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sexta-feira, 8 de setembro de 2017

Melgaço no documentário "Portugal de Norte a Sul - O Minho" (1956)


Este é um vídeo promocional da região do Minho realizado em 1956 por F. Evaristo. Podemos ver algumas imagens de Melgaço, nomeadamente de Castro Laboreiro, do Mosteiro de Paderne e da fachada da igreja de Santa Maria da Porta, na vila de Melgaço.
Mostram-nos também aspectos da paisagem minhota na época, “especialmente Ponte da Barca, Ponte de Lima, Braga, Guimarães e Viana do Castelo. Festas do São João em Braga, das Rosas em Vila Franca do Lima e da Agonia em Viana do Castelo”.
F. Evaristo - Realizador
Portugal, 1956
Género: Documentário
Duração: 00:33:35, 24 fps
Formato: 16mm, Cor, com som
AR: 1:1,37

Fonte: Cinemateca Portuguesa.

sábado, 12 de agosto de 2017

A densa rede de Postos da Guarda Fiscal em Melgaço em fotos



Melgaço é um dos concelhos portugueses com maior proporção de linha de fronteira: três quintos do território confinam com a Galiza, num percurso que se estende por 61 Km’s: 22 Km’s de fronteira terrestre e 39 de fronteira (incluindo os 19 Km’s correspondentes ao rio Minho). O traçado e a extensão da linha de fronteira, associados à intensidade e à diversidade do contrabando e da emigração clandestina, justificam que Melgaço tivesse a maior secção da Guarda Fiscal de todo o Vale do Minho. Em 1961, serviam, neste concelho, 2 sargentos, 16 cabos e 74 soldados distribuídos por 17 postos. (GONÇALVES, A., 2004). Nenhum outro concelho da região tinha a sua fronteira tão vigiada.
Os Postos da Guarda Fiscal estavam repartidos pelas várias freguesias com linha de fronteira: na freguesia de Castro Laboreiro (Ribeiro de Cima, Ribeiro de Baixo, Portelinha, Vila e Ameijoeira); na freguesia de Cristoval (Ponte Velha, Cevide e S. Gregório); na freguesia de Santa Maria da Porta, Vila (Posto da secção de Melgaço); na freguesia de Fiães (Pousafoles); na freguesia de Lamas de Mouro (Alcobaça); na freguesia de Paços (Porto Paços); na freguesia de Penso (Paranhão); na freguesia de Alvaredo (S. Martinho); na freguesia de Alvaredo (S. Martinho); na freguesia de Fiães (Portocarreiro); na freguesia de Remoães (Mourentão); na freguesia de Prado (Prado). Esta densa rede de postos procuraram durante décadas controlar o contrabando e as  migrações ilegais na raia. 
Apresentamos um conjunto de fotografias dos vários antigos Postos da Guarda Fiscal no nosso concelho. As fotos têm, na sua maioria, cerca de 25/30 anos. Um importante património que não deve ser esquecido. Faz parte da História da nossa terra...

Posto da Guarda Fiscal de Ameijoeira (Castro Laboreiro - Melgaço)
Posto da Guarda Fiscal de Portelinha (Castro Laboreiro - Melgaço)

Posto da Guarda Fiscal de Castro Castro Laboreiro (Melgaço)

Posto da Guarda Fiscal de Alcobaça (Lamas de Mouro - Melgaço)


Posto da Guarda Fiscal de Portocarreiro (Fiães - Melgaço)



Caseta da Guarda Fiscal de S. Gregório (Cristoval - Melgaço)


Posto da Guarda Fiscal de S. Gregório - Ponte Velha (Cristoval - Melgaço)


Posto da Guarda Fiscal de Cevide (Cristóval - Melgaço)
Posto da Guarda Fiscal de S. Gregório (Cristoval - Melgaço)
Posto da Guarda Fiscal de Porto Paços (Paços - Melgaço)

Posto da Secção da Guarda Fiscal de Melgaço (Vila)

Posto da Guarda Fiscal do Peso (Paderne - Melgaço)
Posto da Guarda Fiscal de S. Martinho (Alvaredo - Melgaço)

Posto da Guarda Fiscal de Paranhão (Penso - Melgaço)

Informações extraídas de: GONÇALVES, Albertino (ano desconhecido) - Caminhos de inquietude: A organização do contrabando no concelho de Melgaço. O Miño, uma corrente de memória.
Fotos (fonte): http://guardafiscal.org 

sexta-feira, 9 de junho de 2017

A capela de Nossa Senhora de Guadalupe (Paderne - Melgaço): notas históricas e arquitetónicas


As referências históricas a esta capela são bastante escassas. As mais antigas datam de 1551 onde encontramos uma obrigação à fábrica da ermida de Nossa Senhora "d'Água do Lupo", assim designada na época, a favor de João Alves e sua mulher Isabel Leuvente, moradores na freguesia de Paderne, os quais erigiram uma capela no lugar de Crastos e pedem licença para lá se rezar missa.
Aparentemente a estrutura que suporta o sino foi construída em 1730 já que esta data se encontra lá inscrita. Nas Memórias Paroquiais de 1758, o prior de Paderne faz referência à capela de Nossa Senhora de Guadalupe no lugar de Crastos, “erguendo-se fora do lugar, num sítio mais alto, e tendo um altar onde estavam as imagens da Senhora, de Santo António e Santa Rita.
Num artigo do etnólogo José Leite de Vasconcelos, acerca de umas escavações arqueológicas no Castro da Cividade (Paderne) feitas em 1903, aparece referência a esta capela nestes termos “A Senhora de Guadalupe venera-se numa capelinha que fica perto do lugar de Crastos (a menos de um km), na freguesia de Paderne." O investigador na época ouviu esta quadra de um morador na Cividade:


Senhora d’ Agua de Lupe
Nem uma folha lhe destes:
Os Mouros da Cividade

Não faziam o que tu fizeste!

O autor prossegue: "O povo do Minho, sentimental como é, acrescenta: vinha o inimigo, isto é, os cristãos, em cima dos mouros e eles, coitadinhos, viraram-se para a senhora, sem os outros saberem, e pediram-lhe, mas em vão, que detivesse os contrários". Pelos vistos até os mouros tinham fé na Senhora de Guadalupe...

