terça-feira, 30 de outubro de 2012

A Freguesia de Penso e a sua Igreja Paroquial: algumas referências históricas


A freguesia de S. Tiago de Penso pertenceu ao antigo concelho de Valadares, até á sua extinção, em 24 de Outubro de 1855. Em 1839 aparece na comarca de Monção, e em 1862 faz parte já da comarca de Melgaço. Esta freguesia era de vigairaria da apresentação do Mosteiro de Paderne, que vendeu o direito de apresentação à Casa dos Caldas.
O seu topónimo parece lembrar, de imediato, as medidas usadas para avaliar o peso das mercadorias que entravam ou saíam do concelho. Seria aqui o local do pagamento das antigas portagens.

No “Minho Pirotesco”, José Augusto Vieira descrevia a freguesia, em 1886, como “uma vilota em miniatura”. E acrescentava um pormenor curioso: “Na quinta de S. Cibrião [Cipriano], é tradição que existiu um templo gentílico, dedicado a Júpiter, no ponte onde está hoje a capela. Há quem diga, porém, que essa tradição foi inventada com o fim de enobrecer a quinta, já de si notável pela família que possui e pelo bom vinho que produz.”
Tradição verdadeira, e de que o povo de Penso não se despega, é a da Alumiada, no dia anterior ao S. Tomé, a 20 de Dezembro.
Assim a conta do padre Carvalho da Costa: “Lá no alto da serra desponta a capelinha de S. Tomé. (…) Nesse dia, pobres e ricos, mal a noite cai, iluminam, com feixes de palha [centeia] a arder [as fantocheiras] a visita que este santo faz ao seu visinho S. Fins, na serra da Galiza, na outra margem. Apagado o lume, em grande algazarra, come-se a ceia que é, por assim dizer, uma antecipação à consoada. Há todas [rabanadas], arroz-doce e vinho quente açucarado”. Modernamente, estas reverências a S. Tomé são rematadas com fogo-de-artifício.
Os vinhos verdes produzidos nas terras férteis desta freguesia, donde sobressai um excelente Alvarinho, são considerados como dos melhores de toda a região. Existe em Penso uma nascente de águas sulfurosas, de notável valor terapêutico. É a chamada Fonte Santa.
A igreja paroquial, do século XVII e sem um estilo definido, merece alguma atenção. Há já alguns anos foi roubada a cruz em granito, com a imagem do Crucificado, também em pedra, num interessante trabalho de arte popular.


Igreja Paroquial de Penso

Não existem muitas referências históricas à igreja de Penso. Sabe-se que foi taxada em 62 libras na relação mandada fazer por D. Dinis quando lhe foi concedida por bula papal a concessão, por três anos, de arrecadar rendimentos para custear a guerra com a moirama (Costa, 1981).
Pelo Censual de D. Frei Baltasar Limpo de 1551-1581, Santiago de Penso estava adstrita à Terra de Valadares e anexa ‘im perpetuum’ ao mosteiro de Paderne que apresentava o pároco. O abade de Messegães ‘podia reter os frutos desta igreja de Penso’ (Costa, 1981).
Na resposta ao ‘Inquérito’ pombalino de 1758, Diogo Manuel de Sousa, pároco de Santiago de Penso confirmou que a apresentação pertencia ao Dom prior donatário do mosteiro de São Salvador do Couto de Paderne e esclareceu que tinha de rendimento ‘de frutos certos e incertos cento e trinta mil réis, pouco mais ou menos’ (Capela-IAN/TT, 2005).   
Esta igreja, integrada em meio rural, é construída em cantaria autoportante de granito, aparente, de aparelho regular, apresenta planta rectangular e cobertura a duas águas.
Na fachada abre-se porta axial com padieira encurvada à qual se sobrepõe uma janela rectangular gradeada. Remate por cimalha angular com cruz latina no vértice e pináculos nos extremos a coroar os robustos cunhais que reforçam toda a estrutura arquitectónica.
Torre em dois registos estando o último ocupado por quatro sineiras. É Rematada por cornija saliente recortada, coruchéu e pináculos sobre os cunhais. Banco corrido em bloco de granito adossado à base da torre, em toda a sua largura.

