sexta-feira, 20 de julho de 2012

Obras de restauro no convento de Paderne ao longo do séc. XX


No principio do século XX, sabe-se que o estado do convento de Paderne era bastante delicado. Por isso, ao longo do século passado foi alvo de diversas obras de restauro. As principais são aqui sucintamente referidas. “Em 1947 - início das obras e beneficiação com reconstrução total de telhados que haviam ruído; apeamento parcial da torre sineira que ameaçava ruir; 1951 - restauro na capela-mor, pavimento da nave, braço do transepto e absidíolo S.; 1955 - obras de reparação; 1956 - prosseguimento da reconstrução da parede S. do transepto; 1957 - prosseguimento das obras de restauro; 1958 - reparação parcial do telhado da nave; 1960 - prosseguimento das obras de restauro; 1961 - obras de reconstrução da sacristia; 1962 - continuação das obras de reconstrução e restauro da parede S. da igreja; 1966 - reconstrução de um nicho na parede S. da nave, do telhado e reposição do tecto do absidíolo esquerdo; 1967 - reconstrução do telhado da capela-mor e diversos trabalhos de restauro; 1968 - trabalhos de carpintaria especializada; conclusão da reconstrução da sacristia; 1971 - restauro do pavimento do braço norte do transepto; 1973 - construção do pavimento de torre sineira; 1974 - instalação eléctrica; reconstrução do coro e diversos trabalhos de conservação; 1975 - conclusão da cobertura do transepto; 1976 - diversas obras; 1977 - reparação de vitrais; 1979 - beneficiação dos telhados, conservação do altar-mor; 1982 - conclusão das obras de beneficiação e diversos trabalhos de conservação; 1983 / 1984 - trabalhos de conservação; 1985 / 1986 - trabalhos de beneficiação; 1988 - trabalhos complementares de construção civil; obras de construção; 1998 - obras de conservação e beneficiação geral do imóvel; arranjos exteriores do adro, com acompanhamento arqueológico do Dr. Luís Fontes, da Unidade de Arqueologia da Universidade do Minho, no âmbito do protocolo com a DGEMN; 2000 - conservação e restauro do remate da pia baptismal e arcaz”


Informações recolhidas em:

- www.monumentos.pt

Evolução da arquitectura da igreja do Convento de Paderne ao longo da História


Existem várias interpretações para explicar a existência das duas fachadas da Igreja do Convento de Paderne. Reinaldo dos Santos admite a hipótese de pertencerem a duas igrejas construídas em diferentes datas. A mais antiga seria a que tem o corpo mais recuado fundamentando a sua convicção pela análise formal dos dois pórticos. Para Carlos A. Ferreira de Almeida tratar-se-ia de uma capela ocupando o lado esquerdo do transepto e que “servia um público que teria lugar reservado nessa parte do transepto, deixando a nave para outros” (Almeida, 2001: 89). Segundo este historiador de Arte os dois portais serão sensivelmente da mesma época, como já se referiu, e a construção da igreja dataria de meados do séc. XIII. O arq. Luís M. Fernandes Pinto, em recente estudo, sustenta a tese de que o edifício da igreja resultou de quatro campanhas de obras, conforme o mesmo designa e descreve (Pinto, 2000: 11):
- 1.ª campanha: Fase de fundação do mosteiro, certamente anterior a 1141 (16 de Abril, carta do couto). Ter-se-á estabelecido como um templo de reduzidas dimensões, correspondendo aproximadamente à actual Capela do Espírito Santo, integrada no transepto, a Noroeste.
- 2.ª campanha: Ter-se-á tratado de trabalhos parcelares ocorridos entre 1141 e 1248 (data de confirmação do couto), seguindo as normas da primeira época do românico (com algumas particularidades em Paderne), semelhante a outros comuns no Alto Minho. Assim, o templo consiste numa ampliação da capela primitiva, para oeste, consistindo em dois corpos rectangulares sucessivos e dispostos longitudinalmente, correspondendo a capela primitiva à capela-mor e o novo corpo, mais largo, à nave única, integrada actualmente como braço do transepto, do lado do Evangelho.
- 3.ª campanha: Teria sido levada a cabo pelos Cónegos Regulares durante duas ou três décadas e terminada em 1264. Estes pretendiam um templo de amplas dimensões. Assim, particular e intencionalmente optaram pela integração da construção então existente na ampliação concebida (ampliação invulgar mas, por exemplo, análoga à adoptada em S. Pedro de Ansemil, na Galiza). As obras executadas terão consistido na construção de uma abside semicircular, existindo ainda vestígios na curva presente na junção da capela-mor com a capela do lado da epístola, reforçada pela estereotomia que ambas apresentam; terão também consistido na construção da actual nave, todo o braço e capela do cruzeiro do lado da epístola.
- 4.ª campanha: Terá começado no fim do século XVI e terá prosseguido até ao século XVIII, pouco anterior a 1770, data da extinção do mosteiro. A principal obra consistiu na demolição da abside e construção da actual capela-mor rectangular, mais profunda e com janelas laterais para iluminação do retábulo-mor então instalado. Também nesta fase se abriu o janelão circular na fachada este, na nave sobre a capela-mor, desfrutando-se assim de uma luz axial na nave. Atendendo ao estudo de Luís M. Fernandes Pinto, a ‘3ª campanha’ de obras, efectuadas neste templo, terão sido aquelas que mais determinaram a morfologia da actual igreja. Todavia, esta denota ser o resultado de soluções arquitectónicas desfasadas em tempo e princípios, não respondendo convenientemente aos ensejos estilísticos proclamados pela ordem dos Cónegos Regulares (Pinto, 2000: 11).


Informação recolhidas em:
-
ADB - Registo Geral. Livro 330 (Censual), Braga, 1514-1532, fls. 480-485. ADP - Cópia do Sequestro e Inventário dos bens do Mosteiro de São Salvador de Paderne, 1770.

ADVC - Escritura de venda, quitação e obrigação feita a 27de Novembro de 1772, pelo Cardeal da Cunha, Arcebispo de Évora e Inquisidor Geral de Portugal a Luiz Rodrigues Caldas, do Mosteiro do couto de Paderne dos cónegos de Santo Agostinho, com todos os seus edifícios, terras e todos os mais bens, padroados da igreja de S. Salvador e suas anexas e mais igreja da apresentação do dito Mosteiro, casas, lagares, moinhos, eiras, pesqueiras, etc., à excepção dos foros, dízimos, dívidas activas, 1772.

ALMEIDA, C. A. Ferreira de - História da Arte em Portugal. O Românico, Ed. Presença, Lisboa, 2001.

COSTA, Avelino de Jesus da - A Comarca Eclesiástica de Valença do Minho (Antecedente da Diocese de Viana), Comunicação apresentada no 1º Colóquio Galaico Minhoto, Associação Cultural Galaico-Minhota, Ponte de Lima, 1981, Vol. 1, p. 69-235 (IANTT - Gaveta 19, m. 14, doc. 7, 1258-1259, fls. 5v-7v.).

COSTA, P.e António Carvalho da - Corografia Portugueza e descrição topográfica do famoso Reino de Portugal, Ed. Tipografia de Domingos Gonçalves Gouveia, Braga, 1868.

DIAS, Geraldo J. A. Coelho - O Mosteiro de São Salvador: Os Crúzios em Moreira da Maia. História e Arte, in ‘O Mosteiro Crúzio de Moreira. História, Arte e Música’, Ed. Paróquia de Moreira da Maia, Maia, Junho 2000.

DOMINGUES, José - Paderne Militar, in ‘Boletim Cultural da C. M. de Melgaço, n.º 5, Ed. C. M. de Melgaço, Melgaço, 2006.

GOMES, Saul António - Cónegos Regulares de Santo Agostinho, in ‘Dicionário de História Religiosa de Portugal’, Ed. Circulo de Leitores, Lisboa, 2000, Vol. I.

