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sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Visitando Castro Laboreiro há 130 anos (Parte II)

Ruínas do Castelo de Castro Laboreiro

Na viagem a terras de Castro Laboreiro contada por José Augusto Vieira no livro “O Minho Pitoresco”, há 130 anos, este sobe ao castelo e contempla os belíssimos pormenores deste cenário. O autor conta que “Chegados à base do gigantesco morro, o Almeida fez o esboço e nós enchemo-nos entretanto de coragem para fazer a ascensão dessa mole de granito, ameaçadora e bruta, que quase a prumo se erguia sobre as nossas cabeças.
Era pela chamada porta do Sapo, a do norte, mal distinta na nossa gravura, que teríamos de penetrar no castelo; para lá chegar porém, necessário era subir uns estreitíssimos degraus abertos na rocha viva, o que fizemos com a agilidade de que disporiam valentes animais trepadores, lutando ainda contra o frigidíssimo vento que nos açoitava,  ameaçando a cada momento desequilibrar-nos.
Chegados acima, uma sensação de terror nos gelou a medula. Entre nós e a porta, uma pequena rocha estreita, de poucos decímetros de largura, era a única passagem a transpor, e essa passagem dava sobre um abismo que media aproximadamente 500 metros de alto.
Bastava o escorregar dum pé, um ligeiro desequilíbrio, um nervosismo impertinente para nos fazer conhecer essa distância respeitosa, ao fim da qual a morte seria a consequência indubitável.
Retroceder seria, além de pouco praticável, uma verdadeira nódoa nos nossos brios de excursionistas! Avançámos, pois, e soltámos um  profundíssimo AH! de satisfação e alívio, quando transpozemos essa porta, que para nós representava a realização dum desejo e a certeza da salvação dum perigo tão próximo!
Os escritos, que temos lido sobre Castro, dizem que essa porta é estreita e fazem-a quase uma fresta que se torna necessário atravessar de rastos. Não é verdade isto. Um homem a pé passa por ela perfeitamente à vontade, e onde o rastejar é quase uma necessidade, é apenas na tal passagem a que nos referimos.
O castelo, que o povo atribui aos mouros, é evidentemente construção romana. Dentro encontram-se ainda vestígios de quartéis e há igualmente um poço, que os antigos dizem ter possuído agua nativa. Os muros atuais, arruinados bastante, são baixos e como que apenas coroam o castelo natural da penedia. Duas portas dão entrada para este recinto: a do norte por onde penetrámos, e a do sul, de acesso um pouco mais fácil, mas ainda assim perigoso.
O aspeto da paisagem é triste e árido. A penedia rendilha todas as montanhas e desponta por todas as encostas, tomando as formas mais variadas e mais caprichosas.
No inverno um lençol de neve cobre o seu dorso escuro e pardacento, no verão apenas destaca do desolado da rocha um ou outro talho de centeio verde-amarelado e os vidoeiros que se erguem no fundo do vale estreito, como sentinelas perdidas do grande exercito vegetal. Os carvalhos não passam de raquíticos arbustos e servem, assim como as
giestas, apenas para lenha. Nem uma única árvore de fruto, nem o mesmo pinheiro bravo se divisa num ponto único da serra. Apesar de ser verão, o céu era brumoso, com uma ou outra nódoa de azul esparsa na cúpula celeste. Renques de neblina corriam dos lados da Peneda, quebrando-se em vapor húmido contra as arestas das rochas e contra os muros do crasto. No fundo, o ribeiro Fraguedo serpenteia, como ondeante cobra, indo perder-se além, entre as serras de Lindoso, que deste ponto se avistam, para confluir no Lima. Foi sobre as margens deste regato que seguiu a pé D. Fr. Bartholomeu dos Martyres, quando visitou esta isolada freguesia da sua diocese.
A vol d'oiseau ficam-nos à esquerda as Inverneiras, escondidas numa profunda garganta, e à direita a vila de Castro Laboreiro, de lápis, penhasco, constituída pela aglomeração de choupanas cobertas de giestas e colmo, de entre as quais apenas a igreja e uma ou outra casa destacam os seus telhados negros e paredes esfumadas.
A igreja foi primitivamente vigararia da matriz de Ponte de Lima, depois abadia do bispo de Tuy, que João Fernandes Sotto Maior trocou em 1 308 com o nosso rei D. Dinis.
A vila tinha foral velho dado por Afonso III em Lisboa em 1271, e D. Manuel lhe deu outro em 1513, dando-lhe neste foral o nome de Castro Laboreiro.
Vários réis concederam aos castrejos muitos privilégios, que D. João V confirmou, e entre estes o de se não fazerem aqui soldados.
A fundação de Castro atribui-se a S. Rosendo, neto de Hermenegildo, a quem D. Affonso III doou estas terras de Lima, como prémio de ter vencido o conde Witiza, senhor destes lugares e que se revoltara contra ele. Hoje a vila está anexada à comarca e concelho de Melgaço e não haveria realmente fundamento para a considerar com os antigos privilégios, visto ser uma povoação decadente e miserável.
— Só por desgraça é que a gente vive aqui, meu senhor — dizia-me uma pobre mulher castreja, com quem conversávamos,— ainda se o governo nos fizesse a esmolinha de mandar para cá uma estrada!
A terra é fria e pouco fértil. As aguas duma deliciosa leveza e frígidas de neve. No inverno os castrejos, principalmente os de serra acima, abandonam as povoações do alto e recolhem às suas choças no fundo dos vales, as inverneiras, para as quais transportam o seu limitado trém de cozinha, os instrumentos do trabalho, as roupas e os gados. Chegada a Primavera deixam as suas casas de inverno e voltam para as do alto.
Nos fins de S. Miguel, os homens robustos e validos emigram para o Douro e Beiras, onde vão fazer paredes nos matos e campos. Chamam-lhes nessas províncias os tapisas ou tapúas. Ficam apenas as mulheres, os velhos e as crianças.
— Não há quem deite a mão a qualquer coisa, senhor.
— Se acontece de a neve entulhar as portas dos currais, mal nos avímos (havemos) para poder tirar o gadinho.
Qualquer homem que não siga o destino dos outros e que se deixe ficar na povoação, o que é raro, é considerado desprezado e as mulheres evitam-o sempre, não o atendendo as raparigas nos seus requestos, visto ser um calaceiro e não dar boas garantias de marido trabalhador.
No mês de Junho regressam aos seus lares e fazem os trabalhos agrícolas da colheita do centeio e batata, a apanha das lenhas e dos matos para as cortes dos gados, compram ou vendem nas feiras algum animal, concertam as choupanas, e, quando o inverno chega, depois de deixarem
feitas as sementeiras do centeio barrozo, emigram novamente. A cultura desta gramínea é feita roubando à serra pequenos canteiros de esteva por meio do incêndio; chamam a isto uma lavoura e é nesse rescaldo adubado pelas cinzas vegetais, que, depois de lavrado, se lança a semente. Nenhuma curiosidade oferecem os seus outros trabalhos agrícolas. Neles, como em quase todo o Minho, o auxilio mútuo é quase um princípio tradicional. Assim nas malhadas, por exemplo, os jornais não se pagam a dinheiro e são os vizinhos que reciprocamente se ajudam.”

::::::::::::::::::::CONTINUA::::::::::::::::::::

Para ler a PARTE I, CLIQUE AQUI

Extraído de: 
- VIEIRA, José Augusto (1886) - O Minho Pittoresco, tomo I, edição da livraria de António Maria Pereira - Editor, Lisboa.

