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sexta-feira, 2 de agosto de 2019

Um retrato da freguesia de S. Paio (Melgaço) de meados do século XVIII






A freguesia de S. Paio é uma das mais antigas do concelho de Melgaço. Existem referências a um antiquíssimo mosteiro que aparece documentado até ao século XII e designado como de “S. Pelagii de Paterni”, ainda que existam algumas dúvidas acerca da sua existência, segundo alguns autores. A paróquia, nos séculos seguintes, conserva-se com a denominação de “S. Payo de Paderne” até ao século XIX, embora apareça desde o século XVIII, por vezes, como “S. Paio de Melgaço” e as duas designações coexistam durante algum tempo. Apenas, a partir de 1936 é que oficialmente passa a ter a atual designação de “S. Paio”.
A igreja paroquial é dedicada ao mártir S. Paio, também conhecido como Pelayo de Córdova, sobrinho do Bispo de Tui, tomado como refém por um rei mouro, e degolado no ano de 825, em Córdova. A dita igreja paroquial situa-se no lugar, atualmente designado, de Cruzeiro. Contudo, nas Memórias Paroquiais de 1758, o Reverendo Domingos Gomes, pároco à época, refere que entre os lugares que compõem a freguesia se encontra “S. Payo em cujo lugar está situada a igreja com seis vizinhos”. A designação de “vizinhos” neste contexto não se refere ao número de residentes no lugar mas antes ao número de fogos (casas de habitação). 
A denominação de Cruzeiro é utilizada pela primeira vez numa assento de batismo em 1798, sendo que antes o lugar era chamado de S. Paio, conforme se comprova na citação. É curioso o lugar se chamar Cruzeiro, derivado da presença de um cruzeiro quinhentista que apresenta a data de construção esculpida na pedra, vários séculos mais recente do que a igreja paroquial. A mudança de nome poderá ter a ver com o crescimento do lugar no setor junto ao cruzeiro e ao longo do antigo caminho que ligava este lugar a Montrigo e aos Lourenços. Julgo que esse crescimento apenas se começa em finais do século XVIII. Até aqui, perto da igreja, apenas existiriam não mais do que seis casas e algo dispersas nas proximidades da mesma. Os lugares mais extensos da freguesia seriam os dos Lourenços, Regueiro, Cavaleiro Alvo e Sante, sendo este último meeiro com Paderne.
Em 1758, o pároco de S. Paio dá-nos a lista de lugares que na época existiam nesta paróquia designada de “S. Paio de Melgaço”. O padre Domingos Gomes refere que a freguesia tem trinta e três lugares. “Seus nomes são os seguintes: Cavaleiro Alvo, Fonte Gonçalo, terra de montanha, Amial, Quangostas, Raza, Requeixo, Sto. André, Cavencas, Paço, Ponte. Nogueiral, Veiga, Outeiro, Costa, Carpinteira, Granja de Cima, Granja de Baixo, Carreira, Rial, Alote, Gaya, Barral, Soutulho, Baratas, S. Payo (…), Rigueiro, Barreiros, Carvalha Furada, Lagendo, Lourenços e Sante, meeiro com a freguesia de Paderne em qual entra a Verdelha (…) estes dois são da alternativa de S. Payo ou Paderne e neste presente ano de 1758 até ao S. João são da alternativa de Paderne”. Em relação aos lugares meeiros Sante e Verdelha, o padre Domingos utiliza uma linguagem algo confusa, querendo ele dizer que os lugares até ao S. João pertenciam a uma das freguesias e depois do S. João até ao fim do ano pertenciam à outra freguesia.
Conforme se pode constatar, a generalidade dos lugares que conhecemos na atualidade já existiam na época ainda que alguns apareçam escritos de uma forma algo diferente da atual. Apenas, salientar que o atual lugar do Granja é citado como dois, e não um lugar, com as designações de “Granja de Cima e Granja de Baixo”. Por outro lado, reparamos na existência de um lugar designado de Fonte Gonçalo que, juntamente com Cavaleiro Alvo, é descrito como as "terras de montanha" da freguesia. O mesmo lugar é mencionado até ao primeiro quarto do século XIX e depois aparentemente desaparece dos documentos. Tanto quanto me parece, este pequeno lugar parecia situar-se nas proximidades de Cavaleiro Alvo e/ou Lobiô mas carece de uma localização mais exata. Por último, saliente-se o facto de o lugar do Pombal, entre outros, não ser referido ainda em meados do século XVIII, presumindo-se que não existisse já que referências a nascimentos de crianças neste lugar só se verificam já no início do século XIX.
O padre Domingos Gomes refere-se também aos limites naturais da freguesia na sua parte mais altaneira. Menciona que “esta freguesia de S. Payo confina com a serra de Pumidelo, Outeiro Escuro, Gavianceiras, montes ásperos, que tem de comprido huma légoa e de largo duas légoas e meya. Principia esta serra na freguesia de Rouças, Fiães e Lamas de Mouro e finda em Cubalhão e Paderne”.
No manuscrito da Memórias Paroquiais desta freguesia, o pároco faz referência aos dois principais cursos de água que correm em S. Paio. O mais curioso é reparar nos nomes utilizados na época. Em relação à chamada Corga de S. Paio que atravessa quase toda a freguesia em direção a Prado, diz-se o seguinte: “tem esta freguesia a Corga e Rio de Montirigo que principia no alto da Gavianceira e se recolhe entre as freguesias de Prado e Paderne”. Montirigo é a forma antiga de designar o lugar de Montrigo, localidade desabitada desde há mais de 30 anos e onde apenas existiu, em tempos, uma ou duas casa de habitação. Havia aí dois moinhos de águas comunitários que não funcionam há pelos menos 35 anos.
O pároco faz ainda alusão à corga que é o limite natural da S. Paio com a freguesia de Rouças, citada atualmente como a Ribeira de S. Lourenço. Há quase três séculos, a designação usada é completamente diferente. Atentemos neste extrato: “tem mais o Rio de Cantes que são limites desta freguesia e Rouças. Este tem seu princípio na serra de Pumidelo (…) o peixe desse são algumas trutas e anguias...”.
No total, a paróquia, contava, em 1758, segundo o pároco, com “vizinhos (fogos) duzentos e quarenta e nove e número de pessoas, setecentas e treze”. Se analisarmos os cadernos da paróquia de S. Paio entre os anos de 1758 a 1765, chegamos à conclusão que, por esta altura, nasciam à volta de 20 a 30 crianças por ano, estando a população da freguesia em franco crescimento, em face dos constantes saldos fisiológicos positivos. Em termos do número de óbitos, nesta época, os números situavam-se entre os 10 e os 20 óbitos anualmente, conforme se pode conferir nas tabelas.
Tomemos como exemplo o ano de 1765, em que nasceram 29 crianças na freguesia, registando-se apenas 10 óbitos, distribuindo-se os mesmos por diferentes lugares conforme as tabelas seguintes:




Tendo em conta os dados apresentados, entre 1758 e 1765, em menos de uma década, a população de S. Paio passou de 713, segundo informação do pároco da época, para um universo populacional aproximado de 800 habitantes. Podemos conferir esses dados na tabela seguinte:


