sexta-feira, 23 de setembro de 2016

Os milagres da Senhora da Orada contados há 300 anos

Capela da Senhora da Orada
Um livro publicado há cerca de 300 anos fala-nos dos milagres da Senhora da Orada num tempo em que à sua capela em Melgaço acorriam muitos peregrinos para a sua romaria. Ora leia: “Um tiro de mosquete pouco mais ou menos de distância da Praça de Melgaço se vê situado o Santuário e Casa de Nossa Senhora da Orada. Foi edificada sobre o mais alto de um monte eminente ao rio Minho que lhe fica da parte do norte, em igual distância do arrabalde da dita praça e vila de Melgaço de onde vem uma estrada pública que vai para o Reino de Galiza e Castela que passa junto ao átrio da capela. E desta até à vila se vê a estrada povoada e pomares, que tudo suaviza e recreia muito a vista a todos os que passam e também aos devotos da Senhora da Orada quando a vão buscar e venerar, tudo isto é um passeio.
É este templo de excelente estrutura, porque é fabricado de boa cantaria e é da jurisdição e administração dos Monges de Santa Maria de Fiães. Porque dele lhe fez doação El-Rei D. Sancho I deste reino, como coisa sua, pelo ter herdado de seu pai, o rei D. Afonso Henriques, que foi o que o reedificou depois da restauração de Espanha. De onde se colhe, que houve um templo mais antigo do que este, pois este foi reedificado sem dúvida ou porque o primeiro ameaçava ruína, ou estava já arruinado. Tudo isto consta de uma escritura de doação feita pelo referido rei D. Sancho em Santarém aos 3 dos idos de Setembro do anos de 1207 que assinou o mesmo rei com todos os seus filhos e prelados do reino que ali se achavam como era costume naqueles tempos. Esta escritura está no Livro das Datas do mesmo Mosteiro de Fiães o qual se conserva no cartório do referido mosteiro e assim se verifica ser este templo da Senhora da Orada antiquíssimo, como também o título da Senhora. Também daqui se colhe a particular devoção dos reis, fundadores deste reino. Como foi informado o padre António Carvalho da Costa, em dizer que este templo da Senhora da Orada era da Condessa Fronilla. A Quinta de Cavaleiros podia ser sua e fazer dela doação ao Convento de Fiães no ano de 1166 mas a Casa da Senhora da Orada não. !
A imagem da Senhora antiga com o decurso dos anos se desfez e a que existe é muito devota. É de perfeitíssima escultura, tem ao Menino Deus sobre o braço esquerdo e tem cinco palmos de estatura. É de madeira com as roupas estofadas de ouro. É muito milagrosa e como tal é buscada e invocada da devoção dos fiéis, os quais por sua intercessão, alcançam de seu Santíssimo Filho, o que justamente pretendem. A este santuário, desde o dia da ascensão do Senhor até à festa do Espírito Santo, vão em romaria as mães das freguesias da vila de Monção e do seu termo, a oferecer o resíduo do Círio Pascal e vai acompanhar a procissão ao menos uma pessoa de cada paróquia, com os seus párocos e isto por voto que antigamente fizeram em tempo de uma grande peste, de que ficou preservada a mesma vila e as freguesias do seu termo, as quais fizeram o referido voto e também muitas freguesias do termo de Valadares e todas as do termo de Melgaço. As gentes vão em procissão à Senhora da Orada e no mesmo tempo, umas por devoção e muitas por voto, com clamores e procissão no mesmo santuário, para implorar da Senhora os favores do Céu. E também em tempo que se necessita de sol, ou de chuva, vão muitas freguesias em procissão com ladainhas a pedir à Senhora os seus favores. O que com evidência experimentam, porque esta misericordiosa Senhora lhes alcança logo os bons despachos de tudo o que pedem.
É tradição antiga, que por favor e intercessão desta milagrosa Senhora se livraram muitos cativos, que estavam em prisões em terras de Mouros e que milagrosamente ou por ministério dos Anjos, apareceram às portas do templo da Senhora da Orada com os grilhões e correntes com que estavam presos. Os quais invocando o favor da Senhora da Orada, ela compadecida do seu trabalho e os aliviava e trazia à sua Casa. Infinitos são os milagres que obra e tem obrado a Senhora, e o querer fazer deles relação, não haveria papel que os comprendesse.
O autor da Corografia, o Padre Carvalho, também confirma a grande devoção de todos aqueles povos para com esta Senhora mas queixa-se de que a devoção daqueles Monges de Fiães já hoje estava muito tíbia, tendo antigamente muito fervorosa e que esta indevoção se ia já pegando muito. Porque não só já hoje a gente é menos, mas a Casa da Senhora se via menos asseada e que temia que viesse a padecer ruína. Porque como os arcebispos primazes não se podem ali intrometer, também os não podem obrigar a que reparem a Casa da Senhora da Orada para que se não arruine de todo e extinga totalmente aquela grande e antiga devoção que todos aqueles povos tinham com aquela milagrosa e prodigiosa imagem da Senhora da Orada. Nem eu posso crer de religiosos tão solícitos da sua religião tenham tão grande descuido em uma matéria que merece tanto cuidado e atenção."


