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domingo, 18 de outubro de 2015

Antiga Ponte Internacional de S. Gregório em postais antigos

A antiga ponte internacional de S. Gregório foi construída em finais do século XIX e destruída em meados da década de 1930. Era uma estrutura rudimentar cujo tabuleiro era formado por um par de troncos de madeira. Podemos vê-la em alguns postais como estes que aqui são apresentados...

Ponte Internacional de S. Gregório (postal de 1909)


Ponte Internacional de S. Gregório (postal da década de 30)


Ponte Internacional de S. Gregório (postal da década de 30)


Ponte Internacional de S. Gregório (postal do início do século XX)


quarta-feira, 17 de junho de 2015

Inauguração da nova Ponte Internacional de S. Gregório (1935) em fotos

Inauguração da Ponte Internacional de S. Gregório

A Ponte Internacional de S. Gregório (Melgaço) sobre o rio Trancoso foi inaugurada a 26 de Abril de 1935 com grande pompa.
A revista do Automóvel Club de Portugal produziu uma série de fotografias para um artigo desta publicação que nos mostra S. Gregório e esta nova ponte acabadinha de inuagurar...

(Clique nas fotos para ampliar!)


Inauguração da Ponte Internacional de S. Gregório

S. Gregório e Ponte Barxas com a velha ponte internacional 


Vista para o rio Minho da estrada vila de Melgaço - S. Gregório


Vista para o rio Minho da estrada vila de Melgaço - S. Gregório

Fonte: Revista do ACP, Maio de 1935. 

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Melgaço e o rio Minho em reportagem da RTP em 1985



Recuamos 30 anos até Melgaço em 1985. Aqui pode ver uma reportagem realizada para o programa “Rios de Portugal”.
No dia 9 de Janeiro de 1985, é emitido o programa desta série dedicado ao rio Minho. Podemos ver imagens da época da barragem da Frieira, de Cristóval e do vale do Minho até à vila de Melgaço. Vemos também entrevistas a populares da terra em Cristóval e na vila de Melgaço. As pessoas são questionadas acerca da importância do rio Minho para a terra e queixam-se das consequências da construção da barragem para a pesca no rio. Para eles, o rio já tinha conhecido melhores dias...
Veja e recorde a paisagem e as gentes da terra...



Nota - Pode visionar o programa completo clicando em 
Depois de Melgaço, a reportagem percorre os restantes concelhos do vale do Minho até Caminha....

domingo, 15 de junho de 2014

A vida nas aldeias raianas de Melgaço na reportagem "Viagem pela raia" do jornal Público

Posto da Guarda Fiscal de Cevide em 1942
(Foto publicada no grupo do FB "Amigos de Cevide)

Na edição de hoje do jornal PÚBLICO, vem publicada uma reportagem intitulada "Viagem pela raia". Os repórteres visitam comunidades fronteiriças portuguesas e procuram estórias de antigamente e testemunhos de como é viver na raia hoje. Da reportagem, retirei alguns extratos sobre a vida na fronteira, ontem e hoje, na nossa terra falados na 1ª pessoa...
"Com o fim da fronteira entre Portugal e Espanha, esfumaram-se guardas, despachantes, funcionários de casas de câmbio e suas famílias. As escolas perderam alunos; os comércios, fregueses; os centros de saúde, utentes. Desapareceu o contrabando e a candonga. Houve quem alertasse para o risco de ver “uma linha de vida transformar-se numa faixa desertada”. Será tudo culpa de Schengen? O que é a fronteira agora?
Na freguesia de São Cristóval, em Melgaço, perto do marco de fronteira número 1, Lurdes Durães podia ficar dias inteiros a contar estórias. A mulher, de ágil memória nos seus 73 anos, costuma dizer que nasceu no meio do contrabando: “Depois da guerra civil, aos espanhóis fazia falta sabão, unto, toucinho e outras coisas de comer.” O pai dela “tinha um comerciozito a dois ou três quilómetros”. A mãe dela via espanhóis a entrar e a sair de uma loja ao lado de casa. Saltavam as pedras do rio Trancoso e subiam pelos terrenos dos avós de Lurdes. Era ela ainda bebé quando a mãe arrumou a mobília num canto da sala, de uma tábua fez um balcão, mandou vir “unto, toucinho, sabão — as coisas que os espanhóis vinham buscar” — e pôs-se a vender.
A ninguém causava remorso o contrabando. Aquilo até podia ser crime, mas não seria pecado, dizia-se em Melgaço. Quem era o lesado? O Estado. O que era o Estado? Ali não se via Estado a não ser na sua forma repressiva. Estava Lurdes casada havia um mês quando o marido lhe disse:
— Temos de ir a Ourense!
— Agora, nesta hora, que estou a fazer o comer?
— Já vimos! Vamos e vimos depressa.
Puxou-a da cozinha para a sala, para que ninguém ouvisse o que tinha para lhe dizer, nem visse o que tinha para lhe mostrar.
— Tens de levar este ouro.
— Como vou levar isso tudo?
— Ao pescoço.
Eram muitos fios de ouro. Tantos que Lurdes nem sabe. Anuiu, um tanto assustada. Colocou “para aí 20 ou 30 fios” ao pescoço e meteu os restantes na carteira. Estava uma verdadeira minhota. Dir-se-ia prontinha para ir às festas de Nossa Senhora da Agonia, em Viana do Castelo.
— E se nos prendem? — perguntou.
— Não! O ouro é teu. Ninguém te pode proibir de o levar. Podem assaltar a casa. Andas sempre com ele.
“Eram as nossas desculpas”, conta ela, sentada na cozinha da casa que ainda agora habita. O apurado conhecimento do terreno e o suborno pago aos guardas não explicam tudo. Toda a gente se conhecia. No contrabando andavam familiares, amigos ou vizinhos dos guardas. Nas décadas de 1960 e 70, alguns, como Lurdes e o marido, até misturavam contrabando com auxílio à emigração clandestina. “Tínhamos esconderijo no carro e levávamos uns quilinhos de café.”
O 25 de Abril de 1974 não acabou com o contrabando. Lurdes e o marido ainda fizeram muito negócio depois da Revolução. Levavam louça, cerâmica. Traziam televisores, aparelhagens. Tanto susto apanhou. Tantas vezes se sentiu à beirinha do fim. E, mesmo assim, tem pena que tudo tenha acabado. “Devia voltar outra vez. As aldeias estão a ficar sem gente. A gente das cidades não quer vir para as aldeias. O que vem fazer? Os nossos novos têm de emigrar ou de ir para as cidades…”
“A fronteira hoje separa muito pouco”, diz Manoel Baptista, presidente da Câmara de Melgaço. É um ponto de ligação entre povos que se encontram para as coisas simples da vida, como tomar um copo ou comer, ou fazer projectos comuns.” Ali, por exemplo, aliaram-se para limpar as margens do rio Trancoso e para intervir no abastecimento de água em Castro Laboreiro.
Quem sabe como se relacionarão as novas gerações? Ainda não há os transportes transfronteiriços de que tanto se fala. Quem cresce na fronteira já não tem de contentar-se com os canais de televisão espanhóis, como acontecia em muitas terras quando Portugal e Espanha entraram na União. Muita gente sai para estudar. As redes de sociabilidade dos jovens “vão sendo estruturadas cada vez mais longe da fronteira e os referentes culturais são cada vez mais distintos”, observou Eduarda Rovisco ao debruçar-se sobre a raia em Idanha-a-Nova e Castelo Branco.
Não é sempre assim. Acontece viver-se quase em cima da fronteira. Ao domingo à tarde, idosos de São Gregório, na zona mais a norte de Portugal, vão aos cafés do outro lado jogar às cartas. E é espanhol o padeiro que a cada manhã lhes entrega o pão. Mesmo assim, houve quem barafustasse ao saber que o Governo vendeu a um espanhol, por ajuste directo, a antiga caseta da Guarda Fiscal e 60 metros quadrados de terreno. 
Que dizer de tudo isto? Talvez seja preciso recomeçar viagem, como escreveu Saramago no final da sua: “É preciso ver o que não foi visto, ver outra vez o que se viu já, ver na Primavera o que se vira no Verão, ver de dia o que se viu de noite, com sol onde primeiramente a chuva caía, ver a seara verde, o fruto maduro, a pedra que nunca mudou de lugar, a sombra que aqui não estava.”     

