sexta-feira, 5 de junho de 2015

Castro Laboreiro, 2ª metade do séc. XIX - Entre as Brandas e as Inverneiras



O escritor Alfredo Campos, algures na segunda metade do século XIX testemunhou o modo de vida das gentes de Castro Laboreiro e observou como os castrejos passavam parte do ano numa casa e depois passavam a outra parte do ano numa outra habitação. Então conta-nos que uma das casas assenta nalgum lugar da região de Castro Laboreiro, e é nela que o castrejo e sua família vivem os nove meses das estações da Primavera, Verão e Outono, lugares a que dão os nomes de brandas. A outra é situada para o lado dos Arcos de Vale de Vez, num vale profundo, denominado as inverneiras, e é ali que ele passa a estação rigorosa. Foge deste modo à aspereza do Inverno, procurando esse clima mais temperado pela situação, dias mais amenos e temperatura mais regular. Deste sistema de vida resulta que, sobretudo, nos meses de Novembro, Dezembro e Janeiro, o forasteiro que percorrer os lugares de Castro Laboreiro, encontrará a maior parte das habitações e propriedades fechadas e desertas, parecendo que aquela região foi abandonada por efeito de uma força qualquer superior. A mudança para as inverneiras opera-se, pouco mais ou menos, depois de meio de Novembro, e há para isto um dia determinado ou combinado, porque nesse é que emigram quase todos os que deixam a montanha pelo vale. 
Conta-nos também que "Eu assisti em Castro Laboreiro, ponto forçado para o termo das inverneiras, à passagem da extensa caravana. Parecia-me aquilo um longo comboio de viveres e materiais, em tempo de guerra. Estava nevoento o dia, e havia pronúncios de que, uma vez abertas as cataratas do céu, a chuva seria abundante, copiosa e fria. Logo ao romper da madrugada começou a passar a extensa fila de carros de bois, chiadores, vagarosos, monótonos, balanceando-se, segundo as depressões do caminho, conduzindo ao mesmo tempo a família, homens, mulheres, crianças, cães, gatos, galinhas, caixas de pau com presunto, todos os acessórios enfim, indispensáveis para o estabelecimento nas inverneiras, e muito semelhantemente ao que praticam muitas famílias do Minho, quando partem para o mar, a uso de banhos. Era curioso e digno de ver-se aquele espectáculo original, que durava desde manhã até ás duas ou três horas da tarde. Não sei porquê, mas tudo aquilo me produzia uma certa tristeza, que eu atribuo, sem duvida, à ideia de que, tendo de demorar-me, ia ficar só em Castro Laboreiro - ou pelo menos quase só. Com efeito, nas minhas excursões posteriores à partida para as inverneiras, tive ocasião de reconhecer, não só quanto tinha de natural o meu sentimento, mas quanto era justificada aquela emigração da montanha, a que poucos podiam resistir – por diferentes circunstâncias. Os povoados tornam-se desertos, é certo, semelham-se a lugares por onde passou o archanjodos flagelos, pondo tudo em fuga e deixando tudo envolto num céu de extrema melancolia. Mas o rigor do Inverno que nada deixa fazer, a neve, que chega em certas ocasiões a ter a altura de meio metro, a intercessão dos caminhos, as dificuldades nas comunicações, e muitas outras circunstâncias de igual peso e não menor grandeza, justificam muito bem a mudança daqueles montanheses, que, pela maior parte, nem vinho provam! Há povoados e lugares de vinte a vinte e cinco proprietários, em que, quando muito, só ficam três, como vigiando e fiscalizando os seus haveres e os dos emigrantes também. Nestas ocasiões, a gente percorre um, e outro, e outro ponto, sem encontrar uma única pessoa! Um deserto, com toda a sua cor sombria o seu triste desolamento! Parece que a vida humana, do mesmo modo que a vida da vegetação, pára, tornando o quadro tristemente impressionador. E no entretanto a neve vai caindo em cada dia, sobrepondo camada sobre camada, o frio redobra de intensidade, os dias tornam-se diminutos, as noites mais que muito longas, e, em vez dos latidos dos cães que guardavam o gado, dos pios dos passaritos, das vozes mais ou menos alegres da natureza, apenas se ouve, de dia, o estampido das cachoeiras que descem da montanha em ondulações tortuosas e irregulares, e de noite, os uivos dos lobos famintos, que se aventuram até ás portas das cabanas, procurando assim a preza apetecida!”

