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sábado, 23 de janeiro de 2016

Os ataques à Guarda Fiscal de S. Gregório e Castro Laboreiro nos jornais franceses (1912)


Antiga Ponte Internacional de S. Gregório/Ponte Barxas sobre o rio Trancoso em 1903

Em Portugal, a República foi implantada em 5 de Outubro de 1910. A reação monárquica à implantação da República sucedeu quase de imediato. E o rosto dessa contra-revolução foi o militar condecorado, católico fervoroso e monárquico convicto Henrique Mitchell de Paiva Couceiro. Refugiado na Galiza, Paiva Couceiro foi o cérebro de duas incursões falhadas no Norte do País, em 1911 e em 1912.
Em 1911, a revista “O Occidente”, na sua edição de 20 de Outubro alude para a presença ameaçadora dos monárquicos na Galiza prontos para uma invasão pela fronteira norte portuguesa, especialmente por Melgaço e Monção. Na dita publicação, pode ler-se que “É entre estas vilas portuguesas, da província do Minho, que se defrontam com Galisa, que se vê a velha ponte romana, compondo o cenário extremamente pitoresco de toda a região do nosso lindo Portugal.
   São estas duas vilas, Melgaço e Monsão, das mais históricas do Minho, por feitos heróicos dos seus filhos nas guerras em defesa da integridade da pátria contra os assaltos de seus visinhos de Espanha.
   Então como agora são as terras de fronteira que despertam as atenções do público por serem o campo de acção dos que conspiram contra o novo regime.
   Refugiados na Galisa, mercê do governo de Espanha que lhes dá quartel,  os conspiradores portuguêses tentaram passar as fronteiras pelo Minho, antes de o fazerem agora por Traz-os-Montes, realisando de facto a incursão das suas forças por Vinhaes, entre Chaves e Bragança.
   O insucesso dessa incursão foi noticiado pelos telegramas, mais ou menos contraditórios sobre os resultados da aventura, sendo, todavia, certo que houve recontro com as tropas do governo, em que de parte a parte se deram ferimentos e até mortes.
   Entretanto os conspiradores não lograram seu intento, e debandaram novamente para a fronteira da Galisa, onde parece que se conservam uns, enquanto outros desanimados dispersaram-se abandonando seus camaradas, à frente dos quaes se encontra Paiva Couceiro.
   Agora voltam novamente suas vistas para o Alto Minho, tentando entrar em Portugal por algum destes postos de fronteira.
   Não é fácil prever quanto durará tal situação desde que estas incursões tomaram o caracter de guerrilhas, como em tempos, que já lá vão, aconteceu com os celebres Remichido e Galamba, nas lutas liberaes, que por muito tempo inquietaram e não pouco prejudicaram as provincias do Alentejo e do Algarve, especialmente.
   A Historia vae, infelizmente repetindo-se. É o mesmo povo, é o mesmo país, são as mesmas paixões, e quasi um seculo decorrido, parece tudo encontrar-se na mesma ignorancia e por isso no mesmo fanatismo!"
Uma outra publicação da época, “O Carbonário”, na sua edição de 2 de Julho de 1911, mostra-nos o depoimento de um tal Botelho de Sousa que terá conhecimento de apreensões de armas na Galiza para serem passadas para Portugal e outro armamento que terá mesmo conseguido passar a fronteira. Essa apreensão teria sido feita por republicanos espanhóis. O mesmo Botelho de Sousa refere que “se não fosse a sua vigilância aturada, todo esse armamento tinha passado a fronteira, como estou convencido que passaram outras remessas numerosas, que a esta hora estão acoitadas em logar seguro”. Então, o jornalista pergunta: “Em que região?” Botelho de Sousa esclarece: “Em várias... Mas, estou convencido de que, se procurarem em Suajo, Peso de Melgaço e Monsão, lá encontrarão alguma cousa...”
Nestes anos após a implantação da República, os monárquicos refugiados na Galiza levaram a cabo uma série de incursões e escaramuças em território português na zona raiana e em particular em Melgaço. Exemplo dessas incursões são os ataques realizados por parte do monárquicos aos postos da Guarda Fiscal de Castro Laboreiro e S. Gregório em 1912. Estes acontecimentos foram notícia em jornais franceses. No periódico “La Presse”, na sua edição de 1 de Maio de 1912, encontramos a seguinte notícia:
”Ofensiva dos monárquicos portugueses”
Movimentações na fronteira
Lisboa, 30 de Abril – O Novidades publicou um despacho de Monção, de 29 de Abril, dá-nos conta que alguns monárquicos terão assaltado um posto da Guarda Fiscal em Castro Laboreiro, na fronteira portuguesa, e retirou-se de seguida para Espanha. A guarnição de Monção já foi contactada.
Porto, 30 de Abril – Existe o rumor de que os monárquicos portugueses, exilados em La Cañiza, invadiu S. Gregório, na fronteira. Eles invadiram o escritório de alfândega e retiraram-se de seguida para La Caniza. Reforços de tropas serão enviadas para a fronteira.”

Jornal "La Presse", cabeçalho da sua edição de 1 de Maio de 1912


Jornal "La Presse", edição de 1 de Maio de 1912, corpo da notícia citada


Num outro jornal francês, o “Le Temps”, na sua edição de 1 de Maio de 1912, dá-nos conta dos mesmos acontecimentos na seguinte notícia:

“PORTUGAL
Incursões realistas

O Novidades de Lisboa publicou um despacho de Monção, na fronteira com a Galiza, onde dá conta que um grupo de exilados realistas portugueses assaltaram um posto da Guarda Fiscal em Castro Laboreiro, e fugiram para Espanha logo de seguida.
A guarnição de Monção foi contactada.
De acordo com outra versão atualizada no Porto, um grupo de monárquicos exilados na Galiza fizeram uma incursão em S. Gregório, junto à fronteira. Invadiram o posto da Guarda Fiscal e roubaram as armas, regressando a La Caniza logo de seguida.”

Jornal "Le Temps", cabeçalho da sua edição de 1 de Maio de 1912

Jornal "Le Temps", edição de 1 de Maio de 1912, corpo da notícia citada


As incursões dos monárquicos em território português iriam continuar até à derrota da Monarquia do Norte em 1919...



Informações recolhidas em:
- “La Presse”, edição de 1 de Maio de 1912.
- “Le Temps”, edição de 1 de Maio de 1912.
-  “O Carbonário”, Semanário Republicano Radical. Nº 32; Edição de 2 de Julho de 1911.