Extraído de: Reportagem "Viagem pela raia" da autoria de Ana Cristina Pereira e Adriano Miranda publicada na edição de 15 de Junho de 2014 do jornal "Público".

quinta-feira, 29 de maio de 2014

O "falar" das gentes de Melgaço no início do século XX


Em Remoães (Melgaço), o quotidiano em 1929...

O etnógrafo José Leite de Vasconcelos, fruto das suas visitas a várias aldeias de Melgaço, traça algumas das caraterísticas que identificou no modo de falar das gentes de Melgaço:
"Do exame que fica feito da "fala" de Melgaço, mostra-se que ela, em parte, conserva um estado muito arcaico da língua portuguesa, o qual é ainda hoje comum ao galego. Por exemplo,  sons como  ou canchuvia ou chubia, entre muitas outras. Em parte, apresenta fenómenos que se tornaram há muito, ou sempre foram, caraterísticos deste último idioma. Por exemplo, na conjugação de verbos: terminações em che na 2º pessoa do pretérito perfeito, pretéritos fortes em –o- , dixê ou dixen, -abámos na 1ª pessoa plural do imperfeito, -ano na 3ª pessoa do plural do pretérito perfeito, érades ou fáçadesveiga-te, é correspondente à nossa conjunção “e”, beiçóm ou beiçon, gando “gado”.
Daqui veio o escrever no século XVI de João de Barros segundo o qual os habitantes de entre o Lima e Minho “são quasi como galegos, e da mesma linguagem e traje”.
A própria gente do povo de Melgaço afirma por todo  o concelho “que a sua fala é quasi galega”. A uma mulher montanhesa ouvi uma vez a seguinte expressão: “Somos do Monte, falamos assi”. E em algumas localidades, como Paderne, onde os fenómenos de carácter galego não se manifestam tanto como noutras, zomba-se destas, arremedando-as: eu dei-che! tu foche! eu fuiche alá (eu fui lá”), eu binche! (eu vim). Sobretudo dizem isto das freguesias raianas com a Espanha, isto é, da raia: Chaviães, Paços e Cristóval. Em todo o caso, pesando bem as coisas, muitos galeguismos que parecem típicos, podem considerar-se portugueses, ou submetidos às leis gerais do português.
Os arcaísmos e galeguismos melgacenses explicam-se por ter Melgaço vivido, até tempos relativamente recentes, em grande afastamento dos principais centros de atividade e cultura portuguesa, e porque, sendo o galego e o português uma mesma língua, e não havendo no oriente do concelho fronteiras naturais, o trato familiar e quotidiano entre as gentes de cá e as de lá não deixa perder certos caracteres iniciais, e permite transmissão mútua de fenómenos. De facto, existem também em terra galega, embora em área muito circunscrita, fenómenos característicos do do falar português.
Quando se trata de regiões vizinhas, é às vezes impossível fazer classificação linguística rigorosa. Tanto pode considerar-se uma fala como pertencente ao grupo A ou ao grupo B. Ninguém entre Elvas e Badajoz confundiria o falar de Espanha como  falar de Portugal. Mas quem é que na raia seca de Melgaço separaria nitidamente em certos casos o falar popular da Galiza do falar popular do Minho?
Os caracteres do dialecto de Melgaço são, como se viu, tão notáveis, tomados no seu conjunto, que, pelo lado do arcaísmo, posso assentar que, assim como a linguagem de Arrifes, nos Açores, forma o grau mais evolucionado do Português, assim a de Melgaço forma o grau mais antigo. Pelo lado do galeguismo, ela estabelece, dentro do dialecto geral interamnense (dialecto falado entre Minho e Douro), transição do português para o galego.
Aqueles caracteres, porém, vão-se modificando ou perdendo. Se ainda há quem fale segundo as normas locais, há muitos indivíduos que, falando ou querendo falar segundo as normas do português corrente, deixam apenas perceber fenómenos locais avulsos, ou até pertencentes ao minhoto geral ou ao baixo-minhoto. Não raras vezes acontece, quando um popular fala com uma pessoa de fora do concelho, empregar uma expressão culta, por exemplo, sou, ao passo que, se falar com um seu natural, dirá som ou .   

