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sexta-feira, 23 de setembro de 2016

Os milagres da Senhora da Orada contados há 300 anos

Capela da Senhora da Orada
Um livro publicado há cerca de 300 anos fala-nos dos milagres da Senhora da Orada num tempo em que à sua capela em Melgaço acorriam muitos peregrinos para a sua romaria. Ora leia: “Um tiro de mosquete pouco mais ou menos de distância da Praça de Melgaço se vê situado o Santuário e Casa de Nossa Senhora da Orada. Foi edificada sobre o mais alto de um monte eminente ao rio Minho que lhe fica da parte do norte, em igual distância do arrabalde da dita praça e vila de Melgaço de onde vem uma estrada pública que vai para o Reino de Galiza e Castela que passa junto ao átrio da capela. E desta até à vila se vê a estrada povoada e pomares, que tudo suaviza e recreia muito a vista a todos os que passam e também aos devotos da Senhora da Orada quando a vão buscar e venerar, tudo isto é um passeio.
É este templo de excelente estrutura, porque é fabricado de boa cantaria e é da jurisdição e administração dos Monges de Santa Maria de Fiães. Porque dele lhe fez doação El-Rei D. Sancho I deste reino, como coisa sua, pelo ter herdado de seu pai, o rei D. Afonso Henriques, que foi o que o reedificou depois da restauração de Espanha. De onde se colhe, que houve um templo mais antigo do que este, pois este foi reedificado sem dúvida ou porque o primeiro ameaçava ruína, ou estava já arruinado. Tudo isto consta de uma escritura de doação feita pelo referido rei D. Sancho em Santarém aos 3 dos idos de Setembro do anos de 1207 que assinou o mesmo rei com todos os seus filhos e prelados do reino que ali se achavam como era costume naqueles tempos. Esta escritura está no Livro das Datas do mesmo Mosteiro de Fiães o qual se conserva no cartório do referido mosteiro e assim se verifica ser este templo da Senhora da Orada antiquíssimo, como também o título da Senhora. Também daqui se colhe a particular devoção dos reis, fundadores deste reino. Como foi informado o padre António Carvalho da Costa, em dizer que este templo da Senhora da Orada era da Condessa Fronilla. A Quinta de Cavaleiros podia ser sua e fazer dela doação ao Convento de Fiães no ano de 1166 mas a Casa da Senhora da Orada não. !
A imagem da Senhora antiga com o decurso dos anos se desfez e a que existe é muito devota. É de perfeitíssima escultura, tem ao Menino Deus sobre o braço esquerdo e tem cinco palmos de estatura. É de madeira com as roupas estofadas de ouro. É muito milagrosa e como tal é buscada e invocada da devoção dos fiéis, os quais por sua intercessão, alcançam de seu Santíssimo Filho, o que justamente pretendem. A este santuário, desde o dia da ascensão do Senhor até à festa do Espírito Santo, vão em romaria as mães das freguesias da vila de Monção e do seu termo, a oferecer o resíduo do Círio Pascal e vai acompanhar a procissão ao menos uma pessoa de cada paróquia, com os seus párocos e isto por voto que antigamente fizeram em tempo de uma grande peste, de que ficou preservada a mesma vila e as freguesias do seu termo, as quais fizeram o referido voto e também muitas freguesias do termo de Valadares e todas as do termo de Melgaço. As gentes vão em procissão à Senhora da Orada e no mesmo tempo, umas por devoção e muitas por voto, com clamores e procissão no mesmo santuário, para implorar da Senhora os favores do Céu. E também em tempo que se necessita de sol, ou de chuva, vão muitas freguesias em procissão com ladainhas a pedir à Senhora os seus favores. O que com evidência experimentam, porque esta misericordiosa Senhora lhes alcança logo os bons despachos de tudo o que pedem.
É tradição antiga, que por favor e intercessão desta milagrosa Senhora se livraram muitos cativos, que estavam em prisões em terras de Mouros e que milagrosamente ou por ministério dos Anjos, apareceram às portas do templo da Senhora da Orada com os grilhões e correntes com que estavam presos. Os quais invocando o favor da Senhora da Orada, ela compadecida do seu trabalho e os aliviava e trazia à sua Casa. Infinitos são os milagres que obra e tem obrado a Senhora, e o querer fazer deles relação, não haveria papel que os comprendesse.
O autor da Corografia, o Padre Carvalho, também confirma a grande devoção de todos aqueles povos para com esta Senhora mas queixa-se de que a devoção daqueles Monges de Fiães já hoje estava muito tíbia, tendo antigamente muito fervorosa e que esta indevoção se ia já pegando muito. Porque não só já hoje a gente é menos, mas a Casa da Senhora se via menos asseada e que temia que viesse a padecer ruína. Porque como os arcebispos primazes não se podem ali intrometer, também os não podem obrigar a que reparem a Casa da Senhora da Orada para que se não arruine de todo e extinga totalmente aquela grande e antiga devoção que todos aqueles povos tinham com aquela milagrosa e prodigiosa imagem da Senhora da Orada. Nem eu posso crer de religiosos tão solícitos da sua religião tenham tão grande descuido em uma matéria que merece tanto cuidado e atenção."


Extraído de: SANTA MARIA, Frei Agostinho de (1712) – Santuário Mariano e História das imagens milagrosas de Nossa Senhora. Tomo IV; Oficinas de António Pedrozo Galram; Lisboa.

sábado, 9 de janeiro de 2016

No tempo das grandes romarias à Senhora da Orada (Melgaço)

