sábado, 16 de junho de 2012

Quem foi S. Paio, aliás, Pelágio?

S.Paio, nasceu na Galiza, numa povoação chamada Albeos, talvez no ano 912, e foi baptizado com o nome de Pelágio. Cresceu no seio de uma família abastada, o seu pai era um homem rico, e o seu tio, Hermigio, era na altura, bispo de Tuy.
Vivia feliz com a sua família, na escola procurava estudar o melhor que podia e recebia aulas de latim do tio. Nasceu a 26 de Junho, numa terra nas margens do rio Minho, muito perto de Portugal. Nesse mesmo ano, começava a reinar em Córdova, Abderrmão III. Este quis assenhorar-se das restantes províncias de Espanha habitadas por cristãos, onde os bispos eram quase os reis. Em 920 chama em seu auxilio os Mouros de África e travaram intensas lutas contra os Reis de Leon, Navarra e os bispos. Com um exército numeroso e bem equipado partiram á conquista de Castela onde os cristãos cometeram um erro enorme, em vez de esperarem nas colinas que conheciam muito bem, enfrentaram-nos directamente. Em vez de confiarem em Deus confiaram somente na sua força.Os muçulmanos fizeram muitos prisioneiros entre os quais o seu tio Hermigio. Este na tentativa de satisfazer as exigências dos opressores e na tentativa de angariar dinheiro para pagar o seu resgate troca de lugar com o pequeno Pelágio de apenas 9 anos.
No cativeiro a sua maior força vinha de Deus e da meditação do trabalho apostólico de S. Paulo, tentava sempre com isso animar os seus irmãos de sofrimento naquele mundo cruel e assim passou 3 longos anos!Um dia, um filho de Abderramão avisou o pai, e levou-o à sua presença. Pelágio logo percebeu as torpes intenções que lhe prometiam grandes ofertas e riquezas em troca da renuncia aos valores que o orientavam e o seu afastamento do amor a Jesus Cristo. Então Pelágio respondeu:
“Fica sabendo que tudo quanto me ofereces tem um fim mortal; desde cedo que vivo numa masmorra mas sempre tive o coração de um homem livre. Prometes-me liberdade para cair numa escravidão maior: livre por fora, escravo por dentro. Queres fazer de mim um escravo das tuas crenças, do dinheiro e do sexo. Guarda os teus presentes que eu guardo a minha fé e a minha dignidade.”O menino não cedia a quaisquer intentos do rei e este ardendo em cólera mandou-o torturar, até que negasse Deus, mas ele apenas orava pelos seus inimigos e pedia a Deus fortaleza para não voltar atrás e para consumar o seu sacrifício, e dele, por graça de Deus, nada obtiveram e Abderramão mandou-o matar, despedaçando o seu corpo e arrojá-lo ao Guadalquivir, corria o dia 26 de Junho de 925. O menino Pelágio tinha 13 anos de idade.E desde então Pelágio permanece sempre jovem, sempre vivo com todos os santos de Deus