Um outro pormenor que importa salientar é a prova da presença de população escrava na freguesia na época. Normalmente, os escravos eram propriedades de famílias nobres e em S. Paio tínhamos a “Quinta da Gaya” e a “Quinta da Lotta” (Alote) como exemplos de propriedade de famílias fidalgas locais. Assim, se atentarmos num assento de óbito lavrado em Janeiro de 1765, podemos ler o seguinte: “Francisco, preto, escravo de Manuel Joaquim António Pereira de Castro da Quinta da Gaya desta freguesia de São Payo. Se faleceo desta vida presente com todos os sacramentos e se lhe fez hum offício de sete sacerdotes… aos dezasseis dias de Fevereiro de mil setecentos e sassenta e sinco annos”.
Muito provavelmente este escravo pertencente ao senhor da Quinta da Gaia dedicar-se-ia a trabalhos agrícolas. Obviamente, a freguesia vivia essencialmente da agricultura como a generalidade do país. O pároco escreve em 1758 que, na época, em S. Paio de Melgaço se colhiam “frutos, milhão, centeio, trigo e milho alvo em abundância” bem como “vinho em abundância”.
Em 1758, o abade Domingos Gomes fala-nos ainda da igreja paroquial e das capelas existentes na freguesia. A igreja de S. Paio, tinha três naves, uma com três arcos, e cinco altares: o do orago S. Paio, onde estava o Santíssimo Sacramento; o da Senhora do Rosário; o da Senhora do Carmo; o do Santo Cristo e o das Almas.
As capelas que atualmente existem na paróquia, à exceção da do lugar do Regueiro, já existiam pelo menos há cerca de 300 anos. Em meados do século XVIII, existem referências à presença de quatro capelas nesta freguesia: a de Santo André, a de Nossa Senhora do Amparo, a de Nossa Senhora do Bom Despacho e a de S. Paio, no lugar de Cavaleiro Alvo. Em relação a esta última, no livro “Diccionário Geográfico” de 1751, o autor refere que já nessa época existia no dito lugar “uma ermida com a invocação de S. Payo”. Sabemos que em 1758, a administração desta capela pertencia ao povo desse lugar.
Além desta ermida, havia nesta freguesia de S. Paio, em meados do século XVIII, a capela de Nossa Senhora do Bom Despacho, no lugar de Barata. A mesma era administrada por um tal Manuel Fernandes, da freguesia de Rouças. Sabe-se que em 1913, já existia no lugar de Barata uma capela de invocação a S. Bento. Não sabemos se se trata da mesma capela antes citada da Nossa Senhora do Bom Despacho ou uma outra.
Em meados do século XVIII, já existia na freguesia de S. Paio, como se disse antes, uma capela dedicada a Santo André. A mesma capela era administrada pelo abade da paróquia, à época, o Reverendo Domingos Gomes que era natural do lugar da Rasa.
Falta fazer referência à capela de Nossa Senhora do Amparo, no lugar do Barral. A mesma já existia em meados do século XVIII, sendo referida nas Memórias Paroquiais de 1758. Na época era administrada por Manuel Gonçalves, morador no lugar do Barral, juntamente com o Doutor Miguel Gomes de Abreu, da freguesia de Paderne, Diogo Álvares, residente no lugar do Granjão (Paderne) e Domingos Álvares, morador no Barral.
Apesar da escassez de fontes de estudo, ficamos com um retrato possível da freguesia de S. Paio numa época em que, segundo o seu pároco, atravessava uma época relativamente próspera que talvez ajude a explicar o franco crescimento populacional. Neste sentido, o pároco escreve, em 1758, "nesta freguesia se colhe vinho com abundância e em toda ella, excepto os dous lugares que estão no monte, Cavaleiro Alvo e Fonte Gonçalo, dá abundante pam para seu sustento de frutas peras e maçãs, alguns pêssegos e ortaliças e alfaceas, tudo isto se dá nesta freguesia e algumas castanhas...".












Fontes consultadas:
- Arquivo Distrital de Viana do Castelo – Paróquia de S. Paio (Melgaço) – Livro de Assentos de Batismos (1721-07-02/1768-07-04).
- Arquivo Distrital de Viana do Castelo – Paróquia de S. Paio (Melgaço) – Livro de Assentos de Óbitos (1727-07-01/1803-06-08).
- Arquivo Nacional da Torre do Tombo - “Memórias paroquiais da freguesia de S. Paio (Melgaço)”, in Dicionário Geográfico de Portugal, volume 27, nº 25, p. 149 a 152.

sexta-feira, 17 de maio de 2019

Os achados arqueológicos da Idade do Bronze na Carpinteira (S. Paio - Melgaço) em 1906



No início do século XX, registaram-se em Melgaço um conjunto de importantes achados arqueológicos tais como o Castro da Cevidade e a estela sepulcral, ambos em Paderne, e o designado esconderijo morgeano, no lugar da Carpinteira, em S. Paio, entre outros.
Foi em 1906 que se descobriu de forma acidental no lugar da Carpinteira (S. Paio) um conjunto de cinco machado da idade do bronze, provavelmente com cerca de 3 000 anos de antiguidade. Tal facto é-nos contado, na época, na revista “Portvgália”, num artigo de José Fortes, que refere que “Em Novembro de 1906, quando se arrancava um pinheiro numa bouça do sítio da Carpinteira, freguesia de S. Paio, a 1,4 quilómetros de Melgaço, apareceram sob as raízes, cinco machados de bronze, que, dias passados, foram adquiridos pelo digno professor da Escola de Desenho Industrial de Viana do Castelo, Sr. Serafim de Souza Neves. Gentilmente confiados, pudemos estudá-los e averiguar que pertencem todos ao tipo, que a arqueologia francesa denomina à Talon e classifica de morgeano – modelo vulgaríssimo entre nós e conhecido hoje pela perífrase de machados de duplo anel e dupla canelura”.
Tais factos são também aludidos por Figueiredo da Guerra no “Correio de Melgaço”, edição 5 de Janeiro de 1913, onde escreve que ”Da idade do bronze apareceram em 1906, na Carpinteira, S. Paio, em esconderijo subterrâneo (quando se arrancava um pinheiro numa bouça), cinco machados de cobre, tipo morgeano (…), que nós classificamos como modelo grande do Minho. Da mão do nosso amigo Serafim Neves, onde os vimos, passaram ao Dr. José Leite, indo aumentar a colecção oficial de Lisboa”.
Conforme se lê acima, os machados encontrados foram adquiridos pelo Dr. José Leite de Vasconcelos, diretor do Museu Nacional de Arqueologia, ao professor Serafim Neves para a coleção da instituição. Sabe-se que este os terá tentado vender ao Dr. Leite de Vasconcelos e podemos comprovar tal facto pela troca de correspondência entre ambos. De facto, em 1908, Serafim de Sousa Neves solicitou informações sobre o interesse do Museu Nacional de Arqueologia em adquirir três dos machados que apareceram na Carpinteira (S. Paio - Melgaço). Na mesma carta em que Serafim de Sousa Neves informa o museu de que não realizava a venda dos machados “por menos de 15.000 reis” disponibilizou-se também a vender os novos materiais que obteve de Condeixa: “Recebi de Condeixa, uma luzerna em barro muito perfeita, um cadinho ainda com vestígios de metal, um fragmento também de uma outra luzerna, e um annel em ouro. Creio bem que todos estes objectos são romanos. Se V.ª Ex.ª desejar vê-los não tenho dúvida alguma em lhos remeter.”
No início do mês de Junho de 1908, estes objetos foram enviados para Lisboa e alguns dias mais tarde foi remetido o valor que pretendia obter pelos mesmos: “Os objectos que ultimamente enviei a V.ª Ex.ª custam 40$000 reis”. Não conhecemos os desenvolvimentos destas propostas de venda. As seguintes cartas enviadas por Serafim de Sousa Neves, em 12 de Junho de 1908 e 26 de Junho do mesmo ano, informam José Leite de Vasconcelos sobre o interesse em vender o conjunto dos objetos e não os objetos separados e um pedido de informações sobre a datação do anel de ouro. Sabe-se apenas que a venda se concretizou desconhecendo-se o valor.
No artigo sobre estes achados, José Fortes escreveu na revista Portvgália (1905 - 1908) acerca do estado de conservação dos ditos machados e das sua caraterísticas: “É em geral mau o estado de conservação as série. O lenhador, fantasiando logo um áureo tesouro, mutilou ou partiu alguns exemplares, e raspou a patina de outros – tudo em averiguação cubiçosa da natureza íntima do metal. Assim, apareceram-nos – um partido logo abaixo da espera (talon), dois com falta de um anel e um com o cabeço da fundição partido e novamente soldado. A patina, que era verde escura está levantada na maioria deles. Ainda se percebe no entanto que a crosta patinosa era mais espessa num dos lados dos instrumentos. Restos de partículas terrosas aderem-lhes às faces, atestando uma longa permanência no subsolo.
Foram todos fundidos em diversos moldes bivalves. Num reconheceu-se que as valvas do molde se deslocaram durante a operação, resultando um instrumento defeituoso, assimétrico, grosseiríssimo. Exibe este mesmo espécime uma particularidade invulgar de arquitetura. O rebordo saliente da espera prolonga-se para ambos os lados do instrumento e transforma-se aí nos anéis usuais.
Apesar deste e outros insignificantes episódios arquitetónicos, o aspeto geral é o mesmo, reproduzindo-se esta uniformidade genérica até na ornamentação das duas faces maiores, constituída em todos por uma nervura média, entre dois sulcos mais ou menos profundos, a começar logo abaixo do rebordo da espera e esmorecendo até desaparecer a distâncias variáveis do gume.
Só dois dos machados conservam aderentes os cabeços da fundição. Nos outros foram serrados previamente à inumação o esconderijo. Mas o corte não os separou por completo, percebendo-se-lhes ainda nitidamente o início, logo a seguir às caneluras. Estas circunstâncias, e a subsistência de rebarbas em alguns exemplares, atestam que não tinham sido usados. No mapa subsequente, se resumem outros pormenores descritivos:



O achado representa mais um esconderijo de fundidor-mercante. Repete-se nele a irritante monotonia destes depósitos da idade do bronze, quase sempre constituídos exclusivamente pelo mesmo tipo de machado, sem outros instrumentos ou utensílios coevos. De entre os sete esconderijos, de que temos nota, só um, o de Bujões (Vila Real), continha um padrão diverso de machados, o de cunha, e outro, o de S. Brás (Torre de Dona Chama), reunia os dois modelos, de cunha e de caneluras duplas. Os restantes e agora este oitavo depósito, apenas forneceram o palstave de duplo anel e dupla canelura.
Assim, o recentíssimo achado, conquanto registável, carece de importância arqueológica para a constituição da cronologia da Idade do Branze, ainda tão imprecisa e incerta entre nós, à mingua de indicadores seguros”.
Ainda hoje, três dos cinco machados achados na Carpinteira (S. Paio) se encontram no Museu Nacional de Arqueologia. Um deles (Foto 2) é descrito nos seguintes termos: “Machado de talão de bronze, com dupla aselha, de tipo Monteagudo 39 C (Bardaos). Uma das aselhas está fraturada, não apresenta cone de fundição. A secção é subquadrangular. O gume é retilíneo e apresenta-se muito gasto. O talão é estreito e delimitado por uma nervura saliente que forma como que uma moldura e é mais espessa na zona limite entre o talão e a lâmina. A lâmina apresenta uma nervura central saliente, embora erodida, que arranca da moldura do talão e é ladeada por duas depressões laterais, bastante erodidas.” (http://www.matriznet.dgpc.pt)


Foto 2

Um outro é descrito nos seguintes termos: “Machado de bronze, de talão e dupla azelha; secção subretangular, de tipo Monteagudo 29 F (Melgaço). O talão e gume retilíneos; rebarbas visíveis nos bordos. No topo do talão é visível a zona de corte do cone de fundição. As azelhas arrancam imediatamente abaixo do limite de junção com a lâmina. Nervura central muito saliente, ladeada por duas depressões bem vincadas, em forma de cunha. Talão delimitado por nervura lateral, especialmente saliente na zona de junção com a lâmina, formando como que uma moldura. É um machado em bronze, cuja tipologia se pode inserir num contexto o Bronze Final. Encontra-se em bom estado de conservação; apresenta uma pátina homogénea verde escura podendo isso sugerir que se tenham formado compostos de cobre nomeadamente, o acetato ou carbonato de cobre. Por outro lado, os óxidos de cobre apresentam uma tonalidade acastanhada semelhante à encontrada em alguns pontos da superfície da peça. É também de salientar que os carbonatos de cobre (malaquite) são resultado da reacção dos óxidos castanhos de cobre. Tendo em atenção à massa registada para a peça, pode-se admitir que existe um teor de chumbo elevado. Segundo a literatura, durante a Idade do Bronze Final nesta região são habituais as ligas ternárias de Cu, Sn e Pb. O chumbo é adicionado às ligas de cobre para aumentar a sua fluidez e modificar a sua pátina. Este metal não forma soluções sólidas com os bronzes, ficando distribuído no artefacto sob a forma de inclusões esféricas e de uma forma heterogénea. Atendendo a que não há homogeneidade na distribuição do estanho e chumbo na liga, devido a processos de segregação que ocorrem durante as operações metalúrgicos de fabrico da peça, e tendo em conta os potenciais de redução padrão desses elementos podemos admitir que haja um grau de corrosão intenso desses metais em determinadas zonas da superfície. Tal facto pode justificar a observação de produtos esbranquiçados em algumas zonas do revestimento da peça". (http://www.matriznet.dgpc.pt)


Foto 3

O terceiro, na Foto 4, é descrito assim: “Machado de talão em bronze, com dupla azelha. Secção subquadrangular. Cone de fundição muito corroído e fracturado. Uma das aselhas está quebrada. Gume embotado, fracturado e ligeiramente assimétrico pelo uso (originalmente terá sido rectilíneo). Na zona de fractura do cone de fundição são ainda visíveis algumas manchas metálicas cinzentas (chumbo?). Talão estreito e delimitado por uma nervura saliente que forma como uma moldura e é mais espessa na zona limite entre o talão e a lâmina. Lâmina com nervura central saliente, embora erodida, que arranca da moldura do talão e é ladeada por duas depressões laterais, bastante erodidas. Orifícios de corrosão numa das faces do talão. Mossas e outras marcas de uso (cortes feitos com escopro?). A aselha que resta também apresenta evidentes sinais de corrosão (orifícios). Monteagudo nº 1132 Tipo 29 H (Veatodos C). É um machado em bronze, cuja tipologia se pode inserir num contexto o Bronze Final. Encontra-se num estado de conservação razoável, apresentando uma corrosão estável. A pátina que reveste o artefacto é verde acastanhada, podendo isso sugerir que se tenham formado compostos de cobre nomeadamente, o acetato ou carbonato de cobre de cor verde ou óxidos de cobre que apresentam uma tonalidade acastanhada semelhante à encontrada em algumas zonas da superfície da peça. É também de salientar que os carbonatos de cobre (malaquite) são resultado da reação dos óxidos castanhos de cobre. Tendo em atenção à massa registada para a peça, pode-se admitir que existe um teor de chumbo elevado. Segundo a literatura, durante a Idade do Bronze Final nesta região são habituais as ligas ternárias de Cu, Sn e Pb. O chumbo é adicionado às ligas de cobre para aumentar a sua fluidez e modificar a sua pátina. Este metal não forma soluções sólidas com os bronzes, ficando distribuído no artefacto sob a forma de inclusões esféricas e de uma forma heterogénea. Atendendo a que não há homogeneidade na distribuição do estanho e chumbo na liga, devido a processos de segregação que ocorrem durante as operações metalúrgicos de fabrico da peça, e tendo em conta os potenciais de redução padrão desses elementos podemos admitir que haja um grau de corrosão intenso desses metais em determinadas zonas da superfície. Tal facto pode justificar a observação de produtos esbranquiçados em algumas zonas do revestimento da peça”. (http://www.matriznet.dgpc.pt)


Foto 4








Fontes consultadas:


- FORTES, José (1905-1908b) – Esconderijo morgeano da Carpinteira (Melgaço). In: Portugalia, Tomo II, Fascículo 3.