HESPANHA, António Manuel - As vésperas do Leviathan. Instituições e poder político. Portugal - séc. XVII, Ed. Livraria Almedina, Coimbra, 1994. INIC - Chancelarias Portuguesas. D. Pedro I, Ed. Instituto Nacional de Investigação Científica, Lisboa, 1984.

LEAL, Augusto Soares d'Azevedo Barbosa de Pinho (org.) e FERREIRA, Pedro Augusto (cont.) - Portugal Antigo e Moderno. Diccionário Geographico, Estatístico, Chorographico, Heraldico, Historico, Biographico e Etymologico de todas as cidades, villas e freguezias de Portugal e de grande número de aldeias, Ed. Livraria Mattos & Moreira, Lisboa, 1875, Vol. VI.

LEITE, Antero - As Pesqueiras do Rio Minho. Economia, Sociedade e Património, Ed. COREMA, Caminha, 1999.

LOURENÇO, Maria Paula Marçal - Estado e Poderes, in ‘Nova História de Portugal. Da Paz da Restauração ao Ouro do Brasil’, Ed. Presença, Lisboa, 2001, Vol. VII, p. 17- 89.

MARQUES, José - O cartório e a livraria do Mosteiro de Paderne em 1770, in ‘Boletim Cultural da Câmara Municipal de Melgaço’, n.º 1, Ed. C. M. de Melgaço, Melgaço, 2002. MARQUES, José Maia - Mosteiro de Moreira, uma centralidade irradiante, in ‘O Mosteiro Crúzio de Moreira. História, Arte e Música’, Ed. Paróquia de Moreira da Maia, Maia, Junho 2000. MATTOSO, José - Identificação de um País. Oposição, Ed. Estampa, Lisboa, 1988, Vol. 1.

NOÉ, Paula – Igreja de Paderne e convento, n.º IPA: PT011603110005, 2001 e 1992. Disponível em WWW: <www.monumentos.pt>.

P.M.H-Portugaliae Monumenta Histórica (PMH). Inquisitiones, Ed. Typis Academicis, Olisipone, 1888, Vol. I, Fasc.II

PINTO, Luís M. Fernandes - A igreja do Mosteiro de Paderne: uma hipótese de evolução arquitectónica, in ‘Estudos Regionais’, n.º 21, Ed. CER, Viana do Castelo, Dezembro 2000.

PINTO, Luís M. Fernandes - Os Azulejos do Mosteiro de Paderne. Um revestimento integrado num monumento românico, in revista ‘Monumentos’, n.º 9, Ed. Direcção Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais, Lisboa, Setembro 1998, p. 99-101.

PINTO, Luís M. Fernandes - Os Azulejos do Mosteiro de Paderne. Um revestimento integrado num monumento românico, in revista ‘Boletim Cultural’, n.º 4, Ed. C. M. de Melgaço, Melgaço, 2005, p. 171-177.

PINTOR, P.e Bernardo - Mosteiro de S. Salvador de Paderne (Alto Minho), in Revista ‘Theologica’, Braga, 1957, reed. in

PINTOR, P.e Bernardo - ‘Melgaço Medieval. Obra Histórica’, Ed. Rotary Club de Monção, Monção, 2005, Vol. 1, p. 25-36.

PINTOR, P.e Bernardo - Paróquia do Mosteiro de S. Salvador de Paderne (Alto Minho). Costumeiro de 1720. Ed. Autor, 1981, reed. in PINTOR, P.e Bernardo - ‘Melgaço Medieval. Obra Histórica’, Rotary Club de Monção, Monção, 2005, Vol.1, p. 367-378.