- “O Occidente, Revista Ilustrada de Portugal e do Estrangeiro. Nº 1181; 20 de Outubro de 1911. 

domingo, 29 de novembro de 2015

Posto fronteiriço de S. Gregório em fotos de meados do séc. XX

Posto Fronteiriço de S. Gregório (Melgaço) em meados do século passado

Em 1934, a 31 Outubro, é publicada uma Portaria assinada pelo Ministro das Obras Públicas, Duarte Pacheco, segundo a qual o arquitecto Carlos Chambers Ramos (1897 - 1969) assume o lugar de vogal na Comissão das Obras das Alfândegas e Quartéis da Guarda Nacional Republicana e Fiscal (Diário do Governo, IIª série, nº 26 , 9/11/1934). No âmbito do desempenho desse cargo, o arquitecto procede à realização de um levantamento sobre o estado geral das estações fronteiriças a partir do qual elabora um relatório e programa de construções a empreender neste domínio.
Na sequência desse relatório, é construído em S. Gregório este completo fronteiriço cuja obra é concluída em 1951.

Posto Fronteiriço de S. Gregório (Melgaço) em meados do século passado


Posto Fronteiriço de S. Gregório (Melgaço) em fase final da sua construção

Posto Fronteiriço de S. Gregório (Melgaço) em fase final da sua construção


Posto Fronteiriço de S. Gregório (Melgaço) em fase final da sua construção

Posto Fronteiriço de S. Gregório (Melgaço) em fase final da sua construção

Posto Fronteiriço de S. Gregório (Melgaço) em fase final da sua construção


Posto Fronteiriço de S. Gregório (Melgaço) em meados do século passado

quarta-feira, 17 de junho de 2015

Inauguração da nova Ponte Internacional de S. Gregório (1935) em fotos

Inauguração da Ponte Internacional de S. Gregório

A Ponte Internacional de S. Gregório (Melgaço) sobre o rio Trancoso foi inaugurada a 26 de Abril de 1935 com grande pompa.
A revista do Automóvel Club de Portugal produziu uma série de fotografias para um artigo desta publicação que nos mostra S. Gregório e esta nova ponte acabadinha de inuagurar...

(Clique nas fotos para ampliar!)


Inauguração da Ponte Internacional de S. Gregório

S. Gregório e Ponte Barxas com a velha ponte internacional 


Vista para o rio Minho da estrada vila de Melgaço - S. Gregório


Vista para o rio Minho da estrada vila de Melgaço - S. Gregório

Fonte: Revista do ACP, Maio de 1935. 

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Viagem a Melgaço e S. Gregório dos anos de 1930, descrita pelo escritor Júlio Dantas (Parte II)

S. Gregório, Cevide, o rio Trancoso e Ponte Barxas


S. Gregório (Cristoval - Melgaço) em 1937

Até pouco antes de São Gregório, os aspectos do vale do Minho não se modificam sensivelmente. O mesmo ritmo lento na ondulação das montanhas a orografia parece reflectir a calma e a doçura do carácter galego, tipicamente celta, os mesmos pinhais hirsutos e verdoengos. Aqui e além, um casal, com a sua varanda envidraçada voltada ao sul, e, acompanhando também a linha do rio, a estrada férrea Orense -Tui, por onde caminhava, quando passámos, um tramway vagaroso e sonolento.
À medida, porém, que vamos avançando, a natureza torna-se mais agreste. O granito aflora, a água jorra de toda a parte. A paisagem adquire uma fisionomia ao mesmo tempo mais expressiva e mais severa. Dez minutos ainda de caminho, e avistamos as primeiras casas de São Gregório, cabrejando na rocha, escoando-se por dois córregos estreitos gorgolejantes de água, íngremes como calejas de velho burgo medieval, que vão dar abaixo, ao rio, conduzindo à ponte internacional de madeira que nos separa da vizinha povoação galega de Puente de Bárzia. É curioso o contraste entre as duas povoações, que testam uma com a outra, de cá e de lá da fronteira. Puente de Bárzia limita-se a um punhado apenas de casebres, de proporções humildes e de nenhum interesse. São Gregório, pelo contrário, é relativamente grande, tem alguns bons edifícios e certo aspecto de prosperidade, expressão de uma actividade comercial que, sobretudo na primeira metade do século passado, parece ter sido considerável. Há nove anos, quando pela primeira vez visitei estas paragens, ainda se encontravam de pé as ruínas de umas casas antigas, com muralhas de fortaleza, refúgio outrora de contrabandistas que, por vezes, se defendiam a tiro. Esta diferença no desenvolvimento das duas povoações fronteiriças é facilmente explicável. O comércio local de São Gregório enriqueceu, noutro tempo, com o que vinha de Espanha, mais do que o de Puente de Bárzia prosperou com o que ia de Portugal.
Há pouco tempo ainda, a estrada de rodagem parava no cimo da povoação. Quem queria descer até ao rio e pisar os últimos palmos de terra portuguesa era obrigado a meter por um quebra-costas de lajedo que estreitava em congosta enfiando até à ponte, entre pocilgas de porcos e jorros de água cachoantes. Não pode afirmar-se que seja propícia a descida, e, muito menos, a subida. Mas a natureza tem, neste rincão minhoto, belezas compensadoras. Muitas vezes me lembrei do grande e saudoso Malhoa, ao transpor alguns recantos viçosos de parreirais em que o sol projectava sombras violetas, e alguns hortejos onde, na polpa das couves galegas, faiscava em gotas a água viva das nascentes. Agora, alcança-se o extremo de São Gregório pela estrada, prolongada há três anos até Espanha, no intuito de estabelecer ligação com a estrada espanhola começada a abrir, nas lombas dos montes galegos vizinhos, por iniciativa de Primo de Rivera. O troço português está pronto. O espanhol parou a pouca distancia da fronteira. Em todo o caso, já pude, de automóvel, atingir o extremo nordeste de Portugal, até ao rio Trancoso, que no verão leva pouca água e que os garotos transpõem de um salto. Parei, durante alguns momentos, nessa «terra última» em que se apoia um dos pilares da nova ponte internacional acabada de construir. De um lado e de outro, as culturas são as mesmas: campos de milho e vinhedos, dispostos em latada, à portuguesa. Ouvia-se, em terras de Espanha, uma voz alegre de mulher cantar em português. Os pardais revoavam, de uma para outra banda, sem respeito pelas determinações da polícia de emigração, e sem pensar que, num simples bater de asas, mudavam de país.
Por instantes, uma borboleta, faiscando ao sol, hesitou entre as duas nacionalidades. E eu, pensando nos destinos dos povos e nas vicissitudes da história, lamentei, não só que a estrada terminasse ali, — mas que terminasse ali Portugal.