Capela da Orada (Melgaço)
Houve um tempo em que a Capela da Nossa Senhora da Orada (Melgaço) era destino de numerosos romeiros que ali vinham depositar os suas oferendas em nome de uma profunda devoção à Senhora da Orada que existia na região. A origem desta adoração à Orada tem origem no século XVI num surto de peste que flagelou a região. Diz-se que algumas terras na região, entre as quais Melgaço, foram poupadas. Em Melgaço, os habitantes contavam que fora a Senhora Orada que tinha livrado os melgacenses da peste.
Numa publicação de 1890, o “Archivo Histórico de Portugal”, faz-se referências ao tempo em que a capela da Orada era visitada por numerosos romeiros devotos em séculos anteriores.  O autor conta-nos que “Tem Melgaço um templo digno de menção, edificado sobre uma elevação sobranceira ao rio Minho, o qual, como se sabe, separa esta villa do reino vizinho. O atrio d’este é atravessado por uma estrada, que vindo da povoação parte para a Galliza.
O templo, da invocação de Nossa Senhora da Orada, é construído de boa cantaria e foi até 1834 da jurisdição dos monges do Convento de Santa Maria de Fiães. Desde a egreja à povoação é a estrada ladeada de formosas hortas, pomares, fontes abundantes de magníficas águas, vistosos campos e casas, o que dá o mais alegre e grato aspeto do sítio.
Do dia da Ascensão até ao domingo do Espírito Santo era outrora muito concorrida a estrada pelos romeiros do concelho de Melgaço, Valladares e Monção, os quais iam oferecer à Virgem da Orada o resíduo pascal, lavando cada freguesia os seus párocos, e ao menos uma pessoa de cada família.
Tinham estas romagens um voto que os povos das mencionadas freguezias fizeram durante uma terrível epidemia  de peste, que, tendo assolado e deixando desertas inúmeras povoações, áquelas não havia causado o mínimo damno.
Hoje, conquanto ainda tenha devotos, não é a egreja procurada como d’antes. A civilização fazendo pouco a pouco no espírito humano tem-lhe ensinado que o verdadeiro templo é a consciência próprio, que todos devem honrar e respeitar como um sanctuário que Deus nos collocou dentro do peito.”
Existe também uma lenda popular alusiva à Senhora da Orada e que remonta ao período da peste. Sendo verdadeira ou não, ajuda-nos a perceber a origem da extrema devoção à Orada nesta região. A lenda diz-nos que "Corria o ano da Graça de Nosso Senhor de 1569, e pelas terras do vale do Minho espalhava-se a peste. Em todas as freguesias as pessoas estavam apavoradas com o terrível flagelo. Ricos e pobres eram atacados por um grande febrão, e ninguém parecia escapar a esta desgraça. Cheios de pavor e de fé, todos se voltavam para os santos, pois só a eles parecia restar o poder para debelar tão grande infortúnio.
Por essa altura, morava no lugar da Assadura, junto da Senhora da Orada, Tomé Anes, mais conhecido como o "Vira-Pipas", pois andava sempre com uma malguinha a mais. Tomé Anes era uma figura alegre, mas um pouco desbocada, quando importunado com a alcunha. Para além de urnas pequenas leiras que amainava, Tomé limpava e arrumava a capela da Senhora da Orada,  trabalho que fazia com muito desvelo e devoção.
Numa certa manhã, como de costume, Tomé foi arranjar a capela. Como era ainda cedo, só tinha tomado o seu «mata-bicho», lá em casa, e uma pequena malga de vinho na tasca da Mirandolina. Chegado à capela, o "Vira-Pipas" quase morreu de susto, pois a imagem da Senhora da Orada não estava no seu lugar, nem em qualquer outro! Vezes acontecia que chegava a ver duas ou três imagens da Senhora, quando a borracheira passava do normal. Não ver nenhuma assustava-o seriamente. Cego não estava! Ainda perguntou à imagem do Senhor S. Brás pela ausente, mas como este não respondeu, pensou que teriam sido os Galegos os autores de tão vil afronta. 
Furioso saiu o "Vira-Pipas" em direcção à vila de Melgaço para comunicar o sucedido ao Alcaide, e disposto a juntar o povo para enfrentar tal desfeita. Ia o Tomé nestes propósitos pela via romana, quando o chamaram da casa do Arrocheíro para dar uma ajuda na trasfega do vinho. Este era trabalho a que nunca se negava o Tomé, já que entre o passar dos cabaços do vinho lá ia bebendo uma pequena malga do apreciado líquido. Depois de muito bebido e comido, deixou-se o "Vira-Pipas" levar pelo sono, de modo que já só noite dentro acordou e contou o sucedido para os lados da Orada ao seu amigo. Conhecendo os hábitos do Tomé, este só se riu, não acreditando em tão fantasiosa história. Mas como o Tomé insistia tanto, concordou em confirmar o acontecido com uma visita à igreja. Ao entrarem, verificaram que a imagem da Virgem estava no seu lugar. O único surpreendido era o "Vira-Pipas"!
No dia seguinte, muito envergonhado, decidiu o Tomé ir à Senhora da Orada mais cedo do que era costume. Para testar as suas capacidades, num grande esforço, não bebeu a sua malguinha de vinho, nem o imprescindível «mata-bicho»! Chegou até a meter a cabeça debaixo da fonte, para dissipar os possíveis vapores alcoólicos do dia anterior.
Na capela verificou que só estava o menino Jesus, sentado, com aquela cara de choro que toda a criança tem quando a mãe não o leva ao colo. Tomé ficou abismado, sem saber o que fazer. Com medo que se rissem dele, não contou a ninguém, preferindo entregar-se ao trabalho, ao ponto dos conhecidos ficarem admirados com tal dedicação. De manhã e à noite ia à capela, e verificou que a senhora da orada voltava à noitinha. Umas vezes levava o menino, outras não. Só o Tomé sabia destas fugas, e pressentiu naquele mistério uma grande responsabilidade. Não lhe passava da ideia o que lhe acontecera, julgando-se destinatário de uma mensagem da Senhora para que abandonasse o consumo do álcool. Por isso, começou a diminuir no vinho, o que a todos surpreendeu!
Enquanto isto sucedia ao pobre do Tomé, em Riba de Mouro no concelho de Monção, os habitantes viraram-se para a milagrosa Senhora da orada a fim de se livrarem da mortífera peste, que por aqueles anos assolava toda a região. Para agradar à Senhora, prometeram uma romagem anual à capela.
Depois de aparecerem os primeiros casos, surgiu na dita freguesia uma senhora, muito bonita e educada, que dizia saber como tratar aquela doença. Ninguém sabia donde ela viera. Entrava na casa das pessoas doentes, mandava fazer um chá com uma planta que trazia no alforge, e, juntando outras ervas, mandava preparar um banho que ela própria passava no corpo do doente, fosse mulher, criança ou homem. Recomendava às pessoas que se lavassem com ervas de Santa Maria e folhas de sabugueiro, que defumassem as casas com alecrim, e lavassem as roupas amiúde. A bondosa dama não tinha mãos a medir! De manha até à noite, não parava de atender os doentes. Não comia nem aceitava convite para ficar à noite com eles. Quando trazia um menino, que dizia ser seu filho, este ajudava a descobrir a erva de Santa Maria e os sabugueiros que o povo não sabia onde mais encontrar.
Entretanto passaram-se quarenta dias, e a peste abrandou. Poucas pessoas sobreviveram ao flagelo, mas em Riba de Mouro ninguém morreu! A senhora que tinha ajudado a população desapareceu tal como havia surgido. Todos se perguntavam agora sobre a identidade daquela misteriosa senhora. Alguém se lembrou, então, que a roupa, e até a fisionomia, eram iguais à da Senhora da Orada!
Nesta certeza, logo partiram em romaria ao seu santuário, agradecendo a protecção. Vendo tal devoção e escutando o sucedido, o Tomé entendeu rapidamente o que lhe tinha sucedido e resolveu contar a todos os desaparecimentos da Senhora naqueles dias anteriores. Agora, todos acreditaram! Os romeiros partiram, espalhando o relato do milagre por todas as freguesias."