A capela apresenta um planta longitudinal de massa simples com sacristia adossada à fachada lateral esquerda. Os volumes são escalonados e coberturas diferenciadas em telhados de duas águas na capela e de uma na sacristia, na continuidade da primeira, rematadas em beirada simples. As fachadas são construídas em cantaria aparente, terminadas em cornija e com os cunhais horizontalizados e coroados por pináculos piramidais com bola, sobre plintos paralelepipédicos. A fachada principal encontra-se voltada sudeste e termina em empena, com friso e cornija, truncada por estrutura sineira em arco de volta perfeita sobre pilares, albergando sino e rematada em empena, percorrida por sulco e com a data de 1730 inscrita. A mesma é rasgada por portal de verga sobre os pés direitos, encimado por fresta de capialço e ladeado, à esquerda, por uma outra. A fachada lateral esquerda é rasgada por porta de verga recta sobre os pés direitos e a oposta por fresta de capialço. A sacristia termina em meia empena e é cega. A fachada posterior com capela-mor é igualmente cega e terminada em empena, coroada por cruz latina de braços quadrangulares sobre plinto paralelepipédico, e a sacristia encontra-se rasgada por janela rectangular jacente, gradeada. O interior possui as paredes rebocadas e pintadas de branco. O coro-alto de betão acedido por escada disposta no lado do Evangelho e com guarda em falsos balaústres de madeira.


Informações extraídas de:
- CAPELA, José Viriato(2005) - As freguesias do distrito de Viana do Castelo nas Memórias Paroquiais de 1758, Braga, Casa Museu de Monção.
- VASCONCELOS, J. L. de (1933) – Castros lusitanos I. Cividade de Paderne. in: Revista Archeólogo Português.

sexta-feira, 26 de maio de 2017

O Mosteiro de S. Paio (Melgaço) terá existido mesmo?


Há  muito tempo que nos habituamos a ouvir falar de um mosteiro que terá existido em S. Paio em tempos anteriores à própria independência da nação portuguesa. Fala-se que já estaria em decadência no século XI mas… Será que realmente terá existido mesmo?
No seu artigo “Paderne Militar”, o investigador José Domingues coloca sérias dúvidas ao facto de ter existido alguma vez um mosteiro em S. Paio. No texto, o autor escreve que “As raízes inveteradas do mosteiro de Paderne afundam-se em eras perdidas na cronologia do tempo e, desde sempre, que o espaço territorial do seu couto ocupou uma posição privilegiada na vetusta terra de Valadares. Das suas obscuras origens se ocupou, particularmente, o infatigável Padre Bernardo Pintor, que coligiu uma referência documental para o século XI (1071) e quatro para o século XII (1118, 1125, 1141 e 1156).  Apesar de estar fora dos propósitos deste trabalho sacudir o pó aos primórdios do mosteiro de Paderne, aqui fica citado outro documento do século XI (1043), que recua quase trinta anos a sua existência documentada, passando a ser a sua mais vetusta referência escrita. Em definitivo, são estes os parcos subsídios documentais, anteriores ao século XIII, com que hoje podemos contar para perscrutar as origens deste cenóbio.
Ao certo, a partir dos limites territoriais aí consignados, pode-se outorgar, sem hesitação, o documento do ano de 1141 ao que chegou a nós do actual mosteiro de S. Salvador de Paderne, extinto por breve de Clemente XIV, de 4 Julho de 1770. Mas a laconicidade das outras menções não autoriza tanta certeza, dando ensejo a sérias dúvidas e alentadas incertezas na identificação das instituições religiosas em causa. Perante esta penúria e, ainda por cima, alguma incongruência documental, ao Padre Bernardo Pintor não sobrou outra alternativa senão o enveredar pelo trilho ingrato das plausibilidades, optando pela solução dos dois oragos. Ou seja, para este emérito investigador a existência de dois oragos diferentes (que originaram duas freguesias diferentes) implicaria, consequentemente, a existência de dois mosteiros distintos – o de S. Paio e o de S. Salvador de Paderne. Conjecturando o aparecimento deste último rentes ao diploma de couto de 1141, condiciona a conversão imediata do outro a igreja paroquial – actual igreja de S. Paio de Paderne. Ao mesmo tempo, sem qualquer argumento, refuta a seguinte tese: “Pode haver quem julgue ser o mosteiro de S. Salvador de Paderne o mesmo que o antigo de S. Paio de Paderne, tendo havido transferência do mosteiro ou mudança do titular, mas tal não sucedeu. Eram dois mosteiros completamente distintos na mesma terra de Paderne, que coexistiram e a cujos territórios correspondem duas freguesias completamente independentes uma da outra através de todos os tempos.
Recapitulando, primeiro existia apenas o mosteiro de S. Paio de Paderne. No início do século XII, funda-se, muito próximo, o de S. Salvador de Paderne, acabando o primeiro por desaparecer, ainda nesse século (a última referência é de 1156), ao passar a igreja paroquial. Na opinião de  Amélia Aguiar Andrade, o mosteiro de S. Salvador de Paderne surge da astúcia de oposição de Afonso Henriques ao prelado tudense, “podendo dizer-se que S. Salvador de Paderne concorria com S. Paio de Paderne e Refojos de Lima com o mosteiro de Labruja”.
A teoria dos dois mosteiros arreigou-se, tornando-se voz comum, e enquanto se mantiver a esterilidade documental hodierna, o único trilho palmilhável continua a ser o das plausibilidades, por isso, também a ideia que proponho não passa de outra probabilidade e não, propriamente, contestação da antecedente. Para mim, o facto de uns documentos referirem a igreja e outros o mosteiro de S. Paio, não é totalmente acidental e permite, pelo menos, conjecturar a existência de duas instituições diferentes, dedicadas ao mesmo orago. Estou convicto que existia uma igreja – a de S. Paio de Paderne – e um único mosteiro, que, entretanto, mudou de orago. Ou seja, S. Paio de Paderne e S. Salvador de Paderne são um só e o mesmo mosteiro, havendo apenas uma mudança de orago (e não necessariamente alteração da localização), no decurso do século XII. Os argumentos patrocinadores da tese de um único mosteiro são, antes de mais, a falta de dados escritos categóricos para um convento de S. Paio de Paderne apartado são a excessiva proximidade para os dois mosteiros (menos de 1 quilómetro), a infirmação da origem recente do mosteiro de S. Salvador, a partir da fórmula de invocação patente na carta de doação do couto e a quase coincidência entre o advento de um e o desaparecimento do outro mosteiro. Por outro lado, se lermos com atenção os limites do couto, fixados em 1141 – “ deinde quomodo vadit pera aperta inter Sanctum Pelagium et monasterium” – a linha limítrofe passava entre [a igreja de] S. Paio e o mosteiro [de Paderne]. O documento parece-me expressivo ao referir apenas o mosteiro, se fossem dois mosteiros o documento deveria referir ambos ou, pelo menos, identificar um. Se o escriba se escusa de identificar o mosteiro, então é porque, em 1141, só existia um e S. Paio era igreja paroquial. Como explicar, então, que, em 1156, em documento leonês, venha referido o mosteiro de S. Paio de Paderne? Pode ser que o documento (confirmação de um convénio antecedente) se refira ao único mosteiro que existia em Paderne, com reminiscências do seu anterior orago – S. Paio. Para o âmbito desta pendência, seria inestimável apurar os padroeiros do mosteiro de Paderne, para o século XII. Não será surpresa, para mim, se um dia se concluir que esse apanágio pertencia ao bispo de Tui, confirmando assim que o documento de 1156 se refere ao único mosteiro de Paderne. Mas ao certo sabemos que em 1258, quando por aqui passaram os inquiridores de Afonso III, o rei não era padroeiro do mosteiro – “elRey non é padrom” – mas da igreja de S. Paio de Paderne registaram que “a quarta desta davandita ecclesia é regaenga”.
O registo das igrejas do bispado de Tui, no território de Entre Lima-e Minho, pode dar mais alguma consistência à minha ideia. Esse registo não está datado, mas pode ser recuado, pelo menos, até ao ano de 1238. Segundo esse registo, o padroádigo do “Monasterium de Paderni” pertence todo ao bispo de Tui, enquanto que “Sanctus Pelagius de Padirni est quarta regis”, sobrando as outras três partes. Estes registos parecem estar de acordo com o documento de 1118, que refere o padroado de S. Paio dividido em quatro partes, transmitindo-se uma dessas partes para o bispo de Tui, e com o de 1156, que adjudica todo o ius patronatus do mosteiro de Paderne ao bispo de Tui. De qualquer forma, trata-se de um espaço temporal de cerca de um século para o qual ainda não temos qualquer referência documental. Por outro lado, a confirmação da doação do rei Teodomiro, por D. Teresa em 1125, também se não coaduna com esta dedução; e falta-nos saber como é que o bispo de Tui adquire a outra metade da igreja de S. Paio. Ou seja, à falta de outras informações documentais concretas, nomeadamente para o recuado século XII, parece que o padroado da igreja de S. Paio andava dividido em quatro partes, enquanto que o padroado do mosteiro pertence apenas ao episcopado de Tui. Por isso, estou convicto que existiu apenas um mosteiro em Paderne, que, por qualquer motivo, mudou de orago.


