sexta-feira, 13 de maio de 2016

Melgaço e seu lugar na História de Portugal

Castelo de Melgaço, na viragem do séc. XIX para o séc. XX
Numa publicação de 1890, o “Archivo Histórico de Portugal”, eleva-se Melgaço a um lugar de importância extrema na História de Portugal. Aí podemos ler: “Pertenceu esta vila à casa de Bragança e pelos duques eram dados todos os ofícios.
De Melgaço, são oriundas várias famílias nobres de Portugal, tais como os Marqueses de Nisa, Condessa da Ribeira, Barão de Proença-a-Nova, Castros Pittas, de caminha, e outras ilustres famílias, mais ou menos aparentadas com o antigo senhor da Lapela, morgado de Covas,Gaspar de castro Caldas.
Se Melgaço não é conhecida na sua origem, se não tem a ilustrá-la, nem colunas, nem templos, preciosas relíquias da civilização pagã, a sua História desde os tempos  em que foi povoada pelos cristãos é insuficientemente  honesta e heróica para lhe granjear títulos de nobreza. De quantas vezes a Pátria precisou do seu auxílio, de lá correram valentes e intrépidos patriótas, afrontando perigos determinando-se bravamente a todos os sacrifícios. Nas longas e sucessivas guerras com Castela, os melgacenses souberam sempre honrar a sua terra e a lusitana bandeira.
E não só os homens como também as filhas de Melgaço são heróicas e arrojadas na defesa da integridade do território pátrio. Exemplos têm dado dos seus nobilíssimos sentimentos, e destes vamos fazer a narração de um, que de per si basta a orgulhar as formosas e honestas mulheres desta briosa vila. XX No período que medeia de 1384 a 1393, sustentou Portugal encarniçadas batalhas com os pretendentes castelhanos.
Voltemos, porém ao nosso propósito de exemplificar o quanto valem e o quanto bem merecem da Pátria as mulheres de Melgaço. Permanecia ainda esta vila sob o domínio castelhano, defendendo o castelo Álvaro Paes Sottomayor, alcaide-mor, que tinha às ordens uma guarnição de trezentos infantes e trezentos cavalos. Enfastiado pela resistência, foi o valente D. João I pessoalmente pôr cerco a Melgaço mas os dias decorriam sem haver ensejo para mais do que ligeiras escaramuças sem importância  para a decisão do pleito. Ao décimo dia, o rei guerreiro, já exasperado com a situação, tomou a resolução de mandar fazer um castelo de madeira, que ficasse a “cavaleiro das muralhas”. Vinte dias levou o plano a executar-se. Vendo os inimigos preparar-se um assalto, deram sinal de armistício e mandaram à praça um emissário para entabolarem negociações.
Álvaro Paes, o velho amigo de D. João I, tais condições pôs, que não pode resolver-se coisa alguma, e então o monarca ordenou que se desse o assalto o qual seria por ele mesmo comandado. Deu-se isto pelo ano de 1388. D. João havia-se matrimoniado recentemente com a virtuosa princesa D. Filipa de Lencastre que tão salutar, honesta e gloriosa influência exerceu no ânimo do esposo e na educação exerceu dos heróicos filhos. A jovem rainha estava em Monção com as suas damas e acompanhada pelo famoso João das Regras, sábio mestre e alma da política daqueles tempos. Viera do Porto para ver o esposo real e tencionava residir no convento de Fiães enquanto durasse o cerco. Espírito varonil e angélico ao mesmo tempo, não a atemorizava o perigo, antes dele se aproximava como uma estrela de amor que lançava os seus castíssimos reberveros no coração dos reinvindicadores dos direitos da sua nova Pátria, pátria que a doce e bela rainha tanto amou e soube honrar!