A freguesia de S. Paio: Raízes da terra e do seu antigo mosteiro

   A origem do seu topónimo parece óbvia, vem do seu padroeiro, S. Paio.
Fez, em tempos recuados, parte integrante da vizinha freguesia de Pademe. Por sua vez, na época medieval, de S. Paio vieram a desmembrar-se Prado e Remoães, que se erigiram em freguesias autónomas. Santa Maria da Porta (a actual Vila) absorveu Santa Maria do Campo e S. Fagundo.
No Inventário Colectivo dos registros Paroquiais Vol. 2 Norte Arquivos Nacionais /Torre do Tombo, pode ler-se textualmente:
« A história desta igreja está associada à do mosteiro beneditino de São Paio de Paderne. Em Junho de 1071, a infanta D. Urraca doou a Santiago de Compostela metade deste mosteiro e da vila do Prado. Posteriormente, em 1118, Ónega Fernandes doou à Sé de Tui a quarta parte do mosteiro de São Paio, em reparação por seu filho ter assassinado um homem na igreja de Penso (v. Padre Avelino J. da Costa).
Em 1125, D. Teresa confirmou à Sé de Tui a doação do rei Teodomiro, na qual se incluía esta igreja. Na divisão das igrejas e arcediagados da diocese de Tui, em 1156, coube ao Cabido o mosteiro de São Paio de Paderne, da terra de Valadares. Não há referências ao mosteiro, posteriores a esta data, mas apenas à igreja de São Paio de Paderne.
As Inquirições de D. Afonso III, de 1258, situam-na 110 couto de Melgaço, da colação de São Paio de Paderne.
O rei detinha um quarto do seu padroado. No catálogo das igrejas situadas ao norte do rio Lima, que o rei D. Dinis mandou organizar, em 1320, para a determinação da taxa a pagar, a igreja de São Paio de Paderne foi taxada em 40 libras. Enquadrava-se nessa época na terra de Valadares.
No título dos rendimentos dos benefícios eclesiásticos da comarca de Valença, organizado entre 1514 e 1532, sendo arcebispo D. Diogo de Sousa, continua a não se fazer referência a São Paio de Melgaço. Aparece apenas o mosteiro de Paderne com o rendimento de 714 réis e meio. No registo da avaliação de 1546, feito no tempo de D. Manuel de Sousa, no título respeitante à "terra da vila de Melgaço", é referida a câmara de São Paio que, em conjunto com a metade da igreja do Prado, pertencente ao arcebispo, e "'hua terça do castello", valia 100 mil réis. Diz-se mais no aludido documento, que a vigairaria perpétua deste benefício rendia 15 mil réis.
Na cópia de 1580 do Censual de D. Frei Baltasar Limpo, a câmara arcebispal de São Paio. anexa perpetuamente à mesa arcebispal, era também anexa a São Lourenço do Prado. Américo Costa descreve-a como abadia da apresentação do Ordinário, situando-a na freguesia de São Paio, concelho e comarca de Melgaço, distrito de Viana do Castelo.
Em termos administrativos, pertenceu, em 1839, à comarca de Monção e, em 1874, à de Melgaço. No censo de 1864 figura sob a designação de Melgaço - São Paio e, nos de 1878 a 1930 como São Paio de Melgaço. Pelo decreto-lei n " 27424, de 31 de Dezembro de 1936, passou a ter a actual designação.»
Freguesia com mais de uma vintena de lugares, conta com 636 habitantes, de acordo com os números dos Censos 2001.
Segundo a “Corografia Portuguesa”, em 1706 tinha 200 fogos. No ano de 1862, a “Estatística Paroquial” regista 280 fogos e 990 habitantes. Dois anos depois, a “Estatística Civil” anota quase que uma duplicação: 1 867 habitantes. A “Corografia Portuguesa” de 1868 fala já de 345 fogos. Em 1878, o autor de “O Minho Pitoresco” refere 295 fogos e 1 051 habitantes. Inicia-se então a era dos censos: o do ano de 1890 aponta 250 fogos e 1 031 habitantes; em 1900 — 260 e 1020; em 1911, 284 e 1045; em 1920 — 254 e 1043; em 1930 — 260 e 1098; em 1940—315 e 1312; e, finalmente, no ano de 1981 contabilizava 995 residentes.
Quanto ao património edificado refira-se o cruzeiro do Regueiro e as capelas da Senhora dos Aflitos de S. Bento e de Santo André. A Igreja Paroquial é de construção recente, mas tem no seu interior uns interessantes retábulos e outras imagens dos séc. XVI e XVII que pertenceram à antiga matriz. Esta antiga matriz era um dos raros espécimes do estilo das igrejas da Provença , no Sul de França — e, em Portugal, única no seu género —, mas, infelizmente, foi destruída em 1930. No templo de hoje, vulgar, permanecem apenas alguns interessantes retábulos e algumas imagens dos séculos XVI e XVII.
Actual igreja paroquial da freguesia de S.Paio

Tomás das Quingostas: herói do povo ou salteador? II





O Tomaz das Quingostas, romance histórico dedicado a esta personagem

Na continuação do texto anterior...
"O ano de 1834 foi marcado pela detenção de salteadores e guerrilheiros, sobretudo no concelho de Melgaço, devido à acção enérgica encetada pelo provedor daquele concelho contra o banditismo. Assim, em Dezembro de 1834, foram presos mais dois salteadores de renome: Manuel José Rodrigues, alcunhado “o Forno”, e Manuel António Gonçalves, conhecido como sócio número um da extinta quadrilha liderada por Manuel Veloso e sócio número dois de Tomás das Quingostas.
Por esta altura, Quingostas vagueava com os seus seguidores pela Galiza, onde praticavam todo o tipo de depredações. Quando passava a Portugal, reunia-se com os seus apaniguados no lugar de São Gregório, em Melgaço, e em diversos locais do concelho de Valadares, nomeadamente nas freguesias de Penso, São Martinho e Paderne.
Em 1834, ainda não estava claramente definida a veia política desta organização criminosa, sendo encarada como mais uma quadrilha de ladrões, na linha das que já existiam no sistema político anterior. Este raciocínio pode depreender-se das palavras do sub-prefeito de Monção ao tentar caracterizar a sua actividade na Galiza, afirmando que
“[…] Não he de estranhar que aquella quadrilha pratique semelhantes attentados na Galiza quando muitos dos seus capatazes estão no costume de hirem as villas ameaçar as uthoridades, quando sabem que elas querem proceder contra elles, o que acontecia frequentemente nesta comarca no tempo do Usurpador, e que já mesmo que depois de Aclamado o Legitimo Governo teve lugar.”
Estas palavras são reveladoras de um equilíbrio político muito frágil nos concelhos raianos do distrito de Viana do Castelo, submetidos à pressão de criminosos, mas para o qual  também contribuía uma conjuntura que permitia a sua insubmissão."

in "ESTEVES, Alexandra Patrícia Lopes (2010) - Entre o crime e a cadeia: violência e marginalidade no Alto Minho (1732 - 1870). Tese de Doutoramento, Universidade do Minho, Instituto de Ciências Sociais.