Informações extraídas de:

- CAPELA, J. Viriato (Coord.) - As Freguesias do Concelho de Melgaço nas «Memórias Paroquiais» de 1758. Alto Minho: Memória, História e Património, Ed. C. M. de Melgaço, Melgaço, 2005  

- COSTA, Avelino de Jesus da - A Comarca Eclesiástica de Valença do Minho (Antecedente da Diocese de Viana), in Separata do 1º Colóquio Galaico Minhoto, Associação Cultural Galaico-Minhota, Ponte de Lima, 1981, Vol. 1, p. 69-235.

- Dicionário Enciclopédico das Freguesias: Braga, Porto, Viana do Castelo; 1º volume, pág. 423 a 439; Coordenação de Isabel Silva; Matosinhos: MINHATERRA, 1996.

http://acer-pt.org/vmdacer/index

- http://www.cm-melgaco.pt


domingo, 28 de outubro de 2012

Postal centenário da vila de Melgaço (década de 1910)


Postal centenário que na frente ilustra a antiga porta de entrada na vila com a presença de algumas pessoas e agentes da autoridade. Esta fotografia foi tirada nos primeiros anos do regime republicano.
Este postal foi escrito em Viana do Castelo e enviado para Famalicão para a Sra. Rosa de Faria Gonçalves de parte do seu sobrinho António. O Sr. António diz-lhe à sua tia que no dia  seguinte estará em Famalicão em vésperas da sua partida para o Brasil, concretamente para o  Rio de Janeiro . 
Fiquei confuso em relação à data do postal já que,  pelo punho do Sr. António, foi escrito em 24 de Janeiro de 1924 enquanto que a data no carimbo da estação de correios mostra-nos o ano de 1914. 

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Peso, início do século XX - Postal alusivo ao "Novo" Hotel na Quinta do Peso


Postal alusivo ao Grande Hotel do Peso (Hotel Figueiroa) nos seus primeiros tempos no principio do século XX. Este é um dos mais antigos postais alusivo às termas do Peso e hotéis na zona circundante.

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Rocha Peixoto: um vulto da ciência com estreitas ligações às Termas do Peso



