Cruzeiro
quinhentista, localizado no lugar do Cruzeiro,
freguesia de S. Paio, concelho de Melgaço. Construído em granito, é composto por base de três
degraus rectangulares sobre a qual assenta plinto superiormente facetado
apresentando-se com a data de MDLVII (1557) numa das faces. O fuste,
inicialmente de secção quadrada, passa depois a ser hexagonal até ao capitel
decorado com ornatos vegetalistas. Cruz com braços em toros e ostentando a
imagem de Cristo.
|
segunda-feira, 9 de julho de 2012
O Cruzeiro Paroquial de S. Paio (Melgaço)
domingo, 8 de julho de 2012
Vikings em Melgaço?
Há alguns anos foram descobertas no Monte de Prado, na encosta ribeirinha, no
meio da vegetação desordenada, algumas esculturas de monstros, com semelhanças
surpreendentes com as proas dos barcos Vikings, cujas incursões eram frequentes
na zona litoral de Portugal e Galiza. Presença viking nas terras de Melgaço? Era uma assunto completamente desconhecido que tem movido estudos de especialistas portugueses, espanhóis e noruegueses.

O povo viking é um dos mais temíveis de toda a história militar e saquearam várias regiões desde o norte da Europa até ao Mediterrâneo e Mar Negro, chegando a atacar Constantinopla.
Na Península Ibérica, inúmeros ataques estão documentados. Em 840, um número indeterminado de embarcações bordearam a costa galega e asturiana até chegar à actual Torre de Hércules - torre e farol situado na península da cidade da Corunha em Espanha - (o seu grande tamanho deve ter-lhes parecido importante) e saquearam a pequena aldeia situada a seus pés. Ordonho I teve notícias da expedição e convocou o seu exército para fazer frente à incursão, derrotando os vikings e recuperando boa parte da pilhagem. Mandou afundar entre sessenta e setenta dos seus barcos, o que não deve ter sido uma grande vitória como demonstra o facto de que seguiram a sua campanha de saques. Em Lisboa os cronistas falam de uma esquadra composta por 53 baixéis.
No ano 844 outra expedição normanda arrasa a cidade de Gijón e segue a costa atlântica até chegar a Lisboa e atacá-la. Em seguida tomaram Cádiz e subiram de novo pelo Guadalquivir, saqueando minuciosamente Sevilha durante 7 dias, a partir da qual lançaram ataques por terra. No entanto, quando Abderramão II saiu com os seus homens, e após algumas batalhas, os vikings viram que não podiam vencer a força andalusa e fugiram, abandonando Sevilha e deixando muitos para trás, que se renderam às forças do Emir. Destes, os mais afortunados acabaram criando cavalos ou fazendo queijo, os menos com o velho castigo para a pirataria: enforcados.
Durante o reinado de Afonso III das Astúrias, os vikings chegaram a cortar as comunicações navais com o resto de Europa. O historiador e hispanista Richard Fletcher menciona pelo menos duas incursões assinaláveis na Galiza em 844 e 858.
| Afonso III estava bastante preocupado pela ameaça dos vikings para estabelecer postos fortificados na costa, como faziam outros reis. |
Em 858 os normandos sobem pelo Ebro desde Tortosa, sobem-no até ao Reino de Navarra, deixando atrás as inexpugnáveis cidades de Saragoça e Tudela, seguem depois pelo seu afluente, o rio Aragão até encontrarem o rio Arga, o qual também sobem, chegando até Pamplona que saqueiam, raptando ao rei navarro. Uma expedição similar ataca Orihuela a partir do rio Segura. Em 859, os vikings chegam de novo a Pamplona e sequestram o novo rei Garcia I Iñíguez.
Como consequência destes ataques, em 859 tentou-se detê-los de novo. Ampliou-se o porto de Sevilha e aumentou-se a frota de vigilância marítima sob os reinados de Abderramão III e Alhakén II. Abderramão II, ante as incursões normandas, constrói os Ribat, fortalezas nas desembocaduras fluviais, entre estas as denominadas hoje em dia São Carlos da Rápita em Tarragona, La Rábida no rio Tinto de Huelva; La Rábita em Granada, entre as desembocaduras do rio Grande e o Guadalfeo, etc.