- PEREIRA, Elisabete de Jesus (2017) - Atores, Coleções e Objectos - Coleccionismo Arqueológico e Redes de Circulação de Conhecimento - Portugal, 1850 - 1930, Tese apresentada à Universidade de Évora para obtenção do Grau de Doutor em História e Filosofia da Ciência. Universidade de Évora, Évora.

- http://www.matriznet.dgpc.pt.


sexta-feira, 19 de abril de 2019

A Páscoa em S Paio (Melgaço) há quase 70 anos



Este é um pequeno filme do ilustre artista melgacense Manuel Alves de San Payo, natural da freguesia de São Paio. 
No filme, podemos ver momentos da visita pascal algures por volta de 1950 na paróquia de S. Paio. Num primeiro momento, podemos ver a chegada do compasso pascal à casa onde eu cresci, no lugar do Cruzeiro, junto à igreja. Num segundo momento, vemos a Procissão dos Passos que na época se realizava percorrendo, em grande parte do percurso, um caminho que sempre foi conhecido como o "Caminho do Calvário".
Na parte final do filme, vemos o compasso pascal a sair da igreja de S. Paio em direção à casa de família do autor do filme...
Veja o filme!


sexta-feira, 9 de novembro de 2018

Livro "Melgacenses na I Grande Guerra (e outras guerras do século XX)"



Domingo, dia 11 de Novembro de 2018, assinala-se um século sobre a assinatura do Armistício que punha fim à Primeira Grande Guerra, um conflito onde combateram dezenas de melgacenses e onde alguns deles tombaram em combate.
Da investigação de Joaquim A. Rocha e Valter Alves, nascerá, muito em breve, um livro onde os autores pretendem perpetuar a memória destes valentes combatentes filhos desta nossa terra. No prefácio desta obra, pode ler-se: “Foi há pouco mais de 100 anos que os primeiros soldados do contingente que Portugal enviou para combater em França na I Guerra Mundial chegaram à Flandres. Em África, já combatiam os alemães desde 1914.
Com base nos dados de que dispomos, de Melgaço, partiram para a Flandres, 73 homens, oriundos das diversas freguesias. Estes homens foram autenticamente “roubados” às suas vidas e obrigados a ir para uma guerra para a qual não estavam preparados. Paderne, com 14 homens, Penso, com 12 homens e Vila, com 14 homens são as freguesias melgacenses que mais contribuíram em termos de número de efetivos. Estes homens da nossa terra, feitos soldados, tinham todos à data do embarque, idades entre 22 e 27 anos completos (nascidos entre 1891 e 1895), à exceção dos oficiais que eram um pouco mais velhos.
Assim, entre Janeiro e Novembro de 1917, partiram estes homens do Cais de Alcântara, rumo ao porto de Brest (França) numa viagem de navio de vários dias. Daí seguiram de comboio até à zona sul da Flandres francesa perto de Armentières, nos vales dos rios Lys e Aire.
Depois de uma curta estadia em Brest, porto de desembarque das tropas portuguesas, seguia-se o transporte, de comboio, até à região de “Aire”, zona destinada às tropas do Corpo Expedicionário Português.
E foi num clima agreste, de neve, chuva e frio, língua e costumes tão diferentes dos seus, que estes homens da nossa terra e as tropas portuguesas tiveram de suportar mais de um mês de treino complementar, junto do exército britânico, para se poderem “familiarizar” com as armas inglesas com que iam combater e com as novas formas da guerra que iam conhecer de perto.
Na frente europeia, dos 73 homens naturais de Melgaço que partiram, 10 morreram caídos em combate ou devido a outras causas como doenças. O primeiro melgacense a morrer em combate foi o soldado António Alberto Dias, natural do lugar da Verdelha (Paderne) que faleceu a 9 de Outubro de 1917 na Flandres (França).
Quatro dos caídos em combate, faleceram durante a Batalha de La Lys (9 de Abril de 1918). Foram eles os soldados José Cerqueira Afonso, de Paços (Melgaço); José Narciso Pinto, de Chaviães; João José Pires, de Paços e o segundo sargento António José da Cunha, natural da freguesia da Santa Maria da Porta (Vila de Melgaço). O último pertencia ao 6.º Grupo de Baterias de Metralhadoras e os três primeiros eram soldados que pertenciam à 4ª Brigada de Infantaria do CEP, Regimento de Infantaria n.º 3 (Viana do Castelo). Esta era conhecida como a Brigada do Minho, a que pertenciam a grande maioria dos soldados melgacenses, e já tinha conquistado uma reputação de bravura na frente de batalha muito antes de lhe ser confiada, em Fevereiro de 1918, a defesa do sector de Fauquissart, em Laventie, na Flandres francesa, perto da fronteira com a Bélgica, onde ainda se encontrava nesse fatídico dia 9 de Abril de 1918, quando foi dizimada pelos alemães na dita batalha de La Lys.
Os soldados da Brigada do Minho tinham passado a noite de 8 para 9 de Abril a arrumar armamento, munições e outros equipamentos e seus pertences. Iam ser rendidos por batalhões ingleses no dia 9 e hoje em dia acredita-se que os alemães sabiam disso. Sabiam também que a infantaria portuguesa não estava preparada para aquela guerra e que tinham sido treinados à pressa numa falácia vendida pelo regime republicano que apelidaram de “Milagre de Tancos”. Os soldados de Melgaço e de outras regiões eram lavradores, pedreiros e de outros ofícios. Muitos deles nunca tinham saído da sua terra. A grande maioria nem sabia ler e escrever. Um soldado não se faz num par de meses. Esta batalha foi, por essas e outras razões, um dos maiores desastres de toda a História Militar portuguesa. No dia seguinte, chegara a hora de contabilizar as baixas: 398 mortos (369 praças e 29 oficiais) e uma esmagadora maioria de prisioneiros (6585, dos quais 6315 eram praças e 270 oficiais). Na 4ª Brigada de Infantaria, à qual pertenciam maioria dos melgacenses, as baixas situam-se em cerca de 60% entre mortos, feridos e prisioneiros. No Regimento de Infantaria 3 (Viana do Castelo), as baixas cifram-se em 570, de um total de 700 homens que estavam em posição naquela noite. Deste total de baixas, houve registos de 91 mortos (4 de Melgaço), 155 feridos, 7 desaparecidos e 317 soldados feitos prisioneiros. Deste total de prisioneiros de guerra, nove soldados eram melgacenses. Inicialmente, estes homens foram dados como “desaparecidos em combate” e esse facto foi comunicado às famílias. Vários meses mais tarde, após o fim da guerra, em Novembro de 1918, a Comissão dos Prisioneiros de Guerra, comunicou que estes homens se encontravam em campos de prisioneiros na Alemanha, pondo fim a meses de sofrimento dos soldados e das suas famílias que os julgavam mortos. Na realidade, estes melgacenses foram todos capturados durante a Batalha e levados para campos de prisioneiros na Alemanha. Eram eles os soldados Mário Afonso, de Santa Maria da Porta; António Fernandes, de Penso; Abílio Alves de Araújo, da Gave; Avelino Fernandes, de Alvaredo; António José Rodrigues, de Paderne; Inocêncio Augusto Carpinteiro, de S. Paio; Justino Pereira, de Cubalhão; António dos Reis, da Rua Direita (Santa Maria da Porta) e António Pires, de Rouças, tendo ficado dispersos por vários campos de prisioneiros na Alemanha.
Depois de La Lys, o C.E.P. não mais participou em operações militares relevantes ficando na dependência dos ingleses e relegado para tarefas secundárias.
Os que tombaram, repousam para sempre no Cemitério Militar Português de Richebourg l`Avoué (França). Os que regressaram, muitos deles voltaram com os traumas próprios de um conflito que a humanidade nunca tinha conhecido ou com os problemas de saúde que os acompanharam durante o resto das suas vidas.
Por tudo isto, estes homens foram heróis e merecem a nossa homenagem. Para que nunca sejam esquecidos!"

