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quinta-feira, 4 de outubro de 2012

A Fortaleza de Melgaço nos século XVII e XVIII



As Guerras da Restauração começam na zona fronteiriça do Minho quando, em 1641, Gastão de Sousa Coutinho ordena a invasão de Galiza através de Melgaço dando inicio a uma série de campanhas que apenas terminaram, a 13 de Fevereiro de 1668, com a assinatura da paz entre os dois países.

Planta de Gonçalo L. Silva Brandão (1758)


No século XVII tem lugar a construção de uma nova fortificação de acordo com os modelos militares abaluartados, rodeando a vila de Melgaço. Data de 1713 a representação mais antiga, da autoria de Manuel Pinto de Villa Lobos, que representa a fortificação abaluartada.
A nova construção inutilizará o fosso preenchido para realizar uma nova linha de muralhas. Melhoraram-se novos elementos como as falsas-bragas que rodearam todo o perímetro da cerca seguindo o antigo traçado do fosso, três baluartes orientados para os principais pontos de defesa e uma tenalha exteriormente defendida com um parapeito diagonal. No muro do castelo abriu-se, na segunda metade do século XVII, uma porta de acesso à vila protegida por uma barbacã poligonal. A fortificação esteve em uso num período muito curto de tempo, aproximadamente um século e meio, já que em finais do século XVIII a sua deterioração e destruição eram quase integrais. Em finais do século XVII alteraram-se as paredes laterais da antiga couraça para uma planta sensivelmente triangular, mantendo a cabeceira semicircular com a Porta de Campo da Feira.
De 1758 data a planta do castelo elaborada pelo sargento Gonçalo Luís da Silva Brandão na qual há registo dos três principais pontos de abastecimento de água da vila naquela época: uma cisterna, um poço e uma fonte. Nos anos seguintes em inspecções realizadas por engenheiros enviados pelo sargento maior de campo, António Carlos de Castro, detecta-se a necessidade de empreender reparações nos distintos pontos da fortificação tais como mudar os estrados no quartel dos soldados, refazer duas fachadas no ângulo sul, colocar uma porta nova na barbacã da porta, refazer as postas de baixo e a entrada da Praça a norte. Foi necessário executar portas para as entradas norte e sul da tenalha, repor a cantaria em cerca de 200 m de comprimento e 5 m de altura no parapeito. Executar plataformas de madeira para a artilharia, repor as telhas na cobertura dos armazéns e no quartel da infantaria. A pesar de todas estas reparações o castelo em 1789 estava praticamente arruinado. A partir deste momento sucederam-se as inspecções e concertos, seguidos da demolição de algumas partes e da venda de outras a privados.

Extraído de: http://www.cieform.org

domingo, 16 de setembro de 2012

A Misericórdia de Melgaço na Guerra da Restauração (1640-1668)

Igreja da Misericórdia da vila de Melgaço

A Misericórdia de Melgaço (terra do senhorio de Bragança) viu-se confrontada com os feridos desta guerra logo no ano de 1641. Os irmãos ordenaram a compra de “mesinhas” necessárias para se curarem duas mulheres pobres pobres que os galegos feriram e maltrataram na freguesia de Cristóval quando entraram para queimar a dita freguesia”.
No ano seguinte, em 1642, a Misericórdia foi contactada pelo Desembargador Gregório de Valente e Morais para proceder ao tratamento de militares enfermos. Os mesários concordaram mas lamentavelmente não puderam tratar gratuitamente, como desejavam, por a Santa Casa não possuir rendimentos para o efeito. Por isso, contentavam-se com o “socorro aos soldados nos dias em que estiveram enfermos”. Declararam ainda que o pagamento das mezinhas necessárias aos militares corria por conta da Coroa e que não tratariam soldados aquartelados, porquanto o cirurgião não aceitava esse encargo pelo ordenado de 18 mil réis anuais que recebia.
Não temos conhecimento das diligências posteriores havidas entre a Coroa e a Santa Casa, mas em 1643, os mesários acordaram na obrigatoriedade dos irmãos nomeados visitarem os soldados aquartelados que estivesses doentes e de darem conta da ocorrência ao cirurgião. Esta passagem prova que a confraria tinha cedido na cura  de militares que estavam nos quartéis e em casas particulares.

Mau grado as dificuldades sentidas, a Misericórdia de Melgaço procurava agir com normalidade e cumprir os rituais a que estava habituada. Em 1645, os mesários acordaram fazer as festividades da semana santa e resolveram “que pera os novellos se escolha o linho pior e parte do outro que se asede e que delles se façam os novellos para quinta feira maior e que o outro linho bom se venda para fazer toalhas e amitos”. O tempo impunha racionalidade e parcimónia nas despesas, mas a confraria não deixou de celebrar esta quadra em tempo de guerra.


