sábado, 5 de setembro de 2015

Mulheres de Melgaço em fúria num funeral (1886)


Recuamos a 1886, numa época que já era proibido enterrar os mortos nas igrejas. Esta estória passou-se às 8 horas e 30 minutos do dia 15 de Fevereiro na igreja matriz de Melgaço.
Era um funeral de um homem. As mulheres cavaram um buraco na igreja para sepultar o defunto mesmo contra a lei. O administrador do concelho tentou impedi-las de concretizar os intentos. Foi cuspido, pontapeado, sovado e escorraçado pelo mulherio. Mandou chamar os soldados. O que se passou de seguida, foi bastante feio. Encontramos tudo contado numa notícia do jornal espanhol “El imparcial”, na sua edição de 25 de Fevereiro de 1886:


Un motim de mujeres
A las ocho y media de la mañana del 15 del corriente, celebrábase en la iglesia parroquial de Melgazo (Portugal) un oficio fúnebre por el alma de un hombre. El cadáver de este se hallaba sobre el tumulo levantado en el templo, y en el templo multitud de mujeres amigas o vecinas del finado.
A una señal convenida, doce de ellas se colocaron al rededor del féretro como para darle guardia de honor, mientras otras, valiéndose de tablas y otros instrumentos comenzaron á cavar la fosa que que habia de ser enterrado el cadáver.
Enterado el alcalde de lo que en el templo ocurría, se dirigió allí aconpañado por algunas personas; pero las mujeres comenzaron á bofetadas y á palos con ellos hasta que los hicieron retroceder. Volvieron á la carga y pudo entrar en la iglesia él alcalde, quien, metido dentro de la fosa abierta, invitó á las mujeres á que se retirasen y dejasen que el muerto fuera enterrado en el cementerio como prescriben las leyes.
Nueva lluvia de bofetadas, mordiscos y tirones de pelo cayó sobre el infeliz alcalde, quién, viendo que era imposible por la fuerza de la razón dominar y convencer á aquéllas furia, apeló a la razón de la fuerza para conseguirlo y mandó llamar á 14 soldados y un sargento.
«Soldados — dijo el sargento, — no tirar contra las mujeres; servirse unicamente de las culatas de las carabinas en caso necesario.»
Aquéllas, más que mujeres demonios, lanzáronse furiosas sobre los soldados, á quienes mordieron, arañaron y patearon. Unas cuantas arrastraron el féretro hacia la fosa, y como á favor de esta horrible contusión habían entrado en la iglesia algunos hombres, uno de éstos, padre del muerto, agarró uno de los santos del altar, y sin considerar el sacrilegio que cometía, furioso lo dejó caer sobre la cabeza del sargento, cuya sangre manchó la cara de la sagrada imagen.
Desde este momento el tumulto adquirió ya sertas proporciones, porque en él tomaron parte los hombres armados con palos, hoces y revólvers.
Sonó un tiro, y uno de los soldados cayó á tierra herido gravemente en la cabeza, y otro soldado también fué herido por una pedrada en la cabeza.
Entonces el sargento reclamó y obtuvo del alcalde permiso para proceder con energía y hacer uso de las armas. Se hizo una descarga al aire, y esto exasperó a las mujeres, que gritaban furiosas: “Tiran com pólvora seca! A ellos! A ellos!”.
Em una nueva arremetida, las mujeres fueron hacia ellos en actitud amenazadora, y entonces se oyó la voz de “Fuego”, alcanzando esta vez, las balas á un infeliz que iba á sacar del tumlto á su mujer, quien cayó muerto en el acto, y á otros varios que fueron heridos, entre los cuales estaba la mujer que aquel desgraciado iba á buscar.
Como los soldados tiraban á dar, el tumulto fué cediendo hasta que se pudo dar sepultura al cadáver en el cementerio.”

Cabeçalho do jornal "El imparcial", edição de 25 de Fevereiro de 1886


Recorte da notícia trancrita (jornal "El imparcial", edição de 25 de Fevereiro de 1886)


Fonte: Jornal "El imparcial", edição de 25 de Fevereiro de 1886, ano XX.

domingo, 30 de agosto de 2015

Melgaço no tempo do "dinheiro de emergência" (1920)



No início do século XX, a situação económica de Portugal é agonizante. A economia era altamente deficitária, as finanças públicas estavam falidas. O país vivia em convulsão social e em constante guerrilha política.
A República substitui a Monarquia em 1910 mas o rumo do país não se inverte. Vem a 1ª Guerra Mundial em 1914. Portugal envia soldados para o conflito na Europa e para África afim de defender as colónias. Portugal e o mundo estão numa crise tão profunda onde há inclusivamente falta de metal para cunhar moeda, sobretudo a de baixo valor. Surge o chamado “dinheiro de substituição” ou “dinheiro de emergência”: são as CÉDULAS FIDUCIÁRIAS.
As cédulas fiduciárias eram de aspeto bastante rudimentar, produzidas a princípio em simples pedaços de papel ou de cartão com as mais variadas dimensões, manuscritas ou impressas, com ou sem preocupação estética, as cédulas foram progressivamente melhorando a sua apresentação gráfica, acabando por revelar-se meios de propaganda turística e regional e, nos casos em que eram emitidos por estabelecimentos particulares, meios expeditos de publicidade comercial. 
Em Melgaço, as cédulas fiduciárias são pouco conhecidas. Reunimos uma pequena coleção de cédulas de início da década de 1920 de alguns estabelecimentos comerciais de Melgaço que as emitiram. Os seus valores oscilam entre 1 e 10 centavos...