sexta-feira, 29 de maio de 2015

A Hospedaria Melgacense e os seus bifes de Presunto de Melgaço (finais do século XIX)



Em 1886, José Augusto Vieira via publicada a sua obra prima, "O Minho Pittoresco" que nos faz um retrato sobre esta região de Portugal nesta época de finais do século XIX. 
Num tempo em que Melgaço não era conhecido nem pelo seu vinho nem pelas suas águas termais, outra iguaria é destacada nesta época e que dava nome à nossa terra. Era o caso dos bifes de presunto de Melgaço. 
O autor do "Minho Pittoresco" parece ter provado esta iguaria numa hospedaria na vila de Melgaço chamada Hospedaria Melgacense e que nos conta essa experiência no livro: 
"Hotel, em Melgaço, escusas de o procurar, meu amigo. O proprietário da Hospedaria Melgacense, entendeu e entendeu bem, que não precisava abastardar a língua pátria com mais um galicismo inútil para baptizar a sua casa de hóspedes. Podes todavia entrar sem receio n'essa hospedaria honesta e limpa, porque, se te falta na tabuleta o sabor francês da palavra Hotel, não te faltará em compensação à mesa o sabor dos apetitosos bifes de presunto que ali te servem, como um prato especial da terra!
O presunto de Melgaço!
Que epopeia seria necessária para descrever-lhe o paladar fino e delicado, o aroma gratíssimo, a cor de rosa escarlate, a frescura viçosa da fibra!
Houvera-o provado Brillat-Savarin com aquela boa vontade de almoçar que eu e os meus companheiros de viagem levávamos depois d'uma alta madrugada com boas oito horas de trabalho e marcha, e a sua Physiologia do gosto teria hoje de certo o mais suculento e o mais brilhante de todos os seus capítulos!
Alimento sólido e forte, puxavante do verde, que na localidade não tem já o aveludado de Monção, o presunto de Melgaço, conhecido em todo o país, é por assim dizer a síntese da physiologia local. Válido, robusto, ágil, com o sangue puro bem oxigenado a estalar-lhe nas bochechas rosadas, o melgacense genuíno destaca-se dos habitantes dos outros concelhos próximos, a ponto de ser entre estes vulgar a frase de: — Ter cara de presunto de Melgaço — quando se fala de alguém com as boas cores da saúde.
Apesar, porém, de todas as tuas deliciosas qualidades, ó apetitoso quadril suíno, força é esquecer-te, como a todas as coisas boas ou más d'este mundo, a fim de nos bifurcarmos no selim duro dos magros rocinantes, que à porta da hospedaria nos esperam para nos conduzir a Castro Laboreiro."


Vila de Melgaço no livro "Minho Pittoresco" (1886)



Extrato de texto extraído de:
Extraído de: VIEIRA, José Augusto (1886) - O Minho Pittoresco, tomo I, edição da livraria de António Maria Pereira- Editor, Lisboa.

sexta-feira, 22 de maio de 2015

O esconderijo secreto dos galegos na Ameixoeira (Castro Laboreiro)

A Ameixoeira, freguesia de Castro Laboreiro
(Foto de Ramon Dominguez Blanco)

