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domingo, 12 de maio de 2013

1948 - Um qualquer dia no Hotel Ranhada nos seus anos de ouro (parte II)


Fachada do Hotel Ranhado em 1914
A senhora condessa da Saborosa está a sair agora mesmo do hotel Ranhada. Sobressai pelo seu cabelo branco, com carrapito bem feito atrás e popa alta à frente, são arranjos que encaixam melhor ainda nas suas feições muito finas, diferenciando-se, à saída, das demais senhoras da sua condição, que lhe seguem o passo. Salta à vista que sabe zelar a linha. Apesar de sexagenária, irradia ainda beleza e faz adivinhar que, na mocidade, fora bem capaz de arrastar atrás de si muitos pretendentes. Cá fora, o arruado que conduz ao balneário termal ainda se resguarda do calor arrebentadiço neste começo de mais uma manhã estival. A fresca vem-lhe do manto sombrio destes plátanos e destas acácias, que correm o trajeto, embelezando-o como prelúdio de uma vida termal que se advinha intensa lá para o meio da manhã. À porta, está o calhambeque do hotel para que estas senhoras e outros hóspedes não façam a caminhada a pé, que é sempre coisa para um quilómetro (noutros tempos, ia-se de charrete, o cocheiro era o senhor Rocha, que acumulava estas funções com as de corretor do hotel, até ia à Estação de Monção esperar os hóspedes, depois deu-lhe para ser também dono de um hotel, o Hotel Rocha, hoje devoluto).
O senhor Mário Ranhada faz questão que embarquem todos no pequeno autocarro, mas não há nada a fazer: todos recusam. A pé é que se vai bem, as diabetes mandam andar. Partem assim cedo para guardar vez no balneário termal. A meio da manhã, já bebidas as águas e tomados os banhos, a senhora Condessa de Saborosa encontra-se no Parque das Termas com a senhora D. Amélia. Esta sua grande amiga é esposa do professor doutor Eduardo Costa, director do Instituto Pasteur em Lisboa, que acumula agora estas funções com as de director clínico da estância. Andam atarefadas com a quermesse, que organizam todos os anos a favor dos pobres das redondezas, enquanto estanciam no Peso de Melgaço. Passam estes dias a recolher donativos e compram roupas e outras coisas necessárias. Depois da cura do corpo, fazem a do espírito. A excelentíssima D. Amélia é uma senhora muito alta. Quando está ao lado do marido, que é assim sobre o baixinho, vê-se que a diferença entre ele e ela vai a modos de capela para catedral. O distinto médico anda sempre de lacinho clássico, mesmo de bata branca nunca o tira, fica a dar consultas até tarde, às vezes são nove da noite e ainda está a atender aquistas. La noblesse oblige.
Por esta manhã a meio, já outros aquistas percorrem, por mero passeio, as avantajadas alamedas do Parque das Termas, colmadas pela abundante ramaria. O seu traço urbanístico saiu do lápis do senhor José Ranhada, tio da Julinha, quando geriu as termas, faz já alguns anos. Por esse tempo, o senhor José Ranhada tinha o estranho hábito de se entrincheirar no escritório das termas, nas quentes tardes de Verão, e, de arma de pressão apontada, mirava, de olhinho caído, toda a truta que subisse, arteira, o regato cristalino que desce à ilharga daquele ponto. Qual águia-real, era certeiro de visão e muito mais de mira, não precisava de garras, nem de voos picados, a chumbada garantia-lhe boa pescaria para a janta.
A senhora Condessa de Saborosa será dessa época, pois há muito ano que vem aqui às termas. Escolhe sempre o Julho ou o Agosto. São os meses melhores para estar, em grupo, com a gente da sua posição. Nunca reserva hotel em Setembro. Este é o mês mais procurado pelos novos-ricos, e a senhora condessa e o seu grupo não querem misturas. Mas, se espreitarmos a bolsa duns e doutros, veremos que uma outra D. Amélia, a senhora D. Amélia de Ascensão Moutinho, burguesa típica do Porto, mete muita fidalguia no bolso. Ostenta joias até ao pescoço, põe-se toda ‘um luxo’, é podre de rica, não tem descendentes, vai deixar tudo a uma afilhada (“Boa senhora, esta D. Amélia Moutinho. Estava atenta às asneiras que eu e as minhas irmãs fazíamos em pequenas, metia-nos respeito, mas, apesar da sua aparência austera, repreendia-nos com um coração de mãe”, recorda, hoje, a D. Maria Júlia Ranhada, a Julinha).


(Continua)

Fonte: "Termas de Melgaço: os dias saborosos de uma glória submersa", texto de Pedro Leitão, in: SIM, Revista do Minho, editado em 6 de Maio de 2013.
Artigo gentilmente enviado por pela Sra. Teresa Lobato a quem agradeço a partilha!

sexta-feira, 10 de maio de 2013

1948 - Um qualquer dia no Hotel Ranhada nos seus anos de ouro (parte I)



Estamos em Agosto, o ano será 1948, pouco mais ou menos. São seis da manhã. A esta hora, a senhora Condessa de Saborosa já está levantada e vestida. Desde que enviuvou apronta-se sempre de preto carregado. Dá os últimos retoques ao cabelo no seu quarto, é dos melhores que se alugam aos hóspedes de mais posses. Tem mesmo quarto de banho privativo, é dos poucos que existem assim no hotel. Os outros são bons, estão bem mobilados e decorados, mas ficam-se pelo lavatório e pelo bidé de porcelana. A senhora condessa vai descer daqui a nada à sala de jantar para um pequeno-almoço sóbrio, para não desfalecer pelo resto da manhã. Anda a águas nas termas, e a dieta pede mais respeito pelas manteigas e pelos açúcares. Por todo o grande Hotel Ranhada, o dia desperta aos poucos com o tufa-tufa dos passos delicados de outras hóspedes madrugadoras. São senhoras distintas, do melhor que haverá na nossa aristocracia. Mas a mais exemplar no madrugar é, sem dúvida, a senhora Condessa de Saborosa. Há muitos anos que lhe conhecem este hábito aqui pelo hotel, onde é tratada como se fosse da família. Mesmo agora, que ultrapassa os sessenta anos, teima em se levantar cedinho, da mesma maneira que o fazia aos vinte. A menina Julinha, filha do senhor Mário Ranhada, o dono do hotel, ainda dorme a sono solto, indiferente a este suave bulício. Só o pai já está levantado para a azáfama matinal, orientando os criados, que a canseira da manhã ainda está para vir, pois haverá que cuidar do almoço para duzentos hóspedes (A pequerrucha haveria de chegar a avó sem nunca ter sabido o nome desta condessa. “Só a tratava por senhora condessa”, desculpa-se, hoje, a senhora D. Maria Júlia Ranhada).
(Continua)