Como já foi referido, esta devoção à Senhora da Orada foi-se perdendo ao longo dos tempos e no final do século XIX, o número de romeiros visitantes já não era significativo.



Informações extraídas de: Archivo historico: narrativa da fundação das cidades e villas do reino, seus brazões d'armas, etc. (1890), 2ª Série, Typ. Lealdade, Lisboa.

sábado, 7 de novembro de 2015

A vila de Melgaço no velho "Guia de Portugal"

Praça da República (Vila de Melgaço) na década de 50

O "Guia de Portugal" é uma obra iniciada em 1924 por Raúl Brandão. É reconhecido como um dos mais completos roteiros de Portugal do século XX. Foi publicado em vários volumes dedicados a cada uma das regiões do nosso país. A edição do volume dedicado ao Alto Minho é de 1965 e fala-nos desta região e em particular das estradas e caminho de Melgaço e das contemplações do autor com as paisagens da nossa terra.
A respeito da vila de Melgaço, refere: "Melgaço, povoação antiga, de 728 habitantes, coroada por um velho castelo afonsino, como atalaia da fronteira que a dez quilómetros (no posto de S. Gregório) deixa de ser raia húmida para se tornar raia seca e serrana.
A vila situada a uns 180 metros de altitude, dispõe-se em patamar sobre amplo vale. O rio corre ao fundo. Defronte avultam, em sucessivos planos, os austeros montes galegos.
Noutros tempos, a vila concentrava-se numa apertada e robusta cerca murada de que restam apenas panos e cubelos sobranceiros ao vale. De um extremo ao outro, a povoação tem cerca de um quilómetro. Ao lado do seu antigo núcleo, nota-se uma discreta dispersão do seu casario ao longo da principal via, que é a própria estrada relacionada com o posto fronteiriço relativamente próximo de S. Gregório.
Sobre a vertente, defronte da terra galega, impõe-se, como severo miradouro, do vale, o velho e arruinado castelo (monumento nacional), de estrutura afonsina. A torre de menagem, quadrangular e ainda coroada de ameias, é quase tão alta imponente como a do roqueiro de Guimarães. Somente, em vez da paisagem urbana e rústica do coração do Minho, a largueza que daqui se domina é tipicamente raiana e serrana.
Quem seguir pelo campo da feira poderá deitar um olhar pela parte mais arcaica da povoação medieva. Um dos edifícios que solicitam, pela robustez, é o dos antigos Paços do Concelho, assente em três possantes arcos redondos.
Transpondo a muralha pela ponte do Poente poderá seguir-se ao longo da antiga cerca até junto da “canhoneira”, obra defensiva do século XVII, contígua à barbacã, hoje ocupada pela Guarda Fiscal. Prosseguindo até à Praça, teremos em frente a velha igreja matriz (monumento nacional), templo românico, talvez do século XIII, de modestas proporções e projeção cruciforme. O seu mais estimável valor reside no tímpano do pórtico, pelo singular alto-relevo zoomórfico que nele se encontra. Interior relativamente singelo.
Ao norte de Melgaço, junto da estrada que conduz a S. Gregório, encontra-se a 1 quilómetro, a Igreja de Nossa Senhora da Orada (monumento nacional), templo coevo ou quase coevo da fundação da nacionalidade portuguesa, alcandorado sobre um pequeno patamar da ampla visão panorâmica. O portal da igreja voltado a poente, está precisamente no enfiamento do extenso e profundo vale do Minho, permitindo a visão simultânea das duas vertentes, a portuguesa e a galega.
Igreja castiçamente românica pura e interessante. Portal gracioso, com três arquivoltas, de ponto levemente subido, assentes em seis colunelos de singelos capitéis. A decoração de cada uma das arquivoltas é extremamente graciosa. Ao longo da cornija, há uma linha de curiosos modilhões. Abside retangular, com outra série de cachorros e uma fileira de grânulos. Porta lateral voltada a norte, muito interessante, pela preciosa decoração semicircular, de estilo oriental que a reveste. Do lado sul, outro portal mais singelo.
Interior muito simples. Nave única e relativamente alta, com cobertura de madeira. Iluminação discreta obtida por quatro frestas. Capela-mor muito típica. Arco triunfal a anunciar uma leve tendência para a ogiva.

Descendo de novo à estrada, poderemos prosseguir até ao ponto próximo da fronteira. À medida que se vai caminhando, a paisagem parece redobrar de seriedade. As montanhas do outro lado do rio ganham em volume, como que justificando, na sua muda eloquência, a custosa desistência que o ânimo forte do primeiro rei português teve de aceitar após o desastre de Badajoz."