António Rocha Peixoto

1866-1909
Naturalista, etnógrafo, arqueólogo e bibliotecário


António Augusto César Octaviano da Rocha Peixoto nasceu a 18 de Maio de 1866 no n.º 20 da antiga Rua da Silveira (actual Rua Rocha Peixoto), na Póvoa de Varzim.
O 11.º dos 12 filhos de António Luís da Rocha Peixoto, médico, cirurgião e militante miguelista, natural de Arcos de Valdevez, e de Constança Amélia da Costa Pereira Flores, de Vila do Conde, foi baptizado na Igreja Paroquial de Nossa Senhora da Conceição, a 21 de Maio.
Em 1874 ficou órfão de pai, acontecimento que dificultou grandemente a sua vida, obrigando-o a trabalhar para prover o sustento da mãe e de três irmãs, ainda antes de completar a formação académica.
Em criança tinha um aspecto frágil que o ajudava a esconder um carácter dotado de grande força de vontade. Estudou no Colégio de Nossa Senhora do Rosário, no Porto, e, aos 15 anos de idade, ajudou a fundar a revista estudantil "Boletim Litterario. Revista Académica Mensal", que produziu 3 números.
Em 1883, com dezasseis anos e sob o nome de Augusto César, publicou artigos críticos sobre os Jesuítas no jornal da Póvoa de Varzim, intitulado "A Independência", em resposta a Afonso dos Santos Soares, defensor confesso da Companhia de Jesus.
No ano seguinte, já estudava no Instituto Escolar de S. Domingos (depois convertido na Escola Académica), nas proximidades da Rua da Sovela, no Porto, tendo por condiscípulos António Nobre e Alexandre Braga.
Aquando da mudança da Escola Académica para a Quinta do Pinheiro, conviveu com Hamilton de Araújo, Fonseca Cardoso e Ricardo Severo, organizadores do "Grémio Oliveira Martins".
Em 1887, na Academia Politécnica do Porto, fundou com Fonseca Cardoso, João Barreira, Ricardo Severo e Xavier Pinho a "Sociedade Carlos Ribeiro". Este grupo, ao qual se juntou Basílio Teles, António Arroio, António Nobre e Augusto Nobre, reunia-se numa casa na zona do Moinho de Vento para debater a crise nacional. Destas reuniões resultou a publicação da "Revista de Sciencias Naturaes e Sociaes", entre 1890 e 1898, dirigida por Rocha Peixoto, Ricardo Severo e Wenceslau de Lima.
Nesses tempos de estudante, Rocha Peixoto publicou artigos a folhetos sobre a degradação do Museu Municipal do Porto, colaborou em opúsculos e jornais, como "O Primeiro de Janeiro", do Porto, e "O Século", de Lisboa, e também participou em tertúlias musicais, tocando guitarra, tendo mesmo chegado a compor uma valsa intitulada "Lavandisca".
Rocha Peixoto participou na Tumulto de 31 de Janeiro de 1891, como nos conta Basílio Teles na sua obra "Do Ultimatum ao 31 de Janeiro: esboço d' historia política". Nela refere que Peixoto e Ricardo Severo, na manhã desse dia histórico, o convocaram para aparecer na Foz para o pôr a par dos acontecimentos. Os três vistoriaram o centro do Porto, para se inteirarem das movimentações das tropas fiéis ao Governo, e Rocha Peixoto escreveu um manifesto dirigido à população civil, em especial ao operariado, com o intuito de instigar a agitação social e assim perturbar a Guarda Municipal. Com a consciencialização do fracasso desta sublevação, Basílio Teles e Ricardo Severo deixaram Rocha Peixoto e centraram-se na busca de auxílio para os revoltosos.
Foi secretário da "Revista de Portugal" (1891-1892), dirigida por Eça de Queirós, organizou o "Catálogo de Mineralogia, Geologia e Paleontologia: Extracto do Annuário de 1890-91", da Academia Politécnica do Porto. Em 1893 passou a ser sócio da Academia das Ciências e desempenhou o cargo de bibliotecário no Ateneu Comercial do Porto (1893-1900).
Em 1895 começou a colaborar com a "Revista d'Hoje" e recebeu o diploma de académico da Classe de Ciências Matemáticas, Físicas e Naturais.
Pela altura da extinção do grupo "Sociedade Carlos Ribeiro" e da "Revista de Sciencias Naturaes e Sociaes" (1898), Rocha Peixoto leccionava Geografia e Ciências Físico-Naturais na Escola Industrial Infante D. Henrique, no Porto.
Em 1899 associou-se à nova revista "Portugália", de carácter nacionalista, que tomou o lugar da "Revista de Sciencias Naturaes e Sociaes". Esta publicação, dirigida por Ricardo Severo, contava com Fonseca Cardoso, como secretário, e com Rocha Peixoto, como redactor-chefe e articulista.
