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sexta-feira, 17 de junho de 2016

Uma visita a Melgaço de há 50 anos atrás (Parte 1)

Frente do desdobrável (Janeiro de 1955)
Em Janeiro de 1955, é publicado um desdobrável destinado a promover o concelho de Melgaço que era uma espécie de um guia para o visitante. No mesmo, encontramos um texto da autoria do professor António Pinho, de Paderne, que parece uma verdadeira declaração de amor pela sua terra.

Melgaço e a sua região

“Eis a vila e concelho mais setentrionais da mais setentrional província desta Pátria Camoniana que nos foi berço; eis o torrão que se impõe pelos seus motivos históricos e pelos panoramas inconfundíveis que, através dele, se dominam, para aquém e além fronteiras.
Melgaço, antiga fortaleza árabe, terra lusitana de mais antiga e ilustre história, foi mandada povoar pelo Rei Conquistador, que lhe concedeu foral e a elevou a concelho.
Assoalhado numa acidentada encosta, reclinada para o rio Minho que, a seus pés, desliza, sinuoso e meigo, e sulcado por riachos fertilizantes por entre encostas alterosas, o concelho de Melgaço enquadra-se numa das mais fascinantes e paisagísticas regiões minhotas que o pintor à tela tem confiado.
Se, porém, a sua situação geográfica é, sobremaneira, privilegiada, não é só esta, já por si, assas forte, que, distinguindo-o, o ilustra e diz típico, entre os mais genuinamente portugueses.
São as belezas inebriantes com que a Natureza caprichou em fadá-lo. São os seus artísticos monumentos. É o folclore das romarias e cortejos. É a uberidade do seu solo. São os costumes das suas gentes. É a vegetação das suas campinas e vergeis. São as construções do último quartel a esmaltarem-no. É a policromia de seus panoramas. É o murmúrio da água das suas fontes, sumamente, são todos os atributos paisagísticos, históricos, arqueológicos, etnográficos e folclóricos que tornam bem distinto este canteiro, o primeiro, desse “jardim à beira mar plantado” que o Épico, singularmente, cantou.
A sua vila assenta arraiais em torno do Castelo, que outrora a escudou e hoje a vela, mirando, altivo, defronte, o Edifício dos Paços do Concelho e, em silêncio, escutando os segredos dos pares enamorados que, do simétrico e colorido jardim da Praça da República se encaminham para a Avenida Salazar, por onde, divagando, desfrutam toda a magia e encanto da vasta e singular paisagem que daí se domina.
Para o ocaso, a três quilómetros desta, num pitoresco recanto, brotam, em duas bicas, as afamadas “águas minerais” que ao doente aliviam e ao são proporcionam bebida agradável. Sim, a essa distância situa-se a Estância Hidrológica do Peso.
O Peso... Insigne “boulevard” sob ramada compacta de árvores frondosas; rincão onde o sol, noutras partes, calcinante, enamorando a copa do arvoredo, que sofre as inclemências do astro-rei, para prodigamente oferecer ao aquista ou ao visitante, a sombra, uma sombra perfumada pelo aroma inconfundível da flor das tílias que se evola nos ares e cala nos corações.
Estância de cura e turismo, de vilegiatura e repouso, é o Peso. Ali afluem, na época calmosa, inúmeras pessoas que, extasiadas, esquecem, como que por encanto, aquelas preocupações do dia a dia que a todos encurtam a vida e comprometem a alma. Aí, tudo distrai e seduz...
É o harmonioso marulhar das água do bucólico regatozinho. São os campos de jogos, onde se pratica o ténis e joga o golf. É mais além, o maravilhoso Balneário, onde se exercita a mais avançada terapêutica, que bem digno é duma visita. É adentro do majestoso pavilhão, o cantar da água da “bica” que, qualquer coisa, parece segredar às solicitas empregadas, as quais num constante vai-vem, levam um copo vazio, enquanto a miraculosa água a outro abranda sofrimento ou mitiga a sede.
E, por toda a parte se vê gente que admira, comenta, medita, lê, conversa, discute e, assim, neste cantinho abençoado, o espírito esclarece-se, o país encontra-se, a saúde melhora-se e as horas voam!...
Mas o businar das caminhetas dos hotéis lembra a hora de jantar. Mergulha-se, então, a Estância no silêncio e o buliço é agora nos hotéis e pensões onde a culinária é de primeira qualidade.
A levante limita este concelho, em parte, o Trancoso que, dando seguimento, em Alcobaça, à raia seca demarcada, que vem desde a Ameijoeira, vai lançar as suas águas no Minho, no local onde este diz adeus à Nação Vizinha – e vá lá o prolóquio: onde a voz de um português se faz ouvir em duas províncias espanholas, Orense e Pontevedra, que, com  a do Minho, ali confinam – para, caudaloso e ofegante, banhar terras portuguesas.
Ali é Cevide e, mais acima, é S. Gregório, que se alcandora nas ribas dum e doutro, a meia encosta do Monte do Facho, fitando – qual sentinela alerta – assim altaneiro, a Galiza a quem se liga por uma excelente ponte internacional que dá acesso à cidade de Orense.
Esta risonha povoação que, olhada defronte, à distância, se nos assemelha a um presépio, dista pouco mais de meia dúzia de quilómetros da sede de concelho, à qual se liga por uma excelente via nacional, donde, a cada passo, se topa com excertos de paisagens das mais imponentes e majestosas que se podem oferecer a olhos humanos. Abstemo-nos de traçar aqui o seu perfil para não corrermos o risco de falsear a verdade, denegrindo-lhes, porventura, o que de sui generis as descrimina, que bem digno é o estro do poeta, da fidelidade do pintor ou do sentimento emotivo de pena melhor aparada. Far-nos-emos eco somente de que, a caminho de S. Gregório, tudo se patenteia e conjuga em manifestações grandiosas de beleza incomparável, em vistas panorâmicas sem confronto que, seguidamente, a nossos olhos se desdobram e nos fazem admirar, cada vez mais a obra do Criador.
Lá no alto, a sul, é Castro Laboreiro, é serra..."