Extraído de: SANTA MARIA, Frei Agostinho de (1712) – Santuário Mariano e História das imagens milagrosas de Nossa Senhora. Tomo IV; Oficinas de António Pedrozo Galram; Lisboa.

sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Uma visita à romaria da Nossa Senhora da Peneda de 1912


Vista para o Santuário da Senhora da Peneda
Na revista "Ilustração Portugueza", na sua edição de 12 de Outubro de 1912, encontramos uma reportagem intitulada "No Minho Pitoresco - A célebre romaria da Peneda". Na mesma, os autores contam-nos uma viagem que eles fizeram àquela que ainda hoje é uma das maiores romarias do Minho. Partilho aqui o conteúdo da dita reportagem:


"NO MINHO PITORESCO - A CÉLEBRE ROMARIA DA PENEDA
Depois de visitar os principais centros do país, o sociólogo francês Poinsard escreveu um livro intitulado “Le Portugal Inconnu” que desvenda à Europa culta aquilo que nos poucos dias da sua permanência entre nós poderia observar o espírito penetrante dum estrangeiro. Poinsard ficou conhecendo alguma coisa do Portugal urbano ou citadino, mas que diria ele se jornadeasse pelas serranias de Soajo, em longas caminhadas, e, ávido de sensações novas, fosse presenciar no Santuário da Peneda do Minho!
Nos subúrbios de Guimarães, S. Torcato, um dos celestes ímans milagreiros com mais créditos granjeados no espírito do povo minhoto, pela tradição de bastantes séculos, atrai anualmente ao seu templo milhares e milhares de visitantes.
E é por isso que nos dias de festa lá afluem aos terraços e espaçosas alamedas inúmeras peregrinações de devotos, na ânsia de se abeirarem daquele santo, para assim cumprirem as promessas solenemente feitas em horas de indizíveis atribulações ou nos transes dolorosos duma doença grave. Entretanto, a romaria de S. Torcato, apesar da concorrência assombrosa dos forasteiros, nada tem de característico ou peculiar, destacando-se apenas pelo grande formigueiro humano que vai procurar ali o folguedo compensador das habituais canseiras da lavoura, depois de contemplar com acafamento próprio de uma crença inveterada os restos mumificados do santo vimaranense. A Senhora da Peneda, porém, alapardada entre distanciadas montanhas, cujas cristas parecem topetar nos astros, sem proporcionar aos crentes ou aos turistas meios razoáveis de comunicação ou facilidade de transporte, indubitavelmente exerce na religiosidade do povo uma ação magnética superior à do consócio S. Torcato, arrastando por serranias inóspitas, por barrancos e despenhadeiros escabrosos, e por fraguedos de perigoso acesso, a massa anónima das aldeias galegas e minhotas. O aprazível local da romaria é defendido por um castelo natural em que as serras parecem fazer o papel de muralhas impermeáveis ao influxo osmótico da modernidade e civilizadora. É por isso que, enquanto S. Torcato, nos arredores  Guimarães, nos dá a impressão duma romaria atualizada, a Senhora da Peneda, pelo contrário, conserva como primitivas características aquelas práticas constantes dum ascetismo grosseiro, sobejamente evidenciadas nas exibições grotescas da crendice popular.
E é por isso que a Peneda, não obliterando a linha tradicional das suas usanças religiosas, se nos afigura mais interessante para quem quiser, em viagem de estudo e observação, ajuizar das antigas costumeiras litúrgicas, fossilizadas nas populações ruraes do Minho e da Galiza.
Quem decidiu o autor destas linhas a afoutar-se às contingências duma caminhada morosa e estopante para atingira a meta desejada - o santurio da Peneda - foi o incansável engenheiro agrónomo deste distrito, Sr. Conde de Bobone, que anceia conhecer “de visu” toda a área constitutiva da sua esfera de ação profissional para depois falar, com os elementos fornecidos pela observação, dos serviços agronómicos que mais convéem à região a seu cargo.
Ele, o seu amigo António Pereira da Cunha, filho e neto de dois ilustres poetas do Minho, e eu partimos desta vila dos Arcos de Valdevez, na tarde do dia 4 do mês corrente, transpondo sucessivamente as freguesias de Giela, Azere, Grade e Cabana Maior, e, depois de vaguearmos, incertos, no Alto do Mesio, já com os membros lassos e o estômago a recordar a fábula de Menenu Agripa, fomos saborear a conhecida hospitalidade do abade de Soajo, hospitalidade que previamente haviarnos impetrado. Ao entrarmos no povoado principal da freguesia, vimos com surpresa extinguirem-se as luzernas que mais de longe se divisavam nos rústicos casebres. Com uma noite caliginosa, a percorrer lobregos caminhos velhos, sem a cooperação de um guia experimentado e sem uma frouxa lanterna que rasgasse uma linha de luz na espessa escuridão noturna, talvez fosse impossível ultimar o itinerário até à residência paroquial de Soajo se, depois de várias chamadas infrutíferas à porta duma casa, não obtivéssemos a ansiada resposta.
- Ó mulherzinha, venha cá ! Olhe que está aqui o administrador dos Arcos.
A portada duma janela abriu-se, enfim, e uma soajeira assomou então a atender a interpelação dos viandantes.
- Então porque foi que vossemecês apagaram a luz quando nós nos aproximávamos? - inquiriu curioso o sr. conde de Bobone.
- Nós -, tartamudeou indecisa a mulherzinha,  - temos ouvido dizer que anda por aí tudo revolvido...
