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sexta-feira, 23 de agosto de 2019

Melgaço em postais a cores de início do século XX




O blogue apresenta-vos uma pequena coleção de postais a cores com paisagens de Melgaço de inícios do século XX. Tratam-se de postais com pinturas a cores feitas em cima de fundo fotográfico e que nos mostram aspectos de vários pontos do nosso concelho: da vila de Melgaço, a Remoães, ao parque termal e hoteleiro do Peso, a fronteira de S. Gregório, sem esquecer  Paços, Paderne ou Castro Laboreiro, entre outros recantos da nossa terra retratados na época...
Viaje no tempo!




















sexta-feira, 15 de março de 2019

O Mosteiro de Fiães e a Senhora da Orada (Melgaço) - Parte I




Há mais de 300 anos, um livro da autoria do Padre Carvalho da Costa, publicado em 1706, conta-nos como era o Mosteiro de Fiães (Melgaço) na época e como em tempos antigos era muito rico e poderoso. Esta obra fala-nos ainda das origens da Nossa Senhora da Orada e da sua relação com a antiga Quinta de Cavaleiros: No mesmo Concelho de Valladares, ficando-lhe para o Norte o de Melgaço, para o nascente o Reyno de Galliza, sobre huns altos montes, ao pé de outros mais altos está o Convento.de Fiães, fundado em tempo del Rey Ramiro Primeiro e de sua mulher a Rainha Dona Paterna, de que julgamos tomar o nome o valle de Paderne. Quando ella então não fosse a fundadora daquelle Morteiro, o seria do de S. Payo, que no termo de Melgaço houve. Foi este de Fiães de Monges Bentos com a invocação de S.Christovão, de que se acha noticia pelos anos de 851 e hum dos primeiros, que desta Ordem houve em Hespanha. Foi logo tão rico em seus princípios de rendas senhorios, que teve nesta Província, na de Trás os Montes e Galliza, que vulgarmentefe dizia não haver algum tão poderoso, como o Dom Abbade de Fiães, depois del Rey, pelo que se pode presumir ser obra sua. Ali viviam oitenta Frades de Missa, além dos Conversos, os quais em Lausperene assistiam continuamente no Coro de dia e de noite e com tão exemplar vida, que de todos eram chamados Santos e muitos faziam milagres pelo que se vinham aqui enterrar muitos príncipes, que lhe fizeram amplas doações. De três Infantes há noticia e de muitos fidalgos galegos, & portuguezes, Fernão Annes de Lima, pai do primeiro Visconde, está em sepultura levantada e magnífica com suas Armas junto da Capela de S. Sebastião. Tinha antigamente um banho, que por milagre de Nossa Senhora apareceu junto do Morteiro, e esta água era de tanta virtude, particularmente no dia do Bautista, que muitos doentes de várias enfermidades, e aleijoens incuráveis, que nele se vinham lavar, voltavam sãos. Mandou-se entupir há anos por mortes que houve entre os que haviam de entrar primeiro. Ainda hoje vem muitos buscar água, que dele emana e a levam a enfermos, que bebendo-a com fé , obra Deus por ela muitas maravilhas. Da imagem de S. Bento, que aqui está, e é visitada dos contornos em todo anno, particularmente em Teu dia, se contam grandes milagres. A fabrica deste Mosteiro, e celas dos Religiosos foi cousa grande, trezentos e tantos annos havia, que nele viviam estes Monges. Teve nesses tempos dois incêndios por desgraça, causa de sua total ruína, porque lhe queimarem os melhores títulos de suas rendas, com que se pôs em estado, que mal tem com que sustente oito frades, quanto mais para pagar à Capela Real quarenta mil reis, e vinte e cinco mil reis ao Convento do Desterro de Lisboa. Da primeira ruína o tirou a piedade Cristã de Afonso Paes, dois irmãos seus, que de novo o reedificaram e deram a Alcobaça. No ano de 1150 era tão grande a fama que corria da vida santa dos Frades Bernardos, que tinham vindo de França para este Reyno, que mandou o Dom Abade deste Mosteiro dois Monges ao de Alcobaça a pedir nova reformaçam dos institutos de Cister, e um Religioso para que melhor os instruísse pelo que haviam de obrar, ficando logo sujeitos àquela Real Casa, que de novo se ia edificando. Tanto que receberam a reforma, tomaram por Padroeira a Virgem Nossa Senhora, deixando a S. Christovão e se chama desde então Santa Maria de Feães, e em memória do grande gosto que tiveram de se mudarem a Bernardos, e da boa doutrina, que o novo Mestre lhes veio dar, puseram o nome de Alcobaça a uma aldeia arraiana, que então povoaram, e permanece. Donde seu princípio sempre teve Couto Cível, que lhe confirmaram EI Rey Dom Afonso Henriques, e seus sucessores; e o Dom Abade tem jurisdição Episcopal, Metropolitano imediato ao Papa, sem que o Arcebispo lhe visite os seus bditos, e reconhece os Breves Apostólicos, ou o seu Provedor, que é hum Religioso da Casa, a quem o Abade escolhe, e deles appella para Roma, ou Núncio. A mesma jurisdição tem em Galiza no Bispado de Tuy além do rio Trancoso em dois lugares chamados Lapella e A zureyra, em que exercita a dignidade Episcopal por sentenças que teve cá e lá contra o Primaz, e Bispo, que ambos lho quiseram tirar, cousa que não sei haja em outra Diocese. A Condessa Dona Fronilla deu a este Mosteiro e ao seu Abbade João em Janeiro do anno de 1166 a quinta de Cavalleiros junto de Melgaço, cousa boa, particularmente de vinhas entendemos que com ela lhe daria também a Igreja de Nossa Senhora da Orada alli pegado, que os Frades dizem foi Mosteiro de S. Bento, e fundado quando se edificou o de Feães, de que veio a ser Priorado. Outros dizem (o que tenho por mais certo, e alguns sinais mostra para isso) que foi de Cavaleiros Templários, de que esta quinta tomou o nome, que era passal seu. Pouco há se lhe viam ruínas de celas, claustros, e canos de pedra, pelos quais lhe vinha água.”

