domingo, 18 de outubro de 2015

Antiga Ponte Internacional de S. Gregório em postais antigos

A antiga ponte internacional de S. Gregório foi construída em finais do século XIX e destruída em meados da década de 1930. Era uma estrutura rudimentar cujo tabuleiro era formado por um par de troncos de madeira. Podemos vê-la em alguns postais como estes que aqui são apresentados...

Ponte Internacional de S. Gregório (postal de 1909)


Ponte Internacional de S. Gregório (postal da década de 30)


Ponte Internacional de S. Gregório (postal da década de 30)


Ponte Internacional de S. Gregório (postal do início do século XX)


sábado, 17 de outubro de 2015

Estratégia para defender Melgaço de uma invasão - o plano de um capitão inglês



William Granville Eliot era um capitão do Royal Regiment of Artillery, que exercia funções de engenheiro militar. Esteve em Portugal entre 1808 e 1809, sob as ordens do General Arthur Wellesley, responsável máximo pela organização da defesa portuguesa contra as tropas napoleónicas. O capitão William Eliot era um homem preocupado com a definição de uma estratégia para a defesa de Portugal contra os invasores franceses pois acreditava-se que haveria um terceira invasão como veio a concretizar-se.
Durante a sua estadia no nosso país, fez um trabalho de reconhecimento das áreas fronteiriças portuguesas e após a segunda invasão francesa em 1809, publica o livro “A treatise on the defence of Portugal, with a military map of the country”, editado em 1810. Este tratado de estratégia militar contem uma verdadeira estratégia de como, no entender dele, se deviam posicionar as tropas e a artilharia para defender as nossas fronteiras.
A propósito da nossa região, refere-se à existência de fortificações completamente obsoletas, construídas noutro tempo para um outro tipo de guerra. Contudo, o rio Minho representava um obstáculo natural que muito poderia dificultar qualquer tentativa de incursão, tendo em conta a inexistência de pontes entre as duas margens. A este propósito, o capitão Eliot refere-se ao curso do Minho à sua passagem por Melgaço, nestas palavras: “O rio Minho, entra em Portugal cerca de uma légua e meia acima de Melgaço e não dá para ser atravessado em qualquer parte do seu curso, exceto num local ligeiramente a montante deste lugar, e apenas nos anos em que o inverno e o verão são excepcionalmente secos. A corrente do Minho não é particularmente rápida. Não há pontes sobre o rio, e apenas algumas passagens de barco.”
Uma outra questão que poderia dificultar  os movimentos de tropas e artilharia no nosso concelho, era, segundo o entender do capitão, o estado das vias de comunicação. Então diz que “a estrada de Melgaço para Monção, com três léguas, encontra-se em mau estado, mas pode ser transitada por peças de artilharia ligeira. Há dois riachos no percurso desta estrada cujas margens são íngremes e rochosas, com pontes de pedra sobre os mesmos. Estas podem ser facilmente destruídas, o que iria aumentar a dificuldade de avançar por esta via. Caso contrário, não restaria outra alternativa senão evitar este setor e entrar em Portugal em Caminha, progredindo pela costa para o Porto. No caso dos rios Lima, Cávado e Ave, estes  podem ser atravessados.” Isto devido ao facto de, ao contrário do rio Minho, possuírem pontes.
O general William Eliot deixa considerações acerca da força necessária para defender a fronteira do Minho e em particular este setor da linha fronteiriça próxima de Melgaço: “Já observei que as fortalezas no Minho não estão em bom estado para se defenderem e que, a fim de remediar esta situação, seria mais vantajoso estacionar tropas com artilharia ligeira com uma certa proporcionalidade, em vez de gastar uma avultada soma de dinheiro na reparação das suas muralhas quase inúteis e obsoletas. Torna-se necessário fazer algumas considerações acerca do número de homens que seriam suficientes para defender esta fronteira nos seus pontos mais sensíveis de um ataque externo.”
Em função disto, o capitão define o posicionamento de tropas e artilharia para a linha de fronteira ao longo do rio Minho e aconselha: “Em Caminha, 300 homens com dois canhões “six-pounders”, pode ser suficiente. Em Vila Nova de Cerveira, 300 homens e dois canhões “six-pounders”. Em Valença do Minho, 1000 homens, com seis canhões, “nine pounders” ou “twelve pounders”; em Monção, a mesma situação, substituindo os canhões “six pounders” por armas mais pesadas. Em Melgaço, 300 homens de infantaria ligeira, e dois canhões “three pounders”. Em Alcobaça, uma pequena aldeia nas montanhas acima de Melgaço, 200 soldados de infantaria ligeira com dois canhões "three-pounders". “ Esta consideração revela alguma preocupação com este troço da raia seca.
Entre cada um desses lugares, seria necessário um pequeno destacamento de cavalaria para manter ativas as comunicações, e observar os movimentos do inimigo ao longo de todo o curso do Minho. No seu conjunto, entre soldados de infantaria e cavalaria, cerca de 4000 homens. Estes, auxiliados pelos camponeses armados, seriam capazes de impedir com eficácia qualquer tentativa  de incursão.”
Em relação à fronteira ao longo da raia seca na parte serrana de Melgaço e setor a sul na fronteira oriental a norte do Lima, o capitão Eliot julga que “sendo este um pequeno setor entalado entre o Minho e o Lima, não é um alvo provável por parte do inimigo.” A este respeito, acrescenta que isto se aplica perfeitamente à área “entre a povoação de Alcobaça e Castro Laboreiro, uma fortaleza antiga, situada no cume de um precipício, toda a região é um continuado de montanhas. Aqui não há estradas. Apenas se consegue circular com uma mula, e uma pessoa é frequentemente obrigado a desmontar, quando é necessário passar em locais mais escarpados o que dificulta os movimentos.
Contudo, mesmo que o inimigo, conseguisse fazer passar com sucesso um corpo de tropas de infantaria ligeira, sem artilharia nessa direção, o rio Lima apresentaria logo um outro obstáculo, embora não seja de dificuldade tão acentuado como o rio Minho. Aqui, encontrariam tropas preparadas para a defesa deste ponto e se fosse necessário, proceder-se-ia à destruição das pontes.”
Contudo, a terceira invasão francesa não passou por Melgaço. De qualquer forma,  este capitão inglês deixou ficar aquela que, no seu entender, seria a melhor estratégia para defender a nossa terra.