Extraído de: 


- ARAÚJO, Maria Marta Lobo (2005) - Pedir para distribuir: Os peditórios e os mamposteiros da Misericórdia de Melgaço na época moderna. Boletim Cultural de Melgaço, Câmara Municipal de Melgaço.

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Lendas de Melgaço II: A história de Gregório Vaz de Roussas



"Pelos annos de 1660, durante a guerra da Restauração, hindo Gregorio Vaz, natural d’esta freguezia de Roussas, e soldado do exercito portuguez, com mais dois camaradas, reconhecer os movimentos do exercito castelhano, que se achava acampado nos Arcos (Galliza), cabiram todos trez em poder do inimigo.
Gregorio Vaz, invocou o patrocinio de Nossa Senhora da Graça, e prometteu-lhe, se o livrasse da morte, de ser eremitão da sua capella, e de a servir toda a vida.
Filippe IV, mandava enforcar todos os prisioneiros que cahiam nas garras dos seus soldados, e os nossos trez portuguezes tiveram a mesma sorte.
Gregorio foi o ultimo a ser enforcado, mas a corda partiu-se e o desgraçado cahiu no chão, sem sentidos, e com a garganta horrivelmente ferida.
Foi julgado morto, e, como os seus camaradas, foi abandonado aos pés da forca; mas, quando no dia seguinte vieram os frades franciscanos para lhes darem sepultura, acharam Gregorio sentado, encostado a uma mão, e tendo na outra umas contas.
Os frades tambem eram castelhanos, e portanto, tão inimigos dos portuguezes como as tropas do Diabo do Meio Dia, e, em vez de terem caridade com tão grande infeliz, o entregaram ao carrasco, que lhe deu duas lançadas, que o atravessaram do peito ás costas.
Os frades o levaram a enterrar, mas, pelo caminho, viram que elle dava ainda signaes de vida. D’esta vez, emfim, attribuiram o caso a milagre, e o curaram.
Foi depois remettido para Corunha (então capital da Galliza), e mettido em um carcere. Filippe IV teve noticia d’este facto, e attribuindo-o tambem a milagre, fez o milagre (ainda maior) de o mandar soltar, e deixar vir em paz para Portugal. Gregorio cumpriu o voto e foi viver para junto da ermida da Senhora, como seu eremitão, mudando o nome para Gregorio da Graça, e alli falleceu de avançada edade, pois ainda vivia em 1712, quando frei Agostinho de Santa Maria publicou o 4.° volume do seu Santuario Mariano. Ainda então conservava as cicatrizes das feridas.
Isto consta de documentos que existem na secretaria das Mercês, e de um alvará, assignado por D. Pedro II, e pelo qual o rei mandou dar a Gregorio da Graça um tostão por dia, para seu sustento."


In: PINHO LEAL, Augusto Soares d'Azevedo Barbosa de Portugal Antigo e Moderno Lisboa, Livraria Editora Tavares Cardoso & Irmão, 2006 [1873] , p.Tomo VIII, p. 218

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Por altura da Guerra da Restauração III