...............................CONTINUA...............................

sexta-feira, 21 de dezembro de 2018

A excelência do Presunto de Melgaço ao longo dos tempos



Desde há vários séculos, variadíssimos documentos históricos atestam as virtudes do famoso Presunto de Melgaço. São destacados ao longo dos tempos aqueles que são feitos em Fiães e em Castro Laboreiro.
Há cerca de 500 anos, o presunto de Melgaço já fazia parte dos tributos a pagar ao rei D. Manuel I, conforme refere o foral manuelino de 3 de Novembro de 1513 o que comprova o seu elevado valor. Neste foral, diz-se que o rei e seus sucessores deviam receber por casais reguengos dispersos pelas freguesias de Rouças e Chaviães três presuntos por ano.
Já nesta altura, se faz referência ao facto de o presunto em Fiães não se conservar no sal mas sim curado e fumado. A comprovar o que se refere, basta aludir ao tal contrato de arrendamento das rendas do Mosteiro de Fiães, relativas ao ano económico iniciado no S. João de 1483 e a terminar na véspera da mesma festa do ano seguinte (1484), feito em 9 de Abril de 1483, pelo comendatário, D. Frei Justo Baldino, bispo de Ceuta, ao abade de Rouças, Álvaro Gonçalves, e ao padre Fernando Domingues, ambos moradores da vila de Melgaço, pelas quais deveriam pagar vinte e um mil reais brancos da moeda corrente “e mais uma dúzia de marrans (presuntos) secas e curadas e dezoito lampreas secas”.
No século XVIII, é a vez do Padre António Carvalho da Costa no seu livro “Corografia portugueza e descripçam topografica do famoso Reyno de Portugal”, publicado em 1706, fazer alusão ao nosso presunto destacando, quando se refere a Melgaço, que “tem boas e férteis terras, pela maior parte, mas em particular o vale da Folia [designação antiga para o atual território da freguesia de Remoães, concelho de Melgaço] com grandes vantagens: dá muito pão e vinho, frutas, feijão, hortaliças e cebolas muy celebradas por doces e as melhores desta província, excelentes presuntos sem sal...”
Temos ainda dizeres comprovativos da qualidade superior “É effectivamente a carne mais saborosa de Portugal e o fiambre feito d’estes presuntos, é óptimo” na A Gazeta de Lisboa, nº 1, de Janeiro de 1824. Aqui publicita-se a venda dos presuntos de Melgaço em Lisboa “(…) na rua dos Franqueiros, loja de Sola nº 116, há para venda presuntos de Lamego e Melgaço de superior qualidade (…)”
Lucas Rigaud, cozinheiro real no tempo da rainha D. Maria I, refere na sua obra maior “O Cozinheiro Moderno ou Nova Arte de Cozinhar”, publicada em 1826, “(…) os presuntos que nos vem de Lamego, Montalegre e Melgaço são excelentes (…)”. A monarca terá provado o Presunto de Fiães (freguesia de Melgaço), do qual terá dito que “… era um dos melhores manjares até aos dias d’ hoje…”
Na publicação lisboeta “O Panorama”, em 1841, no seu volume V, referindo-se à economia doméstica alude a uma “(…) receita para preparar os presuntos de maneira que sejam iguais aos melhores de Melgaço ou Lamego (…)”.
Se consultarmos outros jornais durante o século XIX, reparamos que o presunto de Melgaço também era vendido na cidade do Porto. Por exemplo, no “Jornal do Porto”, na sua edição de 25 de Dezembro de 1869 encontramos um anúncio com os seguintes dizeres: “Presuntos de Melgaço – Próprio para Fiambre. Vendem-se na Travessa da Picaria, nº 23”.
Desde tempos recuados que os afamados presuntos de Melgaço atravessavam o Atlântico rumo ao Brasil. Tal é comprovado no livro “Portugal Antigo e Moderno”, publicado em 1875, da autoria de Pinho Leal, quando este refere que “São justamente famosos os presuntos de Melgaço, e do seu concelho, e se exportam em grande quantidade, para todo o reino e para o Brasil.
A comprovar a fama do presunto de Melgaço no Brasil, encontramos, na publicação brasileira “Jornal do Agricultor”, em 1880, uma receita de presunto de fiambre. Diz-se na receita, que para obter o melhor resultado, devia-se utilizar presunto de Melgaço ou de origem galega acrescentando que ”devem-se preferir destas procedências porque não precisam ser demolhados, nem de temperos para ficarem gostosos”.
