quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Lendas de Melgaço X: Criatura misteriosa aterrorizou Fiães e Castro Laboreiro em 1861



"Em 1861 foram devastadas as povoações gallegas de Padrenda, Monte Redondo e Gazgoa, por uma féra, que uns diziam ser lobo, outros tigre, outros javalí, etc. D’alli passou a Portugal e encheu de terror as povoações de Castro Laboreiro e immediatas, fazendo muitas victimas.
Só em um dia, matou duas crianças de 11 annos, em Castro Laboreiro, devorando uma e despedaçando outra. Não era raro encontrar aqui um braço, acolá uma perna, além um craneo; principalmente nas freguezias gallegas.
Tudo andava horrorisado. Ninguem sahia de noite; e, mesmo de dia, só bem armado e nunca só. O povo, sempre propenso ao maravilhoso, ligou varias historias sobrenaturaes a este acontecimento. Segundo uns, era a fera – um filho indigno, amaldiçoado por seus paes. Segundo outros era um Caim que tinha assassinado um seu irmão. Outros pretendiam que era uma alma do outro mundo. Os mais espertos sustentavam que era um lobishomem – e os mais serios, teimavam que era, nem mais nem menos, o diabo em pessoa.
Combinaram-se todos os povos d’estes sitios para fazerem uma grande montaria ao animal feroz, qualquer que fosse a especie a que pertencesse.
Reuniu-se grande numero de povo no terreiro da capella d’Alcobaça, limites de Fiães e Castro Laboreiro, e mais de 300 homens investiram com a floresta das Ramalheiras.
Não appareceu a féra, mas achou-se um rapaz, de 14 annos, horrorosamente ferido por ella, e salvo por umas vaccas, que andava guardando, as quaes se atiraram resolutamente ao animal feroz, e o fizeram fugir. O rapaz escapou.
Esta féra appareceu n’estes sitios por duas vezes, com intervallo de dois annos, demorando-se de cada uma alguns mezes. Desappareceu sem se saber como, nem para onde. Tambem nunca se chegou a saber positivamente que especie de animal era. Pelos signaes que davam os que tiveram a infelicidade de o ver, suppõe-se ser um grande tigre, fugido da jaula de qualquer domador de féras. 
Nunca se soube ao certo o que era..."


Extraído de:
PINHO LEAL, Augusto Soares d'Azevedo Barbosa de (2006) - Portugal Antigo e Moderno. Livraria Editora Tavares Cardoso & Irmão, [1873] , Tomo III, Lisboa.

