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sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Visitando Castro Laboreiro há 130 anos (Parte II)

Ruínas do Castelo de Castro Laboreiro

Na viagem a terras de Castro Laboreiro contada por José Augusto Vieira no livro “O Minho Pitoresco”, há 130 anos, este sobe ao castelo e contempla os belíssimos pormenores deste cenário. O autor conta que “Chegados à base do gigantesco morro, o Almeida fez o esboço e nós enchemo-nos entretanto de coragem para fazer a ascensão dessa mole de granito, ameaçadora e bruta, que quase a prumo se erguia sobre as nossas cabeças.
Era pela chamada porta do Sapo, a do norte, mal distinta na nossa gravura, que teríamos de penetrar no castelo; para lá chegar porém, necessário era subir uns estreitíssimos degraus abertos na rocha viva, o que fizemos com a agilidade de que disporiam valentes animais trepadores, lutando ainda contra o frigidíssimo vento que nos açoitava,  ameaçando a cada momento desequilibrar-nos.
Chegados acima, uma sensação de terror nos gelou a medula. Entre nós e a porta, uma pequena rocha estreita, de poucos decímetros de largura, era a única passagem a transpor, e essa passagem dava sobre um abismo que media aproximadamente 500 metros de alto.
Bastava o escorregar dum pé, um ligeiro desequilíbrio, um nervosismo impertinente para nos fazer conhecer essa distância respeitosa, ao fim da qual a morte seria a consequência indubitável.
Retroceder seria, além de pouco praticável, uma verdadeira nódoa nos nossos brios de excursionistas! Avançámos, pois, e soltámos um  profundíssimo AH! de satisfação e alívio, quando transpozemos essa porta, que para nós representava a realização dum desejo e a certeza da salvação dum perigo tão próximo!
Os escritos, que temos lido sobre Castro, dizem que essa porta é estreita e fazem-a quase uma fresta que se torna necessário atravessar de rastos. Não é verdade isto. Um homem a pé passa por ela perfeitamente à vontade, e onde o rastejar é quase uma necessidade, é apenas na tal passagem a que nos referimos.
O castelo, que o povo atribui aos mouros, é evidentemente construção romana. Dentro encontram-se ainda vestígios de quartéis e há igualmente um poço, que os antigos dizem ter possuído agua nativa. Os muros atuais, arruinados bastante, são baixos e como que apenas coroam o castelo natural da penedia. Duas portas dão entrada para este recinto: a do norte por onde penetrámos, e a do sul, de acesso um pouco mais fácil, mas ainda assim perigoso.
O aspeto da paisagem é triste e árido. A penedia rendilha todas as montanhas e desponta por todas as encostas, tomando as formas mais variadas e mais caprichosas.
No inverno um lençol de neve cobre o seu dorso escuro e pardacento, no verão apenas destaca do desolado da rocha um ou outro talho de centeio verde-amarelado e os vidoeiros que se erguem no fundo do vale estreito, como sentinelas perdidas do grande exercito vegetal. Os carvalhos não passam de raquíticos arbustos e servem, assim como as
giestas, apenas para lenha. Nem uma única árvore de fruto, nem o mesmo pinheiro bravo se divisa num ponto único da serra. Apesar de ser verão, o céu era brumoso, com uma ou outra nódoa de azul esparsa na cúpula celeste. Renques de neblina corriam dos lados da Peneda, quebrando-se em vapor húmido contra as arestas das rochas e contra os muros do crasto. No fundo, o ribeiro Fraguedo serpenteia, como ondeante cobra, indo perder-se além, entre as serras de Lindoso, que deste ponto se avistam, para confluir no Lima. Foi sobre as margens deste regato que seguiu a pé D. Fr. Bartholomeu dos Martyres, quando visitou esta isolada freguesia da sua diocese.
A vol d'oiseau ficam-nos à esquerda as Inverneiras, escondidas numa profunda garganta, e à direita a vila de Castro Laboreiro, de lápis, penhasco, constituída pela aglomeração de choupanas cobertas de giestas e colmo, de entre as quais apenas a igreja e uma ou outra casa destacam os seus telhados negros e paredes esfumadas.
A igreja foi primitivamente vigararia da matriz de Ponte de Lima, depois abadia do bispo de Tuy, que João Fernandes Sotto Maior trocou em 1 308 com o nosso rei D. Dinis.
A vila tinha foral velho dado por Afonso III em Lisboa em 1271, e D. Manuel lhe deu outro em 1513, dando-lhe neste foral o nome de Castro Laboreiro.
Vários réis concederam aos castrejos muitos privilégios, que D. João V confirmou, e entre estes o de se não fazerem aqui soldados.
A fundação de Castro atribui-se a S. Rosendo, neto de Hermenegildo, a quem D. Affonso III doou estas terras de Lima, como prémio de ter vencido o conde Witiza, senhor destes lugares e que se revoltara contra ele. Hoje a vila está anexada à comarca e concelho de Melgaço e não haveria realmente fundamento para a considerar com os antigos privilégios, visto ser uma povoação decadente e miserável.
— Só por desgraça é que a gente vive aqui, meu senhor — dizia-me uma pobre mulher castreja, com quem conversávamos,— ainda se o governo nos fizesse a esmolinha de mandar para cá uma estrada!
A terra é fria e pouco fértil. As aguas duma deliciosa leveza e frígidas de neve. No inverno os castrejos, principalmente os de serra acima, abandonam as povoações do alto e recolhem às suas choças no fundo dos vales, as inverneiras, para as quais transportam o seu limitado trém de cozinha, os instrumentos do trabalho, as roupas e os gados. Chegada a Primavera deixam as suas casas de inverno e voltam para as do alto.
Nos fins de S. Miguel, os homens robustos e validos emigram para o Douro e Beiras, onde vão fazer paredes nos matos e campos. Chamam-lhes nessas províncias os tapisas ou tapúas. Ficam apenas as mulheres, os velhos e as crianças.
— Não há quem deite a mão a qualquer coisa, senhor.
— Se acontece de a neve entulhar as portas dos currais, mal nos avímos (havemos) para poder tirar o gadinho.
Qualquer homem que não siga o destino dos outros e que se deixe ficar na povoação, o que é raro, é considerado desprezado e as mulheres evitam-o sempre, não o atendendo as raparigas nos seus requestos, visto ser um calaceiro e não dar boas garantias de marido trabalhador.
No mês de Junho regressam aos seus lares e fazem os trabalhos agrícolas da colheita do centeio e batata, a apanha das lenhas e dos matos para as cortes dos gados, compram ou vendem nas feiras algum animal, concertam as choupanas, e, quando o inverno chega, depois de deixarem
feitas as sementeiras do centeio barrozo, emigram novamente. A cultura desta gramínea é feita roubando à serra pequenos canteiros de esteva por meio do incêndio; chamam a isto uma lavoura e é nesse rescaldo adubado pelas cinzas vegetais, que, depois de lavrado, se lança a semente. Nenhuma curiosidade oferecem os seus outros trabalhos agrícolas. Neles, como em quase todo o Minho, o auxilio mútuo é quase um princípio tradicional. Assim nas malhadas, por exemplo, os jornais não se pagam a dinheiro e são os vizinhos que reciprocamente se ajudam.”

