sábado, 18 de julho de 2015

Presidente da República em tratamento nas Termas do Peso, Melgaço (1925)


Parque termal das Águas de Melgaço em meados do século passado

Teixeira Gomes foi presidente da República Portuguesa entre 6 de Outubro de 1923 e Dezembro de 1925, num período muito conturbado da nossa história.
Em início de Setembro de 1925, o presidente Teixeira Gomes é notícia na imprensa nacional e também em jornais do país vizinho por causa de um problema de saúde que o apoquenta.




Consultando o jornal "A Capital", na sua edição de 3 de Setembro de 1925, é feito referência a um problema de saúde do Presidente da República (ver o último parágrafo da notícia acima apresentada). Os médicos terão prescrito ao presidente uma cura de águas na estância termal de Vichy (França). Contudo, isto obrigaria a uma série de formalidades e burocracias para se autorizar o presidente a ausentar-se do país, algo que não foi considerado oportuno dado o clima de convulsão política e social. Qual terá sido a solução encontrada?
Encontramos a resposta em dois jornais espanhóis da época. No jornal espanhol “La Voz”, na sua edição de 4 de Setembro de 1925, encontramos a seguinte notícia:

“Teixeira Gomes no puede tomar las Águas de Vichy
TOMARÁ LAS DE MELGAÇO, QUE SON SIMILARES

LISBOA, 3 - Los médicos que asisten al presidente de la República, Sr. Teixeira Gomes, le han prescrito una cura de águas en el balneario de Vichy.
El Sr. Teixeira pensaba emprender el viaje pero ha desistido en vista de que para salir del território nacional necesita la autorización de las Cámaras, cuya convocatória no se estima oportuna por ahora.
El Sr. Teixeira Gomes hará su cura de aguas en Melgaço. Las elecciones generales se celebrarán en noviembre próximo.”




Num outro jornal espanhol, o “El Siglo Futuro”, diário católico, na sua edição de Sábado, 5 de Setembro de 1925 encontramos a mesma notícia:

“El presidente de la República Portuguesa

LISBOA, 4 - Los médicos que asisten al presidente de la República le han prescrito una cura de aguas de Vicky. Pero en vista de que para salir del territorio nacional necesita la autorización de las Cámaras, cuya convocatoria no se estima oportuna por ahora, el señor Teixeira Gomes hará su cura de aguas en Melgaco.”





Posteriormente e ainda nesse mesmo ano, perante o quadro de efervescência política, social e militar, o presidente Teixeira Gomes resigna do seu mandato, em 11 de Dezembro de 1925.
Em 17 de Dezembro, embarca no paquete grego Zeus, não regressando mais em vida a Portugal.

Fontes: 
- Jornal "A Capital", edição de 3 de Setembro de 1925;
- Jornal “La Voz”, edição de 4 de Setembro de 1925;
- Jornal “El Siglo Futuro”, edição de 5 de Setembro de 1925.

sábado, 11 de julho de 2015

O Grande Hotel do Peso (Melgaço) em tempos de prosperidade

Hotel Figueiroa (Grande Hotel do Peso)

Na viragem do século XIX para o século XX, a afluência de aquistas às termas do Peso é cada vez maior. Nesse período de crescimento, é construído em 1901 o ‘Novo Hotel Quinta do Peso’. Um dos seus primeiros hóspedes foi o conselheiro Manuel Francisco Vargas, ministro das Obras Públicas, que era acompanhado de sua esposa.
Mais tarde foi comprado por José Figueiroa Granja, de Vigo, que o adquiriu em 19 de Fevereiro de 1912 a José Joaquim Esteves. Para a sua exploração constituiu-se a sociedade ‘Figueiroa & Ribas’ na qual participava um outro galego chamado Don Francisco Ribas. Tal como o Ranhada, era tido como um hotel de elevada qualidade onde os clientes saiam muito satisfeitos.
A avaliar pelos anúncios publicitados de época, o serviço era exigente. Senão vejamos…
Neste anúncio lemos que