Em 968 o Bispo Sisnando de Santiago de Compostela foi assassinado e o mosteiro de Curtis saqueado, tendo de se tomar medidas para defender a cidade interior de Lugo (Espanha). O saque de Tui no século XI deixaria o cargo episcopal da cidade vazio por meio século.A montante no rio Minho,já na margem esquerda,nas arribas ribeirinhas de Melgaço, existem no monte do Prado,dezenas de misteriosas e grandes cabeças de figuras fantásticas,iguais às que os vikings esculpiam, pensam alguns historiadores terem esta origem. A captura e sequestro de reféns para pedir um resgate também foi prática comum: Fletcher menciona o pagamento de Amarelo Mestáliz para garantir a segurança da sua terra e resgatar as suas filhas, capturadas em 1015. O bispo Crescónio de Compostela (1036–66) repeliu ainda outro ataque viking e mandou construir as Torres do Oeste (Catoira) como fortaleza naval para proteger Compostela. A Póvoa de Varzim, no norte de Portugal, foi colonizada pelos vikings; a cidade de Braga muitas vezes saqueada, bem como todo o vale e localidades do vale do rio Cávado,com tanta frequência, que motivou a construção das impressionantes muralhas da cidade de Guimarães.
Também a cidade do Porto e o vale do rio Douro. Lisboa sofreu ataques de grande importância. Mais contundente foi o conde Gonçalo Sancho que destruiu toda a frota de Gunrod da Noruega; o conde Sancho capturou e esfaqueou toda a tripulação e seu rei.
Não se sabe com certeza a causa ou causas que terminaram com os ataques vikings. Alguns autores opinam que a aceitação da fé cristã por volta do ano 1000 pela maioria destes, atenuou o seu desejo de atacar a seus correligionários. Também se aponta que as incursões só constituíam uma moda e que terminaram quando já não foram novidade. De qualquer modo os reinos nórdicos desejavam cada vez mais abrir-se ao resto de Europa e comerciar com eles em lugar de os invadir. Como exemplo está o caso do rei castelhano Afonso X de Leão e Castela que casou o seu irmão Fernando com a princesa Cristina da Noruega a 31 de Março de 1252, porque o dito casamento era conveniente tanto para Afonso X como para Haakon IV.
Informações recolhidas em:
- MORENO, Eduardo Morais (2006), Os vikings em Espanha, nº 12 de História de Iberia Velha, HRH Editores, Madrid.
- FLETCHER (1984). ch. 1, note 51- HERREN, Ricardo (2003) - Uma capilla para a princesa vikinga, nº 54 de A aventura da História, Arlanza Edições, Madrid.
sábado, 7 de julho de 2012
Melgacenses para a História: Jerónimo José Nogueira de Andrade (militar e inventor)
Jerônimo José
Nogueira de Andrade, nasceu em Melgaço em 1748. Era filho de Francisco Daniel
Nogueira, médico do exército e de D.Mariana Josefa Veloso de Campos Andrade.
Teve uma educação católica e foi casado com D.Caetana Gregória Nogueira de
Carvalho, Assentou praça em soldado no Regimento de Artilharia do Porto em 1 de
Janeiro de 1779, sendo sucessivamente 2º Tenente de Bombardeiros do Regimento
de artilharia da Marinha em 21 de Janeiro de 1779, prestando serviço na
Capitania de Moçambique, Capitão em 4 de Março de 1782, prestando serviço na
Capitania de Moçambique, Sargento-Mor do Regimento de Artilharia da Marinha em
13 de Dezembro de 1791, Tenente-Coronel do Regimento de Artilharia do Algarve
em 7 de Novembro de 1797, Coronel do Regimento de Artilharia do Alentejo
(Estremoz) em 17 de Dezembro de 1799 e Brigadeiro em 14 de Fevereiro de 1803,
sendo Comandante das tropas e Inspector Geral das Fortificações da Capitania do
Pará.
Enquanto
Tenente-Coronel, em 17 de Novembro de 1795, fez parte de um Conselho de Guerra
em que foi presidente. Foi aluno da Academia Militar do Rio de Janeiro e de
1782 a 1784 (?) foi Secretário do Governo de Moçambique "por concorrerem nele
todas as necessárias circunstâncias para o dito ministério..." segundo
provisão de Saldanha de Albuquerque de 11 de Março de 1783, na altura
Capitão-General de Moçambique, e de cujas idéias Nogueira de Andrade foi
entusiástico defensor.
Em 1790,
cumpridas as missões de Inspecção Geral das Fortificações de Moçambique,
Nogueira de Andrade regressa a Portugal e em 1791 mora na Quinta da Mineira,
Estrada do Convento de São Cornélio ao Poço do Bispo.