SANTOS, Reinaldo dos - O Românico, Ed. Editorial Sul, Lisboa, 1955. SILVA, Armando Barreiros Malheiro da - O Mosteiro de S. Salvador de Paderne em demanda com os senhores da Quinta de Pontiselas (século XVII). Subsídios para a Genealogia dos «Mogueimas e Fajardos», in Separata do 1º Colóquio Galaico Minhoto, Ed. C. M. de Melgaço, Melgaço, 1983. SILVA, Célia Maria Taborda da - O Mosteiro de Ganfei, Editorial Fregmentos, Lisboa, 1994.

SOUSA, Luis Correia de - Iconografia musical na escultura Românica em Portugal, in 'Medievalista on line', ano 1, n.º 1, 2005, IEM-Instituto de estudos medievais (www.fcsh.unl.pt/iem/medievalista)

quinta-feira, 19 de julho de 2012

Melgaço, 1665 - Anúncios do fim do mundo?

Rio Minho à passagem por Melgaço
(Foto sublime de 
Christophe Afonso Photography)


Dois cometas avistados no século XVII, segundo Hevelius

No ano de 1665, a Europa descobriu o cometa de Hevelius. À época, as "estrelas com cabeleira" eram olhadas pelo comum dos com a sobrecarga de medo de quem os via como bolas de fogo arremessadas por Deus para castigo dos homens ou, no mínimo, como sinais do Céu para aviso da humanidade. Este cometa não deixou de se fazer acompanhar por um cortejo de prodígios, cujas notícias iam circulando por toda a Europa. De alguns desses fenómenos, um dos quais ocorrido em Guimarães, teve conhecimento o Padre António Vieira, como percebemos por uma carta que enviou ao Duque do Cadaval em 26 de Maio de 1665:

"Saem por esta banda novos prodígios. Em Guimarães vomitou um doente um Dragão de quase um côvado* de comprido com duas asas, e grossura até ao meio de dois dedos, e cor vermelha escura; dali para a cauda menos grosso, e de cor parda. Disse-me Sanfins que o vira pintado, e com certidão de Médico jurada ao pé. Outra carta vi de pessoa digna de fé, escrita de Melgaço, em que diz aparecem naquelas partes muitos sinais horrendos de dia e de noite, que não especifica; só refere que no dia 16 de Abril ao sair do Sol aparecera um grande raio de cor verde e amarela, o qual se rematava em duas nuvens pequenas, uma muito branca, e outra muito vermelha: e correndo por grande espaço para a parte interior de Galiza, ultimamente se desfizera sobre ela em raios e coriscos de fogo. Aqui em Coimbra se viu também por algumas vezes um globo de fogo para a parte do Sueste, que nascia à meia-noite, e se ia levantando devagar, e durava por espaço de duas ou três horas; mas, se o que se escreve de Roma é verdade, eu o tenho por maior prodígio de todos. A carta que se refere é de um Português que está naquela Cúria, chamado Fernão Lopes de Sousa; e diz que nela houve por três dias uma névoa tão espessa e tão escura, que se não viam os homens nem os edifícios, e que as trevas eram palpáveis como as do Egipto. Outra carta diz, que o Cometa se teme lá muito, e que demonstra muito maior cauda, e que a Rainha de Suécia com dois grandes Matemáticos que tem, o observa sempre, mas não se fala no juízo. Deus se lembre da Sua Igreja e do nosso reino que também é seu, e a V. Exc. guarde muitos anos, como desejo e havemos mister. Coimbra 4 de Maio de 1665."

[Cartas do P. António Vieira da Companhia de Jesus, tomo segundo. Oferecido ao eminentíssimo senhor. Nuno da cunha e Ataíde. Lisboa ocidental, Oficina da Congregação do Oratório, 1735]

quarta-feira, 18 de julho de 2012

CEVIDE, a aldeia mais a norte de Portugal.

Interessante repostagem transmitida pelo Portocanal sobre a aldeia de Cevide, o ponto mais setentrional de Portugal e a coabitação com os vizinhos espanhois no passado e no presente.


