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domingo, 2 de setembro de 2012

Pôr do Sol visto de Cavaleiro Alvo (S. Paio)

Palavras para quê???......


Extraída de: http://olhares.sapo.pt/por-de-sol-ii---cavaleiro-alvo-melgaco-foto1231133.html
Autor: Abel Marques

quinta-feira, 12 de julho de 2012

A Igreja Paroquial de São Paio: Do mosteiro medieval até à remodelação de 1930


Trata-se de uma igreja com planta longitudinal composta de nave única e capela-mor, mais baixa e estreita, tendo adossado à fachada lateral direita torre sineira quadrangular e sacristia rectangular. Volumes escalonados com coberturas diferenciadas em telhados de duas águas na igreja e sacristia, mas esta disposta perpendicularmente, e coruchéu bolboso na torre, coroado por cruz latina luminosa. Fachadas em alvenaria ou cantaria aparente, de aparelho muito irregular, denotando as várias intervenções ao longo dos séculos, com cunhais apilastrados na nave e torre sineira e terminadas em friso e cornija, sobreposta por beirada simples. Fachada principal virada a O., terminada em empena, levemente truncada, rematada por cruz latina de braços trevados sobre acrotério; é rasgado por portal em arco de volta perfeita, com chanfro, sobre dois colunelos de capitel vegetalista, e com tímpano liso sobre impostas salientes, e por janela rectangular com elemento estilizado sob a moldura; no topo, surge silhar com data de 1930 inscrita e elemento concheado. Nos extremos da fachada o aparelho no lado direito integra pilastra e arranque de um arco. Torre sineira no alinhamento da fachada, de dois registos, separados por friso, o segundo rasgado, em cada uma das faces, por sineira em arco de volta perfeita sobre pilastras e albergando sino; nos cunhais possui fogaréus. Fachada lateral esquerda rasgada na nave por duas janelas de verga abatida e moldura terminada em cornija, e capela-mor por janela rectilínea de moldura simples; na capela-mor o aparelho possui vestígios da abertura de uma fresta de perfil curvo. Na fachada lateral direita a torre tem o primeiro registo com cartela inscrita com a data de 1900 e é rasgada por vão quadrangular e óculo circular; na face posterior abre-se porta de verga recta sobrelevada, precedida por escada de pedra; sobre a sineira possui florão relevado. O aparelho desta fachada denota a existência de antiga porta travessa em arco de volta perfeita e a existência de várias frestas de perfil curvo; a nave é rasgada por duas janelas de capialço e, sensivelmente a meio, por porta travessa de verga recta, e a capela-mor por janela rectilínea; a sacristia é rasgada a O. por porta de verga recta, protegida por pequeno alpendre e, lateralmente, por duas janelas jacentes. Fachada posterior da capela-mor terminada em empena, coroada por cruz latina de braços quadrangulares e remate trevado sobre plinto, e a sacristia por duas janelas jacentes. Urbano, isolado no interior da aldeia, junto à estrada que a atravessa, integrado em adro, delimitado por muro de cantaria, com acesso frontal, por portão de ferro, ladeado por altos plintos paralelepipédicos, coroados por fogaréus sobre bases.
Na fachada lateral direita, entre a torre e a janela, existe nicho em arco de volta perfeita, interiormente albergando imagem pétrea, ladeado por duas pilastras suportando friso e cornija contracurvada, coroadas por pináculos piramidais sobre plintos; a bacia do nicho assente em larga voluta inferiormente decorada com pingentes.


