da Orada. Esmolas: à Confraria do Santíssimo um cabaço de vinho; à das almas outro cabaço de vinho; à Confraria do Nome de Deus, de Nossa Senhora e de S. Sebastião, a cada uma meio cabaço de vinho. E para que conste foi, digo, seu corpo foi sepultado dentro da Igreja. E para que conste fiz e assinei, Era ut supra. Francisco de Lyra Castro’’.



Texto extraído de: Jornal ‘’A Aurora do Lima’’ de 12/11/08 (J. Rodrigues).

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Capela de Nossa Senhora da Encarnação (Chaviães), algumas referências históricas do sec. XVIII e XIX


O dia 23 Abril de 1707 corresponde à data do testamento de João Durães, viúvo, deixando à Senhora da Encarnação de Gondufe meio almude de vinho. Contudo, o ano de 1708 é a data inscrita na verga do portal.
Em 1739, a 18 Julho, o visitador Abreu Soares recomenda aos moradores que fechem o adro da capela, com um muro à roda, com fossos nas entradas, para evitar o acesso a animais imundos e carros, bem como consertar o caminho para o cruzeiro e fazer de novo a cruz deste, a qual se acha quebrada. Recomenda também retalhar o telhado e comprar 4 sanguinhos.
Em 1755, o visitador, tesoureiro-mor da Colegiada de Valença, o Pe António de Vasconcelos de Almeida de Queiróz, diz ter achado a Capela da Encarnação pouco decente e sem que nela se terem cumprido as obras capituladas nas visitações anteriores. Assim, se até ao dia de Nossa Senhora da Natividade (8 Setembro), não estivesse rebocada por dentro, caiada, com forro posto, sanguinhos, véu branco, cálix dourado por dentro e por cima a patena e pronta para se poder fazer a festa, o pároco mandaria fechar a porta, trazer a chave, porque a dava por suspensa, e conduzir a Senhora para a Igreja Matriz. Por lhe constar o zelo e devoção do Pe Manuel Rodrigues Souto e querer incumbir-se da inspecção das obras precisas para a capela, poderá cobrar as esmolas que os moradores do lugar de Gondufe derem e os mais devotos quiserem e aplicá-las para o culto e decência da dita Senhora e capela. Nesta época, refre-se que o pároco elege anualmente um mordomo no dia da festa, a votos dos moradores que contribuam para o ornato da capela e capelão que nela diz missa, o qual devia ser de sã consciência; neste ano elegeu-se Tomé Esteves, do lugar de Gondufe.
Em 1758, a 13 Abril, existe referência à capela pelo Pe António José de Sousa Gama nas Memórias Paroquiais da freguesia, como tendo sido feita pelos moradores do lugar para nela ouvirem missa de alva aos domingos e dias Santos, visto ficarem distantes da Matriz um quarto de légua. Diz ainda que a capela era antiga e não tinha romaria alguma.
Em 1822, a 11 Agosto, o visitador João da Cunha Alves, abade de Santo Estêvão de Alvim, diz que a capela precisava muito de ser caiada de cal, e areia, por dentro e por fora, de um crucifixo para o altar, porque o que tinha estava totalmente indecente. O pároco daria parte à casa do despacho para se proceder contra eles, ou pagar mil réis.

Em 1825, a 28 Junho, o visitador Pe António de Araújo Figueiredo, abade de São Pedro de Valbom, diz que os moradores não têm dado satisfação ao que foi capitulado. Já tem a cal para o reboco de paredes e telhados, mas ainda não fizeram a obra, pelo que incorrem em pena de mil réis. Desta forma, dava o prazo de três meses para a feitura da obra, solicitando também umas sacras para o altar de baixo, sob pena de 2$000 na futura visita.

Informações recolhidas em: www.monumentos.pt (Paula Noé, 2009)

sábado, 7 de julho de 2012

A freguesia de Chaviães (Melgaço): a igreja e a sua padroeira

Um pouco de História... 
Chaviães é uma freguesia muito antiga com existência comprovada nos princípios da nacionalidade. Segundo Bernardo Pintor, a mais antiga referência à Igreja de Chaviães e à sua padroeira primitiva - Santa Seguinha – consta de um documento datado de 1177 e pelo qual “Pedro Pires testou ao Mosteiro de Fiães (Melgaço) o seu corpo e metade de um casal em Chaviães, sob a igreja de Santa Seguinha” (Pintor, 2005). Pierre David filia a invocação de Santa Seguinha no culto a Santa Ségolène, originário da região d’Albi, em França e que ‘se teria difundido por estas paragens por efeito dos peregrinos que se dirigiam a Compostela’(David, cit. Pintor, 1975-reed 2005).
Em 1258-1259 foi citada num documento que serviu de ‘lembrança das Inquirições’ como pertencendo ao bispado de Tui (Costa, 1981: 158) e no arrolamento mandado fazer por D. Dinis em 1320 aIgreja de Santa Segoinha de Chaviães estava adstrita a Valadares e foi taxada em 160 libras, a mais alta do concelho de Melgaço (Idem, ibidem).
Por bula do Papa Eugénio IV, de 14-VII-1444, e a pedido do regente D. Pedro, a comarca eclesiástica de Valença foi separada do cabido de Tui (na altura adepta do papa de Avinhão) e anexada à diocese de Ceuta (idem, ibidem: 137).
Em 20-IX-1512, por um contrato celebrado entre o D. Diogo de Sousa, arcebispo de Braga, e D. Frei Henrique, bispo de Ceuta, a administração eclesiástica de Valença passou a pertencer à diocese de Braga, enquanto que a administração de Olivença ficou na posse da diocese de Ceuta (idem, ibidem).
Santa Seguinha de Chaviães passou, então, a ser administrada pelo Arcebispado bracarense. Pelo ‘Censual’ de D. Diogo de Sousa (1514-1532), a igreja de Chaviães tinha um rendimento de 114 réis e 4 pretos Costa, 1981: 189). No “memorial feito em tempo de Dom Manuel de Sousa (1545-1549) está referida como pertencente à ‘Terra da villa de Melgaço’ e foi avaliada em 40.000 reis (idem, ibidem).
Em 26 de Abril de 1758, o abade António José de Sousa e Gama, respondendo ao ‘Inquérito’pombalino, afirmava que a igreja tinha de renda 400$000 réis da qual uma terça parte pertencia ao ‘excellentísso Collegio da Patriarcal de Lixboa’. O pároco era da apresentação da ‘Sereníssima Caza de Bragança’ (IANTT, 1758-Capela,2005).

