terça-feira, 11 de setembro de 2012

Lendas de Melgaço VII: O Coto da Moura




Em Paderne, há muitos, muitos anos, num lugar onde hoje existe uma fonte que enche um regato e rega muitos campos, havia uma Moura encantada que todos os dias, ao nascer do sol, saía para estender o seu tesouro no cimo de um penedo, a que chamaram Coto da Moura. Servia este penedo de soalheiro ao tesouro da Moura. Depois de estender o seu tesouro, a moura sentava-se no cimo do penedo e, enquanto cantava, ia penteando os seus belíssimos cabelos louros com um maravilhoso pente de ouro. Refulgia ao longe tal conjunto. Pensava-se que a Moura assim fazia para atrair, com o deslumbramento das jóias, alguém que a pudesse desencantar.
Os que por ali passavam contavam tal visão, mas a maior parte do povo, ou se mostrava incrédulo, ou temia aproximar-se. Então, um certo dia, um dos homens mais corajosos da aldeia foi ver se o que contavam era verdade.
Quando chegou junto da fonte, viu uma Moura com o cabelo e um pente de ouro. Estava ela sentada sobre o penedo a pentear-se. Aproximou-se lentamente, para a surpreender, de forma a que ela não pudesse escapar. Então ela, pressentindo a presença do homem, disse-lhe:
- Meu caro senhor, tenho um pente e uma «peina». Qual deles queres?
O homem não esperava tal oferta! Até porque diziam que a Moura guardava com grande cuidado o seu tesouro. Restabelecido da surpresa, mas julgando pouco provável serem de ouro os cabelos da Moura, apesar de brilharem como esse metal, respondeu depois de breves momentos:
- Quero o pente!
- Ai homem, que me acabaste de dobrar a «fada»!
A Moura, depois de o fixar com um triste olhar, atirou o pente para o regato. E enquanto o homem o foi apanhar, motivado pela ganância, a Moura desapareceu.
Em vão o homem procurou o pente. E ainda hoje se julga que o som das águas a cair no regato se parecem com o choro de uma donzela. Por isso se diz que o fado da Moura ainda contínua, já que o encanto só seria quebrado se o homem tivesse pedido a «peina» da Moura, que era a sua bela cabeleira.


Extraído de:
CAMPELO, Álvaro (2002) - Lendas do Vale do Minho Valença, Associação de Municípios do Vale do Minho.

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Lendas de Melgaço VI: O Lagarto de lamas de Mouro

 

Em tempos que lá vão, nas imediações da chã de Lamas de Mouro, existia um monstruoso lagarto que afligia toda a população. O enorme réptil postava-se sobranceiro ao caminho que levava à Senhora da Peneda, e todos os que ali passavam eram engolidos pelo seu apetite voraz. Todos os anos, alguns pastores, perdigueiros, e romeiros, que por ali passavam com destino ao Santuário da Senhora, eram vítimas do feroz lagarto.
  Ora ali perto, no coto da meadinha, morava uma mulher que passava o tempo a fiar na roca e a assoalhar as suas meadas, aproveitando tão arrumado lugar ao sol. Acontece que um dia esta mulher, em andanças de devota ou de pegureira, passou por perto do lagarto. Ao ver a figura que se aproximava, o terrível sáurio acometeu-a para a devorar. Num supremo e insuspeito esforço a mulher arrancou da cintura uma arma de defesa, que não era outra coisa senão a sua roca! Com extraordinária habilidade desferiu um poderoso golpe no até então invencível réptil, transformando-o em pedra!
  Crê-se que a mulher era Nossa Senhora, e a prova do seu feito pode-se ainda hoje ver no lugar dito de Portela do lagarto, nome que advém da forma rochosa que encima o penhasco, pois se assemelha ao repugnante réptil.