MELGAÇO, Março de 1642

Aelber

"De Entre-Douro e Minho, no primeiro sábado deste mês, veio uma carta em que se avisa que um capitão de infantaria francês, tenen­te-coronel, enfadado da suspensão das armas e do grande ódio em que os soldados estavam na cidade de Braga, por causa do Inverno, deliberou sair em campanha e entrar por terras dos inimigos, ele só com a sua companhia, para o que foi com muito segredo, per­suadindo aos seus soldados (os quais eram todos portugueses que vieram da Flandres e da Catalunha; gastou oito ou nove dias em lhes dispor os ânimos e em prevenir pólvora, balas, corda e tudo o mais que era necessário para reduzir a acto esta generosa de­liberação. E um dia antes do amanhecer deu traça com ele, e os seus soldados saíram à desfilada e caminharam para Melgaço e daí foram marchando pela ponte das Varjas até que entraram na Galiza, destruindo e subvertendo e assolando tudo aquilo que com os olhos descobriam. Não ficou gado que não fizessem presa nem encontraram pelo caminho homem nenhum que não rendessem. Com esta bissaria foram avançando e metendo-se pela terra den­tro. Porém, acudiram os inimigos de várias partes e saíram-lhes ao encontro divididos em dois troços, uns pela vanguarda e outros pela retaguarda. Estes segundos se meteram pelos matos e, sem serem vistos, nem sentidos, lhes armaram uma cilada com que lhes cortaram o caminho por onde precisamente haviam de pas­sar quando tornassem. De modo que se marchavam para diante iam dar nas mãos dos que investiam pela vanguarda; se se retira­vam, era infalível a ruína, pois metiam-se entre os que cortando-lhes o caminho os esperavam na emboscada; e se faziam alto sem dúvida ambos os esquadrões os acometiam e seria irremediável a perdição. Vendo-se o francês neste tão horrível aperto, fez uma prática aos soldados, representando-lhes o perigo em que a for­tuna os havia posto e exortando-os a que deliberassem a perder antes a vida do que a honra. Não lhe deixaram os soldados acabar o discurso, porque todos unânimes e conformes se resolveram a romper aquele esquadrão, que emboscado pretendia tolher-lhes o passo antes que o outro (que já lhe tocava arma pela vanguarda) lho estorvasse. Passou o capitão para a retaguarda e logo viraram com muita destreza os soldados os rostos e foram marchando com tão boa ordem que quando chegaram â emboscada lhe descom­puseram a frente e com a primeira carga, a puras feridas e mortes, abriram caminho muito antes que chegasse o esquadrão que marchava em seu alcance. Pisando morto e pondo por terra a todos os que lhe serviam de embaraço, romperam, penetraram e saíram da filada até que se puseram a salvo com tanta galhardia e admiração dos inimigos que nem o outro esquadrão, que já estava perto, se atreveu a segui-los. E o maior assombro que houve nesta heróica ousadia foi da nossa parte não ter morrido ninguém e somente um soldado saiu ferido com uma bala no braço esquerdo, o qual se veio curar à cidade de Braga, onde naquele tempo estava o general Dom Gastão Coutinho. E com este exemplo deliberaram todos sair em campanha e logo o coronel francês foi para as fronteiras do Minho."

Extraído de:

- SOUSA, Jorge Pedro (2011) – A Gazeta da Restauração: Primeiro periódico português – uma análise do discurso. Livros LabCom, Covilhã.

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Por altura da Guerra da Restauração II

Melgaço,  Fevereiro de 1642


"Por carta escrita entre o Douro e o Minho, no dia 7 deste mês, avisa-se que o Marquês de Val Paraíso entrou com quatro mil infantes pela Ponta das Varjas, marchando por Lamas de Mouro, Mosteiro e Coito das Travas e que fez dano porque não havia força bastante para resistir a tanta gente. O relato ainda diz que quando chegou o aviso na praça de armas, se preveniram em Braga o General Dom Gastão Coutinho e o Coronel Francez, saindo ao encontro com a gente do presídio. De Melgasso vieram três companhias. O Marquês de Val Paraíso, vendo a multidão contra ele, não quis esperar e se retirou para Lamas de Mouro, alojando-se em um reduto que os portugueses haviam ganhado."



Extraído de:

- SOUSA, Jorge Pedro (2011) – A Gazeta da Restauração: Primeiro periódico português – uma análise do discurso. Livros LabCom, Covilhã.

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Por altura da Guerra da Restauração I

Castro Laboreiro, Novembro de 1641



"Onze homens de Castro Laboreiro que estavam na trincheira viram no campo doze cavaleiros castelhanos que vinham em missão de reconhecimento e deram-lhes uma carga que mataram sete, aprisionando os restantes, tomando-lhes as armas e os cavalos, e mandaram-nos presos a Valença. Vinham atrás destes cavaleiros trezentos infantes e sem saberem o que tinha sucedido aos batedores atacaram a trincheira, mas os onze mosqueteiros lhes deram cargas com que mataram alguns, e os demais fugiram, (…) deixando mortos e (…) cativos (…) 31. Dos nossos, ninguém perigou."



 Extraído de:

- SOUSA, Jorge Pedro (2011) – A Gazeta da Restauração: Primeiro periódico português – uma análise do discurso. Livros LabCom, Covilhã.

quinta-feira, 19 de julho de 2012

Melgaço, 1665 - Anúncios do fim do mundo?

Rio Minho à passagem por Melgaço
(Foto sublime de 
Christophe Afonso Photography)


Dois cometas avistados no século XVII, segundo Hevelius

No ano de 1665, a Europa descobriu o cometa de Hevelius. À época, as "estrelas com cabeleira" eram olhadas pelo comum dos com a sobrecarga de medo de quem os via como bolas de fogo arremessadas por Deus para castigo dos homens ou, no mínimo, como sinais do Céu para aviso da humanidade. Este cometa não deixou de se fazer acompanhar por um cortejo de prodígios, cujas notícias iam circulando por toda a Europa. De alguns desses fenómenos, um dos quais ocorrido em Guimarães, teve conhecimento o Padre António Vieira, como percebemos por uma carta que enviou ao Duque do Cadaval em 26 de Maio de 1665:

"Saem por esta banda novos prodígios. Em Guimarães vomitou um doente um Dragão de quase um côvado* de comprido com duas asas, e grossura até ao meio de dois dedos, e cor vermelha escura; dali para a cauda menos grosso, e de cor parda. Disse-me Sanfins que o vira pintado, e com certidão de Médico jurada ao pé. Outra carta vi de pessoa digna de fé, escrita de Melgaço, em que diz aparecem naquelas partes muitos sinais horrendos de dia e de noite, que não especifica; só refere que no dia 16 de Abril ao sair do Sol aparecera um grande raio de cor verde e amarela, o qual se rematava em duas nuvens pequenas, uma muito branca, e outra muito vermelha: e correndo por grande espaço para a parte interior de Galiza, ultimamente se desfizera sobre ela em raios e coriscos de fogo. Aqui em Coimbra se viu também por algumas vezes um globo de fogo para a parte do Sueste, que nascia à meia-noite, e se ia levantando devagar, e durava por espaço de duas ou três horas; mas, se o que se escreve de Roma é verdade, eu o tenho por maior prodígio de todos. A carta que se refere é de um Português que está naquela Cúria, chamado Fernão Lopes de Sousa; e diz que nela houve por três dias uma névoa tão espessa e tão escura, que se não viam os homens nem os edifícios, e que as trevas eram palpáveis como as do Egipto. Outra carta diz, que o Cometa se teme lá muito, e que demonstra muito maior cauda, e que a Rainha de Suécia com dois grandes Matemáticos que tem, o observa sempre, mas não se fala no juízo. Deus se lembre da Sua Igreja e do nosso reino que também é seu, e a V. Exc. guarde muitos anos, como desejo e havemos mister. Coimbra 4 de Maio de 1665."

[Cartas do P. António Vieira da Companhia de Jesus, tomo segundo. Oferecido ao eminentíssimo senhor. Nuno da cunha e Ataíde. Lisboa ocidental, Oficina da Congregação do Oratório, 1735]

quinta-feira, 12 de julho de 2012

A Igreja Paroquial de São Paio: Do mosteiro medieval até à remodelação de 1930


Trata-se de uma igreja com planta longitudinal composta de nave única e capela-mor, mais baixa e estreita, tendo adossado à fachada lateral direita torre sineira quadrangular e sacristia rectangular. Volumes escalonados com coberturas diferenciadas em telhados de duas águas na igreja e sacristia, mas esta disposta perpendicularmente, e coruchéu bolboso na torre, coroado por cruz latina luminosa. Fachadas em alvenaria ou cantaria aparente, de aparelho muito irregular, denotando as várias intervenções ao longo dos séculos, com cunhais apilastrados na nave e torre sineira e terminadas em friso e cornija, sobreposta por beirada simples. Fachada principal virada a O., terminada em empena, levemente truncada, rematada por cruz latina de braços trevados sobre acrotério; é rasgado por portal em arco de volta perfeita, com chanfro, sobre dois colunelos de capitel vegetalista, e com tímpano liso sobre impostas salientes, e por janela rectangular com elemento estilizado sob a moldura; no topo, surge silhar com data de 1930 inscrita e elemento concheado. Nos extremos da fachada o aparelho no lado direito integra pilastra e arranque de um arco. Torre sineira no alinhamento da fachada, de dois registos, separados por friso, o segundo rasgado, em cada uma das faces, por sineira em arco de volta perfeita sobre pilastras e albergando sino; nos cunhais possui fogaréus. Fachada lateral esquerda rasgada na nave por duas janelas de verga abatida e moldura terminada em cornija, e capela-mor por janela rectilínea de moldura simples; na capela-mor o aparelho possui vestígios da abertura de uma fresta de perfil curvo. Na fachada lateral direita a torre tem o primeiro registo com cartela inscrita com a data de 1900 e é rasgada por vão quadrangular e óculo circular; na face posterior abre-se porta de verga recta sobrelevada, precedida por escada de pedra; sobre a sineira possui florão relevado. O aparelho desta fachada denota a existência de antiga porta travessa em arco de volta perfeita e a existência de várias frestas de perfil curvo; a nave é rasgada por duas janelas de capialço e, sensivelmente a meio, por porta travessa de verga recta, e a capela-mor por janela rectilínea; a sacristia é rasgada a O. por porta de verga recta, protegida por pequeno alpendre e, lateralmente, por duas janelas jacentes. Fachada posterior da capela-mor terminada em empena, coroada por cruz latina de braços quadrangulares e remate trevado sobre plinto, e a sacristia por duas janelas jacentes. Urbano, isolado no interior da aldeia, junto à estrada que a atravessa, integrado em adro, delimitado por muro de cantaria, com acesso frontal, por portão de ferro, ladeado por altos plintos paralelepipédicos, coroados por fogaréus sobre bases.
Na fachada lateral direita, entre a torre e a janela, existe nicho em arco de volta perfeita, interiormente albergando imagem pétrea, ladeado por duas pilastras suportando friso e cornija contracurvada, coroadas por pináculos piramidais sobre plintos; a bacia do nicho assente em larga voluta inferiormente decorada com pingentes.