Fonte: "Termas de Melgaço: os dias saborosos de uma glória submersa", texto de Pedro Leitão, in: SIM, Revista do Minho, editado em 6 de Maio de 2013.
Artigo gentilmente enviado por pela Sra. Teresa Lobato a quem agradeço a partilha!

segunda-feira, 15 de abril de 2013

Águas de Melgaço - A Salvação dos Diabéticos II

Desdobrável da Empresa Vidago, Melgaço & Pedras Salgadas da 1ª metade do sec. XX com publicidade às suas águas. A de Melgaço é descrita como a salvação dos diabéticos à semelhança do marcador de leitura que há uns dias partilhei com vocês.

quinta-feira, 11 de abril de 2013

ÁGUAS DE MELGAÇO... A Salvação dos Diabéticos

Marcador de leitura com publicidade às Águas de Melgaço designando-as como a salvação para todos os diabéticos. Não consigo precisar a data exata deste marcador de leitura mas pelo aspeto será com certeza da primeira metade do século XX. Para quem sofria desta maleita nesta época, nada melhor que beber esta água como se fosse uma cura quase milagrosa. Mais se refere que não encontra águas com caraterísticas similares em todo o Portugal. 
Observe com atenção.






domingo, 31 de março de 2013

Serão as imagens de Melgaço mais antigas em filme?



Talvez das imagens em filme mais antigas de Melgaço. Trata-se de um filme de pouco mais de 2 minutos de duração e onde boa parte das imagens estão em muito mau estado. Não se aproveita muito mas as partes do filme que estão em condições valem a pena o visionamento. Apesar disso, o filme tem muito valor pelo simples facto de, tanto quanto sei, não existir nenhum desta época ou anterior (caso esteja enganado, rectifiquem-me!).
No filme, vemos imagens da torre de menagem em primeiro plano e uma parte da panorâmica da vila. Na segunda parte do filme, vemos imagens do interior e do exterior do pavilhão principal das termas do Peso num dia muito movimentado nas ditas termas...
Ora dê uma espreitadela... apesar da má qualidade das imagens...
Filme da autoria de Raul de Caldevilla.




Fonte: Cinemateca Portuguesa

domingo, 3 de março de 2013

Bilhete de autocarro de 1912 da primeira empresa de camionagem de Melgaço



O bilhete de autocarro aqui representado pertencia à primeira empresa de camionagem de Melgaço criada em 1912, propriedade do Sr. Cícero Cândido Solheiro.
De facto, em Maio desse mesmo ano, Iniciou-se o transporte de passageiros entre Melgaço-Valença e vice-versa por ‘auto-ónibus’. Tal serviço era assegurado pela empresa de Cícero Cândido Solheiro, utilizando uma ‘Berliet’ de 22HP com lotação para 20 de passageiros e capacidade para 600 quilos de bagagens. Segundo o Sr. Óscar Marinho, de Melgaço, esta carreira de transporte de passageiros foi, mesmo, a primeira do País . Em 23 de Agosto de 1913, é inaugurado no Peso o animatógrafo «Salão de Melgaço» também explorado por Cícero Cândido Solheiro. Cada entrada custava 50 centavos e dava direito ao transporte de ida e volta da Vila na carreira (a «Auto Melgaço») que aquele empreendedor havia inaugurado no ano anterior.

Informações extraídas de:
http://acer-pt.org/vmdacer/index.php?option=com_content&task=view&id=602&Itemid=94 (Antero Leite e Susana Ferraz, 2007).

sábado, 26 de janeiro de 2013

Ponte do Martingo (Melgaço, 1932) - Postal Antigo

Postal enviado do Peso (Melgaço) em 14 de Agosto de 1932 para Lisboa. Eram frequentes os aquistas oriundos da região de Lisboa provenientes sobretudo duma classe social média e alta. O remetente refere, entre outra coisas, que estava a tomar água de todas as maneiras.
Na frente do postal, fotografia da Ponte do Martingo, nas proximidades da estância termal, na época.

 


quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Rocha Peixoto: um vulto da ciência com estreitas ligações às Termas do Peso



