quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Carmencita, a contrabandista de Melgaço na novela de Aquilino Ribeiro


Melgaço, em meados do século XX

Na novela "O Morgado de Fraião" (1963), Aquilino Ribeiro fala-nos de Carmencita, uma espanhola que vivia em Melgaço e que se dedicava ao contrabando, entre outras atividades:
“Morava na vila de Melgaço, passada para ali da terra de Verim não se sabia em que barca, uma rapariga espanhola, Cármen Salvatierra, espelho de salero e donaire, que vivia com a mãe e o padrasto. Abrira este ali uma quitanda, onde cambiava dinheiro e, a meia porta, exercia o melhor contrabando daquela raia, levando para Espanha e trazendo para Portugal mercadoria a primor, com beneplácito manifesto dos carabineros. Dizia-se à boca pequena que D. Jesus Martinez - que tal era o seu nome - era agente secreto ao serviço de Calomarde e dos Apostólicos. O certo, certo é que Carmencita era uma lasca de arregalar o olho, em torno da qual arrulhavam pombos mariolas de alto topete, entre os quais contavam o morgado de Gondim, um galo doido por mulheres, e o abade de Cerdal, este um peneireiro de alto lá com ele para toda a espécie de fêmea que mostrasse proa, bom peito e anca. A moça ria, que nem de cócegas, ante os devaneios dos galanteadores e recebia os cortejos de uns e de outros com grandes alardes de virtude e mesmo sobranceiros desdéns. Um dia, o morgado de Fraião viu-a e ficou a morrer por ela. Tinha mulher e filhos, embora, dava tudo, inclusive a salvação, ele que batia o dente quando o frade lhe pintava as profundas do Inferno, para cativar a beldade. Não foi a ponto de inventar uma héctica galopante para D. Mécia e prometer casamento à franduna após o funeral da ilustre dama, que louvores ao Senhor estava anafadinha e da melhor saúde? A moça, rindo muito, respondeu:
- Pues deje usted volar su mujer al cielo de los gorriones y que todo el mundo lo sepa.
Perante semelhante obstinação, que magicou Albano de Carvalhais? Preparou uma expedição a Melgaço com seis dos seus bravos, capitaneada pelo Tomás Ruivo, e raptaram a espanhola. Tinha-a agora como uma rainha, sege, aias, su madre, na casa de S. Pedro da Torre, com uma quantia tão alta à sua ordem no Banco del Espírito Santo de Vigo que bastaria para dotar meia dúzia de burguesinhas honradas. Assim calou a pombinha, garantidos fartamente os seus dias e de su madre e um novio para quando batesse asas. Mas a aventura deixou rescaldo. Uma noite que Albano de Carvalhais saía do seu alcácer de sultão sofreu a espera de quatro homens emboscados que lhe mataram o cavalo com uma zagalotada e deixaram por morto um dos homens da escolta. Quem foi, quem não foi, assentou-se que a cilada partira de Martinez, que jurara tirar-lhe a vida e continuava a mostrar-se relutante a qualquer concordata. 
Porém, mediante inculcas daqui, indícios dalém, ficou estabelecido que o autor da tranquibémia tinha sido o abade do Cerdal, Joaquim da Cunha Silvano, que com as dores de cotovelo dera urros que se ouviram até no paço do arcebispo.”

Extraído de:
- RIBEIRO, Aquilino (1963) - Casa do Escorpião: novelas. Bertrand, LIsboa.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Do Castro Laboreiro ao Castro Laboreiro (Memórias de estórias da raia)