(Continua na próxima publicação) 

Desdobrável completo (Clique para ampliar) 

sexta-feira, 10 de junho de 2016

A vila de Melgaço vista dos céus

Castelo de Melgaço

Veja imagens da vila de Melgaço vista dos céus. Talvez nunca a tenha visto assim...

sexta-feira, 6 de maio de 2016

Melgaço: Regresso às suas origens

Vila de Melgaço há cerca de 500 anos
Numa publicação de 1890 (Archivo Histórico de Portugal) encontramos um texto que faz referência às origens muito antigas e nebulosas da vila de Melgaço. "Fica esta vila na província do Minho, e pertence ao arcebispo de Braga. É praça de guerra, cabeça de comarca e dista 430 kms ao norte de Lisboa e 72 ao noroeste de Braga. A origem de Melgaço perde-se na penumbra da História. Sabe-se que é povoação antiquíssima mas ignora-se quando e por quem foi fundada. Querem uns que a sua fundação fosse devida aos lusitanos, outros que ela fosse obra dos romanos. Não há vestígios de espécie alguma que dêem qualquer ideia do que foi esta povoação na sua primeira idade. Nenhum monumento, nenhuma revelação arquitetónica tem aparecido a fazer luz nesta obscuridade de origem. Que existia no tempo da dominação árabe é incontestável, porém já a este tempo era Melgaço antiquíssima povoação, visto ter D. Afonso Henriques encontrado ali uma grande fortaleza inteiramente arruinada.
Era este castelo denominado castelo do Minho, e foi com certeza construído pelos árabes. Em volta dele apinhavam-se alguns casebres, talvez construídos com o fim de acolherem os seus habitantes à proteção do forte, pois que naqueles tempos não havia segurança longe destes colossos de pedra, que continham em respeito os aventureiros. Qual a importância que tivesse esta vila não é dado. No entanto, o facto de nela terem os árabes edificado uma fortaleza, prova que não era destituída de consideração dos seus possuidores.
No tempo de D. Afonso Henriques, achava-se, porém em míseras circunstâncias, e abandonada pelos seus habitantes. Não são também conhecidas as razões que levaram os mouros a esta migração. Talvez possa explicar-se o facto pela guerrilha acérrima que os cristãos lhes moviam. O audacioso e aguerrido filho do conde D. Henrique, encontrando a terra deserta, mandou-a povoar por cristãos e reedificar-lhe o castelo em 1170.
Em 1197, o Prior de frades crúzios, D. Pedro Pires, mandou à sua custa edificar a fortaleza e a torre. Era este Prior muito abastado de fortuna e dedicado ao engrandecimento do país. O mosteiro a que pertencia era o de Longos Vales. Em 21 de Julho de 1181 deu D. Afonso Henriques o primeiro foral a Melgaço e fez doação da aldeia de Chaviães aos seus moradores."
Tal como as origens desta terra, o topónimo Melgaço anda envolto na bruma da incerteza e deu origem a opiniões contraditórias, absurdas e risíveis, com aceitação de alguns, por entre álgidas cintilações celestes. Trago em meu socorro os grandes mestres de olho de lince para a sapiência toponímica, sem arranjar pretexto para criticar desfavoravelmente esta ou aquela alegação.
José Pedro Machado desembaraça o escorregadio assunto ao sentenciá-lo como de «origem obscura», aventando, contudo, a suposição de provir do latino mellicaceus, e este derivado de mellicus, não afirmava com certa certeza se para significar mel ou melga.
Já José Leite de Vasconcelos dedicou uma escassíssima penada à matéria, em nota de rodapé para aludir a um eventual antropónimo galaico, embora não de forma convincente ou definitiva: «Melgaço parece relacionar-se com o nome de homem Melgaecus, que se lê em inscrições romanas do Minho; o étimo seria Melgaceus igual a Mel-aceus».
Armando de Almeida Fernandes, vai vai na linha de um «nome de raiz pré-romana» melg-, com os sufixos equivalentes –az–azo–aço, tendo em conta a documentação do século XII, onde o burgo aparece grafado com as formas «villa de Melgazo» (1170, 1173) ou «eclesia de Melgaz» (1185). A tal raiz pré-romana melg-, sobrevinda «talvez de “mel” indo-europeu», designa «rocha ou altura».
Por sua vez Joaquim da Silveira defende outra justificação, para ele o «étimo não oferece dúvida», na medida em que Melgaço procede de «melga nome de planta», sendo que «melga é nome comum de uma planta forragínea» conhecida por medicagoalfafa ou luzerna. E, anotamos nós, o vocábulo tem origem no latim vulgar melica.
Na recente opinião de Batalha Gouveia, em abono da sua tese, o topónimo estaria ligado aos vocábulos celto-bretão “mael”«colina», e “cath”«guerreiro», de maneira que Melgaço seria, assim a modos, a “Colina do Guerreiro”.
Longe de cogitar algo conclusivo, o presente artiguelho tem tão-só a finalidade de recensão crítica, apreciar o estado geral do geotopónimo em causa e alinhavar algumas linhas sem fazer uso da luz clara das trevas. A explicação é deveras uma batalha difícil.
Estaremos na presença de “melga” – não, não é o insecto outra vez –, voz aferética de amelga, oriunda provavelmente do celta ambelica, e este composto do préverbo indo-europeu ambi-, que traduz «ao redor». Em tempos antiquíssimos o nome amelga designava «uma facha de terreno que o lavrador assinala para salpicar as sementes com igualdade e proporção».
Na Península Ibérica a geografia mostra, a par da povoação minhota, a existência de outra Melgaço, um mero lugarejo em Alcobaça, uma herdade Melgares no Alentejo, Melgaz (Alvaiázere), e diversas terriolas em Espanha, MelgazaMelgueiras (Galiza), Melgar (Burgos, Zamora, Palencia, Toledo, León e Valhadolid) e Melgares.
Note-se que nenhuma linha das citadas aparece claramente como aquela que claramente explica a origem do nome da nossa terra... .