Já aqui me referi a esta igreja num post anterior. Mencionei um antigo mosteiro que aqui existia construído durante a Idade Média. No que toca a esta construção, daquilo que se conhece, 1623 é a data do primeiro registo de baptismo documentado. O ano de 1624 é data do primeiro registo de casamento documentado sendo que 1626 é a data do primeiro registo de óbito documentado. O ano de 1687, a 4 Agosto, o visitador da Câmara de Valença, pelo arcebispo de Braga, D. Cristóvão da Costa Rosa, abade de Santa Eulália de Crespos, manda os fregueses fazerem um alpendre à porta da igreja, de grandeza e capacidade para receber a mais gente que a igreja não era capaz de albergar; devia fazê-lo, tornando assim a igreja com maior capacidade e as portas com maior resguardo dos temporais, até à Páscoa vindoura, sob pena de 10 cruzados. Em 1688, a 8 Novembro, o visitador, licenciado Manuel Dias, Abade de São Miguel de Soutelo, refere que os fregueses não cumpriram as ordens do visitador do ano anterior, nem consertaram o coro, nem fizeram o alpendre, incorrendo assim em 6$000 de pena, pelo que os aliviava na maior pena e os condenava apenas em 10 tostões. A 1690, em 6 Julho, o Dr. João de Araújo de Azevedo, Vigário Geral da Comarca de Valença, diz que os fregueses não deram satisfação ao pórtico da igreja como lhes fora mandado repetidas vezes, relevando-os das penas dos capítulos por saber que eles fizeram outras obras necessárias na igreja e por saber que eles queriam acrescentar a igreja ou no comprimento ou fazendo outra nave para o lado da Epístola, conforme fosse mais conveniente. Em 1695,  manda-se o fabriqueiro consertar o retábulo-mor, enquanto não houvesse rendimento para lhe pôr um novo. Em 1697, a 10 Novembro, o visitador Dr. João Rumate de Almonçan manda que, no prazo de 2 meses, os fregueses resolvam com o abade fazer o acréscimo da igreja ou, não querendo, façam o pórtico, conforme indicado nas visitas anteriores, sob pena de 8$000. Em 1698, a 11 Novembro, o visitador Dr. António Lopes da Fonseca refere que já estava armado o dito pórtico e tinham cal, e telha aparelhada para o cobrir. Em 1709, o visitador refere que a igreja necessitava de um retábulo-mor novo, pois o que tinha estava podre e aberto em duas partes, de tal modo que na Semana Santa, os fregueses tinham medo de montar o sepulcro para exposição do Senhor. Assim, mandava que, no prazo de um ano, fizessem um retábulo-mor novo pelo oficial perito na arte. Em 1711, a 30 Novembro,  o visitador Dr. Pinheiro Ramos achou a igreja disforme e desproporcionada no corpo, de modo que não era possível todos os fregueses ouvirem missa; o corpo principal da igreja era a menor parte dela, sendo muito maior a nave que tinha do lado da Epístola, da qual não se via o altar-mor. Achando que a igreja não se podia remediar, manda assim fazer no mesmo sítio, uma igreja nova, de uma só nave, ou um só corpo, com proporção, valendo-se do dinheiro necessário das confrarias. Para tal se devia fazer a planta da igreja por quem o entendessem, não lhe fazendo obras exteriores de pedraria desnecessárias, mas apenas as necessárias, como a porta principal, duas travessas e frestas e no interior só o púlpito, com sua escada, e coro, e tudo mais chão. A obra devia ser posta a lanços e ser arrematada por quem a fizesse mais barata. A capela-mor também se devia fazer de novo, correspondente à igreja. Em 1713, o Dr. Domingos da Mota, abade de Santa Maria de Ferreiros, anunciou haver conseguido para os gastos da obra do altar-mor mais de 40$000. O visitador impôs ao abade a obrigação de avisar o arcebispo e a Casa de Bragança para ambos concorrerem para a obra. Para as obras do corpo da igreja aconselha os fregueses a tirarem algumas esmolas na freguesia pelo São Miguel e que se fosse reservando para elas o dinheiro das confrarias. A 1714, em 19 Agosto, é mencionado que visto se demorar a obra do corpo da igreja, o visitador, Dr. João de Carvalho Leitão, abade de São Tiago do Castelo de Neiva, manda os fregueses, repararem o telhado e forro, para que não chovesse no coro e pincelem o interior, até ao fim de Outubro, sob pena de 2$000. Em 1715, a 18 Julho, o visitador Dr. António de Sousa Marim, refere que muito havia que prover na Igreja, principalmente sobre o fazer-se de novo, porque a freguesia tinha cerca de 1.000 pessoas de sacramento, não cabendo nela nem a terça parte do povo, e dos que cabiam não viam o altar-mor nem o celebrante, por causa de um altar colateral colocado num arco com que se formava uma limitada nave, que lhe impedia a vista. Além disso, o madeiramento do corpo da igreja ameaçava ruir, estando já o coro incapaz de servir. À feitura da capela-mor devia concorrer a Casa de Bragança e o abade, cada um com a quarta parte. Não se devia fazer outras obras enquanto não se reedificasse a igreja e capela-mor. A 1716, em 20 Agosto, pela visitação sabe-se que a obra de reedificação da igreja ainda não tinha sido iniciada. O Dr. João de Carvalho Leitão manda apenas os fregueses retelharem o telhado sobre o coro e serventia dos sinos, que ameaçava ruína e reparar com madeira o dano do forro até ao fim de Outubro, sob pena de 2$000. Em 1718, o visitador Dr. Domingos Gomes da Mota, abade de Santa Maria de Ferreiros, refere que a obra ainda não fora iniciada, nem os fregueses fizeram diligências em ajuntar dinheiro para ela. Manda pois os fregueses, no prazo de um ano, iniciarem a obra do corpo da igreja pela planta que o abade tinha, sob pena de 