Extratos transcritos de:

ELIOT, William Granville (1810) – A treatise on the defence of Portugal, with a military map of the country: to which is added, a sketch of the manners and customs of the inhabitants and principal events of the campaigns under Lord Wellington, in 1808 and 1809. London: T. Egerton, Military Library, Whitehall.

sábado, 10 de outubro de 2015

Pelos caminhos de Rouças, em finais do séc. XIX

Igreja de Roussas (Melgaço)
(Fonte: coxo-melgaco.blogspot.com)

Em finais do século XIX, José Augusto Vieira, autor da obra "O Minho PIttoresco", percorreu os caminhos de Melgaço e perpetuou as sua impressões neste livro. Andou pelos caminhos da freguesia de Rouças e deixou-nos estas palavras que aqui transcrevo: 
"Eram meus companheiros de excursão João de Almeida, o artista que ilustra o maior número das páginas deste livro e Abel Seixas, aspirante da alfândega de Viana, então licenciado e conhecedor prático da localidade, porque na delegação de Melgaço havia feito serviço.
O guia, calçado com os grossos tamancos, cujo specimen se encontra na gravura de texto, ia secundado por um valente rapazito, que teve a audácia de aguentar a pé a ida e a volta, para se não separar do cavalito rinchão que nos havia alugado.

Tamancos da época (Melgaço, 1886)