Texto extraído da obra:
- DANTAS, Júlio (1936) - Viagens em Espanha. Livraria Bertrand, Lisboa.

sábado, 31 de janeiro de 2015

Melgaço no livro "Viagens em Espanha" de Júlio Dantas (Parte I)

No centro histórico da vila de Melgaço (Foto de J. Melo)

A vila de Melgaço, a nova Câmara Municipal, o castelo e a Orada


"Um dos meus passeios predilectos, quando me encontro no alto Minho, é o chamado «passeio de S. Gregório», ao longo da fronteira de Espanha, desde Melgaço, cuja doirada torre se recorta no friso das serras galegas, até Puente de Bárzia, ou seja até ao extremo nordeste de Portugal.
A princípio, o caminho que levamos não nos oferece imprevistos, nem belezas que especialmente o recomendem. Campos verdes de milho, limitados, à beira das congostas, pelas latadas armadas sobre postes de granito. Aqui e além, os canastros, tão característicos da região, com a cruz numa das empenas e um relógio de sol na outra. De espaço a espaço, a bênção de pedra dos cruzeiros e das “alminhas”, que por toda a parte acompanha as carinhosas estradas minhotas. É na volta da vila que a paisagem começa a prender-nos a atenção.
Infelizmente, o novo edifício da Câmara, inestético e mal colocado, prejudica o efeito da torre do castelo, tão harmoniosa nas suas proporções, do alto de cujas balhesteiras, no tempo de D. João I, as trombetas saúdaram a vitória de Inês Negra, símbolo da mulher enérgica e robusta destes lugares, — torre, aliás, já estragada, como outras albarrãs pré-dionisianas, pelo relógio que lhe encastraram na silharia veneranda.
Todo o interesse de Melgaço se resume nessa relíquia da arquitectura militar do século XIII, onde se sobe com dificuldade para admirar um horizonte vasto, que se estende até ao oceano. Dali por diante, o caminho é uma maravilha. A estrada, recentemente reparada, uma das melhores da região, acompanha a linha de água, serpeando com o rio, que, ora calmo, ora em açudes que rumorejam, cintila ao sol vivo da tarde.
A certa altura -— tantas voltas dá a estrada — já não sabemos onde fica a Espanha e onde fica Portugal. O ponto em que o horizonte é mais extenso e mais belo é no cruzeiro da Senhora da Ourada.

Nas lombas dos montes galegos, a vegetação, por vezes rica, desentranha-se numa  orquestração de verde em vários tons, que vai desde o verde-negro das largas manchas de pinhal até ao verde-dourado dos vinhedos em socalco e ao verde-cinzento das lindadas e hortas que descem quasi à flor do rio. É aí, um pouco antes de chegar ao cruzeiro, que nós  podemos admirar a pequena ermida românica, com o seu pórtico de três arquivoltas, a sua sineira na empena, a enfiada de modilhões que, de um lado e de outro, sustentam a arquitrave, enriquecidos de motivos diferentes, e a nobreza dos seus silhares, todos eles marcados das siglas dos canteiros que os trabalharam. A nossa atenção divide-se entre esta jóia de pedra, onde se releva o escudo heráldico de São Bento e se descobrem, do lado do Evangelho, alguns modilhões de forte sentido naturalista, e a paisagem variada, ora bárbara ora idílica, cujo sentimento pagão o mestre arquitecto da ermida simbolizou na mulher nua que, num dos cachorros, ostenta os sinais da maternidade." 

::::::::::::::::::::::::::::::::::::CONTINUA:::::::::::::::::::::::::::::::::::::::

Texto extraído da obra:
- DANTAS, Júlio (1936) - Viagens em Espanha. Livraria Bertrand, Lisboa.



domingo, 6 de julho de 2014

O contrabando de ouro (1945) pela raia melgacense em relatório dos serviços secretos americanos

Autocarro da Auto Viação Melgaço e bomba de gasolina, de Artur Teixeira, nos anos 50

Um relatório dos serviços secretos americanos datado de 6 de Maio de 1945 confirma que pela fronteira melgacense terá passado ouro rumo à Alemanha nazi durante a II Guerra Mundial. A mercadoria terá sido passada na raia entre Cevide e Castro Laboreiro.
No relatório refere-se que “As atividades de contrabando de ouro a partir de Portugal para Espanha continuaram através de Castro Laboreiro. As seguintes pessoas foram os principais envolvidos no contrabando: Francisco Esteves e seu filho Manuel Esteves, Manuel Pereira Lima, Adolfo Vieira, Adolfo Fragoso, Antero Rodrigues, Pedroso de Lima, Artur Teixeira - todos de Monção. Eles foram auxiliados pelos Tenentes Diamantino Leite e Júlio Araújo, encarregados dos postos da Guarda Fiscal de Monção e Melgaço, respectivamente.


O minério seria proveniente de algumas minas do Norte do País, chegando a Melgaço, onde contrabandistas engendrariam o esquema de fazer passar a mercadoria para lá da fronteira. Artur Teixeira, teria papel de destaque ou seria até mesmo o cabecilha da quadrilha, confirmando a informação dos serviços secretos norte-americanos, que, em 1945, o referenciavam como membro de uma “sociedade de contrabando”.  Artur Teixeira é um dos muitos nomes apontados em relatórios de espiões americanos, elaborados em 1945 a partir de Lisboa. Em declarações ao Diário de Notícias, na edição de 30 de Janeiro de 1997, populares da vila, que pediram anonimato, recordam ter sido essa a forma de Artur Teixeira e seus pares enriquecerem – os americanos falam em 24 mil contos na altura. “Ele emprestava aos mil e dois mil contos, comprou inúmeras propriedades. Tinha muitas posses”, garantem.
O Diário de Notícias, na mesma edição, refere também que Artur Teixeira conseguiu instalar um posto de abastecimento de combustível – único em Melgaço -, montou uma empresa de camionagem, que servia o concelho e terras vizinhas, e abriu uma agência de câmbios, resultado de “importantes contactos em instituições bancárias do Porto”.
Estas transações contaram, segundo este relatório com a conivência de vários guardas fiscais. De facto no relatório menciona-se que “O ouro, que foi trazido de várias partes do país, foi contrabandeado através do posto da Guarda Fiscal de Cevide, em frente à cidade espanhola de Frieira. Em seguida, era despachado por um Guarda Fiscal, de nome Guilhermino, em funções no posto de Cevide, e por um guarda fiscal do posto de São Gregório, chamado Celoso.”