Ainda no século XIX, é o grande Ramalho Ortigão que faz alusão ao precioso manjar melgacense no seu livro “As Praias de Portugal”, publicado em 1876. Quando nos fala de um hotel em Vila do Conde, conta-nos que “o proprietário distrae a attenção dos forasteiros (…) servindo-lhe magnífico vinho verde, admiráveis presuntos de Melgaço, de primeira ordem,...”
O mesmo Ramalho Ortigão, no seu livro “As Farpas” (1882), escreve que “Todas as especialidades culinárias se anunciam em grandes doses: os paios de Castelo de Vide, os presuntos de Melgaço (…)”. Neste mesmo ano, um outro escritor, João Penha, na sua obra “Rimas” faz um canto aos presuntos de Melgaço. O mesmo autor em 1893, dedica novamente ao presunto melgacense um soneto no livro "Poetas Minhotos".
Em 1886, José Augusto Vieira na obra “O Minho Pitoresco” escreve “O Presunto de Melgaço! Que epopeia seria necessária para descrever-lhe o paladar fino e delicado, o aroma gratíssimo, a cor rosa escarlate, a frescura viçosa da fibra (...) o Presunto de Melgaço, conhecido em todo o país é por assim dizer a syntese da phisiologia local. Válido, robusto, ágil, com o sangue puro bem oxygenado a estalar-lhe nas bochechas rosadas, o melgacense genuíno destaca-se dos habitantes dos outros concelhos próximos, a ponto de ser entre estes vulgar a phrase de: - Ter a cara do Presunto de Melgaço - quando se falla de alguém com as boas cores de saúde (…) Apesar, porém, de todas as tuas deliciosas qualidades, ó apetitoso quadril suíno, força é esquecer-te, como a todas as cousas boas ou más d’este mundo(…)”.
No mesmo livro, o autor acrescenta “O presunto, aquele magnífico Presunto de Melgaço, cujas deliciosas qualidades te descrevi, leitor amigo, é especialmente curado em Fiães, onde o preparam sem sal, receita talvez d’algum monge epicurista...” De facto, o presunto fazia parte de um conjunto de produtos de fabrico doméstico que funcionavam como reserva alimentar e também como moeda de troca nas trocas comerciais. Já nos séculos passados, Melgaço mantinha uma relação muito estreita com a Galiza. José Augusto Vieira em 1886 dizia nas suas referências relativamente ao Presunto de Melgaço “(...) fazendo-se bastantes transacções com a Galiza, e exportando para todo o país os célebres presuntos e para os concelhos próximos algum vinho, lãs, cereais e castanha”.
Na viragem do século XIX para o século XX, a excelência do presunto de Melgaço mantém-se bem visível. Atentemos nesta notícia datada de 4 de Março de 1900 no jornal brasileiro “A Imprensa” onde se fala da presença do presunto de Melgaço na Exposição Universal de Paris. Na notícia, pode ler-se que ”O proprietário do Hotel Continental de Vigo e do Hotel Rio Minho, em Valença, pensa, de sociedade com um dos principais vinicultores e proprietários de Monsão, em instalarem restaurante durante a Exposição de Pariz, e no local onde já se encontra outras casas do género de differentes paízes, e onde serão servidas comidas minhotas, ou por outra, cosinhados minhotos, onde não faltará o presunto de Melgaço...”
Na década de 30 do século passado, a fama mantém-se como se atesta na referência no Anuário do Distrito de Viana do Castelo, Vol. I, em 1932 onde se pode ler relativamente ao concelho de Melgaço: “São afamados os presuntos, conhecidos no mercado sob a designação de Presunto de Melgaço”.
Em tempos menos recuados, continuamos a encontrar os merecidos elogios ao Presunto de Melgaço. Na publicação “Vida Mundial”, na sua edição de 20 de Maio de 1976, num artigo intitulado “Gastronomia Portuguesa” destaca de entre a gastronomia das várias regiões portuguesa, que “as carnes do Norte são magníficas, e por isso os enchidos são maravilhosas criações culinárias. O seu presunto de Melgaço, de Chaves e Montalegre, o seu salpicão e o seu fiambre, (...) são um prato digno dos deuses”.
Podíamos aqui colocar muitas mais referências que podemos encontrar em outros documentos em diversas épocas históricas. Os tempos mudaram ao longo dos séculos mas a sabedoria da saber produzir presuntos de excelência mantém-se intacta. Recentemente, estabelecimentos de restauração em Melgaço começaram a fazer constar nos seus menus a famosa e antiga receita dos “Bifes de Presunto de Melgaço”. Uma atitude inteligente, quanto a mim, já que, além de se contribuir para que não se perca esta receita ancestral, é um prato confecionado com um produto distintivo da nossa terra.