sexta-feira, 4 de maio de 2018

Melgacenses que combateram na Primeira Grande Guerra - Os Expedicionários da freguesia de S. Paio


S. Paio
(Foto de Annabelle Pereira)

No artigo de hoje, o blogue presta homenagem a cada um dos combatentes naturais da freguesia de S. Paio que lutaram nas trincheiras da Flandres, no norte de França, durante a 1ª Guerra Mundial.
Há cerca de 100 anos, mais de 70 combatentes naturais de Melgaço partiram para esse conflito horrendo. Desses, 5 deles nasceram na freguesia de S. Paio. Foram eles: Inocêncio Carpinteiro, do lugar dos Barreiros; Albano José Flores; Manuel Joaquim da Costa, do lugar dos Lourenços; Alfredo Soares, do lugar da Costa e José Maria Alves Pereira, do lugar do Regueiro. Os primeiros quatro pertenciam à célebre Brigada do Minho (4ª Brigada de Infantaria do Corpo Expedicionário Português), onde teve um papel muito ativo na Batalha de La Lys, enquanto que o soldado José Maria Pereira pertencia ao Batalhão de Sapadores dos Caminhos de Ferro.
Todos estes sampaenses regressaram vivos da guerra. Deixo aqui um resumo das informações que foi possível recolher do percurso de cada um destes valentes soldados durante o conflito:

1 - Inocêncio Augusto Carpinteiro, Soldado do Batalhão de Infantaria nº 3 (Viana do Castelo), 4.ª Brigada do Corpo Expedicionário Português (2ª Divisão). Nasceu às quatro horas da manhã do dia 23 de Agosto de 1895 no lugar dos Barreiros, na freguesia de S. Paio, filho de Firmino Augusto Carpinteiro e Joaquina Rosa Soares, lavradores.
À época da sua partida para a guerra, encontrava-se solteiro e era morador no lugar dos Barreiros desta freguesia de S. Paio. Embarcou para França em 15 de Abril de 1917 integrado no Corpo Expedicionário Português, portador da chapa de identificação nº 49 556.
Já em França, no cenário de guerra, foi punido em 17 de Outubro de 1917 “pelo Comandante do Batalhão com 15 dias de prisão correcional porque aquando da sua nomeação para serviço nas trincheiras, apresentou a sua reclamação como modos pouco respeitosos”.
Foi punido em 19 de Dezembro de 1917 pelo Comandante da Companhia “com 10 dias de detençaão por ter vindo da 1ª linha de trincheiras onde prestava serviço sem autorização e ainda porque sendo por ele interrogado sobre quem o autorizou a vir à 2ª linha, informou falsamente citando o nome do Comandante do posto o que se averiguou não ser verdade…”.
O soldado Inocêncio combateu na Batalha de La Lys (9 de Abril de 1918) tendo sido dado inicialmente como desaparecido em combate. Mais tarde, por comunicação da Comissão dos Prisioneiros de Guerra, verificou-se que tinha sido feito prisioneiro pelos alemães na referida batalha e levado para o Campo de Prisioneiros de Dulmen (região da Renânia/Norte Westfalia, Alemanha, a cerca de 40 Kms a norte de Dortmund) tendo estado também no Campo de Senne, que fica próximo da cidade alemã de Bielefeld. Com o fim da guerra em Novembro de 1918, os prisioneiros de guerra foram libertados e o soldado Inocêncio terá embarcou no navio inglês "Northwestern Miller" em 12 de Janeiro de 1919, na Holanda, e desembarcou em Lisboa, no Cais de Alcântara, em 18 de Janeiro de 1919.
Após voltar da guerra, viria a casar com Ricardina da Conceição Sérvio, natural de S. Paio, em 24 de Agosto de 1920.
Inocêncio Augusto Carpinteiro faleceu em 16 de Setembro de 1981 na freguesia de S. Paio, deste concelho de Melgaço.


Cartão de identificação de Prisioneiro de Guerra do soldado Inocêncio
(Campo de Prisioneiros de Senne, Alemanha)

2 - Albano José Flores, Soldado do Batalhão de Infantaria nº 3 (Viana do Castelo), 4.ª Brigada do Corpo Expedicionário Português (2ª Divisão), filho de Manuel José Flores e Maria José da Silva, natural da freguesia de S. Paio. À época da sua partida para a guerra, encontrava-se casado com Claudina Rodrigues, natural da freguesia de Paços, concelho de Melgaço. Embarcou para França em 22 de Abril de 1917 integrado no Corpo Expedicionário Português, portador da chapa de identificação nº 49 890. Já em França, no cenário de guerra, baixou à ambulância em 5 de Agosto de 1917, tendo tido alta em 3 de Setembro. Em 15 de Novembro desse ano, encontrando-se em combate, baixou ao hospital por “ter sido ferido em combate neste dia”. Segundo o seu Boletim Individual, a sua hospitalização teve a ver com o facto de ter sido ferido com “estilhaços de granada”. Em 10 de Fevereiro de 1918, seguiu para o Campo Central de Instrução. Encontrava-se de novo em campanha em 2 de Março desse ano, vindo do dito Campo de Instrução.
Já depois do fim da guerra, em Novembro de 1918, em 24 de Janeiro de 1919, recolheu ao 6º Batalhão, indo da Companhia de Telegrafistas do Corpo Expedicionário. Mais tarde, em 6 de Fevereiro do mesmo ano, baixa ao Hospital de Sangue nº 8, tendo alta no dia 18 do mesmo mês, com 2 dias para convalescença. Acabaria por sobreviver à guerra. Depois de recuperado, seguiu para Portugal, juntamente com o 6º Batalhão em 15 de Abril de 1919, a bordo do navio inglês “Northwest Miller”, tendo desembarcado em Lisboa, no Cais de Alcântara em 19 de Abril.