Um dos indícios desta teia de corrupção apontado pelos espiões americanos é fruto da vigilância que é  feita às suas contas bancárias e a outras transações. No relatório é mencionado que “Há poucos dias, o guarda Celoso terá comprado parte de uma propriedade no valor de 400 000 escudos.” Deduzem os americanos que os lucros deste guarda fiscal do posto de S. Gregório obtidos com este esquema de contrabando terão sido empregues na compra da tal propriedade. Tal compra não seria possível apenas com o seu salário.

Visione o documento aqui:



Informações extraídas de:
- Relatório nº A 58114-a, de 6 de Maio de 1945 com o título "Gold contraband activities". Office of Strategic Services, Intelligence Dissemination, Washington, D. C.;
Diário de Notícias, edição de 30 de Janeiro de 1997. 

quarta-feira, 9 de abril de 2014

Viagem a S. Gregório (Melgaço) em 1894


S. Gregório, no início do século XX

Tendo sido encarregado pela Direcção do Jardim Botânico da nossa universidade de fazer uma exploração botânica ao norte do paiz, escolhi como ponto de partida a aldeia de S. Gregório, no concelho de Melgaço.
Parti para ali no dia 18 de Junho do corrente anno (1894). Acompanhou-me por alguns dias o nosso amigo, o Sr. Augusto Nobre, redactor d'esta revista, que desejava explorar a fauna do rio Minho e seus afluentes.
S. Gregório é uma pequena povoação que fica situada na fronteira e dista de Melgaço oito kilometros. Outrora esta povoação teve um commercio importante, mas depois decahiu muito; actualmente porém tende outra vez a animar-se. A estrada que a liga com Melgaço tem já 7 kilometros concluídos, falta-lhe o oitavo e último, que anda em construcção.
S. Gregório não é sede de freguezia, a igreja matriz está n'uma pequena povoação a cerca de um kilometro de distancia. Este facto, de povoações importantes não serem sedes de freguezia, dá-se em vários pontos do paiz, como por exemplo na Mealhada e no Cargal do Sal que são cabeças de concelho e têm a matriz em aldeias próximas. A parte alta de S. Gregório está a cerca de 250 metros acima do nível do mar e o rio Minho fica-lhe ao norte à distancia aproximada de 1,500 metros.
Do nascente, banha a parte bnixa d'esta povoação o pequeno rio ou ribeira de Trancoso, affluente do Minho, que limita Portugal da Galiza e tem a sua origem próxima a Alcobaça, Há uma pequena ponte internacional sobre a ribeira de Trancoso, que liga S. Gregório com uma pequena aldeia hespanhola e onde existe um posto de fiscalização aduaneira.

A estação do caminho de ferro da Galliza, marginal ao Minho e chamada Frieira, está approximadamente a 1,800 metros de distancia de S. Gregório, porém, o caminho que conduz alli é mau e tem de se atravessar o Minho em barco.
Dos lados sul e poente de S. Gregório está a serra que tem por ponto culminante o castello de Castro Laboreiro o qual fica a cerca de 1,250 metros de altitude. Para se ir a esta povoação passa-se pela aldeia denominada Alcobaça, situada na fronteira e que fica perto de 2 horas e meia de caminho de S. Gregório.
A poente de Alcobaça há um monte que tem a mesma altitude de Castro Laboreiro. D'esta parte da serra já me occupei n'uma noticia que dei sobre a serra do Soajo no Jornal de Horticultura Pratica, do Porto, no numero de Novembro de 1890.
O solo em volta de S. Gregório ó todo de origem granítica. Esta povoação é abundante em água e de boa qualidade. S. Gregório é saudável e o seu clima é temperado na estação invernosa e quente durante a calmosa. Para exemplo diremos que, no dia 26 de Junho ás 2 horas da tarde estando a atmosphera bastante carregada de electricidade, dentro de casa marcava o thermometro 30° C. O quarto onde fiz esta observação thermometrica tinha duas janellas voltadas para o norte e estavam com as vidraças abertas. Na mesma occasião fiz a leitura do meu aneróide o qual marcava 738 mm.
A cultura principal de S. Gregório e povoações limítrofes é a vinha, milho, batata, algum centeio e os prados. A videira é toda cultivada em parreiras ou ramadas, mas estabelecidas a pouca distancia do solo, isto é, em média a cerca de 1 metro e meio d'altura.
O vinho é magnifico e achamo-lo muito mais agradável ao paladar do que o affamado de Monsão. Árvores fructíferas observamos a cerejeira, em grande quantidade, pereiras, macieiras, ameixoeiras, pessegueiros, laranjeiras, etc. N'outro tempo cultivava-se ali a oliveira, mas como a producão era muito incerta os lavradores foram-nas arrancando, de sorte que hoje esta árvore é ali rara. Talvez valesse a pena introduzir as variedades hespanholas de maturação precoce e próprias dos climas septentrionaes do paiz.