Extraído de:

- DOMINGUES, José (2006) – Paderne Militar. In: Boletim Cultural de Melgaço 5, pp. 79-122.

sexta-feira, 19 de maio de 2017

A nogueira de Paderne (Melgaço) que encantou o escritor Júlio Dantas


Na revista brasileira "Fon-Fon" (!), na sua edição de 2 de Janeiro de 1926, encontramos uma crónica da autoria do célebre escritor Júlio Dantas, que nos fala de uma antiga nogueira em Paderne que encantou o autor numa viagem que ele fez a Melgaço na época. A dita nogueira terá captado a atenção do escritor ao ponto de o mesmo ter escrito um texto acerca dela e da terra. A dita crónica mereceu um comentário de um escritor brasileiro que aqui partilho:
"Acabo de ler uma bela crónica de Júlio Dantas: “A nogueira de Paderne”. É uma página magnífica, cintilante, viva, onde se reflete, espontânea e naturalmente, a alma sentimental do insigne artista da frase, cheia de encantos que comovem, emocionalmente mesmo, bordada de tópicos interessantíssimos sobre as velhas coisas do velho Portugal.
Foi em Melgaço, lá entre as montanhas verdes e gazeadas de neve do Alto Minho, que ele a esboçou no pensamento, ou talvez a tivesse escrito sentado a uma mesa colonial, naqueles terraços sombrios do solar de Penso, numa dessas manhãs luminosas de Junho, em que os campos da pátria lusitana se revestem de gala, a atmosfera refulge e os pássaros cantam, para receber a parcela quente de vida que o sol espalha, doirando as messes e pulverizando de luz as terras, os céus, os horizontes…
A Maldonado d'Anha, o velho fidalgo minhoto, deve Júlio Dantas a excursão aos contrafortes das serras de Pernidelo e da Tenreira, e consequentemente, a Paderne, onde ele viu, com os olhos marejados de lágrimas, a nogueira centenária, isolada na horta dum convento em ruínas, que os frades crúzios habitaram no século XIII: a árvore venerável. “Árvore de um bosque sagrado, cujo tronco gigantesco, harmonioso, lnçado com a nobreza duma coluna, rebentava ao alto em braçadas fortes, atiradas em atitudes humanas de súplica e de imprecação…”
O que ele descreve, ante à magestade daquele símbolo verde, quando só, no páteo do casarão antigo das monjas de D. Paterna, admirando-lhe o perfil estranho e austero, ouvindo-lhe o sussurro macio das folhas, olhando penalizado o cortex carcomido dos anos, como rugas de face humana, invocando, quem sabe, a tradição santa dos bosques orientais – o que ele discorda, é, como diria Wilde, admiravelmente belo!
O cronista, através da ramagens venerandas da nogueira de Paderne, teve a visão do culto religioso dos seus ancestrais, imaginou o ritual pagão com que os crentes medievos celebravam a adoração às árvores sagradas, sentindo, também, ímpetos de orgulho da velha raça ao contemplar o tronco patriarcal, irmão dos que formaram as quilhas singradoras “dos mares nunca dantes navegados”. Único descendente, talvez daquelas galeras de asas brancas pandas ao vento, que, como albatrozes da Civilização, rumavam os horizontes desconhecidos, levando às Índias e à América o padrão glorioso da gente lusa.
No entanto, a nogeira de Paderne estava condenada a morrer! Não sugerisse Maldonado d’Anha a ideia daquela excursão ao antigo solar dos castro Menezes, onde ela vivia serenamente desafiando a implacabilidade dos séculos, sorvendo com os derradeiros alentes o humus da terra avoenga que lhe dava o viço à galhardia pujante – ninho murmuroso das avezinhas de Paderne – da velha nogueira, agora, restaria apenas alguns destroços que o machado devastador do homem deixaria como vestígios de sua selvagem destruição. Mas, antevendo o mal, a bolsa do fidalgo abriu-se generosa, comprando ao “mendigo de Goya” a árvore-suplice, livrando-a, portanto, da sentença bárbara, cuja ação ele glorificou com um amplexo, estreitando nos braços o tronco ruguento da grande nogueira – num “abraço pantheísta de dois velhos”, no qual Júlio Danta admirou “o perfeito símbolo da união milenar da árvore e do homem”.
Essa página brilhante do ilustre cronista imortalizou o gesto de Maldonado d’Anha, que prolongou a existência da relíquia de Paderne, cuja árvore continuará vivendo com os séculos ramalhando frondosa e bela como um espectro venerável do passado, recordando a vida conventual dos ascetas crúzios…"