(CONTINUA...)

Tomás das Quingostas: herói do povo ou salteador? I




Uma das figuras mais famosas da freguesia de S. Paio é o chamado Tomás das Quingostas. Admirado no Alto Minho mas também na Galiza. Idolatrado por uns e odiado por outros, a verdade é que cresci a ouvir histórias da minha avó materna (nascida na primeira década do século XX) que ela própria tinha ouvido de familiares mais idosos ainda em criança. Chamar "Tomás" ou dizer "És pior que o Tomás" era algo insultuoso quando eu ainda era criança...
Ainda há poucas décadas, não havia certezas da sua existência. Era uma personagem lendária. Na verdade havia uma notável falta de estudos que comprovassem a sua existência. Nas últimas décadas, há uma série de estudos que comprovam claramente a sua existência e a sua importância durante a guerra civil entre absolutistas e liberais na primeira metade do século XIX.
Alexandra Patricia Lopes Esteves, professora da Universidade do Minho, dedica-lhe especial atenção na sua tese de doutoramento "Entre o crime e a cadeia: violência e marginalidade no Alto Minho (1732 - 1870)" onde reconstitui o principal da sua bibliografia da qual deixarei aqui o essencial...


            Penha de Anaman - refúgio frequente do Tomas das Quingostas na Galiza
Tomás das Quingostas, vulgo de Tomás Joaquim Codeço, nasceu na aldeia de S. Paio, concelho de Melgaço, tendo sido baptizado, em 15 de Agosto de 1808, com nome de Tomás de Aquina. Nasceu no seio de uma família relativamente abastada de agricultores, tendo frequentado a escola.

Esteve detido na cadeia da Relação do Porto até à entrada das tropas comandadas por D. Pedro naquela cidade, sendo conhecido já na década de vinte do século XIX como bandido e membro de um bando que atacava na região de Melgaço. Posteriormente, regressou à sua aldeia natal onde se dedicou ao crime. Em 1834, evadiu-se das cadeias de Lamego, instalando-se novamente no concelho de Melgaço, circulando entre este e o de Valadares, no qual permanecia a maior parte do tempo, alternando com temporadas na Galiza, onde se dedicava ao bandoleirismo, cometendo roubos, agressões e assassinatos.



As primeiras alusões a Tomás das Quingostas, que encontrámos na documentação produzida pelas autoridades administrativas, datam de Novembro de 1834. Embora se trate de uma referência indirecta, o seu nome surgia associado ao de Luís José Caldas, de quem se dizia ser parceiro.
Luís José Caldas, conhecido guerrilheiro, estava na altura preso na cadeia de Valadares. Considerando-se que aquele estabelecimento prisional não reunia condições para albergar um preso de tão elevada perigosidade, determinou-se a sua transferência para Valença.
Todavia, o detido foi fuzilado pela escolta militar que o acompanhava. A morte de Luís Castro Caldas não foi bem recebida pelas instâncias superiores, que tentaram atribuir ao provedor de Melgaço, responsável pela sua captura, a culpa pelo sucedido.
De facto, os constantes fuzilamentos praticados pelas escoltas militares estavam a contribuir para a descredibilização do regime recém-implantado, numa região que revelava fortes resistências ao liberalismo, parecendo haver uma intenção mais teórica do que prática de demarcação “entre o governo legítimo e o da usurpação”.
Por isso, era necessário acabar com as execuções sumárias de presos e com as represálias que os vencedores da guerra civil estavam a praticar sobre os vencidos.
Maria de Fátima de Sá e Melo Ferreira inclui Luís Castro Caldas entre os perseguidos, no concelho de Melgaço, no período compreendido entre Abril e Maio de 1834, por guerrearem contra a causa liberal. Outros dos procurados como chefes de guerrilhas eram Caetano da Ponte, o chamado “Vasconcelos”, Pitta Bezerra e, finalmente, Tomás das Quingostas.      

(CONTINUA...)

Saudações...


Este novo espaço pretende ser um instrumento de divulgação de tudo aquilo que diz respeito a Melgaço e a nós, melgacenses.
Sou um melgacense de S. Paio e tal como eu muitos de vós tiveram que abandonar a terra pelas mais variadas razões mas todos nós deixamos lá o coração e mais do que nunca achamos esta terra uma beleza.
Por isso, é também um olhar de fora para este concelho que tem perdido nas últimas décadas o que têm de melhor, as suas gentes. Uma Terra onde o sossego dos Invernos é quase fantasmagórica e contrasta com a fugaz e alegre confusão de Verão. Quando se aproxima o fim de Agosto, volta a ser inundada de uma melancolia que resiste até ao próximo Verão
De onde vimos? É uma pergunta que cuja resposta é complicada mas ajuda a perceber aquilo que somos. De que massa é que somos feitos...
Veremos o que sai daqui. Deste espaço...