O dia, não obstante estarmos em pleno verão, apresentara-se um pouco fresco, o que nos animava à longa caminhada através das aspereza da serra.
— Três léguas,— nos dizia o guia, que tínhamos a percorrer, mas se tu sabes, leitor, o que são as antigas léguas da província, podes bem calcular, que teríamos pelo menos na nossa frente uma distancia de 25 kilómetros por detestáveis veredas!
A ascensão principia logo ao sair de Melgaço, amenizada na encosta pela frescura viçosa do arvoredo, árida e fatigante depois que se está em plena serra. Atravessamos o pitoresco lugar de Cavaleiros, onde existe a capela da Senhora das Dores, cuja festa se realiza em setembro, e que domina um pequeno mas formoso vale, e assim vamos caminhando, levando à esquerda a montanha, e à direita os pequenos tabuleiros arrelvados, que descem até ao regato de Souto dos Loiros, sobre cujas margens se levantam frondosos soutos de castanheiros. Passamos em Cabana e vemos na baixa as pastagens de Lobiô, dum verde esmeralda macio e tenro.
Estes lugares pertencem a ROUSSAS, cuja paroquial igreja nos fica à direita. Roussas era padroado da antiga casa do Paço de Roussas e no lugar — chamado do Paço — se vêem ainda as ruínas do antiquíssimo edifício, em parte ainda hoje habitado. Este padroado passou depois para Manuel Pereira (o mil-homens) de Monção e o solar para os Castros de Melgaço, e mais tarde para os arcebispos de Braga.
O território da freguesia abrange 7 Kms de comprido por 5 Kms de largo, estendendo-se desde a encosta oeste da serra de Pernidelo até junto das muralhas de Melgaço, cujas primeiras casas lhe pertencem. Os seus vales são fertilíssimos e é precioso o seu vinho verde de Barreiras e Vale de Cavaleiros, em nada inferior ao de Monção. Nesta freguesia e sobranceira à vila, está a grande quinta, que foi do mosteiro de Fiães e que é uma belíssima vivenda.
A igreja matriz é uma das mais amplas do distrito, tem altar-mor e quatro laterais, sendo as imagens de boa escultura, especialmente a da Senhora da Soledade, de tamanho quase natural e oferecida à freguesia pela benemérita família Salgado, aqui residente. A torre é bastante elevada, com dois sinos. No coro, de espaço regular, existe um pequeno órgão.
Por uma inscrição em lápide existente na parede exterior da capela-mor se vê, que o templo foi fundado em 1690 pelo abade Braz d'Andrade Gama. O sítio é formoso, os horizontes largos, e na festa da padroeira, a 18 de julho, a romaria, concorridíssima de gente dos arredores e da Galiza, que à santa vem trazer grande número de ofertas para que os preserve de sezões, espalha-se alegremente pelo vasto terreiro ao sul da igreja, assombreado por castanheiros gigantes.
Além da capela que já mencionámos, Roussas tem ainda as seguintes: Santa Rita, em Vilela, com missa aos domingos e dias santificados. É publica. Nossa Senhora da Conceição, no Coto do Preto.Tem uma bem esculpida pedra d'armas sobre a porta principal. É particular. Santo António, no lugar da Corga, particular. João Baptista, no lugar do Fêxo, idem. Nossa Senhora da Graça, a poucos metros da antecedente é a melhor de todas, tanto pela sua posição eminente à vila,como pela magnifica pedra de cantaria de que é construída. Do monte, em que ela assenta, sai todo o granito para as construções dos arredores.
A ermida foi fundada em 1594 pelo abade Tristão de Castro em cumprimento d'um voto, cuja lenda é análoga à de D. Fuus Roupinho, pois há para assustar o cavaleiro e o cavalo um fantasma monstruoso, que faz desatinadamente correr o animal por soutos e ravinas, com grave risco da integridade anatómica do padre.

Serra acima, o horizonte é encantador para os lados de Melgaço e Galiza, e como que á vol d'oiseau se dominam as encostas e pequenos vales, onde os campanários destacam as suas agulhas brancas. O Minho corre em baixo, como serpente em voltas sinuosas. Para o norte, as serras de Galiza vão-se indistintamente fundindo no índigo esfumado da atmosfera. Dobramos a montanha, o horizonte largo desaparece e logo na encosta Vila de Conde, lugarejo pertencente a FIÃES, principia a dar o toque de melancolia às nossas impressões, até aí cheias do verde-claro da vegetação, dos sussurros da agua, do espelhar dos rios, do pitoresco das aldeias. Parece que entramos numa região inóspita e selvagem..."



Extraído de: 
VIEIRA, José Augusto (1886) - O Minho Pittoresco, tomo I, edição da livraria de António Maria Pereira - Editor, Lisboa.

sábado, 3 de outubro de 2015

A Ponte da Assureira ou Ponte de S. Brás (Castro Laboreiro)

Ponte de S. Brás, na Assureira (Castro Laboreiro - Melgaço)
(Foto de António Eiras)