Já aqui me referi a esta igreja num post anterior. Mencionei um antigo mosteiro que aqui existia construído durante a Idade Média. No que toca a esta construção, daquilo que se conhece, 1623 é a data do primeiro registo de baptismo documentado. O ano de 1624 é data do primeiro registo de casamento documentado sendo que 1626 é a data do primeiro registo de óbito documentado. O ano de 1687, a 4 Agosto, o visitador da Câmara de Valença, pelo arcebispo de Braga, D. Cristóvão da Costa Rosa, abade de Santa Eulália de Crespos, manda os fregueses fazerem um alpendre à porta da igreja, de grandeza e capacidade para receber a mais gente que a igreja não era capaz de albergar; devia fazê-lo, tornando assim a igreja com maior capacidade e as portas com maior resguardo dos temporais, até à Páscoa vindoura, sob pena de 10 cruzados. Em 1688, a 8 Novembro, o visitador, licenciado Manuel Dias, Abade de São Miguel de Soutelo, refere que os fregueses não cumpriram as ordens do visitador do ano anterior, nem consertaram o coro, nem fizeram o alpendre, incorrendo assim em 6$000 de pena, pelo que os aliviava na maior pena e os condenava apenas em 10 tostões. A 1690, em 6 Julho, o Dr. João de Araújo de Azevedo, Vigário Geral da Comarca de Valença, diz que os fregueses não deram satisfação ao pórtico da igreja como lhes fora mandado repetidas vezes, relevando-os das penas dos capítulos por saber que eles fizeram outras obras necessárias na igreja e por saber que eles queriam acrescentar a igreja ou no comprimento ou fazendo outra nave para o lado da Epístola, conforme fosse mais conveniente. Em 1695,  manda-se o fabriqueiro consertar o retábulo-mor, enquanto não houvesse rendimento para lhe pôr um novo. Em 1697, a 10 Novembro, o visitador Dr. João Rumate de Almonçan manda que, no prazo de 2 meses, os fregueses resolvam com o abade fazer o acréscimo da igreja ou, não querendo, façam o pórtico, conforme indicado nas visitas anteriores, sob pena de 8$000. Em 1698, a 11 Novembro, o visitador Dr. António Lopes da Fonseca refere que já estava armado o dito pórtico e tinham cal, e telha aparelhada para o cobrir. Em 1709, o visitador refere que a igreja necessitava de um retábulo-mor novo, pois o que tinha estava podre e aberto em duas partes, de tal modo que na Semana Santa, os fregueses tinham medo de montar o sepulcro para exposição do Senhor. Assim, mandava que, no prazo de um ano, fizessem um retábulo-mor novo pelo oficial perito na arte. Em 1711, a 30 Novembro,  o visitador Dr. Pinheiro Ramos achou a igreja disforme e desproporcionada no corpo, de modo que não era possível todos os fregueses ouvirem missa; o corpo principal da igreja era a menor parte dela, sendo muito maior a nave que tinha do lado da Epístola, da qual não se via o altar-mor. Achando que a igreja não se podia remediar, manda assim fazer no mesmo sítio, uma igreja nova, de uma só nave, ou um só corpo, com proporção, valendo-se do dinheiro necessário das confrarias. Para tal se devia fazer a planta da igreja por quem o entendessem, não lhe fazendo obras exteriores de pedraria desnecessárias, mas apenas as necessárias, como a porta principal, duas travessas e frestas e no interior só o púlpito, com sua escada, e coro, e tudo mais chão. A obra devia ser posta a lanços e ser arrematada por quem a fizesse mais barata. A capela-mor também se devia fazer de novo, correspondente à igreja. Em 1713, o Dr. Domingos da Mota, abade de Santa Maria de Ferreiros, anunciou haver conseguido para os gastos da obra do altar-mor mais de 40$000. O visitador impôs ao abade a obrigação de avisar o arcebispo e a Casa de Bragança para ambos concorrerem para a obra. Para as obras do corpo da igreja aconselha os fregueses a tirarem algumas esmolas na freguesia pelo São Miguel e que se fosse reservando para elas o dinheiro das confrarias. A 1714, em 19 Agosto, é mencionado que visto se demorar a obra do corpo da igreja, o visitador, Dr. João de Carvalho Leitão, abade de São Tiago do Castelo de Neiva, manda os fregueses, repararem o telhado e forro, para que não chovesse no coro e pincelem o interior, até ao fim de Outubro, sob pena de 2$000. Em 1715, a 18 Julho, o visitador Dr. António de Sousa Marim, refere que muito havia que prover na Igreja, principalmente sobre o fazer-se de novo, porque a freguesia tinha cerca de 1.000 pessoas de sacramento, não cabendo nela nem a terça parte do povo, e dos que cabiam não viam o altar-mor nem o celebrante, por causa de um altar colateral colocado num arco com que se formava uma limitada nave, que lhe impedia a vista. Além disso, o madeiramento do corpo da igreja ameaçava ruir, estando já o coro incapaz de servir. À feitura da capela-mor devia concorrer a Casa de Bragança e o abade, cada um com a quarta parte. Não se devia fazer outras obras enquanto não se reedificasse a igreja e capela-mor. A 1716, em 20 Agosto, pela visitação sabe-se que a obra de reedificação da igreja ainda não tinha sido iniciada. O Dr. João de Carvalho Leitão manda apenas os fregueses retelharem o telhado sobre o coro e serventia dos sinos, que ameaçava ruína e reparar com madeira o dano do forro até ao fim de Outubro, sob pena de 2$000. Em 1718, o visitador Dr. Domingos Gomes da Mota, abade de Santa Maria de Ferreiros, refere que a obra ainda não fora iniciada, nem os fregueses fizeram diligências em ajuntar dinheiro para ela. Manda pois os fregueses, no prazo de um ano, iniciarem a obra do corpo da igreja pela planta que o abade tinha, sob pena de 20$000; os fregueses deveriam fazer logo a coberta da pia baptismal, devendo suspender a obra do coro. Em 1719, a 29 Agosto, o visitador Dr. Manuel Pinheiro Ramos manda os fregueses endireitar as campas do corpo da igreja e reformar o coro e respectiva escada. Em 1720, a 9 Dezembro, o visitador Dr. Manuel Ramos manda consertar o telhado do cabido e fazer de novo a porta travessa de madeira, com fechadura. Em 1724, a 16 Novembro, o visitador Dr. Francisco de Oliveira Rego, prior da colegiada da Matriz de Ponte de Lima, refere que os fregueses não retelharam o cabido ou alpendre da igreja, o que deviam fazer até à próxima visita, sob pena de 2$000. Em 1735, a 20 Julho, o visitador Dr. Gonçalo Pinto de Carvalho Medeiros, abade de Santa Marinha de Soutinhães manda os fregueses, no prazo de 6 meses, consertar o forro da igreja e telhados, por estarem arruinados e saber que chovia na igreja como na rua, sob pena de 2$000. Em 1736, manda-se aplainar o corpo da igreja, no prazo de 6 meses. Em 1737, manda-se fazer a mesma obra. Por ter falta de luz, o visitador mandou abrir uma fresta no meio da parede da nave com a altura e largura necessária para dar luz aos altares colaterais. O cabido da igreja ameaçava ruir por se lhe ter tirado muita telha para reformar o corpo da igreja, mandando assim retelhá-lo, tudo sob pena de 6$000. Em 1754, a 2 Setembro, o visitador Dr. Marcelino Pereira Cleto, abade de São Miguel de Entre os Rios, informa que, devido à grande despesa que seria necessário, não se reconstruiu a igreja, conforme fora ordenado, porém a igreja achava-se bem reformada, só lhe faltando reformar em correspondência a capela-mor, onde existia um retábulo mais antigo e que não podia servir, mandando fazer-lhe uma tribuna, como desejavam os oficiais da Confraria do Santíssimo. Assim, manda reformar a capela-mor do que fosse necessário e fazer um novo retábulo-mor, concorrendo os oficiais da dita confraria para a despesa da tribuna. Em 1755, a 1 Novembro, refere-se nos registos que não sofreu ruína no terramoto. Em 1758, a 8 Maio, segundo o abade Domingos Gomes nas Memórias Paroquiais, a freguesia pertencia à comarca de Valença, arcebispado de Braga e termo de Melgaço. A freguesia tinha 249 vizinhos e 713 pessoas. A igreja, com orago de São Paio, tinha naves, uma com três arcos, e cinco altares, o do orago, onde estava o Santíssimo Sacramento, o da Senhora do Rosário, o da Senhora do Carmo, o do Santo Cristo e o das Almas. Tinha a irmandade do Santíssimo Sacramento, a da Senhora do Rosário e a das Almas. Era abadia com apresentação da câmara eclesiástica de Braga, que na época era o abade Domingos Gomes, que tinha de renda 200$000, excepto os incertos, por não receber mais que a quarta parte dos frutos, pois a metade dos frutos da freguesia eram da Mitra Primaz e a outra quarta parte eram da Casa de Bragança. Em 1760, a 9 Março, segundo o visitador, o retábulo-mor estava muito velho e em parte comido pelo caruncho, não podendo expor o Senhor nas festividades da semana Santa devido à pequenez do retábulo. Em 1782, a 16 Novembro, o visitador, reverendo António Manuel da Costa e Melo, cónego da colegiada de Viana e prior de Nossa Senhora de Monserrate, refere que o retábulo-mor estava caindo aos pedaços, necessitando-se de um novo e, para melhor o acolher, manda acrescentar a capela-mor 4 ou 5 palmos de comprido, pedindo primeiro licença ao Arcebispo de Braga. Refere que se devia rebaixar o altar, tirando um degrau, e levantar-se o arco triunfal. Já que na fábrica havia dinheiro para as obras de São João Baptista, que estava em estado miserável, e as da igreja, manda o fabriqueiro dar cumprimento à obra no prazo de um ano. O retábulo devia ser feito à moderna, com pouca talha. Em 1784, a 15 Julho, o visitador, Dr. José de Barros Almeida, abade do Salvador Real, reafirma a necessidade de reformar a capela-mor e de se fazer um novo retábulo. Em 1795, a 14 Julho, pelo visitador Dr. Inácio José Caldas, abade de Cabanelas, sabe-se que tudo estava na mesma. Em 1797, o visitador considerou a capela-mor destituída de todo o zelo e cuidado religioso. Ela já não tinha decência para ter o sagrado viático, sendo necessário os fiéis aparelharam um altar decente ao lado da capela-mor. Em 1816, a 5 Agosto, o visitador António José dos Santos, abade de Santo André de Santa Cruz de Lima, refere que a igreja está em estado deplorável, com todas as paredes arruinadas, que ele mandou escorar. Menciona que os telhados e soalhos são indignos da casa do mais pobre cabaneiro, quanto mais da casa de Deus. A capela-mor devia-se chamar casa de guardar madeiras velhas para o fogo. Não tendo retábulo, nem altar decente, sem taburno nem frontal, tendo apenas uns pedaços de colunas velhas onde estava o padroeiro, ordena assim que fizessem uma igreja inteira e nova capaz de albergar todo o povo. Em 1824, a 11 Novembro, segundo o visitador Isaac Benevenuto da Silveira e Costa, professo na Ordem de Cristo e abade de Santiago de Sampris, a capela-mor e residência da igreja ameaçavam ruína total, recomendando ao pároco a sua reforma. Em 1900, dá-se a construção da torre de acordo com a data inscrita na fachada lateral da torre assinalando a sua construção. A data de 1930 aparece inscrita na empena da fachada principal, correspondendo às obras que o encomendado Padre Raimundo Prieto fez na igreja, nomeadamente alargando-a, por lhe retirar os arcos que possuía e quando tomou o aspeto arquitetónico que ainda hoje tem.