Informações recolhidas em:
Archivo historico: narrativa da fundação das cidades e villas do reino, seus brazões d'armas, etc. (1890), 2ª Série, Typ. Lealdade, Lisboa.
- José Pedro Machado, Dicionário Onomástico Etimológico da Língua Portuguesa, II vol., Editorial Confluência, Lisboa, 1984, p. 974.
- José Leite de Vasconcelos, Revista Lusitana, III volume, p. 152.
- Almeida Fernandes, Toponímia Portuguesa: Exame a Um Dicionário, Arouca, 1999, p.420.
- Joaquim da Silveira, Toponímia Portuguesa (Esboços) – V, in Revista Lusitana, vol. XVII, Livraria Clássica Editora, Lisboa, 1914, p. 118.
- A luzerna é o nome vulgar da Medicago Sativa, erva leguminosa perene da subfamília das papilionadas, com elevado valor nutritivo para produzir forragem para os animais.
- Batalha Gouveia, A Origem dos Nomes – Melgaço, in NOTÍCIAS DE COURA, n.º 152, de 17 de Novembro de 2009, p. 19.
- Pierre David, Études Historiques sur le Galice et Portugal du VI.e XII.e Siècle, Livraria Portugália, Lisboa, 1947.

- Blogue "Escavar em Ruínas". 

sexta-feira, 25 de março de 2016

Antigo Quartel da Guarda Fiscal de Melgaço em fotos dos anos 50

Antigo Quartel da Guarda Fiscal de Melgaço e Torre de menagem (anos 50)

Neste edifício, funcionou durante muito tempo o quartel da Guarda Fiscal. Veja um conjunto de fotografias tiradas em meados da década de 50 do século passado, numa altura em que foi alvo de obras de requalificação. Atualmente, funciona neste edifício o Museu do Cinema do nosso concelho, desde 2005.

Antigo Quartel da Guarda Fiscal de Melgaço (anos 50)

Antigo Quartel da Guarda Fiscal de Melgaço (anos 50)

Antigo Quartel da Guarda Fiscal de Melgaço (anos 50)

Antigo Quartel da Guarda Fiscal de Melgaço (anos 50)


Antigo Quartel da Guarda Fiscal de Melgaço (anos 50)

Antigo Quartel da Guarda Fiscal de Melgaço (atual Museu do Cinema)

sexta-feira, 18 de março de 2016

A Inês Negra numa exortação às mulheres portuguesas nos tempos da Guerra em Angola

Muralha do Praça Forte de Melgaço e estátua alusiva à Inês Negra

Recuamos a 1961. Nos primeiros meses deste ano, acontecem em Angola terríveis massacres que provocam cerca de 800 mortos. Será a gota de água para que Salazar mande avançar tropas para o Ultramar.
Nesta época, a Emissora Nacional é a rádio do regime. Na emissão de 26 de Outubro de 1961, no programa “A Voz de Portugal”, faz uma evocação à coragem e ao patriotismo da Inês Negra, heroína lendária de Melgaço. Os feitos desta corajosa mulher melgacense servem para destacar as qualidades da mulheres portuguesas e de como estas são muito importantes para a Pátria portuguesa na guerra em Angola que acabara de se iniciar.
Ora, leia o guião do programa citado: “Conta-se que, dentro das muralhas de Melgaço havia uma mulher intrépida, partidária dos castelhanos, conhecida por a Arrenegada.
Sabendo que no arraial dos portugueses estava uma patrícia, ousada e valorosa como ela, chamada Inês Negra, desafiou-a para um duelo singular, que logo foi aceite.
Era 3 de Março de 1388.
Começaram o combate com grande fúria, terrível e desesperado, derindo-se as duas com as mãos, as unhas e os dentes, depois de quebradas as armas de que estavam munidas. A agressora ficou vencida e fugiu para dentro da vila. No arraial português, a vitória de Inês Negra foi festejada com ruidosa animação. No dia seguinte, Malgaço caia em poder do rei de Portugal.
Nunca faltaram, ao longo da nossa História, mulheres da Têmpera e do ímpeto patriótico da que se bateu destemidamente pela liberdade e honra de melgaço. Ainda agora, a explosão de terrorismo que ensanguentou o norte de Angola veio pôr àprova a energia moral das mulheres portuguesas, fiéis à centenária tradição nacional e conscientes da responsabilidade que constantemente lhes cabe nos destinos nos destinos da nossa Terra.
Imediatamente a seguir às primeiras horas de angústia em Luanda, a sua ação foi das mais espontâneas  vigorosas. E desde então, nunca mais deixaram de colaborar com as autoridades e organismos de caráter social e humanitário para que fossem atenuadas as dificuldades e as dores dos nossos irmãos sujeitos em Angola às ameaças dos rebeldes.

Como enfermeiras ou como paraquedistas, ou simplesmente como cooperadoras da Cruz Vermelhas, muitas se têm sacrificado com a mais comovente generosidade. E, embora chorando a ausência a ausência dos filhos ou dos noivos, nenhuma tem travado o passo aos soldados na hora da partida para o cumprimento do dever.”