Cédula de 1 centavo da loja Bon Marché de Prado (Melgaço) (frente)

Cédula de 1 centavo da loja Bon Marché de Prado (Melgaço) (verso)

Cédula de 2 centavos da loja Bon Marché de Prado (Melgaço) (frente)

Cédula de 2 centavo da loja Bon Marché de Prado (Melgaço) (verso)


Cédula de 2 centavo da loja Bon Marché de Prado (Melgaço) (frente)

Cédula de 2 centavos da loja Bon Marché de Prado (Melgaço) (verso)


Cédula de 4 centavos da loja Bon Marché de Prado (Melgaço) (frente)


Cédula de 4 centavos da loja Bon Marché de Prado (Melgaço) (verso)


Cédula de 1 centavo da loja de Francisco de Souza Cardozo (Melgaço) (frente)
Cédula de 1 centavo da loja de Francisco de Souza Cardozo (Melgaço) (verso)

Cédula de 2 centavos da loja de Francisco de Souza Cardozo (Melgaço) (frente)

Cédula de 2 centavos da loja de Francisco de Souza Cardozo (Melgaço) (verso)

Cédula de 2 centavos da loja de Francisco de Souza Cardozo (Melgaço) (frente)

Cédula de 2 centavos da loja de Francisco de Souza Cardozo (Melgaço) (verso)

Cédula de 5 centavos da loja de Francisco de Souza Cardozo (Melgaço) (frente)

Cédula de 5 centavos da loja de Francisco de Souza Cardozo (Melgaço) (verso)

Cédula de 10 centavos da loja Barateira (Melgaço) (frente)



Informações extraídas de:
- MARQUES, A.H. de Oliveira (1991). Nova História de Portugal: Portugal da Monarquia para a República. Lisboa: Editorial Presença.
- http://bloguedominho.blogs.sapo.pt


quarta-feira, 26 de agosto de 2015

As Águas de Melgaço em crónica do jornal Correio da Manhã


Pavilhão Principal das "Águas de Melgaço", antes da remodelação

 No jornal "Correio da Manhã", na sua edição de 25 de Setembro de 2011, encontramos uma crónica dedicada às Águas de Melgaço da autoria de António Sousa Homem:

Um Domingo de sol e Água de Melgaço
"A minha sobrinha Maria Luísa tem, com o meu médico de Viana, uma relação conflituosa: por um lado, acha que a minha longevidade lhe deve bastante – dobrar os noventa é uma meta até agora só ao alcance de alguns, embora a minha família tenha demonstrado, ao longo dos séculos, uma tendência permanente para desanimar os seus desafectos, prolongando a existência até ao inadmissível. Um tio que dividiu a sua existência entre os Arcos, Valença e Lisboa é mesmo uma lenda desconfortável, finando-se aos 105 anos na sua quinta ligeiramente decadente, ouvindo o chilrear dos pássaros e o ruído dos freixos junto a um ribeiro que corria intramuros. Por outro lado, acha-o um libertino e ligeiramente gordo. A libertinagem manifesta-se sobretudo pelo estômago e pelo gosto despropositado por nobiliários arcaicos que fixam os desaires e os pecadilhos das avós minhotas a norte de Leça da Apúlia e até ao derradeiro grão de poeira que nos separa de Tuy. Afastado este pormenor, almoçámos todos em Caminha no domingo passado, saboreando no restaurante Primavera um cabrito que Maria Luísa classificou como uma ameaça ao meu regime alimentar e que duplicou, largamente, a felicidade dos comensais. Depois do almoço, o repouso merecido: reunidos em grupo palrador na esplanada do Café Central, a tarde providenciou-nos a sua saborosa Água de Melgaço. Tenho com a Água de Melgaço uma relação enamorada e fiel desde há décadas – amarga e luminosa, ela lembra o tempo em que o Minho era uma nacionalidade e uma referência. A Água de Melgaço fazia parte dessa identidade, à semelhança de uma cédula pessoal ou de uma declaração de contribuinte para a repartição de Finanças. Vinda em caixas de madeira para a casa de Ponte de Lima ou, mais tarde, para este eremitério de Moledo, é hoje uma espécie de recurso da memória que vamos periodicamente buscar ao Café Central e à sombra dos seus guarda-sóis. Esta semana comentávamos uns grafitos que foram misteriosamente deixados na fachada do edifício da Câmara. Entre um gole de Água de Melgaço e o pedido de um novo café, Maria Luísa, a esquerdista da família, concedeu que se tratava de um acto de barbárie cometido por estranhos (murmurava-se que duas estrangeiras e ainda por cima holandesas). Depois, uma nuvem passou arrastando a sua beleza disforme sobre a foz do Minho e as colinas de Santa Tecla. O meu médico de Viana quis ainda mostrar-nos a estrada florestal de Venade. Maria Luísa levou algumas garrafas de Água de Melgaço que bebemos entre os freixos e um abeto deslocado da paisagem. Eis um domingo."
Crónica de António Sousa Homem.