Dentro da praça havia uma mulher destemida, espécie de virago, que sendo naturalde melgaço, renegara a sua origem e se dera de alma e coração aos castelhanos. Ora no arraial dos portugueses, achava-se também uma mulher de muita valentia, do que havia bastas provas.  Esta cujo nome era Inês Negra, abrigava no coração os mais sagrados princípios patrióticos a daria a sua vida pela honra da sua terra. Sabedora e renegada da existência da valente portuguesa nas suas vizinhanças, mandou-a desafiar a um combate singular. Inês Negra não repeliu a proposta, e dirigiu-se imediatamente para o lugar da justa, que ficava a meia distância do arraial e da vila. Chegada ali encontrou a sua antagonista já perfilada, arregaçada e capaz de lutar com o próprio Hércules. Não se intimidou Inês mas antes se encheu de nobre indignação, em presença da desonrada virago que atraiçoara a mãe Pátria. Feriu-se o combate com extraordinário ardor. Parece que ambas andavam armadas, mas não especializa a crónica, a espécie de armas de que se serviram, sabendo-se apenas que essas armas ficaram despedaçadas na refrega. Por fim, valeram-se das unhas e dos dentes. Afinal a Arrenegada, como então se dizia, ficou vencida, rotas as vestes, esmurradas as narinas, escalavrada a cara, e nesse vergonhoso estado de derrota, teve que fugir, deixando como troféus à vencedora, os cabelos e os farrapos do vestuário. Grande foi a assuada que os castelhanos sofreram no arraial português e a nossa destemida compatriota foi vitoriada como de justiça era.
No dia imediato, caia a vila no regaço da mãe pátria, e Inês Negra, guerreira como os guerreiros, lá estava no alto da plataforma do castelo, cercada de besteiros, olhando amorosamente o pendão das quinas, que de novo conquistara o seu lugar. Então, no auge do seu entusiasmo, exclamou de forma triunfal, colocando as mãos sobre os generoso coração que parecia disposto a saltar-lhe do seio: “Mas vencemos-te! Tornaste ao nosso poder. És do rei de Portugal!” Salvé, brilhante heroína de Melgaço! A Pátria agradecida te cobre de bençãos e gloriosa memória!
Durante a guerra napoleónica, não menos digna foi a atitude de Melgaço. Esta foi a primeira praça de armas que sacudiu a jugo do odioso Átila Moderno. Foi dali que partiu o primeiro grito de libertação, e de lá também se levantou a famosa pleiade de valentes, que pondo à sua frente o general Sepúlveda, tão nobremente contribuíram para o resultado da luta. (...) Finalmente, não é a vila de Melgaço rica de pergaminhos artísticos, de que tantas outras povoações se envaidecem, porém a sua carreira histórica dá-lhe foros de ilustre. E os castelhano que com ela defrontar há-de compreender que ali naquele pedaço de terreno frigidíssimo, rude, mal agradecido aos labores do proletário; que ali, sob aquele céu, ora de um azul espelhado e frio como uma lámina de aço polido, ora nevoento e opaco como uma desgraça latente, há corações que abrigam o fogo sagrado dos mais nobiliantes sentimentos.