Feita esta bronca alusão à conspirata fronteiriça e cedidas umas lumieiras de colmaço - improvisadas fachos a produzirem mais incomodativo fumo que benéfica luz - chegámos à residência.
Finem dedit Deus magnis itineribus ab illo die! A afabilidade do polido pároco de Soajo e uma ceia reparadora, naquelas alturas, indemnizaram os caminheiros dos dispêndios de energia que uma viagem em estafados rocinantes implacavelmente exigia. Depois, custa a crer que entre serras, onde a viação não faz progressos, os tenha feito entretanto a culinária, proporcionando as delícias duma bem servida mesa a esfomeados adventícios. Aquela residência foi também a nossa pousada noturna, onde o sono reconfortante nos insuflou novos alentos para a caminhada do dia imediato. Com efeito, na manhã seguinte, orientados por melhores guias, com o abade e regedor de Soajo a desbravar caminhos, prosseguimos na continuação do nosso longo itinerário, cujo percurso, sem espalhafatosas gloriolas, chega a ser um ato heróico de resistência desportiva. Ao atravessarmos a serrania, o Sr. Conde de Bobone preconizava a necessidade imediata de se submeterem ao regime florestal os montes circunjacentes, arborizando-os para futura riqueza daquela região acidentada.
- Isso daria lugar a um levantamento do povo, - atalhou o regedor do Soajo convicto.
- Onde é que nós haviamos de ir buscar o pasto para o gado e o roço para o adubo das terras?
Então o Sr. Conde de Bobone, mostrando mais uma vez ter sido na agronomia que a sua inteligência especializou os seus conhecimentos científicos, começou a dizer-lhe que a arborização se faria parcialmente, por lotes de terreno, a fim de que a freguesia se não ressentisse da falta de montados, durante o período de proteção às plantas.
Passada a capela do Senhora da paz e o lugar de Adrão, começamos a escalar o Alto do Miradouro. Como eu recordei então a frase de Aníbal, quando ele exortava, ao atravessar os Alpes, as tropas cartaginesas:
- Lembrai-vos, soldados, que galgando estas cumeadas alpinas, vós escalais os muros da própria Roma!
E nós também prosseguimos, afoitos. Já da parte superior de uma encosta se defrontava, perto, a povoação de Olelas, na Galiza, quando o abade nos referiu:
-Aqui, estiveram descansando, extenuados pela fadiga, aqueles doze conspiradores que fugiram de Valença, sob o comando do Marujinho... E acolá, junto daquela cruz, já se lobriga, no fundo, o santuário da Peneda.
Com efeito, ao longe, na garganta da serra, alvejava o anelado término da jornada.
Mas que interminável peregrinação pelas montanhas. De Soajo ao Senhor da Paz, do Senhor da Paz a Adrão, de Adrão a Tibo, de Tibo ao Baleiral... sempre a nossa caravana a quilometrar distancias em alimarias de passo lento, o único compatível com a escabrosidade daqueles caminhos, apenas trilhados nas outras épocas do ano por bestas de carga e respetivos almocreves. Todavia, recordando mais tarde estas dificuldades de trajeto por invias fragas, forsam et hoec otim meminissa juvabil, como dizia Eneias, segundo a passagem de Virgílio.
Depois do Baleiral, em três quartos de hora de caminho, atingimos a meta desejada. Até que enfim! Entrámos ufanos num dos espaçosos largos da Peneda. O edifício da filial do Grande Hotel dos Arcos, onde se está confortavelmente, dá-nos a impressão de que o progresso para ali só poderia ser remetido... em aeroplanos.
Entretanto, a multidão apinha-se, a música toca com retumbância, os caixões de “pseudo defuntos” desfilam aos nossos olhos curiosos, outros penitentes rastejam em ascéticas jenuflexões, e por fim a procissão do Terço, levantando o estrondoso clamor dos fieis, evoca a Lourdes do cosmopolitismo católico. Falta aqui um Lasserre para fazer a história da Senhora da Peneda e um Zola para fazer a descrição da “gritaria” fervorosa dos peregrinos. Quando os avanços da meteorologia permitirem o estudo completo das correntes atmosféricas e quando os aeroplanos sulcarem com segurança o oceano aéreo, a Senhora da Peneda será visitada pela gente de Lisboa e de Madrid.
Afora o templo, a Senhora possui uma loja comercial que está aberta durante os dias festivos. Esse estabelecimento encontra-se bem provido de caixões, mortalhas, rosários, estampas e medalhinhas. E para haver a equiponderação dos tributos, lá está uma balança decimal onde os miraculados se costumam ir pesar a cera e a cobre. Só falta à Senhora da Peneda um curral para nele meter as vacas e as juntas de bois que o povo de Hespanha e de Portugal lhe costuma levar de promessas. Estava eu a pensar nestas coisas, verificando que cada um pagava o milagre na proporção do peso do seu corpo, quando um padre coxo, português, se abeirou dum médico galego dirigindo-se-lhe em hespanhol. O Hipocrates da Galiza olhou, sobranceiro, para o interlocutor e respondeu, empertigado:
- Hable usted en su lengua que ya no hace poco, pues mi idioma no es para todos los hombres.
- Desculpe, - replicou o padre. Eu sou realmente um bruto por ter para consigo a deferência de lhe falar na própria língua. Mas você é outro bruto por corresponder a uma amabilidade minha com uma grosseria sua. Somos, portanto, dois brutos.
- Bien contestado,  conveio o médico de Entrimo.
E a situação explicava-se explicava-se com bom senso e com bom humor, sem que o génio hespanhol e português tivessem de derimir pleitos no campo da batalha.