Fonte: Correio da Manhã, edição de 25 de setembro de 2011.

sábado, 22 de agosto de 2015

No dia em que o Castelo de Castro Laboreiro "foi pelos ares"...

Ruínas das muralhas do castelo de Castro Laboreiro

Foi no dia 18 de Novembro do ano de 1659, pelas nove da manhã, que um raio caiu sobre o Castelo de Castro Laboreiro originando uma violenta explosão que destruiu completamente a torre de menagem e zonas adjacentes. Na dita torre localizava-se um paiol de pólvora o que explica a magnitude da explosão. Não ficou pedra sobre pedra. Nunca mais o castelo recuperou a imponência e vitalidade que tinha até aí. Diz-se que foi um castigo de Deus para alguns que habitavam no castelo.
Este episódio é erradamente colocado pelo professor Pinho Leal, na sua obra Portugal Antigo e Moderno (1874), na idade média. No dito livro afirma que “no principio do seculo XIV, cahiu um raio no paiol da pólvora, que, incendiando-se, fez ir o castello pelos ares pelo que o rei D. Diniz o mandou reedificar”. Contudo um documento da época descreve com algum pormenor este episódio e situa-o na data e hora acima citada.
No dito documento, diz-se que "Aos dezoito dias de Novembro de 1659, que foi uma terça-feira, às nove horas da manhã, caiu um raio na Torre do Castelo, que servia de Armazém da pólvora e mais munições, o qual raio deu na pólvora e fez a maior ruína que se sabe, pois da Torre e mais partes acessórias não ficou pedra sobre pedra e deste grande prodígio se vê claramente ser grande castigo do céu que Deus mandou para castigar pecadores que dentro deste Castelo estavam nesta grande desventura se viram grandes milagres. O primeiro foi escapar o Governador Gaspar de Faria com a sua mulher e mais família, estando na parte mais arriscada, pois aí removeu a muralha da Torre; as suas casas e as fez em pedaços e aí estavam e aí escapou com mais segurança e castigou o que na Ermida não podia ficar pedra sobre pedra, pois caiu toda a Torre sobre ela e ficou Nossa Senhora dos Remédios aí me recolhi, sem cobertura, sem água, ficando debaixo toda a máquina. Terceiro Milagre;  Foi que escapou um Escrivão do Governador debaixo desta ruína, sem avaria e são. Nesta desventura morreram - Gaspar Lima de Castro, Escrivão das Décimas e Sisas e Tres/ados; e um mulato seu criado, por esse nome Marcos, natural de Tangil e um miúdo, criado do Governador, por nome de Gaspar de Medeia e dois soldados. Do livro n.º 51, folhas 5. Gaspar de Almeida dos Capitães o fez".

Castelo de Castro Laboreiro em 1509
(desenho de Duarte d'Armas) 

Informações extraídas de:


- RODRIGUES, P.e Aníbal (1996) - O Castelo de Castro Laboreiro, in ‘Estudos Regionais’, n.º 17, Ed. C.E.R, Viana do Castelo.

domingo, 16 de agosto de 2015

Rio Minho em Melgaço nos postais dos últimos 100 anos

Rio Minho no Peso (Melgaço) e Ponte Internacional,  década de 90 do século XX


Mostramos uma pequena coleção de postais dos últimos 100 anos alusivos ao rio Minho à sua passagem por Melgaço. Faça uma viagem no tempo...



Rio Minho no Peso (Melgaço), passagem de batela em meados do século XX
Rio Minho avistado desde Gondufe (início do século XX)
Rio Minho no Peso (Melgaço), inícios do século XX
Rio Minho no Peso (Melgaço), início do século XX

Rio Minho em Remoães (Melgaço), inícios do século XX


Rio Minho no Peso (Melgaço), inícios do século XX 

Rio Minho à passagem por Melgaço, com vista para o comboio na margem galega (início do século XX)

Rio Minho no Peso (Melgaço), meados do século XX
Rio Minho no Peso (Melgaço), meados do século XX 
Rio Minho no Peso (Melgaço), meados do século XX
Vista para o rio Minho e Capela de Nossa Senhora de Loudes (meados deo século XX)
Rio Minho no Peso (Melgaço), meados do século XX
Rio Minho avistado desde o Cruzeiro  de S. Julião (início do século XX)
Rio Minho entre Melgaço e Arbo (década de 80)
Rio Minho (Melgaço), década de 80 do século XX

Rio Minho no Peso (Melgaço) e Ponte Internacional,  década de 90 do século XX