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sexta-feira, 30 de junho de 2017

As paróquias de Melgaço no início do século XVIII


No início do século XVIII, o território do concelho de Melgaço era bem diferente do atual. Era formado apenas pelas paróquias de Santa Maria da Porta (Vila), Roussas, S. Paio, Remoães, Paços, Chaviães e Cristoval. Devemos ter presente que na época Paderne e Fiães eram coutos dos respetivos conventos e por isso com jurisdição própria (o couto de Paderne incluía Cubalhão). Castro Laboreiro era concelho. Alvaredo, Penso, Gave, Lamas de Mouro e Parada do Monte pertenciam, à época, ao então concelho de Valadares. 
No livro "Corografia portugueza e descripçam topografica do famoso Reyno de Portugal" (volume III), publicado em 1712, encontramos muitas informações sobre Melgaço e as suas paróquias, incluindo o número de habitantes estimado de cada uma delas:
"Três léguas acima de Monção para nascente, e uma da raia de Portugal e Galiza para o poente, está situada a vila de Melgaço, a quem os rios Minho e o pequeno Várzeas (Trancoso), que nele se mete da parte do oriente em ângulo reto dividem o seu termo do Reino da Galiza. A mais antiga notícia que achamos da sua fundação é que El Rey Dom Afonso Henriques a povoou no ano de 1179, fabricando nela uma grande fortaleza na parte em que estava outra chamada Minho. No ano de 1181, a 22 de Julho, deu o mesmo rei aos moradores desta  vila, o lugar de Chaviães. Segunda memória é o título de bens e couto que El Rey Dom Sancho, o Primeiro, deu ao mosteiro de Longos Vales em Monção, estando na cidade do Porto no ano de 1197, do qual diz que fazia esta mercê pelo assinalado serviço que lhe fizera Dom Pedro Pires, Prior que então governava o Convento, em lhe fazer à sua custa a Torre e fortaleza de Melgaço e devia reforma-la. El Rey Dom Sancho, o Capelo, lhe deu grandes foros e privilégios, que confirmou seu irmão El Rey Dom Afonso, o Terceiro, no ano de 1262 mandando que nela houvesse trezentos e cinquenta vizinhos, permitindo-lhe que pudessem eleger um cavaleiro português para alcaide daquele castelo e que sendo pessoa benemérita, ele o confirmaria. El Rey Dom Dinis a enobreceu e cercou de novos muros, tudo forte para aqueles tempos, mas para os presentes fraquíssima, por ter penhascos, que lhe servem de batarias cobertas a tiro de clavina. Tem boas e férteis terras, pela  maior parte todas, mas em particular o vale da Folia com grandes ventagens: dá muito pão e vinho, frutas, feijão, hortaliças e cebolas muy celebradas por doces e as melhores desta província, excelentes presuntos sem sal, caça do monte, e pescas do rio de boas lampreias, bons linhos, castanha, mel, gado e lacticínios. Tem cento e vinte e seis vizinhos muito nobres com casas e quintas honradas. São as melhores as dos Castros e Sousas, que por muitos anos foram alcaides mor desta vila, de quem descendem grandes fidalgos deste reino, os Araújos e Rosas. Estes têm duas sepulturas honoríficas na capela mor da Matriz, uma que venderam aos Castros, outra no corpo da igreja à parte esquerda junto do altar de Nossa Senhora. Nestas últimas guerras com Castela, deu famosos soldados, que ocuparam grandes postos. É da Casa de Bragança e tem juiz de fora, que também o é dos Orfãos e tem a mesma preeminência o Juiz da terra quando aquele falta, dois vereadores, Procurador do Concelho, eleição trienal do povo por pelouro, a que preside o ouvidor de Barcelos, escrivão da Câmara, três tabeleões, um escrivão dos Orfãos e outro das sizas: O alcaide mor tem de renda vinte e dois mil reis e uns carros de palha e lenha e pesqueiras no rio Minho, o qual apresenta alcaide carcereiro com vinte mil reis de renda, tudo data dos Duques.Tem Capitão Mor, que nomeia a Câmara, os Duques o confirmam e lhe passam a patente; quatro companhias de ordenanças, em que serve o mais antigo de Sargento Mor. Tem Casa da Misericórdia, Hospital e as freguesia seguintes:
- Santa Maria da Porta, abadia da casa de Bragança e do Mosteiro de Fiães com alternativa ordinária, rende duzentos mil réis. A um tiro de mosquete da praça está a Ermida de Nossa Senhora da Orada, imagem de muita devoção pelos milagres que obra.
- Santa Maria Madalena de Chaviães, abadia da mesma Casa, rende cento e cinquenta mil réis e tem conto e trinta e sete vizinhos.
- Santa Ana de Paços, vigararia que apresenta o Mosteiro de Paderne, rende oitenta mil réis ao Vigário e para os frades cento e quarenta mil réis; tem cento e sessenta vizinhos.
- S. Martinho de Cristóval, abadia em que teve parte o Mosteiro de Fiães, hoje é toda do Ordinário, rende duzentos e cinquenta mil réis, tem cento e cinquenta e nove vizinhos. Aqui está a Ponte da Várzeas, que divide este Reino do da Galiza.
- Santa Marinha de Roussas, abadia do padroado secular, que dizem foi dos senhores do Paço de Roussas, do apelido de Besteiros, família tão antiga, como nobre, a quem o tempo e pobreza tem atenuado de modo, que poucos lavradores o tomam hoje. Tem por armas em campo azul uma torre firmada em pedras azuis e três bestas de ouro, duas do lado da torre e uma em cima, timbre a mesma torre com uma besta no alto. O Solar passou aos Castros e o padroado a Manuel Pereira, o Mil Homens de alcunha, morador em Monção, cuja filha herdeira casou na Galiza. Rende a Igreja ao abade duzentos mil réis e tem cento e cinquenta vizinhos.
- S. Paio é o mesmo a que Sandoval chama Mosteiro de S. Paio de Paderne, haveria-o sido antes dos mouros e a Infanta Dona Urraca, filha de El Rey Dom Fernando, o Magno, dotou a metade do seu Padroado à Sé de Tui e a seu bispo Dom Jorge no ano de 1071 com o lugar de Prado, que ainda então não devia ser paróquia, e  outros bens e vassalos. Em 13 de Abril de 1156 que vem a ser o ano de 1118, deu à mesma Sé e ao bispo Dom Afonso a quarta parte da mesma igreja, Onega Fernandes, parece que sendo viúva,  com filhos Paio Dias e Argenta Dias, que confirmaram esta doação, a qual tomou o hábito de monja, entendemos que em Paderne, e nesta mesma deu também o que lhe tocava e na de S. Martinho de Valadares (Alvaredo). Ultimamente, a rainha Dona Teresa e seu filho Dom Afonso Henriques da era de 1163 que é o ano de 1125 deram ao mesmo bispo esta igreja e dizem na doação que lha dão inteira. Mas a meu ver, seria o quarto que nela tinham com que lhe vinha a ficar in folidum. É abadia secular do Ordinário com as duas anexas que se segue, tem a quarta parte dos dízimos, importa sessenta mil réis, ao todo cem mil réis; o outro quarto a que chamam a renda do Castelo, leva-a a Casa de Bragança e a metade a Mesa Arcebispal. Tem duzentos vizinhos.
- S. Lourenço de Prado, vigararia anexa a S. Paio, que apresenta o abade dela, rende ao vigário cinquenta mil réis, os dízimos vão na Matriz. Tem cento e quinze vizinhos.
- S. João de Remoães, vigararia do mesmo abade, a quem é anexa, rende ao vigário vinte e cinco mil réis, os dízimos vão para a Matriz. Tem oitenta e dois vizinhos. Aqui está a Juradia da Várzea sujeita a Melgaço, mas da freguesia do Mosteiro de Paderne em terras de Valadares."