E poderá pensar que nas veias dos filhos de Melgaço corre um sangue tão puramente português como aquele que gravou na lusitana História. Quando uma povoação tem tão heróicos antecedentes, pode com altivez medir-se em glórias com a mais opulenta cidade!" (Extraído de: Archivo historico: narrativa da fundação das cidades e villas do reino, seus brazões d'armas, etc. (1890), 2ª Série, Typ. Lealdade, Lisboa.)

sexta-feira, 6 de maio de 2016

Melgaço: Regresso às suas origens

Vila de Melgaço há cerca de 500 anos
Numa publicação de 1890 (Archivo Histórico de Portugal) encontramos um texto que faz referência às origens muito antigas e nebulosas da vila de Melgaço. "Fica esta vila na província do Minho, e pertence ao arcebispo de Braga. É praça de guerra, cabeça de comarca e dista 430 kms ao norte de Lisboa e 72 ao noroeste de Braga. A origem de Melgaço perde-se na penumbra da História. Sabe-se que é povoação antiquíssima mas ignora-se quando e por quem foi fundada. Querem uns que a sua fundação fosse devida aos lusitanos, outros que ela fosse obra dos romanos. Não há vestígios de espécie alguma que dêem qualquer ideia do que foi esta povoação na sua primeira idade. Nenhum monumento, nenhuma revelação arquitetónica tem aparecido a fazer luz nesta obscuridade de origem. Que existia no tempo da dominação árabe é incontestável, porém já a este tempo era Melgaço antiquíssima povoação, visto ter D. Afonso Henriques encontrado ali uma grande fortaleza inteiramente arruinada.
Era este castelo denominado castelo do Minho, e foi com certeza construído pelos árabes. Em volta dele apinhavam-se alguns casebres, talvez construídos com o fim de acolherem os seus habitantes à proteção do forte, pois que naqueles tempos não havia segurança longe destes colossos de pedra, que continham em respeito os aventureiros. Qual a importância que tivesse esta vila não é dado. No entanto, o facto de nela terem os árabes edificado uma fortaleza, prova que não era destituída de consideração dos seus possuidores.
No tempo de D. Afonso Henriques, achava-se, porém em míseras circunstâncias, e abandonada pelos seus habitantes. Não são também conhecidas as razões que levaram os mouros a esta migração. Talvez possa explicar-se o facto pela guerrilha acérrima que os cristãos lhes moviam. O audacioso e aguerrido filho do conde D. Henrique, encontrando a terra deserta, mandou-a povoar por cristãos e reedificar-lhe o castelo em 1170.
Em 1197, o Prior de frades crúzios, D. Pedro Pires, mandou à sua custa edificar a fortaleza e a torre. Era este Prior muito abastado de fortuna e dedicado ao engrandecimento do país. O mosteiro a que pertencia era o de Longos Vales. Em 21 de Julho de 1181 deu D. Afonso Henriques o primeiro foral a Melgaço e fez doação da aldeia de Chaviães aos seus moradores."
Tal como as origens desta terra, o topónimo Melgaço anda envolto na bruma da incerteza e deu origem a opiniões contraditórias, absurdas e risíveis, com aceitação de alguns, por entre álgidas cintilações celestes. Trago em meu socorro os grandes mestres de olho de lince para a sapiência toponímica, sem arranjar pretexto para criticar desfavoravelmente esta ou aquela alegação.
José Pedro Machado desembaraça o escorregadio assunto ao sentenciá-lo como de «origem obscura», aventando, contudo, a suposição de provir do latino mellicaceus, e este derivado de mellicus, não afirmava com certa certeza se para significar mel ou melga.
Já José Leite de Vasconcelos dedicou uma escassíssima penada à matéria, em nota de rodapé para aludir a um eventual antropónimo galaico, embora não de forma convincente ou definitiva: «Melgaço parece relacionar-se com o nome de homem Melgaecus, que se lê em inscrições romanas do Minho; o étimo seria Melgaceus igual a Mel-aceus».
Armando de Almeida Fernandes, vai vai na linha de um «nome de raiz pré-romana» melg-, com os sufixos equivalentes –az–azo–aço, tendo em conta a documentação do século XII, onde o burgo aparece grafado com as formas «villa de Melgazo» (1170, 1173) ou «eclesia de Melgaz» (1185). A tal raiz pré-romana melg-, sobrevinda «talvez de “mel” indo-europeu», designa «rocha ou altura».
Por sua vez Joaquim da Silveira defende outra justificação, para ele o «étimo não oferece dúvida», na medida em que Melgaço procede de «melga nome de planta», sendo que «melga é nome comum de uma planta forragínea» conhecida por medicagoalfafa ou luzerna. E, anotamos nós, o vocábulo tem origem no latim vulgar melica.
Na recente opinião de Batalha Gouveia, em abono da sua tese, o topónimo estaria ligado aos vocábulos celto-bretão “mael”«colina», e “cath”«guerreiro», de maneira que Melgaço seria, assim a modos, a “Colina do Guerreiro”.
Longe de cogitar algo conclusivo, o presente artiguelho tem tão-só a finalidade de recensão crítica, apreciar o estado geral do geotopónimo em causa e alinhavar algumas linhas sem fazer uso da luz clara das trevas. A explicação é deveras uma batalha difícil.
Estaremos na presença de “melga” – não, não é o insecto outra vez –, voz aferética de amelga, oriunda provavelmente do celta ambelica, e este composto do préverbo indo-europeu ambi-, que traduz «ao redor». Em tempos antiquíssimos o nome amelga designava «uma facha de terreno que o lavrador assinala para salpicar as sementes com igualdade e proporção».
Na Península Ibérica a geografia mostra, a par da povoação minhota, a existência de outra Melgaço, um mero lugarejo em Alcobaça, uma herdade Melgares no Alentejo, Melgaz (Alvaiázere), e diversas terriolas em Espanha, MelgazaMelgueiras (Galiza), Melgar (Burgos, Zamora, Palencia, Toledo, León e Valhadolid) e Melgares.
Note-se que nenhuma linha das citadas aparece claramente como aquela que claramente explica a origem do nome da nossa terra... .


