sábado, 3 de outubro de 2015

A Ponte da Assureira ou Ponte de S. Brás (Castro Laboreiro)

Ponte de S. Brás, na Assureira (Castro Laboreiro - Melgaço)
(Foto de António Eiras)

No panorama das pontes históricas nacionais, Castro Laboreiro possui um dos mais homogéneos e interessantes núcleos, cuja relevância no âmbito nacional é ainda reforçada pelo facto de quase todas elas provarem como a Idade Média reutilizou (e, em tantos casos, reformulou) antigas estruturas de passagem de época romana, fazendo com que algumas apresentem um aspecto misto, fruto de duas fases distintas de utilização, como provou Aníbal Rodrigues precisamente para este conjunto do Alto Minho interior.
Na origem, Assureira é uma das muitas inverneiras da região, locais relativamente abrigados e a mais baixa altitude (em torno dos 700-800 metros), onde as populações passavam os Invernos, de acordo com a habitação sazonal que caracterizava esta zona. Desde muito cedo, um rudimentar habitat foi concentrado neste local, ponto privilegiado ainda pela proximidade do rio de Castro Laboreiro e pelas naturais condições de passagem.
Na época romana, foi aqui que se edificou uma das várias pontes da região, cuja estrutura sobreviveu, em parte, até aos dias de hoje. A análise efectuada por Aníbal Rodrigues é clara quanto à sobrevivência de alguns elementos deste período, designadamente na sua metade nascente, como as lages de grandes e regulares dimensões e a feitura do arco, de volta perfeita, com aduelas "com o paramento exterior almofadado e de uma perfeição extraordinária".
Cerca de mil anos depois, nos primeiros séculos da nacionalidade, a ponte foi objecto de uma ampla reforma, que se pautou pelo alargamento do tabuleiro, muito possivelmente com a intenção de dar "passagem a toda a espécie de carros de tracção animal". É desta forma que compreendemos a grande diferença de aparelho e de sistema construtivo entre as metades nascente e ponte da estrutura. Esta última, compõe-se de um lajeado de pedras miúdas e dispostas um tanto anarquicamente, sendo as aduelas irregulares, sintomas de uma profunda alteração, que pretendeu alargar o tabuleiro para o dobro da sua extensão (3,30m na actualidade).
Esta radical transformação prova, acima de tudo, a manutenção da ponte como elemento fundamental para as populações, ao longo de séculos, servindo um núcleo de povoamento que constantemente a atravessou nas suas actividades ganadeiras e nas movimentações sazonais entre inverneiras e brandas.
Prova disto mesmo são os restantes elementos edificados que se relacionam com a ponte. Bem perto, para nascente, aproveitando o caudaloso leito desta secção do rio, construiu-se um moinho, em época incerta, mas que se poderá situar na Idade Moderna. Mais antigo é um lintel de janela, de arco contracurvado escavado, decorado "com uma vieira e duas estrelas", integrado na capela de São Brás. Este pequeno templo é, hoje, uma construção incaracterística, com abundante material reutilizado e uma parte superior que é, claramente, um acrescento recente, em cimento, que corrompeu toda a estrutura e originalidade anteriores. No entanto, a integração desta padieira de época manuelina prova como, desde essa altura, aqui existiu um edifício de cunho mais cuidado, provavelmente de carácter religioso, que a actual capela veio substituir.


Informações recolhidas em:
- ARAÚJO, José Rosa de (1962) - Caminhos velhos e Pontes de Viana e Ponte de Lima. Viana do Castelo;
- LIMA, Alexandra Cerveira Pinto Sousa (1996) - Castro Laboreiro: Povoamento e organização de um território serrano. Melgaço;
- RIBEIRO, Aníbal Soares (1998) - Pontes Antigas Classificadas. Lisboa;
- RODRIGUES, Pe. Aníbal (1985)  - Pontes Romanas e Românicas de Castro Laboreiro. Viana do Castelo.