Extraído de: COSTA, António Carvalho da, (1712) - Corografia portugueza e descripçam topografica do famoso Reyno de Portugal. Tomo III; Officina de Valentim da Costa Deslandes, impressor de Sua Magestade; Lisboa.

sexta-feira, 7 de abril de 2017

Os soldados de Melgaço na Batalha de La Lys (1918): Os caídos em combate



Foi há cerca de 100 anos que os primeiros soldados do contingente que Portugal enviou para combater em França na I Guerra Mundial chegaram à Flandres. Com base nos dados de que disponho, de Melgaço, partiram para a guerra 69 homens, oriundos das diversas freguesias.Estes homens foram autenticamente “roubados” às suas vidas e obrigados a ir para uma guerra para a qual não estavam preparados. Paderne, com 13 homens, Penso, com 11 homens e Vila, 10 homens são as freguesias melgacenses que mais contribuiram em termos de número de efetivos. Estes homens da nossa terra, feitos soldados, tinham todos à data do embarque, idades entre 22 e 27 anos completos (nascidos entre 1891 e 1895).
Assim, entre Janeiro e Novembro de 1917, partiram estes homens do porto de Alcântara, rumo ao porto de Brest (França) numa viagem de navio de vários dias. Daí seguiram de comboio até à zona sul da Flandres francesa perto de Armentières, nos vales dos rios Lys e Aire.
Depois de uma curta estadia em Brest, porto de desembarque das tropas portuguesas, seguia-se o transporte, de comboio, até à região de “Aire”, zona destinada às tropas do CEP.
E foi num clima agreste, de neve, chuva e frio, língua e costumes tão diferentes dos seus, que estes homens da nossa terra e as tropas portuguesas tiveram de suportar mais de um mês de treino complementar, junto do exército britânico, para se poderem “familiarizar” com as armas inglesas com que iam combater e com as novas formas da guerra que iam conhecer de perto.
Na guerra, dos 69 homens de Melgaço que partiram, 10 morreram caídos em combate ou devido a outras causas como doenças. O primeiro melgacense a morrer em combate foi o soldado António Alberto Dias, natural do lugar da Verdelha (Paderne) que faleceu a 9 de Outubro de 1917 na Flandres (França). 
Quatro dos caídos em combate, faleceram durante a Batalha de La Lys (9 de Abril de 1918). São eles os soldados José Cerqueira Afonso, de Paços (Melgaço); José Narciso Pinto, de Chaviães; João José Pires, da freguesia de Paços (Melgaço), António José da Cunha, natural da freguesia da Santa Maria da Porta (Vila – Melgaço). O último pertencia ao 6.º Grupo de Baterias de Metralhadoras e os três primeiros eram soldados que pertenciam à 4ª Brigada de Infantaria do CEP, Regimento de Infantaria n.º 3 (Viana do Castelo). Esta era conhecida como a Brigada do Minho, a que pertenciam a maioria dos soldados melgacenses, e já tinha conquistado uma reputação de bravura na frente de batalha muito antes de lhe ser confiada, em Fevereiro de 1918, a defesa do sector de Fauquissart, em Laventie, na Flandres francesa, perto da fronteira com a Bélgica, onde ainda se encontrava nesse fatídico dia 9 de Abril de 1918, quando foi dizimada pelos alemães na dita batalha de La Lys. Faz amanhã, 9 de Abril, 99 anos...

MELGACENSES MORTOS NA BATALHA DE LA LYS (LEVANTIE, FLANDRES FRANCESA)
  • João José Pires, soldado da 2.ª Companhia do Regimento de Infantaria n.º 3; nascido a 28 de Abril de 1893 no Outeiro, lugar da freguesia de Santa Maria de Paços, filho de José Joaquim Pires e de Alexandrina Pires; solteiro e morador em Paços; embarcou para França integrado no Corpo Expedicionário Português a 15 de Abril de 1917, onde pertenceu à Brigada do Minho; falecido em combate na Batalha de La Lys a 9 de Abril de 1918. Encontra-se sepultado no Cemitério de Richebourg l`Avoué (França), Talhão C, Fila 10, Coval 5.