::::::::::::::::::::CONTINUA::::::::::::::::::::

Para ler a PARTE I, CLIQUE AQUI

Extraído de: 
- VIEIRA, José Augusto (1886) - O Minho Pittoresco, tomo I, edição da livraria de António Maria Pereira - Editor, Lisboa.

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Visitando Castro Laboreiro há 130 anos (Parte I)

Castro Laboreiro (Melgaço), início do século XX

Há cerca de 130 anos, José Augusto Vieira, autor do livro "O Minho Pitoresco" percorreu alguns caminhos das terras de Melgaço. Subindo por Fiães e Alcobaça, foi conhecer Castro Laboreiro. Deixa-nos no livro as suas impressões e deixa-se impressionar com os usos e os costumes das gentes castrejas, deixando contudo transparecer algum choque com algumas particularidades. Ora leia: "Retrocendo pelo caminho andado eis-nos de novo junto de Alcobaça e desta vez em direcção seguida para Castro Laboreiro.
O rio Trancoso esgotou-se já e a raia seca principia, delimitada de distância em distância por uns marcos quadrilongos de granito. Que impressão fez em nós essa pedra humilde, colocada entre as estevas da serra, ao mesmo tempo espanhola e portuguesa!
A raia líquida parece ainda uma separação natural. A gente compreende a sua independência. O nosso pensamento como que vai formulando a frase: De cá nós! De lá vós!
Mas quando essa fronteira natural termina, e quando em plena serra se encontra apenas um ou outro marco colocado pela mão do homem, sem que a vegetação se diferencie, ou sem que a paisagem seja diversa, o espirito mal pode seguir essa linha ideal de separação, e como que desejaria que aquele curso de água, ainda há pouco tão humilde, tivesse continuado a acompanhar-nos para murmurar a cada passo, na voz ciciante da sua corrente, a palavra patriótica de Independência.
Além está Castro!— apontou-nos o guia— aquillo é o castelo!
Estávamos num alto. A vegetação luxuriosa do Minho era para nós um sonho já. Nem uma árvore de fruto, nem uma pequena mata de pinheiros. O cavallo era raquíitico, um metro apenas de altura, as urzes estendiam-se por toda a parte, onde as fragas lhe não impediam o desenvolvimento.
Penedos caprichosos, aglomerações graníticas de formas fantásticas à direita e à esquerda, em frente de nós e pela rectaguarda. Uma verdadeira garganta de granito. E lá ao fundo, como um vulto sombrio, o castelo de Castro, eriçado nas suas arestas agudas.
A paisagem melancólica, o céu brumoso, a pedra aflorando por toda a parte, um ou outro boisinho barrozão equilibrando-se por entre as
estevas! Nem o gorgeio duma ave, nem o cântico panteísta da água corrente.
Atravessamos a Portelinha, cujas casas são já como as de Castro cobertas pelo colmo e giesta e depois, num piso mais regular, em dois ou três quilómetros de vale, serpenteado por um riacho, em cuja margem apenas os vidoeiros vegetam, alcançamos as primeiras casas de CASTRO LABOREIRO, da vila, como nos indicou orgulhosamente o primeiro castrejo que encontrámos.
A nossa casa de refugio foi o posto fiscal. Graças à obsequiosidade desses humildes funcionários, ali desterrados, conseguimos alojar os animais e relacionarmo-nos com aquela pobre gente semi-selvagem e desconfiada, que nos olhava como a personagens raros e curiosos, e que se perguntava uma á outra— o que iríamos nós ali fazer — como se gente civilizada não visitara a sua terra, senão para atentar contra alguma imunidade local.
 O tempo urgia e enquanto João d'Almeida, o desenhador destas páginas, se curvava sobre o seu álbum para apanhar um grupo de crianças e duas ou três raparigas que se prestaram a poser rodeado pelos mirones que afluíam em volta do seu banco de trabalho e dos seus lápis coloridos, eu estudava o interior duma daquelas cubatas, onde o fumo quase me asfixiou a princípio e conversava com uma pobre mulher doente, coberta com o seu manto de burel, sentada ao lar, onde se aconchegava com fortes calafrios de febre.
Nada mais sórdido que um desses interiores de Castro e nada mais humilde também! Num ângulo da parede, quase sempre uma rocha viva, forma-se o leito, o mais económica e singelamente que é possível; dois barrotes de madeira unidos entre si em ângulo recto, formam com as paredes um quadrilátero, sobre que ele assenta. A um desses barrotes está apenso um banco, ao outro um quadrado que serve de guarda-roupa, formando tudo como que uma só peça inteiriça, de que a gravura dá uma ideia bem clara.
Nesses leitos não havia lençóis! É um luxo de civilização, que o castrejo ainda não conhece. As mantas grosseiras de burel constituem as únicas roupas, com que se cobre! A um dos lados, numa cova aberta na terra, está o lar, à volta do qual ficam os escabelos, em que a família se senta para conversar ou comer. Como os tectos são de colmo ou giesta e não há tiragem por meio de chaminés, usam, para evitar os incêndios, alguns ramos interpostos entre o fogo e o tecto, que recebem as primeiras faíscas de lume, onde ordinariamente se convertem em fuligem, e que rapidamente são retirados, se acontece de incendiarem-se.
Anexo a este interior, o que há de mais sórdido, de mais negro pelo fumo, e de mais anti-higiénico, ficam as cortes para os gados. A castreja, com quem conversávamos, assim como todas as que se relacionaram connosco, era de trato afável e simples, modesta e com uma fisionomia expressiva. Em todos encontrámos uma regularidade de traços, formando um conjunto agradável e simpático, repelente apenas pela porcaria, que era principio estabelecido e comum. O vestuário é grosseiro, burel oupicoto, segundo o termo local e tecido ali mesmo. As de Alcobaça são, como já vimos, as melhores tecedeiras, e nesta localidade usa-se por isso a roupa branca nas camas.
O nosso cromo dá uma ideia exacta do costume, cujas peças mais originaes são a monteia, espécie de lenço para a cabeça, o colete, o manteu largo deitado desde os hombros até aos joelhos, as piugas e os tamancos, que dão à castreja a pequenez do pé, como acontece na China com os borzeguins das altas damas. Chamam-lhe na linguagem local alabardeiros e deles dá uma ideia exata a nossa gravura de texto.
Perguntámos por industria local. Não havia senão a da cultura da terra nas proporções miseráveis que logo veremos.
— E manteiga não fabricam?
——Isso, sim senhor, mas só nas povoações do alto.
——Boa?
— Bonita e fresca, como olho de galo— respondeu-me em imagem  pitoresca e viva.
— E o pão, como fabricam vocês o pão?
— É com centeio e algum milho. As mulheres amassam em casa, fazem as bolas e levam-nas depois para casa do padeiro.
Pedimos para ver uma. Eram de forma mamilar, e grosseiro o seu fabrico. Depois de amassadas, colocam-as numa tábua e conduzem-as à cabeça para a casa do forno, que é comum à povoação, concorrendo todos para o seu concerto, quando disso ele necessita.
Além destas broas, fazem ainda no rescaldo do lar uns bolos, que servem enquanto não chega o pão do forno. Almeida tirara já os seus croquis e eu desejava mais tempo para os meus. Precisávamos, porém, dum esboceto do castello e roía-nos o desejo de visitar essa velha ruína da civilização romana, que tínhamos a uns 500 metros da povoação. A tarde avançava e o nosso estômago principiava a revelar umas certas impaciências pelo abandono a que o votávamos.
O grito geral era, porém, -Ao castelo! - e força foi que por esta vez o estômago condescendesse…"