Aclamação do Príncipe Regente em Melgaço (9 de Junho de 1808)


Naquela parte da província do Minho onde o rio deste nome, descendo da Galiza, entra em terras de Portugal, terminam estas num ângulo o mais setentrional do reino, e é aqui que está situada a vila de Melgaço, pequena e pouco considerável em si mesma, que, porém, deve ficar memorável na história. É em Melgaço que prendeu o fogo sagrado em 9 de Junho, para não mais se extinguir, nem mesmo na segunda invasão dos franceses debaixo do comando do Marechal Soult: ficou livre o recanto desta vila e seus contornos da nova torrente assoladora que se espalhou por todo o resto da província e abrangeu uma grande parte da Beira Alta e Trás-os-Montes. Feliz terra! Queira o céu conservar-te o brasão de nunca mais receberes as leis do usurpador, desde que naquele fausto dia abjuraste intrépida o seu nome odioso!
D. António Maria Mosqueira de Lira, provinciano ilustre do reino da Galiza, e aparentado com alguns grandes de Espanha, apresentou-se em Melgaço em casa de seu cunhado Caetano José de Abreu Soares, e anunciando secretamente ao Corregedor, que servia de Juiz de Fora, Filipe António de Freitas Machado, aí veio este, e tiveram uma conferência. A este tempo concorreu também António de Castro Sousa Meneses Sarmento, descendente ilustre pela linha da primogenitura dos antigos Castros de Melgaço, o qual, tendo servido dignamente o Soberano e a pátria na carreira da magistratura, se achava então retirado em sua casa; do que todos conferiram e trataram, resultou ficar decidida a aclamação.
Mosqueira tinha vindo prevenido com pouca gente armada, que deixara a pouca distância, e a fez logo entrar. Vieram também incorporados o Corregedor de Milmanda, o Abade de Esteriz e outras pessoas distintas da Galiza; e sendo dia de feira em Melgaço, e por isso de um numeroso concurso, os portugueses se unem aos espanhóis, e em presença do Juiz de Fora, que os observava no próprio campo da feira, soltam alegres vivas ao Príncipe Regente e detestações violentas contra Napoleão e seus delegados. Imediata ao campo da feira está a porta da vila, sobre a qual se achavam cobertas as Armas Reais; o povo as descobre num momento; passa depois a fazer o mesmo às da casa da Câmara e da fonte da vila; e para que a obra não ficasse imperfeita, o Corregedor de Milmanda com uma partida dos seus foi também descobrir as fonte de S. João da Orada, que ficavam em alguma distância. Tomás José Goemes de Abreu, Jacinto Manuel da Rocha Pinto, o Capitão mor João António de Abreu e o Doutor Miguel Caetano foram dos primeiros, e mais activos, que trabalharam nesta empresa, mas tiveram muitos outros companheiros que mostraram o maior patriotismo.
Não contentes os habitantes de Melgaço com o que haviam praticado dentro dos muros e nos subúrbios desta vila, eles quiseram levar a revolução aos povos vizinhos. Com efeito, num dos dias seguintes eles foram aclamar o nosso legítimo Soberano e descobrir as Armas Reais na ponte de Moro, termo de Monção, tendo na sua passagem praticado o mesmo no concelho de Valadares.
Determinou-se para o dia 10 a inauguração solene do estandarte nacional em Melgaço. O da Câmara foi arvorado no revelim do castelo, por entre novos vivas e aclamações, e com repetidas salvas e toques de sinos, antes e depois de um Te Deum e sermão que se celebraram nesse mesmo dia; e como eram necessários dois estandartes, para não haver falta nas acções da Câmara, o Juiz de Fora convocou os alfaiates da terra para fazerem um novo, como realmente fizeram numa manhã, e não se afastou deles enquanto não o concluíram. Estas pequenas circunstâncias, que parecem pequenas a quem as lê de sangue frio, são as que melhor manifestam na efervescência dos espíritos os verdadeiros sentimentos que existem nos corações, a fidelidade e o entusiasmo dos que as praticam*.