- www.patrimoniocultural.pt.

domingo, 27 de setembro de 2015

Há 200 anos, comparou-se a paisagem de Alcobaça ao norte da Alemanha

Alcobaça (Melgaço), no início do século XX 

Johann Centurius Hoffmann Graf von Hoffmannsegg é um naturalista alemão nascido em Desden em 1766. Viajou por vários países da Europa a estudar paisagens e a sua vegetação. Passou por Portugal entre 1797 e 1801, em trabalho de campo e daí resultou um livro sobre o nosso país e as suas paisagens. Encontrei uma edição em francês entitulada “Voyage en Portugal” editada em Paris em 1805. Pela leitura do mesmo, ficamos a saber que este naturalista germânico passou por Melgaço. Não ficou muito impressionado com a vila mas chamou-o à atenção a paisagem dos arredores de Alcobaça (Melgaço) e acerca desta faz uma comparação cm uma região dos seu país. Ora leia...
“Melgaço, a duas léguas e meia de Monção, é uma localidade com pouca importância. Possui um castelo antigo e uma pequena guarnição.
A vila encontra-se numa posição elevada a uma meia légua das margens do rio Minho. As margens do rio tornam-se cada vez mais íngremes à medida que caminhamos em direção à fronteira com Espanha (S. Gregório) e por lá, as margens encontram-se cobertas de uma vegetação arbustiva tão densa, que não se pode circular pelo meio.
Algumas plantas que não são nada fáceis de encontrar em Portugal, aqui encontram-se com frequência como por exemplo a hieracium umbellatum e a potentilla rupestris.”
Sobre Alcobaça (Melgaço), faz uma curiosa comparação...
“A paisagem dos arredores de Alcobaça assemelha-se à do Norte da Alemanha. Podemos ver os campos de centeio, vidoeiros, mirtilos e belas áreas planas salpicadas com flores. Tudo cercado por rochas, cujas arestas, em formas variadas, tocam nas nuvens.”

Extraído de:

- HOFFMANNSEGG, Johann Centurius Hoffmann Graf von (1805) – Voyage en Portugal. Chez Livrault, Schoell et Cgnie. Libraires, Paris, France.

sábado, 26 de setembro de 2015

Relatos de uma viagem de Melgaço a Lamas de Mouro pela "estrada nova" (meados do séc. XX)