Informações recolhidas em:
Archivo historico: narrativa da fundação das cidades e villas do reino, seus brazões d'armas, etc. (1890), 2ª Série, Typ. Lealdade, Lisboa.
- José Pedro Machado, Dicionário Onomástico Etimológico da Língua Portuguesa, II vol., Editorial Confluência, Lisboa, 1984, p. 974.
- José Leite de Vasconcelos, Revista Lusitana, III volume, p. 152.
- Almeida Fernandes, Toponímia Portuguesa: Exame a Um Dicionário, Arouca, 1999, p.420.
- Joaquim da Silveira, Toponímia Portuguesa (Esboços) – V, in Revista Lusitana, vol. XVII, Livraria Clássica Editora, Lisboa, 1914, p. 118.
- A luzerna é o nome vulgar da Medicago Sativa, erva leguminosa perene da subfamília das papilionadas, com elevado valor nutritivo para produzir forragem para os animais.
- Batalha Gouveia, A Origem dos Nomes – Melgaço, in NOTÍCIAS DE COURA, n.º 152, de 17 de Novembro de 2009, p. 19.
- Pierre David, Études Historiques sur le Galice et Portugal du VI.e XII.e Siècle, Livraria Portugália, Lisboa, 1947.

- Blogue "Escavar em Ruínas". 

sexta-feira, 29 de abril de 2016

Alarme em Melgaço (1911)

Praça da República, na vila de Melgaço na época
Após a implantação da República a 5 de Outubro de 1910 e a queda da Monarquia, esperavam-se tempos de paz social e recuperação económica. Contudo, assim não aconteceu. A somar à débil situação económica, o país encontrava-se à beira de uma guerra civil. Os apoiantes do regime monárquico fogem para o norte, especialmente para o Minho e Trás-os-Montes, e daí para a Galiza. Havia rumores de que pelas fronteiras do minhotas e transmontanas, iriam voltar a entrar milhares de combatentes monárquicos. Fala-se que junto à raia seca de Melgaço estaria um número significativo de soldados para entrar em território nacional. No diário espanhol ABC, na edição de 27 de Outubro de 1911, dá-se conta de que em Melgaço se avistaram uns estranhos sinais durante várias noites vindos de terras galegas. A notícia diz-nos que “Un periódico dice que enfrente de Monzón y Melgazo vense, hace ya algunas noches, señales hechas con hachas encendidas. Un telegrama de Melgazo dice que un bando de conspiradores se halla en las poblaciones españolas de Padrenda e Crespos, fronterizas á San Gregorio. Témese que intenten por alli una incursion. Y en otro telegrama se dice que el grupo de conspiradores dispersos en varias poblaciones á San Gregório era de 150. Sábese que se han retirado parte á Tuy y Nieves y parte con destino desconocido. Créese que éste será el grupo mandado por Homem Christo.”
Uns dias antes, na edição de 24 de Outubro de 1911, no mesmo jornal espanhol encontramos uma notícia com o título “Alarme em Melgaço” e que nos fala de rumores de que estaria eminente uma invasão a partir de terras galegas. Na notícia, podemos ler “Comunican de Melgazo que la noche del 21 se produjo un aquella villa gran alarma, por saberse que los conspiradores, en grandes núcleos, se encontraban frente á San Gregorio, con orden de penetrar en la población á las dos de la madrugada. La Guardia Fiscal, algunos soldados y bastantes voluntarios estuvieron toda la noche de guardia en el telégrafo y en la Administración del Concejo. Todos estos preparativos ocasionaron grandes sustos.”
Contudo as autoridades portuguesas procuram acalmar a opinião pública. No mesmo diário espanhol ABC, na sua edição de 27 de Outubro de 1911, encontramos um comunicado do governo português onde se lê “Ha sido facilitada à la prensa, la siguiente nota oficiosa: Reina sosiego em las fronteras del Miño y de Trás-os-Montes. Créese que los rebeldes, que hasta ahora se han mantenido á la altura de San Gregorio, descendieron á las inmediaciones de Castro Laboreiro, en donde las sierras son muy elevadas y las marchas se hacen con gran dificuldad. Los destacamentos continúan á la expectativa y bien preparados”