Para as modificações e perda de dialecto contribuem, como é natural, as relações cada vez mais íntimas que, por causa da abertura de estradas, instituição de escolas, e outros melhoramentos de vida social, se estabelecem continuamente, já entre as populações rurais e a vila, já entre o concelho todo e o resto da nação. Vemos isso claramente com dois exemplos. O concelho de Castro Laboreiro, que existiu durante muito anos independente, foi extinto por Decreto de 24 de Outubro de 1855, e desde então os castrejos começaram a ir mais vezes à nova vila sede de concelho do que iam antes. Na freguesia de Paderne, lugar do Peso, ficam  as célebres águas minero-medicinais conhecidas por “Águas de Melgaço” exploradas há uns anos para cá. Isso faz com que não só vão ali com frequência pessoas de várias freguesias do concelho vender comestíveis, senão que também lá concorram forasteiros de todo o Portugal, e muito de Espanha. Em qualquer dos casos apura-se o dizer, isto é altera-se a feição do dialeto.  

Extraído de: VASCONCELLOS, José Leite de (1928) - Linguagem Popular de Castro Laboreiro.  in Opúsculos, Vol. II – Dialectologia (parte I),Imprensa da Universidade, Coimbra.

sábado, 26 de abril de 2014

Cevide (Melgaço), 1813 - De um crime bárbaro a uma sentença exemplar


Foi considerado na época como um dos crimes mais audazes que possam cometer-se. Um homem de nome Barros fora à romaria de S. Bento, a 11 de Julho de 1813, e dentro da igreja, na ocasião em que se estava celebrando o sacrifício divino, deu, sem causa conhecida, um bofetão no espanhol Basílio Esteves. Frei Luiz Rodriguez repreendeu-o com razão. Mas o Barros enfureceu-se por isso a tal ponto, que, associado logo aos co-réus Francisco Durães e Caetano Velloso atacaram, todos armados, o clérigo. Então este, em sua justa e necessária defesa, foi obrigado a lançar mão de um pau que trazia Luiz António Simão, e da desordem que se seguiu, ficaram levemente feridos os réus Barros e Durães.
Desde esse momento, o Barros e os outros ofendidos preparam a vingança, e correu d'ella o rumor, por forma que Frei Luiz e até o comandante d’Al’arma o participaram por dois ofícios ao juiz de fora de Melgaço, pintando-lhe o risco que corria a vida do clérigo, e pedindo-lhe providências, que ele parece não ter dado, com o que de certo evitaria o crime.
Na noite de 9 para 10 de Outubro de 1813, passam o rio na barca de Cevide, o Barros e seus cúmplices. Chegam ao lugar do Crecente, e, entrados numa taberna, espreitam a ocasião de levar a cabo a maldade. A um sinal dado dirigiram-se, entre as oito e nove horas da manhã, à igreja. Avista-os a vítima, correm ao altar, onde então celebrava cerimónia religiosa, e muito povo assistia. Toma nas mãos uma hóstia ainda não consagrada, e roga-lhes por Deus que o não matem!
Mas a fereza dos algozes não se aplaca, mesmo ao pressuposto de grave ofensa à Divindade. Descarregam logo ali os primeiros golpes sobre o desgraçado, arrastam-no do altar até à porta travessa, e acabam com ele, regressando depois a Portugal pelos mesmos passos. Parece terem sido activíssimas as diligências por parte das autoridades dos dois países para o castigo dos malvados, que não foram logo presos. Dois dos criminosos somente foram capturados a 8 de Novembro de 1813, em Lisboa, onde os entregaram à prisão uns gallegos de Crecente que os conheciam.
Depois de vários recursos, os criminosos foram julgados pelo Tribunal de Relação do Porto. Os juízes referem que este crime bárbaro não devia ficar impune. Choca-os o facto de os réus terem saído armados, invadindo o reino vizinho e aliado para consumar nele este crime atroz de vingança.
A sentença manda executar a pena no Campo da Alameda, fora da porta do Olival, no Porto. Que sejam cortadas as mãos e cabeça a todos os réus, depois de enforcados. Depois disso, manda a sentença que sejam levados os seus corpos pelo executor de alta justiça ao lugar de Cevide (Cristóval – Melgaço), no sitio em que embarcaram os mesmos réus. Aí, os seus corpos serão pregadas em postes altos, onde serão conservadas até que o tempo consuma os seus cadáveres, para que seja nestes reinos, e rios de Espanha, patente aos povos a justa pena do atroz delito que os mesmos réus perpetraram em ofensa e escândalo publico.
José Romão Esteves, espanhol, residente em Portugal, barqueiro que os passou, foi absolvido por se não provar que tivesse conhecimento de que os réus iam perpetrar um crime.

Informações extraídas de:
- SECCO, António Luiz de Souza Henriques, (1880) - Memórias do tempo passado e presente para lição dos vindouros. Imprensa da Universidade de Coimbra, Coimbra.

quarta-feira, 9 de abril de 2014

Viagem a S. Gregório (Melgaço) em 1894


S. Gregório, no início do século XX

Tendo sido encarregado pela Direcção do Jardim Botânico da nossa universidade de fazer uma exploração botânica ao norte do paiz, escolhi como ponto de partida a aldeia de S. Gregório, no concelho de Melgaço.
Parti para ali no dia 18 de Junho do corrente anno (1894). Acompanhou-me por alguns dias o nosso amigo, o Sr. Augusto Nobre, redactor d'esta revista, que desejava explorar a fauna do rio Minho e seus afluentes.
S. Gregório é uma pequena povoação que fica situada na fronteira e dista de Melgaço oito kilometros. Outrora esta povoação teve um commercio importante, mas depois decahiu muito; actualmente porém tende outra vez a animar-se. A estrada que a liga com Melgaço tem já 7 kilometros concluídos, falta-lhe o oitavo e último, que anda em construcção.
S. Gregório não é sede de freguezia, a igreja matriz está n'uma pequena povoação a cerca de um kilometro de distancia. Este facto, de povoações importantes não serem sedes de freguezia, dá-se em vários pontos do paiz, como por exemplo na Mealhada e no Cargal do Sal que são cabeças de concelho e têm a matriz em aldeias próximas. A parte alta de S. Gregório está a cerca de 250 metros acima do nível do mar e o rio Minho fica-lhe ao norte à distancia aproximada de 1,500 metros.
Do nascente, banha a parte bnixa d'esta povoação o pequeno rio ou ribeira de Trancoso, affluente do Minho, que limita Portugal da Galiza e tem a sua origem próxima a Alcobaça, Há uma pequena ponte internacional sobre a ribeira de Trancoso, que liga S. Gregório com uma pequena aldeia hespanhola e onde existe um posto de fiscalização aduaneira.