Lamas de Mouro (Melgaço) em meados do século passado

O "Guia de Portugal" é uma obra iniciada em 1924 por Raúl Brandão. É reconhecido como um dos mais completos roteiros de Portugal do século XX. Foi publicado em vários volumes dedicados a cada uma das regiões do nosso país. A edição do volume dedicado ao Alto Minho é de 1965 e fala-nos desta região e em particular das estradas e caminho de Melgaço e das contemplações do autor com as paisagens da nossa terra. Deixamos aqui um extrato do dito livro onde o autor faz uma viagem da vila de Melgaço até às terras serranas do nosso concelho, percurso já feito pela estrada nacional, inaugurada uns poucos anos antes. Conta-nos então que...
"Melgaço é o ponto de partida para uma excursão à aldeia serrana de Castro Laboreiro. A antiguidade deste povoado, o seu isolamento em plena montanha e, portanto, o seu primitivismo, constituem motivo de atração para o estudioso das Ciências do Homem, José Leite de Vasconcelos que a visitou em 1904, no início da sua carreira científica. Não existia ainda a atual estrada. Fez a ascensão do maciço por caminhos primitivos, seguindo pelo vale da Ribeira do Porto (que passa pelo sul de Melgaço com a orientação este-oeste) e passando por Cavaleiros, Cabana, Candosa, Ledronqueira e Fiães, onde se deteve, contemplando as ruínas do velho convento. Neste local,situado a 700 metros de altitude, termina a zona dos pinheiros, seguindo-se a dos “vidos” ou “bidos” (vidoeiros ou bétulas) e dos carvalhos.
A estrada atual contorna, pelo largo e a Oeste, a lomba dos Picos (1255 metros), indo entroncar, um pouco no sul de Alcobaça, nos vales por onde seguia o caminho velho.
É esta via que pressupomos ser aproveitada pelo excursionista. A partir de Melgaço, a estrada sobe em plano inclinado, de 100 a 400 metros. Depois da ponte sobre a ribeira de S. Lourenço, em Roussas, à medida que vai subindo através de campos cuidadosamente cultivados, marginados pelas típicas ramadas de vinha, podemos contemplar, cada vez mais empolgante pela sua vastidão, o quadro paisagístico dos campos de Melgaço, fechado, para as bandas do Norte, pelo cenário longínquo dos relvados da Galiza.
O rio Minho, lá em baixo, vai serpenteando no seu sulco profundo entre rochedos titânicos apontados para as águas, que perante eles rumorejam tragicamente, numa luta milenária, que se embravece na época das grandes chuvas invernais. O rio, que depois de Roussas (altitude 300 metros) que se avista lá em baixo, não é ainda a corrente de águas mansas que flui amorosamente entre margens idílicas, como sucede, para jusante, a poucos quilómetros, em Monção. Aqui, é ainda uma corrente indómita e selvagem.
A cerca de 400 metros de altitude, depois das aldeias de S. Paio, e transposto o pontão sobre a Ribeira de Lavandeira, a estrada começa a contornar, já em plena zona serrana, cimos com altitudes superiores a 700 metros. Para trás ficou a região pitoresca da “ribeira”, com o seu caraterístico povoamento disperso. Entra-se, agora, num ambiente geográfico diferente, onde despontam, nas linhas austera do relevo, pequenos grupos de casais muito distantes uns dos outros.
Na Primavera, o ambiente solene das altas encostas do Alto Minho anima-se pela presença das cores vivas das flores da vegetação espontânea. Nessa quadra, os trabalhadores ocupam-se na faina do “corte” do mato ou na preparação de pequenos tratos de terra para as sementeiras, após o período rude da invernia.
Constitui uma feição original das serras do noroeste português a existência de povoamento de altitude: onde a arquitetura do relevo se traduz por uma rechã, aí se encontra, em geral, um foco de ocupação humana, com as casas aglomeradas rodeadas por campos cultivados ou por prados que a “água de lima” vai fertilizando. Tal é que sucede no lugar de Pomares (575 a 600 metros de altitude), pequeno povoado rodeado de retalhos de prados murados. Aqui, a estrada transpõe a linha divisória das águas entre a bacia da Ribeira das Lages, que corre para norte, atravessando a plataforma de Melgaço, e a bacia do rio de Mouro, que sulca o maciço de Leste para Oeste até ao cotovelo de Tangil. A 800 metros, passa pela aldeia de Cubalhão, dividida em dois núcleos – o Lugar de Cima e o Lugar de Baixo.
Transposto o vale do Porto Covo, o viajante encontra-se, agora, a contornar, pelo sul a grande lomba que culmina no Alto dos Picos (1255 metros), seguindo através de ampla rechã, por onde vão correndo, em meandros, as águas da Ribeira da Igreja. Neste planalto, enquadrado por cimos elevados, cruzam-se velhos caminhos de ligação entre os povoados distantes. Nos lameiros, há mulheres vestidas de escuro, pastoreando gado.
Daí parte o caminho (praticável para automóveis), que no interior da serrania, atinge o santuário da Senhora da Peneda.
No silêncio meditativo dos fraguedos, onde o tempo, dir-se-ia haver parado na sua marcha inexorável, como voz dorida da própria paisagem, ouve-se, por vezes, o ranger cavo das rodas pesadas de um carro regional, que avança, aos solavancos, sobre o tosco lajedo. Nem uma árvore põe uma nota e vida vegetal nos climas graníticos. 
O Homem sente-se esmagado perante o ambiente austero, e nos recessos nublosos da consciência, em face desses rochedos soerguidos para o alto, ouve-se o tumultuar eterno da inquietação humana perante o mundo.
A 900 metros, numa encosta, encontra-se a aldeia de Lamas de Mouro...