Já aqui fiz referência a várias estórias ligadas a galegos opositores a Franco que, durante a Guerra Civil Espanhola, cruzaram a fronteira e se esconderam em terras de Melgaço. A maior parte deles estiveram refugiados durante meses em Castro Laboreiro. Ainda há muitas estórias por contar que vamos encontrando enquanto vamos remexendo em documentação da polícia política, a PVDE.
Hoje vou fazer referência a um documento datada de 4 de Junho de 1938. É uma comunicação do Chefe do Posto da Guarda Fiscal de Valença ao Diretor Geral da PVDE onde alude a informações transmitidas pela Guadia Civil de Tui.
O teor da comunicação refere-se a um galego de nome José, morador em Salvaterra de Minho. Este galego tinha-se manifestado contra o movimento do General Franco desde finais de Julho de 1936. Perseguido, fugiu para Melgaço onde esteve refugiado em csas de um tal Manuel Lopes, morador em Sainde (Paderne, Melgaço), pelo menos durante seis meses. Depois, viveu  um relacionamento com uma senhora chamada Benesinda Duque, também de Sainde, durante cerca de oito meses e mais tarde foi servente numa casa de S. Martinho de Alvaredo, propriedade de um tal Delfim Alves. Posteriormente, esteve em casa de um tal Eduardo conhecido como  o “Resineiro”, altura em que ambos foram presos pelas autoridades portuguesas.
Após a sua prisão, foi expulso de território português pela fronteira de S. Gregório/Ponte Barxas e as autoridades espanholas permitiram que ele fosse até sua casa em Salvaterra de Minho para aí ser detido pela polícia espanhola. Interrogado pelas autoridades espanholas, acaba por confessar que quando esteve escondido em Melgaço, ajudou a Guarda Fiscal a capturar oito comunistas espanhóis, entre eles uma professora chamada Eudosia e os seus pais que ainda à data se encontravam presos em território nacional.
Confessa também às autoridades espanholas que existem centenas de comunistas galegos escondidos na serra da Peneda e em Castro Laboreiro. Contou também que em terras castrejas, perto do lugar da Ameixoeira, existem um conjunto de túneis escavadas pelos próprios galegos com várias ramificações em forma de cruz. Ali têm inclusivamente camas que lhes foram dadas pelas suas famílias ou outras pessoas de lugares próximos.
José confessou também às autoridades espanholas que ali já chegaram a estar escondidos cerca de trezentos foragidos galegos mas que naquela altura já só estavam cerca de vinte e oito. Estes galegos encontravam-se armados com Mauser e pistolas metralhadoras.
Confessou também que viu entre os foragidos galegos um médico da Corunha, alto de uns trinta e cinco anos e dois marinheiros da Esquadra, um moreno, baixo e entroncado e um outro alto, forte, que tem uma divisa de cabo, mas que desconhecia os nomes deles.
Por estas bandas, os melhores aliados dos refugiados galegos foram os próprios castrejos que sofreram muitas vezes as represálias da Guarda Fiscal e da PVDE por darem guarida aos seus vizinhos do outro lado da fronteira que se opunham ao General Franco.


Informações extraídas de:
Comunicação Interna/Documento confidencial nº 31/938 ao Secretário Geral da PVDE, endereçado pelo Posto da Guarda Fiscal de Valença.

NOTA: Um obrigado especial a Paul Feron Lorenzo pela partilha de documentação. MERCI, PAUL!

sábado, 16 de maio de 2015

O Concurso Tradicional do Cão de Castro Laboreiro de 1971 (Parte II)

A proprietária do "Paris" recebe o prémio correspondente ao melhor exemplar do concurso