S. Gregório, em 1911

Enquanto árvores florestaes encontram-se : o carvalho, castanheiro, pinheiro, vidoeiro, amieiro e alguns salgueiros.
Próximo a uma azenha que fica junto à ribeira de Trancoso e não muito distante de S. Gregório, vimos um lindo exemplar de vidoeiro com o tronco muito direito. Teria uns 20 metros de altura por 60 centímetros de diâmetro na base. As essências florestaes abundam principalmente na parte inferior da serra, próximo aos ribeiros e corgas. A parte elevada tem pouco ou nenhum arvoredo e só matto rasteiro, e este mesmo não apparece em todas as localidades.
A flora em volta, de S. Gregório e bastante rica em espécies, mas não apresenta grandes novidades. É, porém, possível que na Primavera se encontrem nos montes espécies interessantes.
Na época em que ali estivemos, as plantas dos montes já estavam seccas ou tinham já florescido. Só na parte baixa da serra e nos altos, nos pontos onde havia água, é que se encontravam plantas em flor. Ainda assim fizemos uma colheita muito sofrível. Enquanto à fauna, pouco pudemos observar, pois o nosso fim era fazer uma exploração botânica e pouco tempo nos restava para outros estudos.
Ainda assim pudemos averiguar o seguinte : habitam ali alguns mamíferos como a lebre, coelho, raposa, texugo, lontra e, nos pontos mais distantes, o lobo, javali e corso.
De entre as aves que vi citarei: perdiz, codorniz, cuco, poupa, corvo, pega, gaio, pardal, tentilhão, pintassilgo, alvéola, papa-figo, melro, pisco, chapim, andorinha das chaminés, andorinhão, etc.
No rio Minho encontra-se a truta, boga, escalo, e a enguia, camarões e mexilhões. Na época própria pescam-se salmões, truta marina, sáveis e lampreias. Em Melgaço vimos a vender no mercado barbos que diziam ser pescados n'este rio. Na ribeira de Trancoso só se encontram a truta e a enguia.
O Sr. Augusto Nobre n'um passeio que fez à serra, capturou, ao atravessar um caminho, uma víbora que, quando ma mostrou, vi logo que me achava em presença de uma espécie que não era uma espécie comum.
Depois de eu regressar a Coimbra este nosso amigo escreveu-nos dizendo que já a tinha determinado e era a Vipera berus L., e que a descreveria no presente número d'esta revista. Que saibamos, esta víbora até hoje só tinha sido encontrada por Steindachner nas vizinhanças do Porto.
Algumas pessoas, tanto em S. Gregório como em Melgaço, afiançaram-nos que na serra, e principalmente entre Alcobaça e Castro Laboreiro, habita uma lacertidea a que lá dão o nome de Escorpião e da qual diziam ser um pequeno lagarto quasi com o aspecto de uma lagartixa, pouco mais ou menos de um palmo de comprimento. Este animal, segundo me disseram, tem a particularidade de apresentar duas membranas, dos lados do corpo, que pôde desenrolar ou estender para saltar como que voando ao mesmo tempo. Acrescentavam que este réptil aparece com mais frequência no tempo das ceifas dos fenos, saltando ou voando diante das gadanhas e escondendo-se durante o inverno nas medas das palhas e fenos. Diziam ainda que os caçadores temem este animal, porque mordendo na cabeça dos cães, produz-se uma grande inchaço, resultando muitas vezes a morte.
Talvez aqui haja confusão e seja antes a mordedura de uma espécie de víbora (Vipera berus L.), que cause isto, e não a d'aquelle animal, pois também ouvi dar o nome de escorpião a esta víbora. Não temos elementos bastantes para conjecturar com segurança que espécie de animalejo possa este ser, ainda não arquivado, que saibamos, em nenhum dos museus públicos do país.

Extraído de : MOLLER, Adolfo Frederico (1894) - Excursão à serra de S. Gregório. in: Annaes de Sciensias Naturaes, Volume Primeiro, publicado por Augusto Nobre.

quinta-feira, 13 de março de 2014

As irmãs Touza de Ribadavia e a fuga dos judeus a Hitler pela rota do contrabando por Cevide (Cristóval - Melgaço)

As irmãs Touza

Entre 1941 e 1945, três irmãs galegas de Ribadavia, as Touza, montaram uma rede que apoiou a fuga de centenas de judeus sem visto, fazendo-os entrar ilegalmente em Portugal. O neto de Lola Touza acredita que ela conheceu o cônsul Aristides Sousa Mendes.
Imagine-o como um velho filme de espiões a preto e branco. Haveria nevoeiro como na cena final de Casablanca, quando Ilse e Rick se separam. Mas, em vez de um avião que parte, chega um comboio a uma pequena estação de província. A locomotiva chia e detém-se entre uma nuvem de vapor. Alguns passageiros descem das carruagens e dirigem-se ao quiosque onde três mulheres oferecem bebidas frescas.
Entre Março de 1927 e o final de 1929, o cônsul de Portugal em Vigo, Aristides Sousa Mendes, deslocar-se-ia a Madrid com alguma regularidade, para se avistar com o embaixador Melo Barreto. Em Ribadavia, o comboio fazia uma paragem de 20 minutos para meter água e muitos passageiros desciam das carruagens para tomar um refresco, um licor, um copo de vinho, ou comer os famosos biscoitos que se vendiam no quiosque da estação, gerido por três irmãs solteiras, as Touza (Lola, Amparo e Julia).
Julio Touza, neto de Lola, acredita que a sua avó e o cônsul português se podem ter conhecido aí, numa dessas paragens. "O comboio parava em Ribadavia e eu acredito que tenha conhecido a minha avó nessa altura. As pessoas boas, generosas, valentes e nobres têm um sentido especial para se reconhecerem", diz.
Trata-se, é verdade, de uma mera suposição. Julio Touza, arquitecto em Madrid, está ainda a reunir dados que permitam confirmá-la ou desmenti-la. Mas não deixa de ser verosímil que, tendo ou não chegado a conversar, Aristides Sousa Mendes e as irmãs Touza se tenham cruzado, alguma vez, na estação ferroviária de Ribadavia. Oito décadas depois, não há dúvidas de que estão juntos: no jardim do Museu Yad Vashem, de Jerusalém, onde se plantam árvores em homenagem àqueles que, durante a Segunda Guerra Mundial, ajudaram a salvar judeus em fuga da perseguição nazi.
A forma como Aristides Sousa Mendes, então cônsul em Bordéus, emitiu, em 1940, à revelia do Governo de Salazar, vistos que permitiram a fuga de cerca de trinta mil pessoas (dez mil das quais eram judeus), obteve reconhecimento internacional pouco tempo depois da derrota dos nazis. A história das irmãs Touza, porém, permaneceu em segredo durante décadas e só foi desvendada em 2005. Chamam-lhes, agora, as Schindler galegas.
Em 1941, a Espanha sob a ditadura de Francisco Franco tinha ainda muito viva a memória do envolvimento de Hitler na guerra civil de 1936-39, o qual permitiu às tropas franquistas vencerem os republicanos. Apesar da aliança, o regime era relativamente tolerante para com os judeus em trânsito para os portos portugueses ou africanos durante a Segunda Guerra Mundial. As irmãs Touza, porém, tinham chegado a ser presas durante a guerra civil, por levarem comida a republicanos detidos, e, por isso, mantiveram sempre em segredo toda a operação que terá permitido que cerca de 500 judeus fugidos do nazismo chegassem a Portugal, a caminho da liberdade.
O silêncio só foi quebrado aquando da morte de Antón Patiño Regueira, um livreiro de Vigo que tomou conhecimento do caso por intermédio de um emigrante galego regressado de Nova Iorque, onde tinha mantido contacto, na década de 1960, com Isaac Retzmann, um dos judeus auxiliados pelas Touza. A edição do livro Memória de Ferro, em 2005, revelou o esboço da investigação que Regueira tinha efectuado, a qual permitiu, mais tarde, homenagear as três irmãs de Ribadavia. Mais recentemente, a história foi também narrada no livro Entre Bestias y Héroes, do conceituado jornalista Diego Carcedo.
Tanto quanto é possível saber, a história começa numa noite de Abril de 1941, na mesma estação ferroviária por onde, às vezes, Aristides Sousa Mendes passava em trânsito entre Vigo e Madrid. Lola Touza reparou num homem alto, sujo e com a barba por fazer, o qual permanecia sentado, há horas, num banco de madeira a um canto da gare, vendo os vagões passarem Minho acima, Minho abaixo. Acercou-se dele e, mesmo não entendendo o idioma em que falava, ajudou-o. Chamava-se Abraham Bendayem e terá sido o primeiro a ser salvo pela pequena rede que as Touza, com Lola à cabeça, montaram nos anos seguintes, abrindo aquela que seria uma das mais importantes rotas clandestinas de fuga de judeus pela Península Ibérica.
Para assegurar a confidencialidade da operação, a rede era composta por um contingente mínimo: as três irmãs, dois taxistas, o Rocha e o "Caveira", que conduziam um Dodge preto, um emigrante retornado, a quem chamavam "O Evangelista" e que servia de tradutor, e um barqueiro, Ramón Estévez - que ainda está vivo. Conta, por exemplo, que estava a ajudar o pai, Francisco Estévez, a descarregar uma carreta de tijolos, quando Lola apareceu a perguntar se ia pescar e se, nesse caso, podia fazer o favor de passar para Portugal uma pessoa que não podia viajar de carro ou comboio. Era um alemão.
"Nessa mesma madrugada, às quatro em ponto, fomos a casa de Lola levando canas de pesca. Dissemos ao estrangeiro que não falasse. Fomos directamente para as margens do Minho e andámos toda a noite. Ninguém suspeitaria de nada, uma vez que era comum os pescadores saírem a essa hora para pescarem trutas e enguias para matar a fome." Horas depois, tinham percorrido 40 quilómetros por um caminho empedrado. Chegaram a Frieira, uma aldeia galega junto a uma das partes mais estreitas do rio. "Como eu era um miúdo - recordou Ramón Estévez no livro de Carcedo -, o alemão perguntou-me se eu me importava que tirasse a roupa. Disse-lhe que não. Ele dobrou-a e prendeu-a à cabeça com o cinto. Disse-me que nunca mais me esqueceria e deu-me um duro de prata. Vi como entrou na água e como alcançou a margem portuguesa e, desde aí, nunca mais soube nada dele. Tinha o número 451 tatuado no antebraço. Disse que se chamava Abraham Bendayem."