Extraído de:
SANT'ANA DIONÍSIO (1965) - Guia de Portugal - Entre o Douro e Minho II. Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa
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sábado, 19 de setembro de 2015

A história de um melgacense de Prado que combateu ao lado dos nazis na Rússia

Um soldado ao lado de uma sepultura de um combatente da Divisão  Azul

Apesar do estatuto de neutralidade do nosso país na II Guerra Mundial, muitos portugueses lutaram no maior de todos os conflitos. Praticamente desconhecidos, investigações recentes demonstram que cerca de 150 portugueses participaram na invasão alemã à União Soviética, integrados nas fileiras da Divisão Azul, arregimentada em Espanha e integrada na enorme máguina de guerra hitleriana.
E melgacenses? Sabemos que pelo menos houve dois melgacenses que combateram ao lado dos nazis na invasão à União Soviética de Estaline, integrados na chamada Divisão Azul. Um desses soldados era Aníbal Esteves Afonso, natural de Prado (Melgaço), nascido em 1917.


Aníbal Afonso no tempo da guerra

 Antes de tudo, é importante explicar o que é afinal a Divisão Azul e a sua origem.
Recuemos então a 1941. A Europa estava em guerra desde 1 de Setembro de 1939 com a invasão da Polónia pelas tropas germânicas. Hitler dominava meia Europa. Contudo, no Verão de 1941, Hitler anuncia ao mundo a sua jogada mais ousada: a Operação Barbarossa. Na madrugada de 22 de Junho, lançou os seus exércitos na sua maior operação militar da História, a invasão da União Soviética, seguindo-se um duelo de morte entre os dois colossos militares.
Ainda que os países ibéricos se tenham mantido neutrais durante o conflito, em Espanha, Francisco Franco permitiu que voluntários se incorporassem ao exército alemão. Deste modo, podia manter a neutralidade espanhola enquanto, simultaneamente, recompensava Hitler pela sua ajuda durante a Guerra Civil Espanhola. O Ministro de Assuntos Exteriores da época, Ramón Serrano Súñer, sugeriu a criação de um corpo voluntário, no princípio da Operação Barbarossa, e Franco enviou uma oferta oficial da ajuda a Berlim. Hitler aprovou o uso de voluntários espanhóis em 24 de junho de 1941.
No país vizinho, não houve falta de voluntários e, a despeito de apenas 4.000 homens tivessem sido solicitados por Hitler, a procura foi tão grande que as autoridades rapidamente elevaram o número de voluntários permitidos, visando formar uma divisão completa (cerca de 19.000 homens). Regimentos de voluntários foram criados em Madrid, Barcelona, Sevilha, Valência e todas as outras regiões metropolitanas. Em 2 de Julho de 1941, os postos de recrutamento foram oficialmente fechados, com o número de voluntários tendo até mesmo superado a marca de uma divisão. A maioria desses homens tinham experiência de combate, muitos eram veteranos da Guerra Civil, acostumados com os rigores da vida militar.
Como estes soldados não eram membros do exército espanhol, um uniforme simbólico foi improvisado: uma boina vermelha do movimentos Carlista, a camisa azul do movimento Falangista (que por fim deu o nome à unidade) e as calças cáquis da Legião estrangeira espanhola. Esse uniforme era para ser usado enquanto permanecessem em Espanha mas, antes de partirem, receberam o tradicional uniforme do exército alemão, contendo um escudo com as cores nacionais e a palavra “España”, na parte superior da manga direita.
Em 13 de Julho de 1941, o primeiro comboio com voluntários deixou Madrid em direção a Grafenwohr (Alemenha). Na Alemanha, fariam toda a instrução militar. Aqui tinham sido recebidos de forma apoteótica. Neste primeiro contingente, havia já cerca de meia centena de portugueses na Divisão Azul que prestaram juramento de fidelidade a Hitler, na luta contra o comunismo. Da Alemanha, seguiram para a Polónia e daí até à Rússia numa caminhada de cerca de 1000 Km’s. Das estradas da Polónia, chegaram-nos relatos de grupos de soldados portugueses que, em marcha, cantavam o bem português Tiroliro.