3 - Manuel Joaquim da Costa, Soldado do Batalhão de Infantaria nº 3 (Viana do Castelo), 4.ª Brigada do Corpo Expedicionário Português (2ª Divisão). Nasceu às cinco horas da tarde do dia 19 de Novembro de 1895 no lugar dos Lourenços, na freguesia de S. Paio, filho de António Joaquim da Costa e Maria Joaquina Marques, lavradores.
À época da sua partida para a guerra, encontrava-se solteiro e era morador no lugar dos Lourenços desta freguesia de S. Paio. Embarcou para França em 7 de Abril de 1917 integrado no Corpo Expedicionário Português, portador da chapa de identificação nº 49 517, onde pertenceu à chamada Brigada do Minho.
Sabe-se pouco do seu percurso de guerra durante o conflito. Sabe-se que já em França, no cenário de guerra, terá combatido na Batalha de La Lys (9 de Abril de 1918), integrando o 2º Grupo de Pioneiros.
Sabe-se também que baixou ao Hospital em 1 de Fevereiro de 1919, tendo tido alta no dia 10 seguinte.
Embarcou no Porto de Cherbourg (França), com destino a Portugal, tendo desembarcado em Lisboa, no Cais de Alcântara, em 3 de Abril de 1919.
Após voltar da guerra, viria a casar com Carlota da Pureza Fernandes, em 5 de Fevereiro de 1921.
Manuel Joaquim da Costa viria a falecer em 16 de Outubro de 1969 na freguesia de Paderne, deste concelho de Melgaço.


Cartão da Liga dos Combatentes de Manuel Joaquim da Costa
(Cartão gentilmente cedido por JP Rodrigues)

4 - Alfredo Soares, Soldado do Batalhão de Infantaria nº 3 (Viana do Castelo), 4.ª Brigada do Corpo Expedicionário Português (2ª Divisão). Nasceu às quatro horas da tarde do dia 28 de Março de 1894 no lugar da Costa, na freguesia de S. Paio, filho de José Luís Soares e de Emília de Freitas, lavradores.
À época da sua partida para a guerra, encontrava-se casado desde 11 de Janeiro de 1914 com Maria Rosa Gomes e era morador no lugar da Granja, desta freguesia de S. Paio, concelho de Melgaço. Embarcou para França em 15 de Abril de 1917 integrado no Corpo Expedicionário Português, portador da chapa de identificação nº 49 393, onde pertenceu à chamada Brigada do Minho. No seu percurso durante a guerra, ficaram registados diversos episódios de punições disciplinares por atos considerados desadequados para o contexto.
Já em França, no cenário de guerra, foi punido em 12 de Agosto de 1917 pelo “Senhor Comandante da Companhia com 8 dias de detenção por ter saído da forma sem autorização quando companhia se dirigia para o local de instrução de noite e ter recolhido o quartel da sua companhia”. Dois dias depois, ou seja a 14 de Agosto de 1917, foi novamente punido “pelo Comandante da Companhia com 6 dias de detenção por ser encontrado no centro de instrução e durante o intervalo apoderar-se de alguma fruta de uma nogueira pertencente a uma propriedade que começa no mesmo campo”.
Em 7 de Março de 1918, encontrava-se em combate tendo sido ferido durante as hostilidades.
Foi punido em 19 de Junho de 1918 “pelo Comandante do Batalhão com 10 dias de prisão disciplinar por ter faltado a uma formatura e responder menos conveniente ao Senhor Comandante da Comandante quando este o mandou calar por pretender tomar posse de uma barraca que lhe não pertencia…”.
Foi punido novamente em 23 de Setembro de 1918 “pelo Senhor Comandante do Batalhão com 10 dias de detenção por faltar à revista que teria lugar em 22 (dia anterior), sem motivo justificado…”. Alguns dias depois, em 28 de Setembro do mesmo ano, voltaria a ser novamente punido pelo “Senhor Comandante do batalhão com 10 dias de detenção por faltar aos trabalhos de fortificação e instrução de 26”.
Em 22 de Outubro de 1918, é ferido e baixou à ambulância nº 4, tendo tido alta para a unidade em 9 de Novembro seguinte.
Em 30 de Outubro, no âmbito da reorganização do C.E.P., é integrado no Batalhão de Infantaria nº 22, 2ª Companhia.
Em 5 de Janeiro de 1919, ainda se encontrava-se no Batalhão de Infantaria nº 22, tendo sido abatido ao efetivo dessa unidade nessa data, dando entrada no Depósito Disciplinar 1 no dia seguinte, facto provavelmente relacionado pelos numerosos casos de indisciplina protagonizados pelo soldado Alfredo Soares. Necessitou de cuidados médicos em 15 de Fevereiro de 1919, quando baixou ao Hospital de Sangue 8, tendo tido alta em 12 de Maio seguinte.
Em 5 de Junho de 1919, seguiu para o Pelotão de Estafetas afim de ali aguardar julgamento, vindo das Prisões da Base. Nada consta acerca do julgamento no seu Boletim Individual. Apenas sabemos que embarcou no Porto de Cherbourg (França), com destino a Portugal, juntamente com o Depósito Disciplinar 1, em 5 de Julho de 1919, tendo desembarcado em Lisboa, no Cais de Alcântara, no dia 8 do mesmo mês e ano.

5 - José Maria Alves Pereira, Soldado do Batalhão de Sapadores de Caminhos de Ferro, 2ª Companhia. Nasceu às sete horas da tarde do dia 8 de Março de 1894 no lugar do Regueiro, na freguesia de S. Paio, filho de Francisco José Alves Pereira e de Maria do Livramento Gomes, lavradores.
À época da sua partida para a guerra, encontrava-se solteiro e era morador no dito lugar do Regueiro, desta freguesia de S. Paio, concelho de Melgaço. Embarcou para França em 26 de Maio de 1917 integrado no Corpo Expedicionário Português, portador da chapa de identificação nº 72 482.
Sabemos muito pouco do seu percurso durante a guerra. Já em França, no cenário de guerra, foi integrado na S.E.M.M. em 1 de Setembro de 1917. Sabemos que foi punido em 7 de Agosto de 1918 “pelo Comandante do Batalhão com 2 dias de detenção porque estando naquela data na formatura da limpeza do gado, saiu da mesma formatura sem autorização do sargento que assistia…”.
Após o término da guerra, embarcou no Porto de Cherbourg (França), com destino a Portugal, juntamente com o Batalhão de Sapadores dos Caminhos de Ferro, em 27 de Abril de 1919, tendo desembarcado em Lisboa, no Cais de Alcântara, no dia 1 de Maio seguinte.

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

A paróquia de S. Paio de Melgaço: algumas notas históricas e património religioso edificado