Extraído de:
SANT'ANA DIONÍSIO (1965) - Guia de Portugal - Entre o Douro e Minho II. Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Viagem a Melgaço e S. Gregório dos anos de 1930, descrita pelo escritor Júlio Dantas (Parte II)

S. Gregório, Cevide, o rio Trancoso e Ponte Barxas


S. Gregório (Cristoval - Melgaço) em 1937

Até pouco antes de São Gregório, os aspectos do vale do Minho não se modificam sensivelmente. O mesmo ritmo lento na ondulação das montanhas a orografia parece reflectir a calma e a doçura do carácter galego, tipicamente celta, os mesmos pinhais hirsutos e verdoengos. Aqui e além, um casal, com a sua varanda envidraçada voltada ao sul, e, acompanhando também a linha do rio, a estrada férrea Orense -Tui, por onde caminhava, quando passámos, um tramway vagaroso e sonolento.
À medida, porém, que vamos avançando, a natureza torna-se mais agreste. O granito aflora, a água jorra de toda a parte. A paisagem adquire uma fisionomia ao mesmo tempo mais expressiva e mais severa. Dez minutos ainda de caminho, e avistamos as primeiras casas de São Gregório, cabrejando na rocha, escoando-se por dois córregos estreitos gorgolejantes de água, íngremes como calejas de velho burgo medieval, que vão dar abaixo, ao rio, conduzindo à ponte internacional de madeira que nos separa da vizinha povoação galega de Puente de Bárzia. É curioso o contraste entre as duas povoações, que testam uma com a outra, de cá e de lá da fronteira. Puente de Bárzia limita-se a um punhado apenas de casebres, de proporções humildes e de nenhum interesse. São Gregório, pelo contrário, é relativamente grande, tem alguns bons edifícios e certo aspecto de prosperidade, expressão de uma actividade comercial que, sobretudo na primeira metade do século passado, parece ter sido considerável. Há nove anos, quando pela primeira vez visitei estas paragens, ainda se encontravam de pé as ruínas de umas casas antigas, com muralhas de fortaleza, refúgio outrora de contrabandistas que, por vezes, se defendiam a tiro. Esta diferença no desenvolvimento das duas povoações fronteiriças é facilmente explicável. O comércio local de São Gregório enriqueceu, noutro tempo, com o que vinha de Espanha, mais do que o de Puente de Bárzia prosperou com o que ia de Portugal.
Há pouco tempo ainda, a estrada de rodagem parava no cimo da povoação. Quem queria descer até ao rio e pisar os últimos palmos de terra portuguesa era obrigado a meter por um quebra-costas de lajedo que estreitava em congosta enfiando até à ponte, entre pocilgas de porcos e jorros de água cachoantes. Não pode afirmar-se que seja propícia a descida, e, muito menos, a subida. Mas a natureza tem, neste rincão minhoto, belezas compensadoras. Muitas vezes me lembrei do grande e saudoso Malhoa, ao transpor alguns recantos viçosos de parreirais em que o sol projectava sombras violetas, e alguns hortejos onde, na polpa das couves galegas, faiscava em gotas a água viva das nascentes. Agora, alcança-se o extremo de São Gregório pela estrada, prolongada há três anos até Espanha, no intuito de estabelecer ligação com a estrada espanhola começada a abrir, nas lombas dos montes galegos vizinhos, por iniciativa de Primo de Rivera. O troço português está pronto. O espanhol parou a pouca distancia da fronteira. Em todo o caso, já pude, de automóvel, atingir o extremo nordeste de Portugal, até ao rio Trancoso, que no verão leva pouca água e que os garotos transpõem de um salto. Parei, durante alguns momentos, nessa «terra última» em que se apoia um dos pilares da nova ponte internacional acabada de construir. De um lado e de outro, as culturas são as mesmas: campos de milho e vinhedos, dispostos em latada, à portuguesa. Ouvia-se, em terras de Espanha, uma voz alegre de mulher cantar em português. Os pardais revoavam, de uma para outra banda, sem respeito pelas determinações da polícia de emigração, e sem pensar que, num simples bater de asas, mudavam de país.
Por instantes, uma borboleta, faiscando ao sol, hesitou entre as duas nacionalidades. E eu, pensando nos destinos dos povos e nas vicissitudes da história, lamentei, não só que a estrada terminasse ali, — mas que terminasse ali Portugal.


Texto extraído da obra:
- DANTAS, Júlio (1936) - Viagens em Espanha. Livraria Bertrand, Lisboa.

sábado, 31 de janeiro de 2015

Melgaço no livro "Viagens em Espanha" de Júlio Dantas (Parte I)

No centro histórico da vila de Melgaço (Foto de J. Melo)

A vila de Melgaço, a nova Câmara Municipal, o castelo e a Orada


"Um dos meus passeios predilectos, quando me encontro no alto Minho, é o chamado «passeio de S. Gregório», ao longo da fronteira de Espanha, desde Melgaço, cuja doirada torre se recorta no friso das serras galegas, até Puente de Bárzia, ou seja até ao extremo nordeste de Portugal.
A princípio, o caminho que levamos não nos oferece imprevistos, nem belezas que especialmente o recomendem. Campos verdes de milho, limitados, à beira das congostas, pelas latadas armadas sobre postes de granito. Aqui e além, os canastros, tão característicos da região, com a cruz numa das empenas e um relógio de sol na outra. De espaço a espaço, a bênção de pedra dos cruzeiros e das “alminhas”, que por toda a parte acompanha as carinhosas estradas minhotas. É na volta da vila que a paisagem começa a prender-nos a atenção.
Infelizmente, o novo edifício da Câmara, inestético e mal colocado, prejudica o efeito da torre do castelo, tão harmoniosa nas suas proporções, do alto de cujas balhesteiras, no tempo de D. João I, as trombetas saúdaram a vitória de Inês Negra, símbolo da mulher enérgica e robusta destes lugares, — torre, aliás, já estragada, como outras albarrãs pré-dionisianas, pelo relógio que lhe encastraram na silharia veneranda.
Todo o interesse de Melgaço se resume nessa relíquia da arquitectura militar do século XIII, onde se sobe com dificuldade para admirar um horizonte vasto, que se estende até ao oceano. Dali por diante, o caminho é uma maravilha. A estrada, recentemente reparada, uma das melhores da região, acompanha a linha de água, serpeando com o rio, que, ora calmo, ora em açudes que rumorejam, cintila ao sol vivo da tarde.
A certa altura -— tantas voltas dá a estrada — já não sabemos onde fica a Espanha e onde fica Portugal. O ponto em que o horizonte é mais extenso e mais belo é no cruzeiro da Senhora da Ourada.