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Visitando Castro Laboreiro há 130 anos (Parte I)

Castro Laboreiro (Melgaço), início do século XX

Há cerca de 130 anos, José Augusto Vieira, autor do livro "O Minho Pitoresco" percorreu alguns caminhos das terras de Melgaço. Subindo por Fiães e Alcobaça, foi conhecer Castro Laboreiro. Deixa-nos no livro as suas impressões e deixa-se impressionar com os usos e os costumes das gentes castrejas, deixando contudo transparecer algum choque com algumas particularidades. Ora leia: "Retrocendo pelo caminho andado eis-nos de novo junto de Alcobaça e desta vez em direcção seguida para Castro Laboreiro.
O rio Trancoso esgotou-se já e a raia seca principia, delimitada de distância em distância por uns marcos quadrilongos de granito. Que impressão fez em nós essa pedra humilde, colocada entre as estevas da serra, ao mesmo tempo espanhola e portuguesa!
A raia líquida parece ainda uma separação natural. A gente compreende a sua independência. O nosso pensamento como que vai formulando a frase: De cá nós! De lá vós!
Mas quando essa fronteira natural termina, e quando em plena serra se encontra apenas um ou outro marco colocado pela mão do homem, sem que a vegetação se diferencie, ou sem que a paisagem seja diversa, o espirito mal pode seguir essa linha ideal de separação, e como que desejaria que aquele curso de água, ainda há pouco tão humilde, tivesse continuado a acompanhar-nos para murmurar a cada passo, na voz ciciante da sua corrente, a palavra patriótica de Independência.
Além está Castro!— apontou-nos o guia— aquillo é o castelo!
Estávamos num alto. A vegetação luxuriosa do Minho era para nós um sonho já. Nem uma árvore de fruto, nem uma pequena mata de pinheiros. O cavallo era raquíitico, um metro apenas de altura, as urzes estendiam-se por toda a parte, onde as fragas lhe não impediam o desenvolvimento.
Penedos caprichosos, aglomerações graníticas de formas fantásticas à direita e à esquerda, em frente de nós e pela rectaguarda. Uma verdadeira garganta de granito. E lá ao fundo, como um vulto sombrio, o castelo de Castro, eriçado nas suas arestas agudas.
A paisagem melancólica, o céu brumoso, a pedra aflorando por toda a parte, um ou outro boisinho barrozão equilibrando-se por entre as
estevas! Nem o gorgeio duma ave, nem o cântico panteísta da água corrente.
Atravessamos a Portelinha, cujas casas são já como as de Castro cobertas pelo colmo e giesta e depois, num piso mais regular, em dois ou três quilómetros de vale, serpenteado por um riacho, em cuja margem apenas os vidoeiros vegetam, alcançamos as primeiras casas de CASTRO LABOREIRO, da vila, como nos indicou orgulhosamente o primeiro castrejo que encontrámos.
A nossa casa de refugio foi o posto fiscal. Graças à obsequiosidade desses humildes funcionários, ali desterrados, conseguimos alojar os animais e relacionarmo-nos com aquela pobre gente semi-selvagem e desconfiada, que nos olhava como a personagens raros e curiosos, e que se perguntava uma á outra— o que iríamos nós ali fazer — como se gente civilizada não visitara a sua terra, senão para atentar contra alguma imunidade local.
 O tempo urgia e enquanto João d'Almeida, o desenhador destas páginas, se curvava sobre o seu álbum para apanhar um grupo de crianças e duas ou três raparigas que se prestaram a poser rodeado pelos mirones que afluíam em volta do seu banco de trabalho e dos seus lápis coloridos, eu estudava o interior duma daquelas cubatas, onde o fumo quase me asfixiou a princípio e conversava com uma pobre mulher doente, coberta com o seu manto de burel, sentada ao lar, onde se aconchegava com fortes calafrios de febre.
Nada mais sórdido que um desses interiores de Castro e nada mais humilde também! Num ângulo da parede, quase sempre uma rocha viva, forma-se o leito, o mais económica e singelamente que é possível; dois barrotes de madeira unidos entre si em ângulo recto, formam com as paredes um quadrilátero, sobre que ele assenta. A um desses barrotes está apenso um banco, ao outro um quadrado que serve de guarda-roupa, formando tudo como que uma só peça inteiriça, de que a gravura dá uma ideia bem clara.
Nesses leitos não havia lençóis! É um luxo de civilização, que o castrejo ainda não conhece. As mantas grosseiras de burel constituem as únicas roupas, com que se cobre! A um dos lados, numa cova aberta na terra, está o lar, à volta do qual ficam os escabelos, em que a família se senta para conversar ou comer. Como os tectos são de colmo ou giesta e não há tiragem por meio de chaminés, usam, para evitar os incêndios, alguns ramos interpostos entre o fogo e o tecto, que recebem as primeiras faíscas de lume, onde ordinariamente se convertem em fuligem, e que rapidamente são retirados, se acontece de incendiarem-se.
Anexo a este interior, o que há de mais sórdido, de mais negro pelo fumo, e de mais anti-higiénico, ficam as cortes para os gados. A castreja, com quem conversávamos, assim como todas as que se relacionaram connosco, era de trato afável e simples, modesta e com uma fisionomia expressiva. Em todos encontrámos uma regularidade de traços, formando um conjunto agradável e simpático, repelente apenas pela porcaria, que era principio estabelecido e comum. O vestuário é grosseiro, burel oupicoto, segundo o termo local e tecido ali mesmo. As de Alcobaça são, como já vimos, as melhores tecedeiras, e nesta localidade usa-se por isso a roupa branca nas camas.
O nosso cromo dá uma ideia exacta do costume, cujas peças mais originaes são a monteia, espécie de lenço para a cabeça, o colete, o manteu largo deitado desde os hombros até aos joelhos, as piugas e os tamancos, que dão à castreja a pequenez do pé, como acontece na China com os borzeguins das altas damas. Chamam-lhe na linguagem local alabardeiros e deles dá uma ideia exata a nossa gravura de texto.
Perguntámos por industria local. Não havia senão a da cultura da terra nas proporções miseráveis que logo veremos.
— E manteiga não fabricam?
——Isso, sim senhor, mas só nas povoações do alto.
——Boa?
— Bonita e fresca, como olho de galo— respondeu-me em imagem  pitoresca e viva.
— E o pão, como fabricam vocês o pão?
— É com centeio e algum milho. As mulheres amassam em casa, fazem as bolas e levam-nas depois para casa do padeiro.
Pedimos para ver uma. Eram de forma mamilar, e grosseiro o seu fabrico. Depois de amassadas, colocam-as numa tábua e conduzem-as à cabeça para a casa do forno, que é comum à povoação, concorrendo todos para o seu concerto, quando disso ele necessita.
Além destas broas, fazem ainda no rescaldo do lar uns bolos, que servem enquanto não chega o pão do forno. Almeida tirara já os seus croquis e eu desejava mais tempo para os meus. Precisávamos, porém, dum esboceto do castello e roía-nos o desejo de visitar essa velha ruína da civilização romana, que tínhamos a uns 500 metros da povoação. A tarde avançava e o nosso estômago principiava a revelar umas certas impaciências pelo abandono a que o votávamos.
O grito geral era, porém, -Ao castelo! - e força foi que por esta vez o estômago condescendesse…"


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Extraído de: 
VIEIRA, José Augusto (1886) - O Minho Pittoresco, tomo I, edição da livraria de António Maria Pereira - Editor, Lisboa.