A igreja e paróquia de S. Paio é uma das mais antigas do concelho de Melgaço. Existem referências a um antiquíssimo mosteiro que aparece documentado até ao século XII e designado como  de “S. Pelagii de Paterni”, ainda que existam algumas dúvidas acerca da sua existência, segundo alguns autores. A paróquia, nos séculos seguintes, conserva-se com a denominação de “S. Payo de Paderne” até ao século XIX, embora apareça desde o século XVIII, por vezes, como “S. Paio de Melgaço” e as duas designações coexistam durante algum tempo. Apenas, a partir de 1936 é que oficialmente passa a ter a atual designação de “S. Paio”.
A igreja paroquial é dedicada ao mártir S. Paio, também conhecido como Pelayo de Córdova, sobrinho do Bispo de Tui, tomado como refém por um rei mouro, e degolado no ano de 825, em Córdova. A dita igreja paroquial situa-se no lugar, atualmente designado, de Cruzeiro. Contudo, nas Memórias Paroquiais de 1758, o Reverendo Domingos Gomes, pároco à época, refere que entre os lugares que compõem a freguesia se encontra S. Payo em cujo lugar está situada a igreja com seis vizinhos”. A designação de “vizinhos” neste contexto não se refere ao número de residentes no lugar mas antes ao número de fogos (casas de habitação).
É curioso o nome do lugar se chamar de Cruzeiro, derivado da presença de um cruzeiro que apresenta a data de construção esculpida na pedra, vários séculos mais recente do que a igreja paroquial. Desconhecemos como se chamaria o lugar antes da edificação do dito cruzeiro. Este é uma construção quinhentista, mais concretamente de 1557. Edificado em granito, é composto por base de três degraus rectangulares sobre a qual assenta o plinto superiormente facetado apresentando-se com a inscrição “MDLVII” (1557) numa das faces. O fuste, inicialmente de secção quadrada, passa depois a ser hexagonal até ao capitel decorado com ornatos vegetalistas. Possui cruz com braços em toros e ostentando a imagem de Cristo.
Nas Memórias Paroquiais de 1758, o pároco dá-nos a lista de lugares que na época existiam nesta paróquia designada de “S. Paio de Melgaço”. Assim, a generalidade dos lugares que conhecemos na atualidade já existiam na época. Apenas, salientar que o atual lugar do Granjão é citado como dois, e não um lugar, com as designações de “Granjão de Cima e Granjão de Baixo”. No total, a paróquia, contava, à época, segundo o pároco, com “vizinhos (fogos) duzentos e quarenta e nove e número de pessoas, setecentas e treze”.
A freguesia vivia essencialmente da agricultura. O pároco escreve que em S. Paio de Melgaço se colhiam “frutos, milhão, centeio, trigo e milho alvo em abundância” bem como “vinho em abundância”.
Em 1758, segundo o abade Domingos Gomes, a igreja de S. Paio, tinha três naves, uma com três arcos, e cinco altares: o do orago S. Paio, onde estava o Santíssimo Sacramento; o da Senhora do Rosário; o da Senhora do Carmo; o do Santo Cristo e o das Almas.
De há pouco mais de um século, mais concretamente de 1913, encontrámos um documento referente ao “Arrolamento de Bens Culturais das Freguesias de Melgaço”, onde encontrámos uma pequena descrição da igreja onde podemos ler que a “igreja paroquial se compõe de seis altares com catorze imagens, coro, um púlpito, com dois sinos, adro que também serve de consistório…”
Como sabemos, a igreja que chegou até aos nossos dias pouco tem a ver com aquela que existiu até por volta de 1930. Nessa altura, o então pároco Raimundo Prieto mandou reformar a igreja tendo sido muito criticado na época. Nas “Obras Completas do Dr. Augusto César Esteves”, pode ler-se: Desta forma fica aliviada a responsabilidade do encomendado Raimundo Prieto assumida quando em 1930 resolveu alargar e de facto alargou a igreja, retirando-lhe os tais arcos.”
As capelas que atualmente existem na paróquia, à exceção da do lugar do Regueiro já existiam pelo menos há cerca de 300 anos. Em meados do século XVIII, existem referências à presença de quatro capelas nesta freguesia: a de Santo André, a de Nossa Senhora do Amparo, a de Nossa Senhora do Bom Despacho e a de S. Paio, no lugar de Cavaleiro Alvo. Em relação a esta última, no livro “Chorographia moderna do reino de Portugal” de 1751, o autor refere que já nessa época existia no dito lugar “uma ermida com a invocação de S. Payo”. Sabemos que em 1758, a administração desta capela pertencia ao povo desse lugar. Em 1913, esta capela é referida em documento como tendo “um adro, um altar, com uma imagem”.
Além desta ermida, havia nesta freguesia de S. Paio, em meados do século XVIII, a capela de Nossa Senhora do Bom Despacho, no lugar de Barata. A mesma era administrada por um tal Manuel Fernandes, da freguesia de Rouças. Sabe-se que em 1913, já existia no lugar de Barata uma capela de invocação a S. Bento. Não sabemos se se trata da mesma capela antes citada da Nossa Senhora do Bom Despacho. A atual capela é de traça arquitetónica simples e no inventário de bens culturais da freguesia de 1913, a capela é descrita como tendo “adro, uma sineta, um altar com três imagens”.
Em meados do século XVIII, já existia na freguesia de S. Paio, como se disse antes, uma capela dedicada a Santo André. O Padre Domingos Gomes, em 1758 situa a dita capela no lugar do Pinheiro. Desconheço se se trata do mesmo lugar a que hoje chamamos “Santo André”. A mesma capela era administrada pelo abade da paróquia, à época, o Reverendo Domingos Gomes. Sabemos que em 1913, esta capela tinha “uma sineta, um altar, cinco imagens e adro com uma árvore”.
Falta fazer referência à capela de Nossa Senhora do Amparo, no lugar do Barral. A mesma já existia em meados do século XVIII, sendo referida nas Memórias Paroquiais de 1758. Na época era administrada por Manuel Gonçalves, morador no lugar do Barral, juntamente com o Doutor Miguel Gomes de Abreu, da freguesia de Paderne, Diogo Álvares, residente no lugar do Granjão e Domingos Álvares, morador no Barral.
Esta capela é referida em 1913 e é descrita como possuindo “um adro, uma sineta, um altar com três imagens, um terço, um véu de ombros, um palio com as respetivas varas, cinco casulas de diferentes cores, vinte e duas toalhas de linho, uma estola, uma custódia de metal dourada, dois missais usados, uma cruz de prata e varas do mesmo metal, uma coroa de prata da Senhora do Rosário, uma opa de seda, seis opas usadas, três pendões e uma bandeira e vinte e sete peças de cortinados”.
Não termino este pequeno artigo acerca do património religioso da freguesia de S. Paio sem me referir à capela e cruzeiro da Nossa Senhora dos Aflitos no lugar do Regueiro. Trata-se de uma capela particular construída por Manuel José Gomes, conhecido no concelho de Melgaço como o “Mestre do Regueiro” por ser natural e morador no dito lugar da freguesia de S. Paio.
A sua construção remonta a 1866. O cruzeiro, ao qual me referirei mais abaixo, em frente à capela também é atribuída ao mesmo "artista" embora a sua edificação tenha sido concluída em 1859.
Envolvida por espaço agrário e à margem de caminho rural antigo, com um pequeno espaço fronteiro lajedo em granito e cruzeiro, a Capela do Senhor dos Aflitos é um pequeno templo com nave única de planta rectangular e cobertura com telhado de duas águas.
Os paramentos em alvenaria autoportante de granito apresentam indícios de terem sido rebocados a branco.
Na fachada frontal abre-se porta de verga encurvada encimada por cartela. O remate da fachada é por cimalha angular tendo ao centro um campanário (vazio) e nos extremos laterais urnas que coroam os cunhais.
Atribuído também a Manuel José Gomes, o cruzeiro acima referido, encontra-se no adro da Capela do Senhor dos Aflitos. Foi construído em granito e constituído por uma base rectangular de três degraus na qual assenta um plinto paralelipipédico que sustém a coluna de secção circular, com o terço inferior do fuste canelado sendo a parte restante lisa. Sobre este apresenta-se um capitel compósito onde se insere a cruz de braços cilíndricos estriados. Diversas esculturas ornamentam o cruzeiro: sobre o capitel dois querubins suportam coroa encimada por ave; na parte superior do fuste e logo abaixo do capitel encontra-se uma imagem da Virgem vestida de manto e uma pequena estatueta sobre mísula. Todo este trabalho escultórico é de qualidade pela minúcia e perfeição dos lavrados.

sábado, 23 de dezembro de 2017

Os soldados da Rainha em busca do Tomás das Quingostas (1837)