Fontes consultadas:
- “A Imprensa” , edição de 4 de Março de 1900;
- Anuário do Distrito de Viana do Castelo (1932), Vol. I, 1932, Empresa Gráfica do Notícias de Viana, Viana do Castelo;
- COSTA, Padre António Carvalho da (1706) - Corografia Portuguesa, tomo I, Valentim da Costa Deslandes, Lisboa;
- COSTA, Padre António Carvalho da (1868) - Corografia Portuguesa 2.ª Ed., tomo I, Typografia de Domingos Gonçalves Gouvea, offerecido A El Rey D. Pedro II;
- “Gazeta de Lisboa”, n.º 1, Janeiro de 1824, Lisboa;
- “Jornal do Agricultor”, edição de 3 de Março de 1880;
- “Jornal do Porto”, edição de 25 de Dezembro de 1869;
- LEAL, Augusto de Pinho (1875), Portugal Antigo e Moderno, Livraria Editora de Mattos & Companhia, Lisboa;
- MARQUES, José (1996) – Em torno do termo marrã. Revista da Faculdade de Letras da Universidade do Porto - História, Porto.
- ORTIGÃO, Ramalho (1876) – As Praias em Portugal. Magalhães & Moniz Editores; Livraria Universal, Porto.
- ORTIGÃO, Ramalho (1882) - As Farpas – o país e a sociedade Portuguesa, Tomo V, Livraria Clássica Editora, Lisboa;
- “O Panorama” (1841), Vol. V, Typografia da Sociedade, Lisboa;
- PENHA, João (1882) - Rimas, Avelino Fernandes e Cª Editores, Lisboa;
- RIGAUD, Lucas (1826) - O Cozinheiro Moderno ou Nova Arte de cozinhar. 5.ª edição, Typografia Lacerda, Lisboa;
- “Vida Mundial”, edição de 20 de Maio de 1976;
- VIEIRA, José Augusto (1886) - O Minho Pittoresco, Tomo I, Livraria de António Maria Pereira-Editor, Lisboa.

sexta-feira, 9 de novembro de 2018

Livro "Melgacenses na I Grande Guerra (e outras guerras do século XX)"