Hoje em dia, depois destas transformações, obervamos uma Igreja de construção medieval, conforme denotam os vestígios das frestas nas fachadas laterais e da porta em arco na lateral direita e o portal axial, ainda que este integre já elementos revivalistas, nomeadamente no tímpano. A igreja possui uma volumetria desproporcionada entre os vários volumes, situação que já era apontada pelos visitadores no séc. XVIII. Pelas visitações sabe-se que foi ampliada para três naves separadas por arcos e, já na primeira metade do séc. XX, para ampliar o espaço, esses mesmos arcos foram removidos. As diferentes modinaturas das janelas da nave e capela-mor apontam para a sua feitura em épocas distintas. O nicho com imagem do orago na fachada lateral direita é barroco.



Informações recolhidas em:
ESTEVES, Augusto César, Igreja Matriz de São Paio, in Obras Completas nas páginas do Notícias de Melgaço, vol. 1, tomo 2, Melgaço, 2003, pp. 409-424; CAPELA, José Viriato, As freguesias do distrito de Viana do Castelo nas Memórias Paroquiais de 1758, Braga, Casa Museu de Monção / Universidade do Minho, 2005.

segunda-feira, 9 de julho de 2012

O Cruzeiro Paroquial de S. Paio (Melgaço)


Cruzeiro quinhentista, localizado no lugar do Cruzeiro, freguesia de S. Paio, concelho de Melgaço. Construído em granito, é composto por base de três degraus rectangulares sobre a qual assenta plinto superiormente facetado apresentando-se com a data de MDLVII (1557) numa das faces. O fuste, inicialmente de secção quadrada, passa depois a ser hexagonal até ao capitel decorado com ornatos vegetalistas. Cruz com braços em toros e ostentando a imagem de Cristo.



sexta-feira, 6 de julho de 2012

Tomás das Quingostas: herói do povo ou salteador? (história completa)

Uma das figuras históricas mais conhecidas da freguesia de S. Paio é o chamado Tomás das Quingostas. Admirado no Alto Minho mas também na Galiza. Idolatrado por uns e odiado por outros, a verdade é que cresci a ouvir histórias da minha avó materna (nascida na primeira década do século XX) que ela própria tinha ouvido de familiares mais idosos ainda em criança.

Ainda há poucas décadas, não havia certezas da sua existência. Era uma personagem lendária. Na verdade havia uma notável falta de estudos que comprovassem a sua existência. Nas últimas décadas, há uma série de estudos que comprovam claramente a sua existência e a sua importância durante a guerra civil entre absolutistas e liberais na primeira metade do século XIX.

Alexandra Patricia Lopes Esteves, professora da Universidade do Minho, dedica-lhe especial atenção na sua tese de doutoramento "Entre o crime e a cadeia: violência e marginalidade no Alto Minho (1732 - 1870)" onde reconstitui o principal da sua bibliografia da qual deixarei aqui o essencial...
Tomás das Quingostas, vulgo de Tomás Joaquim Codeço, nasceu na aldeia de S. Paio, concelho de Melgaço, tendo sido baptizado, em 15 de Agosto de 1808, com nome de Tomás de Aquina. Nasceu no seio de uma família relativamente abastada de agricultores, tendo frequentado a escola.
Esteve detido na cadeia da Relação do Porto até à entrada das tropas comandadas por D. Pedro naquela cidade, sendo conhecido já na década de vinte do século XIX como bandido e membro de um bando que atacava na região de Melgaço. Posteriormente, regressou à sua aldeia natal onde se dedicou ao crime. Em 1834, evadiu-se das cadeias de Lamego, instalando-se novamente no concelho de Melgaço, circulando entre este e o de Valadares, no qual permanecia a maior parte do tempo, alternando com temporadas na Galiza, onde se dedicava ao bandoleirismo, cometendo roubos, agressões e assassinatos.
As primeiras alusões a Tomás das Quingostas, que encontrámos na documentação produzida pelas autoridades administrativas, datam de Novembro de 1834. Embora se trate de uma referência indirecta, o seu nome surgia associado ao de Luís José Caldas, de quem se dizia ser parceiro.

Luís José Caldas, conhecido guerrilheiro, estava na altura preso na cadeia de Valadares. Considerando-se que aquele estabelecimento prisional não reunia condições para albergar um preso de tão elevada perigosidade, determinou-se a sua transferência para Valença.

Todavia, o detido foi fuzilado pela escolta militar que o acompanhava. A morte de Luís Castro Caldas não foi bem recebida pelas instâncias superiores, que tentaram atribuir ao provedor de Melgaço, responsável pela sua captura, a culpa pelo sucedido.

De facto, os constantes fuzilamentos praticados pelas escoltas militares estavam a contribuir para a descredibilização do regime recém-implantado, numa região que revelava fortes resistências ao liberalismo, parecendo haver uma intenção mais teórica do que prática de demarcação “entre o governo legítimo e o da usurpação”.

Por isso, era necessário acabar com as execuções sumárias de presos e com as represálias que os vencedores da guerra civil estavam a praticar sobre os vencidos.

Maria de Fátima de Sá e Melo Ferreira inclui Luís Castro Caldas entre os perseguidos, no concelho de Melgaço, no período compreendido entre Abril e Maio de 1834, por guerrearem contra a causa liberal. Outros dos procurados como chefes de guerrilhas eram Caetano da Ponte, o chamado “Vasconcelos”, Pitta Bezerra e, finalmente, Tomás das Quingostas.