Sepultura do soldado João José Pires
(Cemitério Militar de Cemitério de Richebourg l`Avoué, França)


  • José Narciso Pinto, soldado da 4.ª Companhia do Regimento de Infantaria n.º 3; nascido a 3 de Março de 1893 na Igreja, lugar da freguesia de Santa Maria Madalena de Chaviães, filho de Manuel António Pinto e de Cândida Maria Alves; casado e morador em Chaviães; embarcou para França integrado no Corpo Expedicionário Português a 22 de Abril de 1917, onde pertenceu à Brigada do Minho. Falecido em combate na Batalha de La Lys a 9 de Abril de 1918. Encontra-se sepultado no Cemitério de Richebourg l`Avoué (França), Talhão D, Fila 3, Coval 24.
Sepultura do soldado José Narciso Pinto
(Cemitério Militar de Cemitério de Richebourg l`Avoué, França)



  • António José Cardoso Ferreira Pinto da Cunha, segundo-sargento do Regimento de Obuses de Campanha; nascido a 28 de Julho de 1892 na Rua Direita, vila e freguesia Santa Maria da Porta de Melgaço, filho de António José Ferreira Pinto da Cunha e de Carlota Amália Cardoso; solteiro e morador na vila de Arcos de Valdevez; embarcou para França integrado no Corpo Expedicionário Português a 20 de Agosto de 1917, onde pertenceu ao 6.º Grupo de Baterias de Metralhadoras. Participou na Batalha de La Lys. Inicialmente dada com desaparecido em combate. Mais tarde considerado morto em combate na dita batalha a 9 de Abril de 1918. Desconhece-se o paradeiro dos seus restos mortais.
Nesta investigação, fui descobrir uma carta que este Segundo Sargento Pinto da Cunha, escrita algures na primeira metade de 1917, à data estudante no liceu de Guimarães, escreveu a uma pessoa influente para que esta intercedesse junto do ministro da Guerra, Bernardino Machado, no sentido de obter dispensa do curso de sargentos até Julho de 1917, para poder frequentar o liceu e fazer exame do então 5º ano. Argumentava que já no ano anterior não tinha podido terminar este nível dos estudo por ter sido chamado ao quartel. Desconheço a resposta a esta missiva.


Carta de António José Cardoso Ferreira Pinto da Cunha

  • José Cerqueira Afonso, soldado da 4.ª Companhia do Regimento de Infantaria n.º 3; nascido a 14 de Março de 1892 nas Fontes, lugar da freguesia de São Salvador de Paderne, filho de Inácio José Afonso e de Maria Cerqueira; casado e morador em Paderne; embarcou para França integrado no Corpo Expedicionário Português a 22 de Abril de 1917, onde pertenceu à Brigada do Minho; falecido em combate na Batalha de La Lys a 9 de Abril de 1918.
Sepultura do soldado José Cerqueira Afonso
(Cemitério Militar de Cemitério de Richebourg l`Avoué, França)

Esta batalha foi um dos maiores desastres de toda a História Militar portuguesa. A mesma é contada por um soldado português que nela esteve envolvido numa carta enviada à família. Na mesma, datada de 11 de Julho de 1918, o soldado tentou reconstituir, em breves palavras, os acontecimentos daquela noite: “Às quatro horas da manhã do dia 9 de Abril de 1918 rompe um enorme bombardeamento por parte do inimigo, coisa essa que nós, à primeira vista, não estranhámos, visto que já estávamos habituados a tudo isso, mas o prazo desse bombardeamento foi-se prolongando e as horas foram-se passando, e já depois de o inimigo ter feito grandes tentativas para avançar para as nossas trincheiras e sempre repelido pelo nosso fogo, continua o grande bombardeamento com uma tal violência que ao fim de algumas horas o chão estava todo voltado com o debaixo para cima, um completo horror, é mesmo inexplicável. Milhares e milhares de infelizes portugueses tinham desaparecido, uns despedaçados pelos ares, outros tinham ficado soterrados para jamais serem vistos”.
De manhã, chegara a hora de contabilizar as baixas: 398 mortos (369 praças e 29 oficiais) e uma esmagadora maioria de prisioneiros (6585, dos quais 6315 eram praças e 270 oficiais).
Deste total de prisioneiros de guerra, nove soldados eram melgacenses. Inicialmente, estes homens foram dados como “desaparecidos em combate” e esse facto foi comunicado às famílias. Vários meses mais tarde, após o fim da guerra, em Novembro de 1918, a Comissão dos Prisioneiros de Guerra, comunicou que estes homens se encontravam em campos de prisioneiros na Alemanha, pondo fim a meses de sofrimento dos soldados e das suas famílias que os julgavam mortos. Chegaram-se a fazer funerais sem corpo por este país fora. 
Quem foram os soldados melgacenses desaparecidos em combate? De que freguesias eram? Em que campos de prisioneiros estiveram? Como regressaram a Portugal? E muitas outras respostas...
Conto-vos na próxima publicação!

Fontes consultadas:
- Arquivo Histórico do Exército;
- OLIVEIRA, Maria José (2011) – “Deste triste viver" – Memórias dos prisioneiros de guerra portugueses na primeira Guerra Mundial. Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Unoversidae Nova de Lisboa, Lisboa;
- MARQUES, Isabel Pestana, op. cit., p. 389; AFONSO, Aniceto, 2008, Grande Guerra. Angola, Moçambique e Flandres. 1914/1918, Lisboa, Quidnovi, Col. Guerras e Campanhas Militares, p. 106;

- TEIXEIRA, Nuno Severiano, 1992, “A Fome e a Saudade. Os Prisioneiros Portugueses na Grande Guerra”, in Penélope. Fazer e Desfazer a História, Lisboa, nº 8, p. 102.

::::::::::::::::::::::::::::::::::::CONTINUA::::::::::::::::::::::::::::::::::::: 

sexta-feira, 31 de março de 2017

Um passeio até à fronteira de S. Gregório (Melgaço) em 1913


No início do século passado, Melgaço e as sua águas estavam na moda. Os aquistas além de desfrutarem das virtudes das sua águas milagrosas, gostavam de dar os seus passeios. Um dos passeios mais apreciados era saírem dos hotéis e irem dar uma volta até à fronteira de S. Gregório e apreciarem as belezas do vale do Minho. Em 1913, um desse passeios ficou descrito numa reportagem publicado na revista Ilustração Portugueza: 

"No Extremo Norte de Portugal
À tarde, em pleno mês de Julho, quando os cravos ensanguentam os muros dos hortejos, - é agradável abalar em direção a S. Gregório.
O veículo, tirado a dois finos, nervosos cavalos, roda serenamente sobre um macadam lavado, batido de sol. Atravessada a pequena ponte, onde delicado regato se escoa por entre rosários de redondos, polidos seixos, - pinheiros esguios, de cor verde azeitona, acolhem, num requinte de fidalga gentileza, os transeuntes com a sua sombra protetora, amável.
Bouquets de flores silvestres pintalgam, mancham numa orgia de coloração forte, bizarra as leiras que se estendem por aí fora. Do alto da estrada, após ligeira curva, enorme veiga se desenrola até à vista poisar na fita de montanhas que abraça carinhosamente o Peso. À esquerda, a via pública, que dá acesso às termas, com os seus hotéis e habitações indígenas.
Acolá, o casarão da Quinta do Peso, onde lindas rosas chá se entrelaçam volutuosamente pelo frontispício do hotel como que tentando, numa ânsia revolucionária, esconder maliciosamente o brasão de visconde, que encima o velho solar.
É a região do Belo em guerra aberta de extermínio às velharias. À direita, a povoação raiana – Arbo, sobranceira ao rio.