Castro Laboreiro de outros tempos

Na revista Arraianos, no seu 1º número, encontramos uma estória muito interessante que nos conta o seguinte: "O dia 6 de agosto erguinme moi cedo para facer a romeria da Nosa Señora da Peneda, camiñando a través das poulas, das gramas, da gándaras; polos cotos onde pacen, ceibes,as vacas piscas. Ía eu na compaña dos meus pais e mais duns cantos da mina aldea de Casardeita, incluído o abade, aos que, axiña, se xuntaron outros camiñantes de Leirado que levaban a mesma rota. Estabamos moi ledos todos nós. Eu gozaba aquelas vacacións escolares coma nunca gozara outras. Chegados ao santuario, após de longas horas de duro andar, instalámonos nunhas leiriñas de aló para pasarmos o día e sentirlles cantar o vira ás voces delgadas da raia, que parece que se che espetan na alma. A mamai fora ás misas e o papai presentoume dous señores. Un era baixote, de barbicha arroxada, carecas, que vestía uniforme e resultou ser o Capitán Costa Beirão, da escuadra da Garda Fiscal de Melgaço. O outro, máis mozo, ollos claros e prominentes, alto e de bigode raro, chamábase João de Sousa Mendes; foime fulminantemente simpático e puxémonos a ligar unha improvisada conversa sobre o saudosismo. Desempeñaba, este segundo señor, as funcións de profesor de Primaria en Castro Laboreiro. Pois ben, cando Sousa Mendes se inclinaba para deixar no riacho a folla de bacallau de mollo para o xantar, mentres asobiaba ledamente a Marcha Turca de Mozart, foi agredido por un animal enorme. Un can negro coma o demo que o trabou na gorxa e o deixou morto instantáneo sen que ningún dos presentes fose capaz de lle facer separar as queixadas. Só se detivo o bruto, que era da raza enxebre daquelas serras, cando o Capitán o abateu a tiros da sua arma regulamentar. Pouco antes do ataque e de tan terríbel morte, o infortunado Profesor, ledamente sorprendido polas miñas afeccións literarias, tan excepcionais ou escasas nos países da raia, entregárame, cun sorriso tímido que lle suliñaba a pouca espesura do bigote, un manuscrito narrativo intitulado “O castelo das poulas”, que tirou ao efecto dun peto do seu casaco. Comprobei, na altura, que o Profesor ía moi perfumado. Tales papeis son os que reproducín anteriormente de modo literal, aínda que lixeiramente modificado o texto pola transcripción galega. Con todo, conservo, malenconicamente, o orixinal en portugués por se algún esprito cursidoso quixese contrastar. Escuso decer que o luctuoso feito diu moito que falar no estraño triángulo cuxos vértices se sitúan en Celanova, Montalegre e os Arcos de Valdevez."

Texto extraído de: Arraianos, Número 1, Agosto de 2004.

domingo, 21 de dezembro de 2014

"Volta a Portugal em 80 Dias" em Melgaço



Viajando por terras de Melgaço...

Foram emitidas recentemente na SIC Notícias uma série de reportagens sobre a “Volta a Portugal em 80 dias” no programa  “Volante”. A última das reportagens é dedicada a Melgaço. A viagem é contada também no blogue “Grande Turismo”. 
As paisagens da nossa terra, o alvarinho, a gastronomia, tudo terminado com um piquenique com salpicão, pão e alvarinho no meio de garranos...
Veja o vídeo aqui... 




No blogue Grande Turismo encontramos o seguinte texto “Melgaço é a vila mais a Norte de Portugal. Dormir na Pousada de Juventude de Melgaço foi o mais a Norte que dormimos em Portugal. De um lado o Rio Minho que desenha a fronteira com a Galiza, do outro o Parque Natural de Peneda Gerês e o fantástico planalto de Castro Laboreiro. A localização para conhecer as terras de Alto Minho não podia ser melhor. Daqui é possível fazer interessantes rotas até Castro Laboreiro ou pelas quintas onde se produz o mais afamado vinho verde português – com base na casta alvarinho. O Palácio da Brejoeira ou a Quinta do Soalheiro são duas visitas obrigatórias. Os cinéfilos podem ficar em Melgaço e visitar o curioso museu do Cinema que reúne o espólio de um colecionador francês e que vai das primeiras máquinas de filmar e projetar até a uma gigantesca coleção de cartazes de cinema. Quem preferir o contacto com a natureza não pode deixar de fazer a caminhada até ao planalto de Castro Laboreiro e admirar a beleza dos cavalos garranos (que ainda vivem em estado semi-selvagem) ou dos cães Castro Laboreiro, uma das poucas raças genuinamente portuguesas.
Depois de um dia de explorações a Pousada de Juventude de Melgaço oferece o melhor descanso para aventureiros e também para os estudantes da Escola Superior de Desporto e Lazer de Melgaço que aqui estão alojados, fruto de um acordo com a Movijovem. A Pousada fica inserida num agradável parque desportivo e de lazer da cidade. Com a chegada do Outono as árvores vestem as folhas escarlates, o melhor dos cenários para beber o café da manhã."