Extraído de:

http://www.nortept.com/lendas.

domingo, 9 de setembro de 2012

Lendas de Melgaço V: A Senhora da Orada e o "Vira-Pipas"


Corria o ano da Graça de Nosso Senhor de 1569, e pelas terras do Vale do Minho espalhava-se a peste. Em todas as freguesias as pessoas estavam apavoradas com o terrível flagelo. Ricos e pobres eram atacados por um grande febrão, e ninguém parecia escapar a esta desgraça. Cheios de pavor e de fé, todos se voltavam para os santos, pois só a eles parecia restar o poder para debelar tão grande infortúnio.
  Por essa altura, morava no lugar da Assadura, junto da Senhora da Orada, Tomé Anes, mais conhecido como o "Vira-Pipas", pois andava sempre com uma malguinha a mais. Tomé Anes era uma figura alegre, mas um pouco desbocada, quando importunado com a alcunha. Para além de urnas pequenas leiras que amainava, Tomé limpava e arrumava a capela da Senhora da Orada,  trabalho que fazia com muito desvelo e devoção.
Numa certa manhã, como de costume, Tomé foi arranjar a capela. Como era ainda cedo, só tinha tomado o seu «mata-bicho», lá em casa, e uma pequena malga de vinho na tasca da Mirandolina. Chegado à capela, o "Vira-Pipas" quase morreu de susto, pois a imagem da Senhora da Orada não estava no seu lugar, nem em qualquer outro! Vezes acontecia que chegava a ver duas ou três imagens da Senhora, quando a borracheira passava do normal. Não ver nenhuma assustava-o seriamente. Cego não estava! Ainda perguntou à imagem do Senhor S. Brás pela ausente, mas como este não respondeu, pensou que teriam sido os Galegos os autores de tão vil afronta. 
Furioso saiu o "Vira-Pipas" em direcção à vila de Melgaço para comunicar o sucedido ao Alcaide, e disposto a juntar o povo para enfrentar tal desfeita.
  Ia o Tomé nestes propósitos pela via romana, quando o chamaram da casa do Arrocheíro para dar uma ajuda na trasfega do vinho. Este era trabalho a que nunca se negava o Tomé, já que entre o passar dos cabaços do vinho lá ia bebendo uma pequena malga do apreciado líquido. Depois de muito bebido e comido, deixou-se o "Vira-Pipas" levar pelo sono, de modo que já só noite dentro acordou e contou o sucedido para os lados da Orada ao seu amigo. Conhecendo os hábitos do Tomé, este só se riu, não acreditando em tão fantasiosa história. Mas como o Tomé insistia tanto, concordou em confirmar o acontecido com uma visita à igreja. Ao entrarem, verificaram que a imagem da Virgem estava no seu lugar. O único surpreendido era o "Vira-Pipas"!
No dia seguinte, muito envergonhado, decidiu o Tomé ir à Senhora da Orada mais cedo do que era costume. Para testar as suas capacidades, num grande esforço, não bebeu a sua malguinha de vinho, nem o imprescindível «mata-bicho»! Chegou até a meter a cabeça debaixo da fonte, para dissipar os possíveis vapores alcoólicos do dia anterior.
Na capela verificou que só estava o menino Jesus, sentado, com aquela cara de choro que toda a criança tem quando a mãe não o leva ao colo. Tomé ficou abismado, sem saber o que fazer. Com medo que se rissem dele, não contou a ninguém, preferindo entregar-se ao trabalho, ao ponto dos conhecidos ficarem admirados com tal dedicação. De manhã e à noite ia à capela, e verificou que a senhora da orada voltava à noitinha. Umas vezes levava o menino, outras não. Só o Tomé sabia destas fugas, e pressentiu naquele mistério uma grande responsabilidade. Não lhe passava da ideia o que lhe acontecera, julgando-se destinatário de uma mensagem da Senhora para que abandonasse o consumo do álcool. Por isso, começou a diminuir no vinho, o que a todos surpreendeu!
  Enquanto isto sucedia ao pobre do Tomé, em Riba de Mouro no concelho de Monção, os habitantes viraram-se para a milagrosa Senhora da orada a fim de se livrarem da mortífera peste, que por aqueles anos assolava toda a região. Para agradar à Senhora, prometeram uma romagem anual à capela.
  Depois de aparecerem os primeiros casos, surgiu na dita freguesia uma senhora, muito bonita e educada, que dizia saber como tratar aquela doença. Ninguém sabia donde ela viera. Entrava na casa das pessoas doentes, mandava fazer um chá com uma planta que trazia no alforge, e, juntando outras ervas, mandava preparar um banho que ela própria passava no corpo do doente, fosse mulher, criança ou homem. Recomendava às pessoas que se lavassem com ervas de Santa Maria e folhas de sabugueiro, que defumassem as casas com alecrim, e lavassem as roupas amiúde. A bondosa dama não tinha mãos a medir! De manha até à noite, não parava de atender os doentes. Não comia nem aceitava convite para ficar à noite com eles. Quando trazia um menino, que dizia ser seu filho, este ajudava a descobrir a erva de Santa Maria e os sabugueiros que o povo não sabia onde mais encontrar.
  Entretanto passaram-se quarenta dias, e a peste abrandou. Poucas pessoas sobreviveram ao flagelo, mas em Riba de Mouro ninguém morreu! A senhora que tinha ajudado a população desapareceu tal como havia surgido. Todos se perguntavam agora sobre a identidade daquela misteriosa senhora. Alguém se lembrou, então, que a roupa, e até a fisionomia, eram iguais à da Senhora da Orada!
  Nesta certeza, logo partiram em romaria ao seu santuário, agradecendo a protecção. Vendo tal devoção e escutando o sucedido, o Tomé entendeu rapidamente o que lhe tinha sucedido e resolveu contar a todos os desaparecimentos da Senhora naqueles dias anteriores. Agora, todos acreditaram! Os romeiros partiram, espalhando o relato do milagre por todas as freguesias.