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Extraído de: 
VIEIRA, José Augusto (1886) - O Minho Pittoresco, tomo I, edição da livraria de António Maria Pereira - Editor, Lisboa.

sexta-feira, 8 de julho de 2016

Melgaço no tempo dos nossos antepassados

Praça do Comércio, na vila de Melgaço em finais do século XIX
No livro “O Minho Pittoresco” de 1886, o autor dedica longas páginas ao nosso concelho e conta-nos como era a nossa terra nessa época. Começa por nos descrever a vila nestas palavras: “Um velho burgo feudal, que se transforma, à força de desejar a luz fecundíssima da civilização. Aquela torre de menagem, erguida como recordação do passado no meio das muralhas em ruína e das casarias, que afloram à cor do branco, tem ainda um aspecto de rude tristeza selvagem. É triste, e é forte, como um antigo guerreiro da Lusitânia. Olhando para essa fita de macadam que lhe chega do sul,e para essas tiras d'aço da via férrea, que vê desenrolar-se na margem galega, dir-se-ia que ela sonha talvez com as escaladas noturnas, as lutas peito a peito, os combates singulares da idade medieval, o cintilar coruscante das armaduras dos guerreiros.
E contudo, quando avistamos de longe o seu vulto sombrio e glorioso, erguendo-se altivo por sobre a povoação, a nossa pupila fixa um ponto branco nas suas ameias, como bandeira de paz, que substituiu os estandartes da guerra. É um marco geodésico, — verificamos quando chegamos perto, — isto é, um padrão que atesta o trabalho moderno da ciência, mas que os ângulos da torre sustentam, sem manifesto ciúme do seu passado de lutas.
E eis aí o que é Melgaço: — a vontade firme de progredir com o desejo de conservar as suas tradições honrosas, de que essa torre, melhor que nenhum outro monumento, representa o símbolo aos olhos dos contemporâneos.
Colocada no centro dum anfiteatro de verdura, onde a vinha enche com a sua cor de esmeralda clara quase todas as bancadas, desse lugar avistam-se as freguesias do concelho, que se estendem pela ribeira Minho e cujos campanários recortam, com as suas arestas pitorescas, a espessura dos arvoredos. Ao sul, a montanha como que nos dá ainda a sua sombra fresca. E em baixo, ao norte, na garganta das colinas, o Minho vai açodado, espelhando apenas um ou outro sorriso, quando vê na margem um esboço de planície a namora-lo com a sua inclinação de leito suave, que o convida a descansar um pouco.
A encosta galega com as suas vinhas, as suas árvores, os seus casais, as suas torres desmoronadas e vicejantes de hera, o anil recortado do alto das suas montanhas sucedendo-se em gradações insensíveis, completa a paisagem, tão bela nas suas linhas simples, tão formosa na sua melancolia fugitiva.
De fundação antiquíssima, Melgaço, ignora-se quem fosse o seu primeiro fundador e qual fosse também o seu primeiro nome. Sabe-se apenas que os árabes, se não os romanos, tiveram aqui uma fortaleza considerável, chamada o Castelo do Minho, que era já ruínas no tempo do conde D. Henrique.
Modernamente, a sua fundação é coeva do principio da monarquia portuguesa e foi Afonso Henriques que a ela procedeu, em 1170, como se vê duma inscrição na porta do norte da actual muralha, sendo todavia a torre e fortaleza mandadas edificar por D. Pedro Pires, prior do mosteiro dos crúzios de Longos Vales, e à sua custa, como diz D. Sancho I na carta de couto que deu ao convento em 1197.
D. Diniz enobreceu também Melgaço com a cinta de muralhas, de que hoje ainda se encontram os vestígios e que eram de pouco mais de dois metros de altura. O primeiro foral foi dado à vila por D. Afonso Henriques em 1181, dando já então aos seus moradores a aldeia de Chaviães. Este foral foi, em S. Tiago, confirmado por D. Afonso II em Agosto de 1219. E, pela segunda vez, em Guimarães por D. Afonso III a 9 de Fevereiro de 1261. Este mesmo rei lhe concedeu ainda outro foral, em Braga, a 29 de Abril de 1258 e novo foral lhe deu mais tarde em Lisboa D. Manuel a 3 de Novembro de 1513.
A vila actual entra decididamente no caminho da civilização. A estrada, que a liga a Monção e Valença, é hoje a sua principal artéria, mas os melgacenses desejam ainda, e com justiça, que as povoações que lhe ficam mais a norte como são S. Gregório, por um lado, e Castro Laboreiro, pelo outro, comunguem igualmente no grande banquete de progresso e luz, a que têm direito. Pobres parias os tristes filhos da serra, para chegar aos quais urge atravessar as mais desabridas montanhas, por caminhos intransitáveis, espiados pelos olhares cubiçosos dos lobos, que são os únicos guardas campestres daqueles solitários terrenos.