O ano de 1834 foi marcado pela detenção de salteadores e guerrilheiros, sobretudo no concelho de Melgaço, devido à acção enérgica encetada pelo provedor daquele concelho contra o banditismo. Assim, em Dezembro de 1834, foram presos mais dois salteadores de renome: Manuel José Rodrigues, alcunhado “o Forno”, e Manuel António Gonçalves, conhecido como sócio número um da extinta quadrilha liderada por Manuel Veloso e sócio número dois de Tomás das Quingostas.

Por esta altura, Quingostas vagueava com os seus seguidores pela Galiza, onde praticavam todo o tipo de depredações. Quando passava a Portugal, reunia-se com os seus apaniguados no lugar de São Gregório, em Melgaço, e em diversos locais do concelho de Valadares, nomeadamente nas freguesias de Penso, São Martinho e Paderne.


Em 1834, ainda não estava claramente definida a veia política desta organização criminosa, sendo encarada como mais uma quadrilha de ladrões, na linha das que já existiam no sistema político anterior. Este raciocínio pode depreender-se das palavras do sub-prefeito de Monção ao tentar caracterizar a sua actividade na Galiza, afirmando que




“[…] Não he de estranhar que aquella quadrilha pratique semelhantes attentados na Galiza quando muitos dos seus capatazes estão no costume de hirem as villas ameaçar as uthoridades, quando sabem que elas querem proceder contra elles, o que acontecia frequentemente nesta comarca no tempo do Usurpador, e que já mesmo que depois de Aclamado o Legitimo Governo teve lugar.”




Estas palavras são reveladoras de um equilíbrio político muito frágil nos concelhos raianos do distrito de Viana do Castelo, submetidos à pressão de criminosos, mas para o qual também contribuía uma conjuntura que permitia a sua insubmissão."

Em Janeiro de 1835, Quingostas regressou ao concelho de Melgaço e, em finais desse mês, levou a cabo um assalto con tra comerciantes galegos.


Na mesma altura, surgiu nova polémica envolvendo, mais uma vez, o provedor de Melgaço, responsabilizado pelo fuzilamento de um preso durante a sua transferência para a cadeia de Valença. As acusações foram lançadas pelo corregedor de Barcelos, com base nas informações transmitidas pelo juiz de fora daquela localidade, que não mantinha boa relação com o provedor. Contudo, a sub-prefeitura de Monção saiu em defesa do provedor e da escolta que acompanhava o preso, considerando que este foi vítima da troca de tiros durante uma emboscada maquinada por Tomás das Quingostas.


Desde cedo, o juiz de fora de Melgaço tinha procurado alertar outros poderes para a perigosidade da quadrilha de Quingostas, aludindo, em Maio de 1835, a “quatro mortes e que nos três dias tem ferido com tiro três pessoas, dous dos quais em perigo de vida, e hum gravemente ferido.”


Para esta autoridade, a força que a quadrilha vinha adquirindo não se devia à inércia das autoridades militares, mas antes ao auxílio prestado pelas populações, o qual, no seu entender, era explicado pelo medo e pelo “espírito revoltoso”.


As actividades criminosas do bando de Quingostas, que estava sedeado na freguesia de S. Paio, concelho de Melgaço, prosseguiam com grande violência. Entretanto, as autoridades tomaram conhecimento de que esta quadrilha estava a aliciar as populações para a realização de ataques contra o governo e a organizar uma guerrilha, seguindo orientações provindas de Espanha, o que significava a união com os guerrilheiros carlistas.


Tinham, igualmente, a noção de que o número de seguidores de Quingostas tinha aumentado através da inclusão de elementos espanhóis.


Em Julho de 1835, um soldado do destacamento militar foi esfaqueado por Tomás das Quingostas.





Nessa data, a sua quadrilha era constituída por mais de 12 homens e movimentava-se entre os concelhos de Melgaço e Valadares, contando com a conivência das populações locais, às quais os bandidos solicitavam, através de carta, dinheiro e comida.


Entretanto, avolumavam-se os argumentos que procuravam alicerçar a força da “gavilha” na “frouxidão das autoridades locais, de Melgaço e Valadares e dos seus empregados.”
Comentava-se que a circulação de Quingostas e dos seus seguidores era facilitada pela protecção de que usufruíam por parte de algumas autoridades, nomeadamente do administrador do concelho de Valadares, tido como afecto ao miguelismo. Em Janeiro de 1836, o provedor do concelho de Melgaço recorreu à expressão “um Boi só não leva o carro” para reforçar a ideia de que, na região, era a única autoridade que se empenhava no combate às acções terroristas de Quingostas.
Aliás, o presidente da câmara municipal desta localidade era João de Sousa Azevedo Sotomaior, miguelista convicto, conhecido por dar asilo a salteadores, em particular ao “guerrilheiro Coutinho”, que residia habitualmente na sua casa, e João de Araújo, vereador daquela municipalidade, que fora capitão-mor, nomeado por D. Miguel. Aires da Rocha e Manuel José Barbeitas, que também faziam parte da referida câmara, tinham sido capitães das ordenanças, responsáveis pela perseguição aos liberais da região.
No Verão de 1835, multiplicaram-se as investidas de Quingostas e da sua quadrilha e as várias tentativas para conseguir o seu desmantelamento revelavam-se infrutíferas, o que ditará uma mudança de estratégia. Em Outubro desse ano, lançou-se um novo plano, que previa a atribuição de um prémio pecuniário a quem o denunciasse e entregasse às autoridades.

No mês seguinte, face ao pendor cada vez mais político assumido por esta organização,foi planeado um ataque, que envolveu alguns batalhões de guardas nacionais, do qual resultou a prisão de vários dos parceiros do guerrilheiro. Aliás, os poderes nacionais tomaram consciência da verdadeira importância desta guerrilha, quando, nesse mesmo mês, Quingostas sitiou a vila de Valadares, arrombou a cadeia e dela retirou José Luís Alves Azevedo, um preso político que tinha sido oficial do exército realista, mais propriamente ex-capitão das ordenanças da freguesia de São Miguel de Valadares.

Segundo testemunhas, praticou este acto “dando vivas ao usurpador e cantando o Hynno Absolutista”. Neste ataque, Quingostas comandava cerca de 40 homens bem armados. As autoridades, nomeadamente as judiciais, mostravam-se atemorizadas com o aumento do número de rebeldes e com a aceitação que estes gozavam em algumas povoações.





Apesar da realização de uma batida e da captura de alguns dos seus sequazes, nomeadamente do famigerado “Branco”, o certo é que Quingostas continuava a monte. O apoio de que desfrutava, optou, mais uma vez, por uma nova estratégia, que assentava na responsabilização das populações. Assim, em Dezembro do mesmo ano, foram afixados editais em todos os concelhos da raia, ordenando que “logo que conste que o chefe dos salteadores, ou alguns de seus sócios he acoutado em qualquer casa, o chefe de família ficará desde logo responsável pelo individuo que agasalhou, e será entregue à authoridade judiciária para o julgar conforme a lei.”