Extraído de:
http://www.nortept.com/lendas

sábado, 8 de setembro de 2012

Lendas de Melgaço IV: A Batalha da "Empresa das Mulheres"



  
No tempo em que os portugueses disputavam com os castelhanos as terras do Alto-Minho, um exército lusitano, composto por quinze mil homens, batalha os galegos nas margens do Minho. De tal forma era bem sucedido o seu empenho, que chegam a provar o delicioso sabor da vitória. Ébrios deste prazer, julgam-se senhores do mundo. Com entusiasmo desmesurado, aventuram-se por terras da Galiza, alucinados de bravura, dispostos a bater o inimigo em sua própria casa. Mas tal esforço não lhes corre de feição, já que, depois de curtíssimas vitórias, os lusos são obrigados a retroceder, ante o vigor do adversário, espicaçado pela vaidade nacional ferida, e supridos de tropas frescas.
  Vindo os galegos no encalço, os portugueses, desorientados, recuam lá para os lados de Castro Laboreiro. Acossados pelo enfurecido inimigo, pronto a corrigir a desfeita sofrida, as tropas portuguesas não encontram forma de o enfrentar, temendo-se uma ultrajante derrota e o risco de perda da soberania pêlos próprios territórios!
  É então que as mulheres daquele lugar, ao verem os seus desnorteados, e perante a afronta desmesurada dos galegos, corajosas e determinadas, resolvem intervir. E se os homens fogem desorganizados e abandonando as armas, elas, depois de se armarem como os guerreiros, cerram fileiras e avançam sem medo, prontas a salvar o país da ignomínia de uma humilhante derrota.
  Perante tal atitude e coragem ficam extasiados e confusos, por sua parte, os castelhanos. É então que os homens lusitanos, provocados pelo exemplo de suas mulheres, resolvem voltar para a luta, envergonhados das suas momentâneas pusilanimidade e defecção. Recuperada a energia e a fé indispensáveis, organizam-se e batem os espanhóis, ainda perplexos pela coragem e força das mulheres de Castro Laboreiro. Esta batalha ficou conhecida por "Empresa das Mulheres".
 