Melgaço possui um hospital em condições muito regulares e há pouco tempo também concluiu o seu cemitério. A linha telegráfica foi inaugurada no meio do maior regozijo em Novembro de 1874. Compreendia o antigo e glorioso burgo a importância dessa via de comunicação, que o relacionava com o mundo inteiro.” (Extraído de:
- VIEIRA, José Augusto (1886) - O Minho Pittoresco, tomo I, Edição da livraria de António Maria Pereira- Editor, Lisboa.)

sábado, 10 de outubro de 2015

Pelos caminhos de Rouças, em finais do séc. XIX

Igreja de Roussas (Melgaço)
(Fonte: coxo-melgaco.blogspot.com)

Em finais do século XIX, José Augusto Vieira, autor da obra "O Minho PIttoresco", percorreu os caminhos de Melgaço e perpetuou as sua impressões neste livro. Andou pelos caminhos da freguesia de Rouças e deixou-nos estas palavras que aqui transcrevo: 
"Eram meus companheiros de excursão João de Almeida, o artista que ilustra o maior número das páginas deste livro e Abel Seixas, aspirante da alfândega de Viana, então licenciado e conhecedor prático da localidade, porque na delegação de Melgaço havia feito serviço.
O guia, calçado com os grossos tamancos, cujo specimen se encontra na gravura de texto, ia secundado por um valente rapazito, que teve a audácia de aguentar a pé a ida e a volta, para se não separar do cavalito rinchão que nos havia alugado.

Tamancos da época (Melgaço, 1886)

O dia, não obstante estarmos em pleno verão, apresentara-se um pouco fresco, o que nos animava à longa caminhada através das aspereza da serra.
— Três léguas,— nos dizia o guia, que tínhamos a percorrer, mas se tu sabes, leitor, o que são as antigas léguas da província, podes bem calcular, que teríamos pelo menos na nossa frente uma distancia de 25 kilómetros por detestáveis veredas!
A ascensão principia logo ao sair de Melgaço, amenizada na encosta pela frescura viçosa do arvoredo, árida e fatigante depois que se está em plena serra. Atravessamos o pitoresco lugar de Cavaleiros, onde existe a capela da Senhora das Dores, cuja festa se realiza em setembro, e que domina um pequeno mas formoso vale, e assim vamos caminhando, levando à esquerda a montanha, e à direita os pequenos tabuleiros arrelvados, que descem até ao regato de Souto dos Loiros, sobre cujas margens se levantam frondosos soutos de castanheiros. Passamos em Cabana e vemos na baixa as pastagens de Lobiô, dum verde esmeralda macio e tenro.
Estes lugares pertencem a ROUSSAS, cuja paroquial igreja nos fica à direita. Roussas era padroado da antiga casa do Paço de Roussas e no lugar — chamado do Paço — se vêem ainda as ruínas do antiquíssimo edifício, em parte ainda hoje habitado. Este padroado passou depois para Manuel Pereira (o mil-homens) de Monção e o solar para os Castros de Melgaço, e mais tarde para os arcebispos de Braga.
O território da freguesia abrange 7 Kms de comprido por 5 Kms de largo, estendendo-se desde a encosta oeste da serra de Pernidelo até junto das muralhas de Melgaço, cujas primeiras casas lhe pertencem. Os seus vales são fertilíssimos e é precioso o seu vinho verde de Barreiras e Vale de Cavaleiros, em nada inferior ao de Monção. Nesta freguesia e sobranceira à vila, está a grande quinta, que foi do mosteiro de Fiães e que é uma belíssima vivenda.
A igreja matriz é uma das mais amplas do distrito, tem altar-mor e quatro laterais, sendo as imagens de boa escultura, especialmente a da Senhora da Soledade, de tamanho quase natural e oferecida à freguesia pela benemérita família Salgado, aqui residente. A torre é bastante elevada, com dois sinos. No coro, de espaço regular, existe um pequeno órgão.
Por uma inscrição em lápide existente na parede exterior da capela-mor se vê, que o templo foi fundado em 1690 pelo abade Braz d'Andrade Gama. O sítio é formoso, os horizontes largos, e na festa da padroeira, a 18 de julho, a romaria, concorridíssima de gente dos arredores e da Galiza, que à santa vem trazer grande número de ofertas para que os preserve de sezões, espalha-se alegremente pelo vasto terreiro ao sul da igreja, assombreado por castanheiros gigantes.
Além da capela que já mencionámos, Roussas tem ainda as seguintes: Santa Rita, em Vilela, com missa aos domingos e dias santificados. É publica. Nossa Senhora da Conceição, no Coto do Preto.Tem uma bem esculpida pedra d'armas sobre a porta principal. É particular. Santo António, no lugar da Corga, particular. João Baptista, no lugar do Fêxo, idem. Nossa Senhora da Graça, a poucos metros da antecedente é a melhor de todas, tanto pela sua posição eminente à vila,como pela magnifica pedra de cantaria de que é construída. Do monte, em que ela assenta, sai todo o granito para as construções dos arredores.
A ermida foi fundada em 1594 pelo abade Tristão de Castro em cumprimento d'um voto, cuja lenda é análoga à de D. Fuus Roupinho, pois há para assustar o cavaleiro e o cavalo um fantasma monstruoso, que faz desatinadamente correr o animal por soutos e ravinas, com grave risco da integridade anatómica do padre.