Em meados de 1900 foi nomeado Conservador do Museu Municipal do Porto, então instalado num edifício da Rua da Restauração, e, em 28 de Junho desse ano, acumulou esse cargo com o de Director da Biblioteca Pública Municipal do Porto, de que foi Director Interino entre 1900 e 1904 e Director Efectivo entre 1904 e 1909.
A sua relação com o Museu Municipal era anterior à sua entrada na instituição, pois, ainda estudante na Academia Politécnica do Porto, escrevera sobre o seu estado ruinoso, no título "O Museu Municipal do Porto (História Natural)" e no artigo "O Museu da Restauração" publicado n' "O Primeiro de Janeiro", em 1893. Em 1894, no mesmo jornal, sugeriu que a edilidade portuense comprasse a colecção de faiança de Guerra Junqueiro e, em 1897, integrou uma comissão de estudo da reorganização do museu e da sua instalação num novo edifício.
Durante a comissão de serviço no Museu, organizou as diversas secções do acervo desta instituição, a saber, a de Mineralogia, de Paleontologia, de Etnografia, de Arqueologia, de Artes Decorativas e de Numismática, melhorou os espólios de pintura e de azulejo e promoveu obras no edifício. Em 1902, com Joaquim de Vasconcelos, criou o "Guia do Museu Municipal do Porto", iniciou a transferência do Museu para as suas novas instalações, anexas à Biblioteca (1902-1905), e dotou-o de peças provenientes do Mosteiro de Santa Clara de Vila do Conde, iniciativa que levantou alguma polémica.
No período em que presidiu aos destinos da Biblioteca, fomentou profundas obras de restauro do edifício, a reorganização dos seus serviços e a reforma e modernização da classificação e catalogação dos livros. Criou três pequenas bibliotecas no Porto (no Bonfim, em Cedofeita e na Foz, com título modernos existentes em duplicado na B.P.M.P.), favoreceu doações às bibliotecas da Póvoa de Varzim e de Ponte de Lima e, ainda, mandou colocar nas paredes do claustro da Biblioteca Pública (antigo claustro do convento de Santo António da Cidade) azulejos quinhentistas e barrocos, oriundos de extintos conventos do Norte de Portugal (de Santa Clara e de São Bento de Ave Maria, do Porto, de Santa Clara e de S. Francisco, de Vila do Conde, de Grijó, em Vila Nova de Gaia, etc.).
No final de 1901 foi nomeado naturalista-adjunto da secção de Mineralogia da Academia Politécnica do Porto e, em 1903, foi enaltecido pelo Ministro Luís Augusto Pimentel Pinto, juntamente com os outros responsáveis da revista "Portugália".
Em 1908 passou uma temporada nas termas do Peso de Melgaço, onde fez amizade com um grupo de utentes da estância termal, entre os quais se destacavam o Dr. Teixeira de Sousa, de Chaves, o Dr. Silva Gaio, Secretário da Universidade de Coimbra, e o artista portuense António Carneiro. A esse grupo chamou "Academia".
Apesar da ligação académica, cultural e profissional ao Porto, Rocha Peixoto nunca deixou de manter um forte vínculo à sua terra natal, comprovado pelos estudos sobre o património arqueológico, histórico, e etnológico da Póvoa de Varzim. Foi responsável pelas primeiras escavações da Cividade de Terroso, do Castro de Laúndos e da vila de Martim Vaz, envolveu-se na questão da naturalidade de Eça de Queirós e empenhou-se na defesa da comunidade piscatória poveira, que influenciou, entre outros, os trabalhos de Fonseca Cardoso (estudo antropológico sobre os pescadores da Póvoa, editado na "Portugália", em 1908), de Cândido Landolt (livro sobre o Folk-Lore da Póvoa de Varzim, de 1915) e de António dos Santos Graça ("O Poveiro", de 1932). Não é, portanto, de estranhar, que tenha legado a sua biblioteca, constituída por mais de 2.000 títulos, à Biblioteca Municipal da Póvoa de Varzim.
Este notável naturalista, professor, antropólogo, etnólogo e escritor faleceu em Matosinhos, vítima de tuberculose aguda seguida de uma crise, a 2 de Maio de 1909.
Na altura da sua morte trabalhava no Porto como naturalista-adjunto da Academia Politécnica, como Director da Biblioteca Pública e do Museu Municipal do Porto e, ainda, como professor de Geografia e de Ciências Físico-Naturais da Escola Industrial Infante D. Henrique.
Do Cemitério de Agramonte, no Porto, onde foi sepultado, o seu corpo foi trasladado para o Cemitério da Póvoa de Varzim, em 16 de Maio de 1909, a pedido da Câmara Municipal poveira.

Fonte: Universidade Digital / Gestão de Informação, 2010