sexta-feira, 8 de julho de 2016

Melgaço no tempo dos nossos antepassados

Praça do Comércio, na vila de Melgaço em finais do século XIX
No livro “O Minho Pittoresco” de 1886, o autor dedica longas páginas ao nosso concelho e conta-nos como era a nossa terra nessa época. Começa por nos descrever a vila nestas palavras: “Um velho burgo feudal, que se transforma, à força de desejar a luz fecundíssima da civilização. Aquela torre de menagem, erguida como recordação do passado no meio das muralhas em ruína e das casarias, que afloram à cor do branco, tem ainda um aspecto de rude tristeza selvagem. É triste, e é forte, como um antigo guerreiro da Lusitânia. Olhando para essa fita de macadam que lhe chega do sul,e para essas tiras d'aço da via férrea, que vê desenrolar-se na margem galega, dir-se-ia que ela sonha talvez com as escaladas noturnas, as lutas peito a peito, os combates singulares da idade medieval, o cintilar coruscante das armaduras dos guerreiros.
E contudo, quando avistamos de longe o seu vulto sombrio e glorioso, erguendo-se altivo por sobre a povoação, a nossa pupila fixa um ponto branco nas suas ameias, como bandeira de paz, que substituiu os estandartes da guerra. É um marco geodésico, — verificamos quando chegamos perto, — isto é, um padrão que atesta o trabalho moderno da ciência, mas que os ângulos da torre sustentam, sem manifesto ciúme do seu passado de lutas.
E eis aí o que é Melgaço: — a vontade firme de progredir com o desejo de conservar as suas tradições honrosas, de que essa torre, melhor que nenhum outro monumento, representa o símbolo aos olhos dos contemporâneos.
Colocada no centro dum anfiteatro de verdura, onde a vinha enche com a sua cor de esmeralda clara quase todas as bancadas, desse lugar avistam-se as freguesias do concelho, que se estendem pela ribeira Minho e cujos campanários recortam, com as suas arestas pitorescas, a espessura dos arvoredos. Ao sul, a montanha como que nos dá ainda a sua sombra fresca. E em baixo, ao norte, na garganta das colinas, o Minho vai açodado, espelhando apenas um ou outro sorriso, quando vê na margem um esboço de planície a namora-lo com a sua inclinação de leito suave, que o convida a descansar um pouco.
A encosta galega com as suas vinhas, as suas árvores, os seus casais, as suas torres desmoronadas e vicejantes de hera, o anil recortado do alto das suas montanhas sucedendo-se em gradações insensíveis, completa a paisagem, tão bela nas suas linhas simples, tão formosa na sua melancolia fugitiva.
De fundação antiquíssima, Melgaço, ignora-se quem fosse o seu primeiro fundador e qual fosse também o seu primeiro nome. Sabe-se apenas que os árabes, se não os romanos, tiveram aqui uma fortaleza considerável, chamada o Castelo do Minho, que era já ruínas no tempo do conde D. Henrique.
Modernamente, a sua fundação é coeva do principio da monarquia portuguesa e foi Afonso Henriques que a ela procedeu, em 1170, como se vê duma inscrição na porta do norte da actual muralha, sendo todavia a torre e fortaleza mandadas edificar por D. Pedro Pires, prior do mosteiro dos crúzios de Longos Vales, e à sua custa, como diz D. Sancho I na carta de couto que deu ao convento em 1197.
D. Diniz enobreceu também Melgaço com a cinta de muralhas, de que hoje ainda se encontram os vestígios e que eram de pouco mais de dois metros de altura. O primeiro foral foi dado à vila por D. Afonso Henriques em 1181, dando já então aos seus moradores a aldeia de Chaviães. Este foral foi, em S. Tiago, confirmado por D. Afonso II em Agosto de 1219. E, pela segunda vez, em Guimarães por D. Afonso III a 9 de Fevereiro de 1261. Este mesmo rei lhe concedeu ainda outro foral, em Braga, a 29 de Abril de 1258 e novo foral lhe deu mais tarde em Lisboa D. Manuel a 3 de Novembro de 1513.
A vila actual entra decididamente no caminho da civilização. A estrada, que a liga a Monção e Valença, é hoje a sua principal artéria, mas os melgacenses desejam ainda, e com justiça, que as povoações que lhe ficam mais a norte como são S. Gregório, por um lado, e Castro Laboreiro, pelo outro, comunguem igualmente no grande banquete de progresso e luz, a que têm direito. Pobres parias os tristes filhos da serra, para chegar aos quais urge atravessar as mais desabridas montanhas, por caminhos intransitáveis, espiados pelos olhares cubiçosos dos lobos, que são os únicos guardas campestres daqueles solitários terrenos.

Melgaço possui um hospital em condições muito regulares e há pouco tempo também concluiu o seu cemitério. A linha telegráfica foi inaugurada no meio do maior regozijo em Novembro de 1874. Compreendia o antigo e glorioso burgo a importância dessa via de comunicação, que o relacionava com o mundo inteiro.” (Extraído de:
- VIEIRA, José Augusto (1886) - O Minho Pittoresco, tomo I, Edição da livraria de António Maria Pereira- Editor, Lisboa.)