Veja o extrato do guião citado:





sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

Viagem a Melgaço de meados do século XX


Paços do concelho (vila de Melgaço) em meados do século XX

Viaje no tempo e veja ou reveja a vila de Melgaço de outro tempo. Momentos captados na vila de Melgaço em meados do século XX. Cenários que ainda fazem parte das memórias de alguns...
Veja o vídeo!...

sábado, 9 de janeiro de 2016

No tempo das grandes romarias à Senhora da Orada (Melgaço)

Capela da Orada (Melgaço)
Houve um tempo em que a Capela da Nossa Senhora da Orada (Melgaço) era destino de numerosos romeiros que ali vinham depositar os suas oferendas em nome de uma profunda devoção à Senhora da Orada que existia na região. A origem desta adoração à Orada tem origem no século XVI num surto de peste que flagelou a região. Diz-se que algumas terras na região, entre as quais Melgaço, foram poupadas. Em Melgaço, os habitantes contavam que fora a Senhora Orada que tinha livrado os melgacenses da peste.
Numa publicação de 1890, o “Archivo Histórico de Portugal”, faz-se referências ao tempo em que a capela da Orada era visitada por numerosos romeiros devotos em séculos anteriores.  O autor conta-nos que “Tem Melgaço um templo digno de menção, edificado sobre uma elevação sobranceira ao rio Minho, o qual, como se sabe, separa esta villa do reino vizinho. O atrio d’este é atravessado por uma estrada, que vindo da povoação parte para a Galliza.
O templo, da invocação de Nossa Senhora da Orada, é construído de boa cantaria e foi até 1834 da jurisdição dos monges do Convento de Santa Maria de Fiães. Desde a egreja à povoação é a estrada ladeada de formosas hortas, pomares, fontes abundantes de magníficas águas, vistosos campos e casas, o que dá o mais alegre e grato aspeto do sítio.
Do dia da Ascensão até ao domingo do Espírito Santo era outrora muito concorrida a estrada pelos romeiros do concelho de Melgaço, Valladares e Monção, os quais iam oferecer à Virgem da Orada o resíduo pascal, lavando cada freguesia os seus párocos, e ao menos uma pessoa de cada família.
Tinham estas romagens um voto que os povos das mencionadas freguezias fizeram durante uma terrível epidemia  de peste, que, tendo assolado e deixando desertas inúmeras povoações, áquelas não havia causado o mínimo damno.
Hoje, conquanto ainda tenha devotos, não é a egreja procurada como d’antes. A civilização fazendo pouco a pouco no espírito humano tem-lhe ensinado que o verdadeiro templo é a consciência próprio, que todos devem honrar e respeitar como um sanctuário que Deus nos collocou dentro do peito.”
Existe também uma lenda popular alusiva à Senhora da Orada e que remonta ao período da peste. Sendo verdadeira ou não, ajuda-nos a perceber a origem da extrema devoção à Orada nesta região. A lenda diz-nos que "Corria o ano da Graça de Nosso Senhor de 1569, e pelas terras do vale do Minho espalhava-se a peste. Em todas as freguesias as pessoas estavam apavoradas com o terrível flagelo. Ricos e pobres eram atacados por um grande febrão, e ninguém parecia escapar a esta desgraça. Cheios de pavor e de fé, todos se voltavam para os santos, pois só a eles parecia restar o poder para debelar tão grande infortúnio.
Por essa altura, morava no lugar da Assadura, junto da Senhora da Orada, Tomé Anes, mais conhecido como o "Vira-Pipas", pois andava sempre com uma malguinha a mais. Tomé Anes era uma figura alegre, mas um pouco desbocada, quando importunado com a alcunha. Para além de urnas pequenas leiras que amainava, Tomé limpava e arrumava a capela da Senhora da Orada,  trabalho que fazia com muito desvelo e devoção.
Numa certa manhã, como de costume, Tomé foi arranjar a capela. Como era ainda cedo, só tinha tomado o seu «mata-bicho», lá em casa, e uma pequena malga de vinho na tasca da Mirandolina. Chegado à capela, o "Vira-Pipas" quase morreu de susto, pois a imagem da Senhora da Orada não estava no seu lugar, nem em qualquer outro! Vezes acontecia que chegava a ver duas ou três imagens da Senhora, quando a borracheira passava do normal. Não ver nenhuma assustava-o seriamente. Cego não estava! Ainda perguntou à imagem do Senhor S. Brás pela ausente, mas como este não respondeu, pensou que teriam sido os Galegos os autores de tão vil afronta. 
Furioso saiu o "Vira-Pipas" em direcção à vila de Melgaço para comunicar o sucedido ao Alcaide, e disposto a juntar o povo para enfrentar tal desfeita. Ia o Tomé nestes propósitos pela via romana, quando o chamaram da casa do Arrocheíro para dar uma ajuda na trasfega do vinho. Este era trabalho a que nunca se negava o Tomé, já que entre o passar dos cabaços do vinho lá ia bebendo uma pequena malga do apreciado líquido. Depois de muito bebido e comido, deixou-se o "Vira-Pipas" levar pelo sono, de modo que já só noite dentro acordou e contou o sucedido para os lados da Orada ao seu amigo. Conhecendo os hábitos do Tomé, este só se riu, não acreditando em tão fantasiosa história. Mas como o Tomé insistia tanto, concordou em confirmar o acontecido com uma visita à igreja. Ao entrarem, verificaram que a imagem da Virgem estava no seu lugar. O único surpreendido era o "Vira-Pipas"!
No dia seguinte, muito envergonhado, decidiu o Tomé ir à Senhora da Orada mais cedo do que era costume. Para testar as suas capacidades, num grande esforço, não bebeu a sua malguinha de vinho, nem o imprescindível «mata-bicho»! Chegou até a meter a cabeça debaixo da fonte, para dissipar os possíveis vapores alcoólicos do dia anterior.
Na capela verificou que só estava o menino Jesus, sentado, com aquela cara de choro que toda a criança tem quando a mãe não o leva ao colo. Tomé ficou abismado, sem saber o que fazer. Com medo que se rissem dele, não contou a ninguém, preferindo entregar-se ao trabalho, ao ponto dos conhecidos ficarem admirados com tal dedicação. De manhã e à noite ia à capela, e verificou que a senhora da orada voltava à noitinha. Umas vezes levava o menino, outras não. Só o Tomé sabia destas fugas, e pressentiu naquele mistério uma grande responsabilidade. Não lhe passava da ideia o que lhe acontecera, julgando-se destinatário de uma mensagem da Senhora para que abandonasse o consumo do álcool. Por isso, começou a diminuir no vinho, o que a todos surpreendeu!
Enquanto isto sucedia ao pobre do Tomé, em Riba de Mouro no concelho de Monção, os habitantes viraram-se para a milagrosa Senhora da orada a fim de se livrarem da mortífera peste, que por aqueles anos assolava toda a região. Para agradar à Senhora, prometeram uma romagem anual à capela.
Depois de aparecerem os primeiros casos, surgiu na dita freguesia uma senhora, muito bonita e educada, que dizia saber como tratar aquela doença. Ninguém sabia donde ela viera. Entrava na casa das pessoas doentes, mandava fazer um chá com uma planta que trazia no alforge, e, juntando outras ervas, mandava preparar um banho que ela própria passava no corpo do doente, fosse mulher, criança ou homem. Recomendava às pessoas que se lavassem com ervas de Santa Maria e folhas de sabugueiro, que defumassem as casas com alecrim, e lavassem as roupas amiúde. A bondosa dama não tinha mãos a medir! De manha até à noite, não parava de atender os doentes. Não comia nem aceitava convite para ficar à noite com eles. Quando trazia um menino, que dizia ser seu filho, este ajudava a descobrir a erva de Santa Maria e os sabugueiros que o povo não sabia onde mais encontrar.
Entretanto passaram-se quarenta dias, e a peste abrandou. Poucas pessoas sobreviveram ao flagelo, mas em Riba de Mouro ninguém morreu! A senhora que tinha ajudado a população desapareceu tal como havia surgido. Todos se perguntavam agora sobre a identidade daquela misteriosa senhora. Alguém se lembrou, então, que a roupa, e até a fisionomia, eram iguais à da Senhora da Orada!
Nesta certeza, logo partiram em romaria ao seu santuário, agradecendo a protecção. Vendo tal devoção e escutando o sucedido, o Tomé entendeu rapidamente o que lhe tinha sucedido e resolveu contar a todos os desaparecimentos da Senhora naqueles dias anteriores. Agora, todos acreditaram! Os romeiros partiram, espalhando o relato do milagre por todas as freguesias."