20$000; os fregueses deveriam fazer logo a coberta da pia baptismal, devendo suspender a obra do coro. Em 1719, a 29 Agosto, o visitador Dr. Manuel Pinheiro Ramos manda os fregueses endireitar as campas do corpo da igreja e reformar o coro e respectiva escada. Em 1720, a 9 Dezembro, o visitador Dr. Manuel Ramos manda consertar o telhado do cabido e fazer de novo a porta travessa de madeira, com fechadura. Em 1724, a 16 Novembro, o visitador Dr. Francisco de Oliveira Rego, prior da colegiada da Matriz de Ponte de Lima, refere que os fregueses não retelharam o cabido ou alpendre da igreja, o que deviam fazer até à próxima visita, sob pena de 2$000. Em 1735, a 20 Julho, o visitador Dr. Gonçalo Pinto de Carvalho Medeiros, abade de Santa Marinha de Soutinhães manda os fregueses, no prazo de 6 meses, consertar o forro da igreja e telhados, por estarem arruinados e saber que chovia na igreja como na rua, sob pena de 2$000. Em 1736, manda-se aplainar o corpo da igreja, no prazo de 6 meses. Em 1737, manda-se fazer a mesma obra. Por ter falta de luz, o visitador mandou abrir uma fresta no meio da parede da nave com a altura e largura necessária para dar luz aos altares colaterais. O cabido da igreja ameaçava ruir por se lhe ter tirado muita telha para reformar o corpo da igreja, mandando assim retelhá-lo, tudo sob pena de 6$000. Em 1754, a 2 Setembro, o visitador Dr. Marcelino Pereira Cleto, abade de São Miguel de Entre os Rios, informa que, devido à grande despesa que seria necessário, não se reconstruiu a igreja, conforme fora ordenado, porém a igreja achava-se bem reformada, só lhe faltando reformar em correspondência a capela-mor, onde existia um retábulo mais antigo e que não podia servir, mandando fazer-lhe uma tribuna, como desejavam os oficiais da Confraria do Santíssimo. Assim, manda reformar a capela-mor do que fosse necessário e fazer um novo retábulo-mor, concorrendo os oficiais da dita confraria para a despesa da tribuna. Em 1755, a 1 Novembro, refere-se nos registos que não sofreu ruína no terramoto. Em 1758, a 8 Maio, segundo o abade Domingos Gomes nas Memórias Paroquiais, a freguesia pertencia à comarca de Valença, arcebispado de Braga e termo de Melgaço. A freguesia tinha 249 vizinhos e 713 pessoas. A igreja, com orago de São Paio, tinha naves, uma com três arcos, e cinco altares, o do orago, onde estava o Santíssimo Sacramento, o da Senhora do Rosário, o da Senhora do Carmo, o do Santo Cristo e o das Almas. Tinha a irmandade do Santíssimo Sacramento, a da Senhora do Rosário e a das Almas. Era abadia com apresentação da câmara eclesiástica de Braga, que na época era o abade Domingos Gomes, que tinha de renda 200$000, excepto os incertos, por não receber mais que a quarta parte dos frutos, pois a metade dos frutos da freguesia eram da Mitra Primaz e a outra quarta parte eram da Casa de Bragança. Em 1760, a 9 Março, segundo o visitador, o retábulo-mor estava muito velho e em parte comido pelo caruncho, não podendo expor o Senhor nas festividades da semana Santa devido à pequenez do retábulo. Em 1782, a 16 Novembro, o visitador, reverendo António Manuel da Costa e Melo, cónego da colegiada de Viana e prior de Nossa Senhora de Monserrate, refere que o retábulo-mor estava caindo aos pedaços, necessitando-se de um novo e, para melhor o acolher, manda acrescentar a capela-mor 4 ou 5 palmos de comprido, pedindo primeiro licença ao Arcebispo de Braga. Refere que se devia rebaixar o altar, tirando um degrau, e levantar-se o arco triunfal. Já que na fábrica havia dinheiro para as obras de São João Baptista, que estava em estado miserável, e as da igreja, manda o fabriqueiro dar cumprimento à obra no prazo de um ano. O retábulo devia ser feito à moderna, com pouca talha. Em 1784, a 15 Julho, o visitador, Dr. José de Barros Almeida, abade do Salvador Real, reafirma a necessidade de reformar a capela-mor e de se fazer um novo retábulo. Em 1795, a 14 Julho, pelo visitador Dr. Inácio José Caldas, abade de Cabanelas, sabe-se que tudo estava na mesma. Em 1797, o visitador considerou a capela-mor destituída de todo o zelo e cuidado religioso. Ela já não tinha decência para ter o sagrado viático, sendo necessário os fiéis aparelharam um altar decente ao lado da capela-mor. Em 1816, a 5 Agosto, o visitador António José dos Santos, abade de Santo André de Santa Cruz de Lima, refere que a igreja está em estado deplorável, com todas as paredes arruinadas, que ele mandou escorar. Menciona que os telhados e soalhos são indignos da casa do mais pobre cabaneiro, quanto mais da casa de Deus. A capela-mor devia-se chamar casa de guardar madeiras velhas para o fogo. Não tendo retábulo, nem altar decente, sem taburno nem frontal, tendo apenas uns pedaços de colunas velhas onde estava o padroeiro, ordena assim que fizessem uma igreja inteira e nova capaz de albergar todo o povo. Em 1824, a 11 Novembro, segundo o visitador Isaac Benevenuto da Silveira e Costa, professo na Ordem de Cristo e abade de Santiago de Sampris, a capela-mor e residência da igreja ameaçavam ruína total, recomendando ao pároco a sua reforma. Em 1900, dá-se a construção da torre de acordo com a data inscrita na fachada lateral da torre assinalando a sua construção. A data de 1930 aparece inscrita na empena da fachada principal, correspondendo às obras que o encomendado Padre Raimundo Prieto fez na igreja, nomeadamente alargando-a, por lhe retirar os arcos que possuía e quando tomou o aspeto arquitetónico que ainda hoje tem.