Na rota do contrabando
Do outro lado do rio, no concelho de Melgaço, Cevide orgulha-se de ser "o lugar mais a norte de Portugal". Em São Gregório, ali perto, havia, na época, um posto da Guarda Fiscal, o que não impedia que passasse por Cevide uma das mais importantes rotas de contrabando entre os dois países, beneficiando da mancha florestal que ainda persiste, cortada pelo cursos do Minho e do Trancoso, que ali se encontram. Sabendo-se que o quiosque das Touza na gare de Ribadavia era utilizado como esconderijo para o café Sical que vinha do lado português da fronteira, não é difícil imaginar que os judeus em fuga tenham percorrido, para chegar a Portugal, os mesmos caminhos que eram utilizados pelos contrabandistas. "Mas nunca nenhum dos antigos contrabandistas com quem falei mencionou essas histórias", ressalva Angelina Esteves, chefe da Divisão de Cultura da Câmara de Melgaço, que tem a seu cargo o Espaço Memória e Fronteira, com uma sala dedicada ao contrabando.
O segredo era, também do lado de cá, a alma do negócio. Não só pela ilegalidade daquela actividade, mas também porque, a partir de 1942, a autorização para a circulação de judeus em Portugal passou a carecer de autorização da PIDE. Em Ribadavia, o silêncio durou 60 anos, quanto mais não fosse porque, em 1941, a Gestapo tinha agentes destacados em Vigo, acompanhando o comércio de volfrâmio a partir dos portos galegos. Dois desses agentes terão, de resto, chegado a deslocar-se a Ribadavia, à procura de um judeu alemão fugido de França - seria o mesmo Abraham Bendayem que escapara de um campo de detenção de Lyon com um asturiano que foi abatido a tiro.
A necessidade de nunca falar do assunto, mesmo após o fim da guerra, justifica também o facto de, até 2005, Julio Touza nunca ter ouvido falar das actividades clandestinas da avó. "O meu pai, sim, sabia da história e deve ter ajudado. Tinha, na altura, 26 anos. Mas nunca me contou nada", disse ao P2. "Ele foi professor até à década de 1950 e, quando abandonou o ensino, ocupou um cargo de direcção numa empresa de electrodomésticos, com direito a carro e motorista. Escolheu, para o lugar, José Rocha, o filho de um dos taxistas que ajudavam a minha avó e as minhas tias. Depois, quando este emigrou, contratou José Miguez, filho do "Caveira". Sem dúvida que o meu pai não só sabia da história, como continuou a ter a seu lado os filhos daqueles que colaboraram com a minha avó."