Até aqui era tudo alegria, mas dois dias depois houve uma terrível comoção, causada pela falsa notícia de que um exército francês havia desembarcado nas costas da Galiza, e tinha já um corpo de tropas em Caniça, povoação fronteira a Melgaço, para entrar nesta vila pela raia seca. A crise era terrível, porque achando-se estes povos absolutamente indefesos, não se lhes oferecia senão a alternativa de se humilharem ou resistirem; e em ambos os casos era muito arriscada a sua sorte: eles escolheram, sem hesitar, o mais heróico. Todos se puseram em movimento à voz dos sinos, e correram para a parte por onde se esperava o inimigo com duas peças de artilharia, as únicas que havia montadas, até o sítio da ponte das várzeas, onde residia o Capitão mor. Quando chegou o ajuntamento, já este sabia por um portador, que tinha mandado a Galiza, que tudo por lá se achava tranquilo, não havendo nem o mais leve rumor de inimigos por aquele lado.
Quando não devia já tratar-se senão de se restituírem todos a suas casas, a intriga e a discórdia, inimigos implacáveis da humanidade, que raras vezes podem separar-se destes ajuntamentos tumultuários, principiaram a derramar os seus venenos sobre gentes que não se tinham ajuntado senão para o justo fim de defenderem os direitos do Soberano, a religião e a pátria. Um paisano insolente, ostentando valentias, quando a ideia do perigo se tinha desvanecida, incita os povos para que marchem mais adiante e se façam fortes, enquanto o Capitão mor lhes ordenava prudentemente que se retirassem, prevenindo as desordens que o ajuntamento podia produzir. O paisano, inculcando patriotismo e valor, chegou a meter as mãos a duas pistolas contra o Capitão mor; mas felizmente o seu orgulho ficou confundido às mãos de outro paisano honrado, que, no meio da sua justa cólera, não pôde conter o transporte de pegar no insolente e o pisar aos pés.
Sufocado este primeiro sintoma vertiginoso, outro se levanta, que ia tomando um aspecto mais sério. Matias de Sousa e Castro, militar distinto com o posto de Tenente no desorganizado regimento de Valença, correu com os outros ao rebate de uma quinta onde se achava; e vendo arvorada na vila a bandeira encarnada, em sina de guerra, quis persuadir ao Juiz de Fora que a mandasse arrear, não por traição ou por fraqueza, pois pelo contrário foi um dos mais activos em dar as providências de defesa, mas sinceramente porque, dizia ele, a bandeira não aumentava nem diminuía as forças e os recursos, e vendo-a, os franceses se irritariam e passariam tudo à espada. O Juiz de Fora não anuiu à proposta, mas houve quem fosse espalhar a voz entre o povo, ainda congregado, que ele tinha feito arrear a bandeira, e foi o mesmo que lançar uma faísca sobre a pólvora. Levantou-se um tumulto em que ficou desde logo decretada a morte do Juiz de Fora; e para executarem este projecto, alguns dos amotinados se encaminharam para a vila; pararam e ficaram tranquilos, à vista da bandeira, que existia arvorada como dantes. Soube-se depois o conselho que o militar havia dado, e voltaram-se contra este, que, avisado a tempo, pôde a muito custo salvar a vida nos pés do seu cavalo.
Por esse mesmo tempo recebeu o Juiz de Fora uma daquelas furiosas cartas que Lagarde tinha escrito aos ministros territoriais por ocasião dos movimentos do Porto; ele não a publicou, mostrando-a somente a algumas pessoas da sua confiança, e continuando sempre a animar os progressos da revolução. Como os povos se viam sem tropas, sem armas e sem munições, recorreram ao Bispo e à Junta de Orense, e não foi debalde, porque das tropas que ali comandava o Marquês de Valadares, se destacaram logo alguns corpos para Milmanda e Celanova, prontos a entrarem no território português em caso de precisão.

Extraído de:
- http://asinvasoesfrancesas.blogspot.pt/2011/06/aclamacao-do-principe-regente-em.html