Lendas de Melgaço XIX: O tio Agostinho de Cubalhão e o Lobo


No tempo em que de noite não havia luz em lado nenhum, os lobos vinham com frequência visitar as casas. Nas noites escuras de Inverno, quando certos barulhos circundavam as casas, todos se arrepiavam, pensando no lobo esfomeado. 
 As histórias de pessoas e rebanhos devorados pelos lobos ouviam-se com frequência junto à lareira. Naquele dia o Agostinho tinha ido a Castro Laboreiro com o seu carro de bois. Ganhava a vida carregando feno, vinho ou lenha dos montes. Camiões e camionetas era coisa que não existia. Nesse dia carregara o carro com uma pipa de vinho para Laboreiro e, no regresso, para aproveitar o frete, trazia um carro de feno, abundante lá por Castro Laboreiro. Já que tinha de fazer o caminho, assim ganhava duas vezes, ocupando sempre o carro. 
Quando regressou, como a viagem era longa e o caminho difícil para a segurança da carga, já fazia noite. Vinha sozinho com os bois entrepostos pela ladeira a baixo, com um aguilhão pr’a picar o gado. No meio da escuridão, o gado parecia conhecer melhor o caminho do que tio Agostinho, que ora seguia à frente dos animais, ora se colocava ao lado, conforme os locais e a disposição. 
Havia passado Lamas de Mouro e estava perto de Cubalhão, num sítio a que chamam «as Grandes Botas de Cubalhão». Num raio de 4 ou 5 Km não se vê viva alma ou casa habitada. Ali não existe nada! As pessoas diziam que aquelas «botas» eram muito medrosas por ali ter sucedido há muito tempo acontecimentos estranhos com lobos. Conta-se que ali, numa encruzilhada, aparecia um lobo que comia as pessoas. Todo o que por aquele local passava, a uma certa hora, era comido! É verdade que alguns diziam terem visto no dito lugar botas, bocados de pés... Acontece que uma  vez um homem muito valente, quando soube que tinha aparecido mais umas botas e pernas disse: 
 “-Eu vou desafiar o lobo! Vou matar esse lobo maldito!” Ninguém queria acreditar no que estava a ouvir. Os outros homens bem tentaram dizer-lhe que o que pretendia era uma loucura, e que iria morrer, como os outros; que ele sozinho não conseguia matar o lobo. Mas ele fez ouvidos de mercador e, depois de se apanhar com uma boa caneca de vinho, foi para a encruzilhada esperar o lobo, levando consigo um valente pau com que estava habituado a lutar nas festas e nas feiras da região. 
 A dado momento apareceu o lobo. Assim que o viu, o homem levantou o pau, em posição de espera, ora rodando à direita, ora à esquerda, na tentativa de não ser surpreendido pelo lobo. O lobo foi-se aproximando, confiante, mas sem grande entusiasmo, como querendo estudar os golpes do seu adversário. O homem bem tentava «botar-lhe» o pau, mas o lobo, de tão manhoso e inteligente, apanhava o pau ao homem com o rabo! O pobre do homem por mais ágil que fosse, não conseguia acertar nem na cabeça nem no corpo do lobo, porque este desviava sempre o pau com o rabo. Durante a noite o homem foi lutando sempre, na expectativa de acertar na cabeça, mas sem sucesso. Começava a ficar cansado e a baixar cada vez mais o vara. Parecia que o lobo sabia o que estava a fazer: levar o pobre do homem a tal fadiga que, não conseguindo depois defender-se, o poderia comer a seu belo prazer. 
Na aldeia a espera já angustiava os mais hesitantes. Então, um dos amigos, foi atrás dele: -“Esse desgraçado vai-se fazer comer! Deixa-me ir acudi-lo”. Pegou num outro pau e lá foi, não sem antes deixar de levar consigo lume, para assustar o lobo. Quando chegou junto do amigo, estava ele ainda a lutar com o lobo, e o lobo a deitar-lhe o rabo... Resolveu atacar o lobo pelo outro lado, a ver se lhe acertava na cabeça, pois ele não se podia defender dos dois ao mesmo tempo. Desta forma conseguiram dominar o lobo e matar a fera que a todos assustava. 
 Estava o tio Agostinho a pensar nesta luta, quando viu aproximar-se dele um grande cão, que logo viu ser um lobo! Perante tal visão, sentiu um arrepio pelo corpo todo. Segurou com força o aguilhão do gado, e colocou-se na frente dos bois, sem nunca tirar os olhos daquele animal que não deixava, agora, de o seguir. Durante 2 km o lobo acompanhou-o, sem mostrar qualquer receio, nem esboçar qualquer ar de ferocidade. Não teria ele fome? Estaria ele ali só para lhe lembrar que aquele era o seu território, exigindo o respeito que lhe era devido? A resposta era difícil de encontrar, mas o certo é que, já perto de Cubalhão, às primeiras casas, o latir dos cães ao barulhos dos rodados do carro fez parar o lobo. Tio Agostinho sentiu que o sangue voltava, na certeza de que dali para baixo já não era terra de lobos.



Extraído de:
CAMPELO, Álvaro Lendas do Vale do Minho Valença, Associação de Municípios do Vale do Minho, 2002 , p.89-91

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Lendas de Melgaço VIII: A Inês Negra





Esta história teve lugar em 1388, no início do reinado de D. João I, em que se travou uma guerra contra Castela pela independência de Portugal. Esta contenda, em que sobressaíram os feitos do Condestável Nuno Álvares Pereira e de muitos nobres portugueses, dividiu a aristocracia e o povo português, tomando muitas terras o partido de Castela. 
Foi durante esta guerra civil que a Inês Negra, uma mulher do povo fiel à causa portuguesa, abandonou Melgaço quando esta cidade se pôs ao lado do rei de Castela. Quando D. João I decidiu reconquistar Melgaço, Inês Negra juntou-se ao seu exército, mas as duas facções nunca chegaram a defrontar-se. A batalha travou-se entre Inês Negra e uma sua inimiga de longa data, a "Arrenegada", que tinha optado por apoiar os castelhanos. A lenda diz que a "Arrenegada" desafiou Inês Negra do alto das muralhas, propondo que a contenda fosse resolvida entre ambas com o acordo do exército castelhano. 
D. João I assistiu espantado à resposta de Inês Negra que dizia aceitar o desafio. Ambos os exércitos concordaram com este duelo e a Inês Negra, de espada na mão, defrontou a sua inimiga apoiada pelos gritos de incitamento dos homens de D. João I. O silêncio instalou-se quando a "Arrenegada" fez saltar com um golpe a espada das mãos de Inês, mas esta tirou uma forquilha da mão de um camponês e fez-se à luta, procurando atingir a "Arrenegada" nas pernas. Sentindo-se em desvantagem, esta atirou fora a espada e pegou num varapau que quebrou com fúria nas costas de Inês. Louca de fúria e de dor, Inês Negra largou a forquilha e atirou-se com unhas e dentes à sua oponente, rolando ambas no chão empoeirado. Um grito de dor gelou a assistência, que não conseguia perceber qual das duas vencera. Foi então que a "Arrenegada" se levantou e fugiu para o castelo, tapando as nódoas e o sangue do rosto com as mãos. 
Os castelhanos abandonaram Melgaço no dia seguinte e D. João I quis recompensar a heroína, mas esta respondeu que estava plenamente recompensada pela sova que tinha dado à sua inimiga.