"Os cães, em número de 25, a ser presentes aos juízes, Drs. António Cabral presidente do Clube Português de Canicultura, e Teodósio Antunes, foram dispostos por classes: de cachorros, destinada aos exemplares que, à data do concurso, tenham mais de seis e menos de 12 meses de idade; e aberta, destinada a todos aqueles com mais de um ano.
Enquanto os bichos eram minuciosamente observados, com muito mais minúcia do que as «misses» num concurso de beleza, pois eram apalpados de todas as formas e feitios, incluindo grãos e dentes, os mirones da cidade (Lisboa, Porto, Évora, Faro), que ali se haviam deslocado propositadamente, procuravam estabelecer contactos com toda aquela gente, que nos pareceu, contudo, pouco receptiva a satisfazer a curiosidade geral.
O repórter afadigou-se em formular perguntas, mas, quase sempre, esbarrou com muralhas de mutismo. Então quando lobrigava obter resposta, era do género. «Não sei». «Para que quer saber?», «Vá perguntar ao Inferno». Não saiam disto.
Deixarem-se fotografar foi problema ainda mais difícil. Sempre que o camarada fotógrafo apontava a máquina e elas davam conta disso, era certo e sabido virarem, ostensivamente, as costas. Indignavam-se mesmo. «Tire o retrato ao cão e deixe-nos a nós. Já toda a gente sabe que «semos» bonitas. A gente não precisa disso». Não fora a perícia do Orlando e a reportagem não conseguiria fixar as suas expressões.
As casas circulares cobertas do colmo, durante séculos características da região, foram substituídas pelas casas de telha
«francesa». Com o dinheiro que amealha na estranja, o natural de Castro Laboreiro começa por mandar construir a sua própria casa. Depois, investe na cidade, comprando andares em regime de propriedade horizontal.
Apesar disso, naquela aldeia serrana, o forasteiro, nas primeiras impressões, fica com a ideia de que os naturais vivem com extrema dificuldade. O aspecto humilde das pessoas, de cara queimada e enrugada, precocemente envelhecidas, leva exactamente a supor de que subsistem em função do que ganham com a enxada na mão. De parcos recursos, portanto. Pois ali, mais do que em qualquer outro lado, pode dizer-se que assentou arraiais a decantada sociedade de consumo.
Dizia-nos quem mais e melhor está informando acerca de Castro Laboreiro, que é precisamente o Padre Aníbal que lá nada falta. «Televisores, torradeiras, máquinas de lavar e de barbear, gravadores, aspiradores, aquecedores. Tudo aquilo que a técnica
criou para facilitar a vida de cada um, há cá na terra.»
Alguém de fora, mas que por funções profissionais vai muitas vezes a Castro Laboreiro, dizia-nos depois: «É formidável, de facto, como esta gente tem tudo». Um sorriso. Uma dúvida, como que se interrogando a si próprio se havia ou não, de dizer-nos o resto.
Tal estado de coisas tende, contudo, a acabar, dado que os filhos dos emigrantes (e eles próprios quando estão de «vacanças») frequentam as Universidades do Porto, Coimbra e Lisboa e o Seminário, tendo a terra já os «seus» doutores.
A proprietária do "Paris" recebe o prémio correspondente ao melhor exemplar do concurso. As pessoas que ali se haviam deslocado propositadamente para adquirir um cão de «Castro Laboreiro», e para isso atravessaram o país de lés-a-Iés, percorrendo mais de mil quilómetros (!!!) procuravam ouvir aquilo que os juizes cochichavam acerca do interesse de cada cão julgado, para depois abordarem o respectivo proprietário antes de serem conhecidas as classificações. E é fácil saber porquê. Evidentemente que desde a altura em que o proprietário soubesse que o seu animal havia sido premiado, acto-contínuo faria «render o peixe», que no caso era pedir mais dinheiro pelo animal, elevado à categoria de vedeta. Cão com diploma e medalha é mais caro. A propósito julgámos que a melhor altura para o negócio não seria aquela. Talvez por isso, há «peregrinações» a Castro Laboreiro, «santuário» da raça do mesmo nome, durante todo o ano, ainda que os meses de Março e Abril sejam aqueles que mais gente atraem.
Pois por cachorros de um mês, portanto ainda «imberbes» para participarem no concurso, os donos pediam entre os 200 e os 250$00. Mas já o bicho considerado o melhor do certame, de seu nome «PARIS», propriedade de Manuel Gonçalves Loureiro, ausente no Canadá e apresentado por sua mulher Benezinda Gonçalves, teve cotação de seis mil escudos. Muito dinheiro, convenhamos, segundo o nosso ponto de vista pessoal, naturalmente.
Observámos à «ti» Benezinda: «Não tem vergonha de pedir seis contos pelo cão ?»
-Oh home, deixe-me ficar o bicho em paz. Não o quero vender. Vocês é que mo querem comprar.
A despachar-nos: «Daqui a algum tempo isto (e apontou para o cachorro) não é um cão. É um elefante. E foi-se.
«TI» Benezinda, acompanhada do seu "PARIS" considerado o melhor cão do concurso, diz-nos «Tire o retrato ao cão e deixe-nos a nós», E virou-nos as costas.

«TI» Benezinda, acompanhada do seu "PARIS" considerado o melhor cão do concurso.

Facto curioso é que os possíveis compradores antes de entrarem em negociações procuravam catequizar o Padre Aníbal a fim dele dar a sua opinião sobre o cão em causa, pois, como já referimos, é um estudioso profundo das raças nacionais, e ao mesmo tempo servir de medianeiro para que o preço não ferrasse demasiadamente. Já se vê a sua dificuldade em aguentar-se entre os dois fogos de interesses díspares. Defesa do paroquiano e amabilidade para com o forasteiro.
Após os julgamentos, ouvimos o Dr. António Cabral:
-A impressão geral é bastante boa. A fixação das características étnicas está garantida. O lote de cães este ano foi muito bom! Muito bom!
Antes da distribuição de prémios, o Dr. Teodósio Antunes «falou às massas». Depois de ter historiado a razão do concurso, disse: «Cada vez temos de ser mais exigentes. Temos de combater as malhas brancas. Não devem existir mais cães de «Castro Laboreiro» com malhas brancas. Há que evitar o cruzamento com outras raças. Prendam as vossas cadelas na altura do cio..."