Extraído de: Revista FON-FON, edição de 2 de Janeiro de 1926, Rio de Janeiro.

sexta-feira, 7 de abril de 2017

Os soldados de Melgaço na Batalha de La Lys (1918): Os caídos em combate



Foi há cerca de 100 anos que os primeiros soldados do contingente que Portugal enviou para combater em França na I Guerra Mundial chegaram à Flandres. Com base nos dados de que disponho, de Melgaço, partiram para a guerra 69 homens, oriundos das diversas freguesias.Estes homens foram autenticamente “roubados” às suas vidas e obrigados a ir para uma guerra para a qual não estavam preparados. Paderne, com 13 homens, Penso, com 11 homens e Vila, 10 homens são as freguesias melgacenses que mais contribuiram em termos de número de efetivos. Estes homens da nossa terra, feitos soldados, tinham todos à data do embarque, idades entre 22 e 27 anos completos (nascidos entre 1891 e 1895).
Assim, entre Janeiro e Novembro de 1917, partiram estes homens do porto de Alcântara, rumo ao porto de Brest (França) numa viagem de navio de vários dias. Daí seguiram de comboio até à zona sul da Flandres francesa perto de Armentières, nos vales dos rios Lys e Aire.
Depois de uma curta estadia em Brest, porto de desembarque das tropas portuguesas, seguia-se o transporte, de comboio, até à região de “Aire”, zona destinada às tropas do CEP.
E foi num clima agreste, de neve, chuva e frio, língua e costumes tão diferentes dos seus, que estes homens da nossa terra e as tropas portuguesas tiveram de suportar mais de um mês de treino complementar, junto do exército britânico, para se poderem “familiarizar” com as armas inglesas com que iam combater e com as novas formas da guerra que iam conhecer de perto.
Na guerra, dos 69 homens de Melgaço que partiram, 10 morreram caídos em combate ou devido a outras causas como doenças. O primeiro melgacense a morrer em combate foi o soldado António Alberto Dias, natural do lugar da Verdelha (Paderne) que faleceu a 9 de Outubro de 1917 na Flandres (França). 
Quatro dos caídos em combate, faleceram durante a Batalha de La Lys (9 de Abril de 1918). São eles os soldados José Cerqueira Afonso, de Paços (Melgaço); José Narciso Pinto, de Chaviães; João José Pires, da freguesia de Paços (Melgaço), António José da Cunha, natural da freguesia da Santa Maria da Porta (Vila – Melgaço). O último pertencia ao 6.º Grupo de Baterias de Metralhadoras e os três primeiros eram soldados que pertenciam à 4ª Brigada de Infantaria do CEP, Regimento de Infantaria n.º 3 (Viana do Castelo). Esta era conhecida como a Brigada do Minho, a que pertenciam a maioria dos soldados melgacenses, e já tinha conquistado uma reputação de bravura na frente de batalha muito antes de lhe ser confiada, em Fevereiro de 1918, a defesa do sector de Fauquissart, em Laventie, na Flandres francesa, perto da fronteira com a Bélgica, onde ainda se encontrava nesse fatídico dia 9 de Abril de 1918, quando foi dizimada pelos alemães na dita batalha de La Lys. Faz amanhã, 9 de Abril, 99 anos...

MELGACENSES MORTOS NA BATALHA DE LA LYS (LEVANTIE, FLANDRES FRANCESA)
  • João José Pires, soldado da 2.ª Companhia do Regimento de Infantaria n.º 3; nascido a 28 de Abril de 1893 no Outeiro, lugar da freguesia de Santa Maria de Paços, filho de José Joaquim Pires e de Alexandrina Pires; solteiro e morador em Paços; embarcou para França integrado no Corpo Expedicionário Português a 15 de Abril de 1917, onde pertenceu à Brigada do Minho; falecido em combate na Batalha de La Lys a 9 de Abril de 1918. Encontra-se sepultado no Cemitério de Richebourg l`Avoué (França), Talhão C, Fila 10, Coval 5.