sexta-feira, 13 de maio de 2016

Melgaço e seu lugar na História de Portugal

Castelo de Melgaço, na viragem do séc. XIX para o séc. XX
Numa publicação de 1890, o “Archivo Histórico de Portugal”, eleva-se Melgaço a um lugar de importância extrema na História de Portugal. Aí podemos ler: “Pertenceu esta vila à casa de Bragança e pelos duques eram dados todos os ofícios.
De Melgaço, são oriundas várias famílias nobres de Portugal, tais como os Marqueses de Nisa, Condessa da Ribeira, Barão de Proença-a-Nova, Castros Pittas, de caminha, e outras ilustres famílias, mais ou menos aparentadas com o antigo senhor da Lapela, morgado de Covas,Gaspar de castro Caldas.
Se Melgaço não é conhecida na sua origem, se não tem a ilustrá-la, nem colunas, nem templos, preciosas relíquias da civilização pagã, a sua História desde os tempos  em que foi povoada pelos cristãos é insuficientemente  honesta e heróica para lhe granjear títulos de nobreza. De quantas vezes a Pátria precisou do seu auxílio, de lá correram valentes e intrépidos patriótas, afrontando perigos determinando-se bravamente a todos os sacrifícios. Nas longas e sucessivas guerras com Castela, os melgacenses souberam sempre honrar a sua terra e a lusitana bandeira.
E não só os homens como também as filhas de Melgaço são heróicas e arrojadas na defesa da integridade do território pátrio. Exemplos têm dado dos seus nobilíssimos sentimentos, e destes vamos fazer a narração de um, que de per si basta a orgulhar as formosas e honestas mulheres desta briosa vila. XX No período que medeia de 1384 a 1393, sustentou Portugal encarniçadas batalhas com os pretendentes castelhanos.
Voltemos, porém ao nosso propósito de exemplificar o quanto valem e o quanto bem merecem da Pátria as mulheres de Melgaço. Permanecia ainda esta vila sob o domínio castelhano, defendendo o castelo Álvaro Paes Sottomayor, alcaide-mor, que tinha às ordens uma guarnição de trezentos infantes e trezentos cavalos. Enfastiado pela resistência, foi o valente D. João I pessoalmente pôr cerco a Melgaço mas os dias decorriam sem haver ensejo para mais do que ligeiras escaramuças sem importância  para a decisão do pleito. Ao décimo dia, o rei guerreiro, já exasperado com a situação, tomou a resolução de mandar fazer um castelo de madeira, que ficasse a “cavaleiro das muralhas”. Vinte dias levou o plano a executar-se. Vendo os inimigos preparar-se um assalto, deram sinal de armistício e mandaram à praça um emissário para entabolarem negociações.
Álvaro Paes, o velho amigo de D. João I, tais condições pôs, que não pode resolver-se coisa alguma, e então o monarca ordenou que se desse o assalto o qual seria por ele mesmo comandado. Deu-se isto pelo ano de 1388. D. João havia-se matrimoniado recentemente com a virtuosa princesa D. Filipa de Lencastre que tão salutar, honesta e gloriosa influência exerceu no ânimo do esposo e na educação exerceu dos heróicos filhos. A jovem rainha estava em Monção com as suas damas e acompanhada pelo famoso João das Regras, sábio mestre e alma da política daqueles tempos. Viera do Porto para ver o esposo real e tencionava residir no convento de Fiães enquanto durasse o cerco. Espírito varonil e angélico ao mesmo tempo, não a atemorizava o perigo, antes dele se aproximava como uma estrela de amor que lançava os seus castíssimos reberveros no coração dos reinvindicadores dos direitos da sua nova Pátria, pátria que a doce e bela rainha tanto amou e soube honrar!
Dentro da praça havia uma mulher destemida, espécie de virago, que sendo naturalde melgaço, renegara a sua origem e se dera de alma e coração aos castelhanos. Ora no arraial dos portugueses, achava-se também uma mulher de muita valentia, do que havia bastas provas.  Esta cujo nome era Inês Negra, abrigava no coração os mais sagrados princípios patrióticos a daria a sua vida pela honra da sua terra. Sabedora e renegada da existência da valente portuguesa nas suas vizinhanças, mandou-a desafiar a um combate singular. Inês Negra não repeliu a proposta, e dirigiu-se imediatamente para o lugar da justa, que ficava a meia distância do arraial e da vila. Chegada ali encontrou a sua antagonista já perfilada, arregaçada e capaz de lutar com o próprio Hércules. Não se intimidou Inês mas antes se encheu de nobre indignação, em presença da desonrada virago que atraiçoara a mãe Pátria. Feriu-se o combate com extraordinário ardor. Parece que ambas andavam armadas, mas não especializa a crónica, a espécie de armas de que se serviram, sabendo-se apenas que essas armas ficaram despedaçadas na refrega. Por fim, valeram-se das unhas e dos dentes. Afinal a Arrenegada, como então se dizia, ficou vencida, rotas as vestes, esmurradas as narinas, escalavrada a cara, e nesse vergonhoso estado de derrota, teve que fugir, deixando como troféus à vencedora, os cabelos e os farrapos do vestuário. Grande foi a assuada que os castelhanos sofreram no arraial português e a nossa destemida compatriota foi vitoriada como de justiça era.
No dia imediato, caia a vila no regaço da mãe pátria, e Inês Negra, guerreira como os guerreiros, lá estava no alto da plataforma do castelo, cercada de besteiros, olhando amorosamente o pendão das quinas, que de novo conquistara o seu lugar. Então, no auge do seu entusiasmo, exclamou de forma triunfal, colocando as mãos sobre os generoso coração que parecia disposto a saltar-lhe do seio: “Mas vencemos-te! Tornaste ao nosso poder. És do rei de Portugal!” Salvé, brilhante heroína de Melgaço! A Pátria agradecida te cobre de bençãos e gloriosa memória!
Durante a guerra napoleónica, não menos digna foi a atitude de Melgaço. Esta foi a primeira praça de armas que sacudiu a jugo do odioso Átila Moderno. Foi dali que partiu o primeiro grito de libertação, e de lá também se levantou a famosa pleiade de valentes, que pondo à sua frente o general Sepúlveda, tão nobremente contribuíram para o resultado da luta. (...) Finalmente, não é a vila de Melgaço rica de pergaminhos artísticos, de que tantas outras povoações se envaidecem, porém a sua carreira histórica dá-lhe foros de ilustre. E os castelhano que com ela defrontar há-de compreender que ali naquele pedaço de terreno frigidíssimo, rude, mal agradecido aos labores do proletário; que ali, sob aquele céu, ora de um azul espelhado e frio como uma lámina de aço polido, ora nevoento e opaco como uma desgraça latente, há corações que abrigam o fogo sagrado dos mais nobiliantes sentimentos.

E poderá pensar que nas veias dos filhos de Melgaço corre um sangue tão puramente português como aquele que gravou na lusitana História. Quando uma povoação tem tão heróicos antecedentes, pode com altivez medir-se em glórias com a mais opulenta cidade!" (Extraído de: Archivo historico: narrativa da fundação das cidades e villas do reino, seus brazões d'armas, etc. (1890), 2ª Série, Typ. Lealdade, Lisboa.)

sexta-feira, 22 de abril de 2016

Os gados de Castro Laboreiro junto à fronteira e os carabineros espanhóis (meados do século XIX)

Castro Laboreiro (Melgaço), noutros tempos
Em algumas áreas de fronteira em Castro Laboreiro, a linha que separa Portugal e Espanha em tempos não era muito clara. Por vezes, eram frequentes conflitos entre populações e autoridades dos dois lados da raia. Em meados do século XIX, encontramos registos dessas mesmas desavenças relacionadas, por exemplo com os gados no pasto.  Em missiva datada de 16 de Março de 1859, o regedor substituto de Castro Laboreiro (Melgaço), dirigida ao administrador do concelho de Melgaço, queixa-se das arbitrariedades cometidas pelas autoridades espanholas, nomeadamente diversas apreensões de gado dos castrejos por parte de carabineiros espanhóis, alegadamente, em território português: “1º Aprehensão feita dos rebanhos lanigeros e caprinos dos lugares de Adofreire e Queimadelo, e Falagueiras, e Coriscadas, e Cobelo, pelos carabineiros do ponto en Quintela de Leirado, cujos forão arrematados por seis mil e tantos reaes; 2º A tomada de humas bacas de Engracia Esteves do lugar do Rodeiro feitas pelos mesmos; de cujas tomou delas conhecimento o Juiz de Dereito da Comarca e mais o Agente do Ministerio Publico; e por enquanto não se sabe do rezultado; 3º A tomada de outras bacas de João Esteves e Pedro Esteves do lugar do Theso; 4º A tomada de outras poucas de bacas feita a Manoel Fernandes Bispo e outros do lugar de Campelo; 5º A tomada dos gados bacuns dos lugares da Seara e Padrezoiro, 6º A tomada do gado bacum dos lugares das Falagueiras e da Adofreire, 7º finalmente a prizão de hum pobre vendilhão de sal chamado Francisco Fernandes morador nesta Villa, que estava vendendo sal aos galegos na fronteira, porém dentro do nosso territorio chamado o sitio da Senhora da Ana con duas cabalgaduras foi também arrestado para a Cadeia de Ourense, aonde segundo me consta tem de estar tres meses, é quanto tenho a dizer sobre o objecto de se trata.” Nessa mesma altura, encontramos num outro documento mais queixas de abusos alegadamente cometidos por carabineiros espanhóis junto da fronteira, em Melgaço,  feitas ao presidente do Conselho de Ministros e Ministro dos Negócios Estrangeiros, em 18 de Novembro de 1859: “Contaram-me ali, que en certa occasião en que os referidos carabineiros haviam entrado no territorio portuguez no termo de Castro Leboreiro, e aprehendido algumas cabeças de gados dos lavradores que andavão pastando naquellas serras, representando a autoridade portugueza a hespanhola, foram requezitadas algumas testemunhas portuguezas, as quais hindo a Orense, forão lá mandadas encarceirar, e ainda en cima multadas!! V. Exª sabe quanto o espírito de nacionalidade pode influir nas decisões de pleitos, principalmente tratando-se de factos passados en lugares ermos, quando são attendidos como partes dos próprios autores dos factos de que há a queixa.”  (Documentos citados em GODINHO, Paula (2008) - Oir o galo cantar dúas veces)

sábado, 30 de janeiro de 2016

A bravura das castrejas (Castro Laboreiro, 1875)