António Rocha Peixoto

1866-1909
Naturalista, etnógrafo, arqueólogo e bibliotecário


António Augusto César Octaviano da Rocha Peixoto nasceu a 18 de Maio de 1866 no n.º 20 da antiga Rua da Silveira (actual Rua Rocha Peixoto), na Póvoa de Varzim.
O 11.º dos 12 filhos de António Luís da Rocha Peixoto, médico, cirurgião e militante miguelista, natural de Arcos de Valdevez, e de Constança Amélia da Costa Pereira Flores, de Vila do Conde, foi baptizado na Igreja Paroquial de Nossa Senhora da Conceição, a 21 de Maio.
Em 1874 ficou órfão de pai, acontecimento que dificultou grandemente a sua vida, obrigando-o a trabalhar para prover o sustento da mãe e de três irmãs, ainda antes de completar a formação académica.
Em criança tinha um aspecto frágil que o ajudava a esconder um carácter dotado de grande força de vontade. Estudou no Colégio de Nossa Senhora do Rosário, no Porto, e, aos 15 anos de idade, ajudou a fundar a revista estudantil "Boletim Litterario. Revista Académica Mensal", que produziu 3 números.
Em 1883, com dezasseis anos e sob o nome de Augusto César, publicou artigos críticos sobre os Jesuítas no jornal da Póvoa de Varzim, intitulado "A Independência", em resposta a Afonso dos Santos Soares, defensor confesso da Companhia de Jesus.
No ano seguinte, já estudava no Instituto Escolar de S. Domingos (depois convertido na Escola Académica), nas proximidades da Rua da Sovela, no Porto, tendo por condiscípulos António Nobre e Alexandre Braga.
Aquando da mudança da Escola Académica para a Quinta do Pinheiro, conviveu com Hamilton de Araújo, Fonseca Cardoso e Ricardo Severo, organizadores do "Grémio Oliveira Martins".
Em 1887, na Academia Politécnica do Porto, fundou com Fonseca Cardoso, João Barreira, Ricardo Severo e Xavier Pinho a "Sociedade Carlos Ribeiro". Este grupo, ao qual se juntou Basílio Teles, António Arroio, António Nobre e Augusto Nobre, reunia-se numa casa na zona do Moinho de Vento para debater a crise nacional. Destas reuniões resultou a publicação da "Revista de Sciencias Naturaes e Sociaes", entre 1890 e 1898, dirigida por Rocha Peixoto, Ricardo Severo e Wenceslau de Lima.
Nesses tempos de estudante, Rocha Peixoto publicou artigos a folhetos sobre a degradação do Museu Municipal do Porto, colaborou em opúsculos e jornais, como "O Primeiro de Janeiro", do Porto, e "O Século", de Lisboa, e também participou em tertúlias musicais, tocando guitarra, tendo mesmo chegado a compor uma valsa intitulada "Lavandisca".
Rocha Peixoto participou na Tumulto de 31 de Janeiro de 1891, como nos conta Basílio Teles na sua obra "Do Ultimatum ao 31 de Janeiro: esboço d' historia política". Nela refere que Peixoto e Ricardo Severo, na manhã desse dia histórico, o convocaram para aparecer na Foz para o pôr a par dos acontecimentos. Os três vistoriaram o centro do Porto, para se inteirarem das movimentações das tropas fiéis ao Governo, e Rocha Peixoto escreveu um manifesto dirigido à população civil, em especial ao operariado, com o intuito de instigar a agitação social e assim perturbar a Guarda Municipal. Com a consciencialização do fracasso desta sublevação, Basílio Teles e Ricardo Severo deixaram Rocha Peixoto e centraram-se na busca de auxílio para os revoltosos.
Foi secretário da "Revista de Portugal" (1891-1892), dirigida por Eça de Queirós, organizou o "Catálogo de Mineralogia, Geologia e Paleontologia: Extracto do Annuário de 1890-91", da Academia Politécnica do Porto. Em 1893 passou a ser sócio da Academia das Ciências e desempenhou o cargo de bibliotecário no Ateneu Comercial do Porto (1893-1900).
Em 1895 começou a colaborar com a "Revista d'Hoje" e recebeu o diploma de académico da Classe de Ciências Matemáticas, Físicas e Naturais.
Pela altura da extinção do grupo "Sociedade Carlos Ribeiro" e da "Revista de Sciencias Naturaes e Sociaes" (1898), Rocha Peixoto leccionava Geografia e Ciências Físico-Naturais na Escola Industrial Infante D. Henrique, no Porto.
Em 1899 associou-se à nova revista "Portugália", de carácter nacionalista, que tomou o lugar da "Revista de Sciencias Naturaes e Sociaes". Esta publicação, dirigida por Ricardo Severo, contava com Fonseca Cardoso, como secretário, e com Rocha Peixoto, como redactor-chefe e articulista.
Em meados de 1900 foi nomeado Conservador do Museu Municipal do Porto, então instalado num edifício da Rua da Restauração, e, em 28 de Junho desse ano, acumulou esse cargo com o de Director da Biblioteca Pública Municipal do Porto, de que foi Director Interino entre 1900 e 1904 e Director Efectivo entre 1904 e 1909.
A sua relação com o Museu Municipal era anterior à sua entrada na instituição, pois, ainda estudante na Academia Politécnica do Porto, escrevera sobre o seu estado ruinoso, no título "O Museu Municipal do Porto (História Natural)" e no artigo "O Museu da Restauração" publicado n' "O Primeiro de Janeiro", em 1893. Em 1894, no mesmo jornal, sugeriu que a edilidade portuense comprasse a colecção de faiança de Guerra Junqueiro e, em 1897, integrou uma comissão de estudo da reorganização do museu e da sua instalação num novo edifício.
Durante a comissão de serviço no Museu, organizou as diversas secções do acervo desta instituição, a saber, a de Mineralogia, de Paleontologia, de Etnografia, de Arqueologia, de Artes Decorativas e de Numismática, melhorou os espólios de pintura e de azulejo e promoveu obras no edifício. Em 1902, com Joaquim de Vasconcelos, criou o "Guia do Museu Municipal do Porto", iniciou a transferência do Museu para as suas novas instalações, anexas à Biblioteca (1902-1905), e dotou-o de peças provenientes do Mosteiro de Santa Clara de Vila do Conde, iniciativa que levantou alguma polémica.
No período em que presidiu aos destinos da Biblioteca, fomentou profundas obras de restauro do edifício, a reorganização dos seus serviços e a reforma e modernização da classificação e catalogação dos livros. Criou três pequenas bibliotecas no Porto (no Bonfim, em Cedofeita e na Foz, com título modernos existentes em duplicado na B.P.M.P.), favoreceu doações às bibliotecas da Póvoa de Varzim e de Ponte de Lima e, ainda, mandou colocar nas paredes do claustro da Biblioteca Pública (antigo claustro do convento de Santo António da Cidade) azulejos quinhentistas e barrocos, oriundos de extintos conventos do Norte de Portugal (de Santa Clara e de São Bento de Ave Maria, do Porto, de Santa Clara e de S. Francisco, de Vila do Conde, de Grijó, em Vila Nova de Gaia, etc.).
No final de 1901 foi nomeado naturalista-adjunto da secção de Mineralogia da Academia Politécnica do Porto e, em 1903, foi enaltecido pelo Ministro Luís Augusto Pimentel Pinto, juntamente com os outros responsáveis da revista "Portugália".
Em 1908 passou uma temporada nas termas do Peso de Melgaço, onde fez amizade com um grupo de utentes da estância termal, entre os quais se destacavam o Dr. Teixeira de Sousa, de Chaves, o Dr. Silva Gaio, Secretário da Universidade de Coimbra, e o artista portuense António Carneiro. A esse grupo chamou "Academia".
Apesar da ligação académica, cultural e profissional ao Porto, Rocha Peixoto nunca deixou de manter um forte vínculo à sua terra natal, comprovado pelos estudos sobre o património arqueológico, histórico, e etnológico da Póvoa de Varzim. Foi responsável pelas primeiras escavações da Cividade de Terroso, do Castro de Laúndos e da vila de Martim Vaz, envolveu-se na questão da naturalidade de Eça de Queirós e empenhou-se na defesa da comunidade piscatória poveira, que influenciou, entre outros, os trabalhos de Fonseca Cardoso (estudo antropológico sobre os pescadores da Póvoa, editado na "Portugália", em 1908), de Cândido Landolt (livro sobre o Folk-Lore da Póvoa de Varzim, de 1915) e de António dos Santos Graça ("O Poveiro", de 1932). Não é, portanto, de estranhar, que tenha legado a sua biblioteca, constituída por mais de 2.000 títulos, à Biblioteca Municipal da Póvoa de Varzim.
Este notável naturalista, professor, antropólogo, etnólogo e escritor faleceu em Matosinhos, vítima de tuberculose aguda seguida de uma crise, a 2 de Maio de 1909.
Na altura da sua morte trabalhava no Porto como naturalista-adjunto da Academia Politécnica, como Director da Biblioteca Pública e do Museu Municipal do Porto e, ainda, como professor de Geografia e de Ciências Físico-Naturais da Escola Industrial Infante D. Henrique.
Do Cemitério de Agramonte, no Porto, onde foi sepultado, o seu corpo foi trasladado para o Cemitério da Póvoa de Varzim, em 16 de Maio de 1909, a pedido da Câmara Municipal poveira.