Extraído de:
- http://www.nortept.com/lendas.aspx?concelho=Melgaco

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Lendas de Melgaço III: Lenda de Frei João da Cruz




Foi perto de Melgaço que ouvi contar esta lenda. Lenda de amor infeliz, em que os protagonistas esbarram com a incompreensão dos homens. Não está situada no tempo, mas começa como a maioria das lendas, com a frase já gasta pela voz do povo:
Há muitos anos...

Sim, há muitos anos vivia perto de Melgaço um jovem nobre mas de fraca fortuna. Chamava-se Mendo de Azevedo, era valente, belo e doido pela aventura. Tendo sofrido um desaire político, passou a Espanha. E aí encontrou, certa tarde, numa das belas casas solarengas de La Marina, uma jovem muito bela, muito rica e muito nobre. Chamava-se a donzela Sol e pertencia à família dos senhores de Yepes.
D. Mendo arranjou meio de a ver muitas vezes. E porque era também jovem, belo e nobre, fácil lhe foi conquistar aquela que era para ele já toda a razão da sua existência.
Tentou D. Mendo consertar a sua vida em Portugal. O amor fizera dele um outro homem, mais crente, mais sensato.
Apesar de lhe terem sido confiscados os bens, conseguiu um perdão para voltar à pátria. Porém, o seu desespero foi enorme quando, ao pedir-lhe a mão de sua filha D. Sol, ouviu da boca do senhor de Yepes um tremendo «não».
Desorientado, D. Mendo fez o que nunca fizera: suplicou. Foi, porém, escarnecido e alcunhado de querer caçar fortunas!
Ferido gravemente no seu amor próprio, D. Mendo encheu-se de coragem e resolveu abandonar para sempre o que fora o seu grande sonho de amor. Para isso conseguiu uma pequena entrevista com a jovem D. Sol. Ela surgiu-lhe a medo, por entre a folhagem do jardim e quando a Lua começava a pratear toda a avenida dos lilases. Ele beijou-lhe a mão gelada.
— Querida, será esta a última vez que vos procurarei!
Ela levou ao rosto o seu lencinho de rendas. Balbuciou:
— Amo-vos, D. Mendo! Serei incapaz de amar outro qualquer!
— Mas se vosso pai me insultou, como poderei permanecer aqui sem manchar o meu nome?
— Levai-me convosco!
— Impossível!
— Porquê? Colocais o vosso nome acima da nossa afeição?
D. Mendo suspirou.
— Minha querida Sol, tentai compreender. Se eu vos raptasse, então sim... então poderiam chamar-me aventureiro ou caçador de fortunas. Eu quero-vos, mas com o consentimento de vosso pai.
— Nunca o dará!
— Talvez dê.
— Achais? Como?
— Se eu me alistar… se fizer a guerra no estrangeiro... se ganhar fama e fortuna... talvez ele ceda!
D. Sol deixou de chorar.
— E se a sorte vos for adversa? Se morrerdes ou ficardes prisioneiro?
— Será porque Deus assim o quis!
Ela deixou-se atrair ao abraço do bem-amado.
— Ide, então... mas voltai breve!... Eu esperarei por vós!
E o luar escondeu-se para não ver o beijo que trocaram...