Castro Laboreiro (Melgaço)

Recuamos até 1875. Espanha está em guerra civil, está em curso a terceira guerra carlista. Frequentemente, guerrilheiros galegos atravessam a fronteira e procuram refúgio nos montes em Castro Laboreiro. Existe uma forte presença de soldados portugueses em terras castrejas para evitar a entrada de combatentes galegos em território português.
Este clima de tensão na fronteira é falado no Brasil no “Jornal do Commercio” na sua edição de 17 de Setembro de 1875. No dito periódico, faz-se alusão a uma notícia do jornal valenciano “O Noticioso” nestes termos:
“O Noticioso de Valença dá a seguinte notícia que eloquentemente revela qual o espírito do povo na raia portugueza: Fallando-se ha dias em Castro Laboreiro, que parte dos voluntários galaicos que se tinham sublevado em Entrimo, estavam dispostos a vir àquela povoação atacar o destacamento que alli está, e fazer distúrbios, vingando-se deste modo de lhe haverem prendido um companheiro que vinha para Tuy, de que demos notícias em um dos números passados, os habitantes daquella povoação trataram de se armar para coadjuvarem o commandante do destacamento, afim de oppôrem resistência à passagem dos revoltosos.
“Dizem-nos que era para admirar a coragem dos habitantes de Castro Laboreiro. Não foram só os homens que se prepararam para o ataque. As mulheres, com fouces, machados e outros instrumentos bellicos, estavam também dispostas a entrar em acção. Felizmente, não foi necessário experimentar a bravura das castrejas, que deram a conhecer que ainda não acabaram as padeiras de Aljusbarrota, nem as Ignezes Negras, heroínas de Melgaço.”
E pode-se assegurar que em todo o norte do paiz, o espírito e sentimento popular não destoam do dos habitantes de Castro Laboreiro.”

Acerca da bravura dos castrejos e dos castrejos, está tudo dito...

Cabeçalho do "Jornal do Commercio", edição de 17 de Setembro de 1875

"Jornal do Commercio", edição de 17 de Setembro de 1875, corpo da notícia citada

sábado, 16 de janeiro de 2016

O "Drama de Alvaredo": a história de um crime e dos criminosos


Igreja Paroquial de Alvaredo (Melgaço)