Sepultura do soldado João José Pires
(Cemitério Militar de Cemitério de Richebourg l`Avoué, França)


  • José Narciso Pinto, soldado da 4.ª Companhia do Regimento de Infantaria n.º 3; nascido a 3 de Março de 1893 na Igreja, lugar da freguesia de Santa Maria Madalena de Chaviães, filho de Manuel António Pinto e de Cândida Maria Alves; casado e morador em Chaviães; embarcou para França integrado no Corpo Expedicionário Português a 22 de Abril de 1917, onde pertenceu à Brigada do Minho. Falecido em combate na Batalha de La Lys a 9 de Abril de 1918. Encontra-se sepultado no Cemitério de Richebourg l`Avoué (França), Talhão D, Fila 3, Coval 24.
Sepultura do soldado José Narciso Pinto
(Cemitério Militar de Cemitério de Richebourg l`Avoué, França)



  • António José Cardoso Ferreira Pinto da Cunha, segundo-sargento do Regimento de Obuses de Campanha; nascido a 28 de Julho de 1892 na Rua Direita, vila e freguesia Santa Maria da Porta de Melgaço, filho de António José Ferreira Pinto da Cunha e de Carlota Amália Cardoso; solteiro e morador na vila de Arcos de Valdevez; embarcou para França integrado no Corpo Expedicionário Português a 20 de Agosto de 1917, onde pertenceu ao 6.º Grupo de Baterias de Metralhadoras. Participou na Batalha de La Lys. Inicialmente dada com desaparecido em combate. Mais tarde considerado morto em combate na dita batalha a 9 de Abril de 1918. Desconhece-se o paradeiro dos seus restos mortais.
Nesta investigação, fui descobrir uma carta que este Segundo Sargento Pinto da Cunha, escrita algures na primeira metade de 1917, à data estudante no liceu de Guimarães, escreveu a uma pessoa influente para que esta intercedesse junto do ministro da Guerra, Bernardino Machado, no sentido de obter dispensa do curso de sargentos até Julho de 1917, para poder frequentar o liceu e fazer exame do então 5º ano. Argumentava que já no ano anterior não tinha podido terminar este nível dos estudo por ter sido chamado ao quartel. Desconheço a resposta a esta missiva.


Carta de António José Cardoso Ferreira Pinto da Cunha

  • José Cerqueira Afonso, soldado da 4.ª Companhia do Regimento de Infantaria n.º 3; nascido a 14 de Março de 1892 nas Fontes, lugar da freguesia de São Salvador de Paderne, filho de Inácio José Afonso e de Maria Cerqueira; casado e morador em Paderne; embarcou para França integrado no Corpo Expedicionário Português a 22 de Abril de 1917, onde pertenceu à Brigada do Minho; falecido em combate na Batalha de La Lys a 9 de Abril de 1918.
Sepultura do soldado José Cerqueira Afonso
(Cemitério Militar de Cemitério de Richebourg l`Avoué, França)

Esta batalha foi um dos maiores desastres de toda a História Militar portuguesa. A mesma é contada por um soldado português que nela esteve envolvido numa carta enviada à família. Na mesma, datada de 11 de Julho de 1918, o soldado tentou reconstituir, em breves palavras, os acontecimentos daquela noite: “Às quatro horas da manhã do dia 9 de Abril de 1918 rompe um enorme bombardeamento por parte do inimigo, coisa essa que nós, à primeira vista, não estranhámos, visto que já estávamos habituados a tudo isso, mas o prazo desse bombardeamento foi-se prolongando e as horas foram-se passando, e já depois de o inimigo ter feito grandes tentativas para avançar para as nossas trincheiras e sempre repelido pelo nosso fogo, continua o grande bombardeamento com uma tal violência que ao fim de algumas horas o chão estava todo voltado com o debaixo para cima, um completo horror, é mesmo inexplicável. Milhares e milhares de infelizes portugueses tinham desaparecido, uns despedaçados pelos ares, outros tinham ficado soterrados para jamais serem vistos”.
De manhã, chegara a hora de contabilizar as baixas: 398 mortos (369 praças e 29 oficiais) e uma esmagadora maioria de prisioneiros (6585, dos quais 6315 eram praças e 270 oficiais).
Deste total de prisioneiros de guerra, nove soldados eram melgacenses. Inicialmente, estes homens foram dados como “desaparecidos em combate” e esse facto foi comunicado às famílias. Vários meses mais tarde, após o fim da guerra, em Novembro de 1918, a Comissão dos Prisioneiros de Guerra, comunicou que estes homens se encontravam em campos de prisioneiros na Alemanha, pondo fim a meses de sofrimento dos soldados e das suas famílias que os julgavam mortos. Chegaram-se a fazer funerais sem corpo por este país fora. 
Quem foram os soldados melgacenses desaparecidos em combate? De que freguesias eram? Em que campos de prisioneiros estiveram? Como regressaram a Portugal? E muitas outras respostas...
Conto-vos na próxima publicação!

Fontes consultadas:
- Arquivo Histórico do Exército;
- OLIVEIRA, Maria José (2011) – “Deste triste viver" – Memórias dos prisioneiros de guerra portugueses na primeira Guerra Mundial. Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Unoversidae Nova de Lisboa, Lisboa;
- MARQUES, Isabel Pestana, op. cit., p. 389; AFONSO, Aniceto, 2008, Grande Guerra. Angola, Moçambique e Flandres. 1914/1918, Lisboa, Quidnovi, Col. Guerras e Campanhas Militares, p. 106;

- TEIXEIRA, Nuno Severiano, 1992, “A Fome e a Saudade. Os Prisioneiros Portugueses na Grande Guerra”, in Penélope. Fazer e Desfazer a História, Lisboa, nº 8, p. 102.

::::::::::::::::::::::::::::::::::::CONTINUA::::::::::::::::::::::::::::::::::::: 

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Uma estranha história acerca do Solar do Reguengo de Melgaço publicada no Brasil (1935)



Há cerca de 80 anos, é publicada num jornal no Brasil, uma estranha história acerca do Solar do Reguengo de Melgaço. Nessa narrativa, o escritor Júlio Dantas descreve-nos o solar nessa época e fala-nos de uma história maldita relacionada com o local onde as chaves do solar teriam sido enterradas, mais concretamente junto a um cipreste, situado ao lado do casarão. Tanto quanto parece, a história é ficcional. Trata-se de um conto publicado no jornal brasileiro "Gazeta de Notícias" na sua edição de 9 de Junho de 1035. Como tal, não tem relevância histórica!
A história é a seguinte:
História de um velho solar
Em certo rincão do Alto Minho, a dois passos do rio que nos separa de Espanha, há um velho solar pertencente a um dos ramos dos Castros Menezes, - solar que, como quase todos os desta região, têm a sua história. Quando lá estive, fui vê-lo. Atravessaram-se uns campos de milho, descendo um côrrego estreito entre latadas verdejantes. Chega-se a um terreiro em meia laranja, onde dois leões de pedra, com a humildade de cachorros, dormem sobre socos esverdeados de mugre. E ao fim de uma rua lageada, sombria de parreiras, em cujas valetas, corre a água viva, o solar surge, de súbito, diante dos nossos olhos, com o ar ao mesmo tempo solene e carinhoso, magestoso e acolhedor, de todas as moradas fidalgas do norte de Portugal.