Fonte: Universidade Digital / Gestão de Informação, 2010

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Postal enviado das Termas do Peso em 1948 para Queluz




Postal escrito das termas do Peso em 29 de Setembro de 1948 para o Sr. Antero Gonçalves Ribeiro de Queluz onde o remetente elogia a beleza do Peso e o convida e desafia a vir visitar Melgaço...

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Diabéticos, o caminho indicado é... ÁGUAS DE MELGAÇO


Cartaz publicitário de meados do século XX, onde se incentiva os diabéticos a fazerem tratamentos nas Àguas de Melgaço (Peso) para tratarem a diabetes. 

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

António Carneiro (1872-1930) inspirou-se nas lindas paisagens de Melgaço para pintar alguns dos seus belos quadros...

 António Carneiro, Auto-retrato (1918)
António Teixeira Carneiro Júnior nasceu a 16 de Setembro de 1872 em S. Gonçalo de Amarante. Era filho de Francisca Rosa de Jesus, costureira, exposta da Roda, de S. Gonçalo, e de António Teixeira Carneiro.
Teve uma infância difícil. Aos sete anos foi abandonado pelo pai, ficando, pouco depois, órfão de mãe. Sozinho e desamparado, em 1879 foi encaminhado para o internato no Asilo do Barão de Nova Sintra, no Porto. Nesta instituição pertencente à secular Santa Casa da Misericórdia do Porto fez o ensino primário e começou a desenhar, copiando ilustrações de textos religiosos e de periódicos.
O seu talento foi notado de imediato. Por recomendação do professor Adrião Augusto de Sousa Carneiro e do Padre José Marques Dias, bacharel de Direito e director daquele estabelecimento, ingressou, em 1884, na Academia de Belas Artes do Porto, com o apoio da Santa Casa.
Na Academia, o "Mongezinho da Nova Sintra", como era conhecido, fez o curso de Desenho Histórico, entre 1884 e 1890, na qual foi discípulo do mestre
Marques de Oliveira.
Nesse ano de 1890 deixou o asilo e começou a frequentar o curso de Escultura, que veio a abandonar depois da morte de
Soares dos Reis, em 1889. Deste curso transferiu-se para o de Pintura, onde recebeu ensinamentos de João António Correia.
As letras ainda o inspiravam. Como o inspirariam sempre. Em 1891 editou uma plaquette de poemas. Dois anos depois, em 1893, casou com Rosa Carneiro. Desta união nasceram três filhos: Cláudio (1895-1963), Maria Josefina (1898-1925) e Carlos (1900-1971). O primeiro dos seus descendentes veio a notabilizar-se como músico e compositor, o segundo morreu ainda jovem, vítima de tuberculose, e o mais novo foi pintor.

Em 1895 reencontrou-se com o pai, recém-chegado do Brasil, com quem viajou até Amarante, cidade onde conheceu e fez amizade com o poeta Teixeira de Pascoaes, seu conterrâneo. No ano seguinte terminou o curso de Pintura de História, com a classificação final de dezoito valores.
Pouco depois, em 1897 partiu para Paris após a obtenção de uma bolsa patrocinada pelo Marquês de Praia e Monforte. Na capital francesa instalou-se com a esposa no Boulevard Arago e frequentou a Academia Julien, na qual foi aluno de Jean-Paul Laurens e de Benjamin Constant.
Quando regressou ao Porto foi convidado a leccionar na Academia de Belas Artes do Porto, em 1911, sendo investido na qualidade de Professor de Nomeação Definitiva, responsável pela Cadeira de Desenho de Figura. Corria o ano de 1918.
A par das suas actividades como pintor, professor e poeta, dirigiu a revista portuense Geração Nova e integrou a sociedade Renascença Portuguesa, instituída no Porto em 1911. Para este movimento, promotor da cultura nacional, desenhou o ex-libris, usado em todas as suas edições, nomeadamente na revista A Águia, publicação que dirigiu a partir de 1912 com Teixeira de Pascoaes, sendo o responsável pela coordenação literária e pelas ilustrações.
Durante a sua carreira profissional fez diversas viagens. No Verão de 1899 realizou uma visita de estudo a Itália; em 1912, na companhia da família, voltou a Paris; entre 1914 e 1915 fixou-se no Brasil, ficando hospedado na residência do casal de escritores Júlia e Filinto Lopes de Almeida. Ao Brasil regressaria ainda em 1929.
Em meados do século XX era frequentador das praias de Leça da Palmeira, em Matosinhos, e da Figueira da Foz, e também podia ser visto nas Termas de Melgaço, lugares que retratou exemplarmente em muitas das suas paisagens.



Quadro "Melgaço"
c. 1921, óleo sobre tela, 26 x 30 cm, Centro de Arte Moderna, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, Portugal.
Nos anos que decorreram entre 1893 e 1929, expôs, individual ou colectivamente, em Portugal (no Centro Artístico Portuense, no Ateneu Comercial do Porto, na Santa Casa da Misericórdia do Porto, no Grémio Artístico de Lisboa, na Sociedade Nacional de Belas-Artes, na Photografia Guedes e Photografia União, nas sedes da Ilustração Portuguesa e da Renascença, etc.), no Brasil (na Galeria Jorge no Rio de Janeiro, no Prédio Glória em S. Paulo e na Associação Comercial do Panamá em Curitiba) e participou nas exposições universais de Paris (1900), de Saint Louis (1904) e na Exposição Internacional de Barcelona, de 1907.
Este pintor também aplicou a sua arte à ilustração de livros de autores como António Correia de Oliveira (Tentações de São Frei Gil e O Pinheiro Exilado, em 1907, A Minha Terra, em 1915, outras obras em 1916, Virtudes e Heroísmos Lusíadas com Estefânia Cabreira, em 1926, e Canções de Amor, em 1929), João de Deus (Poesias Religiosas, em 1912) e o Visconde de Vila Moura (Doentes da Beleza, em 1913).
Foi homenageado em Amarante com Teixeira de Pascoaes, em 1924, e no Palácio da Bolsa, no centro histórico do Porto, em 1925, ano em que inaugurou o seu atelier na Rua Barros Lima (actual Rua António Carneiro), na zona oriental da cidade, e lhe morreu a filha Josefina, um trágico acontecimento que teve fortes repercussões na sua obra.
Em 1929 foi nomeado director da Academia de Belas-Artes do Porto, cargo que não veio a exercer.
A 31 de Março de 1930 morreu no Porto o pintor, poeta, professor António Carneiro, consagrado como o precursor do Simbolismo, uma corrente artística sem continuadores em Portugal. Da sua vasta e singular obra são célebres os retratos de grande densidade psicológica, de companheiros, intelectuais e artistas, como Teixeira de Pascoaes, Correia de Oliveira, Antero de Quental ou Guilhermina Suggia, os múltiplos auto-retratos, realizados em diversos materiais e em diferentes fases da vida, as originais paisagens e as decorações produzidas, por exemplo, para a sala de leitura do Palácio da Bolsa do Porto, sede da Associação Comercial do Porto (Eco, Mensageiro da Linguagem Universal).
Poucos anos depois de morrer, em 1936, foi publicada a sua obra poética Solilóquios: sonetos póstumos, com introdução de Júlio Brandão.
António Carneiro está actualmente representado no Museu Municipal Amadeo de Souza Cardoso, em Amarante; na Fundação Cupertino de Miranda, em Vila Nova de Famalicão; no Museu Nacional de Soares dos Reis e na Casa-Oficina António Carneiro, ambos no Porto; na Quinta de Santiago, em Matosinhos; na Casa-Museu Teixeira Lopes, em Vila Nova de Gaia; no Centro de Arte Moderna José de Azeredo Perdigão, da Fundação Calouste Gulbenkian e no Museu do Chiado (antigo Museu Nacional de Arte Contemporânea), em Lisboa, e em colecções particulares, como a do Dr. José Manuel Pina Cabral e Nuno Carneiro.
Extraído de:
http://sigarra.up.pt/up/web_base.gera_pagina?P_pagina=1000929