No fim do século XIX, aconteceu no nosso concelho aquele que ficou conhecido como o “Drama de Alvaredo” ou o “Crime de Melgaço”,  os últimos cometidos por um bando de criminosos que mais tarde seriam capturados e julgados no tribunal de Melgaço em 1893.
O início da história conduz-nos a uma mulher chamada Maria da Piedade oriunda de S. João da Pesqueira e ao seu namorado Alfredo...
Maria da Piedade foi lavadeira mas não se deu bem. Apaixonou-se e passou a trabalhar junto do seu cabouqueiro, vendendo goles de aguardente. Mas o seu amor virou assassino e ela condenada por fogo posto.
Perguntou-lhe se não queria fazer um seguro da casa, pois se esta ardesse ganhavam algum dinheiro, mas Alfredo não quis, andava com outras preocupações, nos preparativos de coisa mais rendosa. Então, Maria da Piedade, meteu mãos à obra e fogo na casa em que habitava às portas da cidade de Lisboa. No meio disto, envolveu-se num assalto que acabou em assassínio e foi presa, com o seu amor, na cidade do Porto.
Dois anos antes, andava de um lado para outro, de galochas e odre a tiracolo, vendendo goles de aguardente ao pessoal da obra do túnel ferroviário de Lisboa, no lado de Campolide, na zona da Rabicha, a quinta que o caminho de ferro atravessará vindo do Rossio. Chamavam-lhe a Aguardenteira. A primeira ideia seria servir o namorado, mas o grupo de cabouqueiros a que este pertencia fez-lhe criar o negócio.
Maria da Piedade, nascida em São João da Pesqueira, distrito de Viseu, no ano de 1854, vivia com Alfredo Gomes, numa casa abarracada no sítio de Sant’ana, para lá da ribeira de Alcântara, onde hoje se localiza a Vila Ferro, no Bairro da Liberdade. Morava perto das obras do túnel da Rabicha, por isso, quando os homens esvaziavam a borracha, como chamavam ao recipiente que ela trazia ao ombro preso com uma correia, podia rapidamente ir enchê-la.
Piedade andava por ali, entre os trabalhadores, sem temer pelo físico. Não era mulher de se assustar, era valente “e mais temível do que muitos homens”, apesar de franzina. No sítio de Sant’ana, ninguém se metia com ela, “citavam-se proezas, na verdade extraordinárias, praticadas por aquela nova padeira de Aljubarrota”, escreveu em 1897 o jornalista Luiz Silva, na “Galeria dos Criminosos Célebres em Portugal” publicada em 1897. E andava com más companhias. O namorado e os cinco vizinhos que hão de entrar no assalto fatídico, eram ali conhecidos como “desordeiros, jogadores e amigos de galinhas”, segundo o jornal “A Vanguarda”.
Na sua folha corrida, constavam duas prisões por ofensas corporais, uma em outubro de 1890 e outra no mesmo mês do ano seguinte. Nada de  extraordinário. Antes de ser Aguardenteira, Maria da Piedade ganhou músculo lavando roupa. Mas não por muito tempo, o mundo das lavadeiras também não corria de forma pacífica. Era um negócio muito competitivo… Veja-se um caso passado em setembro de 1892, quando desapareceu uma saia à lavadeira Maria de Jesus. Decorridos onze meses, a governanta do tanque nº 6, onde se dera o roubo, reconheceu a peça de roupa na mão de Joana Maria, quis tirar-lha e, como a outra não cedesse, agrediu-a, pondo-a fora do tanque que geria.
“A guarda municipal da estação do Pasteleiro, a quem a Joana se queixou, interveio e quis arbitrariamente, fazer com que a Joana continuasse a lavar no tanque, chegando a querer obrigar a governante a acompanhar a parte do ocorrido para o quartel”, noticiou em 12 de agosto de 1893, rematando: “Se o caso se assim se deu, parece-nos incorreto o procedimento da guarda e para ele chamamos a atenção do sr. comandante”.
O caso não foi com a Maria da Piedade, aliás, ela já não se encontrava no continente quando se deu o desenlace, mas podia ter sido, dado o seu feitio. Uma agressão, ou mesmo um roubo, poderiam tê-la levado a mudar de profissão, todavia, sabe-se apenas que o negócio de lavadeira não lhe correu bem e, por isso, pensando no seu Alfredo, virou-se para a venda de aguardente nas obras do túnel que irão proporcionar viagens entre o Rossio e Sintra, ida e volta, a mil réis em 1.ª classe, 900 em segunda e 500 em terceira. Por esta época, um operário ganhava cerca de 200 réis por dia.
Os trabalhos começaram em 1887 e terminaram três anos depois, mas o primeiro comboio a testar a circulação no túnel fê-lo em abril de 1889, levou 27 minutos, hoje demora três. Foram escavados 2612 metros de rocha calcária, entre o Rossio e Campolide; com a abertura da estação central, em junho de 1890, ficou a linha férrea de Lisboa a Sintra, Torres e Figueira a Alfornelos com um movimento de 50 comboios diários. E o casal de Sant’ana, assim como os caboqueiros seus vizinhos, ficaram desempregados, por pouco tempo…
Piedade adorava o seu Alfredo. Quando forem presos, há de jurar-lhe que nunca o abandonará. Mais novo quinze anos do que ela, era um rapaz destemido, habituado a abrir caboucos e muitas vezes obrigado a alargar o campo de ação pela força das circunstâncias, significando esta a falta de dinheiro, por dispêndio excessivo em jogo e vinho, embora deste último não haja notícia de exageros, apesar do tempo que passava nas tabernas, com os seus companheiros, alguns de anos, outros mais recentes. Eram eles: António Fernandes, de 29 anos e de alcunha o Guerra, Santiago Rey y Lopez, de 37, António da Fonseca Pinto, de 35, João Esteves, de 24, e Romão Lousada de 24 ou 25 anos.
Alfredo Gomes, de 23 anos, nascido em Monção, não se saía mal, normalmente, quer dizer, nunca fora preso por roubar, tal como Maria da Piedade que não faria do roubo a sua ocupação principal, até ao malfadado dia em que um assalto deu para o torto e a polícia se revelou bastante eficiente. O namorado ganhara a sua coroa de glória num assalto na vizinha Espanha, do qual escapara por um triz, e isso dera-lhe confiança para continuar tivesse ou não trabalho na construção civil.
Ele e o Romão Louzada, um espanhol de Pontevedra, participaram, entre 1887 e 1889, num assalto a casa de um padre, no lado de lá da fronteira. Foram experimentar a ligação ferroviária à província de Salamanca, provavelmente, depois de trabalharem nas obras entre Barca de Alva e La Fregeneda, troço inaugurado em dezembro de 1887, mas quando apanharam o comboio já iam com o propósito do roubo. Eles e outros mais, desconhece-se quantos, uma vez que a coisa correu bem.
Assaltaram-lhe a casa à noite, a horas mortas. O padre espanhol ainda resistiu, não querendo dizer onde guardava o dinheiro. Mas não lhe serviu de nada, ao ver-se atado, deitado num colchão de palha a que os ladrões largaram fogo, logo se prontificou a revelar o esconderijo. Os meliantes extinguiram as chamas, agarraram no dinheiro e fugiram. O Romão, ligeiramente ferido, escondeu o roubo nas ceroulas e chegou bem a Lisboa, o Alfredo passou um momento de tensão quando, na estação da fronteira espanhola, o consideraram suspeito. Livrou-se, dizendo ser “limpiador do comboio e começando a fingir que o limpava”, contou “A Vanguarda”.
A dada altura, no mês de junho, João Esteves soube que uma sua tia de Monção, governanta em casa do reitor da freguesia de Trovisco, recebera um conto de réis de herança, e desafiou os amigos cabouqueiros. “Não acham que seria um golpe real apanharmos aquele dinheiro? Além disso o reitor também possui pé de meia. De uma cajadada matam-se dois coelhos. Que dizem?” Como o golpe de Salamanca dera uma boa maquia, Romão e Alfredo pensaram que não seria má ideia roubar outro sacerdote, já que estes possuíam sempre alguma riqueza. Dias depois, a 25 de junho, reuniram-se de novo, desta feita em casa de Alfredo e de Maria Piedade, para acertar o que fazer.
Enquanto os homens andavam nesta combinação, Maria da Piedade engendrava outra maneira de ganhar não apenas uns cobres, mas uma boa maquia. Para isso, nada melhor do que fazer o que já ouvira que outros tinham feito com resultados positivos. Dirá depois que o espanhol Santiago é que a incentivou. “Podemos ganhar bastante com isso”, ter-lhe-á dito numa tarde. Pouco tempo depois, ela, que “nunca mais tinha pensado no assunto” desde que Alfredo recusara a ideia, correu a segurar a casa por 500$000 réis.
Escondendo de Alfredo aquilo que preparava, Maria da Piedade foi combinando com Santiago como iriam dar o golpe à companhia de seguros. Na madrugada de 26 de junho, estando já acertada a ida para norte, faltando apenas decidir o dia, os dois cúmplices mudaram todo o recheio para casa do espanhol. De seguida, esfarelaram um colchão, espalharam a palha pelo solo, regaram-na com aguardente e pegaram-lhe fogo. A casa, localizada ao lado da igreja, ardeu completamente. “Para se avaliar bem a força da amante do Alfredo, basta dizer que ela se dirigiu à esquadra próxima, e pediu a dois polícias que lhe servissem de testemunhas para receber o dinheiro do seguro!”, observou Luís Silva.
O incêndio não alterou os planos dos cabouqueiros. No dia seguinte, Romão decidiu que era tempo de partirem. Mandou Maria da Piedade chamar Alfredo. Esta foi a Campo de Ourique, direita à obra onde o namorado (os jornais da época referem-nos sempre como amantes, por não serem casados) se encontrava por esses dias a trabalhar, e disse-lhe: “O teu primo João está preso”. Alfredo percebeu logo que estava na hora, porém, mais tarde, Piedade dirá que desconhecia ser uma combinação dos homens.
“Alfredo, para ter dinheiro para a viagem, empenhou uma mala com roupa, um relógio e cadeia de prata, numa casa de penhores em Alcântara, por 15$000 réis. O Guerra empenhou umas argolas e umas contas de oiro da amiga por 3$900 réis; Santiago levou 3$000 reis que tinha em casa; Fonseca levava só um tostão, abonando-lhe Romão o dinheiro para a passagem e João não levava nada, porque ia às ordens de Alfredo”, contou “A Vanguarda”, adiantando que Romão era o que tinha mais “capitais”, ainda lhe sobrava dinheiro de Salamanca
Conforme tinham combinado, entretanto, para dar tempo às diligências necessárias, encontraram-se os seis cabouqueiros na estação da Avenida (como também se chamava ao Rossio) a afim de seguirem caminho. Por segundos, perderam o comboio, e voltaram a perdê-lo mesmo depois da correria que fizeram até Santa Apolónia. Regressaram a casa aborrecidos, sem tensões de desistirem. Na noite seguinte, a 28 de junho, portanto, embarcaram pelas 23 horas, decididos a irem roubar a tia e o padre.
Deviam ter pensado que, por vezes, o destino dá os seus avisos. A viagem correu bem. Fizeram uma paragem em Sacavém para comerem e de manhã já estavam noutro comboio com destino ao Porto, do qual sairiam na cidade Invicta para chegarem a Valença. Não havendo mais hipóteses ferroviárias, foram a pé até à casa do reitor da freguesia de Troviscoso. Percorridos os quase 20 quilómetros de caminho, chegaram ali já de noite, mas nada fizeram, havia gente acordada a regar o cultivo à volta da casa. Refugiaram-se no bosque e, sendo meia-noite, voltaram a tentar, contudo, foram vistos por um criado que agarrou numa espingarda e disparou um tiro que os pôs em fuga.
João Esteves lembrou-se, então, de um rendeiro que morava ali perto e que também devia ter que roubar. Já que ali estavam, pensaram todos, aproveitariam para não regressarem a Lisboa de mãos a abanar. Lá foram. Muito embora fosse de madrugada, também depararam com dois homens de sachola a trabalhar na horta. Nada feito, quanto menos esperassem levavam com as ferramentas e aparecia gente armada como em Troviscoso.
Escondendo-se na mata conferenciaram. António Fernandes lembrou-se então que não muito longe, no lugar de Vilar, freguesia de Alvaredo (Melgaço), a sua mãe fora criada de um padre que possuía uma razoável fortuna. Mais uma caminhada, estavam com azar mas desta vez conseguiriam. Pelas duas horas da madrugada de 2 de Julho, entraram na casa do padre Sousa Lobato. Só Romão não ia armado, dera a sua pistola ao Guerra, já que este emprestara a sua ao João Esteves, de resto Fonseca levava um punhal, Romão uma navalha, Santiago um revólver e um cacete.
Quando entraram, apesar do Santiago ter feito algum barulho, nenhum dos residentes acordou. Mas ao procurarem o dinheiro no quarto do padre, não tiveram a mesma sorte. O religioso ainda deu luta, mas ficou muito ferido. Com os gritos, o irmão e o cunhado acudiram, envolvendo-se todos à pancada, com tal estrondo que acordaram a vizinhança e os cabouqueiros não tiveram outro remédio senão porem-se a andar. Foi uma fuga desordenada, a pé, até Braga. Estavam praticamente sem dinheiro. Romão tinha uma moeda de cinco duros, mas ninguém a trocava; Santiago pensou empenhar o revólver mas as lojas estavam fechadas; o Guerra e o Fonseca decidiram ir a pé até ao Porto…
Maria Piedade ficara em Lisboa, entregue a si própria, confiando Alfredo que ela daria bem conta do recado e que ainda ganharia algum com isso. Pensou bem. Apesar de ter havido alguma desconfiança quanto à origem do fogo, a companhia de seguros acabou por dar-lhe 114$000 réis, uma boa maquia, embora longe do valor do seguro. Com esse dinheiro, a Aguardenteira foi à casa de penhores buscar os pertences do namorado, e resgatou ainda alguma roupa, umas argolas de nove mil réis, dois anéis, um afagador com medalha, uma pregadeira, tudo em ouro.
Depois disso, a 31 de julho, partiu para a Invicta, onde ainda deu ao Santiago 12 mil réis pelo trabalho, dois mil para alugar uma casa para todos e 300 para a mudança. Todavia, beneficiaria muito pouco com todo este movimento. O padre Sousa Lobato sucumbira aos ferimentos no dia 23 de julho, a partir daí as investigações intensificaram-se, ganhando um impulso com o aparecimento de uma carta anónima que dizia serem os bandidos trabalhadores em Lisboa.
No dia 1 de agosto, Maria da Piedade e Alfredo, que arranjara trabalho nas obras da circunvalação, alugaram uma casa nas Fontainhas. Daí a três dias estarão todos presos, com exceção de João Esteves que só será apanhado, no dia 25, por um carabinero, muito perto da fronteira, e o Romão Louzada que desaparecerá para sempre. Quando o casal foi detido, já o Fernandes, o Fonseca e o Santiago se encontravam no comissariado de Lisboa. A polícia rondara a casa de Alfredo e Piedade, mas não os detetara, só os vês quando os dois aparecem a espreitar na porta da frente…
Maria da Piedade tem algumas manhas. Lê-se no jornal que assumiu que deitara fogo à casa para receber o dinheiro do seguro e que “fez importantes revelações” sobre o “Drama de Alvaredo” ou “O Crime de Melgaço” como o caso ficou conhecido. No dia 8 de Agosto, foi ouvida no terceiro comissariado e no Tribunal da Boa Hora. “Interrogada em juízo declarou-se autora do crime, como já o fizera na polícia, sendo depois remetida ao Aljube”, noticiou “A Vanguarda”. O seu processo ficou separado do dos cabouqueiros.
Passado um ano, a 3 de Agosto de 1893, os cinco vizinhos presos na Cadeia da Relação do Porto são levados ao tribunal de Melgaço. Milhares de pessoas aguardam à porta a entrada dos assassinos do padre Manuel António de Sousa Lobato. Oito anos de prisão e 20 anos de degredo foi a sentença para quatro, o Guerra seria poupado em oito anos de África porque se provou ter ficado de vigia.
Maria da Piedade, de 38 anos, já tivera o seu julgamento e seguira há três meses para África. Fora condenada pelo crime de fogo posto, como mandava o Código Penal de 1886: seis anos de prisão, seguidos de dez de degredo, ou, em alternativa, 25 anos em Angola.