Está fechado: o aspeto é vetusto, as paredes ameaçam ruína. É uma construção maciça dos fins do século XVII, de largos cunhais de silharia e telhados amouriscados de quatro águas, formada por um corpo central, com o seu alpendre envidraçado, apoiado sobre colunas de granito e por dois corpos laterais, perpendiculares ao corpo principal, limitando um terreiro solarengo quase todo ocupado por uma escada nobre, exterior, que dá acesso à galeria alpendrada sobre cujo lintel repousa a pedra-de-armas dos Castros-Menezes. A ala direita, constituída em parte pela capela, em no seu prolongamento, para as traseiras do edifício, o antigo paço medieval, cujos restos se vêem ainda, representados por dois botaréus possantes e por uma janela geminada ogival, que olha, como uma vigia esperta, para as bandas de Espanha.
Em volta, nada de particularmente interessante. Campos de milho, com o seu canastro abençoado pela tradicional cruz de pedra na empena. Um cipreste, no terreiro fronteiro, nota melancólica comum a muitos solares minhotos. Uma arribana em cuja sombra se adivinham, pela grande porta aberta, manchas ruivas e buliçosas de gado. Subi a larga escada senhorial para ver melhor a paisagem. As montanhas longínquas, quase roxas no declinar da tarde: os pinhais imóveis e verde-negros, as latadas e os milhos alegres por onde escorria a baba de oiro do sol, - tudo parecia revestir-se duma serenidade virgiliana. Não se ouvia um ruído. Impressionado pelo silêncio da natureza e pelo abandono daquele velho paço desabitado. Ia retirar-me quando uma voz me interpelou:
- Deseja alguma coisa?
Procurei com o olhar a pessoa que se me dirigia. Não vi ninguém. Quando desci a escada, um velho, vestido de negro, meio oculto na sombra, encostado a uma das grossas colunas de granito que suportam a galeria envidraçada, olhava interrogativamente para mim. Era um padre. Pálido, curvado, senil, por certo octogenário, a batina no fio, a volta branca do pescoço esfarrapada, um chapéu mole, tão velho como ele, enterrado na cabeça, o homem singular que me aparecia harmonizava-se, pelo seu abandono, pela sua decrepitude e até pela serena dignidade da sua figura, com o aspeto confrangedor daquele palácio em ruínas. Dirigi-me a ele, de chapéu na mão:
- Pode visitar-se o solar?
- Não pode.
- Está habitado?
- Perderam-se as chaves há sessenta anos.
- Mas Vossa Reverência não vive aqui?
- Que lhe importa ao senhor a minha vida?
O proveto sacerdote tinha razão. Eu viera perturbar, com a minha presença a paz sepulcral daquelas ruínas, de que ele fazia parte integrante. Mas a hostilidade com o pobre velho me recebeu não conseguiu senão aumentar a minha curiosidade a seu respeito. Tirei um cigarro e ofereci-lhe a cigarreira aberta. Pintou-se na fisionomia uma tal expressão de júbilo, e com tanta avidez a sua mão decrepita, incerta, amarela, como um pergaminho antigo, avançou para os cigarros que – confesso – me comoveu.
Dei-lhe lume. O padre sorveu de olhos fechados, voluptuosamente, as primeiras fumaças. Depois, tirou o chapéu, e humilde, curvando a cabeça – um crânio pequeno, redondo, cujos cabelos rasos, duma brancura resplandecente, davam a impressão de um solideu de prata murmurou:
- Obrigado. Já não fumava há dois dias. O tabaco está muito caro.