Carruagem Taxi da época a travessar a PonTe do Martingo, próximo do Peso (Melgaço)
(Foto de Aurélio da Paz dos Reis)

Da nossa margem, ciprestes, grandes de altivez, postam-se à entrada de vetustas residências solarengas. No fundo, seguindo um carreiro bordado de fetos, o manancial milagroso das águas minerais.  Para além, deixado os vinhedos que se agacham medrosamente pelas leiras, surge a encarroada torre do castelo de Melgaço. Mais alguns metros percorridos, num ápice, ei-nos no lugar de Prado. Quintas e pomares, próprios para almas floridas de ventura, vão ficando presos ao nosso olhar apaixonado.

Torre de Menagem do castelo de Melgaço

Deixemos Melgaço, com os prédios a debruçarem-se sobre a corrente do Minho, e tomemos a estrada que segue para o extremo norte da pátria lusitana.
Cristos, de rosto macerado, incutindo fé ao viajante, e alminhas que penam num inferno de tostas, inestéticas figuras, em profusão, se deparam. De Marelhe, olhando para baixo, descortina-se majestoso panorama.
Lá está, emergindo de entre viçoso ramalhete de verdura, a freguesia de Paços, salpicada de imersos casões escuros. Por toda a parte aqui, ali, acolá, se divisam canteiros cuidadosamente amanhados. Uns retangulares, tabuleiros arrelvados que amaciam a retina, outros em quadrilátero, tapete policromo. É o verde do linho, o matiz aloirado do centeio que está a pedir a sega.
Circunda-se a vinha baixa, que oscula levemente o solo abençoado, ou a cheirosa madressilva que se enovela em ouriçada cabeleira, pontuada de negras e apetitosas amoras. Vê-se na outra banda a paróquia espanhola de Crecente. O caminho de ferro do país vizinho, duas filas de aço luzidio, contorna o rio Minho, que nos vai amigavelmente separando da Galiza. As telhas, de nuances carregadas, batidas fortemente pelo reflexo solar, berram atrevidamente na paisagem campesina.
A maior parte, representam propriedade de gente que, quando menina e moça, demandou aos Brazis, em busca do oiro almejado.
A água espadana-se, precipita-se às catadupas monte abaixo. Silhuetas de cachopas, de formas esculturais e olhares provocadores, agarotados, formigam nas agras, enquanto, - mais adiante - rapazes, descaradamente, com ligeirezas de acrobata, rebolam-se à vontade na relva.

S. Gregório no início do século XX

À nossa frente, de ponto em branco, S. Gregório. À entrada, meia dúzia de casitas alinham-se. Esta povoação teve em tempos de antanho grande movimento comercial com os pueblos fronteiriços. O comboio galego, depois, deu-lhe o golpe mortal. Então, mantinha estabelecimentos importantes como demonstram os prédios construídos nessa época. A rua Verde, a mais movimentada da terreola, desce por escabrosa ladeira à ponte internacional sobre o rio Trancoso. 

Ponte Internacional de S. Gregório/Ponte Barjas
(Foto de Aurélio da Paz dos Reis)

Das janelas das casas cravos rubros fintam atrevidamente quem passa. Castanheiros seculares, de frondosa ramaria, trepam ousadamente encosta acima. Calcorreando alguns metros de piso escorregadio, estamos na ponte. Meia dúzia de velhas, desmanteladas tábuas ligam-nos ao lugarejo espanhol Ponte Barjas. Sob o tosco pontilhão, leques de verdura prendem-se nervosamente. E as águas, rio abaixo, num turbilhonar desordenado, cobrem de beijos loucos os ventres roliços das pedras.

Peso (Melgaço) – Julho de 1913."


Extraído de:
- Reportagem "No extremo norte de Portugal" In: Revista "Ilustração Portugueza", edição de 4 de Agosto de 1913.

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

A Guerra da Restauração nas fronteiras de Melgaço (Parte 1)

As atrocidades cometidas nas aldeias de Melgaço durante a Guerra da Restauração (1641)