Como já foi referido, esta devoção à Senhora da Orada foi-se perdendo ao longo dos tempos e no final do século XIX, o número de romeiros visitantes já não era significativo.



Informações extraídas de: Archivo historico: narrativa da fundação das cidades e villas do reino, seus brazões d'armas, etc. (1890), 2ª Série, Typ. Lealdade, Lisboa.

sábado, 19 de dezembro de 2015

Vila de Melgaço em postal de 1908

Vila de Melgaço no início do séc. XX

Este é um postal de início do século XX. Na frente, encontramos uma foto da vila de Melgaço na época. Este postal foi escrito e enviado do Peso (Melgaço) em 11 de Agosto de 1908 enviado para um senhor de nome António Augusto d' Araújo de S. Gregório (Melgaço). No verso, além da mensagem escrito pelo remetente, reparamos que tem o selo com a face do rei D. Carlos, monarca português assassinado em Fevereiro desse mesmo ano. 


domingo, 22 de novembro de 2015

Praça da República (Melgaço): Uma viagem pelos últimos 100 anos



No início do século XX, era chamada de Praça do Comércio mas com a mudança de regime político, esta praça passou a evocar o regime republicano. Esta é Praça da República na vila de Melgaço!
Conheça as transformações nestes últimos 100 anos neste que é um dos mais bonitos espaços na vila de Melgaço... Veja o vídeo abaixo!

sábado, 24 de outubro de 2015

Melgaço nas notícias da Emissora Nacional em 1960




Viajamos até Melgaço no ano de 1960. Nesta altura, quase ninguém tem televisão e só uns quantos têm um rádio em casa.  
Nestes tempos do Estado Novo, a estação de rádio oficial do regime salazarista era a Emissora Nacional. Entre os seus programas, havia um chamado “A Voz de Portugal” que era emitido em onda curta para o estrangeiro. A emissão do dia 8 de Setembro de 1960, dá um enorme destaque ao concelho de Melgaço. Fala-nos das suas lindas paisagens, das águas milagrosas do Peso e dos melhoramentos operados no concelho pela Câmara Municipal.
Leia as notícias das nossa terra em 1960, no guião deste programa:
“Situada no extremo mais setentrional do país, a vila de Melgaço peca pela distância a que se encontra e só por isso, talvez, não usufrui da fama que, pelas suas múltiplas  variadas belezas naturais, bem merecia, por si e por toda a região circundante. Pode asseverar-se, com plena justiça, que, na gloriosa exuberância do jardim viçoso que é todo o Alto Minho, os foros de Melgaço constituem um canteiro privilegiado de encantos.
Pelos caminhos adustos da serra até ao pitoresco Castro Laboreiro; pela estrada sinuosa que leva até à fronteira de S. Gregório, paralela ao ténue fio de água que é o rio Minho lá ao fundo; nas cavas da montanha; para as bandas do Peso, onde brotam fontes de saúde, por entre renques de cerrada arborização; para qualquer lado que se desviem os passos, a paisagem sublima-se numa grandeza surpreendente e dominadora.
Presentemente, estão em curso obras e melhoramentos de que nos limitaremos a dar ligeiros tópicos, os suficientes para se poder avaliar a importância da atividade camarária. No que diz respeito a estradas municipais, está em curso a construção do segundo lanço da estrada da sede a Alcobaça, por Fiães. Foi a concurso a obra para abertura da estrada da Senhora de Lurdes a Sá (Paços) e está a proceder-se ao levantamento dos projetos para as estradas de Várzea Travessa a Rodeiro (Castro Laboreiro) e de castro Laboreiro aos Portos. Neste momento, estão a decorrer os trabalhos relacionados com o abastecimento de água aos lugares de Aldeia de Cima (Paderne) e de Maninho (Alvaredo).
O plano de recuperação e de construção de edifícios escolares continuam a merecer particular zelo. Já foi adjudicada a construção das escolas de Adofreire (Castro Laboreiro), Além (Paderne) e de Corga (Remoães) e faz-se a aquisição dos terrenos onde vão ser erguidos os novos edifícios escolares de Crasto (Roussas) e da próxima vila. A assistência é, por sua vez, um campo de ação que a municipalidade trata com especial desvelo.
A estância hidrológica do Peso, com toda a maravilha da sua paisagem e dos seus recantos frondosos, é bem o centro de atração desta zona do Alto Minho – também por constituir um aprazível local de repouso onde as comprovadas virtudes curativas das suas águas minerais têm  merecido a benção de muitos doentes que ali procuram alívio para os seus achaques.
Com mais alguns melhoramentos que se projetam – engrandecimento do Peso e uma pousada-, depressa Melgaço conquistará um lugar de relevo, aliás bem merecido, no plano turístico nacional.”