Quando ainda no comissariado foi acareada com Santiago Rey de Lopez, já que este negava ter recebido “doce duros” para a ajudar e se mostrava renitente em admitir o assalto em Melgaço, Maria da Piedade disse-lhe: “Ande homem, confesse que eu já confessei. Se vocês não tivessem dado com a língua nos dentes, podiam matar-me que eu negava tudo, ainda que me apertassem o pescoço até deitar a língua de fora”.

Fonte: Jornal Expresso.

sábado, 31 de outubro de 2015

Castro Laboreiro (1875):a terra do melhor burel de Portugal

Ruínas das muralhas do antigo castelo de Castro Laboreiro

Na obra “Chorographia Moderna do Reino de Portugal” da autoria  de João Maria Baptista, editado em 1876, o concelho de Melgaço é descrito com algum pormenor.
Na obra é dado bastante destaque à freguesia de Castro Laboreiro ainda que o texto contenha alguns erros. Contudo, ficamos com alguns elementos importantes que nos permitem perceber como era esta freguesia nesta época.
Castro Laboreiro é caraterizado nestas palavras: “Antiga vila de Castro Laboreiro, na antiga comarca de Barcellos. Pelo decreto de 24 de Outubro de 1855 foi extinto o concelho de Castro Laboreiro, ficando a vila e única freguesia do mesmo concelho encorporada no concelho de Melgaço.
Está situada nas abas da serra da Peneda, 3 quilómetros distante da fronteira da Galliza, e próxima do rio Laboreiro. Dista de Melgaço 4 léguas para sudeste.
A vila de Castro Laboreiro tem 60 fogos. Além da vila, esta freguesia comprende os lugares de Portellinha, Vido, Varzea-Travessa, Covelo, Pintem, Laceiras, Ramisqueira, João Alvo, Barreiro, Ponte do Barreiro, Podre, Amoreira, Lagoa, Dorna, Entalada, Mareco, Pontes, Ameixoeira, Bago de Baixo, Bago de Cima, Curveira, Cainheiras, Barziella, Ribeiro, Teso, Porto dos Cavalleiros.
É terra montuosa e frigidissima. Produz centeio e milho miúdo, tem muitos gados, e especialmente ovelhas gallegas, que dão o melhor burel de Portugal. Também tem muita caça grossa e miúda, e pesca de algumas trutas na ribeira do Laboreiro, afluente do Lima.
As árvores são poucas e ainda menos as hortaliças, à excepção de nabos. As águas são frias e delgadas. Na falda da serra e a nordeste da vila nasce o rio Laboreiro, e perto há uma ponte mourisca, chamada ponte Pedrinha. Indo do Porto dos Cavalleiros para a vila, encontra-se outra pequena ribeira afluente do Laboreiro, que é aquella pela qual foi seguindo a margem a pé, o arcebispo D. Frei Bartholomeu dos Martyres, para visitar aquella isolada freguesia como se lê na sua vida, escripta por Fr. Luiz de Sousa.
É tal a frialdade d'esta terra, diz o Carvalho (o autor refere-se ao padre Carvalho da Costa, autor da obra "Corografia portugueza, e descripçam topografica do famoso reyno de Portugal" de 1706), que é necessário aquecer o vinho para as missas, em todo o inverno, porque se congela a ponto de não correr.”
 (Nota: Este pormenor do congelamento do vinho é replicado de uma outra corografia publicada no século XVIII. Será um exagero, concerteza. Sabemos que em Castro Laboreiro os invernos são frios mas dará para o vinho congelar? Não dá para acreditar.)
“Dizem fundou o seu Castello, D. Sancho Nunes de Barbosa (outros querem seja obra dos romanos ou dos árabes) cunhado de el-rei D. Affonso Henriques, que depois o conquistou com duro cerco, e o rodeou de muralhas, porque se havia arruinado com um raio. D. Diniz o reedificou e tornou bem defensível. Porém é quasi incapaz de habitar-se pela aspereza do sitio.”
(Nota: Este episódio do raio que destruiu o castelo de Castro Laboreiro é citado em várias corografias dos séculos XVIII e XIX e é situado em tempos medievais. Contudo, a destruição do castelo pelo raio aconteceu de facto no século XVII. Pode ler mais em “No dia em que o Castelo de Castro Laboreiro "foi pelos ares".)
“Os nossos anteriores monarchas concederam grandes privilégios a esta vila, pelos seus serviços prestados nas guerras. No Dicionário Corográfico, diz-se que os homens e mulheres d'esta vila vestem de briche e saragoça (burel) e trajam de um modo esquisito.
Saem de inverno para Traz-os-Montes mais de 200 homens a fazer paredes e outros trabalhos."