Cristóval (Melgaço) na atualidade
Mais de um século depois da Restauração da independência portuguesa em 1640, um livro intitulado "História do Portugal Restaurado", publicado em 1751, conta-nos muitos episódios da Guerra da Restauração. Entre outras passagens, fala-nos das atrocidades cometidas pelos soldados portugueses e espanhóis nas povoações raianas de Melgaço e localidades galegas do outro lado da fronteira no ano de 1641. Aldeias em Paços, Cristóval ou Castro Laboreiro (Melgaço) foram incendiadas e saqueadas. Era o estalar da Guerra da Restauração...
O dito livro conta-nos que: "Nestes dias, andando em Melgaço, rondando as sentinelas junto do rio, o Capitão de Infantaria Francisco de Gouvea Ferraz, estimulado de ouvir da outra parte do rio a um soldado galego algumas palavras contra o decoro del rei, se lançou impetuosamento ao rio, e passando a nado, se achou da outra parte sem oposição, porque o galego, medroso, do seu lado se retirou, antes que ele chagasse, podendo facilmente tomar vingança da sua ousadia. Tornou da mesma forma a voltar a Melgaço, e logrou o merecido aplauso da sua resolução.
De Janeiro até Julho se passou de uma e outra parte sem mais empresa do que estas primeiras ameaças de guerra. Em Julho quando se rompeu a guerra no Alentejo, conhecendo El Rei que menear as armas só para a defesa era multiplicar o perigo, e era a paz que se desejava e que se havia de conseguir fazendo guerra, ordenou aos governadores para dar armas de todas as províncias, que entrassem em Castela. Não dilatou D. Gastão a obediência e deu logo ordem a Frei Luiz Coelho da Sylva, Cavaleiro da Ordem de S. João, que com a gente de Viana, embarcada numa galeota, duas lanchas e alguns barcos passasse a queimar a vila da Guardia, situada defronte de Caminha. Mandou a D. João de Souza, Capitão Mor de Melgaço, que entrasse ao mesmo tempo pela Ponte das Várzeas (próximo a S. Gregório); António Gonçalves de Olivença pelo Porto dos Cavaleiros; por Lindoso, Manuel de Souza de Abreu e pela Portela do Homem, Vasco de Azevedo Coutinho. Todas estas entradas se executaram em lugares muito distantes uns dos outros e toda esta gente não levava mais disposição que a do seu valor. Porém ignorar os perigos que buscava, a fazia mais resoluta, achando a fortuna favorável, que costuma pôr-se da parte dos temerários. D. Gastão passou à Insula, pouco distante da Guardia, para observar deste sítio o sucesso dos Vianenses, de que não resultou mais, que voltarem-se com dois barcos de pescadores. Irritou-se muito D. Gastão deste desconcerto, como se as disposições desta empresa não insinuaram o sucesso dela. Na Insula, mandou D. Gastão levantar um reduto, parecendo-lhe sítio acomodado e que necessitava de segurança. Os mais que entraram em Castela saquearam e queimaram algumas aldeias e trouxeram despojos, que os obrigou a se animarem a maiores empresas. Governava o Reino de Galiza, o Marquês de Val-Paraíso. As prevenções e disciplina daquela parte não excediam muitas muito as nossas e só havia diferença de se haverem nomeado oficiais, que entendiam a guerra, de que resultava terem os soldados melhor notícia dela.
Poucos dias depois de retirada a nossa gente, mandou o Marquês de Val-Paraíso 800 infantes à freguesia de Cristóval (Melgaço), que é na raia junto ao rio Várzea (rio Trancoso), e queimaram algumas aldeias, sem perdoar o insulto ao sagrado das igrejas. Passaram à freguesia de Paços que segue a Cristóval. Acudiu D. João de Sousa e Francisco de Gouveia, o que havia passado o rio a nado, e trazendo consigo só 70 homens, ocuparam a passagem do rio e obrigaram os galegos a que se retirassem perdendo 40 homens. Estas entradas, que pareciam mais de bandoleiros que de soldados, se alternavam de uma e outra parte com pouca vantagem nos sucessos. Com a notícia da entrada que os galegos fizeram, tornou D. Gastão a convocar a gente, tornou D. Gastão a convocar a gente que havia dividido, e deu ordem ao Sargento Mor Simão Pita que entrasse na Galiza, pela Ponte das Várzeas, e Manuel de Souza de Abreu pelo Porto dos Cavaleiros. Simão Pita teve notícia que o inimigo engrossava por aquela parte o poder, e susteve a entrada. Manual de Souza passou o Porto dos Cavaleiros com três mil infantes e 40 cavalos e sabendo que o inimigo ocupava o lugar do Facho (Cristóval), por onde forçosamente havia de passar, mandou avançar António Gonçalves de Olivença com 400 infantes a desalojar os galegos, que se achavam com 400 infantes e 150 cavalos. Investiu-os valorosamente António Gonçalves e obrigou-os a se retirarem.
Sem embargo desta desordem, marchou Manuel de Sousa para o lugar de Monte Redondo (Padrenda), grande, rico e fortificado, com duas companhias pagas e outras da ordenança que guarneceu. Chegando ao lugar, mandou avançar as trincheiras pelos Capitães D. Vasco Coutinho, Cristovão Mouzinho e Luíz de Brito, entraram valorosamente e queimaram o lugar à custa das vidas de muitos galegos. A pressa, e o exemplo da gente de António Gonçalves inculcou a desordem porque muitos dos portugueses, que sabiam as veredas, se retiraram para suas casas com os despojos que colheram. Os galegos que saíram do lugar ocuparam a aspereza de um monte, que era o caminho por onde Manuel de Sousa forçosamente havia de passar. Vendo ele que era necessário vencer esta dificuldade, deu ordem a que avançasse toda a gente a desocupar aqueles sítio e não havendo melhor disciplina que a da competência, disse que aquele que chegasse primeiro, lograria o aplauso daquela ocasião. O valor de todos dissimulou este desconcerto. Porque avançando intrépidos por todas as partes, obrigaram os galegos com morte de alguns a largarem o posto. Aos que se retiravam, se uniram outros, que dos lugares vizinhos acudiram ao rebate e chagando ao número de mil infantes e 200 cavalos, e se formaram num vale, mostrando que desejavam pelejar. Facilmente lograram intento, se Manuel de Sousa se não achara com menos duas partes da gente que havia levado à empresa. Retirou-se queimando de caminho algumas aldeias. D. Gastão não estimou tanto o bom sucesso, como sentiu a desordem dos que se retiraram e castigando os que tiveram culpa e dando prémios aos que procederam com acerto, foi pouco a pouco reduzindo a melhor forma a gente daquela província e ao mesmo passo que ensinava, aprendia. Porém aqueles a que sucede serem primeiro generais que soldados, dificilmente saem grandes mestres na escola militar.
Dois dias depois do sucesso referido, entrou o inimigo pelo Porto dos Cavaleiros com dois mil infantes e 300 cavalos e derrotou os Capitães António de Barros, que com duas companhias pagas, guardavam aquele porto. Vindo-se retirando os socorreu a Capitão Mathias Ozório, a que dava apoio o Sargento Mor Simão Pita. Fizeram alto os galegos com perda de alguns oficiais e os soldados voltaram sobre o concelho de Laboreiro, e o lugar de Alcobaça, que destruíram e queimaram. A nossa infantaria recolheu ao Convento de Fiães de frades de S. Bernardo que com esta guarnição ficou livre dos danos que os galegos determinavam fazer-lhe."
A guerra, essa, apenas acabara de começar...  (CONTINUA)

Extraído de: MENEZES, Luiz de (1751) – História de Portugal Restaurado. Tomo I; Oficcina de Domingos Rodrigues; Lisboa.

domingo, 17 de abril de 2016

Agosto de 1919: Pancadaria entre os de Chaviães e os de Paços (Melgaço)