“V. Ex.a vai para as Águas de Melgaço?
Deve instalar-se no Grande Hotel do Peso
Que é o mais recomendável desta estância: Tendo este hotel sofrido importantes reformas apresenta entre os grandes melhoramentos, água corrente em todos os quartos e magníficos apartements com quarto de banho e WC privativas. É o que oferece as melhores condições de higiene. Suntuoso parque, primoroso serviço de mesa; dieta sem aumento de preços nas diárias. O mais próximo do balneário e das nascentes, ficando até uma delas dentro da Quinta do Peso. A sociedade mais selecta que costuma frequentar estas águas, dá preferência a este hotel, por ser o que reúne as melhores condições para o bem estar dos hóspedes. A par de todas as vantagens enumeradas, este hotel, pela sua situação topográfica, que é a melhor da estância, está desviado do pó da estrada.“
Não termina sem referir a existência de luz elétrica no estabelecimento. Chama à atenção para a sua ´”magnífica capela com missa todos os domingos e dias santificados”. Este anúncio transmite um toque personalizado ao atendimento o hotel dizendo aos clientes que os pedidos podem ser feitos diretamente ao proprietário José Figueiroa.
Neste material publicitário, faz-se referência ao facto de no hotel se falar francês:
“ON  PARLE FRANÇAIS”










Depois de décadas de prosperidade, o hotel, tal como outros, encerrou e foi ficando ao abandono até se ir desmoronando. Restam umas tristes ruínas que nos fazem lembrar que aquele hotel um dia foi um estabelecimento de referência na região.

quarta-feira, 8 de julho de 2015

Arbo, 1904 - Banda de Música de Melgaço tocou para o rei de Espanha

Vista para o rio Minho e para Arbo, no início do século XX

No periódico espanhol “La Correspondencia de España”, na sua edição de quarta feira, dia 16 de Março de 1904, fala-se da presença do rei espanhol D. Alfonso XIII em terras galegas. Nessa visita real, o monarca do país vizinho passou por Arbo, onde o aguardava o povo da terra e... uma banda de música de Melgaço (provavelmente, o jornal refere-se à filarmónica melgacense).
Então, à chegada da comitiva do rei, a banda de música de Melgaço interpreta a Marcha Real. Depois de tocar a Marcha Real, o rei de Espanha dirige-se à banda melgacense e pede-lhe que toque o hino nacional português, pedido que foi prontamente correspondido pela banda de Melgaço.


Leia a notícia!  

(Clique para ampliar as imagens)


Fonte: "La Correpondencia de España", nº 16 840, edição de 4 de Março de 1904,  ano LV.

sexta-feira, 3 de julho de 2015

Melgaço e o distrito de Viana do Castelo em conjunto de postais dos anos 60




Veja um pequeno conjunto de postais dos anos 60 do século passado alusivos ao nosso concelho e aos seus locais de maior interesse. Neste conjunto, encontra também alguns postais de promoção turística da época alusivos ao distrito de Viana do Castelo a à região do Minho...

(Clique nas imagens para ampliar)