Fonte: Guião do programa “A Voz de Portugal” de 8 de setembro de 1960. In: www.rtp.pt


Veja o Guião do programa na íntegra digitalizado:

















sábado, 5 de setembro de 2015

Mulheres de Melgaço em fúria num funeral (1886)


Recuamos a 1886, numa época que já era proibido enterrar os mortos nas igrejas. Esta estória passou-se às 8 horas e 30 minutos do dia 15 de Fevereiro na igreja matriz de Melgaço.
Era um funeral de um homem. As mulheres cavaram um buraco na igreja para sepultar o defunto mesmo contra a lei. O administrador do concelho tentou impedi-las de concretizar os intentos. Foi cuspido, pontapeado, sovado e escorraçado pelo mulherio. Mandou chamar os soldados. O que se passou de seguida, foi bastante feio. Encontramos tudo contado numa notícia do jornal espanhol “El imparcial”, na sua edição de 25 de Fevereiro de 1886:


Un motim de mujeres
A las ocho y media de la mañana del 15 del corriente, celebrábase en la iglesia parroquial de Melgazo (Portugal) un oficio fúnebre por el alma de un hombre. El cadáver de este se hallaba sobre el tumulo levantado en el templo, y en el templo multitud de mujeres amigas o vecinas del finado.
A una señal convenida, doce de ellas se colocaron al rededor del féretro como para darle guardia de honor, mientras otras, valiéndose de tablas y otros instrumentos comenzaron á cavar la fosa que que habia de ser enterrado el cadáver.
Enterado el alcalde de lo que en el templo ocurría, se dirigió allí aconpañado por algunas personas; pero las mujeres comenzaron á bofetadas y á palos con ellos hasta que los hicieron retroceder. Volvieron á la carga y pudo entrar en la iglesia él alcalde, quien, metido dentro de la fosa abierta, invitó á las mujeres á que se retirasen y dejasen que el muerto fuera enterrado en el cementerio como prescriben las leyes.
Nueva lluvia de bofetadas, mordiscos y tirones de pelo cayó sobre el infeliz alcalde, quién, viendo que era imposible por la fuerza de la razón dominar y convencer á aquéllas furia, apeló a la razón de la fuerza para conseguirlo y mandó llamar á 14 soldados y un sargento.
«Soldados — dijo el sargento, — no tirar contra las mujeres; servirse unicamente de las culatas de las carabinas en caso necesario.»
Aquéllas, más que mujeres demonios, lanzáronse furiosas sobre los soldados, á quienes mordieron, arañaron y patearon. Unas cuantas arrastraron el féretro hacia la fosa, y como á favor de esta horrible contusión habían entrado en la iglesia algunos hombres, uno de éstos, padre del muerto, agarró uno de los santos del altar, y sin considerar el sacrilegio que cometía, furioso lo dejó caer sobre la cabeza del sargento, cuya sangre manchó la cara de la sagrada imagen.
Desde este momento el tumulto adquirió ya sertas proporciones, porque en él tomaron parte los hombres armados con palos, hoces y revólvers.
Sonó un tiro, y uno de los soldados cayó á tierra herido gravemente en la cabeza, y otro soldado también fué herido por una pedrada en la cabeza.
Entonces el sargento reclamó y obtuvo del alcalde permiso para proceder con energía y hacer uso de las armas. Se hizo una descarga al aire, y esto exasperó a las mujeres, que gritaban furiosas: “Tiran com pólvora seca! A ellos! A ellos!”.
Em una nueva arremetida, las mujeres fueron hacia ellos en actitud amenazadora, y entonces se oyó la voz de “Fuego”, alcanzando esta vez, las balas á un infeliz que iba á sacar del tumlto á su mujer, quien cayó muerto en el acto, y á otros varios que fueron heridos, entre los cuales estaba la mujer que aquel desgraciado iba á buscar.
Como los soldados tiraban á dar, el tumulto fué cediendo hasta que se pudo dar sepultura al cadáver en el cementerio.”