D. Mendo de Azevedo cumpriu o que dissera. Seguiu para África a combater os infiéis. Entretanto, o senhor de Yepes formou logo um rápido plano: casar D. Sol com o filho de um amigo seu, oriundo da Toscana, o capitão D. Rodrigo Rocatti y Alvear.
Chorou a jovem amargamente. Pediu mil vezes a morte antes que chegasse o dia aprazado para o casamento. Olhava em volta, tentando encontrar um amigo que a ajudasse a cumprir a promessa que fizera a D. Mendo. Tudo em vão. O dia chegou. Implacável. Sem remédio.
De índole branda, D. Sol deixou-se conduzir pelo braço de D. Rodrigo. Ele bem a notara distante. Bem compreendera que não era amado. Aliás, o sogro contara-lhe o «simples episódio» de D. Mendo, agora longe e afastado para sempre. Mas no orgulho do capitão espanhol sangrava a ferida aberta pela permanente ausência espiritual da que fizera sua mulher.
O tempo passou. Talvez três… talvez quatro anos. As coisas não haviam mudado. Apenas D. Sol se mostrava cada vez mais triste, cada vez mais distante. E um dia chegou ao castelo onde habitavam os senhores de Rocatti y Alvear um cativo resgatado de Orão. E este cativo contou a D. Sol que estivera com um nobre português, D. Mendo de Azevedo, também cativo. Que esse português lhe falara saudosamente da sua pátria e de uma terra de Espanha onde deixara o seu coração. Sobressaltou-se D. Sol e quis saber mais desse português. Nunca ela fora tão viva na conversa, no interesse pelos outros... O ex-cativo contou então qual era a vida de D. Mendo remando numa galera mourisca e exposto a todos os escárnios.
Consumida pelo remorso, pois só por ela D. Mendo partira, D. Sol perguntou ao ex-cativo se não haveria forma de resgatar D. Mendo. Disse-lhe ele, então, que descobrira o quanto se tinham amado. E sabendo que o seu companheiro não teria forma de arranjar dinheiro para o resgate, viera ele procurá-la para que salvasse D. Mendo.
D. Sol perguntou ainda:
— Mas… foi ele quem vos mandou?
— Oh, não! Ele é demasiado soberbo! Acabará morrendo, porque se impõe, mesmo cativo, e os mouros hão-de matá-lo!
— E mais ninguém pensa em resgatá-lo? Ele não tem família em Portugal?
— A família está arruinada. Por isso me lembrei de vir procurar-vos.
D. Sol tapou o rosto com as mãos. Suspirou:
— Oh, meu Deus! Como hei-de arranjar tanto dinheiro?
— Eu esperarei. Só voltarei aqui quando me chamardes.
— E quem entregará o resgate?
— Eu próprio.
— Sem que se saiba que fui eu?
— Assim o juro!
— Nem mesmo a D. Mendo o direis?
— A ninguém, senhora!
— Pois aguardai alguns dias. Tenho muitas jóias e pode ser que consiga a quantia necessária. Depois vos mandarei chamar. E agora, ide! Receio que meu marido vos encontre.
Saiu o ex-cativo do castelo dos senhores de Rocatti, para dias depois lá voltar a receber uma enorme quantia em dinheiro, e jóias, e roupas. Porém, quando saiu, foi direito ao dono do castelo, dizendo, triunfante:
— Aqui tendes, senhor, do que vossa esposa é capaz!
D. Rodrigo empalideceu.
— O quê? Pois ela conseguiu... ela ousou entregar-vos tudo isso… para que o libertassem?
— Eis a prova, senhor!
D. Rodrigo encheu o peito de ar.
— Não há dúvida: ela será capaz de tudo! E tendes a certeza que ele foi já resgatado?
— Sim. Fomos ambos resgatados quase ao mesmo tempo. Um grande de Portugal intercedeu por ele.
— E porque viestes aqui dizer-me isso?
— Porque o odeio! Ele é um soberbo! Ousou bater-me!
— Porquê?
— Porque... porque duvidei da lealdade da sua bem-amada!
D. Rodrigo atirou ao chão um saco de moedas.
— Pois levai isso depressa e desaparecei da minha vista, se não quiserdes acompanhar minha esposa na lição que lhe vou dar!
O ex-cativo pegou na bolsa de dinheiro e desapareceu.
Só, D. Rodrigo rangeu os dentes de desespero e sibilou com ódio:
— Vou matá-la! Vou matá-la! Mas dar-lhe-ei uma morte lenta!