Arcos de Val-de-Vez, Setembro de 1912."


Peneda, 1912

Romaria da Peneda, 1912

Romaria da Peneda, 1912

Romaria da Peneda, 1912
Romaria da Peneda, 1912

Romaria da Peneda, 1912


Extraído de: Reportagem "No Minho Pitoresco - A Célebre romaria da Peneda". In: Ilustração Portugueza", Edição de 14 de Outubro de 1912, Nº 347.

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

Uma visita a Melgaço de há 100 anos

Melgaço na época
Recuamos mais de 100 anos e visitamos Melgaço dessa época. Num dicionário enciclopédico de 1909, o autor apresenta-nos a nossa terra no início do século passado. Inclusivamente encontrámos dados relativos ao número de habitantes por freguesia e por sexo à data.
Nessa obra, a nossa terra é descrita assim: “MELGAÇO - Vila da província do Minho, sede de concelho, distrito de Vianna do Castello, arcebispado de Braga, relação do Porto. Tem uma só freguezia, Santa Maria da Porta. Está situada num alto, na margem esquerda do rio Minho, que a separa da Galliza, que lhe fica mesmo em frente. A Mitra e a Casa de Bragança apresentavam alternativamente o abbade que tinha 4000 réis de rendimento.
Melgaço é povoação muito antiga, fundada pelos antigos lusitanos ou pelos romanos, mas ignora-se quando foi fundada e o seu nome primitivo. O que se sabe, com certeza, é que os arabes tinham aqui uma grande fortaleza, chamada Castello do Minho, que já no tempo do conde D. Henrique estava arruinada. D. Affonso Henriques achou a povoação deserta, por ter sido abandonada pelos árabes, e mandou-a povoar em 1170, reedificando-lhe o castello. Outra versão diz que numa carta de couto dada em 1197 ao mosteiro de Longos Vales, se declara ter sido a torre e a fortaleza mandadas edificar por D. Pedro Pires, prior do referido mosteiro, e à sua custa, e D. Affonso Henriques deu lhe o primeiro foral em 21 de Julho de 1181, doando aos seus moradores a aldeia de Chaviães. Este foral foi confirmado em Agosto de 1219 por D. Affonso II, dizendo que a povoação podia ter 350 vizinhos, e que escolhessem alcaide-mór, que sendo benemérito, elle o confirmaria. D. Affonso III deu-lhe outro foral, em Braga, a 29 de Abril de 1258, que depois confirmou, em Guimarães, a 9 de Fevereiro de 1261. El-Rei D. Manuel I lhe  deu foral novo, em Lisboa, a 3 de Novembro de 1513. El-Rei D. Diniz enobreceu Melgaço com a sua cinta de muralhas, em 1289. Estas muralhas tinham apenas 2 metros de altura, e a sua configuração é quase quadrada. Outros escritores dizem que foi D. Sancho I quem mandou construir o castello e as muralhas de Melgaço, que D. Sancho II concedeu grandes privilégios à villa e que D. Affonso III os confirmou. Nas repetidas guerras de Portugal contra Castella, Melgaço e o seu concelho deram soldados intrépidos e destemidos, que muito se distinguiram nos combates e batalhas.
Nas guerras de D. João I de Portugal contra D. João I de Castella, e contra seu filho, Henrique III, 1384 a 1393, se tornou célebre Ignez Negra, mulher natural de Melgaço. Os castelhanos haviam-se apoderado da maior parte das povoações fortificadas do Alto Minho, mas os portuguezes tinham obrigado a capitular o forte castello de Neiva. Vianna, de que era governador o castelhano Vasco Lourenço de Lira, tinha sacudido o jugo hespanhol pela bravura d’um escudeiro, appelidado de “o Frisus” que, pondo-se à frente do povo, atacou o castello, fazendo prisioneiro toda a guarnição inimiga, mas ficando o valoroso escudeiro mortalmente ferido. Ponte do Lima foi resgatada pelo valor de alguns dos seus naturais, em prêmio do que, o rei lhe mandou collocar bustos sobre as vergas das portas. Monção, V. N. de Cerveira e Caminha, entregaram-se sem custo. Finalmente, em toda a província do Minho, só Melgaço estava sujeito a Castella.
Era seu governador ou alcaide-mór Álvaro Paes de Sotto Maior, castelhano, e tendo de guarnição 300 infantes e 300 cavallos, porfiava na resistência. D. João I, que estava em Braga, onde reunira cortes, impacientou-se com a resistência da praça, e partiu para assumir a chefia das tropas que tinha mandado a pôr-lhe cerco. Tendo passado dez dias em que se haviam dado apenas umas escaramuças que nada decidiam, o monarca mandou fabricar um castelo de madeira, que ficasse a cavaleiro das muralhas, cuja construcção levou vinte dias. Os cercados, receando o assalto, deram signal de armisticio, e João Fernandes Pacheco foi mandado propôr a rendição da praça, mas Álvaro Paes exigiu taes condições, que nada se conseguiu. O rei mandou activar os preparativos do assalto, jurando que elle próprio o commandaria. D. João I havia casado pouco tempo antes, em 1387, com D. Filippa de Lencastre, e a rainha estava em Monsão com as suas damas, acompanhada pelo Dr. João das Regras e por João Affonso de Santarém, vindo do Porto ali visitar seu marido, e tencionando ir residir no convento de Fiães enquanto durasse o cerco da praça. Contam as crónicas que dentro dos muros de Melgaço havia uma mulher intrépida, partidária dos castelhanos, conhecida pela Arrenegada, por ter renegado a sua pátria, pois era natural de Melgaço. Sabendo que no arraial dos portuguezes estava uma sua patricia, ousada e valorosa como ella, chamada Ignez Negra, mandou-a desafiar a um combate singular, que foi imediatamente aceite. Era o dia 3 de Março de 1388. Ignez dirigiu-se logo para o ponto designado, que era a meia distância do arraial e da vila, e já lá estava a Arrenegada. O combate começou encarniçado, terrível e desesperado, ferindo-se ambas com as mãos, unhas e dentes, depois de partidas as armas de que vieram munidas. Duarte Nunes do Leão, na Chrónica de D. João I, não diz a qualidade das armas. A agressora ficou vencida, tendo de fugir para dentro da villa, ferida e quasi sem cabello, levando nos focinhos muitas nódoas de punhadas da de fora, que ficou victoriosa. No arraial portuguez foi ruidosamente celebrada a victória de Ignez Negra, e no dia seguinte, Melgaço caia no poder do mestre de Aviz. A intrépida mulher estava no alto da plataforma, onde o pendão das quinas ondeava ovante, no próprio mastro em que na véspera ainda se ostentava orgulhosa a bandeira castelhana, e dizia no seu transporte de alegria para os besteiros que a cercavam: «Mas vencemos-te! Tornaste ao nosso poder! És do rei de Portugal!»