História de silêncios
Desde o dia em que a história foi revelada, Julio Touza recebe quase diariamente contactos de escritores, jornalistas e cineastas interessados em contar a história "ao estilo da lista de Schindler". "Respondo a todos que ainda não é o momento. Que uma história de silêncios, como esta, deve tranquilizar-se na alma antes de poder ser contada com simplicidade, mas com toda a crueza, para que não se repita a sangria do Holocausto", diz.
Apesar do resguardo, o arquitecto vai narrando alguns episódios que ajudam a compor o quadro da época. Recorda, por exemplo, a bolsa de moedas de prata que Lola guardava num gavetão do velho aparador. "Ela não queria que ninguém lhe mexesse. Eu pensava que ela coleccionava moedas, mas agora percebo que as guardava como recordação de outros tempos. Usara-as para pagar favores e ajudar os judeus em fuga. Mas nunca ninguém na família o soube, nem sequer o seu único filho, o meu pai", contou numa entrevista.
Guillermo, outro dos netos de Lola, recordou ao jornal La Opiniónter encontrado uma vez uma cama num sótão da casa, entre enormes vigas e sempre fechado. Seria a cama onde os judeus pernoitavam, escondidos numa divisão obscura.
Lola era, nos anos 1940, conhecida como "a mãe", por ter tido um filho de pai incógnito. Seria, de resto, uma bela mulher, cuja fotografia tinha chegado a circular pela frente republicana, para animar os soldados. Vivia com as irmãs numa espécie de casino, geria o quiosque da estação e esperava os comboios com uma cesta de doces nas mãos. Umas vezes oferecia os caramelos e biscoitos de amêndoa pelas janelas das carruagens, outras entrava nos comboios. Nessas ocasiões, tomava conhecimento do dia e da hora da chegada dos judeus, através de contactos mantidos entre Girona, Medina del Campo e Monforte. Os fugitivos eram escondidos, alimentados e, depois, seguiam para a fronteira um a um, ou em pequenos grupos de três ou quatro pessoas, esperando chegar aos portos portugueses onde podiam embarcar para o continente americano.
Ao P2 Julio Touza acrescentou que a fuga também utilizava, às vezes, o comboio: "A minha avó e as minha tias, gerindo o quiosque da estação, conheciam muitos empregados da ferrovia. Creio que, às vezes, escondiam os judeus em vagões de mercadorias e conseguiam que algum funcionário os ajudasse a saltar onde fosse mais fácil passar para Portugal. Suponho que também pagassem a alguns guardas para que os não detivessem, embora quase sempre evitassem as fronteiras e passassem pelo rio ou pelos montes."
O segredo da operação manteve-se. Lola morreu em 1966, Amparo em 1981 e Julia em 1983 - sem que nada daquela história fosse revelado. Só em Setembro de 2008 as irmãs Touza foram homenageadas em Ribadavia pela ajuda prestada aos judeus. "Recordar as irmãs Touza é um exemplo para o futuro, de amor e de valor, princípios tão escassos nestes tempos de ódios", escreveu, então, Ron Pundak, director-geral do Peres Center for Peace.


Extraída de: "Irmãs galegas ajudaram judeus a escapar a Hitler". Reportagem de Jorge Marmelo in: P2, edição de 4 de Fevereiro de 2012.

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

S Gregório Melgaço: Terra de Fronteira

Momentos, sobretudo ao longo da primeira metade do século XX, captados em S. Gregório (Melgaço). 
A terra, as gentes... retratadas em fotografias e video.







terça-feira, 14 de janeiro de 2014

1911 - A Ponte Internacional de S: Gregório e a demissão do ministro da Guerra


Joaquim Pereira Pimenta de Castro nasceu a 5 de Novembro de 1846, em Pias, Monção, e faleceu a 14 de Maio de 1918, em Lisboa.
Em 1911 foi convidado para o cargo de ministro da Guerra no primeiro governo constitucional de João Chagas (3 de Setembro a 7 de Novembro desse ano), resistindo, com alguma dificuldade, às tentativas de contra-golpe dos monárquicos.
Durante o desempenho do cargo de ministro da Guerra, envolveu-se em conflitos com outros membros do governo e o próprio chefe do governo João Chagas. Acabaria demitido pelo próprio João Chagas por via da sua suspeita passividade ante os manejos conspirativos dos couceiristas (forças fieis à causa monárquica comandadas pelo general Paiva Couceiro que tentava voltar a estabelecer a monarquia). Havia quem dissesse que o próprio era simpatizante dos monárquicos e por isso era acusado de ser um traidor.
O episódio da sua demissão fica associado a uma curiosa conversa acesa no Conselho de Ministros de 8 de Outubro de 1911. O primo do general, Gonçalo Pereira Pimenta de Castro narra, nas suas memórias, uma curiosa versão dos acontecimentos que conduziram à demissão de Pimenta de Castro: 
“O Dr. Eduardo de Abreu, devido à sua doença, não assumiu a Presidência do Ministério. Era ele que devia substituir o general Pimenta de Castro, e não o mulato do João Chagas, que como habilitações literárias, nem o curso do liceu possuía, e como moral, noutros tempos era conhecido pelo homem da Margarida. O general resolveu passar a desfruta (gozar) o tal senhor Chagas, que parece não era muito corajoso, como é próprio dos mestiços: Circulava o rumor de que Paiva Couceiro estava atravessando a ponte internacional de S. Gregório com sete mil homens. — «Como o caso é gravíssimo, quero saber, senhor Ministro da Guerra, que medidas de defesa adoptou e quais as que tenciona adoptar?» — Pimenta de Castro, natural de Monção, sabia que a ponte internacional sobre o rio S. Gregório, não passava de um tronco de árvore atravessado sobre o pequeno rio. Desfrutou o mulato dizendo-lhe:
— «Sete mil homens devem despender quinze dias a atravessar a ponte internacional de S. Gregório».
— «Que defesa pensa estabelecer o senhor Ministro da Guerra e que tropas mandou para lá?»
— «Tenho lá as tropas que lá estavam (não estavam nenhumas!) e mais as que para lá vou mandar (não mandou coisa alguma!)».
Paiva Couceiro não estava em S. Gregório, nem pessoa alguma. Isso porém é que ele não quis confessar.
O mulato Chagas ficou aterrado ante os sete mil homens de Paiva Couceiro, e mais ainda, porque o Ministro da Guerra não o defendia do fantasma desse Couceiro. Chamou o general e disse-lhe para pedir a exoneração. Pimenta de Castro respondeu-lhe:
— «Não peço coisa alguma» 
Acabou demititido.
— «Pedir alguma coisa àquele mulato, que nem sei quem é?... Antes ser demitido do que pedir-lhe alguma coisa!» — Exclamava mais tarde o General”.
Na realidade, não chegavam a mil homens a gente de Couceiro. Batera-se com poucos um ano antes, com poucos e mal armados continuava a bater-se. A monarquia não ateava a fé, desacreditara-se. Só duzentos e cinquenta desses homens iam armados e só de pistolas”.
João Chagas ficaria agastado com a demissão do seu Ministro da Guerra e, no Congresso, recusou-se a explicar as razões daquela ruptura.