Havia agora a tentativa de responsabilizar como cúmplice quem contactasse com o grupo. No dealbar de 1835, José Manuel Gonçalves, professor, que tinha sido encarregado pelo administrador do concelho de Melgaço de vigiar Quingostas, foi ferido por este em plena feira, na freguesia de Paderne, concelho de Valadares, numa clara demonstração de poder, sob o olhar de várias testemunhas, que nada fizeram para impedir tal atentado nem para socorrer o ferido. Se o carácter político do bando era já uma certeza, também o apoio dos povos das freguesias de Valadares e Melgaço se tinha tornado uma realidade.
Por medo ou concordância, as populações mantinham-se silenciosas e apoiavam o grupo de rebeldes e saqueadores. Na freguesia de S. Paio, à chegada de militares e de representantes do poder administrativo e judicial, os populares afastavam-se, usando sinais para avisar o bando, quando este ali se encontrava, da presença das autoridades.



Em inícios de 1836, Quingostas foi visto a disparar contra soldados espanhóis que o impediram de utilizar um barco furtado no rio Minho. Alguns dias depois, realizava novo atentado, tendo mais uma vez a freguesia de Paderne como palco. Desta vez, o alvo foi uma pequena escolta militar, destacada para manter a ordem numa festividade daquela localidade:


“[…] Tendo os officiais ido a uma romage que se fez no dia 16 do corrente na freguesia de Paderne do concelho de Valladares, devertirem-se, levarão consigo huma escolta do mesmo destacamento, e na occasião de sahir a porcição, em alguma distancia de onde estava a dita escolta, apareceo-lhe o Monstro Thomas com dous companheiros e atirando-lhe três tiros, começou a insultallos chamando-lhe negros e outros vários nomes.”
Deste modo, Quingostas e os seus companheiros alardeavam um atrevimento cada vez maior, não se coibindo de provocar as autoridades judiciais, militares e administrativas, nem de se exibirem em reuniões das populações, como eram as festas. Circulava com total liberdade pelas estradas que uniam o concelho de Melgaço ao de Valadares, sendo frequentador assíduo de uma venda, na freguesia de Penso, pertencente àquele concelho. Contudo, sofreu um revés, quando foi capturado João Pinheiro Albardeiro, seu amigo pessoal e membro da quadrilha que liderava. Meses mais tarde, será a vez de Joaquim José de Sá, um desertor, natural do concelho de Paredes de Coura, também ser preso. Apesar destas contrariedades, Quingostas continuava a movimentar-se impunemente por algumas freguesias dos concelhos de Melgaço e Valadares, dando-se ao luxo de arrancar os editais com mensagens contra si, substituindo-os por outros, da sua lavra, nos quais apregoava não só a sua invencibilidade, como a sua luta contra as autoridades locais. Um deles apresentava o seguinte conteúdo
“[…] Como as reais ordens são dadas por desavergonhados hé o motivo porque se rasgão e se fossem dadas pelo governo se aceitarião benignamente e portanto o que foi causa deste edital foi a de me roubar o quanto eu tinha em minha casa porque só em comedeiras se podem sustentar cai nas mesmas penas que me recolher também cai no mesmo tempo que este tirar, eu se bem o digo melhor o faço as minhas casas são debaixo das estrelas sou firme contra os meus inimigos.”
Em Março de 1836, as autoridades espanholas davam conta da presença de Quingostas na Galiza.
“[…] Por la Peroja y Caldela estan invadiendo esta Província los facciosos segun las partes que acabo de recibir; es pues preciso que V. immediatamente tome todas las medias convenientes para faborecer los pueblos atacados sem perder de vista esos puntos, y avisando a lo momento a las Authoridades Portuguesas para que se sirban tener pronta su tropa para ausiliarmos en caso necessário.”
Era evidente a união de esforços da quadrilha miguelista e da guerrilha carlista, comandada por Lopez. Quingostas e os seus companheiros eram os responsáveis por um sistema de angariação de desertores portugueses para as fileiras daquela guerrilha. O apoio logístico prestado à guerrilha carlista por parte do bando de Quingostas era evidente para as autoridades espanholas.
Em Junho de 1836, quando a quadrilha de Tomás Quingostas era já rotulada de miguelista, foi preso José Joaquim Codeceira “saltiador de reinos, ladrão de estrada, assacino, e sócio de Quadrilha e Miguelista”, um dos responsáveis pelo aliciamento de desertores portugueses para integrarem as forças inimigas de Isabel II, tendo ele próprio combatido ao lado dos guerrilheiros. Esta ligação entre apaniguados das causas miguelista e carlista tornava imperiosa a destruição da quadrilha portuguesa e elevava a fasquia do seu grau de perigosidade. A captura de elementos ligados ao bando de Quingostas resultava, em muitos casos, de acções de espionagem, executadas por homens a soldo das autoridades. Todavia, a prisão desses criminosos não implicava, necessariamente a sua punição. Muitos acabavam inocentados e postos em liberdade, ou conseguiam evadir-se dos estabelecimentos prisionais e vingar-se dos responsáveis pela sua detenção. O administrador do concelho de Melgaço não se inibia de lançar suspeitas sobre a existência de protecção aos salteadores e aos miguelistas, por parte do poder judicial, e de apoio exterior nas evasões de criminosos. Em 11 de Junho de 1836, depois de ter sofrido várias ameaças e farto da chacota de que era alvo, vendo a sua autoridade ser desacreditada por indivíduos que viviam à margem da lei, apresentou o seu pedido de demissão ao governador civil, pois, segundo as suas palavras, “bibo bexado de ver a protecção que tem tais corifeus, e descaramento e ouzadia com eu elles se portão.”
Quingostas escapou por pouco à prisão, num ataque de surpresa lançado pelas autoridades, após terem sido informadas da intenção do salteador se deslocar a uma romaria, tendo que passar pela freguesia de Gave, situada no concelho de Valadares. A quadrilha foi realmente surpreendida, mas o seu líder não foi apanhado.
Em finais de 1836, eram conhecidos os encontros, que tinham lugar no concelho no Melgaço, entre salteadores e miguelistas, sob o comando de Quingostas, que se presumia terem como objectivo desenvolver acções de desacreditação do governo liberal, a nível local, através de investidas contra as autoridades e contra a propriedade. Durante esse ano, tinham circulado pelos diferentes concelhos do distrito boatos sobre a realização de reuniões miguelistas e a existência de depósitos de armas.
Em Outubro de 1836, realizou-se, naquele concelho, uma reunião que juntou 18 miguelistas, na sua maior parte oficias amnistiados, oriundos da cidade de Braga, aos quais se juntaram, dias depois, mais 13 da mesma cidade. Segundo as guardas nacionais de Arcos de Valdevez e Ponte da Barca, estes indivíduos incorporados na “gavilha” de Tomás Quingostas formaram um grupo de 45 homens, que, na noite de 21 para 22 de Outubro daquele ano, passou para a Galiza. O objectivo final seria a realização de um levantamento pró-miguelista a partir de Melgaço, contando com a participação dos vários adeptos do miguelismo nesta região.
Logo nos primórdios de 1837, Quingostas atacou a casa de uma viúva rica da freguesia de Merufe, concelho de Valadares. Seguido por mais de 20 homens, feriu com uma facada a dona da casa e, além de dinheiro e roupa, roubou-lhe papéis importantes com a intenção de a chantagear e, desse modo, obter mais dinheiro. Aliás, o guerrilheiro recorria frequentemente a este estratagema para extorquir dinheiro.
Em inícios de 1836, Quingostas foi visto a disparar contra soldados espanhóis que o impediram de utilizar um barco furtado no rio Minho.809 Alguns dias depois, realizava novo atentado, tendo mais uma vez a freguesia de Paderne como palco. Desta vez, o alvo foi uma pequena escolta militar, destacada para manter a ordem numa festividade daquela localidade:
“[…] Tendo os officiais ido a uma romage que se fez no dia 16 do corrente na freguesia de Paderne do concelho de Valladares, devertirem-se, levarão consigo huma escolta do mesmo destacamento, e na occasião de sahir a porcição, em alguma distancia de onde estava a dita escolta, apareceo-lhe o Monstro Thomas com dous companheiros e atirando-lhe três tiros, começou a insultallos chamando-lhe negros e outros vários nomes.”
Deste modo, Quingostas e os seus companheiros alardeavam um atrevimento cada vez maior, não se coibindo de provocar as autoridades judiciais, militares e administrativas, nem de se exibirem em reuniões das populações, como eram as festas. Circulava com total liberdade pelas estradas que uniam o concelho de Melgaço ao de Valadares, sendo frequentador assíduo de uma venda, na freguesia de Penso, pertencente àquele concelho. Contudo, sofreu um revés, quando foi capturado João Pinheiro Albardeiro, seu amigo pessoal e membro da quadrilha que liderava. Meses mais tarde, será a vez de Joaquim José de Sá, um desertor, natural do concelho de Paredes de Coura, também ser preso. Apesar destas contrariedades, Quingostas continuava a movimentar-se impunemente por algumas freguesias dos concelhos de Melgaço e Valadares, dando-se ao luxo de arrancar os editais com mensagens contra si, substituindo-os por outros, da sua lavra, nos quais apregoava não só a sua invencibilidade, como a sua luta contra as autoridades locais. Um deles apresentava o seguinte conteúdo
“[…] Como as reais ordens são dadas por desavergonhados hé o motivo porque se rasgão e se fossem dadas pelo governo se aceitarião benignamente e portanto o que foi causa deste edital foi a de me roubar o quanto eu tinha em minha casa porque só em comedeiras se podem sustentar cai nas mesmas penas que me recolher também cai no mesmo tempo que este tirar, eu se bem o digo melhor o faço as minhas casas são debaixo das estrelas sou firme contra os meus inimigos.”
Em Março de 1836, as autoridades espanholas davam conta da presença de Quingostas na Galiza.
“[…] Por la Peroja y Caldela estan invadiendo esta Província los facciosos segun las partes que acabo de recibir; es pues preciso que V. immediatamente tome todas las medias convenientes para faborecer los pueblos atacados sem perder de vista esos puntos, y avisando a lo momento a las Authoridades Portuguesas para que se sirban tener pronta su tropa para ausiliarmos en caso necessário.”
Era evidente a união de esforços da quadrilha miguelista e da guerrilha carlista,comandada por Lopez. Quingostas e os seus companheiros eram os responsáveis por um sistema de angariação de desertores portugueses para as fileiras daquela guerrilha. O apoio logístico prestado à guerrilha carlista por parte do bando de Quingostas era evidente para as autoridades espanholas.
Em Junho de 1836, quando a quadrilha de Tomás Quingostas era já rotulada de miguelista, foi preso José Joaquim Codeceira “saltiador de reinos, ladrão de estrada, assacino, e sócio de Quadrilha e Miguelista”, um dos responsáveis pelo aliciamento de desertores portugueses para integrarem as forças inimigas de Isabel II, tendo ele próprio combatido ao lado dos guerrilheiros. Esta ligação entre apaniguados das causas miguelista e carlista tornava imperiosa a destruição da quadrilha portuguesa e elevava a fasquia do seu grau de perigosidade. A captura de elementos ligados ao bando de Quingostas resultava, em muitos casos, de acções de espionagem, executadas por homens a soldo das autoridades. Todavia, a prisão desses criminosos não implicava, necessariamente a sua punição. Muitos acabavam inocentados e postos em liberdade, ou conseguiam evadir-se dos estabelecimentos prisionais e vingar-se dos responsáveis pela sua detenção. O administrador do concelho de Melgaço não se inibia de lançar suspeitas sobre a existência de protecção aos salteadores e aos miguelistas, por parte do poder judicial, e de apoio exterior nas evasões de criminosos. Em 11 de Junho de 1836, depois de ter sofrido várias ameaças e farto da chacota de que era alvo, vendo a sua autoridade ser desacreditada por indivíduos que viviam à margem da lei, apresentou o seu pedido de demissão ao governador civil, pois, segundo as suas palavras, “bibo bexado de ver a protecção que tem tais corifeus, e descaramento e ouzadia com eu elles se portão.
Tomás das Quingostas escapou por pouco à prisão, num ataque de surpresa lançado pelas autoridades, após terem sido informadas da intenção do salteador se deslocar a uma romaria, tendo que passar pela freguesia de Gave, situada no concelho de Valadares. A quadrilha foi realmente surpreendida, mas o seu líder não foi apanhado.
Em finais de 1836, eram conhecidos os encontros, que tinham lugar no concelho no Melgaço, entre salteadores e miguelistas, sob o comando de Quingostas, que se presumia terem como objectivo desenvolver acções de desacreditação do governo liberal, a nível local, através de investidas contra as autoridades e contra a propriedade. Durante esse ano, tinham circulado pelos diferentes concelhos do distrito boatos sobre a realização de reuniões miguelistas e a existência de depósitos de armas.
Em Outubro de 1836, realizou-se, naquele concelho, uma reunião que juntou 18 miguelistas, na sua maior parte oficias amnistiados, oriundos da cidade de Braga, aos quais se juntaram, dias depois, mais 13 da mesma cidade. Segundo as guardas nacionais de Arcos de Valdevez e Ponte da Barca, estes indivíduos incorporados na “gavilha” de Tomás Quingostas formaram um grupo de 45 homens, que, na noite de 21 para 22 de Outubro daquele ano, passou para a Galiza. O objectivo final seria a realização de um levantamento pró-miguelista a partir de Melgaço, contando com a participação dos vários adeptos do miguelismo nesta região.
Logo nos primórdios de 1837, Quingostas atacou a casa de uma viúva rica da freguesia de Merufe, concelho de Valadares. Seguido por mais de 20 homens, feriu com uma facada a dona da casa e, além de dinheiro e roupa, roubou-lhe papéis importantes com a intenção de a chantagear e, desse modo, obter mais dinheiro. Aliás, o guerrilheiro recorria frequentemente a este estratagema para extorquir dinheiro.
Em Março de 1837, uma força militar marchou em direcção aos concelhos de Monção, Melgaço e Valadares, com a missão não só de pôr termo aos roubos, mas também de perseguir e destruir a quadrilha de Quingostas. Mas este conseguiu escapulir-se para Espanha com cinco dos seus companheiros. O objectivo das autoridades passou então a ser impedir o seu regresso a Portugal. No entanto, esta empresa não era fácil de executar, dada a extensão da raia, a facilidade em transpor o rio Minho e a falta de zelo e de empenho das autoridades administrativas. O major José Figueiredo Frazão, comandante das forças destacadas para o Alto Minho para darem caça à quadrilha do Quingostas, denunciava precisamente esse desinteresse e as implicações daí advenientes. Estas acusações surgiram na sequência das picardias, que, desde 1834, impediam uma colaboração mais estreita entre o poder militar, judicial e administrativo, e davam azo ao aparecimento de suspeitas, intrigas e à troca de acusações entre os seus responsáveis.
A quadrilha de Tomás Quingostas acabou por entrar numa fase de franco declínio, o cerco apertou-se cada vez mais e vários dos seus companheiros foram presos ou fuzilados por militares ávidos de vingança. Em Maio de 1837, foi detido mais um dos seus parceiros, Francisco Xavier Sisneiros, natural da cidade de Lisboa. Conhecido como o “Lisbonense”, era considerado um agente do miguelismo no Alto Minho, tendo sido detido em Riba de Mouro, concelho de Valadares. Pouco depois, António Joaquim Rodrigues, conhecido como “Lourenço Correio”, foi capturado pelas forças do Major José de Figueiredo Frazão. Na mesma altura, foi detectada a presença de Quingostas no concelho de Melgaço, acompanhado apenas por um desertor e três camponeses. As autoridades planeavam a deportação da sua família, que residia no concelho de Melgaço, como forma de o punir. Pelo menos era essa a vontade do major Frazão, que considerava serem os membros da família os responsáveis pelo aviso da presença das tropas.