A estação do caminho de ferro da Galliza, marginal ao Minho e chamada Frieira, está approximadamente a 1,800 metros de distancia de S. Gregório, porém, o caminho que conduz alli é mau e tem de se atravessar o Minho em barco.
Dos lados sul e poente de S. Gregório está a serra que tem por ponto culminante o castello de Castro Laboreiro o qual fica a cerca de 1,250 metros de altitude. Para se ir a esta povoação passa-se pela aldeia denominada Alcobaça, situada na fronteira e que fica perto de 2 horas e meia de caminho de S. Gregório.
A poente de Alcobaça há um monte que tem a mesma altitude de Castro Laboreiro. D'esta parte da serra já me occupei n'uma noticia que dei sobre a serra do Soajo no Jornal de Horticultura Pratica, do Porto, no numero de Novembro de 1890.
O solo em volta de S. Gregório ó todo de origem granítica. Esta povoação é abundante em água e de boa qualidade. S. Gregório é saudável e o seu clima é temperado na estação invernosa e quente durante a calmosa. Para exemplo diremos que, no dia 26 de Junho ás 2 horas da tarde estando a atmosphera bastante carregada de electricidade, dentro de casa marcava o thermometro 30° C. O quarto onde fiz esta observação thermometrica tinha duas janellas voltadas para o norte e estavam com as vidraças abertas. Na mesma occasião fiz a leitura do meu aneróide o qual marcava 738 mm.
A cultura principal de S. Gregório e povoações limítrofes é a vinha, milho, batata, algum centeio e os prados. A videira é toda cultivada em parreiras ou ramadas, mas estabelecidas a pouca distancia do solo, isto é, em média a cerca de 1 metro e meio d'altura.
O vinho é magnifico e achamo-lo muito mais agradável ao paladar do que o affamado de Monsão. Árvores fructíferas observamos a cerejeira, em grande quantidade, pereiras, macieiras, ameixoeiras, pessegueiros, laranjeiras, etc. N'outro tempo cultivava-se ali a oliveira, mas como a producão era muito incerta os lavradores foram-nas arrancando, de sorte que hoje esta árvore é ali rara. Talvez valesse a pena introduzir as variedades hespanholas de maturação precoce e próprias dos climas septentrionaes do paiz.


S. Gregório, em 1911

Enquanto árvores florestaes encontram-se : o carvalho, castanheiro, pinheiro, vidoeiro, amieiro e alguns salgueiros.
Próximo a uma azenha que fica junto à ribeira de Trancoso e não muito distante de S. Gregório, vimos um lindo exemplar de vidoeiro com o tronco muito direito. Teria uns 20 metros de altura por 60 centímetros de diâmetro na base. As essências florestaes abundam principalmente na parte inferior da serra, próximo aos ribeiros e corgas. A parte elevada tem pouco ou nenhum arvoredo e só matto rasteiro, e este mesmo não apparece em todas as localidades.
A flora em volta, de S. Gregório e bastante rica em espécies, mas não apresenta grandes novidades. É, porém, possível que na Primavera se encontrem nos montes espécies interessantes.
Na época em que ali estivemos, as plantas dos montes já estavam seccas ou tinham já florescido. Só na parte baixa da serra e nos altos, nos pontos onde havia água, é que se encontravam plantas em flor. Ainda assim fizemos uma colheita muito sofrível. Enquanto à fauna, pouco pudemos observar, pois o nosso fim era fazer uma exploração botânica e pouco tempo nos restava para outros estudos.
Ainda assim pudemos averiguar o seguinte : habitam ali alguns mamíferos como a lebre, coelho, raposa, texugo, lontra e, nos pontos mais distantes, o lobo, javali e corso.
De entre as aves que vi citarei: perdiz, codorniz, cuco, poupa, corvo, pega, gaio, pardal, tentilhão, pintassilgo, alvéola, papa-figo, melro, pisco, chapim, andorinha das chaminés, andorinhão, etc.
No rio Minho encontra-se a truta, boga, escalo, e a enguia, camarões e mexilhões. Na época própria pescam-se salmões, truta marina, sáveis e lampreias. Em Melgaço vimos a vender no mercado barbos que diziam ser pescados n'este rio. Na ribeira de Trancoso só se encontram a truta e a enguia.
O Sr. Augusto Nobre n'um passeio que fez à serra, capturou, ao atravessar um caminho, uma víbora que, quando ma mostrou, vi logo que me achava em presença de uma espécie que não era uma espécie comum.
Depois de eu regressar a Coimbra este nosso amigo escreveu-nos dizendo que já a tinha determinado e era a Vipera berus L., e que a descreveria no presente número d'esta revista. Que saibamos, esta víbora até hoje só tinha sido encontrada por Steindachner nas vizinhanças do Porto.
Algumas pessoas, tanto em S. Gregório como em Melgaço, afiançaram-nos que na serra, e principalmente entre Alcobaça e Castro Laboreiro, habita uma lacertidea a que lá dão o nome de Escorpião e da qual diziam ser um pequeno lagarto quasi com o aspecto de uma lagartixa, pouco mais ou menos de um palmo de comprimento. Este animal, segundo me disseram, tem a particularidade de apresentar duas membranas, dos lados do corpo, que pôde desenrolar ou estender para saltar como que voando ao mesmo tempo. Acrescentavam que este réptil aparece com mais frequência no tempo das ceifas dos fenos, saltando ou voando diante das gadanhas e escondendo-se durante o inverno nas medas das palhas e fenos. Diziam ainda que os caçadores temem este animal, porque mordendo na cabeça dos cães, produz-se uma grande inchaço, resultando muitas vezes a morte.
Talvez aqui haja confusão e seja antes a mordedura de uma espécie de víbora (Vipera berus L.), que cause isto, e não a d'aquelle animal, pois também ouvi dar o nome de escorpião a esta víbora. Não temos elementos bastantes para conjecturar com segurança que espécie de animalejo possa este ser, ainda não arquivado, que saibamos, em nenhum dos museus públicos do país.