Na noite de 12 de Outubro de 1941, a Divisão Azul teve seu batismo de fogo ao se defrontar com um batalhão soviético que tentava atravessar o rio Volkhov em meio a escuridão. A investida russa foi detida deixando para trás cerca de 50 mortos e 80 prisioneiros. Quatro dias depois, numa segunda tentativa, o Exército Vermelho foi, novamente, rechaçado. A batalha pela posse do rio tornou-se violenta, mas os soldados da Divisão Azul souberam manter uma cabeça-de-ponte do outro lado da margem mesmo sofrendo pesadas baixas da artilharia inimiga.
Em Agosto de 1942, a Divisão Azul foi transferida do flanco norte para o sudeste do cerco a Leninegrado (Rússia).
Por esta altura, no Verão de 1942, Aníbal Afonso, natural de Prado (Melgaço), emigrante nas Astúrias, alista-se e segue num comboio de reforços para a Alemanha e dali vai juntar-se à Divisão Azul nas proximidades da cidade de Leninegrado.
Mas quem é o soldado melgacense Aníbal Esteves Afonso?
Nasceu no lugar do Coto, freguesia de Prado (Melgaço) em 18 de Julho de 1917. Era filho de José Bento Afonso, natural no lugar da Gaia, São Paio, por volta de 1886, carpinteiro, e de Constância da Pureza Esteves, doméstica, nascida no lugar do Coto, Prado, por volta de 1887.
Aos dezassete anos, Anibal Afonso vivia com os seus pais em Remoães, mas a sua família acabou por seguir o destino de muitos minhotos e emigrou para as Astúrias, onde Aníbal começou a trabalhar como mineiro e assentou residência em Olloniego, localidade próxima de Oviedo.
A 20 de Julho de 1942, alistou-se no Bandeirin de Enganche da Jefatura Provincial de Asturias e partiu para La Rioja, deixando como pessoa a contactar em caso de necessidade Alfredo Rodriguez Gonzalez, chefe da Falange de Olloniego e responsável do partido que redigiu um certificado em que constava que Aníbal Esteves era pessoa de conduta intocável e afecta ao glorioso movimento nacional, indicou também outro conhecido, André Garcia Gonzalez, cujo domicílio também era em Olloniego. Por esta informação, podemos concluir que o Anibal teria ideais alinhados com a causa franquista. Não consegui confirmar se terá combatido na Guerra Civil ou terá pertencido à Falange.
Em Logroño foi integrado no 14º Batalhão de Marcha. Nessa unidade encontravam-se mais cinco portugueses: os soldados Alberto Alves, Francisco Lopes, José Camacho, Mário Barbosa e o cabo José Barroso, e a 13 de Agosto a sua unidade atravessou a fronteira Hispano-Francesa, em direcção à Alemanha.
Já na Alemanha, na cidade de Hof, os guripas, como eram chamados os soldados desta divisão,  trocaram as suas fardas espanholas pelas da Wehrmacht, e à chegada à Rússia foi integrado na 6ª/263, onde participou em múltiplas escaramuças e diversas operações de maior envergadura.
Sabemos que combateu na batalha de Krasnyi-Bor. Ali, em Fevereiro de 1943, a Divisão Azul sofreu uma forte contra-ofensiva soviética (revigorada após a recente vitória em Estalinegrado), na cidade de Krasny Bor, próximo da via Leningrado-Moscovo. Mesmo sofrendo pesadas baixas, a Divisão Azul deteve os ataques russos, apoiados por tanques, em sete ocasiões. O assalto foi contido e o cerco à cidade de Leninegrado mantido por mais um ano. A estabilização da linha fez com que os generais alemães passassem a dar mais valor aos combatentes da Divisão Azul.
Além da Batalha de Krasny Bor, o soldados Aníbal Afonso combateu nas trincheiras de Leninegrado (Rússia) e nos pântanos do rio Ishora onde escapou ileso. Note o caro leitor que nas planícies das Rússia, terão morrido quase cinco mil soldados espanhóis e portugueses e outros terão ficado prisioneiros na Rússia.
Sabe-se que o Aníbal retornou a Espanha após a ordem de repatriação da Divisão Azul, tendo escapado incólume durante um ano que combateu em território soviético. Em Novembro de 1943, embarcou a bordo do comboio que trazia os homens do 21º Batalhão de Repatriação, entre os quais outros soldados portugueses António Ramos, Luís Rodrigues e Francisco Lopes.
Sabe-se que em 1945, estava de novo em Oviedo, onde casou com Maria Argentina Heria Fanjul no dia 8 de Dezembro desse mesmo ano na localidade de São Pelayo de Olloniego.
Não há registos ou testemunhos de que Aníbal Afonso tenha voltado a Melgaço após a guerra.