Texto extraído de:
http://www.grandeturismo.com/2014/10/26/dormir-no-ponto-mais-a-norte-de-portugal/

sábado, 20 de dezembro de 2014

A emigração nos anos 60 em artigo da "Voz de Melgaço" (1967)





Num artigo publicado na edição da “Voz de Melgaço” de 1 de Fevereiro de 1967, é abordada a questão da emigração e do consequente esvaziamento populacional do concelho e da região.

Emigração: Problema número um do Minho

Todo o país é afectado por esse grande problema que é o da emigração. Falemos, particularmente, do que nos diz respeito, à nossa província e, de um modo especial, a Melgaço. É sabido que grande parte dos nossos contemporâneos deixam a terra que lhe foi berço para procurar noutras, no estrangeiro, o pão-nosso de cada dia, muitos deles, que a sorte sobeja, ganham proventos, que depois, os revertem na terra onde nasceram. Veja-se, por exemplo, a febre da construção civil que vai por todo este concelho. Certamente que é dinheiro dos emigrantes que nunca esquecem a sua querida terra, que lá longe vive dentro deles. A presença da terra e dos seus familiares é sempre sentida e vivida por quem um dia abandonou tudo para um rumo melhor nas suas condições de vida. Porém, há outros, e nesse número estamos nós, que nunca abandonamos esta querida terra talvez que é próprio do ser humano. Não quero dizer com isto que há, em nós, tom de censura, no que outros pensam e desejam ser realizado. No entanto, apesar de não possuirmos ambições, nos limites da nossa vida, sentimos à nossa volta um bem-estar de vida (...).

Talvez um dia pensássemos em ir de alongada pelas terras de África, das nossas províncias ultramarinas. É uma coisa que nos fala ao nosso sangue.”


Extraído de: 
- A Voz Melgaço, edição de 1 de Fevereiro de 1967 citado por CASTRO, Joaquim de & MARQUES, Abel (2003). Emigração e contrabando. Melgaço: Centro Desportivo e Cultural de São Paio.