Serra acima, o horizonte é encantador para os lados de Melgaço e Galiza, e como que á vol d'oiseau se dominam as encostas e pequenos vales, onde os campanários destacam as suas agulhas brancas. O Minho corre em baixo, como serpente em voltas sinuosas. Para o norte, as serras de Galiza vão-se indistintamente fundindo no índigo esfumado da atmosfera. Dobramos a montanha, o horizonte largo desaparece e logo na encosta Vila de Conde, lugarejo pertencente a FIÃES, principia a dar o toque de melancolia às nossas impressões, até aí cheias do verde-claro da vegetação, dos sussurros da agua, do espelhar dos rios, do pitoresco das aldeias. Parece que entramos numa região inóspita e selvagem..."



Extraído de: 
VIEIRA, José Augusto (1886) - O Minho Pittoresco, tomo I, edição da livraria de António Maria Pereira - Editor, Lisboa.

sexta-feira, 26 de junho de 2015

O Convento de Fiães descrito em finais do século XIX

Igreja do Convento de Fiães

No livro "O Minho Pittoresco", o convento de Fiães é assim descrito: "O que, porém, tornou Fiães notável, foi o seu mosteiro, de que hoje só por assim dizer o templo atesta a munificência. Foi na volta de Castro Laboreiro, quando o luar espargia a sua melancolia doce  sobre a serra, que visitámos essa gigantesca ruína, testemunha coeva da antiga piedade cristã.
A arquitectura gótica pura revela-se clara nas formosas colunatas da entrada principal e nas arcarias elegantes que sustentam o tecto da igreja vasta e ampla, àquela hora fantasticamente iluminada pelos raios do luar, de dia naturalmente com a penumbra pálida dos velhos templos góticos.
As cornijas e cimalhas são ornadas de diferentes figuras mais ou menos fantasiosas. Junto do altar de S. Sebastião está o elegante túmulo de Fernão Annes de Lima, pai do primeiro visconde da Cerveira.
O mosteiro, de frades bentos a princípio, é antiquíssimo pois no tempo de Ramiro II e sua mulher Paterna, se encontra já noticia dele. Consta que era o mosteiro mais rico das Hespanhas. Tinha foros e rendas no Minho, Traz-os-Montes e Galiza. Na igreja, havia Lausperene, na rigorosa acepção da palavra, isto é, exposição ininterrupta do Sacramento durante o dia e noite; 80 religiosos de missa, além dos conversos, minoristas, etc, colmeavam o riquíssimo mosteiro, onde alguns príncipes infantes e muitos fidalgos galegos e portugueses tiveram sepultura, e a que fizeram doação de rendas e propriedades.
O primitivo edifício que em mais de três séculos existiu em grande prosperidade, foi destruído por um pavoroso incêndio, sendo depois reconstruído por Affonso Paes e mais seus dois irmãos, que o doaram aos religiosos de Alcobaça. Como no incêndio arderam todos os papeis do cartório, muitos foreiros sonegaram depois os seus títulos, sendo preciso que a energia de Álvaro d'Abreu arcasse com os mais poderosos para restituir essas rendas ao mosteiro.
Em 1151, a ordem passou a Bernardos, e, para se instruírem nos preceitos do novo instituto, mandaram buscar um religioso a Alcobaça, fundando, em honra da vila capital da ordem, o próximo lugar de Alcobaça, com a sua capela de S. Bento. O convento era coutado talvez do seu principio, pois já o nosso primeiro rei lho confirmou, assim como seu filho Sancho I.
O D. Abbade tinha jurisdição episcopal metropolitana com recurso somente para o Pontífice. O provisor, nomeado pelo D. Abbade, recebia directamente os breves apostólicos. O arcebispo de Braga não podia aqui fazer visitas, nem na Ourada de Melgaço e tão pouco o bispo de Tuy as podia fazer em Azoreira e Lapela, que, apesar de serem lugares do seu bispado, estavam sujeitas ao mosteiro, como ainda hoje o estão para os efeitos eclesiásticos, apesar de pertencerem à Galiza para os efeitos civis.
As quintas da Orada e Cavaleiros foram doadas em 1166 ao convento, sendo abade D. João, pela condessa D. Frovilla.
Ainda no fim do século XVI tinha, este convento a apresentação de vinte abadias, entre as quais Lamas de Mouro, Cristóval, Chaviães, Santa Maria da Porta da Vila e Vilela dos Arcos. Tinha também a de Paderne, na Galiza, e muitos coutos, que os comendatários aforaram a vários fidalgos.
A casa de Bragança pagava ao mosteiro um florim d'ouro pelas aldeias de Villarinho, Fezes de Juzão e Mondim e pelos padroados das igrejas destes lugares, próximo a Monte-Rei.
Na Galiza, tinha o couto de Freyxomo, junto de Alhariz, que ao mosteiro doara Fernão Peres, aqui falecido, e pelo qual recebia anualmente 600 maravedis de prata. Possuí ainda aí os coutos de Coginha, Asperello, Gancêros, Requeixo e Rio Frio, em Vigo, afora fazendas e granjas, dispersas em vários pontos.
O D. Abbade tinha, de direito de condado, todas as cabeças da caça real morta no couto; e os moradores deste eram isentos do pagamento de fintas ou pedidos, ainda mesmo feitos pelo rei.
Essa riqueza pródiga, que dera causa à afirmação popular de que nestes reinos ninguém, depois do rei, era mais rico que o D. Abbade de Fiães, foi-a pouco a pouco reduzindo o tempo, esse verme destruidor das grandes obras do Homem, e a indiferença, o abandono e o cepticismo do século completaram o aniquilamento do vetusto mosteiro, onde o incenso ardia noite e dia, os cânticos dos religiosos se misturavam continuamente ao som plangente do órgão, e o povo concorria nas tribulações cruciantes da sua fé e nos  regozijo íntimos da sua piedade.
Não somos nós, homem novo, que lamentamos esses tempos de santa e cândida ignorância, em que o trabalho era o látego do vilão e a riqueza o património de poucos. Abre-se hoje livremente o horizonte a todos os esforços dignos, a todos os lutadores com fé na nova religião do trabalho. Mas o que não podemos deixar de censurar é que por isso mesmo, que tem tantos reflexos de oiro a bela aurora da liberdade moderna, se votem a um desprezo vandâlico esses documentos vivos das civilizações destruídas, e que os governos façam, como a respeito do mosteiro de Fiães, a venda por todo o preço e mesmo a retalho, em hasta publica, da pedra das paredes, das colunas, arcarias, telhados, portas, janelas, varandas, grades, etc!
Monstruoso simplesmente!
E assim é que a ruína, a devastação e o silêncio cobrem hoje com a sua nota de desolação triste o velho mosteiro de Fiães, à hora em que o visitámos mais triste ainda, mergulhado, como estava, nas poéticas sombras do luar, que se entornava pela serra na sua melancolia casta.