Informações recolhidas em:
Fontes: AGMAV, C. 1996, Cp. 12, D. 1/81 “Relación Nominal – 21º Batallón de Repatriación”; AGMAV, C. 3809, Cp. 11/23 e 52 “Justificantes de Revista – 14º Batallón de Marcha”; AGMAV, C. 4612, Cp. 26 “D.E.V. – Expediente Personal”; AGMAV, C. 5481, Cp. 47 “Jefatura Provincial de la F.E.T. y de las J.O.N.S. de Asturias – Expediente Personal”; Arq. Mun. de Melgaço - Livro de Recenseamento Militar de 1934 (Recenseamento dos 17 anos), Freguesia de Prado; Conservatória do Registo Civil de Melgaço: Assento de Nascimento nº 232 do ano de 1917.


Nota: Um especial obrigado aos investigadores Ricardo Silva e Joaquim Rocha pela partilha de informações que tornaram possível esta publicação.

sábado, 12 de setembro de 2015

A Capela da Senhora de Anamão (Castro Laboreiro - Melgaço)

Capela de Nossa Senhora de Anamão (Castro Laboreiro - Melgaço)

No âmago dos Montes Laboreiro, transpondo a portela onde foi colocado um cruzeiro de pedra, aninhada ao fundo de uma garganta amena, ladeada por carvalhos e castanheiros, aparece uma exígua capela de invocação mariana – a capela da Senhora da Anamão – apadrinhada pela sua perene vigilante, a colossal e multimilenar fraga da Anamão.
Esta capela faz parte do espólio das 10 capelas actuais de Castro Laboreiro: a de S. Bento, em Várzea Travessa; a de S. Brás, na Açoreira; a de S. Miguel, em Mareco; a do Senhor da Boa Morte, na Ameixoeira; a da Senhora da Boavista, nas Cainheiras; a da Senhora dos Remédios, no Rodeiro, a da Senhora de Monserrate, nas Coriscadas, a do Senhor do Bonfim, no Ribeiro de Cima e de Santo António no Ribeiro de Baixo. Mas a de Anamão tem a particularidade de estar afastada de qualquer povoado, ficando o lugar mais próximo das Cainheiras a cerca de dois quilómetros. Esta peculiaridade, só por si, vaticina a existência de um presumível culto pré-cristão, espontaneamente confirmado pela vasta necrópole megalítica do planalto. A pena da Anamão é visível, praticamente, de qualquer ponto do planalto e a sua invulgar configuração criou – nos especialistas que, na década de 90, realizaram trabalhos de prospecção nesta necrópole, a suspeita de que a orientação dos dólmenes lhe pudesse estar relacionada. Num silhar do lado sul consta a data de 1663, memorando uma plausível reconstrução, no âmbito das intensas escaramuças da Restauração com os Galegos. Outra data próxima – 1690 – consta, em silhar invertido, no seu interior. As raízes inveteradas da capela de Anamão perdem-se, assim, na neblina fria do tempo, agasalhadas, durante séculos, numa milagrosa aparição, que os testemunhos dos autores setecentistas e a voz do povo se encarregaram de tornar perdurável até ao século XXI. Não faltam, por isso, motivos para acreditar que este local mítico tenha sido eleito para um qualquer vetusto culto pré-cristão. A tentativa do seu extermínio, por parte da Igreja, erigindo a capela de invocação a Nossa Senhora, não obteve um efeito total.