No entanto, o governador civil não anuiu a tal pretensão, por considerar que extravasava as suas competências.

Apesar de a quadrilha ser, essencialmente, uma organização masculina, o certo é em algumas ocasiões foram feitas referências à presença de elementos femininos, nomeadamente às duas irmãs que o acompanhavam e a duas mulheres, designadas pelas autoridades de “amigas” de Quingostas.
A tarefa do Major Frazão estava a ser dificultada pela escassa cooperação das autoridades administrativas locais, particularmente dos regedores. Várias explicações podem ser avançadas no sentido de explicar esta atitude, nomeadamente a sua baixa instrução, o desconhecimento das suas obrigações e o receio de represálias por parte dos salteadores ou dos seus companheiros e familiares.
O certo é que esta sua postura tinha permitido que deambulassem livremente pelas feiras e festividades, cometessem delitos à luz do dia e circulassem pelas localidades, sem que fossem importunados.
A complacência das autoridades e das populações levou à presença de forças militares, desde Fevereiro de 1837, nos concelhos de Monção, Melgaço e Valadares, instaladas em casas de particulares, cujos proprietários não só os abrigavam, mas também os sustentavam. A situação arrastou-se pelo menos até Julho do mesmo ano. Após a saída das tropas, Quingostas reapareceu em Melgaço.
Entretanto, Quingostas tinha conseguido um indulto junto das autoridades espanholas, com a condição de não sair da província de Ourense. Mas acabou por desrespeitar o compromisso assumido e entrou em Portugal, onde os seus crimes não tinham sido perdoados.
Em Agosto de 1837, ficou sob custódia, à ordem do chefe político da província de Ourense, cabendo a Portugal reclamar a sua extradição, tendo sido solicitada, para esse efeito, a intervenção do Ministério dos Negócios Estrangeiros.
Contudo, os ventos pareciam soprar a favor de Tomás das Quingostas. Em 14 de Julho de 1837, iniciou-se a “revolta dos Marechais”, um pronunciamento militar anti-setembrista, de inspiração cartista, encabeçada pelos duques da Terceira e da Saldanha. Esta revolta iniciou-se em Ponte da Barca, com a sublevação dos militares que estavam envolvidos na caça a Quingostas e seus companheiros, tendo terminado oficialmente em Setembro de 1837, com a vitória das forças governamentais.
Durante o período do pronunciamento militar, as atenções deixaram de estar centradas em Quingostas, e este, tirando partido da situação, conseguiu estabelecer contactos com o Visconde das Antas, que lhe atribuiu um salvo-conduto, em Dezembro do mesmo ano.
Abandonada a clandestinidade, alguns dos seus sequazes saíram da clandestinidade, regressando às respectivas aldeias sem serem incomodados. Tomás Quingostas tornou-se comandante da guarda volante do Alto Minho, tendo como missão capturar soldados desertores que fugiam para a Galiza, bem como guerrilheiros galegos, adeptos do carlismo, e evitar roubos e furtos, cooperando na manutenção da ordem e da tranquilidade no Alto Minho. No seu novo cargo, ia cumprindo, a preceito, as funções de que estava incumbido. Porém, em Agosto de 1838, assassinou o presidente da câmara do Soajo, João Manuel Domingues, e em Novembro do mesmo ano prendeu João Pires e o padre António José Alves, com a justificação de que davam guarida a guerrilheiros espanhóis. Apesar de não se terem confirmado essas suspeitas, a detenção foi efectuada com o pretexto de terem na sua posse pólvora e sabão contrabandeados. Algumas das acções levadas pelo seu “exército”, bem como a sua ligação a guerrilhas espanholas ditaram o seu fim. Acusado de assassinato, Tomás das Quingostas foi morto em Janeiro de 1839 junto à ponte da Alote (S. Paio) pela escolta que o transportava para a prisão, que alegou tentativa de fuga. Caía assim aquele que chegou a ser apelidado de “pequeno general do Alto Minho”, que foi assassino, salteador, guerrilheiro, comandante de tropas e herói popular.
As reacções à sua morte não se fizeram esperar. Além do já referido rapto do proprietário João Bento Pereira Dantas, uma quadrilha comandada pelo “Beira-Alta”, primo de Quingostas, miguelista, guerrilheiro e salteador, invadiu, em 1839, a casa de António José Afonso da Costa, na freguesia de Merufe, concelho de Monção, arrastou-o para fora da sua habitação e assassinou-o.
Nenhum dos salteadores que sucederam a Quingostas conseguiu granjear a sua popularidade e o reconhecimento junto das populações, talvez porque se tratava de homens considerados autenticamente marginais, que recorriam à violência, ao assalto e ao furto apenas para satisfazerem os seus interesses pessoais, sem quaisquer motivações de natureza política."