Em 1807, quando se deu a invasão franceza, Melgaço foi a primeira praça de guerra que expulsou os soldados de Napoleão, aclamando o príncipe regente D. João e a Liberdade, a 11 de junho de 1808. Bragança seguiu-lhe o exemplo, fazendo a aclamação a 11, pondo-se à frente dos restauradores o general Sepúlveda. Instantaneamente, a revolução se propagou pelas províncias do norte, e o Porto fez a sua aclamação a 19; o Algarve e o Alentejo deram o grito da Liberdade no dia 20, tudo do referido mês de Junho. A villa pertenceu à Casa de Bragança, e todos os oflicios eram dados pelos duques. Conserva ainda parte do seu antigo aspecto.
A cinta de muralhas que protegia a villa tornou-se por fim um obstáculo à sua expansão, e apearam-na por isso, abrindo novas ruas e levantando novas edificações. Como que se divide assim em duas partes, chamadas fora da villa e dentro da villa. A primeira tem boas construcções modernas, airosa e desafogada, sendo a segunda sombria e pesada, ainda com o característico das nossas antigas povoações. A igreja matriz de Melgaço é simples e duma só nave.
Próximo do convento dos religiosos da ordem Terceira de S. Francisco, que pertence hoje à Misericórdia, e numa elevação, vê-se a capella da Senhora da Pastoriza. O seu altar mór é de talha antiga. A 1 quilómetro da praça, está o santuário de Nossa Senhora da Orada, edificado sobre o cume dum monte. Desde aquella egreja até á villa vê-se a estrada povoada, duma e doutra parte, de casas, hortas, prados, fontes e pomares, que faz da estrada um bonito passeio. O templo é de boa cantaria. Foi até 1831 da jurisdicção dos monges do convento de Santa Maria de Fiães, por doação de D. Sancho I, que o havia herdado de seu pai. Este templo é muito antigo, e ignora-se a data da fundação. Dizem que já existia no tempo dos godos. D. Affonso Henriques, achando-o em ruínas, o mandou reedificar pelos annos de 1170, como consta duma escriptura de doação, feita por D. Sancho I, em Santarém, a 11 de Setembro de 1207, assignada pelo rei, todos os seus filhos e prelados do reino. A imagem de Nossa Senhora da Orada é de muita devoção dos povos destas localidades, e desde a quinta feira
da Ascenção, até à festa do Espirito Santo, ainda hoje ali vão de romaria a maior parte das freguezias dos concelhos de Melgaço, Monsão e de Valladares, oferecer à Senhora o resíduo do círio paschal, levando os seus respectivos párochos e ao menos uma pessoa de cada casa. É o cumprimento dum antigo voto, feito por ocasião duma grande peste, de cujo flagello foram estas terras preservadas, tendo sofrido muito as outras.
Ainda hoje se fazem procissões de penitência com enorme cortejo. Perto desta egreja, havia uma propriedade chamada Quinta da Orada, que a condessa D. Frouilla deu ao mosteiro de Fiães, assim como a Quinta de Cavalleiros, na freguesias de Rouças, deste concelho, em 16 de Dezembro de 1204. Melgaço tem escolas para ambos os sexos, estação telegráfica e postal com serviço de emissão e pagamento de valles do correio e telegraphicos, cobrança de recibos, letras e obrigações, e serviço de encommendas, permutando malas com a R. A. M.; Misericórdia, hospital, advogados, notário, médicos, pharmacias, agencias bancarias e das companhias de seguros Previdência, Tagus, e da Equitativa dos Estados Unidos do Brazil, agência de vapores, casas de pasto e de bebidas, vice-consul hespanhol e do Brazil, a Sociedade Recreio Melgacense, feiras mensais nos dias 9 e 14, etc. Tem-se publicado em Melgaço os seguintes jornaes: Espada do Norte, 7 de Janeiro de 1892 que é a continuação do Melgacense, 1 de Dezembro de 1887; Jornal de Melgaço, 1 de Dezembro de 1898; em publicação, Dezembro de 1908; O Melgacense, 6 de Novembro de 1887 a 18 de Outubro de 1888; Melgacense, 16 de Julho de 1896. Do castello ou torre do relógio, ainda bem conservada exteriormente, desfructa-se um bonito ponto de vista para a maior parte do concelho e para Hespanha. No local de Borgia, da freguesia de Paderne, do concelho de Melgaço, existe a Quinta de Peso, em que há uma nascente de aguas mineraes, que são claras, transparentes, inodoras, de sabor picante e muito gazozas. As aguas do Pezo de Melgaço tornam-se notáveis por serem as que em Portugal contém maior proporção de carbonato de cal, e das que mais ácido carbónico apresentam.
São muito usadas contra as dyspepsias, lithiase biliar e diabetes. O concelho de Melgaço compõe-se de 18 freguezias com 3 776 fogos e 14 910 habitantes, sendo 6 400 do sexo masculino e 8 510 do sexo feminino, numa superfície de 22 740 hectares. As freguezias são: S. Martinho de Alvaredo, 760 habitantes: 332 do sexo masc. e 428 do fem.; Santa Maria de Castro Laboreiro, 2 019 hab.: 934 do sexo masc. e 11 116 do fem.; Santa Maria Magdalena de Chaviães, 653 hab.: 263 do sexo masc. e 390 do fem.; S. Martinho de Christoval, 755 habitantes: 290 do sexo masc. e 465 do fem; S. Thomé de Cousso, 551 hab.: 218 do sexo masc. e 333 do fem.; Santa Maria de Cubalhão, 345 hab.: 158 do sexo masc. e 187 do fem.; Santa Maria de Fiães, 783 hab.; 308 do sexo masc. e 475 do fem.; Santa Maria de Gave, 622 hab.: 260 do sexo masc. e 362 do fem.; S. João Baptista de Lamas de Mouro, 205 hab.: 63 do sexo masc. e 142 do fem.; Santa Maria da Porta, de Melgaço, 1 080 hab.: 461 do sexo masc. e 619 do fem ; Santa Maria de Paços, 667 hab.: 300 do sexo masc. e 367 do fem.; S. Salvador de Paderne, 1 908 hab.: 829 do sexo masc. e 1 079 do fem.; S. Mamede de Parada do Monte, 801 hab.: 375 do sexo masc. e 429 do fem.; S. Bartholomeu, de Penso, 1 072 hab.: 463 do sexo masc. e 609 do fem.; S. Lourenço do Prado, 530 hab: 213 do sexo masc. e 317 do fem.; S. João Baptista de Remoães, 165 hab.: 71 do sexo masc. e 91 do fem.; Santa Marinha de Rouças, 942 hab.: 414 do sexo masc. e 528 do fem.; S. Paio de Melgaço, 1 019 hab.: 449 do sexo masc. e 570 do fem.
O principal comércio do concelho é milho, feijão, vinho e presuntos.”