Reminiscências do paganismo estão bem latentes na tradição hodierna de, no dia da festividade (8 de Setembro, recentemente mudada para o primeiro domingo de Setembro), as raparigas solteiras lançarem, com a mão esquerda, uma pedra para um buraco cavado pela natureza num penedo, à margem do antigo caminho de acesso, a escassos metros da capela. Esse ritual pressagiava a passagem para o estado de casadas, ou seja, se a pedra ficasse na cavidade era sinal de que casaria ainda esse ano, caso contrário, ficava-lhe a consolação de tentar no ano seguinte. Ao efectuar o arremesso, a donzela devia pensar no seu pretendido; Quantas terão concretizado o seu anseio? Com certeza, as bastantes para fazer perdurar esta fantasia até aos nossos dias.
Em simultâneo com a construção do templo cristão propagou-se a lenda de que a Santa teria sido encontrada, por algum pegureiro ou pegureira, num buraco de um penedo e levada à igreja matriz, mas que Ela sempre voltara ao sítio onde tinha sido encontrada. Esta teima foi interpretada como vontade de que ali se lhe levantasse a sua casa religiosa, como efectivamente veio a realizar-se. Este milagre – semelhante a tantos outros espalhados por esse país fora – já vem referido na Corografia do P.e Carvalho da Costa, editada em 1706, mas com licença de 1701: “Senhora de Anamão, imagem milagrosa que está em hum valle junto da raya metida em huns grandes penhascos onde foy achada no buraco que a natureza obrou em hum monstruoso penedo; dizem a trouxerão por vezes à igreja, mas que outras tantas se tornou, causa de alli lhe fazerem Ermida”.
Esta capela possui uma planta rectangular simples e cobertura em telhado de duas águas. Paredes exteriores em aparelho de silhares graníticos com as juntas rebocadas a branco. Cruz latina remata as empenas e pináculos encimam os cunhais. Tem também um frontispício virado a Este, terminado em empena, com porta singela de vão recto flanqueada por duas pequenas frestas e encimada por vão. No alçado Sul. abrem-se duas pequenas janelas junto dos cunhais e porta de vão recto a um terço do comprimento, próxima do frontispício. Um dos silhares apresenta data inscrita: 1663. O alçado Oeste é cego e a Sul abre-se uma porta de vão recto. No interior, as paredes são rebocadas a branco com lambril pintado a vinoso, o pavimento é em lajeado granítico consolidado com cimento e o arco triunfal é pleno, sobre pilastras. O púlpito exterior granítico apresenta as guardas decoradas em baixo-relevo, orladas com moldura e ostentando como motivo central um hexafólio inscrito num círculo.

Informações extraídas de:
- http://www.geocaching.com/geocache/GC1P9VW_senhora-da-anamao
- www.monumentos.pt;

- CARVALHO, Pe. António Carvalho da Costa (1701)  – Cororgrafia portugueza, e descripçam topografica do famoso reyno de Portugal, com as noticias das fundações das cidades, villas & lugares, que contem. Lisboa.