Extraído de : MOLLER, Adolfo Frederico (1894) - Excursão à serra de S. Gregório. in: Annaes de Sciensias Naturaes, Volume Primeiro, publicado por Augusto Nobre.

quarta-feira, 19 de março de 2014

A estrada de Melgaço a S. Gregório em 1909 - A paisagem mais bonita de Portugal


S. Gregório (Melgaço) em postal de início do século XX


A revista “Serões”, magazine popular publicado no início do século passado, lançou um desafio a vários vultos das artes e das letras do país. Cada escritor ou artista teria que escrever um texto sobre aquela que era, no seu entender, a paisagem mais linda de Portugal. Leia o que o escritor Anthero de Figueiredo escreveu...
“Das muitas paisagens deste lindo Portugal, diante das quais meus olhos tem parado commovidos e agradecidos, uma há que mais se demora em mim. É esse bocado que vai de Melgaço a S. Gregório à beira do rio Minho, em frente de terras espanholas – lá em cima, no extremo norte de Portugal. Desde o Peso, a estrada, na encosta sobe, às curvas, sobranceira ao rio, que nesse sítio, separa dois países. De cá campos de milho e outeiros de verdura. De lá,a Galiza sombria e montanhosa. Numa extensão de meia légua, sempre o Minho se vai deixando ver: próximo, suas águas são claras e simples. Mas vistas de longe, no fundo do vale, são, ora lívidas, ora brilhantes e, na distância, de estranha physionomia. O mesmo é nas terras baixas, e nos montes: são verdes os lameiros e os milheiraes que nos cercam, relvadas as valetas, floridos os canteiros, as hortas alinhadas, amiga a sombra dos carvalhidos, fartos os espigueiros, abastadas as medas e as eiras, tranquilos os muros, modestas mas alegres as casas de brancos telhados, resignados os mendigos, joviaes os remediados. Mas do outro lado, para além, há collinas agrestes, campos pobres, espessas matas de bravios pinheiraes, montes atormentados de arestas penascosas, montanhas escalvosas, serenas e estoicas e, ao longe,  nos despovoados campos da Baixa Galliza, adivinham-se casaes sem pão, e mendigos trágicos e pastores esfomeados. Lá, por essas serras distantes que noutras serras se prendem e perdem, pela Espanha dentro da cordilheira cantábrica, até às Vancongadas!
Paisagem amena e dura, amável e tremenda, próxima e longínqua tem em si ensinos profundos: ella é uma voz de bondade e de força clamando a lição penetrante da vida! Faz sorrir, pensar, sofrer! Olhamo-la com olhos abertos e alegres, e, meditando, olhamo-la com olhos fechados e pesarosos!
Ainda um dia voltarei a visitar a linda capella de Nossa Senhora da Orada, que, no alto, à borda da estrada, olha para tal paisagem de agrado e de meditação. E ahi, na paz do seu pequeno adro e à sombra do seu portal românico, diante dessa terra de silencioso instruir, hei-de compor uma oração, não à Athenêa, como Rénan na colina sagrada da acrópole, mas à deusa Serenidade – a deusa dos olhos bellos e frios, a deusa calma e triumphadora que ensinou a libertação a Budha e a renuncia a Epicteto."


       Capela de Nossa Senhora da Orada em 1909, na estrada da vila de Melgaço para S. Gregório

Extraído de: FIGUEIREDO, Anthero de (1909) “A Paisagem Portugueza: Inquérito aos homens de lettras e outros artistas” in: Revista “SERÕES”, Nº 50, Agosto de 1909.

quinta-feira, 13 de março de 2014

As irmãs Touza de Ribadavia e a fuga dos judeus a Hitler pela rota do contrabando por Cevide (Cristóval - Melgaço)