Extraído de:

ESTEVES PEREIRA e RODRIGUES, Guilherme (1909) - Portugal – Dicionário Histórico, Chorográphico, Biográfico, Bibliográphico, Heráldico, Numismático e Artístico. Volume IV; João Romano Torres & C.a – Editores; Lisboa.

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

A Guerra da Restauração nas fronteiras de Melgaço (Parte III)

Vista para a vila de Castro Laboreiro (Melgaço)
Nas fronteiras de Melgaço, as operações militares durante a Guerra da Restauração, fazem-se sobretudo na raia seca. O Minho constituía um importante obstáculo natural que dificultava quaisquer tipo de incursões quer para os portugueses, do lado de Melgaço, quer para os galegos, em território estrangeiro. No vale do rio Trancoso e em Castro Laboreiro foram muitas as aldeias saqueadas e incendiadas na sequência das incursões dos combatentes espanhóis. No texto de hoje, descreve-se como, durante este conflito, em 1644, os portugueses foram incendiar várias aldeias em Crespos (Padrenda - Galiza), vingando alguns ataques sofridos por parte dos espanhóis. Em resposta, estes atacam o castelo de Castro Laboreiro mas não conseguiram conquistá-lo... Todos estes relatos os encontrámos num texto da época. Ora leia: “Desejando o Conde (de Castelo Melhor) satisfazer-se deste intento do inimigo, determinou queimar-lhe o lugar de Crespos, onde ele costumava ter gente para socorrer aos mais vizinhos e encarregou disto o capitão António de Abreu para que com quinhentos infantes o fosse executar. Ajuntou-se a esta gente, vinda de outras praças de Melgaço, e como forçosamente teve de caminhar pela ribeira do Minho, o inimigo descobre-os, e apercebe-se das movimentações. Mas não obstante isto, a vinte e seis de Abril, à noite António de Abreu de Melgaço avança para terras galegas, e quando amanheceu sobre Crespos, queimou este lugar com outros sete lugares perto deste. Acudiu o inimigo com dois mil homens em boa ordem. Chegam a defrontar-se com os nossos, mas  estes puderam retirar-se com perdas de gente. E dando depois António de Abreu uma volta pela Galiza, queimou o lugar do Condado e outros seis lugares e se recolheu sem mais perdas que a de um soldado e um tambor mortos com mais cinco feridos. Ao primeiro de Maio, entrou o inimigo por nossas terras, por onde chamam a Raia Seca com cinco mil infantes e trezentos cavalos e acometeu contra o pequeno castelo de Castro Laboreiro, mas Pero de Faria, cabo de vinte e cinco soldados, que ali o assistem com alguns moradores, o rechaçou com tanto valor que o obrigou a retirar-se deixando muitos mortos e levando muitos feridos. Enfim, podendo conseguir o intento, o que viera com a mágoa da sua perda, queimou algumas palhotas dos lavradores daquele concelho, que estes são os troféus que se pode ganhar nestas entradas. Às novas destes acontecimentos, acudiram de Melgaço, o Capitão Mor D. João de Sousa e o Capitão António de Abreu que chagaram quando o inimigo ia já de retirada e o obrigaram a fazer com a maior pressa.”