Homem do seu
tempo, não podia deixar de participar de uma mentalidade racionalista e de uma
filosofia das luzes, unindo à inspiração humanista, uma ideologia do
desenvolvimento. Nesta altura, a Maçonaria, institiução que vinha na linha das
grandes Academias estrangeiras do séc. XVIII, provavelmente num desígnio
unificador da Europa, forma uma rede que cobre todo o território europeu,
incluindo Portugal. Congregando a "intelligenzia" e os nomes mais
prestigiados da aristocracia e da alta burguesia, não era fácil para todos os
que exerciam funções relevantes em qualquer área do saber, não aderirem ao seu
fascínio. E Jerônimo José, não fugiu à regra. Foi iniciado na Maçonaria em
1790, talvez em Setembro, numa Loja situada em Marvila, proposto por José
Joaquim da Costa, mas em 5 de Dezembro de 1791 acusado da prática de maçonaria,
denunciou-se à Inquisição bem como a outros Irmãos.
Documento manuscrito lavrado por Jerónimo de Andrade dirigido à Inquisição onde se denuncia
(pode ser consultado em ficheiro TIFF de alta definição em http://digitarq.dgarq.gov.pt/Controls/vaultimage/?id=0CABB858FFC09EBA4059879D603F9BE7&r=0&ww=1000&wh=600)
Jerônimo José
Nogueira de Andrade é conhecido como autor da obra intitulada "Descripção
do estado em que ficarão os negócios da Capitania de Mossambique nos fins de
Novembro de 1789, com algumas observaçoens, e reflexoens sobre os mesmos
negócios, e sobre as cauzas da decadência do Commercio, e dos Estabelecimentos Portuguezes
na Costa Oriental d'Africa escriptos no anno de 1790", publicada no
Investigador Portuguez em 1815 e no Arquivo das Colônias em 1917. O exemplar
original, encontra-se manuscrito na Biblioteca Nacional, Divisão dos
Reservados, com a cota (COD 808), Trata-se de um extenso relatório, minucioso,
bem elaborado, primorosamente ilustrado com 10 desenhos aguarelados de modelos
de uniformes militares e dois planos cartográficos, um da Barra da Ilha de Moçambique
e outro dos quartéis da fortaleza da mesma Ilha.
É de facto um
importante trabalho que merece, a nosso ver, uma consideração toda especial no
campo da história colonial portuguesa. Todo o seu discurso revela uma profunda
lucidez e espírito crítico que não esconde, quando censura as
"podres" "e mal começadas" estruturas das fortalezas, os
prejuízos de uma má administração "do cabedal" da Fazenda Pública,
chegando mesmo a declarar, em relação ao Porto da Baía de Lourenço Marques, que
"tiido quanto ali existe nada presta". Quanto ao Comércio, afirma que
está na mão dos estrangeiros e aconselha o Rei a tomar providências no sentido
de tirar benefícios do investimento que fez, mandando para Ia pessoal
qualificado e meios materiais. Critica a má qualidade e a baixa condição dos
homens brancos degradados que são enviados para Moçambique que cuidam logo em
promover-se a grandes senhores com "pomposos ti'tijlos" e da mesma
maneira a "incrível preguiça" dos negros. Faz também ásperas censuras
ao Governador João Pereira da Silva Barba.
Diz Fritz Hoppe,
na sua obra "A África Oriental Portuguesa no tempo do Marquês de
Pombal": "A importância fundamental da memória de Nogueira de Andrade
reside no facto de ele recusar ao Governo Central e à Administração da índia
Portuguesa o direito de darem instruções de caracter obrigatório para o
Comércio da África Oriental Portuguesa, uma vez que eram deficientes os seus conhecimentos
das relações e necessidades comerciais locais leste-africanas."
A sua
meticulosidade descritiva é tão grande e tão viva que em notas de roda pé, faz
observações e explica o significado da terminologia indígena que aqui ou ali se
utiliza. Interessa-se por relatar coma maior frontalidade, espada desembainhada
e preocupada exactidão dos factos a alta corrupção da administração pública, a
precaridade da situação social, econômica, judicial, religiosa e militar,
sempre numa intenção de crítica construtiva, apresentando, por isso, pareceres
e propostas de solução para corrigir o que, na sua óptica, estava errado.
Mas para além
desta obra. Nogueira de Andrade é também autor do 'Trojecto de huma nova arma
Portugueza. Anno de 1796.
Por Jerônimo
Joze Nogueira d'Andrade Sargento Maior do Regimento de Artilharia da
Marinha".