Nas lombas dos montes galegos, a vegetação, por vezes rica, desentranha-se numa  orquestração de verde em vários tons, que vai desde o verde-negro das largas manchas de pinhal até ao verde-dourado dos vinhedos em socalco e ao verde-cinzento das lindadas e hortas que descem quasi à flor do rio. É aí, um pouco antes de chegar ao cruzeiro, que nós  podemos admirar a pequena ermida românica, com o seu pórtico de três arquivoltas, a sua sineira na empena, a enfiada de modilhões que, de um lado e de outro, sustentam a arquitrave, enriquecidos de motivos diferentes, e a nobreza dos seus silhares, todos eles marcados das siglas dos canteiros que os trabalharam. A nossa atenção divide-se entre esta jóia de pedra, onde se releva o escudo heráldico de São Bento e se descobrem, do lado do Evangelho, alguns modilhões de forte sentido naturalista, e a paisagem variada, ora bárbara ora idílica, cujo sentimento pagão o mestre arquitecto da ermida simbolizou na mulher nua que, num dos cachorros, ostenta os sinais da maternidade." 

::::::::::::::::::::::::::::::::::::CONTINUA:::::::::::::::::::::::::::::::::::::::

Texto extraído da obra:
- DANTAS, Júlio (1936) - Viagens em Espanha. Livraria Bertrand, Lisboa.



sábado, 22 de novembro de 2014

A vila de Melgaço descrita por José Saramago (1981)

A vila de Melgaço na época

José Saramago, Prémio Nobel da Literatura, no seu livro "Viagem a Portugal", de 1981, descreve a vila de Melgaço nestas palavras: "Melgaço é vila pequena e antiga, tem castelo, mais um para o catálogo do viajante, e a torre de menagem é coisa de tomo, avulta sobre o casario como o pai de todos. A torre está aberta, há uma escada de ferro, e lá dentro a escuridão é de respeito. Vai o viajante pé aqui, pé acolá, à espera de que uma tábua se parta ou salte rato. Estes medos são naturais, nunca o viajante quis passar por herói, mas as tábuas são sólidas, e os ratos nada encontrariam para trincar. Do alto da torre, o viajante percebe melhor a pequenez do castelo, decerto havia pouca gente na paisagem em aqueles antigos tempos. As ruas da parte velha da vila são estreitas e sonoras. Há um grande sossego. A igreja é bonita por fora mas por dentro banalíssima: salve-se uma Santa Bárbara de boa estampa. O padre abriu a porta e foi-se às obras da sacristia. Cá fora, um sapateiro convidou o viajante a ver o macaco da porta lateral norte. O macaco não é macaco, é um daqueles compósitos medievos, há quem veja nele um lobo, mas o sapateiro tem muito orgulho no bicho, é seu vizinho.
Logo adiante de Melgaço está a Nossa Senhora da Orada. Fica à beira do caminho, num plano ligeiramente elevado, e se o viajante vai depressa e desatento, passa por ela, e ai minha Nossa Senhora, onde estás tu? Esta igreja está aqui desde 1245, estão feitos, e já muito ultrapassados, setecentos anos. O viajante tem o dever de medir as palavras. Não lhe fica bem desmandar-se em adjetivos, que são a peste do estilo, muito mais quando substantivo se quer, como neste caso. Mas a Igreja da Nossa Senhor da Orada, pequena construção românica decentemente restaurada, é tal obra-prima de escultura que as palavras são desgraçadamente de menos. Aqui pedem-se olhos, registos fotográficos que acompanhem o jogo de luz, a câmara de cinema, e também o tacto, os dedos sobre estes relevos para ensinar o que aos olhos falta. Dizer palavras é dizer capitéis, acantos, volutas, é dizer modilhões, tímpanos, aduelas, e isto está sem dúvida certo, tão certo como declarar que o homem tem cabeça, tronco e membros, e ficar sem saber coisa nenhuma do que o homem é. O viajante pergunta aos ares de onde são os álbuns de arte que mostrem a quem vive longe esta Senhora da Orada e de todas as Oradas que por este país fora ainda resistem aos séculos e aos maus tratos da ignorância ou, pior ainda, ao gosto de destruir. O viajante vai mais longe: certos monumentos deveriam ser retirados do lugar onde se encontram e onde vão morrendo, e transportados pedra por pedra para grandes museus, edifícios dentro de edifícios, longe do sol natural e do vento, do frio e dos líquenes que corroem, mas preservados. Dir-lhe-ão que assim se embalsamariam as formas; responderá que assim se conservariam. Tantos cuidados de restauro com a fragilidade da pintura, e tão poucos com a debilidade da pedra.
Da Nossa Senhora da Orada, o viajante só escreverá mais isto: viram-na os seus olhos. Como viram, do outro lado da estrada, um rústico cruzeiro, com um Cristo cabeçudo, homenzinho crucificado sem nada de divino, que apetece ajudar naquele injusto transe.
Vai agora o viajante iniciar a grande subida para Castro Laboreiro..."

Extraído de: SARAMAGO, José (1981), Viagem a Portugal. Edições Caminho, Lisboa.

domingo, 17 de novembro de 2013

Nossa Senhora da Orada (Melgaço) por volta de 1920 em postal antigo

Postal antigo enviado de Melgaço, do Peso, para J. de Moura Coutinho, para a sua morada em Braga, para os lados do Teatro Circo. O mesmo foi escrito em 19 de Setembro de 1920 mas apenas enviado no dia seguinte, 20 de Setembro, conforme carimbo dos Correios.





sexta-feira, 19 de abril de 2013

Senhora da Orada (talvez década de 1940)


 Ao lado, vemos estacionado um automóvel da época. Não consigo precisar a data exata mas dada a semelhança com outros desta década em termos de edição e desenho da letra da legenda, será desse tempo com certeza...