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Os anos dourados das Termas do Peso


Em 1918 verifica-se a disputa pela exploração das águas de Melgaço. Como concorrentes apareciam a Empresa Santos, Sobral & C.ª que havia adoptado, à revelia dos seus estatutos de 1894, a denominação de ‘Empreza das Águas«Minerais»’ ou ‘Minero-Medicinais de Melgaço’ e a outra sociedade era a‘Empreza das Águas Minerais de Melgaço’ cujos sócios eram Luís Manuel Solheiro, Lício de Miranda Solheiro e Bento Fernandes Pinto.

O litígio andou pelos tribunais com recursos à Relação e ao Supremo Tribunal Administrativo. A Santos, Sobral & C.ª foi negado o registo da denominação que havia adoptado e à outra empresa decretou-se um embargo às obras de captação que vinha efectuando no campo da Viscondessa do Peso mas o Administrador do concelho recusou a fazê-lo cumprir. Esta recusa foi mantida pelo Governador Civil o que lhe custou a sua demissão pelo governo de Afonso Costa.

Finalmente em 1919, um parecer de uma comissão, nomeada por portaria governamental, concluía que “mesmo provada a independência das nascentes, elas nunca deviam ser concedidas a mais de uma empresa, sob pena de nunca os conflitos cessarem pelo que era proposto um acordo entre as partes” (Lopes, 1949: 103). Este atingiu-se em 8 de Setembro daquele ano pela constituição da ‘Companhia das Águas de Melgaço’ com o capital de 300 contos representativo do activo de 324 contos de Santos, Sobral & C.ª líquido de 24 contos devidos por essa firma ao Banco Popular Português. Os quinhões de Santos, Sobral & C.ª tinham sido adquiridos entre doze sócios fundadores da Companhia das Águas e Melgaço, tocando a cada um 25 contos em acções: o Dr. Adolfo de Castro e Sola, director; o Prof. J. A. Ferreira da Silva; António Ferraz de Sequeira, director da filial do Banco de Portugal no Porto; o Dr. José de Oliveira Lima; e outros nomes conhecidos de capitalistas portuenses (idem, ibidem).

A nova empresa procurou então empreender um conjunto de ‘grandes iniciativas’ como se referiu o Prof. Ferreira da Silva em entrevista concedida ao diário portuense ‘Debate’ e publicada entre 25 de Julho e 9 de Agosto de 1919. Propunha-se executar o plano de melhoramentos gizado em 1917: um hotel, um casino, parque e balneários (idem, ibidem).

Em 1919, deu-se início à construção do balneário termal. Numa primeira fase, foi apenas construída uma das alas, por forma a dar-se imediatamente início à actividade, que se manteve quase até ao final da construção com 10 banheiras em ferro esmaltado e uma sala de duches, tendo duas caldeiras de vapor para aquecer as águas dos banhos, conforme relatório da visita efectuada em 1923 pela Inspecção das Águas Minerais à estância. Neste ano, funcionava “apenas metade do edifício, com 10 banheiras de ferro esmaltado e sala de duchas”(idem, ibidem).

Em 1924 ficaram concluídas as obras do balneário. “A sua inicial estruturação interna, que segundo os padrões da época configurava a divisão por sexos, apresentava duas alas, espelhos quase perfeitos uma da outra. Tudo era duplicado: os balneários, as salas de duche e mesmo o número de banheiras”(Câmara Municipal de Melgaço).

O aumento da frequência das termas pelos aquistas justificou um “pedido de licença para exploração de uma segunda Nascente, a do Prado. O aproveitamento desta emergência foi planeado em Outubro de 1920, sendo o projecto apresentado em Dezembro, por forma a vincar indelevelmente a entrada da nova Administração. Mas nem tudo correu bem na captação deste novo manancial: não foi escolhido um ponto de emergência adequado e as águas brotavam através das camadas argilosas e ferruginosas mais altas, provocando a libertação de gás e a perda de água. Assim os trabalhos tiveram que se prolongar até 1921, tendo sido feita a adução da nova água ao Pavilhão da Fonte Principal, via uma tubagem de grés implantada numa galeria, preparada para visitas técnicas, o que era um avanço relativamente à época” (idem, ibidem).

A publicidade à água de Melgaço descrevem-na como sendo:
“Hypotermal-Hypomineralisasda- Gazocarbónica-Bicarbonatada- Mixta-Cálcica-Sodica- Magnésica-Ferrea- Lithinica-Manganésica. Utilíssima nas doenças gerais (diabetes, arthritismo, etc.), doenças do aparelho digestivo (dispepsias, úlceras de estômago cicatrizadas, enterites, etc.) e do sistema nervoso (neurastenia, histeria, etc)” (Notícias de Melgaço, Julho 1921).

Os aquistas aumentaram no Peso. Em 10 de Julho de 1922, o jornal ‘Notícias de Melgaço’ justificava a cada vez maior afluência pelos preços praticados nos hotéis da estância e recomendava que os hoteleiros os mantivessem mais baixos comparativamente aos de outras termas, “pois desta forma muito concorrerão para o desenvolvimento desta localidade” (Notícias de Melgaço, Julho 1922).