A Igreja paroquial de Chaviães

A Igreja Paroquial
Templo inserido em meio rural, construído em cantaria autoportante de granito, com estrutura original românica, composta de uma nave rectangular à qual se acrescentou posteriormente a capela-mor, a sacristia, a casa das confrarias e a torre.
Da primitiva construção resta o portal axial com as suas duas arquivoltas reentrantes arrancando de impostas assentes sobre dois pares de colunas coroadas de capitéis. A decoração é muito variada e assemelha-se à da Igreja de N.ª S.ª da Orada: nas impostas predominam as esferas, os enxadrezados, folheados, etc.; caneluras na arquivolta inferior e rosetas e esferas na arquivolta do meio; tímpano com uma cruz grega quadrifoliada e toda a cercadura que envolve as arquivoltas encontra-se ornamentada com palmetas, rosetas, flor-de-lis, e cartelas.
Nas cornijas uma fiada de cachorros com temática simbólica (Alves, 1987). Relógio de sol meridional de dois quadrantes, na torre.

No interior são evidentes as alterações levadas a efeito no séc. XVIII principalmente na cabeceira do templo. A primitiva capela-mor românica foi reformulada para alojar um retábulo de talha subdividido em nichos delimitados por colunas pseudo-salomónicas estando o central ocupado por um pequeno trono.
Segundo estudo de Paula Bessa, ‘são visíveis pinturas murais nas paredes da capela-mor por trás do retábulo-mor’ (Bessa, 2003: 12). A mesma investigadora, em tese de doutoramento, refere-se a outras pinturas murais existentes nas paredes da nave adjacentes à parede do arco triunfal executadas a ‘fresco com acabamentos a seco’(Bessa, 2007: 113). Data-as do ‘primeiro quartel de séc, XVI, embora não repugne pensar que possam ser um pouco anteriores’ (Bessa, 2003: 21). Como temas identificou os seguintes:
‘Na Parede lateral da nave do lado do Evangelho, e de oeste para nascente, está representado um santo franciscano, talvez Santo António, sobre peanha fingida, descalço e com livro sobre o braço esquerdo, dobrado(e com o Menino Jesus sentado?) e crucifixo (?) na mão direita, seguido de dois registos figurando em cima, uma cena da vida de S. Roque (S. Roque no bosque) e em baixo, os reis magos Melchior e Gaspar.Esta representação da Epifania prolonga-se pela parede do arco triunfal (registo baixo) aí se representando o terceiro mago, Baltasar, não tendo, no entanto, sobrevivido o resto da cena que incluiria Nossa Senhora com o Menino, embora subsista a parte lateral do trono de Santa Maria, assim como fragmentos do seu manto. Sobre Baltasar, no registo alto, subsiste a parte inferior da representação de um Santo que, por desaparecimento da pintura e consequente falta de atributos não podemos identificar. Parece, no entanto usar vestes de diácono embora apareça de pés descalços’ (Idem).

‘No arco triunfal, agora do lado da Epístola, está representado, no registo alto o tema do Homem Silvestre e, em baixo, subsiste um fragmento do Martírio de S. Sebastião(contorno do lado esquerdo do corpo do santo, crivado de flechas , e dois archeiros)’ (Idem, ibidem: 16).
‘Na parede da nave adjacente à do arco triunfal, do lado da Epístola, encontramos a representação de Santo Antãoe de S. Bartolomeu(Idem, ibidem).
O estado de conservação destas pinturas murais era 'razoável, embora haja lacunas e grande quantidade de deposição de sais' (Bessa, 2007. 113).

INFORMAÇÕES RECOLHIDAS EM:
ALVES, Lourenço - Arquitectura Religiosa do Alto Minho. I - Igrejas e Capelas do Alto Minho do Séc. XII ao Séc. XVII, Viana do Castelo, 1987.
BESSA, Paula –Pintura mural na Igreja de Santa Maria Madalena de Chaviães, in ‘Boletim Cultural de Melgaço’, n.º 2, 2003, pp. 9-30.
BESSA, Paula –Pintura mural do fim da Idade Média e do Início da Idade Moderna no Norte de Portugal (Tese de Mestrado), Universidade do Minho, Setembro 2007.
'Site' Repositorium.sdum.uminho.pt
COSTA, Avelino de Jesus da – Comarca eclesiástica de Valença do Minho. (Antecedentes da Diocese de Viana do Castelo). Comunicação apresentada ao I Colóquio Galaico-Minhoto, Ponte de Lima, 1981
IAN/TT, 1758-Capela, J. Viriato- As freguesias do Concelho de Melgaço nas Memórias paroquiais de 1758, Ed. C. M. Melgaço, 2005

PINTOR, P.e M. A. Bernardo – Melgaço Medieval. Obra histórica, reed. Rotary Clube de Monção,Monção, 2005, Vol. 1.

http://acer-pt.org/