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Extrato retirado de: FIGUEROA, Diogo Ferreira (1644) – Relaçam dos Gloriosos Successos de Portugal, devidas as Armas del Rey D. Joam IV, contra os castelhanos. In: Nova Grammatica Portugueza. Impresso na officina de M. C. Bock, Hamburgo, 1785.

domingo, 28 de agosto de 2016

A Guerra da Restauração nas fronteiras de Melgaço (Parte II)

S. Gregório (Cristoval - Melgaço)
(Foto em coxo-melgaco.blogspot.com)
A Guerra da Restauração (1640-1668) foi um conflito que opôs Portugal e Espanha na sequência do golpe de 1 de Dezembro de 1640 que restabeleceu o nosso país como país independente. Na fronteiras de Melgaço e áreas envolventes foram travados duros combates entre os exércitos dos dois países. Aldeias de Cristóval, Paços, Fiães ou Castro Laboreiro foram incendiadas e saqueadas retribuindo os portugueses na mesma forma em aldeias galegas. Depois das primeiras escaramuças, os espanhóis constroem uma fortificação em Padrenda sediando ali a sua Praça de Armas de forma a melhor defender a linha de fronteira da raia seca, por onde os portugueses realizaram várias incursões em território espanhol. Estes episódios são contados no livro “História do Portugal Restaurado” publicado em 1751 onde podemos ler: “O Marquês de Val-Paraíso, governador da Galiza à época, considerando a sua experiência militar e o que mais convinha à defesa da Galiza e de que podia resultar maior dano a Portugal, elegeu para Praça de Armas o lugar de Padrenda, situada entre o Porto dos Cavaleiros (Lamas de Mouro) e a Ponte das Várzeas (junto a S. Gregório), lugares por onde a nossa gente mais continuadamente costumava entrar na Galiza. Do Porto dos Cavaleiros e Ponte das Várzeas que ficavam em dois lados opostos de Padrenda em distância de légua e meia, fez levantar redutos, conforme as capacidades dos sítios e tão vizinhos que uns a outros se defendiam, animando a todos um grande forte que guarneciam 600 infantes. Para dar fim a este trabalho, se alojou o Marquês em Padrenda com seis mil infantes e 600 cavalos, entendendo que aperfeiçoada esta obra, seria fácil a segurança dos lugares que governava, e infalível a sua ruína dos que pretendiam conquistar. Dom Gastão (que comandava a tropa portuguesa neste setor), tendo aviso deste novo intento do inimigo, reconhecendo o perigo de se conseguir, se resolveu a procurar todos os caminhos de o atalhar, e usando dos meios pouco proporcionais que naquele tempo dispensavam a confusão e falta de experiência. Animou-se com a resolução, a temecidade, ainda que a todos parece o valor imprudente de querer atacar fortificações bem fabricadas e melhor guarnecidas com um trapel de gente sem forma nem obediência, com poucas munições e menos bastimentos e sem mais instrumentos de expugnação que duas ligeiras peças de artilharia. Mas como Deus quiz sempre manifestar entre os nossos a sua misericórdia, não argumentem os que sabem os preceitos da guerra, lendo esta história, a causa das nossa fortunas. Tratem só de lhe dar crédito, na fé de que em nenhum século, e de outra nação, se escreveu até este tempo história mais verdadeira,  porque sem receio, sem ódio, e sem afeição escrevo em umas partes o que vi, em outras o que observarão todos aqueles com que trato e com quem confiro todas as matérias que escrevo.
Resoluto, D. Gastão a atacar o forte de Padrenda, e os redutos sem artifício nem dissimulação, convocou a gente de toda a província. Confiava a que se havia alistado para ser paga, uns quatro mil homens. Porém na disciplina, não havia diferença alguma porque ainda que algumas companhias estavam formadas, não se tinham dividido em terços e todo o corpo junto não era mais que um tumulto de gente valorosa. A maior parte da infantaria paga foi entregue por D. Gastão à ordem de Lopo Pereira de Lima, cavaleiro da Ordem de Malta a que assistia seu irmão Diogo de Melo da mesma Religião e Capitão Mor de Barcelos, alojados ambos em Lamas de Mouro, lugar vizinho ao Porto dos Cavaleiros. Com esta notícia, apressou o inimigo o trabalho e em quatro dias reduziu a obra de defesa. D. Gastão, com outro troço, ficou alojado na Ponte das Várzeas (Cristóval) e para que o inimigo divertisse o poder que tinha junto, mandou entrar na Galiza pela Portela do Homem a Vasco de Azevedo Coutinho e por Lindoso a Manuel de Sousa de Abreu, ordenando-lhes, que segunda feira, nove de Setembro, entrassem na Galiza. No mesmo dia ao amanhecer, dividiu D. Gastão a infantaria em três troços e levantando uma plataforma, fez jogar as duas peças de artilharia que levava, contra o reduto da Ponte da Várzeas (junto a Ponte Barxas) e foram de grande efeito, recebendo o inimigo considerável dano. Os três troços, que governavam Lourenço de Morim, Sargento