Outros tempos....



domingo, 23 de dezembro de 2012

O significado de inscrições em monumentos melgacenses I


Inscrição na Capela de Nossa Senhora da Orada


Inscrição comemorativa da Fundação da Ermida de N.a S.a da Orada, gravada em silhar do ombral direito do Portal Ocidental do templo. A inscrição revela-nos o papel desempenhado pelo Prior de Fiães na fundação deste templo rural.
Foi o Padre. Bernardo Pintor o primeiro autor a publicar a inscrição de Orada, oferecendo leitura quase correcta do letreiro, primeiro sem desdobramentos:
"P'IOR MONAC DE / FENALIB ISTAM / ECCIÃ FUND" depois com desdobramento de abreviaturas:
"PRIOR MONACHORUM DE FENALIBUS ISTAM ECCLESIAM
FUNDAVIT" e depois da respectiva tradução:
"O Prior dos Monges de Fiães Esta Igreja Fundou" (PINTOR 1975. Anotemos apenas que a inscrição apresenta ECCLA e não ECCIA, e que a MONAC se segue o sinal de abreviatura, parcialmente gravado no silhar superior, pelo que deveria transcrever MONAC. A leitura do Padre Bernardo Pintor, correcta nas suas linhas gerais, seria citada por Lúcia M. Cardoso Rosas (ROSAS 1987).
Já tivemos oportunidade de referir as ligações profundas que uniam a Ermida de N.a S.a da Orada ao Mosteiro de Fiães. O Mosteiro teria recebido a herdade de St.a Maria da Orada das mãos de D. Afonso Henriques por diploma hoje desconhecido mas confirmado indirectamente por outro de seu filho, D. Sancho I, de 1199. É possível que a doação tenha sido realizada no quadro do diploma de 1173 pelo qual o primeiro monarca português entregou diversos e alargados bens ao Abade D. João e aos frades do Mosteiro de Fiães. A construção da Ermida, como Carlos Alberto Ferreira de Almeida teve oportunidade de sublinhar, deve ser colocada nos meados do século XIII (ALMEIDA C.A.F. 1988) e à qual talvez se deva associar a inscrição de 1245. É possível que tenha sido no final das obras dessa centúria que se gravou o letreiro que aqui nos ocupa, consagrando o papel do Prior de Fiães na construção deste prestigiado centro de devoção, implantado em plena mancha rural, à saída de Melgaço.


Extraído de:
- BARROCA, Mário Jorge (2000) - Epigrafia Medieval Portuguesa - (862-1422), vol. II, CORPUS EPIGRAFICO MEDIEVAL PORTUGUÊS. Fundação Calouste Gulbenkian, Fundação para a Ciência e a Tecnologia, Porto.

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

O jogral da igreja de Nossa Senhora de Orada



Situada perto de Melgaço, junto a via de comunicação para Compostela, a igreja de Nossa Senhora da Orada foi um importante centro de devoção na época. A construção actual remonta a meados do século XIII e terá seguido modelos disseminados a partir da Sé de Tuy, a quem estava subordinada. Nos modilhões encontramos uma interessante variedade de representações, comuns no românico português: motivos geométricos e ornamentos vegetalistas; cabeças de animais domésticos e figuras humanas. Entre estas temos um músico, certamente um músico ambulante, que toca um instrumento de corda friccionada que, embora a representação seja bastante grosseira, parece tratar-se de uma viola medieval, pela configuração da caixa, indícios de aberturas em “C” e pá do cravelhame em posição frontal. Não é um tema exclusivo da arte portuguesa, em que aparece com relativa frequência, mas também difundido noutras paragens como em Tauriac, numa imagem semelhante, no mesmo suporte, um modilhão, em que o músico aparece acompanhado de uma dançarina. Observando todo o conjunto de Orada, encontramos outros elementos que contribuem para construir um contexto em que a prática musical profana, como é este caso, aponta para os efeitos perversos da arte dos sons. Embora não existam aqui representações de carácter obsceno, libidinoso ou de exaltação dos prazeres físicos, no conjunto dos modilhões encontramos cabeças de caprino, os símbolos mais correntes da luxúria; um indivíduo sentado em cima de um barril, indicador de uma conduta de vida pouco saudável, de comportamentos desviantes; um personagem sentado, muito gordo, que poderá ser uma referência ao pecado da gula, entre outros.

Igreja de Nª Senhora de Orada; modilhão da parede sul - Músico com viola de arco




Informações recolhidas em:
- SOUSA, Luis Correia de (2005) - Iconografia musical na escultura Românica em Portugal. Medievalista on line ano 1 ● número 1 ● 2005 IEM - Instituto de Estudos Medievais

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Postal Centenário de 1906 - Senhora do Orada (Vila de Melgaço)





Postal escrito em 18 de Abril de 1906 em Melgaço. O remetente enviou-o para a sua mãe, D. Maria de Faria Gonçalves Rodrigues, para Vila Nova de Famalicão. Na parte da frente, o postal ilustra a Igreja da Senhora da Orada numa fotografia dos finais do  século XIX ou princípios do século XX, sem conseguir precisar o ano. O remetente conta à sua mãe que às 6 da manhã já se encontra a pé e que dormiu muito mal naquela noite. Conta tomar o café e seguir para Sante, na freguesia de Paderne. No final, pergunta pela mãe e pelo "niños"...
Enfim, um retrato de um momento... 

domingo, 9 de setembro de 2012

Lendas de Melgaço V: A Senhora da Orada e o "Vira-Pipas"