Capela da Senhora de Lourdes (Paços-Melgaço)
Um dos blogues que costumo ler com assiduidade é o “Melgaço, Minha Terra” da autoria do ilustre Joaquim Rocha que pode ler em http://melgacominhaterra.blogspot.pt/  Há dias, li aqui um artigo que me fez recordar as rivalidades entre a malta das diversas freguesias deste concelho e quando inclusivamente se pegavam à pancada... O texto reproduz um artigo de jornal de Agosto de 1919 e centra-se na rivalidade entre a malta de Paços e Chaviães nas festas e romarias... Ora leia: “Lê-se no Jornal de Melgaço n.º 1257, de 3/8/1919: «Está em moda, nas romarias, à tarde ou à noite, haver grossa bordoada. Em Pomares (lugar da freguesia de Paderne), quando no dia 25 se realizava a festividade em honra de São Tiago (Santo Iago), foi o que se viu. No dia 27, quando em Paços se realizava a festividade em honra de Santa Ana, também não faltou a traulitada entre a rapaziada de Paços e a de Chaviães. Que ela se desse em Pomares, quando se festejava o São Tiago, admitimos, visto tratar-se de um herói na traulitada aos moiros; mas tratando-se da avó de Jesus, que decerto devia ser toda bondosa, parece que não fica bem. Mas, como os desordeiros acham sempre bem, toda a vez que podem pregar a sua traulitada, à tarde, pouco depois de recolher a procissão, houve alguns socos, misturados com bengaladas, o que deu em resultado alguns dos de Paços virem até ao lugar do Esporão onde perguntaram aos de Chaviães se queriam guerra ou harmonia. E como os de Chaviães respondessem que se estavam ali era para bater, e como logo em seguida fizessem com uma traulitada baixar ao chão o Ricardo Alves, de Paços, os companheiros deste desafrontam-no, fazendo também ir a terra uns quatro ou cinco de Chaviães. Não podemos de forma alguma elogiar tais proezas, mas se temos de censurar estas, como não devemos classificar o facto de os “valentes” de Chaviães, depois desse dia, baterem em qualquer pessoa que à Portela do Couto passasse, pelo simples facto de ser de Paços? Desconhecemos as razões anteriores que naquele dia os levaram a vias de facto, não podendo, por isso, avaliar bem a responsabilidade de cada grupo, mas o que toda a gente, desconhecendo embora essas razões e até esses factos, tem de censurar com toda a energia dos seus nervos, é o facto de certos “valentes” da Portela do Couto baterem há dias numa mulher de Sá, conhecida por Maria do Romão. Essa mulher deve ter 60 anos de idade aproximadamente, é viúva e doente, e vive distante um único filho que tem. Nada mais julgo necessário para aquela mulher ser digna de todo o respeito; mas os “valentes” da Portela não o entenderam assim. Saem à estrada, onde lhe perguntam de onde é, e – como ela dissesse que era de Paços – dão-lhe logo duas bofetadas. Por acaso será crime o ser natural de Paços porque os desta freguesia bateram nos de Chaviães? Mais juízo, ó “valentes” da Portela, pois do contrário teremos de chamar a atenção da digna autoridade administrativa para as vossas proezas, mandando-vos chamar a capítulo!»   (Extraído de http://melgacominhaterra.blogspot.pt/)

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

O "Sábio de Vila Draque" (Paços - Melgaço) e outras estórias deste mundo e do outro

Paços (Melgaço) e a sua igreja paroquial

Foi no princípio do século XX, que José Leite de Vasconcelos visitou várias vezes Melgaço, à procura da cultura popular e dos saberes ancestrais das gentes da nossa terra. Esteve em vários pontos do concelho, desde o Peso, onde costumava ficar hospedado, até Castro Laboreiro ou Paderne. Esteve também em Paços, onde terá conhecido uma personagem singular da terra naquela época que dava pelo nome de Manuel Afonso. Era contudo conhecido por “Sábio de Vila Draque” e seria habitante daquele lugar da freguesia melgacense de Paços. Era natural de Castro Laboreiro, e contava o povo na época que terá falado ainda no ventre da mãe, circunstância que lhe conferiu a virtude, manifestada aos seis anos de idade, de adivinhar (através das cartas) e curar. Conta José Leite de Vasconcelos no livro Etnografia Portuguesa que a sua terapêutica se baseava nuns pós de santos, com origem em antigos frades espanhóis do Mosteiro de Celanova. Segundo ouviu o autor, com tais pós embrulhados num papel, fazia curas do ombro direito para o joelho esquerdo e do ombro esquerdo para o joelho direito, recitando os seguintes dizeres: «Negrozelo! Vai-te embora deste corpo, deixa-o são e salvo, com pós de santos e negrozelo». Também curava a dor de dentes, de ossos e de pés, com pedra-de-ara, embrulhada em papel e movendo-a em cruz.
No início do século passado, eram frequentes outras crenças tais como aquelas ligadas a curiosos objetos de aço. Acreditava-se que o aço que picava a terra fica benzido pela natureza. Conforme registo de Leite de Vasconcelos, o «sábio da Vila Draque» curava certas doenças pegando num objeto de aço, posto em cruz na casa, ou na cama sobre o doente, e dizendo a seguinte oração: «Ó aço, que picaste em terra, sirvas para benafício da minha casa! Deixa este corpo são e salvo!». Acrescenta o mesmo autor que o «bruxo» possuía «um pedaço de aço de três pontas que mandou fazer a um ferreiro e benzeram-lho num convento».
Uma outra crença da época em terras de Melgaço estava ligada a encomendar ou  aumentar de almas e consistia em ritual no qual se lembravam os nomes das almas para as encomendar a Deus. A encomendação é realizada dentro de um signo-saimão (parecido com uma estrela de cinco pontas, para o operador não ser tentado pelo Diabo, concluindo a cerimónia com a exclamação: «Peço um Padre Nosso e uma Ave Maria por todas as almas em geral que estão nas penas do purgatório», seguida da respectiva recitação em voz muito alta. Em Castro Laboreiro, consoante informação que deram ao antropólogo José Leite de Vasconcelos, um homem ia (às quartas e sextas-feiras, de noite) a um lugar ermo e alto, armado, «por causa das coisas más», desenhava um signo-saimão no chão (parecido a uma estrela de cinco pontas), de modo que uma árvore ficasse no meio dele, subia a ela e, em voz fúnebre, entoava um cântico religioso, com o qual provocava medo a quem o ouvisse.
Em Melgaço, contaram também a José Leite de Vasconcelos que havia pessoas que rezavam orações ao contrário e que quando o faziam, estavam a fazer um chamamento ao Demónio.