As irmãs Touza

Entre 1941 e 1945, três irmãs galegas de Ribadavia, as Touza, montaram uma rede que apoiou a fuga de centenas de judeus sem visto, fazendo-os entrar ilegalmente em Portugal. O neto de Lola Touza acredita que ela conheceu o cônsul Aristides Sousa Mendes.
Imagine-o como um velho filme de espiões a preto e branco. Haveria nevoeiro como na cena final de Casablanca, quando Ilse e Rick se separam. Mas, em vez de um avião que parte, chega um comboio a uma pequena estação de província. A locomotiva chia e detém-se entre uma nuvem de vapor. Alguns passageiros descem das carruagens e dirigem-se ao quiosque onde três mulheres oferecem bebidas frescas.
Entre Março de 1927 e o final de 1929, o cônsul de Portugal em Vigo, Aristides Sousa Mendes, deslocar-se-ia a Madrid com alguma regularidade, para se avistar com o embaixador Melo Barreto. Em Ribadavia, o comboio fazia uma paragem de 20 minutos para meter água e muitos passageiros desciam das carruagens para tomar um refresco, um licor, um copo de vinho, ou comer os famosos biscoitos que se vendiam no quiosque da estação, gerido por três irmãs solteiras, as Touza (Lola, Amparo e Julia).
Julio Touza, neto de Lola, acredita que a sua avó e o cônsul português se podem ter conhecido aí, numa dessas paragens. "O comboio parava em Ribadavia e eu acredito que tenha conhecido a minha avó nessa altura. As pessoas boas, generosas, valentes e nobres têm um sentido especial para se reconhecerem", diz.
Trata-se, é verdade, de uma mera suposição. Julio Touza, arquitecto em Madrid, está ainda a reunir dados que permitam confirmá-la ou desmenti-la. Mas não deixa de ser verosímil que, tendo ou não chegado a conversar, Aristides Sousa Mendes e as irmãs Touza se tenham cruzado, alguma vez, na estação ferroviária de Ribadavia. Oito décadas depois, não há dúvidas de que estão juntos: no jardim do Museu Yad Vashem, de Jerusalém, onde se plantam árvores em homenagem àqueles que, durante a Segunda Guerra Mundial, ajudaram a salvar judeus em fuga da perseguição nazi.
A forma como Aristides Sousa Mendes, então cônsul em Bordéus, emitiu, em 1940, à revelia do Governo de Salazar, vistos que permitiram a fuga de cerca de trinta mil pessoas (dez mil das quais eram judeus), obteve reconhecimento internacional pouco tempo depois da derrota dos nazis. A história das irmãs Touza, porém, permaneceu em segredo durante décadas e só foi desvendada em 2005. Chamam-lhes, agora, as Schindler galegas.
Em 1941, a Espanha sob a ditadura de Francisco Franco tinha ainda muito viva a memória do envolvimento de Hitler na guerra civil de 1936-39, o qual permitiu às tropas franquistas vencerem os republicanos. Apesar da aliança, o regime era relativamente tolerante para com os judeus em trânsito para os portos portugueses ou africanos durante a Segunda Guerra Mundial. As irmãs Touza, porém, tinham chegado a ser presas durante a guerra civil, por levarem comida a republicanos detidos, e, por isso, mantiveram sempre em segredo toda a operação que terá permitido que cerca de 500 judeus fugidos do nazismo chegassem a Portugal, a caminho da liberdade.
O silêncio só foi quebrado aquando da morte de Antón Patiño Regueira, um livreiro de Vigo que tomou conhecimento do caso por intermédio de um emigrante galego regressado de Nova Iorque, onde tinha mantido contacto, na década de 1960, com Isaac Retzmann, um dos judeus auxiliados pelas Touza. A edição do livro Memória de Ferro, em 2005, revelou o esboço da investigação que Regueira tinha efectuado, a qual permitiu, mais tarde, homenagear as três irmãs de Ribadavia. Mais recentemente, a história foi também narrada no livro Entre Bestias y Héroes, do conceituado jornalista Diego Carcedo.
Tanto quanto é possível saber, a história começa numa noite de Abril de 1941, na mesma estação ferroviária por onde, às vezes, Aristides Sousa Mendes passava em trânsito entre Vigo e Madrid. Lola Touza reparou num homem alto, sujo e com a barba por fazer, o qual permanecia sentado, há horas, num banco de madeira a um canto da gare, vendo os vagões passarem Minho acima, Minho abaixo. Acercou-se dele e, mesmo não entendendo o idioma em que falava, ajudou-o. Chamava-se Abraham Bendayem e terá sido o primeiro a ser salvo pela pequena rede que as Touza, com Lola à cabeça, montaram nos anos seguintes, abrindo aquela que seria uma das mais importantes rotas clandestinas de fuga de judeus pela Península Ibérica.
Para assegurar a confidencialidade da operação, a rede era composta por um contingente mínimo: as três irmãs, dois taxistas, o Rocha e o "Caveira", que conduziam um Dodge preto, um emigrante retornado, a quem chamavam "O Evangelista" e que servia de tradutor, e um barqueiro, Ramón Estévez - que ainda está vivo. Conta, por exemplo, que estava a ajudar o pai, Francisco Estévez, a descarregar uma carreta de tijolos, quando Lola apareceu a perguntar se ia pescar e se, nesse caso, podia fazer o favor de passar para Portugal uma pessoa que não podia viajar de carro ou comboio. Era um alemão.
"Nessa mesma madrugada, às quatro em ponto, fomos a casa de Lola levando canas de pesca. Dissemos ao estrangeiro que não falasse. Fomos directamente para as margens do Minho e andámos toda a noite. Ninguém suspeitaria de nada, uma vez que era comum os pescadores saírem a essa hora para pescarem trutas e enguias para matar a fome." Horas depois, tinham percorrido 40 quilómetros por um caminho empedrado. Chegaram a Frieira, uma aldeia galega junto a uma das partes mais estreitas do rio. "Como eu era um miúdo - recordou Ramón Estévez no livro de Carcedo -, o alemão perguntou-me se eu me importava que tirasse a roupa. Disse-lhe que não. Ele dobrou-a e prendeu-a à cabeça com o cinto. Disse-me que nunca mais me esqueceria e deu-me um duro de prata. Vi como entrou na água e como alcançou a margem portuguesa e, desde aí, nunca mais soube nada dele. Tinha o número 451 tatuado no antebraço. Disse que se chamava Abraham Bendayem."

Na rota do contrabando
Do outro lado do rio, no concelho de Melgaço, Cevide orgulha-se de ser "o lugar mais a norte de Portugal". Em São Gregório, ali perto, havia, na época, um posto da Guarda Fiscal, o que não impedia que passasse por Cevide uma das mais importantes rotas de contrabando entre os dois países, beneficiando da mancha florestal que ainda persiste, cortada pelo cursos do Minho e do Trancoso, que ali se encontram. Sabendo-se que o quiosque das Touza na gare de Ribadavia era utilizado como esconderijo para o café Sical que vinha do lado português da fronteira, não é difícil imaginar que os judeus em fuga tenham percorrido, para chegar a Portugal, os mesmos caminhos que eram utilizados pelos contrabandistas. "Mas nunca nenhum dos antigos contrabandistas com quem falei mencionou essas histórias", ressalva Angelina Esteves, chefe da Divisão de Cultura da Câmara de Melgaço, que tem a seu cargo o Espaço Memória e Fronteira, com uma sala dedicada ao contrabando.
O segredo era, também do lado de cá, a alma do negócio. Não só pela ilegalidade daquela actividade, mas também porque, a partir de 1942, a autorização para a circulação de judeus em Portugal passou a carecer de autorização da PIDE. Em Ribadavia, o silêncio durou 60 anos, quanto mais não fosse porque, em 1941, a Gestapo tinha agentes destacados em Vigo, acompanhando o comércio de volfrâmio a partir dos portos galegos. Dois desses agentes terão, de resto, chegado a deslocar-se a Ribadavia, à procura de um judeu alemão fugido de França - seria o mesmo Abraham Bendayem que escapara de um campo de detenção de Lyon com um asturiano que foi abatido a tiro.
A necessidade de nunca falar do assunto, mesmo após o fim da guerra, justifica também o facto de, até 2005, Julio Touza nunca ter ouvido falar das actividades clandestinas da avó. "O meu pai, sim, sabia da história e deve ter ajudado. Tinha, na altura, 26 anos. Mas nunca me contou nada", disse ao P2. "Ele foi professor até à década de 1950 e, quando abandonou o ensino, ocupou um cargo de direcção numa empresa de electrodomésticos, com direito a carro e motorista. Escolheu, para o lugar, José Rocha, o filho de um dos taxistas que ajudavam a minha avó e as minhas tias. Depois, quando este emigrou, contratou José Miguez, filho do "Caveira". Sem dúvida que o meu pai não só sabia da história, como continuou a ter a seu lado os filhos daqueles que colaboraram com a minha avó."