No panorama das pontes históricas nacionais, Castro Laboreiro possui um dos mais homogéneos e interessantes núcleos, cuja relevância no âmbito nacional é ainda reforçada pelo facto de quase todas elas provarem como a Idade Média reutilizou (e, em tantos casos, reformulou) antigas estruturas de passagem de época romana, fazendo com que algumas apresentem um aspecto misto, fruto de duas fases distintas de utilização, como provou Aníbal Rodrigues precisamente para este conjunto do Alto Minho interior.
Na origem, Assureira é uma das muitas inverneiras da região, locais relativamente abrigados e a mais baixa altitude (em torno dos 700-800 metros), onde as populações passavam os Invernos, de acordo com a habitação sazonal que caracterizava esta zona. Desde muito cedo, um rudimentar habitat foi concentrado neste local, ponto privilegiado ainda pela proximidade do rio de Castro Laboreiro e pelas naturais condições de passagem.
Na época romana, foi aqui que se edificou uma das várias pontes da região, cuja estrutura sobreviveu, em parte, até aos dias de hoje. A análise efectuada por Aníbal Rodrigues é clara quanto à sobrevivência de alguns elementos deste período, designadamente na sua metade nascente, como as lages de grandes e regulares dimensões e a feitura do arco, de volta perfeita, com aduelas "com o paramento exterior almofadado e de uma perfeição extraordinária".
Cerca de mil anos depois, nos primeiros séculos da nacionalidade, a ponte foi objecto de uma ampla reforma, que se pautou pelo alargamento do tabuleiro, muito possivelmente com a intenção de dar "passagem a toda a espécie de carros de tracção animal". É desta forma que compreendemos a grande diferença de aparelho e de sistema construtivo entre as metades nascente e ponte da estrutura. Esta última, compõe-se de um lajeado de pedras miúdas e dispostas um tanto anarquicamente, sendo as aduelas irregulares, sintomas de uma profunda alteração, que pretendeu alargar o tabuleiro para o dobro da sua extensão (3,30m na actualidade).
Esta radical transformação prova, acima de tudo, a manutenção da ponte como elemento fundamental para as populações, ao longo de séculos, servindo um núcleo de povoamento que constantemente a atravessou nas suas actividades ganadeiras e nas movimentações sazonais entre inverneiras e brandas.
Prova disto mesmo são os restantes elementos edificados que se relacionam com a ponte. Bem perto, para nascente, aproveitando o caudaloso leito desta secção do rio, construiu-se um moinho, em época incerta, mas que se poderá situar na Idade Moderna. Mais antigo é um lintel de janela, de arco contracurvado escavado, decorado "com uma vieira e duas estrelas", integrado na capela de São Brás. Este pequeno templo é, hoje, uma construção incaracterística, com abundante material reutilizado e uma parte superior que é, claramente, um acrescento recente, em cimento, que corrompeu toda a estrutura e originalidade anteriores. No entanto, a integração desta padieira de época manuelina prova como, desde essa altura, aqui existiu um edifício de cunho mais cuidado, provavelmente de carácter religioso, que a actual capela veio substituir.


Informações recolhidas em:
- ARAÚJO, José Rosa de (1962) - Caminhos velhos e Pontes de Viana e Ponte de Lima. Viana do Castelo;
- LIMA, Alexandra Cerveira Pinto Sousa (1996) - Castro Laboreiro: Povoamento e organização de um território serrano. Melgaço;
- RIBEIRO, Aníbal Soares (1998) - Pontes Antigas Classificadas. Lisboa;
- RODRIGUES, Pe. Aníbal (1985)  - Pontes Romanas e Românicas de Castro Laboreiro. Viana do Castelo.

- www.patrimoniocultural.pt.

domingo, 27 de setembro de 2015

Há 200 anos, comparou-se a paisagem de Alcobaça ao norte da Alemanha

Alcobaça (Melgaço), no início do século XX 

Johann Centurius Hoffmann Graf von Hoffmannsegg é um naturalista alemão nascido em Desden em 1766. Viajou por vários países da Europa a estudar paisagens e a sua vegetação. Passou por Portugal entre 1797 e 1801, em trabalho de campo e daí resultou um livro sobre o nosso país e as suas paisagens. Encontrei uma edição em francês entitulada “Voyage en Portugal” editada em Paris em 1805. Pela leitura do mesmo, ficamos a saber que este naturalista germânico passou por Melgaço. Não ficou muito impressionado com a vila mas chamou-o à atenção a paisagem dos arredores de Alcobaça (Melgaço) e acerca desta faz uma comparação cm uma região dos seu país. Ora leia...
“Melgaço, a duas léguas e meia de Monção, é uma localidade com pouca importância. Possui um castelo antigo e uma pequena guarnição.
A vila encontra-se numa posição elevada a uma meia légua das margens do rio Minho. As margens do rio tornam-se cada vez mais íngremes à medida que caminhamos em direção à fronteira com Espanha (S. Gregório) e por lá, as margens encontram-se cobertas de uma vegetação arbustiva tão densa, que não se pode circular pelo meio.
Algumas plantas que não são nada fáceis de encontrar em Portugal, aqui encontram-se com frequência como por exemplo a hieracium umbellatum e a potentilla rupestris.”
Sobre Alcobaça (Melgaço), faz uma curiosa comparação...
“A paisagem dos arredores de Alcobaça assemelha-se à do Norte da Alemanha. Podemos ver os campos de centeio, vidoeiros, mirtilos e belas áreas planas salpicadas com flores. Tudo cercado por rochas, cujas arestas, em formas variadas, tocam nas nuvens.”

Extraído de:

- HOFFMANNSEGG, Johann Centurius Hoffmann Graf von (1805) – Voyage en Portugal. Chez Livrault, Schoell et Cgnie. Libraires, Paris, France.