Considera-se destinado ao diabo o Pai-Nosso dito às avessas: “Céu no como, terra na assim, vontade vossa a feita seja, nome vosso o seja, ficado santo, Céu no estais que, Nosso Padre». O mesmo se diz da Ave Maria, rezada às avessas: «Amen morte nossa na hora e agora pecadores nós por rogai Deus de mãe Maria Santa Jesus ventre vosso do fruto o é bendito mulheres as entre vós sois bendita convosco é Senhor o graça de cheia Maria Ave». Aplica-se também esta regra para a Salvé-Rainha.

Informações extraídas de:
VASCONCELOS, José Leite de (1980) – Etnografia Portuguesa. Volume III, Tradições Portuguesas.
GRANJA, Manuel J. (ano desconhecido) – Portugal Sobrenatural. Volume I. Edição Esquilo.

domingo, 6 de dezembro de 2015

Posto da Guarda Fiscal de Paços (Melgaço) em fotos dos anos 50

Posto da Guarda Fiscal de Paços (Melgaço) na década de 50

A construção do Posto da Guarda Fiscal de Paços (Melgaço) foi concluído em 1958. Fazia parte de uma apertada rede de postos que vigiavam as fronteiras do nosso concelho e procuravam combater o contrabando e a emigração ilegal. Apresentamos aqui um pequeno conjunto de fotografias tiradas na fase final de construção deste Posto da Guarda Fiscal.



Posto da Guarda Fiscal de Paços (Melgaço) na década de 50

Posto da Guarda Fiscal de Paços (Melgaço) na década de 50

Posto da Guarda Fiscal de Paços (Melgaço) na década de 50


sábado, 28 de novembro de 2015

As propriedades curativas da água da Fonte da Pesqueira Longa (Paços)

Vista para a igreja paroquial de Paços (Melgaço) com o rio Minho ao fundo
(Foto em http://coxo-melgaco.blogspot.pt)

Alguns séculos antes de se descobrirem as águas termais do Peso, já eram referidas em documentos antigos umas caldas em Paderne (localização desconhecida, dizia-se que eram perto do mosteiro) ou umas antigas termas em Fiães. Temos ainda documentos que referem fontes com propriedades curativas em vários pontos do concelho.
Há vários séculos que temos registos de uma fonte em Paços (Melgaço) de onde brota uma água com propriedades medicinais únicas. É conhecida pelo menos desde meados do século XVIII e localizava-se num local que era conhecido na época como a Pesqueira Longa, perto da margem do rio Minho.
Em 1779, um livro refere-se às propriedades curativas das águas desta fonte nestes termos: “Na freguesia de Santa Maria de Passos, termo da villa de Melgaço, e margens do rio Minho, num sítio a que chamam a Pesqueira Longa, haverá doze anos se descobriu huma fonte, posto que humilde no produzir das águas, estimadas por suas virtudes. He esta água tépida de manhã, enquanto os ares estão frescos, mas aquecendo o dia, esfria-se. Tem bom gosto. Usão dela os moradores, bebida de manhã e tarde, como remédio, que tem por certo para os flatos internos, por causa de alguma escandecência do sangue, dos rins, hemorróidas. Desfaz a pedra, areias, provoca a urina e desobstrui.
Contem esta águas partículas salinas dos minerais de ferro, nitro e vitriolo, enramadas com huma substância adiposa subtil de enxofre, que sobrenada, onde a água faz quietação, enquanto o ar está frio, desfazendo-se com o calor do sol.”
Amaro de Almeida e J. De Almeida no seu “Inventário Hidrológico de Portugal” de 1988, além de nos dar a sua localização acrescenta: “…tão perto da margem que as cheias do rio facilmente a cobrem, encontra-se a nascente que o povo denomina de água férrea. É grata ao paladar e muita gente a procura por lhe encontrar propriedades digestivas e diuréticas.”   

Informações recolhidas em:
- ALMEIDA, A. & ALMEIDA J. (1988) – Inventário Hidrológico de Portugal. 4º volume, Minho. Instituto Hidrologia de Lisboa.

- REIS, Irm. Fr. Christovao dos (1779) - Reflexões Experimentaes Methodico-Botânicas. Regia Officina Typografica, Lisboa.

sábado, 24 de outubro de 2015

Melgaço nas notícias da Emissora Nacional em 1960




Viajamos até Melgaço no ano de 1960. Nesta altura, quase ninguém tem televisão e só uns quantos têm um rádio em casa.  
Nestes tempos do Estado Novo, a estação de rádio oficial do regime salazarista era a Emissora Nacional. Entre os seus programas, havia um chamado “A Voz de Portugal” que era emitido em onda curta para o estrangeiro. A emissão do dia 8 de Setembro de 1960, dá um enorme destaque ao concelho de Melgaço. Fala-nos das suas lindas paisagens, das águas milagrosas do Peso e dos melhoramentos operados no concelho pela Câmara Municipal.
Leia as notícias das nossa terra em 1960, no guião deste programa:
“Situada no extremo mais setentrional do país, a vila de Melgaço peca pela distância a que se encontra e só por isso, talvez, não usufrui da fama que, pelas suas múltiplas  variadas belezas naturais, bem merecia, por si e por toda a região circundante. Pode asseverar-se, com plena justiça, que, na gloriosa exuberância do jardim viçoso que é todo o Alto Minho, os foros de Melgaço constituem um canteiro privilegiado de encantos.
Pelos caminhos adustos da serra até ao pitoresco Castro Laboreiro; pela estrada sinuosa que leva até à fronteira de S. Gregório, paralela ao ténue fio de água que é o rio Minho lá ao fundo; nas cavas da montanha; para as bandas do Peso, onde brotam fontes de saúde, por entre renques de cerrada arborização; para qualquer lado que se desviem os passos, a paisagem sublima-se numa grandeza surpreendente e dominadora.
Presentemente, estão em curso obras e melhoramentos de que nos limitaremos a dar ligeiros tópicos, os suficientes para se poder avaliar a importância da atividade camarária. No que diz respeito a estradas municipais, está em curso a construção do segundo lanço da estrada da sede a Alcobaça, por Fiães. Foi a concurso a obra para abertura da estrada da Senhora de Lurdes a Sá (Paços) e está a proceder-se ao levantamento dos projetos para as estradas de Várzea Travessa a Rodeiro (Castro Laboreiro) e de castro Laboreiro aos Portos. Neste momento, estão a decorrer os trabalhos relacionados com o abastecimento de água aos lugares de Aldeia de Cima (Paderne) e de Maninho (Alvaredo).
O plano de recuperação e de construção de edifícios escolares continuam a merecer particular zelo. Já foi adjudicada a construção das escolas de Adofreire (Castro Laboreiro), Além (Paderne) e de Corga (Remoães) e faz-se a aquisição dos terrenos onde vão ser erguidos os novos edifícios escolares de Crasto (Roussas) e da próxima vila. A assistência é, por sua vez, um campo de ação que a municipalidade trata com especial desvelo.
A estância hidrológica do Peso, com toda a maravilha da sua paisagem e dos seus recantos frondosos, é bem o centro de atração desta zona do Alto Minho – também por constituir um aprazível local de repouso onde as comprovadas virtudes curativas das suas águas minerais têm  merecido a benção de muitos doentes que ali procuram alívio para os seus achaques.
Com mais alguns melhoramentos que se projetam – engrandecimento do Peso e uma pousada-, depressa Melgaço conquistará um lugar de relevo, aliás bem merecido, no plano turístico nacional.”