Em 1924 deu-se também início ao Parque das Termas, traçado por Jacinto de atos, frondoso espaço com árvores de grande porte (plátanos, faias, cedros, tílias, etc).

Os anos do primeiro quartel do séc. XX corresponderam a um período de relativa estabilidade na frequência de aquistas nas Termas do Peso. Uma carta de um leitor enviada ao jornal ‘Melgacence’ referia que “não há exemplo, desde que frequento esta estância, de maior movimento, como agora. Os hotéis estão à cunha. Os hoteleiros não teem mãos a medir. O Figueiroa, já se considera rei destes sítios com ou sem óculos. Pelo trespasse do seu estabelecimento pediu nada mais nada menos que 500 contos, se é verdade o que me disseram. As águas mal chegam par os que a bebem à bica, pelo que a Empresa leva mais 10, além dos 45 da inscrição, para os que dela precisam para tomar em casa” (Melgacence, Setembro 1926).

Esta favorável situação económica contribuiu para uma reanimação do Peso reflectida no comércio e restauração. Diversificou-se o padrão de consumo até aí muito centrado nos bens de primeira necessidade. Desde 24 de Maio de 1915 que existia na localidade um “estabelecimento de fazendas «High life», filial da«Republicana» de Francisco de Sousa Cardoso, da Vila” (VAZ, 1996: 224). Em 8 de Agosto de 1926, o ‘Jornal de Melgaço’ noticiava a abertura, na localidade, de um estabelecimento de rendas, “de variados desenhos e finos gostos confeccionados em linha e seda” (Jornal de Melgaço, 8 de Agosto de 1926) provenientes de oficinas de Vairão (Vila do Conde) “dirigidas por distintas senhoras da melhor sociedade vilacondense” (idem, ibidem).

Nos hotéis, os aquistas divertiam-se com festas e bailes: “Os hóspedes mais entusiasmados são os da Quinta do Peso e Ranhada. Os do Rocha são mais socegados, mais maduros, a cuja cura de repouso se entregam sob o mais rigoroso preceito, tendo apenas por distracção algum canto, música e o indispensável quino” (Melgacence, Setembro 1926), No dia 1 de Setembro de 1926 realizou-se no‘Hotel Ranhada’ uma “festa elegante. Música no parque, danças populares, jogos de rapazes e à noite no Salão de baile, dança, música, canto e versos recitados a primor” (idem, ibidem).




As ligações com o exterior passaram a ser alvo de atenção por parte das autoridades locais. A estrada entre Monção e Melgaço, onde os passageiros dos automóveis sofriam ‘torturas’ pois iam aos ‘solavancos, em bolandas, foi, em 21 de Janeiro de 1927, objecto de uma “arrematação por empreitada, dos concertos entre o quilómetro 12 a 23” (Melgacence, 1927). Advogava-se ainda o prolongamento do caminho de ferro entre Monção e Melgaço na extensão aproximada de 22 quilómetros, como complemento da Linha do Minho e em via larga (idem, ibidem).

Porém, em 1927, a época termal estava muito comprometida a atender ao que o jornal‘Melgacence’ dizia: “Contrista ver o estado em que estão as nossas preciosas águas. As primitivas nascentes do grande pavilhão envidraçado feito quando era seu director o inesquecível médico Dr. António Pereira de Sousa, estão cobertas de areia, lodo e água” (Melgacence, Maio 1927).

A situação originou uma petição dirigida à Câmara Municipal e Governo Central na qual se afirmava: “As águas medicinais do logar do Pezo, deste concelho, únicas no País, estão em claro, evidente e indiscutível decadência. Sem reclame, sem comodidades, sem meios de transporte, sem pavilhões, sem protecção às nascentes, a sua condenação é certa e cremos bem o seu fim está próximo. Sem instalações apropriadas, sem utensílios competentes e necessário, arrolhamento de garrafas pouco limpas fora de todos os preceitos essenciais do cuidado e da higiene, conduzindo impurezas. São durante meses e meses um charco de todo imundo. As águas das chuvas e dos regatos inunda os pavilhões, atinge metros de altura!. A estância das águas envergonha-nos: esboços de avenidas mal principiadas, onde há muito paralisaram as obras; pontes de madeira, anos e anos à intempérie, apodrecendo, pavilhões de vidros quebrados, de ferros enferrujados, de pedras a enegrecer à míngua de cuidado; balneário a desconjuntar-se, interiormente a arruinar-se, ao abandono; barracões de madeira desfiando; regos primitivos, charcos, lamas; plantas e arbustos irrompendo de toda a parte a dar-lhe um aspecto de montado; e lixo e imundície e desleixo, sempre e sempre miséria! Aparência de bairro pobre a desmoronar-se afugentando os frequentadores e entristecendo os habitantes desta região” (Melgacence, Novembro 1927).

Verifica-se então a mudança na direcção clínica. Em 1929 o Dr. Silvério Gomes da Costa substitui o Dr. António José Duro. Foi nomeada uma ‘Comissão de Iniciativa’ para introduzir melhoramentos na estância: “Remodelou-se a secção das senhoras no Balneário, instalou-se um laboratório de análises ampliado com uma farmácia sob a direcção do Dr. Eduardo Costa, ainda aluno do curso de medicina” (Lopes, 1949: 119). Uma outra melhoria foi a da iluminação do Peso que passou a dispor de seis candeeiros ‘Petromax’ de 500 velas cada um, desde 1 de Julho a 31 de Outubro (Notícias de Melgaço, Junho 1929).
Como a expansão das termas necessitaria de terreno, o Conselho de Administração deliberou requerer a expropriação de parte dos terrenos pertencentes à Viscondessa do Peso sem os quais ficariam comprometidos os melhoramentos que a Companhia pretendia fazer (Notícias de Melgaço, Abril 1929).
Os esforços para a afirmação das águas de Melgaço foram coroados pela atribuição da medalha de ouro da Exposição de Sevilha, distinção que o Notícias de 23 de Março de 1930 relata como tendo sido recebida “com a maior satisfação das pessoas que conhecem estas milagrosas águas que tantas vidas têm salvo e em sinal de regozijo foram imediatamente embandeiramos o pavilhão e oficinas por ordem do Sr. António Joaquim Gomes, fiscal do estabelecimento, fazendo feriado o dia para o pessoal que trabalha no estabelecimento” (Notícias de Melgaço, Março 1930).

Continuou-se com a arborização do Parque com a “plantação de algumas centenas de árvores nem só de sombra, mas também de fructa e flores, o que muito agradará aos hospedes que anualmente nos visitam” (Notícias de Melgaço, 1930), na opinião do correspondente no Peso do ‘Notícias de Melgaço’ de 4 de Maio de 1930.