Domingo, dia 11 de Novembro de 2018, assinala-se um século sobre a assinatura do Armistício que punha fim à Primeira Grande Guerra, um conflito onde combateram dezenas de melgacenses e onde alguns deles tombaram em combate.
Da investigação de Joaquim A. Rocha e Valter Alves, nascerá, muito em breve, um livro onde os autores pretendem perpetuar a memória destes valentes combatentes filhos desta nossa terra. No prefácio desta obra, pode ler-se: “Foi há pouco mais de 100 anos que os primeiros soldados do contingente que Portugal enviou para combater em França na I Guerra Mundial chegaram à Flandres. Em África, já combatiam os alemães desde 1914.
Com base nos dados de que dispomos, de Melgaço, partiram para a Flandres, 73 homens, oriundos das diversas freguesias. Estes homens foram autenticamente “roubados” às suas vidas e obrigados a ir para uma guerra para a qual não estavam preparados. Paderne, com 14 homens, Penso, com 12 homens e Vila, com 14 homens são as freguesias melgacenses que mais contribuíram em termos de número de efetivos. Estes homens da nossa terra, feitos soldados, tinham todos à data do embarque, idades entre 22 e 27 anos completos (nascidos entre 1891 e 1895), à exceção dos oficiais que eram um pouco mais velhos.
Assim, entre Janeiro e Novembro de 1917, partiram estes homens do Cais de Alcântara, rumo ao porto de Brest (França) numa viagem de navio de vários dias. Daí seguiram de comboio até à zona sul da Flandres francesa perto de Armentières, nos vales dos rios Lys e Aire.
Depois de uma curta estadia em Brest, porto de desembarque das tropas portuguesas, seguia-se o transporte, de comboio, até à região de “Aire”, zona destinada às tropas do Corpo Expedicionário Português.
E foi num clima agreste, de neve, chuva e frio, língua e costumes tão diferentes dos seus, que estes homens da nossa terra e as tropas portuguesas tiveram de suportar mais de um mês de treino complementar, junto do exército britânico, para se poderem “familiarizar” com as armas inglesas com que iam combater e com as novas formas da guerra que iam conhecer de perto.
Na frente europeia, dos 73 homens naturais de Melgaço que partiram, 10 morreram caídos em combate ou devido a outras causas como doenças. O primeiro melgacense a morrer em combate foi o soldado António Alberto Dias, natural do lugar da Verdelha (Paderne) que faleceu a 9 de Outubro de 1917 na Flandres (França).
Quatro dos caídos em combate, faleceram durante a Batalha de La Lys (9 de Abril de 1918). Foram eles os soldados José Cerqueira Afonso, de Paços (Melgaço); José Narciso Pinto, de Chaviães; João José Pires, de Paços e o segundo sargento António José da Cunha, natural da freguesia da Santa Maria da Porta (Vila de Melgaço). O último pertencia ao 6.º Grupo de Baterias de Metralhadoras e os três primeiros eram soldados que pertenciam à 4ª Brigada de Infantaria do CEP, Regimento de Infantaria n.º 3 (Viana do Castelo). Esta era conhecida como a Brigada do Minho, a que pertenciam a grande maioria dos soldados melgacenses, e já tinha conquistado uma reputação de bravura na frente de batalha muito antes de lhe ser confiada, em Fevereiro de 1918, a defesa do sector de Fauquissart, em Laventie, na Flandres francesa, perto da fronteira com a Bélgica, onde ainda se encontrava nesse fatídico dia 9 de Abril de 1918, quando foi dizimada pelos alemães na dita batalha de La Lys.
Os soldados da Brigada do Minho tinham passado a noite de 8 para 9 de Abril a arrumar armamento, munições e outros equipamentos e seus pertences. Iam ser rendidos por batalhões ingleses no dia 9 e hoje em dia acredita-se que os alemães sabiam disso. Sabiam também que a infantaria portuguesa não estava preparada para aquela guerra e que tinham sido treinados à pressa numa falácia vendida pelo regime republicano que apelidaram de “Milagre de Tancos”. Os soldados de Melgaço e de outras regiões eram lavradores, pedreiros e de outros ofícios. Muitos deles nunca tinham saído da sua terra. A grande maioria nem sabia ler e escrever. Um soldado não se faz num par de meses. Esta batalha foi, por essas e outras razões, um dos maiores desastres de toda a História Militar portuguesa. No dia seguinte, chegara a hora de contabilizar as baixas: 398 mortos (369 praças e 29 oficiais) e uma esmagadora maioria de prisioneiros (6585, dos quais 6315 eram praças e 270 oficiais). Na 4ª Brigada de Infantaria, à qual pertenciam maioria dos melgacenses, as baixas situam-se em cerca de 60% entre mortos, feridos e prisioneiros. No Regimento de Infantaria 3 (Viana do Castelo), as baixas cifram-se em 570, de um total de 700 homens que estavam em posição naquela noite. Deste total de baixas, houve registos de 91 mortos (4 de Melgaço), 155 feridos, 7 desaparecidos e 317 soldados feitos prisioneiros. Deste total de prisioneiros de guerra, nove soldados eram melgacenses. Inicialmente, estes homens foram dados como “desaparecidos em combate” e esse facto foi comunicado às famílias. Vários meses mais tarde, após o fim da guerra, em Novembro de 1918, a Comissão dos Prisioneiros de Guerra, comunicou que estes homens se encontravam em campos de prisioneiros na Alemanha, pondo fim a meses de sofrimento dos soldados e das suas famílias que os julgavam mortos. Na realidade, estes melgacenses foram todos capturados durante a Batalha e levados para campos de prisioneiros na Alemanha. Eram eles os soldados Mário Afonso, de Santa Maria da Porta; António Fernandes, de Penso; Abílio Alves de Araújo, da Gave; Avelino Fernandes, de Alvaredo; António José Rodrigues, de Paderne; Inocêncio Augusto Carpinteiro, de S. Paio; Justino Pereira, de Cubalhão; António dos Reis, da Rua Direita (Santa Maria da Porta) e António Pires, de Rouças, tendo ficado dispersos por vários campos de prisioneiros na Alemanha.
Depois de La Lys, o C.E.P. não mais participou em operações militares relevantes ficando na dependência dos ingleses e relegado para tarefas secundárias.
Os que tombaram, repousam para sempre no Cemitério Militar Português de Richebourg l`Avoué (França). Os que regressaram, muitos deles voltaram com os traumas próprios de um conflito que a humanidade nunca tinha conhecido ou com os problemas de saúde que os acompanharam durante o resto das suas vidas.
Por tudo isto, estes homens foram heróis e merecem a nossa homenagem. Para que nunca sejam esquecidos!"