Cabeçalho do jornal "El imparcial", edição de 25 de Fevereiro de 1886


Recorte da notícia trancrita (jornal "El imparcial", edição de 25 de Fevereiro de 1886)


Fonte: Jornal "El imparcial", edição de 25 de Fevereiro de 1886, ano XX.

sexta-feira, 29 de maio de 2015

A Hospedaria Melgacense e os seus bifes de Presunto de Melgaço (finais do século XIX)



Em 1886, José Augusto Vieira via publicada a sua obra prima, "O Minho Pittoresco" que nos faz um retrato sobre esta região de Portugal nesta época de finais do século XIX. 
Num tempo em que Melgaço não era conhecido nem pelo seu vinho nem pelas suas águas termais, outra iguaria é destacada nesta época e que dava nome à nossa terra. Era o caso dos bifes de presunto de Melgaço. 
O autor do "Minho Pittoresco" parece ter provado esta iguaria numa hospedaria na vila de Melgaço chamada Hospedaria Melgacense e que nos conta essa experiência no livro: 
"Hotel, em Melgaço, escusas de o procurar, meu amigo. O proprietário da Hospedaria Melgacense, entendeu e entendeu bem, que não precisava abastardar a língua pátria com mais um galicismo inútil para baptizar a sua casa de hóspedes. Podes todavia entrar sem receio n'essa hospedaria honesta e limpa, porque, se te falta na tabuleta o sabor francês da palavra Hotel, não te faltará em compensação à mesa o sabor dos apetitosos bifes de presunto que ali te servem, como um prato especial da terra!
O presunto de Melgaço!
Que epopeia seria necessária para descrever-lhe o paladar fino e delicado, o aroma gratíssimo, a cor de rosa escarlate, a frescura viçosa da fibra!
Houvera-o provado Brillat-Savarin com aquela boa vontade de almoçar que eu e os meus companheiros de viagem levávamos depois d'uma alta madrugada com boas oito horas de trabalho e marcha, e a sua Physiologia do gosto teria hoje de certo o mais suculento e o mais brilhante de todos os seus capítulos!
Alimento sólido e forte, puxavante do verde, que na localidade não tem já o aveludado de Monção, o presunto de Melgaço, conhecido em todo o país, é por assim dizer a síntese da physiologia local. Válido, robusto, ágil, com o sangue puro bem oxigenado a estalar-lhe nas bochechas rosadas, o melgacense genuíno destaca-se dos habitantes dos outros concelhos próximos, a ponto de ser entre estes vulgar a frase de: — Ter cara de presunto de Melgaço — quando se fala de alguém com as boas cores da saúde.
Apesar, porém, de todas as tuas deliciosas qualidades, ó apetitoso quadril suíno, força é esquecer-te, como a todas as coisas boas ou más d'este mundo, a fim de nos bifurcarmos no selim duro dos magros rocinantes, que à porta da hospedaria nos esperam para nos conduzir a Castro Laboreiro."


Vila de Melgaço no livro "Minho Pittoresco" (1886)



Extrato de texto extraído de:
Extraído de: VIEIRA, José Augusto (1886) - O Minho Pittoresco, tomo I, edição da livraria de António Maria Pereira- Editor, Lisboa.

sábado, 18 de abril de 2015

O edifício do Solar do Alvarinho: um pouco de história

O edifício dos Três Arcos, em meados do século XX

Este edifício, também chamado “Edifício dos Três Arcos” situa-se no interior do núcleo medieval da vila, que era circundado pela cerca do castelo. A fachada principal vira-se à chamada Rua Direita, o grande eixo de circulação da cerca, nas extremidades da qual existiam portas, uma delas ainda subsistente, e que era cortada por várias travessas, a que ia do postigo do castelo, a norte, passando junto ao edifício da Câmara. 
Solar do Alvarinho, na atualidade
(Foto: Vitor Oliveira)
Ergue-se adaptado ao declive do terreno, delimitado por vias, pavimentadas a lajes de cantaria e a paralelos, com guias de cantaria formando quadrícula, tendo a travessa fronteira à fachada lateral esquerda acentuado declive. 
O actual edifício resultaria de uma ‘remodelação’ feita no séc. XVII do existente no séc. XVI. O ano de 1687 encontra-se inscrito no brasão da fachada lateral esquerda, provavelmente assinalando a construção ou reforma do edifício.
Segundo Augusto César Esteves, “já no tempo de D. Pedro (1357-1367) havia vereadores em Melgaço”. Mas só foi a partir de 23 de Agosto de 1533 que os “vereadores de Melgaço conseguiram fazer as suas sessões públicas nas salas do paço de concelho”.
No início do século XVI e segundo os desenhos de Duarte d'Armas, a casa de audiência do concelho situava-se junto à porta da vila, numa torre quadrangular do castelo, tendo duas janelas no andar superior, onde os juízes julgavam os prisioneiros ali conduzidos pelo alcaide-pequeno, responsável pelo policiamento da povoação e pela ronda das muralhas.
Sabemos que em Maio de 1758, a vila tinha Câmara, juiz de fora, sujeita ao governo da Justiça do Doutor ouvidor de Barcelos.
Sabemos que em 1836, este era “um edifício sofrível denominado  Paço do Concelho, tendo duas salas, uma cozinha e um quarto bastante decente, e nos baixos deste edifício se acham constituídas as prisões”. Por esta altura, a cadeia de Melgaço continuava a dispor, a par da “prisão dos homens”, de uma “prisão das mulheres”. A prisão das mulheres de Melgaço, por esta altura,  “precisava, entre outros equipamentos e pequenas reparações, de “tarimba, janela de pau rente das grades e reedificarem-se estas”.
Em 1844, a 30 Outubro, o Administrador do Concelho, João António d' Abreu Cunha informa que, apesar de lhe ter sido designado um quarto do edifício do Paço do Concelho para a Secretaria da Administração, ainda não tinha mudado, devido à "pouca capacidade" do mesmo. Solicitava assim, em sessão de Câmara, outra casa maior, para o pronto e decente expediente de seus deveres e segura guarda dos objectos. Decide-se escolher até à próxima sessão a casa mais apropriada. A 5 de Novembro desse mesmo ano, é concretizada a aprovação em sessão ordinária da Câmara da compra da Casa da Administração, fronteira ao edifício dos Paços do Concelho, calculando-se ser necessário para a sua reedificação e objectos primários da secretaria a despesa de 225$000.
Em finais do século XIX ou inícios do século XX será a época provável da feitura ou pintura do tecto do salão nobre, alusiva ao funcionamento do Tribunal da Comarca no edifício, mantendo-se no piso térreo a cadeia, masculina e feminina.
Em inícios do século XX é feita a ampliação da cadeia que ainda aqui funcionava em 1945.
Em Junho de 1955, é feita, para este edifício, a transferência das aulas de instrução primária, devido ao abandono do edifício da Escola Conde de Ferreira, que se erguia na Praça da República, e que apresentava muitos indícios de ruína. Posteriormente, aqui esteve instalado a Junta de Freguesia da Vila e a Biblioteca Municipal. Em 1965, a Direcção Geral dos Serviços de Urbanização Direcção dos Serviços de Melhoramentos Urbanos envia ao Director Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais um exemplar do ante projecto da obra de adaptação dos antigos Paços para instalação de Serviços Públicos para avaliação.
Em 1997, a 8 Agosto, é feita a inauguração oficial do Solar do Alvarinho, com a presença do Secretário de Estado do Comércio e Turismo, Dr. Jaime Serrão Andrez.