O mesmo jornal, em 8 de Junho, daquele ano, noticiava a abertura do Balneário, sob a direcção do Dr. Athias Ark e informava serem os preços praticados por aquele estabelecimento os seguintes: Inscrição médica 50$00, idem uso das águas 50$00, duches seclalisos 5$00, banho de imersão água mineral 6$00, irrigações vaginais no banho 7$00, banho bolha de ar em água comum 7$00, massagem geral 20$00, idem parcial 15$00, banho de imersão em água comum 4$50, idem bolha de ar em água mineral 8$50, banho gaso-carbónico 12$00, actinoterapia 15$00, duche ar quente 10$00, lençol e toalha 2$00, balança $50.

Os novos preços permitiram obter, durante o mês de Junho do mesmo ano, um rendimento do Balneário de 10:991$60 e proveniente, principalmente, de 72 inscrições médicas; 76 inscrições de água no hotel; 76 inscrições de águas; 23 banhos de imersão em água comum; 48 banhos em água mineral; 48 banhos gaso-carbónico e 57 duches (Notícias de Melgaço, Julho 1930).

Uma visita às Termas do correspondente no Peso do mesmo jornal descrevia assim as impressões: “Ficamos maravilhados com a limpeza e o aceio que notamos logo à primeira vista, a dentro e fora do rico pavilhão que cobre a primitiva nascente” (Notícias de Melgaço). Referindo-se às avenidas do interior do Parque destaca “a que corre na direcção de nascente para poente dirigindo-se a um simples pavilhão de madeira, que cobre uma outra nascente de águas minerais, que foi descoberta recentemente, e aonde se encontram duas raparigas muito frescas e aciadas cujas amabilidades atraem ali os hóspedes que frequentam as águas…” (Notícias de Melgaço, Agosto 1930).

O Hotel da Quinta do Peso foi sujeito a obras de ampliação. O respectivo pedido de licença, dirigido em 3 de Junho de 1931 pelo seu proprietário José Figueiroa Granja ao Administrador da Câmara Municipal, pretendia aumentar o corpo já existente acrescentando-o para o poente conforme planta que se anexava ao requerimento. Destinava-se o aumento a cozinha e outras dependências, sendo a construção em pedra “tendo as janelas e portas as dimensões determinadas na mesma planta” (Arquivo da Câmara Municipal de Melgaço, 1931).

Em 1931 é inaugurada a luz eléctrica no Peso. O Notícias de Melgaço’ de 17 de Maio daquele ano relata a instalação da electricidade em vários prédios desta estância: 500 lâmpadas no Hotéis Rocha, Quinta do Peso e filiais, no Parque e avenidas da empresa das Águas. Anunciava a inauguração para os primeiros dias de Junho sendo a energia fornecida pela Companhia do Tambre com sede na vila de Naia, província da Corunha, Espanha (Notícias de Melgaço, Maio 1931).

Amiudadas vezes faltava a luz, como refere o correspondente no Peso daquele jornal: “É raríssima a noute em que nesta localidade se conserve a luz eléctrica toda a noute sem por vezes se apagar, o que causa grandes prejuízos não só à casas particulares, como aos hotéis, casas de pensão e casas comerciais… Assim é que os hoteleiros e casas de pensão são obrigados a ter em depósito em sua casa de caixas de velas” (Notícias de Melgaço, Setembro 1932).

O emprego da electricidade possibilitou a que se fizessem no balneário aplicações de diatermia, para o que foi adquirido um aparelho; ampliou-se também a secção de banhos carbogasosos. O balneário ficou provido de um serviço completo de banhos de imersão, carbo-gasosos, duchas escocesas e subaquáticas. Em 1935 começou a direcção clínica “a empregar sistematicamente as curvas glicémicas como meio de investigação dos efeitos das águas na diabetes” (Lopes, 1949).
Foram também anos em que se procurou dotar os aquistas de meios de diversão tendo-se inaugurado em 1931 o campo de ténis.
“Com maior frequência o Parque, o Pavilhão das Águas, os salões dos hoteis se animaram com as galas de iluminações nocturnas, as harmonias de bandas de música e orquestras, a elegância dos bailes e a alegria das quermesses. Era a beneficência, o melhor incentivo das festas, segundo as boas tradições das estâncias portuguesas. Contribuir para a filial que a Associação Protectora dos Diabéticos Pobres, em 1931, instalou no Peso, contribuir para o hospital da Misericórdia de Melgaço, contribuir para os pobres, tornou-se pretexto para amiudadas festas” (idem, ibidem).
Em 28 de Agosto de 1932 o ‘Notícias de Melgaço’ descrevia assim a animação na estância: “As 9 horas da manhã deu entrada no Peso a afamada Banda dos Bombeiros Voluntários de Melgaço, com um primoroso passo dóbli e depois de executar várias peças do seu vasto reportório no Parque do Grande Hotel Ranhada, dirigiu-se para o parque das Águas, e aí permaneceu até à noute, tendo início dentro do Pavilhão das Águas e fora, um concorridíssimo baile que se prolongou até às três horas do dia 29. Durante a tarde houve jogos variadíssimos e diferentes divertimentos. A ordem era mantida por uma patrulha de marinheiros fardados e devidamente armados, comandada pelo Sr. E.P. de Mendonça, que devido à boa educação de todo o povo que foi assistir a estes festejos, não foi alterada a ordem da força acima referida” (Notícias de Melgaço, Setembro 1932).
Três dias depois houve, no Peso, um outro baile, “por iniciativa de alguns hóspedes no Grande Hotel Ranhada e realizou-se a convite, visto encontrarem-se ali as damas mais distintas não só da vila de Melgaço como também desta localidade. O baile correu animadíssimo até às 2 horas da madrugada foi oferecido às damas à meia noute um explêndido chá. A música constava de um quarteto composto de uma concertina, violão, flauta e violino, dirigido pelo Sr. Dinis de Brito, que fez executar com a inteligência e exactidão inumeráveis peças do seu grande reportório” (idem, ibidem).
O Parque do Grande Hotel do Peso conheceu também noites animadas como a da ‘Festa da Caridade’ realizada em 17 de Setembro de 1932, “por iniciativa das Ex.mas Sras. D. Judit Alheas, D. Maria José Nascimento e D. Sara Brou da Rocha Brito que foi abrilhantada com Iluminação, Bailes, Quermesses, Barracas de chá e petiscos nacionais servido por gentis Senhoras com trajes a carácter. As Barracas muito originais e de um fino gosto artístico foram obra do Ex.mo Sr. Lino do Nascimento tendo como auxiliar o incansável Ex.mo Sr. Rocha Brito. Às vinte e duas horas, entrou com um primoroso passo doble a banda de Valadares que depois de dar entrada no seu respectivo coreto, ali se conservou executando inúmeras peças do seu vasto reportório até às três da madrugada” (idem, ibidem).