Informações recolhidas em: 
- BAPTISTA, João Maria (1875) - Chorographia Moderna do Reino de Portugal. Volume II, Typographia da Academis Real da Sciencias, Lisboa.

sábado, 17 de outubro de 2015

Estratégia para defender Melgaço de uma invasão - o plano de um capitão inglês



William Granville Eliot era um capitão do Royal Regiment of Artillery, que exercia funções de engenheiro militar. Esteve em Portugal entre 1808 e 1809, sob as ordens do General Arthur Wellesley, responsável máximo pela organização da defesa portuguesa contra as tropas napoleónicas. O capitão William Eliot era um homem preocupado com a definição de uma estratégia para a defesa de Portugal contra os invasores franceses pois acreditava-se que haveria um terceira invasão como veio a concretizar-se.
Durante a sua estadia no nosso país, fez um trabalho de reconhecimento das áreas fronteiriças portuguesas e após a segunda invasão francesa em 1809, publica o livro “A treatise on the defence of Portugal, with a military map of the country”, editado em 1810. Este tratado de estratégia militar contem uma verdadeira estratégia de como, no entender dele, se deviam posicionar as tropas e a artilharia para defender as nossas fronteiras.
A propósito da nossa região, refere-se à existência de fortificações completamente obsoletas, construídas noutro tempo para um outro tipo de guerra. Contudo, o rio Minho representava um obstáculo natural que muito poderia dificultar qualquer tentativa de incursão, tendo em conta a inexistência de pontes entre as duas margens. A este propósito, o capitão Eliot refere-se ao curso do Minho à sua passagem por Melgaço, nestas palavras: “O rio Minho, entra em Portugal cerca de uma légua e meia acima de Melgaço e não dá para ser atravessado em qualquer parte do seu curso, exceto num local ligeiramente a montante deste lugar, e apenas nos anos em que o inverno e o verão são excepcionalmente secos. A corrente do Minho não é particularmente rápida. Não há pontes sobre o rio, e apenas algumas passagens de barco.”
Uma outra questão que poderia dificultar  os movimentos de tropas e artilharia no nosso concelho, era, segundo o entender do capitão, o estado das vias de comunicação. Então diz que “a estrada de Melgaço para Monção, com três léguas, encontra-se em mau estado, mas pode ser transitada por peças de artilharia ligeira. Há dois riachos no percurso desta estrada cujas margens são íngremes e rochosas, com pontes de pedra sobre os mesmos. Estas podem ser facilmente destruídas, o que iria aumentar a dificuldade de avançar por esta via. Caso contrário, não restaria outra alternativa senão evitar este setor e entrar em Portugal em Caminha, progredindo pela costa para o Porto. No caso dos rios Lima, Cávado e Ave, estes  podem ser atravessados.” Isto devido ao facto de, ao contrário do rio Minho, possuírem pontes.
O general William Eliot deixa considerações acerca da força necessária para defender a fronteira do Minho e em particular este setor da linha fronteiriça próxima de Melgaço: “Já observei que as fortalezas no Minho não estão em bom estado para se defenderem e que, a fim de remediar esta situação, seria mais vantajoso estacionar tropas com artilharia ligeira com uma certa proporcionalidade, em vez de gastar uma avultada soma de dinheiro na reparação das suas muralhas quase inúteis e obsoletas. Torna-se necessário fazer algumas considerações acerca do número de homens que seriam suficientes para defender esta fronteira nos seus pontos mais sensíveis de um ataque externo.”
Em função disto, o capitão define o posicionamento de tropas e artilharia para a linha de fronteira ao longo do rio Minho e aconselha: “Em Caminha, 300 homens com dois canhões “six-pounders”, pode ser suficiente. Em Vila Nova de Cerveira, 300 homens e dois canhões “six-pounders”. Em Valença do Minho, 1000 homens, com seis canhões, “nine pounders” ou “twelve pounders”; em Monção, a mesma situação, substituindo os canhões “six pounders” por armas mais pesadas. Em Melgaço, 300 homens de infantaria ligeira, e dois canhões “three pounders”. Em Alcobaça, uma pequena aldeia nas montanhas acima de Melgaço, 200 soldados de infantaria ligeira com dois canhões "three-pounders". “ Esta consideração revela alguma preocupação com este troço da raia seca.
Entre cada um desses lugares, seria necessário um pequeno destacamento de cavalaria para manter ativas as comunicações, e observar os movimentos do inimigo ao longo de todo o curso do Minho. No seu conjunto, entre soldados de infantaria e cavalaria, cerca de 4000 homens. Estes, auxiliados pelos camponeses armados, seriam capazes de impedir com eficácia qualquer tentativa  de incursão.”
Em relação à fronteira ao longo da raia seca na parte serrana de Melgaço e setor a sul na fronteira oriental a norte do Lima, o capitão Eliot julga que “sendo este um pequeno setor entalado entre o Minho e o Lima, não é um alvo provável por parte do inimigo.” A este respeito, acrescenta que isto se aplica perfeitamente à área “entre a povoação de Alcobaça e Castro Laboreiro, uma fortaleza antiga, situada no cume de um precipício, toda a região é um continuado de montanhas. Aqui não há estradas. Apenas se consegue circular com uma mula, e uma pessoa é frequentemente obrigado a desmontar, quando é necessário passar em locais mais escarpados o que dificulta os movimentos.
Contudo, mesmo que o inimigo, conseguisse fazer passar com sucesso um corpo de tropas de infantaria ligeira, sem artilharia nessa direção, o rio Lima apresentaria logo um outro obstáculo, embora não seja de dificuldade tão acentuado como o rio Minho. Aqui, encontrariam tropas preparadas para a defesa deste ponto e se fosse necessário, proceder-se-ia à destruição das pontes.”
Contudo, a terceira invasão francesa não passou por Melgaço. De qualquer forma,  este capitão inglês deixou ficar aquela que, no seu entender, seria a melhor estratégia para defender a nossa terra.

Extratos transcritos de:

ELIOT, William Granville (1810) – A treatise on the defence of Portugal, with a military map of the country: to which is added, a sketch of the manners and customs of the inhabitants and principal events of the campaigns under Lord Wellington, in 1808 and 1809. London: T. Egerton, Military Library, Whitehall.