Este edifício possui uma planta rectangular, simples, com cobertura homogénea em telhados de quatro águas. Fachadas em cantaria de granito aparente, de aparelho irregular, e de dois pisos, com cunhais apilastrados e terminadas em cornija em papo de rola sobreposta por beirada simples. Fachada principal virada a norte, de dois panos, definidos por pilastra toscana, o pano direito rasgado no piso térreo por janela rectangular, gradeada, e no segundo por duas janelas de peitoril, rectilíneas, com molduras simples e caixilharia de guilhotina. Ao centro das janelas, surge um brasão nacional, já muito delido, encimado por coronel. O pano esquerdo forma, juntamente com a fachada lateral esquerda, alpendre, aberto com dois arcos de volta perfeita assentes em três colunas toscanas, as laterais embebidas nos pilares. Na zona do arco direito, desenvolve-se escada, com guarda em ferro, de acesso a dois portais, um frontal e outro lateral, ambos de molduras simples. No pano frontal rasgam-se ainda janela de varandim, com guarda de ferro, e, inferiormente, janela quadrangular, moldurada e gradeada. O alpendre possui pavimento rebaixado em lajes de cantaria e tecto plano em madeira, com travejamento e friso do mesmo material. A fachada lateral esquerda possui dois falsos panos, o direito rasgado por arco de volta perfeita sobre duas colunas embebidas, de acesso ao alpendre, e o esquerdo, mais comprido, rasgado, no piso térreo, por portal de verga recta e janela rectangular, gradeada, e, no segundo, por duas janelas de peitoril, molduradas, com caixilharia de guilhotina. Ao centro, possui igualmente brasão com as armas nacionais, datado de 1687, encimado por coroa fechada. Fachada lateral direita rasgada regularmente por vãos rectilíneos moldurados, sobrepostos, abrindo-se no primeiro piso dois portais ladeando duas janelas de peitoril, com caixilharia de guilhotina, e, no segundo, quatro janelas, semelhantes. Fachada posterior com aparelho muito irregular, abrindo-se no primeiro piso uma janela de peitoril e uma rectangular jacente e, no segundo, três janelas de peitoril com caixilharia de guilhotina. Pela fachada lateral esquerda, acede-se ao interior do piso térreo, subdividido em duas salas, interligadas por porta rectilínea e com tectos em placas de gesso cartonado, integrando projectores. A primeira, inicialmente destinada a cadeia das mulheres e actualmente com serviço de cafetaria, apresenta pavimento em lajes de cantaria, com estrado de madeira na zona da entrada, onde tem guarda-vento envidraçado, e em soalho flutuante na restante, e paredes rebocadas e pintadas de branco. O tecto apoia-se numa viga em T de ferro. Ao fundo, desenvolve-se escada de acesso ao piso superior. A segunda sala, inicialmente destinada a cadeia de homens e agora para venda de produtos regionais, tem pavimento cerâmico e paredes em cantaria aparente, conservando na parede interior antigo mictório. O piso superior é igualmente subdividido em duas salas, com as paredes rebocadas e pintadas de branco, pavimento em soalho flutuante e rodapé de madeira e janelas de peitoril interiormente com vão alto. A sala de prova, com tecto de madeira, em gamela, tem acesso pela escada do alpendre, protegido por guarda-vento envidraçado, e um espaço de atendimento personalizado, onde se encontra diversa informação sobre o vinho Alvarinho e a sua região. 

Teto da sala do segundo piso


Através de porta rectilínea, esta sala comunica com o salão nobre, destinada a actos culturais, recepções e reuniões, o qual tem tecto de gamela, pintado de branco e, o pano central, a azul, onde se inscreve cartela oval, decorada com motivos fitomórficos, tendo nos topos açafate de flores, e integrando ao centro a representação da Justiça, com os olhos vendados e segurando a balança e a espada, e um brasão com pelicano, coroado, suspenso por anjo.


Informações extraídas de:
- CAETANO,Carlos Manuel Ferreira (2011) - As Casas da Câmara dos Concelhos Portugueses e a Monumentalização do Poder Local (Séculos XIV a XVIII). Volume I. Dissertação de Doutoramento em História da Arte Moderna; Faculdade de Ciências Sociais e Humanas; Universidade Nova de Lisboa; Lisboa.
ESTEVES, Augusto César (1957) - Melgaço, Sentinela do Alto Minho. 1.ª Parte. Das Origens ao Liberalismo, Tipografia "Melgacence", Melgaço.
- MARQUES, José, (2003) - Vereações da Câmara Municipal de Melgaço - 1844 in Boletim Cultural de Melgaço, Melgaço, 2002, pp. 267 -334; ESTEVES, Augusto César, Obras Completas, vol. 1, tomo 1, Melgaço.
- www.monumentos.pt.