sábado, 13 de dezembro de 2014

O contrabando na raia do Laboreiro e os contrabandistas castrejos




Num artigo publicado, Américo Rodrigues e José Domingues falam-nos dos contrabandistas castrejos bem como do seu modus operandi. Dão também uma ideia de como o contrabando era tão importante para estas povoações serranas.
"O contrabando, numa terra que sempre teve dificuldade em dar pão aos seus filhos, num tempo de guerra (1936-1945) e fascismo (Franco e Salazar), foi deveras importante e desenvolveu localmente o comércio e estatutos sociais. 
Aqui praticou-se sobretudo o contrabando “às costas” e o contrabando feito com muares - machos e mulas. Cada homem levava em média 25-30 quilos e as viagens duravam, às vezes, horas, ou mesmo dias e noites. Os animais transportavam uma centena de quilos e normalmente não passavam a raia delimitadora dos dois países. O contrabando de camião surgiu aquando da abertura das estradas em terra, uma na serra do Laboreiro, que ligou Portelinha aos Portos, e a outra, a actual estrada de fronteira, da Vila à Ameixoeira. Tal tipo de contrabando é por isso recente, e contava com a cumplicidade da Guarda Fiscal, que engordava à manjedoura da actividade, sem qualquer ética ou princípio de classe. Apesar da dificuldade em formatar esta actividade, considero que existem três tipos de contrabando distintos. Um contrabando familiar, de subsistência, exercido principalmente pelas mulheres e filhos, que esporadicamente deslocavam-se ao outro lado da fronteira, às lojas, para se abastecer de bens de primeira necessidade para a casa: azeite, bacalhau, uns sapatos, pimento, sabão, etc. Podia acontecer até irem trocar batatas por feijões ou milho. Outro contrabando, já mais profissional, é encabeçado, na maioria das vezes por comerciantes da zona. Compram e vendem de um lado e do outro da raia, com “amigos” do ofício. Para isso, contratam grupos de cinco, dez ou mais pessoas (familiares e vizinhos), para irem “ao outro lado” ou à raia, a pé, por vezes com animais de carga, buscar e levar os produtos. Para os locais, é um contrabando de subsistência que ajudava a enganar os tempos de miséria e privações. Homens, mulheres e rapazes, depois dos trabalhos do dia a dia, no campo e no monte, levam as cargas pela calada da noite aos locais combinados. O mais famoso e o mais bem sucedido dos contrabandistas foi “O Mareco” de Várzea Travessa. “O Frade” das Coriscadas talvez seja o segundo da hierarquia, no entanto são conhecidos de todos: “O Carqueijo” de Padresouro, com loja em Padresouro e depois na Vila, “O Mochena” das Eiras, com loja nas Cainheiras e depois na Vila, “O Chimpa” de Várzea Travessa, “O Albano” “Pereira” com loja nos Antões e depois na Vila, “O Varanda” de Portelinha, ou o “Nicho” da Vila. Estes homens não fizeram vida de emigrante (alguns partiram à aventura mas regressaram novos) como era moda na sua geração. O contrabando é a sua profissão desde muito cedo. Alguns já contrabandeiam em plena guerra civil espanhola. Melhoram bastante a sua condição de vida, poupam e compram quintas por todo o Alto Minho. Chegam a investir na banca portuguesa. A maioria dos castrejos formados (os primeiros), por universidades portuguesas, estudantes no final dos anos 50, é descendente deles. Estes homens gozam de um estatuto social superior e pela primeira vez os seus filhos passam a pertencer à classe média portuguesa. O Mareco é mesmo um dos homens mais ricos entre o rio Lima e Minho (norte de Portugal). Ao longo do século XX, nos lugares mais próximos da fronteira, são referenciadas muitas lojas de contrabando. Recordo aqui a loja do “Chastre” em Dorna, a do “Bernardo” na Assureira, a de Manuel “Maceira” no Rodeiro, natural de Várzea Travessa, a loja dos Antões de António “Carrapiço”, a loja do Outeiro de Domingos “Bernardo”, natural das Falagueiras, mais tarde comerciante na Vila, ou a loja da “Cordas” (que foi para o Brasil) no Outeiro, sita no prédio com o nome de Casino. O negócio era com galegos, e era vê-los curvados de sacos de café às costas em direcção à raia. O contrabando dos anos setenta e oitenta é em grande escala. Gado e bananas são os produtos mais conhecidos. Da velha guarda restam “O Frade” e “O Albano”, que ainda contrabandeiam, quase por gosto e obrigação, mas com eles, estão reformados da França ou ex-emigrantes jovens, que disto fazem modo de vida. Há mesmo contrabandistas de outras paragens, como o Salvador da Gave. Na estrada asfaltada fazem uso de camiões e as vacas entram aos milhares pela fronteira,com destino a todos os matadouros do norte e centro do país. As bananas abastecem todo o mercado nacional. Confessa um contrabandista: “em 1984, numa noite normal podia ter de lucro 2000 euros”. As famílias mais pobres e até alguns estudantes jovens ganham dinheiro todas as noites “a passar vacas” ou a carregar caixas de bananas. Os Guardas-fiscais reclamam parte dos lucros. O dinheiro circula a rodos. Na maior parte das vezes, os produtos eram enviados, recebidos e geridos por redes situadas em muitas vilas e cidades da Espanha e de Portugal. Estas redes faziam acordos com estes homens, conhecedores do terreno, das pessoas e das forças militares. Tudo acabou no início dos anos 90. Os últimos foram “Os do Ribeiro”, família Pires, do Ribeiro de Baixo. Deixo aqui uma nota de nostalgia para a contrabandista a retalho, “Tia Rezaura”, de nome Rosana, galega, que viveu sozinha até ao final da vida, no lugar da Assureira (inverneira de Castro Laboreiro), que de manhã ia comprar “peças” de trigo, chocolate, azeite, galhetas, e mais, à loja da amiga Luiza no lugar galego de Pereira, para venda aos Castrejos, e à tarde deixava algum guarda fiscal em turno, quentar-se em dia de frio, ao lume da sua lareira, oferecendo-lhe copa ou café acompanhado dos deliciosos e açucarados doces galegos."


Texto extraído de:
- DOMINGUES, José & RODRIGUES, Américo (2009) - Contrabando pela raia seca do Laboreiro, NEPML in: Boletim Cultural de Melgaço, Câmara Municipal de Melgaço.