O período a seguir ao 5 de Outubro de 1910 é uma época da nossa História pouco conhecida mas existem muitas estórias da nossa raia que importa divulgar...    
(Notícias extraídas do Jornal ABC, edições de 24 e 27 de Outubro de 1911)

sexta-feira, 22 de abril de 2016

Os gados de Castro Laboreiro junto à fronteira e os carabineros espanhóis (meados do século XIX)

Castro Laboreiro (Melgaço), noutros tempos
Em algumas áreas de fronteira em Castro Laboreiro, a linha que separa Portugal e Espanha em tempos não era muito clara. Por vezes, eram frequentes conflitos entre populações e autoridades dos dois lados da raia. Em meados do século XIX, encontramos registos dessas mesmas desavenças relacionadas, por exemplo com os gados no pasto.  Em missiva datada de 16 de Março de 1859, o regedor substituto de Castro Laboreiro (Melgaço), dirigida ao administrador do concelho de Melgaço, queixa-se das arbitrariedades cometidas pelas autoridades espanholas, nomeadamente diversas apreensões de gado dos castrejos por parte de carabineiros espanhóis, alegadamente, em território português: “1º Aprehensão feita dos rebanhos lanigeros e caprinos dos lugares de Adofreire e Queimadelo, e Falagueiras, e Coriscadas, e Cobelo, pelos carabineiros do ponto en Quintela de Leirado, cujos forão arrematados por seis mil e tantos reaes; 2º A tomada de humas bacas de Engracia Esteves do lugar do Rodeiro feitas pelos mesmos; de cujas tomou delas conhecimento o Juiz de Dereito da Comarca e mais o Agente do Ministerio Publico; e por enquanto não se sabe do rezultado; 3º A tomada de outras bacas de João Esteves e Pedro Esteves do lugar do Theso; 4º A tomada de outras poucas de bacas feita a Manoel Fernandes Bispo e outros do lugar de Campelo; 5º A tomada dos gados bacuns dos lugares da Seara e Padrezoiro, 6º A tomada do gado bacum dos lugares das Falagueiras e da Adofreire, 7º finalmente a prizão de hum pobre vendilhão de sal chamado Francisco Fernandes morador nesta Villa, que estava vendendo sal aos galegos na fronteira, porém dentro do nosso territorio chamado o sitio da Senhora da Ana con duas cabalgaduras foi também arrestado para a Cadeia de Ourense, aonde segundo me consta tem de estar tres meses, é quanto tenho a dizer sobre o objecto de se trata.” Nessa mesma altura, encontramos num outro documento mais queixas de abusos alegadamente cometidos por carabineiros espanhóis junto da fronteira, em Melgaço,  feitas ao presidente do Conselho de Ministros e Ministro dos Negócios Estrangeiros, em 18 de Novembro de 1859: “Contaram-me ali, que en certa occasião en que os referidos carabineiros haviam entrado no territorio portuguez no termo de Castro Leboreiro, e aprehendido algumas cabeças de gados dos lavradores que andavão pastando naquellas serras, representando a autoridade portugueza a hespanhola, foram requezitadas algumas testemunhas portuguezas, as quais hindo a Orense, forão lá mandadas encarceirar, e ainda en cima multadas!! V. Exª sabe quanto o espírito de nacionalidade pode influir nas decisões de pleitos, principalmente tratando-se de factos passados en lugares ermos, quando são attendidos como partes dos próprios autores dos factos de que há a queixa.”  (Documentos citados em GODINHO, Paula (2008) - Oir o galo cantar dúas veces)