Este manuscrito,
com a cota COD 7665, da Biblioteca Nacional, Divisão dos Reservados,
caracterizado pela meticulosidade habitual do seu autor, descreve a construção
de uma arma balística denominada "foguete incendiário". Ele próprio
diz na "Prefação" "Proponho-me a descrever a construção a
fábrica, e o úzo de huma arma Portugueza totalmente nova, e sendo Eu o
primeiro, que me tenho lembrado depor em pratica o úzo dos Foguetes arremeçados
pellas armas de fogo, sôu por isso mesmo o Inventor desta nova arma, e o
Creador de todos os instrumentos que positivamente imaginei e mandei formar
para a sua fábrica" e mais adiante, depois de referir a utilidade desta
arma em combates quer em terra quer no mar, acredita que os oficiais do corpo da
Real Marinha "não desestimarão esta descuberta, em que se lhes oferece
huma nova arma offenciva: Arma Nacional que as outras Naçoens não
conhecem".
Nogueira de
Andrade, ele próprio, depois de inventar o foguete incendiário experimentou-o com
êxito, e pretende partilhá-lo com aqueles a quem se dirige, dizendo:
"Ajunto no fim destes Planos os Mappas das ultimas experiências que eu
fiz, e quem quizer tomar o trabalho de combinállos; verá; que os tiros
corresponderão em parallelo com os das lanternetas ordinárias. Nesta certeza;
pareceme; que a descuberta vale a penna de ser olhada com alguma atenção para
sêr posta em úzo; e suppôsto que Eu estou inteiramente persuadido de que esta
arma deve sêr adoptada para as acçõens de guerra, tanto terrestre como
marítima; com tudo dou-me por suspeito, pelo receio de que acúzem o mêu amor
próprio; e por que conheço, que todas as expeculaçõens neste gênero devem ser
confirmadas pela experiência para se poder segurar e convencer da sua
utilidade, e valor para o Serviço. Para
os Signáes a bordo dos Navios podem estes Foguetes servir muito milhôr que as
Tigêlinhas de fogo; pois são mais baratos, e superiores em effeito; e para os
Signáes de Campanha são muito cômodos, e preferíveis aos Foguetes de Cauda; por
isso mesmo que aquelles são mais cômmodos a transportar, e sobem a huma altura muito
maior daquella, a que sobiririão os Foguetes de Cauda com dobrado diâmetro, e
atirados do modo Ordinário, Em seguimento dos Planos da construção, e fábrica
destes Foguetes, vão determinadas as cargas para o seu úzo. Esta prevenção hé
indespençavel; por que sendo que os Foguetes vazados interiormente por hum furo
cônico, correm o risco de rebentarem sempre, que a carga fôr maior daquella,
que Eu tenho calcullado pela experiência; Este fenômeno será bem compreencivel
a quem reflectir, que a explozão da Pólvora, ou da
carga adjunta
àquella da escórva, que se inflama dentro do Cone, ou brôca do foguete, óbrão
com huma força análoga ao effeito da Cunha e daqui se pode deduzir também, que
não forão pequenos os obstacullos que Eu tive aprevenir, ver (?) e remediar
para imendar os deffeitos do Foguete, e os da baila, que no recipiente, da sua indispençavel
cava esférica, sofre de mais huma grande actividade de chama, e calor; que alem
de obrar como a Cunha, fáz dispor em fuzão o chumbo de q'a baila hé formada.
Ultimamente descrevo o modo de fazer as pontarias na execução e úzo destes
Foguetes nos cazos das suas aplicaçõens; e senêstes ensaios da minha profição
tenho feito alguma couza útil em serviço do meu Princepe, e da minha Pátria hé toda
aminha ambição."
Esta obra é
tanto mais importante quanto é certo que, depois de consultarmos o que nos foi
possível sobre a história da artilharia portuguesa, verificámos não haver
tradição de inventos portugueses nesta matéria nem tão pouco tradição de
escola, o que nos aumentou o incentivo para a divulgação deste manuscrito.
De facto, até ao
século 18, o conhecimento científico da artilharia em Portugal fez-se através
de obras manuscritas e impressas de autores estrangeiros. A Arma de Artilharia
portuguesa teve no Conde de Lippe
um grande mestre
que fundou quatro escolas nos quatro Regimentos de Artilharia existentes na sua
época, mas os mestres continuavam a ser estrangeiros na sua quase totalidade.