Extraído de: MARÇAL, Bruno José Navarro - (2010) - Governo de Pimenta de Castro - Um General no Labirinto da I República. Universidade de LIsboa, Faculdade de Letras, Departamento de História. 


sexta-feira, 31 de maio de 2013

S. Gregório (Melgaço) em 1915 - Postal Antigo

Postal antigo com data de 14 de Agosto de 1915 enviado para Lisboa. Na frente do mesmo, observa-se esta fotografia com a entrada da localidade de S. Gregório (freguesia de Cristóval, concelho de Melgaço) junto à fronteira com Espanha.



quarta-feira, 22 de maio de 2013

Recordando ou…

“Contando aos mais novos e lembrando-o aos mais velhos”
                                  
                                                 PÓRTICO

                                               Com os meus amigos aprendi que o que dói às aves
                                               Não é o serem atingidas, mas que,
                                               Uma vez atingidas,
                                               O caçador não repare na sua queda
            Daniel Faria
          In “A casa dos Ceifeiros

Dr. Júlio Lurdes Outeiro Esteves – Médico


Era eu um jovem adolescente quando, no dia 7 de Maio de 1959, com apenas 51 anos idade, completados no dia anterior, morreu em S. Gregório o Dr. Júlio.
Apesar da minha pouca idade na altura da sua morte – 15 anos – e da ausência a que me obrigavam os estudos, que só era interrompida nas férias escolares, cedo me habituei a sentir e a ver nele uma personalidade de referência não só na vida de Cristóval, mas também de Melgaço. Direi mesmo da Região, como pude constatar por informações recolhidas.
É por esta razão que, num misto de saudade e orgulho por ter tido privilégio de com ele ter convivido, “ouso” recordá-lo aqui e agora.
Sei que não vai ser tarefa muito fácil porque estou certo que não vou conseguir transmitir a verdadeira dimensão de uma personalidade que – quer se queira quer não – deixou marcas que, pela sua importância, merece bem ser recordado, direi mesmo, perdoem-me a imodéstia, que merecia bem mais SER PERPETUADO.
Fiel aos mais elementares princípios de objectividade vou procurar mostrar, se para tal tiver “engenho e arte”, quem foi este Melgacense Ilustre.

Júlio de Lurdes Outeiro Esteves, de seu nome completo, havia nascido também em S. Gregório – Cristóval, no dia 06 de Maio de 1908.
Filho de António Alberto Outeiro Esteves e de Luisa Teresa de Sousa Viana, cresceu num ambiente familiar onde se cultivavam valores que os tempos quase fizeram cair em desuso.
Concluiu a sua Licenciatura em Medicina na Universidade do Porto em 1933 e especializou-se em estomatologia – odontologia.
Quase de seguida fixou – se no Concelho de Melgaço passando a residir no lugar de S. Gregório, freguesia de Cristóval, donde, com se disse, era natural.
A sua actividade não se confinou à prática da medicina que exerceu, nas condições que hoje serão fáceis de adivinhar bastando para tal que nos lembrarmos que isso aconteceu nos anos de 30 a 50. Com consultórios em S. Gregório, em Melgaço e em Monção, nunca deixou de fazer serviço domiciliário sempre que para tal era solicitado.
Dizem-me os mais velhos, que com ele privaram de muito perto, que nunca se poupou a sacrifícios e tais eles eram que a sua saúde foi grandemente afectada por isso e, ainda, que a sua forma de exercer a medicina lhe mereceu o nome de “médico dos pobres”.
O certo é, também, que não se lhe conheceu fortuna resultante do exercício da sua actividade enquanto médico ou das outras funções que ao longo da vida desempenhou.

Deixou o seu nome ligado a diversas instituições, não só do Concelho com até do Distrito.

Foi um dos que, há precisamente sessenta anos que hoje se completam, ajudou a fundar a “VOZ DE MELGAÇO” onde desempenhou funções de chefe da redacção durante algum tempo.

Exerceu o cargo de Presidente da Câmara Municipal de Melgaço desde Dezembro de 1956 até Novembro de 1957. Foi curto o seu mandato, porque a sua saúde débil, não lhe permitiu que continuasse e até o forçou a recusar cargos políticos mais elevados já que o seu prestígio político era grande não só no Concelho como até no Distrito.

Numa altura particularmente difícil para Santa Casa da Misericórdia de Melgaço, cujo hospital estava em riscos de fechar, aceitou ser seu Provedor em 1945 e aí se manteve até à sua morte.
Este desafio foi-lhe lançado por outro ilustre Melgacense – o Dr. Augusto César Esteves – a quem lhe caberia substituir no cargo.
Não o aguardava tarefa fácil, ele estava consciente disso, mas, com o seu espírito empreendedor e a sua dedicação, deitou mãos à obra e conseguiu levar por diante aquele projecto da Santa Casa da Misericórdia.
Para angariar os fundos que lhe permitiram alcançar os objectivos que se propôs, valeu-se não só dos Amigos, mas também conseguiu reunir à volta do seu projecto todo o Concelho que respondeu, quase em uníssono, através de uma participação activa das mais diversas maneiras e, muito particularmente, nos vários cortejos de oferendas que, para o efeito, foram organizados.

Destes, recordo um, talvez o último, onde a Freguesia de Cristóval se fez representar com um enorme cisne branco e nos diversos carros se via de tudo. Os contributos eram dos mais variados desde réstias de cebolas a árvores cujos “frutos” eram chouriços e salpicões ou notas de 20$00… e, se a memória não me falha, as receitas deste também se destinavam para obras a levar a cabo no “Asilo Pereira de Sousa em Eiró”.

Sinto que já vai longo este meu texto e ao mesmo tempo fico com uma certa sensação de frustração por não poder dizer mais coisas que permitissem mostrar a dimensão deste HOMEM BOM DE MELGAÇO, mas fica-me a satisfação de, falando nele o “Contando aos mais novos e lembrando aos mais velhos”. Resumindo: “Falando nele” para que outros o possam vir a estudar melhor

Para concluir, por hoje, deixo esta nota:

O dia em que morreu celebrava a Igreja a festa da Ascensão que nesse ano calhou a 7 de Maio. Tendo em conta o carácter e a personalidade do Dr. Júlio, não deixa de despertar uma certa curiosidade e, porque não, ser motivo para uma reflexão pela coincidência das datas.


A fechar:

Em dia de aniversário e cumprimentando fraternalmente todos os seus leitores, aqui deixo os meus parabéns para o Jornal e votos das maiores felicidades para todos quantos nele trabalham.
Para todos o meu “BEM HAJAM


Armando Coelho Rodrigues

Texto gentilmente enviado por Armando  Rodrigues a quem muito agradeço a partilha!