domingo, 17 de abril de 2016

Agosto de 1919: Pancadaria entre os de Chaviães e os de Paços (Melgaço)

Capela da Senhora de Lourdes (Paços-Melgaço)
Um dos blogues que costumo ler com assiduidade é o “Melgaço, Minha Terra” da autoria do ilustre Joaquim Rocha que pode ler em http://melgacominhaterra.blogspot.pt/  Há dias, li aqui um artigo que me fez recordar as rivalidades entre a malta das diversas freguesias deste concelho e quando inclusivamente se pegavam à pancada... O texto reproduz um artigo de jornal de Agosto de 1919 e centra-se na rivalidade entre a malta de Paços e Chaviães nas festas e romarias... Ora leia: “Lê-se no Jornal de Melgaço n.º 1257, de 3/8/1919: «Está em moda, nas romarias, à tarde ou à noite, haver grossa bordoada. Em Pomares (lugar da freguesia de Paderne), quando no dia 25 se realizava a festividade em honra de São Tiago (Santo Iago), foi o que se viu. No dia 27, quando em Paços se realizava a festividade em honra de Santa Ana, também não faltou a traulitada entre a rapaziada de Paços e a de Chaviães. Que ela se desse em Pomares, quando se festejava o São Tiago, admitimos, visto tratar-se de um herói na traulitada aos moiros; mas tratando-se da avó de Jesus, que decerto devia ser toda bondosa, parece que não fica bem. Mas, como os desordeiros acham sempre bem, toda a vez que podem pregar a sua traulitada, à tarde, pouco depois de recolher a procissão, houve alguns socos, misturados com bengaladas, o que deu em resultado alguns dos de Paços virem até ao lugar do Esporão onde perguntaram aos de Chaviães se queriam guerra ou harmonia. E como os de Chaviães respondessem que se estavam ali era para bater, e como logo em seguida fizessem com uma traulitada baixar ao chão o Ricardo Alves, de Paços, os companheiros deste desafrontam-no, fazendo também ir a terra uns quatro ou cinco de Chaviães. Não podemos de forma alguma elogiar tais proezas, mas se temos de censurar estas, como não devemos classificar o facto de os “valentes” de Chaviães, depois desse dia, baterem em qualquer pessoa que à Portela do Couto passasse, pelo simples facto de ser de Paços? Desconhecemos as razões anteriores que naquele dia os levaram a vias de facto, não podendo, por isso, avaliar bem a responsabilidade de cada grupo, mas o que toda a gente, desconhecendo embora essas razões e até esses factos, tem de censurar com toda a energia dos seus nervos, é o facto de certos “valentes” da Portela do Couto baterem há dias numa mulher de Sá, conhecida por Maria do Romão. Essa mulher deve ter 60 anos de idade aproximadamente, é viúva e doente, e vive distante um único filho que tem. Nada mais julgo necessário para aquela mulher ser digna de todo o respeito; mas os “valentes” da Portela não o entenderam assim. Saem à estrada, onde lhe perguntam de onde é, e – como ela dissesse que era de Paços – dão-lhe logo duas bofetadas. Por acaso será crime o ser natural de Paços porque os desta freguesia bateram nos de Chaviães? Mais juízo, ó “valentes” da Portela, pois do contrário teremos de chamar a atenção da digna autoridade administrativa para as vossas proezas, mandando-vos chamar a capítulo!»   (Extraído de http://melgacominhaterra.blogspot.pt/)