S. Paio (Melgaço)
(Foto em http://coxo-melgaco.blogspot.pt/)

O Tomás das Quingostas, de nome Tomás Joaquim Codeço, nasceu no lugar das Quingostas na freguesia de S. Paio, concelho de Melgaço, tendo sido baptizado, em 15 de Agosto de 1808, com nome de Tomás de Aquino. Por volta de 1837, devido à sua simpatia miguelista e toda a uma série de crimes que ele e a sua quadrilha tinha cometido na região, era perseguido já por um destacamento de soldados enviados pela Coroa para o prender. Isso não foi tarefa fácil já ele se movimentava com facilidade entre os dois lados da fronteira e deambulava entre Melgaço, as serras e as povoações galegas. Uma das principais razões que dificultava a obtenção de informações acerca dos seus movimentos era a proteção de que gozava por muitas pessoas da região que lhe davam guarida sempre que necessitava.
Contudo, por esta altura, a prisão do seu criado veio facilitar a tarefa. Tratava-se de um galego do qual se desconhece o nome e que foi detido no lugar de Sante (Paderne) no dia 9 de maio de 1837 e depois conduzido à cadeia de Melgaço. Num ofício redigido no dia seguinte para o seu superior, o Alferes Isidoro da Costa escreve “Participo a Vossa Excelência que no dia 9 do corrente às duas da tarde, cheguei eu com a Partida do meu Comando ao Povo de Sante. Ali, depois de algumas diligências, consegui prender o galego criado do Thomaz das Quingostas, cujo criado eu há muito tempo procurava pois que sabia ser ele o confidente do dito Thomaz e o único que de positivo poderia dizer os sítios onde este facinoroso e sua quadrilha costumam acolher-se para escaparem à perseguição. Com efeito, depois de preso, o galego e ameaçado de morte confessou algumas coisas que interessam para a captura daquele perverso, as quais eu vocalmente direi a Vossa excelência; por cujo motivo o conduzi à Cadeia de Melgaço onde se conserva incomunicável até que Vossa Excelência disponha dele como julgar conveniente.
Acantonamento em Chaviães, 10 de Maio de 1837
Isidoro Manuel da Costa,
Alferes e Comandante da Partida”  
No dia seguinte, segue outro ofício escrito no acantonamento das tropas estacionadas em Paderne em que se alude para o interrogatório que foi feito ao criado do Tomás das Quingostas e todas as informações que tinham sido recolhidas, nomeadamente as pessoas que protegiam o Tomás das Quingostas bem como os sítios onde se escondia. No dito ofício, pode ler-se que “Em aditamento ao meu ofício datado de hoje, participo a Vossa Excelência que acabo de interrogar o galego criado do Thomaz das Quingostas e incluso envio o respetivo interrogatório pelo qual verá Vosssa Excelência quais são as pessoas cúmplices que têm dado proteção àquele sublevado Quingostas, e que devem ser presas, não só para lhes ser aplicada a lei, mas também para que não possam continuar a proteger o malvado que mais facilmente será preso faltando-lhe este apoio. Porém, como são muitos as pessoas no caso de serem presas, eu careço que Vossa Excelência me autorize para elas serem presas militarmente e depois entregues às autoridades judiciais ou em caso contrário Vossa Excelência procederá  a este respeito como julgar mais conveniente. Fico portanto esperando as ordens de Vossa Excelência sobre tão importante objeto, e mesmo para aplicar os possíveis meios de conseguir a captura dos chamado Lisbonense de quem tenho falado a Vossa Excelência, como Agente da Facção Miguelista no Alto Minho. Por fim, levo ao conhecimento de Vossa Excelência que sendo indispensável conservar aqui o preso galego criado do Thomaz das Quingostas mas de um modo oculto para que só saia de noite com a Força (soldados) para indicar as avenidas e paragens daquele faccioso. Para isto tenho feito constar que o mando conduzir para Braga a apresentar-se a Vossa Excelência e como este há-de ser acompanhado por soldados de confiança,  a comunicação destes levará assim para regressar com ele a uma casa próprias onde se conservará em segredo para o indicado fim. Resta-me ainda aproveitar esta ocasião para enviar a Vossa excelência a parte inclusa dada pelo subalterno do destacamento do Regimento que prendeu o referido galego criado do Thomaz das Quingostas cuja parte por esquecimento deixei de incluir no primeiro ofício de hoje, do qual faz parte.
Acantonamento em Paderne, 11 de Maio de 1837.”
Junto ao ofício, seguiu um documento com um resumo das informações declaradas pelo criado do Tomás das Quingostas: “Depoimento a que se procedeu para servir de conhecimento de quem são as pessoas que discretamente protegem o Thomaz das Quingostas e sua quadrilha.
Sendo interrogado o galego criado do Thomaz das Quingostas, que foi preso na tarde do dia 9 do corrente por uma partida de voluntários da Rainha; declarou que todas as pessoas mencionadas nesta relação tem diretamente comunicação com o declarado Thomaz.
1º - Que quando ele, Thomaz habita estes sítios, costuma ficar em casa de Joaquim de Pomares e Domingos de Pomares no dito lugar de Pomares, e também no lugar de Fontes em casa de uma mulher cujo nome se ignora mas que por indícios ou sinais facilmente se pode averiguar e além destas casas, declarou o galego outros sítios ou esconderijos onde ele, Thomaz e quadrilha costumam acolher-se.
2º - Que ele Thomaz tem correspondência em Melgaço com um negociante chamado Vitorino e com um outro paisano chamado Domingos da Maricas e que o ex provedor de Melgaço e seu irmão, Thomaz fariam avisos àquele todas as vezes que saiam Forças de Melgaço / apurar destes dois últimos serem de sentimentos liberais e um deles ter estado nas Linhas do Porto.
3º - Que os homens que nestas aldeias mais costumam avisar e vviver com ele, Thomaz, são o Custódio de Remoães, seu alfaiate; o Pico, seu sapateiro; Maria Crega o lugar de Sante que tem em sua casa trastes dele; o filho do Escrivão de Paderne; o António do Lagendo; o carpinteiro José dos Barreiros; o Cabo da Polícia de Sante Manuel Carvalho; Manuel António Pinheiro, que era incumbido de levar cartas a pessoas que depois se averiguará quem são; o Morgado de Crastos, onde o Thomaz e sua quadrilha vão jogar; o Beites de Sante onde existiam armas dele, Thomaz.
4º - Foi declarado mais que existia no Povo de Badim o célebre Lisbonense chamado Francisco Xavier, que foi criado de D. Miguel e que naturalmente o principal agente do movimento político neste país. Ignora-se se a casa onde ele existe, mas há meios de se poder saber.

Paderne 11 de Maio de 1837".
Em 30 de Janeiro de 1839, quando o Tomás das Quingostas, se encontrava a cavaquear no estabelecimento de Policarpo Fontes, no lugar do Cruzeiro (S. Paio), foi surpreendido por inesperada escolta militar que ia para o capturar. Dizem que o Tomás ainda tentou fugir trepando por um alçapão que dava para o primeiro andar; mas os militares agarraram-no pelas pernas, cortaram-lhe os suspensórios e assim o levaram. Também dizem que ao chegar à Ponte de Alote o prisioneiro exclamou: - «foi ali que eu pratiquei o primeiro crime» e ao mesmo tempo voltou-se bruscamente pisando os calos a uma praça da escolta. O comandante não hesitou e mandou-o fuzilar. Foi sepultado nas traseiras da capelinha de S. Bento da Barata.
Há que referir que as circunstâncias da sua morte são muito discutíveis e as bases documentais são escassas. Estes factos são narrados na tradição popular mas no seu assento de óbito apenas é dito que foi abatido por soldados na data acima citada.