Apesar deste desenvolvimento, só no terceiro quartel do século 18 a artilharia
portuguesa acompanhava muito de perto, na formação do seu pessoal, a francesa,
que tinha então na Europa, a proeminência. Mas é tembém neste século que se assiste
à decadência das Escolas Regimentais para dar lugar à formação científica dada
pela Faculdade de Matemática da Universidade de Coimbra e pela Academia Real da
Marinha com o seu curso de matemática para engenheiros e artilheiros, que vão
reorganizar os Regimentos de Artilharia com toda uma hierarquia e uma carreira específica.
Até setecentos
não havia uma distinção entre artilheiros de mar e de terra. Só com a criação
do Regimento de Artilharia da Marinha, o qual pertencia Jerônimo José Nogueira
de Andrade, houve uma definição dos serviços de artilharia no mar e nas
fortalezas marítimas.
Ora na verdade e
atendendo às circunstâncias antecedentes, este oficial superior, especialista
na Arma de Artilharia Marítima, deu um extraordinário contributo para o
desenvolvimento da balística, para além de colocar a Nação Portuguesa num plano
pioneiro nesta matéria.
Informações recolhidas em:
ANDRADE, Maria Fernanda Macedo Nogueira de (1990) - Jerónimo José Nogueira de Andrade, militar e inventor português do séc. XVIII. Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Universidade Nova de Lisboa, nº 5, Lisboa.
A freguesia de Chaviães (Melgaço): a igreja e a sua padroeira
Um pouco de História...
INFORMAÇÕES RECOLHIDAS EM:
IAN/TT, 1758-Capela, J. Viriato- As freguesias do Concelho de Melgaço nas Memórias paroquiais de 1758, Ed. C. M. Melgaço, 2005
Chaviães é uma freguesia muito antiga com existência comprovada nos princípios da nacionalidade. Segundo Bernardo Pintor, a mais antiga referência à Igreja de Chaviães e à sua padroeira primitiva - Santa Seguinha – consta de um documento datado de 1177 e pelo qual “Pedro Pires testou ao Mosteiro de Fiães (Melgaço) o seu corpo e metade de um casal em Chaviães, sob a igreja de Santa Seguinha” (Pintor, 2005). Pierre David filia a invocação de Santa Seguinha no culto a Santa Ségolène, originário da região d’Albi, em França e que ‘se teria difundido por estas paragens por efeito dos peregrinos que se dirigiam a Compostela’(David, cit. Pintor, 1975-reed 2005).
Em 1258-1259 foi citada num documento que serviu de ‘lembrança das Inquirições’ como pertencendo ao bispado de Tui (Costa, 1981: 158) e no arrolamento mandado fazer por D. Dinis em 1320 a Igreja de Santa Segoinha de Chaviães estava adstrita a Valadares e foi taxada em 160 libras , a mais alta do concelho de Melgaço (Idem, ibidem).
Por bula do Papa Eugénio IV, de 14-VII-1444, e a pedido do regente D. Pedro, a comarca eclesiástica de Valença foi separada do cabido de Tui (na altura adepta do papa de Avinhão) e anexada à diocese de Ceuta (idem, ibidem: 137).
Em 20-IX-1512, por um contrato celebrado entre o D. Diogo de Sousa, arcebispo de Braga, e D. Frei Henrique, bispo de Ceuta, a administração eclesiástica de Valença passou a pertencer à diocese de Braga, enquanto que a administração de Olivença ficou na posse da diocese de Ceuta (idem, ibidem).
Santa Seguinha de Chaviães passou, então, a ser administrada pelo Arcebispado bracarense. Pelo ‘Censual’ de D. Diogo de Sousa (1514-1532), a igreja de Chaviães tinha um rendimento de 114 réis e 4 pretos Costa, 1981: 189). No “memorial feito em tempo de Dom Manuel de Sousa (1545-1549) está referida como pertencente à ‘Terra da villa de Melgaço’ e foi avaliada em 40.000 reis (idem, ibidem).
Em 26 de Abril de 1758, o abade António José de Sousa e Gama, respondendo ao ‘Inquérito’pombalino, afirmava que a igreja tinha de renda 400$000 réis da qual uma terça parte pertencia ao ‘excellentísso Collegio da Patriarcal de Lixboa’. O pároco era da apresentação da ‘Sereníssima Caza de Bragança’ (IANTT, 1758-Capela,2005).
A Igreja paroquial de Chaviães
A Igreja Paroquial
Templo inserido em meio rural, construído em cantaria autoportante de granito, com estrutura original românica, composta de uma nave rectangular à qual se acrescentou posteriormente a capela-mor, a sacristia, a casa das confrarias e a torre.