A oeste do convento rebenta um manancial de águas ferruginosas, não analisadas ainda e a que os povos dali atribuem virtudes medicinais, tendo havido em tempo uns tanques para banhos, que a autoridade teve de mandar fechar por causa dos conflitos a que dava lugar a concorrência. "

Extraído de:
-VIEIRA, José Augusto (1886) - O Minho Pittoresco, tomo I, Edição da livraria de António Maria Pereira- Editor, Lisboa.

sexta-feira, 12 de junho de 2015

As aldeias de Fiães (Melgaço) descritas em finais do século XIX

Igreja do antigo Convento de Fiães por volta de 1940
Fonte:
Arquivo Fotográfico do AML (Coleção Cassiano Branco)


No livro "O Minho Pittoresco", de 1886, o autor dá-nos uma rara descrição das aldeias de Fiães nesta época. José Augusto Vieira, montado numa mula, sai da vila de Melgaço em direção a Castro Laboreiro e, de passagem, fala-nos de Fiães nestes termos: "Serra acima, o horizonte é encantador para os lados de Melgaço e Galiza, e como que á vol d'oiseau se dominam as encostas e pequenos vales, onde os campanários destacam as suas agulhas brancas. O Minho corre em baixo, como serpente em voltas sinuosas. Para o norte, as serras de Galiza vão-se indistintamente fundindo no índigo esfumado da atmosfera.
Dobramos a montanha. O horizonte largo desaparece e logo na encosta Vila de Conde, lugarejo pertencente a Fiães, principia a dar o toque de melancolia às nossas impressões, até aí cheias do verde claro da vegetação, dos sussurros da água, do espelhar dos rios, do pitoresco das aldeias.
Parece que entramos numa região inóspita e selvagem. Os cães recebem-nos com latidos furiosos, as casas escondem-se como choças humildes na sua cor escura, a vegetação rareia. E assim vamos, ora subindo, ora descendo pelos torcicolos da montanha, até que ao fundo, num vale estreito, Fiães se nos apresenta, brumosa e triste, carregada na cor, como uma velha ruína abandonada.
Em frente fica o lugar da Jugaria, a ela pertencente, mas um pouco mais alegre com os seus tons verdes de prados húmidos. Vadiamos por um regato e eis-nos no terreiro orlado de vidoeiros e olmos, de castanhos e robles, com bancadas de pedra e chafariz de óptima agua, contíguo ao adro do antiquíssimo mosteiro e onde se faz em 11 de Julho a mais estrondosa romaria das povoações serranas.
A indústria de Fiães é agrícola e pastoril. Recolhe algum centeio, milho miúdo, nabos, castanha, e tem muitos gados e caça grossa e miúda, especialmente na floresta das Ramalheiras.
Uma nota... de Savarin.
O presunto, aquele magnifico presunto de Melgaço, cujas deliciosas
qualidades te descrevi, leitor amigo, é especialmente curado em Fiães, onde o preparam sem sal, receita talvez de algum monge epicurista, que a graves locubrações se entregou para mimosear o paladar delicado de qualquer D. Abade do mosteiro, ou de algum dos príncipes ou infantes, que aí estivera de visita.
Pinho Leal, um trabalhador infatigável que a morte arrebatou antes que lograsse ver o fecho do seu colossal Dicionário a que muitas vezes, fique dito para sempre, iremos buscar valiosos subsídios,diz que a palavra Fiães vem do português antigo Fian, Fiaã, Fiaam, Ffia, Sfiaã ou Fiada, e significa vaso de barro chato e redondo, a que depois se chamou Almofia. Servia antigamente para pagar certa medida de cereaes e também de manteiga (16 fiães faziam um alqueire). É provável, — acrescenta,— que aqui se pagasse este foro, pelo que se dizia terra de Fiães, — ou que houvesse aqui oleiros que fabricassem as fians, espécie de alguidar de barro, com a capacidade para dois quartilhos.
O que, porém, tornou Fiães notável, foi o seu mosteiro, de que hoje só por assim dizer o templo atesta a munificência."