História de silêncios
Desde o dia em que a história foi revelada, Julio Touza recebe quase diariamente contactos de escritores, jornalistas e cineastas interessados em contar a história "ao estilo da lista de Schindler". "Respondo a todos que ainda não é o momento. Que uma história de silêncios, como esta, deve tranquilizar-se na alma antes de poder ser contada com simplicidade, mas com toda a crueza, para que não se repita a sangria do Holocausto", diz.
Apesar do resguardo, o arquitecto vai narrando alguns episódios que ajudam a compor o quadro da época. Recorda, por exemplo, a bolsa de moedas de prata que Lola guardava num gavetão do velho aparador. "Ela não queria que ninguém lhe mexesse. Eu pensava que ela coleccionava moedas, mas agora percebo que as guardava como recordação de outros tempos. Usara-as para pagar favores e ajudar os judeus em fuga. Mas nunca ninguém na família o soube, nem sequer o seu único filho, o meu pai", contou numa entrevista.
Guillermo, outro dos netos de Lola, recordou ao jornal La Opiniónter encontrado uma vez uma cama num sótão da casa, entre enormes vigas e sempre fechado. Seria a cama onde os judeus pernoitavam, escondidos numa divisão obscura.
Lola era, nos anos 1940, conhecida como "a mãe", por ter tido um filho de pai incógnito. Seria, de resto, uma bela mulher, cuja fotografia tinha chegado a circular pela frente republicana, para animar os soldados. Vivia com as irmãs numa espécie de casino, geria o quiosque da estação e esperava os comboios com uma cesta de doces nas mãos. Umas vezes oferecia os caramelos e biscoitos de amêndoa pelas janelas das carruagens, outras entrava nos comboios. Nessas ocasiões, tomava conhecimento do dia e da hora da chegada dos judeus, através de contactos mantidos entre Girona, Medina del Campo e Monforte. Os fugitivos eram escondidos, alimentados e, depois, seguiam para a fronteira um a um, ou em pequenos grupos de três ou quatro pessoas, esperando chegar aos portos portugueses onde podiam embarcar para o continente americano.
Ao P2 Julio Touza acrescentou que a fuga também utilizava, às vezes, o comboio: "A minha avó e as minha tias, gerindo o quiosque da estação, conheciam muitos empregados da ferrovia. Creio que, às vezes, escondiam os judeus em vagões de mercadorias e conseguiam que algum funcionário os ajudasse a saltar onde fosse mais fácil passar para Portugal. Suponho que também pagassem a alguns guardas para que os não detivessem, embora quase sempre evitassem as fronteiras e passassem pelo rio ou pelos montes."
O segredo da operação manteve-se. Lola morreu em 1966, Amparo em 1981 e Julia em 1983 - sem que nada daquela história fosse revelado. Só em Setembro de 2008 as irmãs Touza foram homenageadas em Ribadavia pela ajuda prestada aos judeus. "Recordar as irmãs Touza é um exemplo para o futuro, de amor e de valor, princípios tão escassos nestes tempos de ódios", escreveu, então, Ron Pundak, director-geral do Peres Center for Peace.


Extraída de: "Irmãs galegas ajudaram judeus a escapar a Hitler". Reportagem de Jorge Marmelo in: P2, edição de 4 de Fevereiro de 2012.

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

S Gregório Melgaço: Terra de Fronteira

Momentos, sobretudo ao longo da primeira metade do século XX, captados em S. Gregório (Melgaço). 
A terra, as gentes... retratadas em fotografias e video.







terça-feira, 14 de janeiro de 2014

1911 - A Ponte Internacional de S: Gregório e a demissão do ministro da Guerra


Joaquim Pereira Pimenta de Castro nasceu a 5 de Novembro de 1846, em Pias, Monção, e faleceu a 14 de Maio de 1918, em Lisboa.
Em 1911 foi convidado para o cargo de ministro da Guerra no primeiro governo constitucional de João Chagas (3 de Setembro a 7 de Novembro desse ano), resistindo, com alguma dificuldade, às tentativas de contra-golpe dos monárquicos.
Durante o desempenho do cargo de ministro da Guerra, envolveu-se em conflitos com outros membros do governo e o próprio chefe do governo João Chagas. Acabaria demitido pelo próprio João Chagas por via da sua suspeita passividade ante os manejos conspirativos dos couceiristas (forças fieis à causa monárquica comandadas pelo general Paiva Couceiro que tentava voltar a estabelecer a monarquia). Havia quem dissesse que o próprio era simpatizante dos monárquicos e por isso era acusado de ser um traidor.
O episódio da sua demissão fica associado a uma curiosa conversa acesa no Conselho de Ministros de 8 de Outubro de 1911. O primo do general, Gonçalo Pereira Pimenta de Castro narra, nas suas memórias, uma curiosa versão dos acontecimentos que conduziram à demissão de Pimenta de Castro: 
“O Dr. Eduardo de Abreu, devido à sua doença, não assumiu a Presidência do Ministério. Era ele que devia substituir o general Pimenta de Castro, e não o mulato do João Chagas, que como habilitações literárias, nem o curso do liceu possuía, e como moral, noutros tempos era conhecido pelo homem da Margarida. O general resolveu passar a desfruta (gozar) o tal senhor Chagas, que parece não era muito corajoso, como é próprio dos mestiços: Circulava o rumor de que Paiva Couceiro estava atravessando a ponte internacional de S. Gregório com sete mil homens. — «Como o caso é gravíssimo, quero saber, senhor Ministro da Guerra, que medidas de defesa adoptou e quais as que tenciona adoptar?» — Pimenta de Castro, natural de Monção, sabia que a ponte internacional sobre o rio S. Gregório, não passava de um tronco de árvore atravessado sobre o pequeno rio. Desfrutou o mulato dizendo-lhe:
— «Sete mil homens devem despender quinze dias a atravessar a ponte internacional de S. Gregório».
— «Que defesa pensa estabelecer o senhor Ministro da Guerra e que tropas mandou para lá?»
— «Tenho lá as tropas que lá estavam (não estavam nenhumas!) e mais as que para lá vou mandar (não mandou coisa alguma!)».
Paiva Couceiro não estava em S. Gregório, nem pessoa alguma. Isso porém é que ele não quis confessar.
O mulato Chagas ficou aterrado ante os sete mil homens de Paiva Couceiro, e mais ainda, porque o Ministro da Guerra não o defendia do fantasma desse Couceiro. Chamou o general e disse-lhe para pedir a exoneração. Pimenta de Castro respondeu-lhe:
— «Não peço coisa alguma» 
Acabou demititido.
— «Pedir alguma coisa àquele mulato, que nem sei quem é?... Antes ser demitido do que pedir-lhe alguma coisa!» — Exclamava mais tarde o General”.
Na realidade, não chegavam a mil homens a gente de Couceiro. Batera-se com poucos um ano antes, com poucos e mal armados continuava a bater-se. A monarquia não ateava a fé, desacreditara-se. Só duzentos e cinquenta desses homens iam armados e só de pistolas”.
João Chagas ficaria agastado com a demissão do seu Ministro da Guerra e, no Congresso, recusou-se a explicar as razões daquela ruptura.