Fonte: Guião do programa “A Voz de Portugal” de 8 de setembro de 1960. In: www.rtp.pt


Veja o Guião do programa na íntegra digitalizado:

















quinta-feira, 29 de maio de 2014

O "falar" das gentes de Melgaço no início do século XX


Em Remoães (Melgaço), o quotidiano em 1929...

O etnógrafo José Leite de Vasconcelos, fruto das suas visitas a várias aldeias de Melgaço, traça algumas das caraterísticas que identificou no modo de falar das gentes de Melgaço:
"Do exame que fica feito da "fala" de Melgaço, mostra-se que ela, em parte, conserva um estado muito arcaico da língua portuguesa, o qual é ainda hoje comum ao galego. Por exemplo,  sons como  ou canchuvia ou chubia, entre muitas outras. Em parte, apresenta fenómenos que se tornaram há muito, ou sempre foram, caraterísticos deste último idioma. Por exemplo, na conjugação de verbos: terminações em che na 2º pessoa do pretérito perfeito, pretéritos fortes em –o- , dixê ou dixen, -abámos na 1ª pessoa plural do imperfeito, -ano na 3ª pessoa do plural do pretérito perfeito, érades ou fáçadesveiga-te, é correspondente à nossa conjunção “e”, beiçóm ou beiçon, gando “gado”.
Daqui veio o escrever no século XVI de João de Barros segundo o qual os habitantes de entre o Lima e Minho “são quasi como galegos, e da mesma linguagem e traje”.
A própria gente do povo de Melgaço afirma por todo  o concelho “que a sua fala é quasi galega”. A uma mulher montanhesa ouvi uma vez a seguinte expressão: “Somos do Monte, falamos assi”. E em algumas localidades, como Paderne, onde os fenómenos de carácter galego não se manifestam tanto como noutras, zomba-se destas, arremedando-as: eu dei-che! tu foche! eu fuiche alá (eu fui lá”), eu binche! (eu vim). Sobretudo dizem isto das freguesias raianas com a Espanha, isto é, da raia: Chaviães, Paços e Cristóval. Em todo o caso, pesando bem as coisas, muitos galeguismos que parecem típicos, podem considerar-se portugueses, ou submetidos às leis gerais do português.
Os arcaísmos e galeguismos melgacenses explicam-se por ter Melgaço vivido, até tempos relativamente recentes, em grande afastamento dos principais centros de atividade e cultura portuguesa, e porque, sendo o galego e o português uma mesma língua, e não havendo no oriente do concelho fronteiras naturais, o trato familiar e quotidiano entre as gentes de cá e as de lá não deixa perder certos caracteres iniciais, e permite transmissão mútua de fenómenos. De facto, existem também em terra galega, embora em área muito circunscrita, fenómenos característicos do do falar português.
Quando se trata de regiões vizinhas, é às vezes impossível fazer classificação linguística rigorosa. Tanto pode considerar-se uma fala como pertencente ao grupo A ou ao grupo B. Ninguém entre Elvas e Badajoz confundiria o falar de Espanha como  falar de Portugal. Mas quem é que na raia seca de Melgaço separaria nitidamente em certos casos o falar popular da Galiza do falar popular do Minho?
Os caracteres do dialecto de Melgaço são, como se viu, tão notáveis, tomados no seu conjunto, que, pelo lado do arcaísmo, posso assentar que, assim como a linguagem de Arrifes, nos Açores, forma o grau mais evolucionado do Português, assim a de Melgaço forma o grau mais antigo. Pelo lado do galeguismo, ela estabelece, dentro do dialecto geral interamnense (dialecto falado entre Minho e Douro), transição do português para o galego.
Aqueles caracteres, porém, vão-se modificando ou perdendo. Se ainda há quem fale segundo as normas locais, há muitos indivíduos que, falando ou querendo falar segundo as normas do português corrente, deixam apenas perceber fenómenos locais avulsos, ou até pertencentes ao minhoto geral ou ao baixo-minhoto. Não raras vezes acontece, quando um popular fala com uma pessoa de fora do concelho, empregar uma expressão culta, por exemplo, sou, ao passo que, se falar com um seu natural, dirá som ou .   

Para as modificações e perda de dialecto contribuem, como é natural, as relações cada vez mais íntimas que, por causa da abertura de estradas, instituição de escolas, e outros melhoramentos de vida social, se estabelecem continuamente, já entre as populações rurais e a vila, já entre o concelho todo e o resto da nação. Vemos isso claramente com dois exemplos. O concelho de Castro Laboreiro, que existiu durante muito anos independente, foi extinto por Decreto de 24 de Outubro de 1855, e desde então os castrejos começaram a ir mais vezes à nova vila sede de concelho do que iam antes. Na freguesia de Paderne, lugar do Peso, ficam  as célebres águas minero-medicinais conhecidas por “Águas de Melgaço” exploradas há uns anos para cá. Isso faz com que não só vão ali com frequência pessoas de várias freguesias do concelho vender comestíveis, senão que também lá concorram forasteiros de todo o Portugal, e muito de Espanha. Em qualquer dos casos apura-se o dizer, isto é altera-se a feição do dialeto.  

Extraído de: VASCONCELLOS, José Leite de (1928) - Linguagem Popular de Castro Laboreiro.  in Opúsculos, Vol. II – Dialectologia (parte I),Imprensa da Universidade, Coimbra.