Extrato de texto extraído de:
-VIEIRA, José Augusto (1886) - O Minho Pittoresco, tomo I, edição da livraria de António Maria Pereira- Editor, Lisboa.

sexta-feira, 29 de maio de 2015

A Hospedaria Melgacense e os seus bifes de Presunto de Melgaço (finais do século XIX)



Em 1886, José Augusto Vieira via publicada a sua obra prima, "O Minho Pittoresco" que nos faz um retrato sobre esta região de Portugal nesta época de finais do século XIX. 
Num tempo em que Melgaço não era conhecido nem pelo seu vinho nem pelas suas águas termais, outra iguaria é destacada nesta época e que dava nome à nossa terra. Era o caso dos bifes de presunto de Melgaço. 
O autor do "Minho Pittoresco" parece ter provado esta iguaria numa hospedaria na vila de Melgaço chamada Hospedaria Melgacense e que nos conta essa experiência no livro: 
"Hotel, em Melgaço, escusas de o procurar, meu amigo. O proprietário da Hospedaria Melgacense, entendeu e entendeu bem, que não precisava abastardar a língua pátria com mais um galicismo inútil para baptizar a sua casa de hóspedes. Podes todavia entrar sem receio n'essa hospedaria honesta e limpa, porque, se te falta na tabuleta o sabor francês da palavra Hotel, não te faltará em compensação à mesa o sabor dos apetitosos bifes de presunto que ali te servem, como um prato especial da terra!
O presunto de Melgaço!
Que epopeia seria necessária para descrever-lhe o paladar fino e delicado, o aroma gratíssimo, a cor de rosa escarlate, a frescura viçosa da fibra!
Houvera-o provado Brillat-Savarin com aquela boa vontade de almoçar que eu e os meus companheiros de viagem levávamos depois d'uma alta madrugada com boas oito horas de trabalho e marcha, e a sua Physiologia do gosto teria hoje de certo o mais suculento e o mais brilhante de todos os seus capítulos!
Alimento sólido e forte, puxavante do verde, que na localidade não tem já o aveludado de Monção, o presunto de Melgaço, conhecido em todo o país, é por assim dizer a síntese da physiologia local. Válido, robusto, ágil, com o sangue puro bem oxigenado a estalar-lhe nas bochechas rosadas, o melgacense genuíno destaca-se dos habitantes dos outros concelhos próximos, a ponto de ser entre estes vulgar a frase de: — Ter cara de presunto de Melgaço — quando se fala de alguém com as boas cores da saúde.
Apesar, porém, de todas as tuas deliciosas qualidades, ó apetitoso quadril suíno, força é esquecer-te, como a todas as coisas boas ou más d'este mundo, a fim de nos bifurcarmos no selim duro dos magros rocinantes, que à porta da hospedaria nos esperam para nos conduzir a Castro Laboreiro."


Vila de Melgaço no livro "Minho Pittoresco" (1886)



Extrato de texto extraído de:
Extraído de: VIEIRA, José Augusto (1886) - O Minho Pittoresco, tomo I, edição da livraria de António Maria Pereira- Editor, Lisboa.

sexta-feira, 25 de julho de 2014

A habitação tradicional de Castro Laboreiro: algumas notas

Em Castro Laboreiro, noutros tempos 
(Foto de data desconhecida)