Texto extraído de:
- Jornal “O Mundo Canino” – Novembro de 1971, por Aurélio Cunha (textos) e Orlando Soares (fotos)

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sábado, 9 de maio de 2015

O Concurso Tradicional do Cão de Castro Laboreiro de 1971 (Parte I)

(PARTE I)

Concurso Tradicional do Cão de Castro Laboreiro de 1971

O Concurso Tradicional do Cão de Castro Laboreiro é realizado desde 1914, sendo dos mais antigos realizados em Portugal.
O concurso de 1971 foi alvo de uma reportagem na publicação “O Mundo Canino”, na sua edição de Novembro desse mesmo ano. Nesse número podemos ler:

“EM CASTRO LABOREIRO – TERRA DE EMIGRANTES E DE CÃES FAMOSOS
Aldeia serrana donde os homens abalaram e as mulheres, «viúvas de vivos» (como Ihes chamam) deles recebem anualmente cerca de 36 mil contos (!!!) vive como nenhuma outra terra portuguesa o «Cinco de Outubro». (...) Nesse dia, em tal povoado, em que o padre é a «alma-mater» das mulheres-de-negro-vestidas, a politica é outra. Politica que nada tem a ver com pessoas, pois é de cães. Cães que, juntamente com os braços humanos, são exportados para todos os lados, correm mundo. E se foi a terra que baptizou a raça, foi a raça que tornou a terra falada, que a projectou para além do seu castro. CASTRO LABOREIRO é o seu nome e o seu solar.
Melgaço foi o local de encontro das pessoas de Lisboa, do Porto e de Viana que iriam superintender no concurso. Depois de almoçadas, ei-las pela estrada acima, na subida duma trintena de quilómetros. Quando os juízes e demais comitiva lá chegaram já os concorrentes aguardavam impacientemente a chegada daqueles que iriam ditar a sorte dos seus exemplares. Para os menos avisados no assunto, como o repórter, logo ressaltaram vários pormenores que chamaram a sua atenção. O certame realizava-se na «artéria» principal da povoação - Largo do Eirado - mesmo defronte da igreja (cuja primeira pedra remonta de há mais de oito séculos) e à porta das principais autoridades da terra: abade, presidente da junta e regedor. Pois para além da circunstância do concurso se realizar na via pública (a fazer lembrar um «passarelle» em plena Praça da Liberdade...), pormenor que igualmente nos despertou a curiosidade foi o facto dos exemplares se apresentarem como que «descalços» e as donas de avental à cinta e lenço pela cabeça. Com efeito, no Estoril, no Porto e em Lisboa, estávamos habituados a ver desfilar no ringue exemplares cuidadosamente tratados e o sexo feminino primar pela elegância, vestindo pelo último figurino, de tal modo que o assistente menos dado à canicultura não sabe que mais admirar, se o garbo do cão concorrente ou a distinção de quem o conduz pela trela. Pois em Castro Laboreiro os cães eram presos por nagalhos e cordas, raramente por coleira. Puxados e não exibidos por gente «fardada», de tamancos ou de botas, por mulheres «uniformizadas» de preto. De preto porque ali predomina o luto, de tal forma que até se diz que em Castro Laboreiro as mulheres são viúvas de homens vivos. Terra onde não há pobres. Disse-nos o pároco da freguesia, Rev. Padre Aníbal Rodrigues: «A emigração aqui é habitual. É tão antiga como a própria terra. O homem de Castro Laboreiro nunca se sujeitou a um nível baixo. Foi sempre sua ambição ganhar muito.» Por isso, aquela freguesia é uma comunidade de mulheres. Mulheres que, durante a ausência do pai, do marido, dos filhos, se vestem, dos pés à cabeça, de negro. É tradição de há longa data. Só quando os «homes» regressam as vestes escuras dão lugar a outras de cores garridas. 
O Padre Aníbal Rodrigues, "alma-mater» de Castro Laboreiro, confidencia as suas impressões ao repórter. Prosseguiu o nosso interlocutor: «Primeiramente os homens de Castro Laboreiro emigraram para todo o país. Depois, a grande atracção foi a Espanha e agora a França. Mas hoje não há terra onde não haja gente nossa: Brasil, Argentina, México, Taiti, Turquia, Gibraltar, Estados Unidos, Holanda, Austrália, Paquistão. Em toda a parte. Os nossos operários são altamente especializados em betão armado. De tal modo conceituados que, quando do rebentamento de diques na Holanda, foram para lá especialmente contratados. Outro exemplo elucidativo da categoria da nossa mão-de-obra: nas bases americanas na Turquia há gente daqui.»