Contudo, os bailes não compensavam grande parte dos aquistas que se sentiam prejudicados com os aumentos de preços verificados nos serviços das Termas. O ‘Notícias de Melgaço’ refere-se aos “protestos dos hóspedes que juram não voltar cá mais devido ao elevadíssimo preço porque lhe fazem pagar a inscrição de banho”(idem, ibidem). O correspondente daquele jornal no Peso afirmava: “Não há razão alguma de uma inscrição custar 110$00 quando em outras termas, em que nada falta ao hóspede, custa menos de metade desta importância. Não há razão alguma de um enchimento custar um escudo quando é certo que a maior parte da água mineral corre para o regato” (idem, ibidem). E concluía: “Temos ouvisto dizer a vários hóspedes que o que vale ter vindo aqui deve-se à água ter feito milagres e aos distintíssimos directores clínicos” (idem, ibidem).

A fama dos bons serviços termais espalhou-se por todo o País e interessou a comunidade científica. O complexo do Peso passou a ser visitado por médicos, como os “diplomados pelo Instituto de Climatologia e Hidrologia, de Lisboa, em excursão dirigida pelo Prof. Armando Narciso. Nos dias 29 e 30 de Julho de 1939, realizou-se também no Peso um Congresso de Medicina e Desportos Higiénicos limitados aos diplomados da Escola de Medicina do Porto, do curso de 1931-32” (Lopes, 1949).

Em 1932, o prof. Ch. Lepierre repetiu a análise das águas, pela primeira vez extensiva à Nascente Nova, e, com a colaboração do Prof. Herculano de Carvalho, à pesquisa da radioactividade. Apresentava-se a Nascente Nova mais alcalina e mineralizada que na análise de vinte e cinco anos atrás. Edmundo Correia Lopes, interpretou os resultados da análise do seguinte modo: “a diferença entre as duas nascentes não é de molde a criar-lhes especializações distintas, antes o aproveitamento conjugado de ambas constitui em muitos casos, ampliação valiosa dos meios terapêuticos. As águas são não só radioactivas, pelo radon, mas possuem sais radíferos de duração a bem dizer perene e por isso de efeitos permanentes. São bacteriologicamente puríssimas” (idem, ibidem).


Informações recolhidas de:

ACMM- Processo existente no Arquivo da Câmara Municipal de Melgaço, Melgaço, 1931.
Banhos de Caldas e Águas Minerais, 1875.
CÂMARA MUNICIPAL DE MELGAÇO - ‘Memória Descritiva’ do processo de pedido de classificação apresentado ao IPPAR, Ed. C. M. de Melgaço, Melgaço.
‘Jornal de Melgaço’, Melgaço, 21 de Julho de 1917 (BPMP).
‘Jornal de Melgaço’, Melgaço, 8 de Setembro de 1917 (BPMP).
‘Jornal de Melgaço’, Melgaço, 8 de Agosto de 1926 (BPMP).
LEITE, Antero e FERRAZ, Susana - O Edifício da Fonte Principal das Termas do Peso (Melgaço), in Boletim Cultural de Melgaço, Ed. C. M. de Melgaço, Melgaço, 2007, p. 109-136.
LOPES, Edmundo Correia - Melgaço. Estância Termal, Ed. Vidago, Melgaço & Pedras Salgadas, Porto, 1949, p. 51, 65-67, 71, 73-77, 103-105, 111, 119-120, 125.
MARINHO, Óscar - Arquivo fotográfico, Melgaço.
‘Melgacence’,n.º 28, Melgaço, 5 de Setembro de 1926 (BPMP).
‘Melgacence’,n.º 48, Melgaço, 31 de Janeiro de 1927 (BPMP).
‘Melgacence’,n.º 60, Melgaço, 8 de Maio de 1927 (BPMP).
‘Melgacence’,n.º 87, Melgaço, 13 de Novembro de 1927 (BPMP).
Melgaço e as suas águas, in ‘Jornal de Melgaço’, n.º 1173, Melgaço, 1 de Setembro de 1917 (BPMP).
‘Notícias de Melgaço’, n.º 17, Melgaço, 10 de Julho de 1921 (BPMP).
‘Notícias de Melgaço’, n.º 48, Melgaço, 10 de Julho de 1922 (BPMP).
‘Notícias de Melgaço’, n.º 17, Melgaço, 16 de Junho de 1929 (BPMP).
‘Notícias de Melgaço’, n.º 9, Melgaço, 21 de Abril de 1929 (BPMP).
‘Notícias de Melgaço’, n.º 54, Melgaço, 23 de Março de 1930 (BPMP).
‘Notícias de Melgaço’, n.º 59, Melgaço, 4 de Maio de 1930 (BPMP).
‘Notícias de Melgaço’, n.º 68, Melgaço, 13 de Julho de 1930 (BPMP).
‘Notícias de Melgaço’, n.º 72, Melgaço, 10 de Agosto de 1930 (BPMP).
‘Notícias de Melgaço’, n.º 109, Melgaço, 17 de Maio de 1931 (BPMP).
‘Notícias de Melgaço’, n.º 163, Melgaço, 4 de Setembro de 1932 (BPMP).
‘Notícias de Melgaço’, n.º 165, Melgaço, 18 de Setembro de 1932 (BPMP).
ORTIGÃO, Ramalho - Banhos de Caldas e Águas Mineirais, Ed. Colares Editora, Sintra, p. 25.
Regulamento do estabelecimento hidrológico das Águas Minerais de Melgaço, in no ‘Jornal de Melgaço’, n.º 1150, Melgaço, 10 de Março de 1917 (BPMP).
RIBEIRO, Maria Luísa e MOREIRA, Armando - Notícia explicativa da Folha 1-B (Monção), Carta Geológica de Portugal, Ed. Serviços Geológicos de Portugal, Lisboa, 1986, p. 30-31.
SILVA, M. Antunes da - Pesquisa e Captação de Água MineraL em Melgaço. Prospecção, Pesquisa e Captação de Águas Minerais Naturais. Recursos Geotérmicos e Águas de Nascente, IGM. (Disponível em WWW:http://e-Geo.lneti.pt/geociencias/edições_online/diversos/prosp_pesq/indice.htm>.
UNICER/VMPS- ÁGUAS E TURISMO, S.A - Projecto de Conservação, UNICER/VMPS - Águas e Turismo, S.A, Porto/Melgaço, 2002 (Arquivo Histórico da C. M. de Melgaço).
VAZ, P.e Júlio - Mário. Ed. autor, 1996, pp. 214, 221-222, 224.
http://acer-pt.org/vmdacer/index.php?option=com_content&task=view&id=602&Itemid=65