Como em todas as sociedades de tecnologia primitiva e onde o meio natural se apresentava muito pouco diversificado quanto a materiais utilizáveis, também na antiga sociedade castreja, qualquer das realizações materiais, levadas a cabo pelo homem, trazia impressa a marca do ambiente em redor. O sentido de equilíbrio que o artesão sempre realiza em toda a sua obra, permitiu também que aqui existisse uma adequação formal da casa à natureza que a cercava. Por tanto, nas antigas construções de Castro Laboreiro, estiveram presentes estas duas marcas naturais, que ao fim e ao cabo se resumem numa só: a marca do equilíbrio entre a obra e a natureza.
Efectivamente, os únicos materiais empregues na construção foram o granito arrancado ao chão e às rochas; a madeira que crescia nas matas; a palha de centeio que o homem produzia e a urze que espontaneamente se criava em profusão. Quanto à própria estrutura, não ia além de um modelo simples de linha direita, de área estritamente necessária ao abrigo da família, dos animais e da alfaia agrícola e ao armazenamento das colheitas.
A casa era pois uma peça de tal maneira integrada na paisagem, pela cor e pela forma, que cada um dos lugares, composto de muitas dessas casas, quando visto de longe, configurava uma das variadíssimas formações rochosas em que se capricha a natureza de Castro Laboreiro. Ainda hoje este quadro é-nos sugerido pelos pequenos conjuntos de habitações de tal tipo existentes em lugares outros que não a vila, embora já destacados do meio natural por força do contraste que a este oferecem as novas construções, que surgiram no seu interior ou à sua volta.
Curiosamente, e reportando-nos ainda a esse tempo, a única marca imediatamente visível da acção do homem sobre a natureza devia ser a que era formada pelas manchas coloridas dos barbeitos cultivados sempre em zonas distantes da área habitada. Esses, sim, contrastavam pela macieza dos seus verdes e pela geometria dos seus contornos, coma cor parda cinzenta dos grandes e irregulares rochedos, erguidos à volta de Castro Laboreiro.
Mas se a estrutura da casa se harmonizava com a natureza e satisfazia por outro lado necessidades de abrigo, não satisfazia de madeira eficaz as exigências de comodidade das pessoas que a habitavam, embora tais exigências se reduzissem àquele mínimo determinado pelas próprias condições em que decorria a sua existência.
Na verdade, ninguém em Castro Laboreiro que tivesse experimentado o desconforto destas habitações, a elas se refere sem ser em manifesto repúdio pelas condições de vida que a tal obrigavam. Contudo, não se aceita o quadro desumanizado que nos foi deixado por José Augusto Vieira, na sua obra «O Minho Pittoresco» (1886): «Anexo a este interior, o que há de mais sórdido, de mais negro pelo fumo, e de mais anti-higiénico, ficam as cortes para os gados». Vista assim, a casa mais nos parece um «covil» para animais selvagens que propriamente um abrigo para os homens. Com outros olhos a viu José Leite de Vasconcelos no seu artigo «Excursão a Castro Laboreiro» (trabalho de campo em 1904), publicado na Revista Lusitana, vol. XIX. Nela, o investigador faz um relato sem qualquer tipo de animosidade e refere-se sobretudo ao interior da casa castreja nestes termos  A cozinha consta de: lareira, borralheira, especie de camara para recolher o borralho, coberta por uma lage que se chama copeira ou pilheira; escanos, postos ao lado da lareira, para se sentarem; almario, simples prateleira para louça; masseira; fumeiro ou ‘’caniço’’, pôsto superiormente á lareira, para ahi se enxugar a roupa; arcaz, caixa para guardar os cereaes.
   Os Crastejos servem-se, mais ou menos, de pratos de madeira, tanto para comerem, como para conservarem a comida. Eu vi d’estes pratos. Tambem se usam cuncas ‘’malgas’’ ou ‘’tigelas’’ da mesma substancia; d’antes todos comiam nellas, hoje porem só as crianças. Consta-me que esta ‘’loiça’’ se fabrica na Galliza, e se exporta de lá para o Alto-Minho. Ha colheres de madeira, que se chamam igualmente cuncas. A fórma masculina cunco applica-se a uma gamella de pau para se bater a massa do pão antes de ir para o forno.
Para iluminação das casas, os mais pobres fazem uso de guiços, que são pedaços de urzes secas (gândaros), de queirogas sêcas e de tojos secos, descascados do tempo, e que se accendem á maneira de vela: sustentam-nos na mão, ou espetam-nos num buraco da parede; de vez em quando esmoucam-nos, quebrando no chão a parte carbonizada, para os reaccenderem. Com os guiços concorrem vantajosamente candeias de lata, suspensas em seu velador, como é geral no Norte e Centro do país; outr’ora havia-as de ferro e alimentavam-nas de sil ou banha de porco.
   Terminarei aqui a parte descritiva, mencionando a cama, palavra que significa propriamente ‘’leito de madeira’’; assim se diz: ‘’o carpinteiro faz uma cama’’. A cama consta de um caixão grande, com quatro banzos ou pernas, que terminam superiormente em pirâmides. Os mais pobres ahi dormem sobre palha, envolvidos numa manta de burel (sem enxergão ou lençoes); de travesseiro serve um farrapo. Num dos banzos da cabeceira enrola-se o rosario em que rezam.”

Castro Laboreiro em 1915

Informações extraídas em:
- GERALDES, Alice (1979) - CASTRO LABOREIRO E SOAJO. Habitação, Vestuário e Trabalho da Mulher. Serviço Nacional de Parques, Reservas e Património Paisagístico. Lisboa.
- VASCONCELOS, J. Leite de (1916) - Excursão a Castro Laboreiro in: Revista Lusitânia, Lisboa.

- VIEIRA, José Augusto (1886) - O Minho Pittoresco, tomo I, edição da Livraria de António Maria Pereira- Editor, Lisboa.

sábado, 13 de abril de 2013

Diz-se do Presunto de Melgaço em 1886...


José Augusto Vieira na obra “O Minho Pitoresco”, tomo I, de 1886 diz sobre o presunto de Melgaço “ (...) Podes todavia entrar sem receio n’essa hospedaria honesta e limpa, porque se te falta na taboleta o sabor francês da palavra Hotel, não te faltará em compensação à mesa o sabor dos apetitosos bifes de presunto, que ali te servem, como um prato especial da terra! O Presunto de Melgaço! Que epopeia seria necessária para descrever-lhe o paladar fino e delicado, o aroma gratíssimo, a cor rosa escarlate, a frescura viçosa da fibra (...) Houvera-o provado Brillat-Savarin (...) e a sua Physiologia do gosto teria hoje de certo o mais suculento e o mais brilhante de todos os seus capítulos! Alimento sólido e forte, puxavante do verde, (...) o presunto de Melgaço, conhecido em todo o país é por assim dizer a syntese da phisiologia local. Válido, robusto, ágil, com o sangue puro bem oxygenado a estalar-lhe nas bochechas rosadas, o melgacense genuíno destaca-se dos habitantes dos outros concelhos próximos, a ponto de ser entre estes vulgar a phrase de:
- Ter a cara do presunto de Melgaço- quando se falla de alguem com as boas cores de saúde...



Extraído de: VIEIRA, José Augusto (1886) - O Minho Pittoresco, tomo I, edição da livraria de António Maria Pereira- Editor, Lisboa.