O Padre Aníbal Rodrigues prestando declarações aos jornalistas

 O cão da raça «Castro Laboreiro» é um extraordinário cão de pastor «ai de quem toque no gado!» e cão polícia. Mas deixemos o Padre Aníbal Rodrigues, personalidade altamente credenciada na matéria, falar sobre aquela raça: «É um cão excepcional, quer em faro, quer em inteligência em valentia e docilidade. Como companhia, também não há melhor. É duma fidelidade a toda a prova. Tem um sentido de justiça que impressiona. Se o dono o castigar sem razão o animal nunca mais lhe liga, pois o cão de Castro Laboreiro tem grande aversão à injustiça». Pois esta tão «sui-generis» raça nacional, que o Exército presentemente utiliza como cães-polícias (ainda há pouco recrutou 50 naquelas paragens) e desperta o interesse dos canicultores de todo o país, esteve em vias de desaparecer, tal como acontece presentemente com o «Serra da Estrela». A raça, através dos tempos, foi-se degenerando pelo cruzamento com outras espécies. Foi então que desde há 17 anos, em Castro Laboreiro - o solar da raça - vêm sendo realizados concursos, promovidos pela Intendência de Pecuária de Viana do Castelo, em estrita colaboração e com o apoio técnico do Clube Português de Canicultura com sede em Lisboa, (entidade que no nosso país superintende na canicultura nacional) exactamente com a finalidade de fomentar e preservar aquela variedade. Dizia-nos o Dr. Teodósio Marques Antunes, Intendente Pecuário de Viana, que ao primeiro concurso estiveram presentes apenas nove animais e desses só dois eram exemplares mais ou menos característicos. «Tudo o resto era uma salada russa».
Coisa esquisita também, que chamou a nossa atenção, é o nome que a gente põe aos seus cães. Quando alguém pergunta o seu nome, a resposta é do género: «Que lhe diga ele», «Não se diz», «Pergunta-Ihe», «Como a ti», etc.
O «Cinco de Outubro» é dia de festa na freguesia, festa sem foguetes nem procissão. Prato melhorado ou saia nova. Mas festa. A mulher de Castro Laboreiro vê em tal dia a promoção dos seus cuidados no mundo canino. Data que é um chamariz à terra, de gente de todos os lados e culturas. Dia em que os naturais contactam mais de perto e se familiarizam com as pessoas da cidade.
- Hoje já não se interessam pelos prémios pecuniários - disse-nos aquele pároco.
-Só lhes interessam as taças e as medalhas ganhas pelos seus cães para as exibirem no melhor canto da casa. E o dinheiro dos prémios não lhes interessa porque em Castro Laboreiro todos vivem muito bem. Não há pobres. A nosso pedido, o «chefe espiritual» daquele povo esclareceu-nos: -Para esta pequenina terra, os emigrantes enviam mensalmente à volta de três mil contos. Esboçamos uma reacção de surpresa. O Padre Aníbal, então, à muita insistência nossa, acedeu em pormenorizar:
-Cada um remete para a família uma média de cinco a seis mil escudos. Mas há quem remeta todos os meses meia centena de contos, garantiram-nos; aquele sacerdote não desmentiu. O seu sorriso antes, confirmou. E nós próprios falámos com a esposa do proprietário da estalagem de Castro Laboreiro, na qual foram gastos três milhões de escudos, que, depois de muito instada, acabou por confessar que o marido lhe mandava de França trezentos contos anuais, ou seja, uma mensalidade de 25!” (...)

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- Jornal “O Mundo Canino” – Novembro de 1971, por Aurélio Cunha (textos) e Orlando Soares (fotos)

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