Corria o ano da Graça de Nosso Senhor de 1569, e pelas terras do Vale do Minho espalhava-se a peste. Em todas as freguesias as pessoas estavam apavoradas com o terrível flagelo. Ricos e pobres eram atacados por um grande febrão, e ninguém parecia escapar a esta desgraça. Cheios de pavor e de fé, todos se voltavam para os santos, pois só a eles parecia restar o poder para debelar tão grande infortúnio.
  Por essa altura, morava no lugar da Assadura, junto da Senhora da Orada, Tomé Anes, mais conhecido como o "Vira-Pipas", pois andava sempre com uma malguinha a mais. Tomé Anes era uma figura alegre, mas um pouco desbocada, quando importunado com a alcunha. Para além de urnas pequenas leiras que amainava, Tomé limpava e arrumava a capela da Senhora da Orada,  trabalho que fazia com muito desvelo e devoção.
Numa certa manhã, como de costume, Tomé foi arranjar a capela. Como era ainda cedo, só tinha tomado o seu «mata-bicho», lá em casa, e uma pequena malga de vinho na tasca da Mirandolina. Chegado à capela, o "Vira-Pipas" quase morreu de susto, pois a imagem da Senhora da Orada não estava no seu lugar, nem em qualquer outro! Vezes acontecia que chegava a ver duas ou três imagens da Senhora, quando a borracheira passava do normal. Não ver nenhuma assustava-o seriamente. Cego não estava! Ainda perguntou à imagem do Senhor S. Brás pela ausente, mas como este não respondeu, pensou que teriam sido os Galegos os autores de tão vil afronta. 
Furioso saiu o "Vira-Pipas" em direcção à vila de Melgaço para comunicar o sucedido ao Alcaide, e disposto a juntar o povo para enfrentar tal desfeita.
  Ia o Tomé nestes propósitos pela via romana, quando o chamaram da casa do Arrocheíro para dar uma ajuda na trasfega do vinho. Este era trabalho a que nunca se negava o Tomé, já que entre o passar dos cabaços do vinho lá ia bebendo uma pequena malga do apreciado líquido. Depois de muito bebido e comido, deixou-se o "Vira-Pipas" levar pelo sono, de modo que já só noite dentro acordou e contou o sucedido para os lados da Orada ao seu amigo. Conhecendo os hábitos do Tomé, este só se riu, não acreditando em tão fantasiosa história. Mas como o Tomé insistia tanto, concordou em confirmar o acontecido com uma visita à igreja. Ao entrarem, verificaram que a imagem da Virgem estava no seu lugar. O único surpreendido era o "Vira-Pipas"!
No dia seguinte, muito envergonhado, decidiu o Tomé ir à Senhora da Orada mais cedo do que era costume. Para testar as suas capacidades, num grande esforço, não bebeu a sua malguinha de vinho, nem o imprescindível «mata-bicho»! Chegou até a meter a cabeça debaixo da fonte, para dissipar os possíveis vapores alcoólicos do dia anterior.
Na capela verificou que só estava o menino Jesus, sentado, com aquela cara de choro que toda a criança tem quando a mãe não o leva ao colo. Tomé ficou abismado, sem saber o que fazer. Com medo que se rissem dele, não contou a ninguém, preferindo entregar-se ao trabalho, ao ponto dos conhecidos ficarem admirados com tal dedicação. De manhã e à noite ia à capela, e verificou que a senhora da orada voltava à noitinha. Umas vezes levava o menino, outras não. Só o Tomé sabia destas fugas, e pressentiu naquele mistério uma grande responsabilidade. Não lhe passava da ideia o que lhe acontecera, julgando-se destinatário de uma mensagem da Senhora para que abandonasse o consumo do álcool. Por isso, começou a diminuir no vinho, o que a todos surpreendeu!
  Enquanto isto sucedia ao pobre do Tomé, em Riba de Mouro no concelho de Monção, os habitantes viraram-se para a milagrosa Senhora da orada a fim de se livrarem da mortífera peste, que por aqueles anos assolava toda a região. Para agradar à Senhora, prometeram uma romagem anual à capela.
  Depois de aparecerem os primeiros casos, surgiu na dita freguesia uma senhora, muito bonita e educada, que dizia saber como tratar aquela doença. Ninguém sabia donde ela viera. Entrava na casa das pessoas doentes, mandava fazer um chá com uma planta que trazia no alforge, e, juntando outras ervas, mandava preparar um banho que ela própria passava no corpo do doente, fosse mulher, criança ou homem. Recomendava às pessoas que se lavassem com ervas de Santa Maria e folhas de sabugueiro, que defumassem as casas com alecrim, e lavassem as roupas amiúde. A bondosa dama não tinha mãos a medir! De manha até à noite, não parava de atender os doentes. Não comia nem aceitava convite para ficar à noite com eles. Quando trazia um menino, que dizia ser seu filho, este ajudava a descobrir a erva de Santa Maria e os sabugueiros que o povo não sabia onde mais encontrar.
  Entretanto passaram-se quarenta dias, e a peste abrandou. Poucas pessoas sobreviveram ao flagelo, mas em Riba de Mouro ninguém morreu! A senhora que tinha ajudado a população desapareceu tal como havia surgido. Todos se perguntavam agora sobre a identidade daquela misteriosa senhora. Alguém se lembrou, então, que a roupa, e até a fisionomia, eram iguais à da Senhora da Orada!
  Nesta certeza, logo partiram em romaria ao seu santuário, agradecendo a protecção. Vendo tal devoção e escutando o sucedido, o Tomé entendeu rapidamente o que lhe tinha sucedido e resolveu contar a todos os desaparecimentos da Senhora naqueles dias anteriores. Agora, todos acreditaram! Os romeiros partiram, espalhando o relato do milagre por todas as freguesias.

Extraído de:
http://www.nortept.com/lendas

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

A Capela de Nossa Senhora da Orada (Vila de Melgaço)


Planta longitudinal orientada, composta por uma só nave e ábside quadrada. Volumes articulados com cobertura de telha a duas águas. Fachada principal enquadrado lateral e frontalmente por contrafortes e terminado em empena encimada por cruz foliculada sobre dorso de carneiro. Portal de três arquivoltas com enxaquetados, motivos vegetalistas, molduras e besantes, sobre imposta corrida e esculpida assente em colunas com capitéis vegetalistas. Encima-o cornija sobre cachorrada e fresta com colunelos, capitéis lisos, arquivolta e frisos envolventes de motivos vegetalistas e geométricos. Fachadas laterais corridas por friso e vários modilhões de apoio a dependências, fresta central, cornija sobre cachorros esculpidos e portal lateral; o do N. de arco de volta perfeita, e nós de Salomão gravados nas aduelas, sobre impostas zoomórficas; tímpano com árvore da vida ladeado por harpia e outro animal. Ábside com cornija besantada sobre cachorros esculpidos e fresta na parede testeira, abrindo para fora em arco quebrado. Interior com cobertura de madeira; de ambos os lados corre soco; arco cruzeiro quebrado, de duas arquivoltas: a exterior com friso esculpido sobre imposta e a interior sobre colunas com capitéis quadrangulares; ladeia-o dois nichos estreitos de arco quebrado e encima-o fresta. Na parede da Epístola inscrição. Capela-mor com pavimento mais alto, fresta da parede testeira abrindo também para o interior e dois nichos laterais, de arco quebrado.

Algumas referências históricas...