sábado, 11 de agosto de 2018

Melgacenses que combateram na Primeira Grande Guerra - Os Expedicionários das freguesias de Fiães, Paços, Cubalhão e Gave



Foi há pouco mais de 100 anos que os primeiros soldados do contingente que Portugal enviou para combater em França na I Guerra Mundial chegaram à Flandres.
Com base nos dados de que disponho, de Melgaço, partiram para a Flandres, 73 homens, oriundos das diversas freguesias. Estes homens foram autenticamente “roubados” às suas vidas e obrigados a ir para uma guerra para a qual não estavam preparados. Paderne, com 14 homens, Penso, com 12 homens e Vila, com 14 homens são as freguesias melgacenses que mais contribuíram em termos de número de efetivos. Porém, hoje homenageamos os soldados naturais de Fiães, Paços, Cubalhão e Gave. De cada uma destas freguesias, partiu um soldado para esta guerra horrenda. Eles foram João José Pires (lugar de Outeiro, Paços), Justino Pereira (lugar de Cima, Cubalhão), José Fernandes (lugar de Pousafoles, Fiães) e Abílio Alves de Araújo (lugar de Sobreira, Gave).


CUBALHÃO


1 - Justino Pereira, Soldado do Batalhão de Infantaria nº 3 (Viana do Castelo), 4.ª Brigada do Corpo Expedicionário Português (2ª Divisão).
Nasceu às seis horas da manhã do dia 17 de Junho de 1895, no lugar de Cima, da freguesia de Cubalhão, filho de António Pereira e Maria Esteves.
À data da sua partida para a guerra, encontrava-se solteiro e era morador no referido lugar de Cima da freguesia de Cubalhão, neste concelho de Melgaço.
Embarcou em Lisboa, no Cais de Alcântara, com destino a França em 15 de Abril de 1917 integrado no Corpo Expedicionário Português, onde pertenceu à célebre Brigada do Minho, portador da chapa de identificação nº 49 544.
Esteve envolvido na Batalha de La Lys, integrado na 4ª Brigada de Infantaria do Corpo Expedicionário Português em 9 de Abril de 1918. Nesse dia, foi dado como desaparecido em combate nessa mesma batalha. Contudo, posteriormente, por comunicação da Comissão de Prisioneiros de Guerra, soube-se que tinha sido feito prisioneiro pelos alemães durante a referida batalha e levado para o Campo de Prisioneiros de Merseburg (Alemanha), que se localiza a cerca de 150 Kms a noroeste da cidade de Dresden, onde ainda se encontrava em 20 de Novembro de 1918. Depois de finalizar o conflito em Novembro de 1918, foi libertado e embarcou em porto desconhecido no dia 28 de Dezembro de 1918, tendo desembarcado em Lisboa, no Cais de Alcântara, no dia 3 de Janeiro de 1919.
Após regressar da guerra, viria a casar com Maria Alves, natural da freguesia de Cristoval, concelho de Melgaço, no dia 14 de Abril de 1919.
Viria a falecer às 12 horas do dia 12 de Março de 1959, na freguesia de Cristoval, neste concelho de Melgaço.