Extraído de:
http://www.nortept.com/lendas

terça-feira, 11 de setembro de 2012

Lendas de Melgaço VII: O Coto da Moura




Em Paderne, há muitos, muitos anos, num lugar onde hoje existe uma fonte que enche um regato e rega muitos campos, havia uma Moura encantada que todos os dias, ao nascer do sol, saía para estender o seu tesouro no cimo de um penedo, a que chamaram Coto da Moura. Servia este penedo de soalheiro ao tesouro da Moura. Depois de estender o seu tesouro, a moura sentava-se no cimo do penedo e, enquanto cantava, ia penteando os seus belíssimos cabelos louros com um maravilhoso pente de ouro. Refulgia ao longe tal conjunto. Pensava-se que a Moura assim fazia para atrair, com o deslumbramento das jóias, alguém que a pudesse desencantar.
Os que por ali passavam contavam tal visão, mas a maior parte do povo, ou se mostrava incrédulo, ou temia aproximar-se. Então, um certo dia, um dos homens mais corajosos da aldeia foi ver se o que contavam era verdade.
Quando chegou junto da fonte, viu uma Moura com o cabelo e um pente de ouro. Estava ela sentada sobre o penedo a pentear-se. Aproximou-se lentamente, para a surpreender, de forma a que ela não pudesse escapar. Então ela, pressentindo a presença do homem, disse-lhe:
- Meu caro senhor, tenho um pente e uma «peina». Qual deles queres?
O homem não esperava tal oferta! Até porque diziam que a Moura guardava com grande cuidado o seu tesouro. Restabelecido da surpresa, mas julgando pouco provável serem de ouro os cabelos da Moura, apesar de brilharem como esse metal, respondeu depois de breves momentos:
- Quero o pente!
- Ai homem, que me acabaste de dobrar a «fada»!
A Moura, depois de o fixar com um triste olhar, atirou o pente para o regato. E enquanto o homem o foi apanhar, motivado pela ganância, a Moura desapareceu.
Em vão o homem procurou o pente. E ainda hoje se julga que o som das águas a cair no regato se parecem com o choro de uma donzela. Por isso se diz que o fado da Moura ainda contínua, já que o encanto só seria quebrado se o homem tivesse pedido a «peina» da Moura, que era a sua bela cabeleira.


Extraído de:
CAMPELO, Álvaro (2002) - Lendas do Vale do Minho Valença, Associação de Municípios do Vale do Minho.

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Lendas de Melgaço VI: O Lagarto de lamas de Mouro

 

Em tempos que lá vão, nas imediações da chã de Lamas de Mouro, existia um monstruoso lagarto que afligia toda a população. O enorme réptil postava-se sobranceiro ao caminho que levava à Senhora da Peneda, e todos os que ali passavam eram engolidos pelo seu apetite voraz. Todos os anos, alguns pastores, perdigueiros, e romeiros, que por ali passavam com destino ao Santuário da Senhora, eram vítimas do feroz lagarto.
  Ora ali perto, no coto da meadinha, morava uma mulher que passava o tempo a fiar na roca e a assoalhar as suas meadas, aproveitando tão arrumado lugar ao sol. Acontece que um dia esta mulher, em andanças de devota ou de pegureira, passou por perto do lagarto. Ao ver a figura que se aproximava, o terrível sáurio acometeu-a para a devorar. Num supremo e insuspeito esforço a mulher arrancou da cintura uma arma de defesa, que não era outra coisa senão a sua roca! Com extraordinária habilidade desferiu um poderoso golpe no até então invencível réptil, transformando-o em pedra!
  Crê-se que a mulher era Nossa Senhora, e a prova do seu feito pode-se ainda hoje ver no lugar dito de Portela do lagarto, nome que advém da forma rochosa que encima o penhasco, pois se assemelha ao repugnante réptil.



Extraído de:

http://www.nortept.com/lendas.