Em 1166, verifica-se a doação do senhorio de Orada ao mosteiro de Fiães pela Condessa Froila; 1170 - integrava-se no couto que D. Afonso Henriques outorgou ao mesmo mosteiro; por se encontrar em ruínas, D. Afonso Henriques manda-o reedificar, segundo escritura de doação feita por D. Sancho I em 11 Setembro 1204; 1189 - D. Sancho I deu aos frades de Fiães os quatro casais e meio de Figueiredo pela remissão dos seus pecados e pela herdade de Santa Maria da Orada que seu pai D. Afonso, lhes deu; 1211 - D. Afonso II teve algumas questões com as Infantas suas irmãs por causa dos bens que D. Sancho I lhes legou; 1218 - o senhorio da capela e seus bens estavam em dívida, e durante o século Portugal manteve pleitos mais ou menos declarados com Espanha por causa dela; 1220 - documento refere a capela como eremitério; 1245 - data inscrita junto ao arco triunfal assinalando a reconstrução da igreja, provavelmente substituindo a primitiva, possivelmente um eremitério dos frades de Fiães; a capela era administrada pelo Convento de Fiães; 1258 - Inquirições referem que foi usurpada ao património real e dado a um convento, sem o vigário da terra ter escrito no rol o consagrado - "Perdit Dominus Rex illud" - perdendo-o assim o rei; 1303, 5 Maio - Lourenço Gonçalves Raposo, morador na Bouça, doa trinta soldos à ermida de Santa Maria de Orada pela leira que tinha e fazia "Corredoira" de Orada, mandando que a sua geração dê anualmente à ermida os trinta soldos; posteriormente os frades deixaram de ali ter o seu eremitério, levando as chaves da capela para Fiães, passando assim a estar fechada grande parte do tempo; 1567 - construção do cruzeiro com imagem de Cristo crucificado em frente da capela da Orada, durante um período da peste, como agradecimento por Melgaço ter sido poupada ou a pedir por aqueles que morreram; 1652, 13 Fevereiro - testamento de Catarina Rodrigues, da freguesia de São João de Sá, termo de Valadares, recomendando uma Avé Maria do Rosário de Nossa Senhora da Orada à imagem da capela; 1691 - data inscrita numa pedra lavrada posta a descoberto nas obras de restauro dos anos 40; séc. 17 / 18 - substituição do antigo arco cruzeiro, feitura do púlpito, coro e outros melhoramentos; 1737 / 1738 - Marta Rilva foi a Fiães levar uma carta e pedir licença aos frades para se recolher na Orada a procissão e pedir-lhe a chave da grade, como era costume, e para trazer o Senhor caído; 1758, 24 Maio - segundo o padre Bento Lourenço de Nogueira nas Memórias Paroquiais, a capela de Nossa Senhora da Orada tinha sido fundação dos Templários, pertencia aos monges de São Bernardo do Mosteiro de Fiães e ficava junto à estrada que ia para a raia seca, que dividia Portugal da Galiza; 1834, até - pertencia ao mosteiro de Fiães, altura em que devido à extinção das ordens religiosas, foi entregue às autoridades concelhias; 1888, 1 Janeiro - D. Albina Olímpia de Sousa e Castro, sendo então fabriqueira da capela, oferece um campo na zona da capela, para criar um terreiro frontal à mesma; 1898, 15 Fevereiro - aquando da abertura da estrada nacional de Melgaço para São Gregório, a Junta de Freguesia deliberou colocar o Cruzeiro da Orada no centro do pequeno recinto, à margem da estrada, na confluência das freguesias de Santa Maria da Porta e Santa Maria Madalena de Chaviães, porque até ali estava junto à parede de suporte do terreno da capela; destruição da galilé da capela.


Algumas caraterísticas particulares
Trata-se de uma igreja de fábrica muito cuidada e custosa em relação ao local de implantação, ainda hoje isolada, revelando assim grande devoção. A maior concentração de motivos de carácter apotropaicos gravados no portal N. revela seguir a tendência da região em temer os espíritos virem do N.. Nos cachorros observamos temas tradicionais e populares, como o nó de Salomão, suástica flamejante, roseta, etc. e outros mais modernos, como cabeças - rei coroado -, objectos e geometrizados, de escultura bastante cuidada. O portal axial, sem tímpano, e de arco quebrado, pelas bases de plinto bastante alto, reduzido tamanho dos seus capitéis de folhagem e sem volutas, pela modinatura e organização das arquivoltas e do pé-direito, bem como pelos temas, quase heráldicos, que as decoram, deve ser considerada já como protogótico, embora nele se possam ver ainda aves afrontadas, um friso enxaquetado e as malgas, típicas do portal lateral de Paderne. A decoração do tímpano do portal lateral N., com a árvore da vida, constitui uma composição escultural única em Portugal, de grande carácter simbólico.



Informações recolhidas em:
VIEIRA, José Augusto, O Minho Pittoresco, vol. 1, Lisboa, 1886; DGEMN, Boletim nº 19, Porto, 1940; MONTEIRO, Manuel, A Igreja da Senhora da Orada in Boletim da Academia Nacional de Belas Artes, vol. 8, Lisboa, 1941, pp. 22 - 28; ALMEIDA, Carlos Alberto Ferreira de, Primeiras impressões sobre a Arquitectura Românica Portuguesa in Revista da Faculdade de Letras, vol. 2, Porto, 1971, pp. 65 - 116; PINTOR, Pe. M. A. Bernardo, Antiguidades Melgacenses. A Capela da Orada in Voz de Melgaço, Melgaço, 15 Jan. 1975; idem, Melgaço Medieval, Braga, 1975; ALMEIDA, Carlos Alberto Ferreira de, Arquitectura Românica de Entre Douro e Minho (Dissertação de Doutoramento em História de Arte), vol. 2, Porto, 1978; idem, O Românico in História da Arte em Potugal, vol. 3, Lisboa, 1986; ibidem, Alto Minho, Lisboa, 1987; ALVES, Lourenço, Arquitectura Religiosa do Alto Minho, Viana de castelo, 1987; FERREIRA, João Palma, Nossa Senhora da Orada tem Elementos Orientais in A Capital, Lisboa, 2 Maio 1988; Relatório dos Trabalhos de Acompanhamento Realizados pela Unidade de Arqueologia da Universidade do Minho, ao Abrigo dos Protocolos com a Direcção Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais (1997 - 1999) (2001 - 2002), (Universidade do Minho), Braga, 2002; ESTEVES, Augusto César, Obras completas nas páginas do Notícias de Melgaço, vol. 1, tomo 2, Melgaço, 2003; http://www.monumentos.pt/Site/APP_PagesUser/SIPA.aspx?id=3498