FIÂES


1 – José Fernandes, 2º Sargento do Regimento de Cavalaria 11, 1º Esquadrão.
Nasceu às três horas da tarde do dia 9 de Maio de 1894, filho de Manuel José Fernandes e Maria do Carmo Domingues, natural do lugar de Pousafoles, freguesia de Santa Maria de Fiães, concelho de Melgaço.
À época de partida para a guerra, encontrava-se solteiro e era morador no dito lugar de Pousafoles, da freguesia melgacense de Fiães.
Embarcou em Lisboa, no Cais de Alcântara, com destino a França em 20 de Janeiro de 1917, integrado no Corpo Expedicionário Português.
Não conhecemos muito do percurso deste soldado durante a guerra. Já no cenário de guerra em França, em 8 de Julho de 1917, integrou uma diligência à 2ª Secção do Trem Divisionário, onde ainda se encontrava adido no dia 29 de Novembro desse mesmo ano. Em 8 de Dezembro de 1917, por ordem do comando da 2ª Divisão do Corpo Expedicionário Português, foi apresentar-se na sua unidade que à data era o 1º Grupo de Metralhadoras.
Sabemos que passou ao Depósito de Pessoal de Metralhadores Pesadas em 4 de Maio de Maio de 1918 “por ter sido suprimido o 1º Grupo de Metralhadoras”, unidade em que estava integrado à data.
Em 20 de Junho de 1918, baixa ao hospital, tendo tido alta no dia 30 do mesmo mês. No dia seguinte, a 1 de Julho, seguiu para o 3º grupo de Metralhadoras, unidade em que permaneceu até ao dia 10 de Setembro. Nesse dia, foi transferido para o Depósito de Infantaria.
Sobreviveu à guerra, tendo embarcado no Porto de Cherbourg (França) com destino a Portugal e desembarcado em Lisboa, no Cais de Alcântara, em 10 de Setembro de 1918.
Após regressar da guerra, viria a casar em Lisboa com Maria da Soledade no dia 7 de Julho de 1935.
Viria a falecer no dia 20 de Fevereiro de 1975, na freguesia da Lapa, cidade e concelho de Lisboa.


PAÇOS


1 - João José Pires, soldado do Batalhão de Infantaria nº 3 (Viana do Castelo), 4.ª Brigada do Corpo Expedicionário Português (2ª Divisão).
Nasceu às duas horas da tarde do dia 28 de Abril de 1895 no lugar do Outeiro, na freguesia de Santa Maria de Paços, filho de José Joaquim Pires e de Alexandrina Pires.
À época da sua partida para a guerra, encontrava-se solteiro e era morador no dito lugar do Outeiro, na freguesia de Paços.
Embarcou em Lisboa, no Cais de Alcântara, com destino a França, integrado no Corpo Expedicionário Português a 15 de Abril de 1917, onde pertenceu à célebre Brigada do Minho.
Dispomos de poucas informações quanto ao percurso militar deste soldado durante o conflito. Já no cenário de guerra, na Flandres (França), sabemos que baixou ao Hospital de Sangue nº 1 em 17 de Agosto de 1917.
Combateu na Batalha de La Lys a 9 de Abril de 1918. Foi dado inicialmente como desaparecido durante as hostilidades, tendo sido, mais tarde, dado como morto em combate na referida batalha no dia antes citado.
Encontra-se sepultado no Cemitério de Richebourg l`Avoué (França), Talhão C, Fila 10, Coval 5.


CUBALHÃO


1 - Justino Pereira, Soldado do Batalhão de Infantaria nº 3 (Viana do Castelo), 4.ª Brigada do Corpo Expedicionário Português (2ª Divisão).
Nasceu às seis horas da manhã do dia 17 de Junho de 1895, no lugar de Cima, da freguesia de Cubalhão, filho de António Pereira e Maria Esteves.
À data da sua partida para a guerra, encontrava-se solteiro e era morador no referido lugar de Cima da freguesia de Cubalhão, neste concelho de Melgaço.
Embarcou em Lisboa, no Cais de Alcântara, com destino a França em 15 de Abril de 1917 integrado no Corpo Expedicionário Português, onde pertenceu à célebre Brigada do Minho, portador da chapa de identificação nº 49 544.
Esteve envolvido na Batalha de La Lys, integrado na 4ª Brigada de Infantaria do Corpo Expedicionário Português em 9 de Abril de 1918. Nesse dia, foi dado como desaparecido em combate nessa mesma batalha. Contudo, posteriormente, por comunicação da Comissão de Prisioneiros de Guerra, soube-se que tinha sido feito prisioneiro pelos alemães durante a referida batalha e levado para o Campo de Prisioneiros de Merseburg (Alemanha), que se localiza a cerca de 150 Kms a noroeste da cidade de Dresden, onde ainda se encontrava em 20 de Novembro de 1918. Depois de finalizar o conflito em Novembro de 1918, foi libertado e embarcou em porto desconhecido no dia 28 de Dezembro de 1918, tendo desembarcado em Lisboa, no Cais de Alcântara, no dia 3 de Janeiro de 1919.
Após regressar da guerra, viria a casar com Maria Alves, natural da freguesia de Cristoval, concelho de Melgaço, no dia 14 de Abril de 1919.
Viria a falecer às 12 horas do dia 12 de Março de 1959, na freguesia de Cristoval, neste concelho de Melgaço.