Postal recente ao estilo dos mais antigos

sexta-feira, 26 de junho de 2015

O Convento de Fiães descrito em finais do século XIX

Igreja do Convento de Fiães

No livro "O Minho Pittoresco", o convento de Fiães é assim descrito: "O que, porém, tornou Fiães notável, foi o seu mosteiro, de que hoje só por assim dizer o templo atesta a munificência. Foi na volta de Castro Laboreiro, quando o luar espargia a sua melancolia doce  sobre a serra, que visitámos essa gigantesca ruína, testemunha coeva da antiga piedade cristã.
A arquitectura gótica pura revela-se clara nas formosas colunatas da entrada principal e nas arcarias elegantes que sustentam o tecto da igreja vasta e ampla, àquela hora fantasticamente iluminada pelos raios do luar, de dia naturalmente com a penumbra pálida dos velhos templos góticos.
As cornijas e cimalhas são ornadas de diferentes figuras mais ou menos fantasiosas. Junto do altar de S. Sebastião está o elegante túmulo de Fernão Annes de Lima, pai do primeiro visconde da Cerveira.
O mosteiro, de frades bentos a princípio, é antiquíssimo pois no tempo de Ramiro II e sua mulher Paterna, se encontra já noticia dele. Consta que era o mosteiro mais rico das Hespanhas. Tinha foros e rendas no Minho, Traz-os-Montes e Galiza. Na igreja, havia Lausperene, na rigorosa acepção da palavra, isto é, exposição ininterrupta do Sacramento durante o dia e noite; 80 religiosos de missa, além dos conversos, minoristas, etc, colmeavam o riquíssimo mosteiro, onde alguns príncipes infantes e muitos fidalgos galegos e portugueses tiveram sepultura, e a que fizeram doação de rendas e propriedades.
O primitivo edifício que em mais de três séculos existiu em grande prosperidade, foi destruído por um pavoroso incêndio, sendo depois reconstruído por Affonso Paes e mais seus dois irmãos, que o doaram aos religiosos de Alcobaça. Como no incêndio arderam todos os papeis do cartório, muitos foreiros sonegaram depois os seus títulos, sendo preciso que a energia de Álvaro d'Abreu arcasse com os mais poderosos para restituir essas rendas ao mosteiro.
Em 1151, a ordem passou a Bernardos, e, para se instruírem nos preceitos do novo instituto, mandaram buscar um religioso a Alcobaça, fundando, em honra da vila capital da ordem, o próximo lugar de Alcobaça, com a sua capela de S. Bento. O convento era coutado talvez do seu principio, pois já o nosso primeiro rei lho confirmou, assim como seu filho Sancho I.
O D. Abbade tinha jurisdição episcopal metropolitana com recurso somente para o Pontífice. O provisor, nomeado pelo D. Abbade, recebia directamente os breves apostólicos. O arcebispo de Braga não podia aqui fazer visitas, nem na Ourada de Melgaço e tão pouco o bispo de Tuy as podia fazer em Azoreira e Lapela, que, apesar de serem lugares do seu bispado, estavam sujeitas ao mosteiro, como ainda hoje o estão para os efeitos eclesiásticos, apesar de pertencerem à Galiza para os efeitos civis.
As quintas da Orada e Cavaleiros foram doadas em 1166 ao convento, sendo abade D. João, pela condessa D. Frovilla.
Ainda no fim do século XVI tinha, este convento a apresentação de vinte abadias, entre as quais Lamas de Mouro, Cristóval, Chaviães, Santa Maria da Porta da Vila e Vilela dos Arcos. Tinha também a de Paderne, na Galiza, e muitos coutos, que os comendatários aforaram a vários fidalgos.
A casa de Bragança pagava ao mosteiro um florim d'ouro pelas aldeias de Villarinho, Fezes de Juzão e Mondim e pelos padroados das igrejas destes lugares, próximo a Monte-Rei.
Na Galiza, tinha o couto de Freyxomo, junto de Alhariz, que ao mosteiro doara Fernão Peres, aqui falecido, e pelo qual recebia anualmente 600 maravedis de prata. Possuí ainda aí os coutos de Coginha, Asperello, Gancêros, Requeixo e Rio Frio, em Vigo, afora fazendas e granjas, dispersas em vários pontos.
O D. Abbade tinha, de direito de condado, todas as cabeças da caça real morta no couto; e os moradores deste eram isentos do pagamento de fintas ou pedidos, ainda mesmo feitos pelo rei.
Essa riqueza pródiga, que dera causa à afirmação popular de que nestes reinos ninguém, depois do rei, era mais rico que o D. Abbade de Fiães, foi-a pouco a pouco reduzindo o tempo, esse verme destruidor das grandes obras do Homem, e a indiferença, o abandono e o cepticismo do século completaram o aniquilamento do vetusto mosteiro, onde o incenso ardia noite e dia, os cânticos dos religiosos se misturavam continuamente ao som plangente do órgão, e o povo concorria nas tribulações cruciantes da sua fé e nos  regozijo íntimos da sua piedade.
Não somos nós, homem novo, que lamentamos esses tempos de santa e cândida ignorância, em que o trabalho era o látego do vilão e a riqueza o património de poucos. Abre-se hoje livremente o horizonte a todos os esforços dignos, a todos os lutadores com fé na nova religião do trabalho. Mas o que não podemos deixar de censurar é que por isso mesmo, que tem tantos reflexos de oiro a bela aurora da liberdade moderna, se votem a um desprezo vandâlico esses documentos vivos das civilizações destruídas, e que os governos façam, como a respeito do mosteiro de Fiães, a venda por todo o preço e mesmo a retalho, em hasta publica, da pedra das paredes, das colunas, arcarias, telhados, portas, janelas, varandas, grades, etc!
Monstruoso simplesmente!
E assim é que a ruína, a devastação e o silêncio cobrem hoje com a sua nota de desolação triste o velho mosteiro de Fiães, à hora em que o visitámos mais triste ainda, mergulhado, como estava, nas poéticas sombras do luar, que se entornava pela serra na sua melancolia casta.


A oeste do convento rebenta um manancial de águas ferruginosas, não analisadas ainda e a que os povos dali atribuem virtudes medicinais, tendo havido em tempo uns tanques para banhos, que a autoridade teve de mandar fechar por causa dos conflitos a que dava lugar a concorrência. "

Extraído de:
-VIEIRA, José Augusto (1886) - O Minho Pittoresco, tomo I, Edição da livraria de António Maria Pereira- Editor, Lisboa.