Encarcerada no subterrâneo do castelo, D. Sol esperava calmamente a morte anunciada. Na tarde do seu último dia, pediu ao carcereiro a esmola de um padre para a confessar. Correu o homem a satisfazer o pedido da mulher de seu amo. Foi a um convento próximo, contou o sucedido e pediu um frade. Logo um, entre os outros, pediu humildemente ao superior que o deixasse sair. Foi o padre com o carcereiro. Caminharam silenciosos. Chegados lá, D. Sol caiu de joelhos, proclamando a sua inocência. Contou o seu amor perdido e a sua fraqueza em ter consentido num casamento sem amor, o seu remorso por saber longe e sofrendo torturas sem nome o único homem que havia amado. Gritou o seu propósito de apenas desejar salvá-lo. Jamais pensara num gesto menos puro. Mas morria sem pena, porque a vida era para ela um fardo demasiadamente pesado.
Nem notou D. Sol como chorava o frade ao dar-lhe a absolvição. Por fim levantou-se. Olhou a dama por uns momentos e não pôde conter-se. Murmurou:
— Ambos morremos para o mundo para ressuscitar para Deus!
D. Sol, ouvindo-o assim, encarou-o melhor. Soluçou:
— Pois será possível? Será possível?
O frade segurou-lhe uma das mãos.
— Sim, é possível. Sou eu, o que foi Mendo de Azevedo e agora é apenas Frei João da Cruz!
— Mas como?... Como?
— Fui feito prisioneiro pelos mouros e resgatado por ordem do meu rei. Porém, quando já vinha perto, soube da vossa boda com D. Rodrigo. Então... julguei morrer de dor... Só o convento dominicano me recebeu e confortou!
Ela continuava soluçando.
— Senhor! Graças vos dou por me terdes acarinhado à hora da minha morte! Sabei vós, D. Mendo...
O frade interrompeu-a:
— Dizei antes Frei João da Cruz...
— Pois seja. Frei João, sabei que morro feliz! A nossa consciência fica limpa perante Deus! E se o não ficar perante os homens, que o mesmo Deus lhes perdoe! Dizei-lhes, Frei João... que estou pronta!
O frade limpou as lágrimas que lhe inundavam o rosto. Revoltou-se.
— Não, não poderei consentir! A vossa morte é uma violência. É necessário que D. Rodrigo reconheça que estais inocente. Vou falar com ele!
Ela gritou:
— Não o façais! Para ele basta o meu desejo de resgatar-vos como prova de que sempre vos amei!
— No pensamento nem sempre mandamos. Nos actos, sim. E de obras más estais inocente. Vou falar com D. Rodrigo!
E saindo apressado, sem qualquer despedida, Frei João da Cruz foi falar com o senhor do castelo.
Quando o monge pediu a D. Rodrigo o indulto de D. Sol, por saber da sua inocência, D. Rodrigo gracejou:
— Que sabeis, padre, das mentiras das mulheres? São capazes de tudo, mesmo à hora da morte!
O frade ripostou:
— Senhor! Juro-vos pela cruz que trago comigo, pelas minhas vestes de frade, que ela está inocente!
— E eu garanto-vos que ela é perjura! Que ela espera o homem que sempre amou para me atraiçoar! E que, para maior afronta, é português!
— E eu juro-vos que isso não acontecerá!
— Como o provais?
— Dizendo-vos que antes de ser Frei João da Cruz fui D. Mendo de Azevedo.
D. Rodrigo empalideceu de raiva e de surpresa. Exclamou:
— Como? Pois ela... ela viu-vos… ouviu-vos a sós?... Estiveram ambos… a rirem-se de mim?...
— Senhor, respeitai o meu hábito!
— Vou demonstrar-vos o meu respeito!
E sacando da espada, enterrou-a com requintes de malvadez no corpo do jovem frade. Depois, correndo ao cárcere, sem pronunciar qualquer palavra, matou D. Sol da mesma maneira.
Com a espada gotejando sangue, D. Rodrigo subiu do subterrâneo para o castelo. Parecia um espectro do Inferno. Vendo-o, os criados sumiram-se atemorizados. E no cimo do monte, no mosteiro dos dominicanos, o sino tocou e os frades oraram, mal a triste nova lá chegou a cima!
No eco do sino tocando, o vento segredava à floresta:
— Mataram Frei João da Cruz! Mataram Frei João da Cruz!



Extraído de: 
MARQUES, Gentil Lendas de Portugal Lisboa, Círculo de Leitores, 1997 [1962] , p.Volume V, pp. 95-99.