Mor de Caminha e os Capitães Gaspar Casado Manuel e Martim Coelho Vieira, com grande valor e pouca ordem, superando o embargo de algumas estacadas, avançaram três redutos, e entraram ao mesmo tempo, degolando os soldados que os guarneciam. Ficando aberto o caminho para Monte Redondo, que os galegos haviam reparado, se retiraram os que fugiram para este lugar que ficava vizinho. Depois de arruinados os redutos galegos, os portugueses investiram contra as trincheiras de Monte Redondo, e desemparando o inimigo, entraram no lugar e saquearam-no uma segunda vez. O mesmo fizeram a algumas aldeias que ficavam pouco distantes. Os galegos acudiram àquela parte com três mil infantes e 400 cavalos e achando a gente carregada de despojos, avançaram com resolução e os soldados da ordenança, não querendo pôr em contingência o que haviam roubado, voltaram as costas, não valendo a D. Gastão as grandes diligências que fez para os deter na Ponte das Várzeas. Os oficiais e 500 soldados que ficaram, fizeram rosto ao inimigo e valendo-lhe a aspereza do sítio, se vieram retirando pelas veredas mais estreitas, e deixando 15 soldados mortos e dez prisioneiros, conseguiram valorosamente passar a Ponte das Várzeas sem maior dano. D. Gastão estimulado pela desordem e do mau sucesso, unindo a esta gente alguma que havia detido, logo que amanheceu, tornou a passar a ponte (junto a S. Gregório) e acabou de desfazer todos os redutos e trincheiras o que se conseguiu com tanta diligência que quando os galegos, que não esperavam segunda incursão e acudiram, já os redutos estavam desfeitos. Sem receberem dano, se retiraram à sua vila os nosso soldados. Diogo de Melo e Lopo Pereira, destinados contra os redutos do Porto dos Cavaleiros, juntaram cinco mil infantes e foram alojar-se com eles à vista deste lugar. Nesse dia, apareceu um velho de 70 anos, ao qual perguntando-lhe para o que fora chamado, respondeu que para o ataque daquelas fortificações. O Mestre de Campo António Solis, cabo daquele troço, tornou a remeter o velho para os Maltezes com uma carta, em que dizia que aquele homem fora colhido, e que constando da sua confissão, que era chamado para uma empresa tão galharda, como a de investir contra aquelas fortificações, não queria que se mal lograsse por falta de um soldado de tanta importância, e acrescentava a esta zombaria outras palavras exorbitantes. Teve esta carta resposta com maiores aprobios e à segunda feira executaram os Maltezes (Cavaleiros de Malta) a ordem de investir contra o forte e outros redutos, que era o mesmo dia em que D. Gastão tinha logrado o sucesso referido. Dividindo-se a infantaria em dois troços, dos quais eram cabos os dois irmãos: ao que governava Lopo Pereira, dava apoio o seu irmão António Pereira de Lima com 80 cavalos. Marchou este troço pela parte de Alcobaça e atacou o forte e redutos do sítio da Costa. Diogo de Melo escolheu para atacar o redutos e forte da serra, a empresa mais duvidosa, por ser um sítio mais áspero, o forte maior, e os redutos melhor defendidos e ter o inimigo formado da outra parte da serra, três mil infantes e 200 cavalos para defender o assalto. Conhecendo Diogo de Melo o risco desta empresa se uniu a seus irmãos e formou um corpo de mil infantes que entregou ao Sargento Mor Simão Pita com ordem para que ataque os redutos que primeiro corriam por conta de Lopo Pereira. Feita esta divisão com 4000 infantes e 80 cavalos, deu volta Diogo de Melo ao lugar de Chão de Castro e lançando 500 mosqueteiros por cada um dos lados da serra, com a mais gente ganhou a eminência por entre nuvens de balas e valendo-se da coragem dos soldados, investiu num reduto que os galegos, sem esperar o assalto, desempararam. Favorecidos da mosquetaria dos outros redutos, se recolheram ao forte que estava no alto da serra. Com pouco mais trabalho ganhou Diogo de Melo os outros redutos e seguindo a vitória chegou junto do forte. A grande guarnição que estava nele, entrando-lhe o receio antes de experimentar as feridas, largou o forte sem ter respeito aos oficiais que, ora com rogos, ora com estocadas pretendia detê-la. Mas como ordinariamente nos nossos conflitos em que se acham ânimos covardes, o receio excede ao perigo, se deixaram os galegos matar pelos seus capitães, para não chegar às mãos dos nossos soldados. Entraram eles no forte, de que resultaram muitas mortes. Os Maltezes, tendo logrado a vitória e os galegos, que estavam formados, desemparando o sítio que ocupavam, marcharam para formarem em sitio mais distante. Diogo de Melo com muito acordo mandou tocar a recolher.”


Extraído de: MENEZES, Luiz de (1751) – História de Portugal Restaurado. Tomo I; Oficcina de Domingos Rodrigues; Lisboa.

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