Informações extraídas de:

in "ESTEVES, Alexandra Patrícia Lopes (2010) - Entre o crime e a cadeia: violência e marginalidade no Alto Minho (1732 - 1870). Tese de Doutoramento, Universidade do Minho, Instituto de Ciências Sociais.

sexta-feira, 29 de junho de 2012

Tomás das Quingostas: herói do povo ou salteador? VI

O declinio, captura e assassinato do Tomás das Quingostas em 1839

A quadrilha de Tomás Quingostas acabou por entrar numa fase de franco declínio, o cerco apertou-se cada vez mais e vários dos seus companheiros foram presos ou fuzilados por militares ávidos de vingança. Em Maio de 1837, foi detido mais um dos seus parceiros, Francisco Xavier Sisneiros, natural da cidade de Lisboa. Conhecido como o “Lisbonense”, era considerado um agente do miguelismo no Alto Minho, tendo sido detido em Riba de Mouro, concelho de Valadares. Pouco depois, António Joaquim Rodrigues, conhecido como “Lourenço Correio”, foi capturado pelas forças do Major José de Figueiredo Frazão. Na mesma altura, foi detectada a presença de Quingostas no concelho de Melgaço, acompanhado apenas por um desertor e três camponeses. As autoridades planeavam a deportação da sua família, que residia no concelho de Melgaço, como forma de o punir. Pelo menos era essa a vontade do major Frazão, que considerava serem os membros da família os responsáveis pelo aviso da presença das tropas.
No entanto, o governador civil não anuiu a tal pretensão, por considerar que extravasava as suas competências.
Apesar de a quadrilha ser, essencialmente, uma organização masculina, o certo é em algumas ocasiões foram feitas referências à presença de elementos femininos, nomeadamente às duas irmãs que o acompanhavam e a duas mulheres, designadas pelas autoridades de “amigas” de Quingostas.
A tarefa do Major Frazão estava a ser dificultada pela escassa cooperação das autoridades administrativas locais, particularmente dos regedores. Várias explicações podem ser avançadas no sentido de explicar esta atitude, nomeadamente a sua baixa instrução, o desconhecimento das suas obrigações e o receio de represálias por parte dos salteadores ou dos seus companheiros e familiares.  
O certo é que esta sua postura tinha permitido que deambulassem livremente pelas feiras e festividades, cometessem delitos à luz do dia e circulassem pelas localidades, sem que fossem importunados.
A complacência das autoridades e das populações levou à presença de forças militares, desde Fevereiro de 1837, nos concelhos de Monção, Melgaço e Valadares, instaladas em casas de particulares, cujos proprietários não só os abrigavam, mas também os sustentavam. A situação arrastou-se pelo menos até Julho do mesmo ano. Após a saída das tropas, Quingostas reapareceu em Melgaço.
Entretanto, Quingostas tinha conseguido um indulto junto das autoridades espanholas, com a condição de não sair da província de Ourense. Mas acabou por desrespeitar o compromisso assumido e entrou em Portugal, onde os seus crimes não tinham sido perdoados.
Em Agosto de 1837, ficou sob custódia, à ordem do chefe político da província de Ourense, cabendo a Portugal reclamar a sua extradição, tendo sido solicitada, para esse efeito, a intervenção do Ministério dos Negócios Estrangeiros.
Contudo, os ventos pareciam soprar a favor de Tomás das Quingostas. Em 14 de Julho de 1837, iniciou-se a “revolta dos Marechais”, um pronunciamento militar anti-setembrista, de inspiração cartista, encabeçada pelos duques da Terceira e da Saldanha. Esta revolta iniciou-se em Ponte da Barca, com a sublevação dos militares que estavam envolvidos na caça a Quingostas e seus companheiros, tendo terminado oficialmente em Setembro de 1837, com a vitória das forças governamentais.
Durante o período do pronunciamento militar, as atenções deixaram de estar centradas em Quingostas, e este, tirando partido da situação, conseguiu estabelecer contactos com o Visconde das Antas, que lhe atribuiu um salvo-conduto, em Dezembro do mesmo ano.
Abandonada a clandestinidade, alguns dos seus sequazes saíram da clandestinidade, regressando às respectivas aldeias sem serem incomodados. Tomás Quingostas tornou-se comandante da guarda volante do Alto Minho, tendo como missão capturar soldados desertores que fugiam para a Galiza, bem como guerrilheiros galegos, adeptos do carlismo, e evitar roubos e furtos, cooperando na manutenção da ordem e da tranquilidade no Alto Minho.  No seu novo cargo, ia cumprindo, a preceito, as funções de que estava incumbido. Porém, em Agosto de 1838, assassinou o presidente da câmara do Soajo, João Manuel Domingues, e em Novembro do mesmo ano prendeu João Pires e o padre António José Alves, com a justificação de que davam guarida a guerrilheiros espanhóis. Apesar de não se terem confirmado essas suspeitas, a detenção foi efectuada com o pretexto de terem na sua posse pólvora e sabão contrabandeados. Algumas das acções levadas pelo seu “exército”, bem como a sua ligação a guerrilhas espanholas ditaram o seu fim. Acusado de assassinato, Tomás das Quingostas foi morto em Janeiro de 1839 junto à ponte da Alote (S. Paio) pela escolta que o transportava para a prisão, que alegou tentativa de fuga. Caía assim aquele que chegou a ser apelidado de “pequeno general do Alto Minho”, que foi assassino, salteador, guerrilheiro, comandante de tropas e herói popular.
As reacções à sua morte não se fizeram esperar. Além do já referido rapto do proprietário João Bento Pereira Dantas, uma quadrilha comandada pelo “Beira-Alta”, primo de Quingostas, miguelista, guerrilheiro e salteador, invadiu, em 1839, a casa de António José Afonso da Costa, na freguesia de Merufe, concelho de Monção, arrastou-o para fora da sua habitação e assassinou-o.
Nenhum dos salteadores que sucederam a Quingostas conseguiu granjear a sua popularidade e o reconhecimento junto das populações, talvez porque se tratava de homens considerados autenticamente marginais, que recorriam à violência, ao assalto e ao furto apenas para satisfazerem os seus interesses pessoais, sem quaisquer motivações de natureza política.

Capela de Barata
Conta-se que foi o Tomás das Quingostas foi abatido junto à ponte da Alote e enterrado junto à capela de Barata - S. Paio (na imagem).


Informações extraídas de:
in "ESTEVES, Alexandra Patrícia Lopes (2010) - Entre o crime e a cadeia: violência e marginalidade no Alto Minho (1732 - 1870). Tese de Doutoramento, Universidade do Minho, Instituto de Ciências Sociais.