Hoje em dia, depois destas transformações, obervamos uma Igreja de construção medieval, conforme denotam os vestígios das frestas nas fachadas laterais e da porta em arco na lateral direita e o portal axial, ainda que este integre já elementos revivalistas, nomeadamente no tímpano. A igreja possui uma volumetria desproporcionada entre os vários volumes, situação que já era apontada pelos visitadores no séc. XVIII. Pelas visitações sabe-se que foi ampliada para três naves separadas por arcos e, já na primeira metade do séc. XX, para ampliar o espaço, esses mesmos arcos foram removidos. As diferentes modinaturas das janelas da nave e capela-mor apontam para a sua feitura em épocas distintas. O nicho com imagem do orago na fachada lateral direita é barroco.



Informações recolhidas em:
ESTEVES, Augusto César, Igreja Matriz de São Paio, in Obras Completas nas páginas do Notícias de Melgaço, vol. 1, tomo 2, Melgaço, 2003, pp. 409-424; CAPELA, José Viriato, As freguesias do distrito de Viana do Castelo nas Memórias Paroquiais de 1758, Braga, Casa Museu de Monção / Universidade do Minho, 2005.

segunda-feira, 9 de julho de 2012

Igreja Paroquial de Remoães (Melgaço)




Estamos perante arquitectura religiosa, seiscentista e setecentista. Igreja paroquial de planta longitudinal composta por nave única e capela-mor, mais baixa e estreita, interiormente com iluminação axial e bilateral. Fachadas rebocadas e pintadas, a principal terminada em empena, e rasgada por portal em arco abatido, com moldura terminada em cornija e chave relevada, encimada por cartela, e janela do mesmo perfil e formando brincos rectos. Fachadas laterais rasgadas por janelas iguais à da frontaria e, na lateral esquerda, por porta travessa do mesmo perfil; a posterior termina em empena.