Da primitiva construção resta o portal axial com as suas duas arquivoltas reentrantes arrancando de impostas assentes sobre dois pares de colunas coroadas de capitéis. A decoração é muito variada e assemelha-se à da Igreja de N.ª S.ª da Orada: nas impostas predominam as esferas, os enxadrezados, folheados, etc.; caneluras na arquivolta inferior e rosetas e esferas na arquivolta do meio; tímpano com uma cruz grega quadrifoliada e toda a cercadura que envolve as arquivoltas encontra-se ornamentada com palmetas, rosetas, flor-de-lis, e cartelas.
Nas cornijas uma fiada de cachorros com temática simbólica (Alves, 1987). Relógio de sol meridional de dois quadrantes, na torre.
No interior são evidentes as alterações levadas a efeito no séc. XVIII principalmente na cabeceira do templo. A primitiva capela-mor românica foi reformulada para alojar um retábulo de talha subdividido em nichos delimitados por colunas pseudo-salomónicas estando o central ocupado por um pequeno trono.
Segundo estudo de Paula Bessa, ‘são visíveis pinturas murais nas paredes da capela-mor por trás do retábulo-mor’ (Bessa, 2003: 12). A mesma investigadora, em tese de doutoramento, refere-se a outras pinturas murais existentes nas paredes da nave adjacentes à parede do arco triunfal executadas a ‘fresco com acabamentos a seco’(Bessa, 2007: 113). Data-as do ‘primeiro quartel de séc, XVI, embora não repugne pensar que possam ser um pouco anteriores’ (Bessa, 2003: 21). Como temas identificou os seguintes:
‘Na Parede lateral da nave do lado do Evangelho, e de oeste para nascente, está representado um santo franciscano, talvez Santo António, sobre peanha fingida, descalço e com livro sobre o braço esquerdo, dobrado(e com o Menino Jesus sentado?) e crucifixo (?) na mão direita, seguido de dois registos figurando em cima, uma cena da vida de S. Roque (S. Roque no bosque) e em baixo, os reis magos Melchior e Gaspar.Esta representação da Epifania prolonga-se pela parede do arco triunfal (registo baixo) aí se representando o terceiro mago, Baltasar, não tendo, no entanto, sobrevivido o resto da cena que incluiria Nossa Senhora com o Menino, embora subsista a parte lateral do trono de Santa Maria, assim como fragmentos do seu manto. Sobre Baltasar, no registo alto, subsiste a parte inferior da representação de um Santo que, por desaparecimento da pintura e consequente falta de atributos não podemos identificar. Parece, no entanto usar vestes de diácono embora apareça de pés descalços’ (Idem).
‘No arco triunfal, agora do lado da Epístola, está representado, no registo alto o tema do Homem Silvestre e, em baixo, subsiste um fragmento do Martírio de S. Sebastião(contorno do lado esquerdo do corpo do santo, crivado de flechas , e dois archeiros)’ (Idem, ibidem: 16).
‘Na parede da nave adjacente à do arco triunfal, do lado da Epístola, encontramos a representação de Santo Antãoe de S. Bartolomeu’ (Idem, ibidem).
O estado de conservação destas pinturas murais era 'razoável, embora haja lacunas e grande quantidade de deposição de sais' (Bessa, 2007. 113).
ALVES, Lourenço - Arquitectura Religiosa do Alto Minho. I - Igrejas e Capelas do Alto Minho do Séc. XII ao Séc. XVII, Viana do Castelo, 1987.
BESSA, Paula –Pintura mural na Igreja de Santa Maria Madalena de Chaviães, in ‘Boletim Cultural de Melgaço’, n.º 2, 2003, pp. 9-30.
BESSA, Paula –Pintura mural do fim da Idade Média e do Início da Idade Moderna no Norte de Portugal (Tese de Mestrado), Universidade do Minho, Setembro 2007.
'Site' Repositorium.sdum.uminho.pt
COSTA, Avelino de Jesus da – Comarca eclesiástica de Valença do Minho. (Antecedentes da Diocese de Viana do Castelo). Comunicação apresentada ao I Colóquio Galaico-Minhoto, Ponte de Lima, 1981
PINTOR, P.e M. A. Bernardo – Melgaço Medieval. Obra histórica, reed. Rotary Clube de Monção,Monção, 2005, Vol. 1.
http://acer-pt.org/
http://acer-pt.org/
Subscrever:
Mensagens (Atom)