Extraído de: MARÇAL, Bruno José Navarro - (2010) - Governo de Pimenta de Castro - Um General no Labirinto da I República. Universidade de LIsboa, Faculdade de Letras, Departamento de História. 


domingo, 25 de agosto de 2013

A Igreja Paroquial de Cristóval: referências históricas e características arquitetónicas


Vista para a Igreja Paroquial de Cristoval (Melgaço)
(Foto em http://coxo-melgaco.blogspot.pt)

A data da fundação de uma primeira igreja nesta freguesia remonta a 1509, segundo documentos da Torre do Tombo. Contudo, apenas em 1621 se encontra o primeiro registo de casamento documentado. O ano de 1622 é a data do primeiro registo de baptismo documentado.
Em documentos da época, refere-se que em Julho de 1641, o governador da Galiza, o Marquês de Valparaizo enviou um exército de oitocentos homens para retaliar o ataque português de D. João de Sousa e incendiou as igrejas de Cristóval e Paços, casas e searas da freguesia.
Em 30 de Maio de 1758, segundo o abade Duarte Cerqueira Araújo nas Memórias Paroquiais, Cristóval era do termo da vila de Melgaço, pertencendo à Casa de Bragança na época incorporada na Casa Real, comarca de Valença e Arcebispado de Braga. A freguesia tinha 180 fogos ou vizinhos, com 183 pessoas maiores de sacramento e 47 menores. A igreja de uma nave tinha o altar principal na capela-mor, onde está a imagem do orago no lado do Evangelho e a de Santo Anão no da Epístola, com sacrário e Santíssimo. No corpo da igreja tem dois altares colaterais encostados à parede do arco cruzeiro, sendo o do Evangelho dedicado a Nossa Senhora da Apresentação e o oposto a São Sebastião. Por ser pequena, a igreja não tinha irmandades, mas apenas a confraria das Almas. O abade tem de dízimos, rendimentos e emolumentos cerca de 500$000 anuais. A data de 1849, inscrita na lápide de granito colocada na parede posterior da capela-mor parece apontar a data da sua construção. No ano de 1902, decorreu construção da torre sineira por Daniel José Rodrigues em obediência à vontade de sua esposa Antónia de Silos Rodrigues.
Trata-se de uma igreja com planta longitudinal composta por nave única e capela-mor, mais baixa e estreita, tendo adossado à fachada lateral esquerda torre quadrangular e sacristia rectangular. Possui volumes escalonados com coberturas diferenciadas em telhados de duas águas na igreja e de uma na sacristia. Fachadas da nave em cantaria de granito aparente, muito irregular na zona superior, denotando o seu alteamento, as da sacristia em alvenaria de granito e as da capela-mor e torre rebocadas e pintadas de branco, terminando em friso e cornija (capela-mor) ou apenas cornija, sobreposta por beirada simples. Fachada principal virada a oeste, terminada em empena encimada por cruz latina de braços quadrangulares trevados sobre plinto paralelepipédico. A mesma é rasgada por portal em arco de volta perfeita, de aduelas largas sobre os pés direitos e por janela rectangular. Fachada lateral esquerda com a nave rasgada por porta travessa de verga abatida, portal de verga recta de acesso ao coro-alto, precedida por escada de cantaria com guarda de ferro, e janela de capialço e, na capela-mor, janela de capialço. Fachada lateral direita com a sacristia rasgada a oeste por porta de verga recta e a sul por pequena fresta jacente e janela rectangular; torre sineira de dois registos marcados por friso e cornija, com pilastras toscanas nos cunhais, sendo o primeiro registo rasgado a sul por porta de verga recta moldurada, e óculo polilobado, em cada uma das faces, tendo ainda a oeste. Possui também relógio circular; no segundo registo, percorrido por sacada com guarda em ferro e abre-se também em cada uma das faces sineira em arco de volta perfeita sobre pilastras e com fecho relevado, albergando sinos. É rematada por guarda de cantaria vazada, com plintos paralelepipédicos nos cunhais, coroados por fogaréus e com cobertura em coruchéu bolboso, decorado com elementos fitomórficos, coroado por cruz em ferro. Fachada posterior da capela-mor terminada em empena coroada por cruz latina de cantaria sobre acrotério e pináculos piramidais com bola nos cunhais apresentando uma placa em granito inscrita.
Esta igreja situa-se no interior da aldeia, junto à estrada que a atravessa. Insere-se em terreno parcialmente murado, formando adro, de cota bastante rebaixada relativamente ao nível da estrada, que passa frontalmente, pavimentado a lajes de cantaria e alvenaria de granito compactado. Junto à fachada lateral direita possui zona ajardinada, com canteiros recortados e ergue-se um coreto, de planta octogonal e de dois registos, o inferior rebocado e rasgado por porta de verga recta e janela, actualmente adaptado a instalações sanitárias, e o superior pintado de branco e tijolo, acedido por escada desde o adro e por uma outra desde a estrada, com guarda em alvenaria vazada por vãos oblíquos e cobertura facetada sobre pilares. Nas imediações, ergue-se a Casa Azul.

Informações extraídas de:
- www.monumentos.pt;
Outra bibliografia: 
ALMEIDA, Carlos A. Brochado, O sistema defensivo da vila de Melgaço. Dos castelos da reconquista ao sistema abaluartado, Melgaço, 2002; CAPELA, José Viriato, As freguesias do distrito de Viana do Castelo nas Memórias Paroquiais de 1758, Braga, Casa Museu de Monção / Universidade do Minho, 2005.