Trata-se de uma igreja com planta longitudinal composta de nave única e capela-mor, mais baixa e estreita, tendo adossado à fachada lateral esquerda campanário rectangular e sacristia rectangular. Volumes escalonados com coberturas diferenciadas em telhados de duas águas na igreja e de três na sacristia. Fachadas rebocadas e pintadas de branco, com embasamento de cantaria, pilastras toscanas nos cunhais, coroadas por fogaréus sobre plintos paralelepipédicos, e terminadas em friso e cornija, sobreposta por beirada simples. Fachada principal virada a O., terminada em empena, rematada por cruz latina de braços quadrangulares rematados em ponta, sobre acrotério; é rasgado por portal em arco abatido, de moldura levemente recortada lateralmente e terminada em cornija, com chave saliente, encimada por cartela oval lisa, e por janela de verga abatida com moldura formando brincos rectos e terminada em cornija.



Campanário sensivelmente recuada, de dois registos, separados por friso e cornija, o primeiro cego e o segundo rasgado por vão em arco de volta perfeita sobre pilastras, albergando sino, e terminada em cornija recta. Fachadas laterais rasgadas na nave e capela-mor por uma janela de verga abatida com moldura formando brincos rectos e terminada em cornija, abrindo-se ainda na lateral esquerda porta travessa igual à da frontaria e porta de verga recta sobrelevada de acesso ao coro-alto, precedida por escadas de pedra que conduzem também à sineira, onde forma balcão, protegida por guarda em ferro; neste mesmo lado, a sacristia é rasgada por porta de verga recta, de moldura simples. Sobre o cunhal frontal na fachada lateral direita, surge ainda relógio de sol, circular. Fachada posterior da capela-mor terminada em empena, coroada por cruz latina de braços quadrangulares e remate apontado sobre acrotério, e a sacristia terminada em empena recta, rasgada por janela de capialço jacente.



Junto à fachada lateral esquerda ergue-se o cruzeiro paroquial, composto por plataforma de planta quadrangular formada por dois degraus, plinto paralelepipédico, com a face frontal almofadada, decorada por almofada rectangular relevada e as faces laterais e posterior lisas, sendo a lateral direita inscrita com a data de 1729; possui orifício para encaixe da cruz, de braços quadrangulares, tendo a face frontal percorrida por filete, e tendo remate saliente, formando falsa cartela.





Percorrendo os registos históricos...

- O ano de 1622 corresponde à data do primeiro registo de baptismos e de óbitos documentado;

- 1623 corresponde à data do primeiro registo de casamentos documentado;

- 1729 é a data inscrita no cruzeiro paroquial existente no adro; 

- 1755, 1 Novembro - não sofreu danos de maior durante o violento terramoto;

- 1758, 13 Maio - segundo o padre Gregório Salgado nas Memórias Paroquiais, a freguesia pertencia ao termo de Melgaço, comarca de Valença, arcebispado de Braga e, no secular, era da comarca de Barcelos, da Casa de Bragança; tinha 25 fogos inteiros e 25 meios fogos, 147 pessoas maiores e 11 menores; a igreja, com orago de São João Baptista, ficava no meio do lugar e não tinha naves; tinha o altar-mor com as imagens da Senhora do Rosário, São Miguel e o padroeiro São João Baptista, o altar colateral do Evangelho com a imagem da Senhora da Purificação e São Domingos, e o colateral da Epístola com as imagens de Nossa senhora e Santo António; o pároco era vigário perpétuo ad nutum apresentado pelo abade de São Paio de Melgaço, tendo de rendimento 20 alqueires de pão, 2 alqueires de trigo, 12 potes de vinho e 80 em dinheiro; os fogos inteiros pagavam meio alqueire de pão e um pote de vinho e os meios fogos pagavam um quarto de pão e meio pote de vinho; nesta época existia na freguesia um barco de duas dornas para passar as pessoas de uma margem para a outra no rio Minho;

- séc. XVIII, 2ª metade é a época provável da abertura dos vãos das fachadas.



Informações recolhidas em:

 - http://www.monumentos.pt/Site/APP_PagesUser/SIPA.aspx?id=15248;

- CAPELA, José Viriato, As freguesias do distrito de Viana do Castelo nas Memórias Paroquiais de 1758, Braga, Casa Museu de Monção / Universidade do Minho, 2005.