GAVE


1 - Abílio Alves de Araújo, 1º Cabo  do Regimento de Infantaria nº 29, 4ª Brigada de Infantaria (Brigada do Minho), 2ª Divisão do CEP.
Nasceu às dez horas do dia 12 de Julho de 1897 no lugar de Sobreira, freguesia da Gave, filho de João Manuel de Araújo e Maria Joaquina Alves. À data da sua partida para a guerra, encontrava-se solteiro e era morador na freguesia de Oliveira, no concelho de Arcos de Valdevez.
Embarcou para França em 22 Abril de 1917, integrado no Corpo Expedicionário Português, portador da chapa de identificação nº 46 998, onde pertenceu à célebre Brigada do Minho.
Combateu na batalha de La Lys no dia 9 de Abril de 1918, onde é dado como desaparecido em combate. Posteriormente, por comunicação da Comissão de Prisioneiros de Guerra, verificou-se que constava entre aqueles que tinham sido feitos prisioneiros pelos alemães. Dali foi levado para o Campo de Prisioneiros de Friedrichsfeld (Alemanha).
Depois do fim da guerra, o soldado Abílio de Araújo foi libertado e embarcou no navio inglês "Northwestern Miller", na Holanda, em 31 de Janeiro de 1919, tendo desembarcado em Lisboa, no Cais de Alcântara, de 4 de Fevereiro de 1919.
Após regressar da guerra, viria a casar com Amélia da Conceição Guerra em Ponte de Lima no dia 18 de Fevereiro de 1920.
Viria a falecer em Arcos de Valdevez (Salvador) no dia 12 de Abril de 1989.

sábado, 12 de agosto de 2017

A densa rede de Postos da Guarda Fiscal em Melgaço em fotos



Melgaço é um dos concelhos portugueses com maior proporção de linha de fronteira: três quintos do território confinam com a Galiza, num percurso que se estende por 61 Km’s: 22 Km’s de fronteira terrestre e 39 de fronteira (incluindo os 19 Km’s correspondentes ao rio Minho). O traçado e a extensão da linha de fronteira, associados à intensidade e à diversidade do contrabando e da emigração clandestina, justificam que Melgaço tivesse a maior secção da Guarda Fiscal de todo o Vale do Minho. Em 1961, serviam, neste concelho, 2 sargentos, 16 cabos e 74 soldados distribuídos por 17 postos. (GONÇALVES, A., 2004). Nenhum outro concelho da região tinha a sua fronteira tão vigiada.
Os Postos da Guarda Fiscal estavam repartidos pelas várias freguesias com linha de fronteira: na freguesia de Castro Laboreiro (Ribeiro de Cima, Ribeiro de Baixo, Portelinha, Vila e Ameijoeira); na freguesia de Cristoval (Ponte Velha, Cevide e S. Gregório); na freguesia de Santa Maria da Porta, Vila (Posto da secção de Melgaço); na freguesia de Fiães (Pousafoles); na freguesia de Lamas de Mouro (Alcobaça); na freguesia de Paços (Porto Paços); na freguesia de Penso (Paranhão); na freguesia de Alvaredo (S. Martinho); na freguesia de Alvaredo (S. Martinho); na freguesia de Fiães (Portocarreiro); na freguesia de Remoães (Mourentão); na freguesia de Prado (Prado). Esta densa rede de postos procuraram durante décadas controlar o contrabando e as  migrações ilegais na raia. 
Apresentamos um conjunto de fotografias dos vários antigos Postos da Guarda Fiscal no nosso concelho. As fotos têm, na sua maioria, cerca de 25/30 anos. Um importante património que não deve ser esquecido. Faz parte da História da nossa terra...

Posto da Guarda Fiscal de Ameijoeira (Castro Laboreiro - Melgaço)
Posto da Guarda Fiscal de Portelinha (Castro Laboreiro - Melgaço)

Posto da Guarda Fiscal de Castro Castro Laboreiro (Melgaço)

Posto da Guarda Fiscal de Alcobaça (Lamas de Mouro - Melgaço)


Posto da Guarda Fiscal de Portocarreiro (Fiães - Melgaço)



Caseta da Guarda Fiscal de S. Gregório (Cristoval - Melgaço)


Posto da Guarda Fiscal de S. Gregório - Ponte Velha (Cristoval - Melgaço)


Posto da Guarda Fiscal de Cevide (Cristóval - Melgaço)
Posto da Guarda Fiscal de S. Gregório (Cristoval - Melgaço)
Posto da Guarda Fiscal de Porto Paços (Paços - Melgaço)

Posto da Secção da Guarda Fiscal de Melgaço (Vila)

Posto da Guarda Fiscal do Peso (Paderne - Melgaço)
Posto da Guarda Fiscal de S. Martinho (Alvaredo - Melgaço)

Posto da Guarda Fiscal de Paranhão (Penso - Melgaço)

Informações extraídas de: GONÇALVES, Albertino (ano desconhecido) - Caminhos de inquietude: A organização do contrabando no concelho de Melgaço. O Miño, uma corrente de memória.
Fotos (fonte): http://guardafiscal.org