Daqui a pouco, eu e o padre Matheus – era o seu nome – sentados num poial de pedra, conversávamos mão a mão, como dois amigos. Contou-me ele, então que vivia ali, nas dependências da capela, por favor dos caseiros da quinta. Havia dois anos, ainda dizia missa. Depois, os últimos paramentos podres da humidade do arcaz, foram-se desfazendo aos poucos, os caseiros precisaram da capela para enceleirar o milho porque não cabia no espeigueiro, as pernas inchadas não lhe permitiam celebrar o santo sacrifício e – acrescentou o pobre velho – para ali se entretinha, agora, a ensinar doutrina e a ver qual das duas ruínas desabava primeiro, se ele, se o solar.
- Mas, de quem é este palácio – perguntei ao padre Matheus.
- Era da senhora morgada do Couto de Ruivães, Dona Angélica de castro Menezes de Sousa e Vasconcellos, que Deus haja em sua santa glória. Está desabitado desde que ela morreu.
- Há quanto tempo?
- Há sessenta e três anos. Tinha eu vinte e dois anos, e era, havia um ano, capelão da casa.
- Mas a senhora morgada não deixou descendentes?
- Uns primos de Braga. Logo que ela morreu, vieram aqui, com uma escolta de criados armados armados, levaram em carros de bois e em azémolas toda a mobília. Pratas e alfaias, e não voltaram. Deram depois, de arrendamento, a quinta a um antigo feitor.
- E o feitor, onde mora?
- Morreu. Morava numas casas, além adiante. No solar, nunca mais ninguém entrou, há sessenta anos.
- Apareciam almas do outro mundo?
- Não senhor. Perderam-se as chaves.
- E, há sessenta anos, ainda não tiveram tempo para mandar fazer outras?
Padre Matheus, sentado no poial, defronte de mim, olhou-me longamente. A sua face pergaminhada pareceu-me mais pálida ainda. As mãos tremiam-lhe sobre os joelhos. Tirou do bolso um lenço vermelho de Alcobaça, passou-o pela testa onde borbulhava o suor, sacudiu a cabeça, como a afugentar um maus pensamento, e, depois de um demorado silêncio, disse-me encolhendo os ombros:
Há coisas que parecem mais fáceis do que realmente são. O senho vê ali aquele cipreste?
- Vejo.
- Pois dizem que as chaves estão enterradas ali.
- Nesse caso, porque não as desenterraram?
- Porque quem tentar desenterrá-las, morre.
Não pude deixar de sorrir. A convicção com que aquele sacerdote octagenário, que devia conhecer a vida, se fazia eco dessa lenda ingénua, chegou a enternecer-me. A intenção dos herdeiros da morgada de Ruivães, ao inventar a história das chaves, era evidente. Não lhe convindo que alguém ali fosse, ou porque lá deixaram alfaias que não puderam transportar, ou porque suspeitavam de que as paredes, ou debaixo dos soalhos, houvesse tesouros escondidos, os primos de Braga tinham posto de sentinela ao solar o mais vigilante de todos os guardas: o medo da morte.
O senhor não acredita, - continuou o padre Matheus.
- Mas é verdade. Dois, vi-os eu cair mortos, como se os fulminasse a ira de Deus. Um foi o feitor Justino. Parece que o estou ver. Honrado, valente como as armas! A mulher queria meter aquela porta dentro, e ele não deixou.
- Não. A porta dos fidalgos não se arromba”.
Mais tarde, começou a correr que as chaves estavam enterradas ali, ao pé do cipreste. O feitor ria-se, como o senhor. Um dia, perguntou-me ele:
- Padre Matheus, porque não há-de a gente ver?
Despiu a jaleca, remangou duma enxada, e quando ia descarregar o primeiro golpe na terra (já se passaram sessenta anos e ainda parece que vejo faiscar o ferro, ao sol) caiu de borco, de braços estendidos, como se o tivesse varado uma bala.
- Alguma congestão, naturalmente.
- Só Deus o sabe. O certo é que, durante muitos anos, ninguém mais se atreveu, sequer, a pisar a terra em volta daquela árvore de morte. Aquele chão era sagrado. Uma tarde, porém, parou aqui um almocreve, homem ruivo, mal encarado, que fazia pela serra, a recovagem do Lindoso, e ouviu falar nas riquezas do solar e nas chaves enterradas. Contra o seu costume, porque nunca se albergava cá, pediu pousada aos criados nessa noite. Na manhã seguinte, foram dar com ele morto, ao pé do cipreste, com uma sachola nas mãos, já meio devorado pelos cães. Bem  feito, que era um ladrão! Estes foram os que eu vi. Mas houve outros. Um deles – moço de lavoura do feitor novo – ainda não se cumpriram dez anos sobre a sua morte. O feitor queria o paço todo para celeiro, mas não se atrevia a procurar, por suas mãos, os chaveirões na terra.
- Vou lá eu, patrão! – gritou o moço, travando da enxada. Estava ali, ao pé da arribana. Mal deu dois passos para a árvore , caiu por terra em convulsões, que parecia possesso do demónio. - Deus me perdoe! – e, dois dias andados, dava o corpo à terra, no adro de Paderne.
Ora o senhor quer ver o o solar, não é verdade? Pois bem. Vá buscar as chaves, onde elas estão, se é capaz.
Ri-me, encolhi os ombros com a fácil superioridade das pessoas que não acreditam nestas coisas, dei outro cigarro ao padre Matheus, e mudamos de assunto. Mas – confesso-o – apesar de ter a certeza de que, ao pé daquele cipreste, não se encontravam nenhumas chaves, eu ainda hesitaria antes de desbravar a terra, para as procurar.”


Fonte: Jornal “Gazeta de Notícias”, edição de 9 de Junho de 1935.


sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

O mistério das inscrições na estela sepulcral de Paderne (Melgaço)


Um dos maiores mistérios arqueológicos do nosso concelho é a da estela sepulcral de Paderne. Trata-se de uma pedra esculpida e com inscrições a assinalar um sepulcro cuja idade se desconhece com precisão. Segundo o antropólogo José Leite de Vasconcelos, que esteve em Paderne a fazer escavações arqueológicas em 1903, esta pedra encontrava-se perto do mosteiro e foi levada para o Mosteiro Etnológico Português por esta altura. Acerca desta pedra sepulcral, o autor escreveu um artigo na revista "O Archeólogo Português" em 1907 onde tenta explicar o significado das inscrições feitas na dita pedra.
No dito artigo pode ler-se: "Junto da igreja de Paderne, aldeia do concelho de Melgaço, existia há uns anos uma notável pedra lusitano-romana, com uma inscrição e figuras esculturadas, a qual fazia parte do lagedo granítico do adro, e estava pois sendo constantemente profanada e maltratada por quem lhe passava em cima. Por diligências do meu amigo, o Dr. António José de Pinho Junior, advogado de Monção, e moço ilustrado a quem os estudos da arqueologia e etnografia locais merecem particular estima, a pedra ocupa hoje lugar de honra no Museu Etnológico Português: Secção Lapidar – Minho.
Tem uma altura de um metro e 61 centímetros; de espessura, 16 centímetros; de largura, 50 centímetros. É pois uma estela. Com quanto lhe falte já a extremidade superior, pode esta lápide considerar-se dividida na superfície anterior em quatro segmentos.
O segmento superior, que, como digo, está incompleto, parece que representa um busto acéfalo, duas mãos sustentam adiante do peito, em alto relevo, um objeto indeterminável, mas muito provavelmente um vaso.
O segundo segmento é constituído por um nicho, encurvado em cima. Nele se vêem, em baixo relevo, duas toscas figuras, com feições desiguais, de pé, sem nada na cabeça – uma, a da direita aparentemente do sexo masculino, vestida de roupagem mais curta (simples tunica). A outra, a da esquerda, aparentemente do sexo feminino, vestida de roupagem que chega até quase aos pés (tunica muliebris). Cada uma das figuras tem na mão direita um objeto indecifrável e dá a esquerda à outra figura.
O terceiro segmento, separado do antecedente por um bordo, contém uma inscrição, que foi gravada no campo depois de um pouco rebaixado. Esta inscrição continua no segmento seguinte, cujo campo não foi porém rebaixado, como o terceiro. O resto  do quarto segmento era destinado a fixar o monumento no solo.
Os lados da estela são irregulares, e estão em parte quebrados. Pelas costas, a lápide foi levemente desbastada. A extremidade inferior acha-se também falha.
Veja-se a figura feita com toda a exatidão, quer quanto às figuras, quer quanto ao letreiro.
Este constava primitivamente de sete linhas. A primeira está incompleta, pelo gasto das letras. A última ocupa o quarto segmento. As letras da linha 7 são mais encorpadas que as restantes.
Inscrição
L1 - OC.. I ..F……..
L2 - C\ .. I I ……… II
L3 – ENI F A C ET
L4 – COMP VALUS
L5 – COMP ARDAE
L6 – A L HSS PENTV
L7 – COMP F C

Discussão da inscrição

L1 – L2 O que resta não me permite propor nenhuma explicação.
L4 – A 7ª  letra pode ser I ou L
L5 – A 6ª letra parece ser R.
L6 – N e T estão juntos (Nexo).
Nas linhas 3 e 4, o A não tem traço no meio, nas outras tem. Alguns dos PP são abertos.
Da discussão precedente resulta que o texto poderá interpretar-se assim: …..eni f(ilia), a(nnorum) C. et Comp. Vaius(Valus?), Comp. Ardae (filius), a (nnorum) L., h(ic) s(iti) s(unt). Pentu(s) Comp. f(aciendum) c(urauit). Isto é: Fulana, filha de um indivíduo cujo nome no genitivo termina em eni, de cem anos de idade, e Comp. Vaio (Valo?), filho de Comp. Arda, de 50 anos de idade, estão aqui sepultados. Pento Comp. mandou fazer este monumento”. Interpretei o F da 3ª linha por f(ilia), baseado em ser, como parece, feminina a figura da esquerda.
Comentarei agora rapidamente o monumento, seguindo a mesma ordem que segui até aqui.
Cipos funerários em forma de cabeça humano não são raridade na Península: em Cárquere (Beira), por exemplo, há alguns; em Lara de los Infantes (Espanha) também se conhece um. Rematados, porém, em busto não me acode nenhum à lembrança. Apenas estou no caso de mencionar aqui, a este respeito, um sepulcro (do tempo do Imperador Cláudio) que está em Roma no Museu Capitolino, e em cuja cobertura aparece entre duas volutas o busto do falecido, um rapaz de cinco anos, enfeitado com uma bula. Sendo vaso o objeto seguro pelas duas mãos, poderei comparar o nosso monumento com as figuras votivas do cerro de los Santos (Espanha), onde esse tema aparece frequentemente: o vaso na estela simbolizará libação aos deuses manes (inferiae). O busto representará o sacerdote que faz a libação, ou o próprio dedicador do monumento.
Nichos como o que está abaixo do busto vêem-se também não raro com estelas, ora com uma, ora com duas figuras, conforme o número de defuntos que se desejam simbolizar. Lembrarei mais tarde os monumentos de Cárquere. O figurar bustos em nichos de estelas é corrente em países de civilização romana ou grega e não vale a pena citar casos.
Há outros exemplos epigráficos e literários de idades provetas, como a que se menciona na linha 3. Se na linha 4, a leitura Valus é justa, temos aqui  um nome igual ao segundo elemento de palavras como Ate-valus, Cloto-valos, Lano-valus, Nerto-vali (genitivo), elemento que se tem por céltico, na aceção de “poderoso” ou “chefe”, e é comparável ao latim validus.
Às linhas 4, 5 e 7, há uma palavra comum, "COMP", em abreviatura. A repetição faz-me crer que represente, não um nome individual, mas um nome étnico, que para os contemporâneos era tão conhecido e tão fácil de entender, que bastava indicá-lo pelas suas iniciais. Não posso porém identificá-lo com nenhum conhecido. A posição do nome  étnico numa epígrafe era usualmente depois do nome do indivíduo, como nas linhas 6 e 7. O aparecer nas linhas 4 e 5 antes dele, não seria caso estranho em país bárbaro, onde muitas vezes se sai fora das normas epigráficas.
De Arda, na linha 5, há outro exemplo no Alt-celtischer Sprach-schatz de Holder: nome de homem da Gália. A palavra poderia ser céltica. São frequentes os nomes próprios de homens de homens gauleses terminados em –a, como: Atepa, Boutia, Claua, Cantusa, Carussa, Mapa, Toutissa.
A respeito da palavra Pentu(s), que se lê na linha 6, notarei que em inscrições astúricas, há PENTI FLAVI e PENTI BALAESI. Hubner, na lista de cognomina diz: genitivo “Penti Balaesi f.” e “Penti FLAVI”, indicando os genitivos por não saber se os nominativos eram Pentus e Penti(us). Mas a nossa inscrição mostra que mais prudente foi Hubner pois não há dúvida que, se Pentius era possível, também o era Pentus.
Os celtistas haviam deduzido teoricamente a forma Pentos (= Pentus) para explicarem Pentius e outros derivados (Pentilius, Pentinus, etc.). Em todo o caso, não ocultarei que, se Pentus é realidade como nome de homem, não passa de hipótese como nome de número céltico, visto que não há texto antigo que contenha tal palavra com este significado mas é hipótese muito admissível. Compreende-se que Pentos, a significar “Quinto” se aplicasse como designação de pessoa, pois é sabido que os prenomes latinos Quintos, Sextus, Decimus, etc., significam na origem ordem de nascimento (o quinto filho, o sexto, etc.). Do mesmo modo, que com Quintus se correlacionava Quintinus, Pentilius, também com Pentus se correlacionavam Pentinus, Pentilius e Pentius. Notável coincidência!

A tribo romanizada a que pertencia o monumento era, com muita probabilidade, aquela que tinha o seu oppidum num monte que fica a dois passos da igreja paroquial de Paderne, e que ainda hoje se chama a Cividade, do latim civitatem. Ali encontrei uma casa redonda, do tipo já conhecido noutros castros de Entre-Douro-e-Minho, e vários objetos de pedra (esculturas) e restos cerâmicos, tudo de origem pré-romana. O nome desta tribo começava acaso pela enigmática sílaba “Comp” que se lê três vezes na inscrição… "


Extrato retirado de:

VASCONCELLOS, José de Leite de (1907) - Estela sepulcral arcaica do Alto Minho. In:  O Arqueólogo Português, Lisboa.